In Evangelho do dia

Depois disto, andava Jesus pela Galileia, pois não queria andar pela Judeia, porque os Judeus procuravam dar-Lhe a morte.

2Estava próxima a festa judaica dos Tabernáculos.

10Mas, depois de os Seus irmãos terem subido para irem à festa, subiu então Ele também, não publicamente, mas em segredo..

25Diziam então alguns dos de Jerusalém: Não é a Este que procuram dar a morte? 26Aí está Ele a falar abertamente, e nada Lhe dizem! Teriam, na verdade, os chefes reconhecido que Ele é o Messias? 27Mas Este sabemos donde é; o Messias, quando vier, ninguém sabe donde é. 28Entretanto Jesus, estando a ensinar no Templo, disse em voz alta: Não só Me conheceis, mas sabeis também donde Eu sou, se bem que Eu não tenha vindo de Mim mesmo; mas Aquele que Me enviou é verdadeiro. Esse que vós não conheceis. 29Eu é que O conheço, porque venho de junto d’Ele e foi Ele que Me enviou. 30Procuravam então prendê-Lo, mas ninguém Lhe deitou a mão, porque ainda não chegara a Sua hora.

Comentário 


1-3. Os parentes mais próximos costumavam chamar-se entre os Judeus com o nome de «irmãos» (cfr as notas a Mt 12,46-47 e a Mc 6,1-3). Estes parentes de Jesus continuavam sem compreender a Sua doutrina e a Sua missão (cfr Mc 3,31); não obstante, como os milagres realizados na Galileia eram patentes (cfr Mt 15,32-39; Mc 8,1-10.22-26), sugerem-Lhe que Se manifeste publicamente em Jerusalém e em toda a Judeia. Com isso quiçá buscassem o triunfo temporal de Jesus, que podia afagar a vaidade familiar.

  1. O nome desta festa evoca o tempo que os Hebreus passaram no deserto, habitando em tendas de campanha (cfr Lev 23,34-36). Durante os oito dias que durava a festa (cfr Neh 8,13-18), no começo do Outono, comemorava-se a protecção que os israelitas tinham recebido de Deus ao longo daqueles quarenta anos do Êxodo. Por coincidir com o termo das colheitas, estas festas chamavam-se também das Colheitas (cfr Ex 23,16).
  2. Uma vez que não subia com a antecipação costumada, as primeiras caravanas que chegassem da Galileia anunciariam que Jesus não estaria presente naquela festividade e, por conseguinte, os membros do Sinédrio desistiriam de tomar medidas contra Ele (cfr 7,1). Ao subir mais tarde, as autoridades judaicas não se atreveriam a causar-Lhe dano por temor a uma revolta popular (cfr Mt 26,5). Jesus, possivelmente em companhia dos Seus discípulos, chega a Jerusalém passando despercebido para o povo, «em segredo». Estando a festa já a meio, no quarto ou no quinto dia, começou a pregar no Templo (cfr 7,14). 

15-16. O Evangelista não se detém aqui em precisar qual a pregação de Jesus Cristo, mas informa-nos acerca da profunda admiração que causavam as Suas explicações entre os Judeus, incluídos os doutores da Lei (cfr Lc 2,47; 4,22; Ioh 7,46). Eles, que não O viram nas escolas dos mestres da Lei, maravilham-se e propõem-se essa pergunta que comportava uma malícia dissimulada: não estará a interpretar a Lei por Sua própria conta, sem atender ao ensino oficial dos «mestres»? É então que o Senhor aproveita a ocasião para expor brevemente a Sua dignidade messiânica (7,16-24): Ele não inventa nada do que ensina, a Sua doutrina é divina, é a que o Pai Lhe deu a conhecer (cfr 5,30; 8,28; 12,49; 14,10.24). Por ser verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, pode falar das coisas de Deus com autoridade singular: «A Deus ninguém O viu jamais; o Deus Unigênito, O que está no seio do Pai, Ele próprio O deu a conhecer» (1,18).

17-18. Para discernir a origem divina da doutrina de Jesus requer-se rectidão de intenção. Jesus, pela Sua parte, propõe um critério para reconhecer a legitimidade da Sua actuação: Ele não Se adjudica a grandeza e a sublimidade da Sua doutrina e das Suas obras (cfr 8,54), mas busca apenas a glorificação do Pai, e expõe a doutrina que Lhe foi entregue (cfr 7,16). Jesus tinha feito milagres portentosos, n’Ele podiam ver-se cumpridas as profecias, e os Seus adversários nada falso podiam encontrar na Sua doutrina nem na Sua conduta. Então, por que não creem n’Ele? Por não terem as disposições interiores adequadas, já que se deixam arrastar pela paixão que os impede de julgar com serenidade, e atribuem as obras de Jesus ao príncipe dos demônios (cfr v. 20). Não obstante, a quem se esforce por cumprir fielmente a Vontade de Deus segundo a sua própria consciência, o Senhor dar-lhe-á luzes novas que o façam descobrir Cristo e a Sua doutrina.

