In Evangelho do dia

34Não julgueis que vim trazer paz à terra. Não vim trazer paz, mas espada. 35Porque vim separar o homem de seu pai, e a filha de sua mãe, e a nora de sua sogra. 36E os inimigos do homem serão os da sua casa. 37Quem ama o pai e a mãe mais do que a mim, não é digno de Mim. E quem ama o filho ou a filha mais do que a Mim, não é digno de Mim, 38e quem não toma a sua cruz e Me segue, não é digno de Mim. 39Quem achar a sua vida, perdê-la-á, e quem a perder, por minha causa, achá-la-á.

40Quem vos recebe, a Mim recebe, e quem Me recebe a Mim, recebe Aquele que Me enviou. 41Quem recebe um profeta, a título de profeta, terá recompensa de profeta, e quem recebe um justo, a título de justo, terá recompensa de justo. 42E todo aquele que der de beber a um destes pequeninos, ainda que seja só um copo de água fresca, a título de discípulo, em verdade vos digo: não perderá a sua recompensa.

E aconteceu que, quando Jesus acabou de instruir os Seus doze discípulos, partiu dali, para ensinar e pregar nas cidades daquela gente.


Comentário

34-37. O Senhor não vem trazer uma paz terrena e falsa, mera tranqüilidade por que anseia o egoísmo humano, mas a luta contra as próprias paixões, contra o pecado e todas as Suas conseqüências. A espada que Jesus Cristo traz à terra para essa luta é, segundo a própria Escritura, «a espada do i espírito, que é a palavra de Deus» (Eph 6,17), «viva, eficaz e penetrante…, que penetra até dividir a alma e o corpo, as junturas e as medulas e discerne os pensamentos e intenções de coração» (Heb 4,12).

A palavra de Deus, com efeito, produziu essas grandes separações de que aqui se fala. Por causa dela, nas próprias famílias, os que abraçavam a fé tiveram por inimigos os da Sua própria casa que resistiam à palavra da verdade. Por isso, continua o Senhor (v. 37) a dizer que nada pode interpor-se entre Ele e o Seu discípulo, nem sequer o pai ou a mãe, o filho ou a filha: tudo o que for um obstáculo (cfr Mt 5, 29-30) deve afastar-se.

É evidente que estas palavras de Jesus não contêm nenhuma oposição entre o primeiro e o quarto mandamento (amar a Deus sobre todas as coisas e amar os pais), mas simplesmente indicam a ordem que há-de respeitar-se. Devemos amar a Deus com todas as nossas forças (cfr Mt 22, 37), tomar a sério a luta pela nossa santidade; e também devemos amar e respeitar — em teoria e na prática — esses pais que Deus nos deu e que generosamente colaboraram com o poder criador de Deus para nos trazer à vida, aos quais devemos tantas coisas. Mas o amor aos pais não pode antepor-se ao amor de Deus; em geral não tem por que levantar-se a oposição entre ambos, mas se em algum caso se chegasse a levantar, há que ter bem gravadas na mente e no coração estas palavras de Cristo. Ele mesmo nos deu exemplo disto: « Por que me procuráveis? Não sabíeis que Eu tenho de estar em casa de Meu Pai?» (Lc 2,49); resposta de Jesus adolescente no Templo de Jerusalém, a Maria e José, que O procuravam angustiados. Deste facto da vida de Nosso Senhor, que é norma para todo o cristão, devem tirar conseqüências tanto filhos como pais. Os filhos, para aprender que não se pode antepor o carinho para com os pais ao amor de Deus, especialmente quando o nosso Criador nos pede um seguimento que leva consigo uma maior entrega; os pais, para saber que os filhos são de Deus em primeiro lugar, e que portanto Ele tem direito a dispor deles, ainda que isto suponha um sacrifício, heróico por vezes. De acordo com esta doutrina há que ser generosos e deixar agir Deus. De todas as maneiras, Deus nunca Se deixa vencer em generosidade. Jesus prometeu dar cem por um, mesmo nesta vida, e depois a bem-aventurança eterna (cfr Mt 19, 29), àqueles que respondem com desprendimento à Sua santa Vontade.

38-39. A doutrina dos versículos anteriores fica resumida nestas duas frases lapidares. Donde seguir a Cristo, cumprir a Sua palavra, significa arriscar esta vida para ganhar a eterna.

«As pessoas que estão debruçadas sobre si mesmas, que actuam procurando, antes de mais, a sua própria satisfação, põem em jogo a sua salvação eterna e, mesmo aqui na Terra, são inevitavelmente infelizes e desgraçadas. Só quem se esquece de si e se entrega a Deus e aos outros — no matrimônio também — pode ser ditoso na Terra, com uma felicidade que é preparação e antecipação do Céu» (Cristo que passa, n.° 24). Fique, pois, claro que a vida cristã se fundamenta na abnegação: sem Cruz não há cristianismo.

  1. Para animar os Apóstolos e para persuadir os outros a que os recebam, o Mestre declara que há uma íntima solidariedade, ou inclusive uma certa identidade, entre Ele e Os Seus discípulos. Deus em Cristo, Cristo nos Apóstolos: tal é a ponte que une a Terra com o Céu (cfr 1Cor 3,21-23).

41-42. Um profeta nem sempre tem que anunciar as coisas futuras; a sua missão é sobretudo comunicar aos outros a palavra de Deus (cfr Ier 11, 2; Is l, 2). O justo é o que obedece à Lei de Deus e segue os Seus caminhos (cfr Gen 6, 9; Is 3, 10). Ora bem, o que Jesus ensina aqui é que quem escuta humildemente e hospeda os profetas e os justos, vendo Deus neles, receberá o prêmio de profeta e de justo. O próprio facto de acolher generosamente os amigos de Deus fá-lo-á ganhar o prêmio deles. Do mesmo modo se deve ver Deus nos mais pequenos discípulos (v. 42), que talvez não tenham relevância aos olhos humanos, mas são grandes enquanto enviados por Deus e pelo Seu Filho. Por isso, o que lhes dá um copo de água fresca — uma esmola, um serviço ou outra boa acção — receberá a sua recompensa; soube ser generoso com o próprio Senhor (cfr Mt 25,40).

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