In Evangelho do dia

Jesus foi então conduzido pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo Demônio. 2E, tendo jejuado durante quarenta dias e quarenta noites, depois teve fome. 3Aproximou-se o Tentador e disse-Lhe: Se és Filho de Deus, dize a estas pedras que se transformem em pães.

4Mas ele respondeu: Está escrito: «Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que procede da boca de Deus».

5Entáo levou-O o Demônio à Cidade Santa, colocou-O sobre o pináculo do templo 6e disse-lhe: Se és Filho de Deus, deita-Te abaixo,, pois está escrito que «ordenará aos seus anjos que olhem por ti, e eles tomar-te-ão nas mãos, para que não magoes o teu pé nalguma pedra».

7Disse-lhe Jesus: Também está escrito: «Não tentarás ao Senhor, teu Deus».

8 De novo O leva a um monte muito alto, mostra-Lhe todos os reinos do mundo e a sua magnificência 9e diz-Lhe: Tudo isto Te darei, se, prostrado, me adorares.

10Então diz-lhe Jesus: Vai-te, Satanás, pois está escrito: «Adorarás ao Senhor, teu Deus e a Ele só prestarás culto».

11Deixou-O então o Demônio, e eis que se aproximaram anjos e O serviam.

Comentário

  1. Jesus, nosso Salvador, foi tentado porque Ele assim o quis; aquilo por amor a nós e para nossa instrução. Mas a perfeição absoluta de Jesus não permitia senão o que chamamos tentação externa. A doutrina cristã ensina-nos que existe um triplo grau de tentação: 1) a sugestão, que é tentação externa e se pode sofrer sem pecado; 2) tentação com deleite mais ou menos prolongado, ainda que sem consentimento claro (esta já é interna e nela há algo de pecado); e 3) tentação consentida (esta sempre é pecado; e, por afectar o profundo da alma, é certamente interna). Jesus quis ensinar-nos, ao permitir ser tentado, como devemos lutar e vencer nas nossas tentações: com a confiança em Deus e a oração, com a graça divina e com a fortaleza.

Por outro lado, estas tentações de Jesus no deserto têm uma significação muito profunda na História da Salvação. Todos os personagens mais importantes da História Sagrada são tentados: Adão e Eva, Abraão, Moisés, o próprio povo eleito; e assim também Jesus. Nosso Senhor, ao rejeitar as tentações diabólicas, repara as quedas dos homens antes e depois d’Ele; preludia as futuras tentações de cada um de nós e as lutas da Igreja contra as tentações do poder diabólico. Daí que Jesus nos tenha ensinado, no Pai-Nosso, a pedir a Deus que nos ajude com a Sua graça, para não cair, à hora da tentação.

  1. Antes de começar a Sua obra messiânica e, portanto, de promulgar a Nova Lei ou Novo Testamento, Jesus, o Messias, prepara-Se com a oração e o jejum no deserto. Moisés tinha procedido de modo semelhante antes de promulgar, em nome de Deus, a Antiga Lei do Sinai (Ex 34,28). Também Elias caminhou quarenta dias no deserto para levar a cabo a sua missão de fazer renovar o cumprimento da Lei (1Reg 9, 5-8).

A Igreja segue as pegadas de Jesus ao estabelecer anualmente o tempo de jejum quaresmal. Com este espírito de piedade devemos viver cada ano o tempo de Quaresma. «Pode-se dizer que Cristo introduziu a tradição do jejum de quarenta dias no ano litúrgico da Igreja, porque Ele mesmo jejuou quarenta dias e quarenta noites’ antes de começar a ensinar. Com este jejum quaresmal a Igreja, em certo sentido, é chamada cada ano a seguir o seu Mestre e Senhor se quer pregar eficazmente o seu Evangelho» (Audiência geral João Paulo II, 28-11-1979). Do mesmo modo o retiro de Jesus no deserto convida-nos a prepararmo-nos com a oração e a penitência antes de empreendermos qualquer actividade ou decisão importante na nossa vida.

  1. Jesus tinha jejuado durante quarenta dias e quarenta noites. Como é lógico, sente uma fome muito intensa, e o diabo aproveita a ocasião para O tentar. Perante a tentação, o Senhor reage rejeitando-a e emprega para isto uma frase do Deuteronômio (8, 3). Embora pudesse fazer esse milagre, prefere continuar a confiar no Pai e não o levar a cabo, porque não entra no Seu plano de salvação. Em recompensa por esta confiança os anjos vêm servi-Lo (Mt 4,11).

O milagre na Bíblia é um facto extraordinário e maravilhoso, que Deus realiza para fazer compreender a palavra ou acção divinas. Não se dá como uma manifestação isolada da força de Deus, mas como algo que faz parte da obra da Redenção. A proposta do demônio nesta tentação não tinha razão de ser dentro do plano de redenção, já que iria em benefício exclusivo de. Jesus. Com o seu intento o diabo parece querer certificar-se sobre se Jesus é verdadeiramente «Filho de Deus», pois, embora seja verdade que se mostra informado acerca da voz do céu no baptismo, vê um contrassenso em que seja Filho de Deus e, por outro lado, sinta fome. Com a Sua posição perante a tentação, Jesus vem ensinar-nos que as nossas petições a Deus não devem ser em primeiro lugar acerca das coisas que se podem conseguir com o esforço pessoal, nem que vão exclusivamente em benefício próprio; mas antes acerca das que vão encaminhadas para a santidade.