Seguindo o exemplo de Cristo, a Igreja, na sua actuação apostólica, não busca o seu triunfo humano, mas o bem das almas e a glória de Deus. «Deus é plenamente glorificado enquanto os homens por ela recebem, plena e conscientemente, a obra de salvação que Ele em Cristo levou a cabo. E assim se realizam por ela os desígnios de Deus, aos quais Cristo serviu com obediência e amor para glória do Pai que O enviou, e para que todo o gênero humano forme um só Povo de Deus, se una num só Corpo de Cristo, e se edifique num só templo do Espírito Santo» (Ad gentes, n. 7).

19-24. Jesus dá razão das curas feitas ao sábado. Em tal dia, por exemplo, tinha curado o paralítico da piscina de Bezatá (Ioh 5,1-18), o homem da mão ressequida (Mt 12,10-13 e par.), a mulher curvada (Lc 13, 10-17) e um hidrópico (Lc 14,1-6). O Senhor compara a Sua actuação com o cumprimento de dois preceitos da Lei, aparentemente opostos: por um lado, o descanso sabático, e, por outro, a obrigação de circuncidar no oitavo dia, ainda que caia num sábado. A conclusão é clara: se é lícito circuncidar ao sábado, com maior razão será lícito curar miraculosamente ao sábado. Por isso pede-lhes que julguem rectamente e descubram o Seu poder salvador, que procurem compreender o sentido profundo das Suas obras, ainda que aparentemente pareça que vão contra a Lei. 

  1. Ao longo deste capítulo aparecem frequentemente as dúvidas e o desconcerto dos Judeus. Discutem entre eles se Jesus é o Messias, ou um profeta, ou um impostor (v. 12); não sabem donde Lhe vem a Sua sabedoria (v. 15), respondem-Lhe irritados (vv 19-20) e admiram-se da atitude do Sinédrio (v. 26). Não obstante, apesar dos sinais que viram (milagres, doutrina), resistem a crer que Jesus é o Messias. Possivelmente uns pensavam que era de Nazaré, filho de José e de Maria, o que não se acomodava com a ideia comum derivada do vaticínio de Isaías (Is 53,1-8), de que se desconheceria a origem do Messias, excepto a Sua estirpe davídica e o Seu lugar de nascimento, Belém (cfr Mt 2,5 que cita Mich 5,2; cfr Ioh 7,42). Jesus, na realidade, cumpria estas predições proféticas ainda que a maioria dos Judeus não estivessem bem informados, pois desconheciam o Seu nascimento virginal em Belém e a Sua ascendência davídica. Outros, pelo contrário, deviam conhecer melhor a estirpe davídica de Jesus, o Seu nascimento em Belém, etc., mas não queriam aceitar as Suas palavras, porque elas levavam consigo as exigências de uma conversão moral e mental a que se fechavam culpavelmente.

28-29. Jesus refere-Se com certa ironia ao conhecimento superficial que d’Ele têm aqueles judeus, baseado nas aparências: Ele afirma, não obstante, que procede do Pai que O enviou, a Quem só Ele conhece, precisamente por ser o Filho de Deus (cfr Ioh 1,18).

  1. Os judeus entenderam que Jesus Se fazia igual a Deus e isto era considerado uma blasfêmia, que segundo a Lei devia ser castigada com a morte por lapidação (cfr Lev 24,15-16.23).

Não é a primeira vez que São João refere a hostilidade dos judeus (cfr Ioh 5,10) nem será a última (cfr Ioh 8,59; 10,3 1-33). Sublinha esta hostilidade porque assim se deu de facto e quiçá também para pôr em realce a liberdade de Jesus que, cumprindo a Vontade do Pai, Se entregará nas mãos dos Seus inimigos quando chegar a Sua «hora» (cfr Ioh 1 8,4-8). «O Senhor não faz referência à hora em que seria obrigado a morrer, mas à hora em que Se deixaria matar. Esperava o tempo em que tinha de morrer, como esperou também o tempo em que tinha de nascer» (In Ioann. Evang., 31,5).

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