In Evangelho do dia

Estando Ele algures a orar, disse-Lhe, quando acabou, um dos discípulos: Senhor, ensina-nos a orar, como João também ensinou os seus discípulos. 2Ele respondeu-lhes: Quando orardes, dizei: 

Pai, santificado seja o Teu nome; Venha o Teu Reino.

3Dá-nos em cada dia o pão da nossa subsistência.

4Perdoa-nos os nossos pecados, pois também nós perdoamos a todo aquele que nos deve. E não nos sujeites à tentação.

5Disse-lhes ainda: Se algum de vós tiver um amigo, e for ter com ele à meia-noite e lhe disser: «amigo, empresta-me três pães, 6pois me chegou de viagem um amigo meu e não tenho que lhe dar», 7e se ele disser, em resposta, lá de dentro: «não me incomodes, a porta já está fechada e os meus filhos estão comigo na cama; não posso levantar-me para tos dar». 8Eu vos digo: Ainda que se não levante para lhos dar por ser seu amigo, ao menos levantar-se-á, devido à impertinência dele, e dar-lhe-á quanto precisa.

9Também Eu vos digo a vós: Pedi e dar-se-vos-á; procurai e achareis; batei e abrir-se-vos-á. 10Pois todo aquele que pede recebe, quem procura encontra e ao que bate abrir-se-á. 11E, se a algum de vós que seja pai, o filho pedir pão, dar-lhe-á uma pedra? Ou, se lhe pedir um peixe, em vez dum peixe, dar-lhe-á uma serpente? 12Ou ainda, se pedir um ovo, dar-lhe-á um escorpião? 13Se vós, portanto, maus como sois, sabeis oferecer boas dádivas a vossos filhos, quanto mais o Pai do Céu dará o Espírito Santo àqueles que Lho pedirem!

Comentário

1.4. O texto que nos apresenta São Lucas da oração dominical ou Pai-Nosso é algo mais breve que o que se contém em São Mateus (6,9-13). Ali especificavam-se sete petições; em São Lucas só quatro. Por outro lado, o contexto de São Mateus é o do Sermão da Montanha e, mais concretamente, a explicação sobre o modo de orar; o de São Lucas é um dos momentos em que Jesus esteve a orar. Os dois contextos diferem. Não é de estranhar que Nosso Senhor ensinasse o mesmo em diversas ocasiões e com palavras não literalmente idênticas nem com a mesma extensão, insistindo, porém, nos pontos fundamentais. Como é lógico, a Igreja recolheu a oração dominical na sua forma mais completa, que é a de São Mateus.

«Quando os discípulos pediram ao Senhor Jesus: ‘Ensina-nos a orar’, Ele respondeu pronunciando as palavras da oração do Pai-Nosso, criando assim um modelo concreto e ao mesmo tempo universal. De facto, tudo o que se pode e se deve dizer ao Pai está encerrado nas sete petições que todos sabemos de cor. Há nelas uma simplicidade tal, que até uma criança as aprende, e ao mesmo tempo uma profundidade tal, que Se pode consumir uma vida inteira a meditar o sentido de cada uma delas. Porventura não é assim? Não nos fala cada uma delas, uma depois da outra, do que é essencial para a nossa existência, dirigida totalmente a Deus, ao Pai? Não nos fala do ‘pão de cada dia’, do ‘perdão das nossas ofensas, visto que também nós perdoamos’, e ao mesmo tempo de preservar-nos da ‘tentação’ e de ‘livrar-nos do mal?» (Audiência geral João Paulo II, 14-111-1979).

O primeiro que o Senhor nos ensina a pedir é a glorificação de Deus e a vinda do/Seu Reino. Isto é o que realmente importa, o Reino de Deus e a sua Justiça (cfr Mt 6, 33). O Senhor também quer que peçamos, confiados em que o nosso Pai Deus atenderá as nossas necessidades materiais, pois «bem sabe o vosso Pai Celeste que de tudo isso estais necessitados» (Mt 6,32). De todos os modos, o Pai-Nosso faz- -nos aspirar especialmente aos bens do espírito e convida-nos a pedir perdão com a exigência de perdoar, e a afastarmo-nos do perigo de pecar. Finalmente, o Pai-Nosso põe em realce a importância da oração vocal: «’Domine, doce nos orare’ — Senhor, ensina-nos a orar: — E o Senhor respondeu: Quando orardes, dizei: ‘Pater noster, qui es in coelis…’.— Pai nosso, que estais no Céu…

«Como não havemos de ter em muito apreço a oração vocal!» (Caminho, n° 84).