  1. A resposta de Jesus é um acto de confiança na providência paternal de Deus. Quem O impeliu a ir para o deserto, como preparação da Sua obra messiânica, ocupar-Se-á de que Jesus não desfaleça. A ideia fica sublinhada pelo facto de a resposta de Jesus ser uma evocação de Dt 8,3, onde se recorda aos filhos de Israel como Yahwéh os alimentou miraculosamente com o maná no deserto. Assim, pois, Jesus, em contraste com o antigo Israel, que se impacientou perante a fome no deserto, entrega confiadamente o Seu cuidado à providência do Pai. As palavras de Dt 8,3 que Jesus pronuncia associam as imagens de pão e palavra como saídos ambos da boca de Deus: Deus fala e dá a Sua Lei; Deus fala e faz surgir o alimento do maná.

Por outro lado, o maná como imagem ou tipo da Eucaristia é normal no NT (cfr p. ex. Ioh 6, 32-58) e em toda a Tradição cristã.

Outro aspecto interessante das palavras de Jesus é o que o Concilio Vaticano II põe em realce ao propor ao cristão normas na promoção internacional da ordem econômica: «Em muitos casos, é urgente necessidade rever as estruturas econômicas e sociais. Mas evitem-se as soluções técnicas prematuramente propostas, sobretudo aquelas que, trazendo ao homem vantagens materiais, são opostas à sua natureza espiritual e ao seu progresso. Com efeito, ‘o homem não vive só de pão, mas também de toda a palavra que sai da boca de Deus’» (Gaudium et Spes, n. 86, d).

  1. A tradição assinala como lugar desta tentação o ângulo sudeste da muralha do Templo. É aí que há uma maior altura, porque o terreno está abruptamente inclinado para a torrente Cedron. Quando nos assomamos a esse lugar podemos experimentar sensação de vertigem.

São Gregório Magno (In Evangelia homiliae, 16) comenta que quem considere como permitiu Nosso Senhor ser tratado na Sua Paixão, não estranhará que permitisse também ao demônio comportar-se com Ele dessa maneira.

  1. «As heresias nasceram por se entenderem mal as Escrituras, que são boas» (In Ioann. Evang., 18,1). O cristão deve estar alerta perante falsas argumentações que pretendam basear-se na Sagrada Escritura. Como estamos a ver neste passo do Evangelho, o demônio apresenta-se algumas Vezes como «exegeta» da Escritura, interpretando-a como convém. Por isso qualquer interpretação que não esteja de acordo com a doutrina contida na Tradição da Igreja deve ser rejeitada.

Normalmente o erro da heresia consiste em fixar-se nuns passos da Escritura com exclusão de outros, interpretando-os a seu bel-prazer, perdendo de vista a unidade da Escritura e a totalidade da fé.

  1. A resposta de Jesus perante esta segunda tentação é de novo uma rejeição radical, porque aceitá-la seria tentar a Deus. Para isso emprega uma frase do Deuteronômio (6, 16): «Não tentarás o Senhor teu Deus», aludindo com ela também ao passo do Êxodo, em que os Israelitas, ao faltar-lhes a água, exigem a Moisés um milagre e ele lhes responde: «Por que tentais a Yahwéh?» (Ex 17,2).

Tentar a Deus é completamente diverso de confiar n’Ele; é expor-se presunçosamente a um perigo desnecessário, contando sem motivo com uma ajuda extraordinária de Deus. Tentar a Deus é também pedir-Lhe provas por causa da incredulidade e arrogância humanas. O primeiro ensinamento desta cena evangélica é que, se alguma vez ocorresse ao homem pedir ou quase exigir de Deus provas ou sinais extraordinários, isso seria uma clara tentação a Deus.

8-10. A terceira tentação pode considerar-se como a mais tipicamente pseudo-messiânica: consiste em induzir Jesus a que Se aproprie da função de rei messiânico terreno, segundo o sentir muito generalizado da época. A resposta enérgica do Senhor, «vai-te, Satanás», é uma repulsa sem contemplações do messianismo temporalista, isto é, da redução da Sua missão divina e transcendente a um nível meramente terreno, político. A atitude de Jesus surge como uma reparação e rectificação dos interesses terrenos do povo de Israel. Mas, pela mesma razão, é uma advertência para o verdadeiro Israel de Deus, a Igreja, a fim de que esta se mantenha firme na sua missão salvífica divina na terra. Os pastores da Igreja deverão estar vigilantes para não se deixarem seduzir por esta tentação diabólica.

«Aprendamos desta atitude de Jesus: durante a Sua vida na Terra, não quis sequer a glória que Lhe pertencia, pois, tendo direito a ser tratado como Deus, assumiu a forma de servo, de escravo (cfr Phil 1, 6-7). O cristão sabe, portanto, que toda a glória é para Deus e que não pode servir-se da sublimidade e grandeza do Evangelho como instrumento de interesses e de ambições humanas.

«Aprendamos de Jesus: a Sua atitude, ao opor-Se a toda a glória humana, está em perfeita correlação com a grandeza de uma única missão — a de Filho predilecto de Deus, que encarna para salvar os homens (…). O cristão que, seguindo Cristo, vive nessa atitude de completa adoração do Pai, recebe também do Senhor palavras de amoroso desvelo: Porque espera em Mim, Eu o livrarei; protegê-lo-ei, porque conhece o Meu nome (Ps XC, 14)» (Cristo que passa, nº62).

11. A vitória é consequência da constância na luta. Ninguém é coroado sem ter vencido: «Sé fiel até à morte e dar-te-ei a coroa da vida» (Apc 2, 10). Os anjos, que vêm e servem Jesus depois de ter resistido às sucessivas tentações, mostram-nos a alegria interior que Deus dá ao que se opõe com esforço à tentação diabólica. Contra esta Deus deu-nos também uns poderosos defensores que devemos invocar: os anjos da guarda.

Recent Posts
Fale conosco

Escreva aqui sua mensagem que responderemos o mais breve possível. Obrigado!

Start typing and press Enter to search