In Evangelho do dia

No décimo quinto ano do reinado do imperador Tibério, sendo Pôncio Pilatos governador da Judeia, Herodes tetrarca da Galileia, seu irmão Filipe tetrarca da Itureia e da região da Traconítide, e Lisânias tetrarca da Abilena, 2no pontificado de Anás e Caifás, fez-se ouvir a palavra de Deus a João, filho de Zacarias, no deserto. 3E ele foi a toda a zona do Jordão, a pregar um baptismo de penitência para a remissão dos pecados. 4como está escrito no Livro dos Oráculos do profeta Isaías:

Voz de um que brada no deserto:

Preparai o caminho do Senhor, endireitai as Suas veredas.

5Todo o barranco será preenchido e todo o monte e colina serão abatidos;

os lugares tortuosos ficarão direitos 

e os escabrosos, caminhos planos.

6E verá toda a criatura a salvação de Deus.

Comentário

  1. O Evangelho situa com precisão no tempo e no espaço a aparição pública de João Baptista, o Precursor de Cristo. Tibérío César foi o segundo imperador romano, e o ano décimo quinto do seu Império corresponde ao ano 27 ou ao 29 da nossa era, segundo dois cômputos de tempo possíveis.

Poncio Pilatos foi Procurador ou praefectus da Judeia desde o ano 26 ao 36 da nossa era. A sua jurisdição estendia-se também à Samaria e à Idumeia.

Este Herodes é Herodes Antipas, filho de Herodes o Grande, a quem sucedeu em parte do seu território, não com o título de rei, mas de tetrarca. Esta última denominação utilizava-se para assinalar uma autoridade subordinada ao poder romano. Herodes Antipas morreu no ano 39 da nossa era e foi quem mandou degolar São João Baptista. Sobre a identificação dos quatro Herodes, que aparecem no NT, cfr a nota a Mt 2,l.

Filipe, também filho de Herodes o Grande e irmão de Herodes Antipas, foi tetrarca das regiões indicadas no texto sagrado até ao ano 34 d.C. Casou com Herodíade, de que se fala em Mc 6,17-19.

  1. O sumo sacerdote era então Caifás, que exerceu o seu pontificado desde o ano 18 ao 36 d.C. Anás, seu sogro, que tinha sido deposto no ano 15 pela autoridade romana, conservava ainda tal influência que de facto era considerado como cabeça da política e da religião judaicas. Pôr isso, quando prendem Cristo, o primeiro interrogatório faz-se diante de Anás (Ioh 18,12-24). O texto dá-lhe, pois, com grande propriedade o título de sumo sacerdote.

2-3. São Lucas introduz de forma solene a figura de João Baptista, de quem os Evangelhos falam em repetidas ocasiões. Quando Cristo elogia o Baptista (cfr Mt 11,7-9), realça com clareza a sua vontade firme e o seu empenho em cumprir a missão que Deus lhe tinha confiado. Notas características da personalidade de João são a humildade, a austeridade, a coragem e o espírito de oração. Levar a cabo com perfeição uma missão tão excelsa — ser o Precursor do Messias — merece de Cristo singular louvor: João Baptista é o maior entre os nascidos de mulher (cfr Mt 11,11); «o archote que ardia e alumiava» (Ioh 5,35). Ardia pelo seu amor, brilhava pelo seu testemunho. Cristo «era a luz» (Ioh 1,9); o Baptista « veio… para dar testemunho da luz, para que os cressem por ele» (Ioh 1,7).

João Baptista apresenta-se a pregar a necessidade de fazer penitência. Prepara «o caminho do Senhor». É o pregoeiro da Salvação. Mas simples pregoeiro, simples voz que anuncia. O Baptista proclama: «Vem (…) aquele a quem eu pip sou digno de desatar a correia das sandálias» (Ioh L27). Por isso O assinala: «Eis o Cordeiro de Deus» (Ioh 1 ,29.36), eis aí o « Filho de Deus» (Ioh 1,34); e vê com gozo que os seus próprios discípulos vão com Cristo (Ioh 1,37), «é necessário que Ele cresça — diz — e que eu diminua» (Ioh 3,30).

4-6. Na segunda parte do livro de Isaías (caps. 40-55), chamada «Livro da Consolação», anuncia-se ao povo judaico que sofrerá com o desterro um novo êxodo, e que será então guiado não por Moisés, mas pelo próprio Deus; caminhará de novo através do deserto até chegar à nova terra de promissão. Com a pregação do Baptista, que anuncia a chegada de Jesus Cristo, cumpre-se esta profecia.

Perante a vinda iminente do Senhor, os homens devem dispor-se interiormente, fazer penitência dos seus pecados, rectificar a sua vida para receber a graça especial divina que traz o Messias. Tudo isto significa esse aplanar os montes, rectificar e suavizar os caminhos de que fala o Baptista.

A Igreja na sua liturgia do Advento anuncia-nos todos os anos a vinda de Jesus Cristo, Salvador nosso, e exorta cada cristão a essa purificação da sua alma mediante uma renovada conversão interior.

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