  1. Jesus retirava-Se com frequência para fazer oração (cfr Lc 6,12; 22,39 ss.). Esta prática do Mestre suscita nos discípulos o desejo de aprender a orar. Jesus ensina-lhes o que Ele próprio faz. Com efeito, quando o Senhor faz oração, começa com a palavra «Pai!»: «Pai, nas Tuas mãos encomendo o Meu espírito» (Lc 23,46; vejam-se também Mt 11,25; 26,42.53; Lc 23,34; Ioh 11,41; etc.). Não constitui realmente uma excepção desta norma a oração « Meu Deus, Meu Deus…» (Mt 27,46), que o Senhor recita na Cruz, suposto que se trata do Salmo vinte e dois, que é a oração final do justo perseguido.

Pode, portanto, dizer-se que o primeiro que deve ter a oração é a simplicidade do filho que fala com seu Pai. «Escreveste-me: ‘Orar é falar com Deus. Mas de quê? De quê?! D’Ele e de ti; alegrias, tristezas, êxitos e fracassos, ambições nobres, preocupações diárias…, fraquezas; e acções de graças e pedidos; e Amor e desagravo.

«Em duas palavras: conhecê-Lo e conhecer-te — ganhar intimidade!» (Caminho, n° 91).

  1. «Santificado seja o Teu Nome»; Nesta primeira petição do Pai-Nosso «pedimos que Deus seja conhecido, amado, honrado e servido por todo o mundo e por nós em particular». Isto quer dizer que «os infiéis cheguem ao conhecimento do verdadeiro Deus, os hereges reconheçam os seus erros, os cismáticos voltem à unidade da Igreja, os pecadores se convertam e os justos perseverem no bem». Com esta primeira petição, o Senhor ensina-nos que «devemos desejar mais a glória de Deus que todos os nossos interesses e proveitos». Esta glória de Deus que pedimos procura-se «com orações e bom exemplo, e orientando para Ele todos os nossos pensamentos, afectos e acções» (cfr Catecismo Maior, nos 290-293).

«Venha o Teu Reino»: «Por Reino de Deus entendemos um triplo reino espiritual: o Reino de Deus em nós, que é a graça; o Reino de Deus na terra, que é a Igreja Católica, e o Reino de Deus no Céu, que é a bem-aventurança… Em ordem à graça, pedimos que Deus reine em nós com á Sua graça santificante, pela qual Se compraz em morar em nós como rei na sua corte, e que nos conserve unidos a Ele com as virtudes da fé, esperança e caridade, pelas quais reina no nosso entendimento, no nosso coração e na nossa vontade (…). Em ordem à Igreja, pedimos que se dilate e propague por todo o mundo para salvação dos homens (…). Em ordem à glória, pedimos ser um dia admitidos na bem-aventurança para a qual fomos criados, onde seremos completamente felizes» (Catecismo Maior, nos 294-297).

  1. É interpretação comum da Tradição da Igreja que o pão a que se alude aqui não é meramente o pão material, já que «não só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que procede da boca de Deus» (Mt 4,4; Dt 8,3). Jesus quer aqui que pecamos «a Deus o que nos é necessário cada dia para a alma e para o corpo (…). Para a nossa alma pedimos a Deus o mantimento da vida espiritual, isto é, rogamos ao Senhor nos dê a Sua graça, de que continuamente temos necessidade (…). A vida da nossa alma mantém-se sobretudo com a palavra divina e com o Santíssimo Sacramento do altar (…). Para o nosso corpo pedimos o necessário para o mantimento da vida temporal» (Catecismo Maior, nos 302-305).

