Uma escola com uma missão social

Por Ramon Santos
Ramon Santos apresenta o Dualtech Training Center, uma escola nas Filipinas que oferece capacitação profissional para rapazes que concluíram o colégio, trabalhadores e jovens desempregados procedentes de famílias de poucos recursos.

O meu primeiro “contato” com Dualtech teve lugar em 1982, quando eu era presidente de uma companhia manufatureira em Manila. Participei, então, de um seminário organizado pelo Center for Research and Communication, uma iniciativa promovida por alguns membros do Opus Dei, e um professor animou-nos a fazer algo pelos pobres. Depois de pensarmos juntos, decidimos lançar esta escola, em colaboração com uma ONG alemã. Dualtech nasceu em outubro daquele mesmo ano. Minha companhia colaborou durante um longo período com a escola: enviávamos a Dualtech muitos dos nossos empregados, e também oferecíamos treinamento na nossa empresa a muitos dos estudantes da escola.

Desde o começo, gostei do que vi: a dedicação dos professores, o interesse dos pais, o “fogo nos olhos” dos alunos. Pouco antes de que aceitasse vir trabalhar em Dualtech (o Sr. Ramon Santos foi convidado a trabalhar lá após sua aposentadoria, em 1998), tive uma reunião com um grupo de alunos. Pareciam pobres e mal alimentados, mas o seu sonho era evidente. Naquele dia, eu me dei conta de que estava em nossas mãos mudar o futuro daqueles rapazes e de suas famílias.

Um aluno de Dualtech recebe um dia por semana de instrução teórica na escola e passa os outros cinco dias da semana na fábrica, onde é treinado por um supervisor ou por um trabalhador com experiência. Esta dualidade de teoria e prática garante que qualquer um que tenha obtido o seu diploma em qualquer escola pública do país possa converter-se, em dois anos, num trabalhador altamente capacitado.

Somando todos os programas que a escola oferece, desde 1982 formamos uns 20.000 alunos, entre trabalhadores, jovens desempregados, jovens que haviam concluído o colégio e engenheiros. Destes, mais de 2.000 passaram por programas de dois ou três anos e agora já trabalham na indústria. Atualmente temos 1.200 alunos em nossos dois campus de Canlubang e Manila, e a cada mês damos formação específica a uma centena de operários de diferentes empresas.

O segredo para o alto índice de contratação de nossos alunos? Temos pessoal competente e as nossas instalações contam com bom equipamento. Mas o diferencial dos nossos cursos é que estão engastados em atividades dirigidas a ajudar os alunos a adquirirem retidão moral, bons hábitos de trabalho e alto nível cultural. Por isso , várias das empresas com as quais estamos em relação contratam os nossos alunos mesmo antes de terminarem o seu curso.

Cada aluno tem um tutor, um professor ou um supervisor que atua como seu irmão mais velho, como quem está sempre disposto a ajudá-lo no que for necessário: dificuldades nas aulas, contrariedades familiares, um ritmo talvez exigente demais no treinamento na fábrica, problemas na vida social etc. Os alunos, além disso, têm a possibilidade de falar com um sacerdote; pedimos a vários sacerdotes do Opus Dei que venham regularmente à escola. Não obrigamos os alunos, é claro, mas a maioria deles fala com algum sacerdote. Há alunos que não são católicos, alguns nem sequer são cristãos, mas a todos se oferece a possibilidade de ter uma orientação pessoal e de receber uma formação cristã.

Regularmente, pede-se aos pais dos alunos que participem de atividades da escola, de reuniões com os professores e diretores ou de cursos sobre a educação dos filhos. Faz dois anos, durante uma destas reuniões, alguns pais tomaram consciência de que os benefícios que os filhos estavam recebendo superavam muito o que haviam esperado e decidiram ajudar a escola a ampliar o seu programa de bolsas de estudo.

A escola sobrevive com grande dificuldade. Cobramos sempre uma taxa mínima dos alunos: parece-nos necessário para que eles mesmos dêem valor ao curso. A maioria não pode pagar nem sequer esta quantia, especialmente neste momento de crise econômica. Sobrevivemos graças aos nossos amigos das empresas. Para começar, o Dual Training System – sistema alemão de aprendizagem, adaptado em Dualtech para nosso contexto local – obriga as companhias em que nossos alunos aprendem a custear boa parte da sua formação. Para cobrir o resto, procuramos recorrer à ajuda de fundações, contribuintes individuais e empresas que acreditam no que estamos fazendo e querem apoiar-nos.

Temos dois cursos, no nosso programa de formação dupla. O de Eletromecânica dura dois anos. Um formado em Eletromecânica pode instalar, fazer a manutenção e consertar desde aparelhos de ar condicionado até carros, desde computadores até sistemas de telecomunicações; pode projetar e fabricar motores elétricos, bombas d’água, ductos etc. O outro curso é de Fabricação de Ferramentas e Moldes, que dura três anos. Um nome mais sugestivo para este curso seria “engenharia de precisão”. Na indústria, a construção de ferramentas e moldes é uma atividade muito necessária e muito bem remunerada. Além de Dualtech, há apenas uma ou duas escolas no país que oferecem estes cursos.

Acho que foi uma sorte para os rapazes achar algo como Dualtech, mas a escola teve ainda mais sorte. Se Dualtech continua a existir, é porque conseguimos encontrar pessoas como eles, que precisam da ajuda que nós podemos prestar e que estão dispostos a aprender a nossa mensagem de amor ao trabalho bem feito.

Relato adaptado pela Equipe do Opus Alegria a partir da entrevista concedida por Ramon Santos, presidente do Dualtech (publicada na Folha Informativa, nº 17).

Para mais informações sobre esta iniciativa: www.dualtech.org.ph