A doutrina cristã sublinha duas ideias nesta petição do Pai-Nosso: a primeira é a confiança na Providência divina, que nos livra da preocupação excessiva por amontoar bens e dinheiro para o dia de amanhã (cfr Lc 12,16-21); a outra ideia é que temos de nos interessar fraternalmente pelas necessidades dos outros, superando deste modo a nossa inclinação para o egoísmo.

  1. «De tal maneira exige Deus de nós o esquecimento das injúrias e o afecto e amor mútuo entre os homens, que rejeita e despreza as oferendas e os sacrifícios dos que não se tenham reconciliado amistosamente» (Catecismo Romano, IV, 14,16).

«Irmãs, esta coisa é para que olhemos muito para ela; que uma coisa tão grande e de tanta importância como que nos perdoe o Senhor as nossas culpas, que mereciam fogo eterno, nos seja perdoado com coisa tão baixa como é que perdoemos; e mesmo desta baixeza tenho tão poucas que oferecer, que em balde me tendes, Senhor, de perdoar. Aqui tem muito lugar a Vossa misericórdia. Bendito sejais Vós, que tão pobre me sofreis» (Caminho de perfeição, cap. 36).

«E não nos sujeites à tentação»: «Não é pecado sentir a tentação, mas consentir nela. Também é pecado pôr-se voluntariamente em ocasião próxima de pecar. Deus permite que sejamos tentados para provar a nossa fidelidade, para nos exercitarmos nas virtudes e acrescentar, com a ajuda da graça, os nossos merecimentos. Nesta petição rogamos ao Senhor que nos dê a Sua graça para não sermos vencidos na prova, ou que nos livre desta se não formos capazes de superá-la.

5-10. Uma das notas essenciais da oração há-de ser a constância confiada no pedir. Através deste simples exemplo e de outros parecidos (cfr Lc 18,1-7) o Senhor anima-nos a não decair na nossa petição constante a Deus. «Persevera na oração. — Persevera, ainda que o teu esforço pareça estéril. — A oração é sempre fecunda» (Caminho, n° 101).

9-10. «Vedes a eficácia da oração quando se faz nas devidas condições? Não estareis de acordo comigo em que, se não alcançamos o que pedimos a Deus, é porque não oramos com fé, com o coração bastante puro, com uma confiança bastante grande, ou porque não perseveramos na oração como deveríamos? Deus nunca negou nem negará nada aos que Lhe pedem as Suas graças devidamente. A oração é o grande recurso que nos resta para sair do pecado, perseverar na graça, mover o coração de Deus e atrair sobre nós toda a sorte de bênçãos do céu, quer para a alma, quer pelo que respeita às nossas necessidades temporais» (Sermões escolhidos, Quinto Domingo depois de Páscoa).

11-13. A paternidade humana que o homem tem diante dos olhos serve ao Senhor como ponto de comparação para voltar a ensinar-nos a realidade gozosa de que Deus é nosso Pai, porque a verdade é que a paternidade de Deus é a fonte de toda a paternidade nos Céus e na terra (cfr Eph 3,15). « O Deus da nossa fé não é um ser longínquo, que contempla com indiferença a sorte dos homens, os seus afãs, as suas lutas, as suas angústias. É um pai que ama os Seus filhos até ao ponto de enviar o Verbo, Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, a fim de, com a sua encarnação, morrer por nós e nos redimir. É ele ainda o mesmo Pai amoroso que agora nos atrai suavemente para Si, mediante a acção do Espírito Santo que habita nos nossos corações» (Cristo que passa, n° 84).

  1. O Espírito Santo é o dom supremo de Deus, a grande promessa que Cristo faz aos discípulos (cfr Ioh 15,26), o fogo divino que desce sobre os Apóstolos no Pentecostes e os enche de fortaleza e liberdade para proclamar a mensagem de Cristo (cfr Act 2). «Eu rogarei ao Pai — anunciou o Senhor aos Seus discípulos — e Ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco eternamente (Ioh XIV.16). Jesus cumpriu as Suas promessas: ressuscitou, subiu aos Céus e, em união com o Eterno Pai, envia-nos o Espírito Santo para nos santificar e nos dar a vida» (Cristo que passa, n° 128).
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