Tenho um filho no Opus Dei e aprendo com ele

Por Custódio da Piedade Miranda
Custódio é advogado e professor na USP. Faz aqui um depoimento pessoal sobre o Opus Dei, falando da sua impressão sobre as casas do Opus Dei, sobre a formação moral e cultural dos seus membros e também da experiência de ter um filho, médico, que é da Obra.

Meu primeiro contato com o Opus Dei foi quando, ainda estudante do primeiro ano de Direito, em Coimbra, nos idos de 1953, fui convidado por outro estudante, mais adiantado, do terceiro ano, a ir a uma casa do Opus Dei, a única existente ao tempo naquela cidade. Fui e fiquei excelentemente impressionado. Era uma casa onde tudo era impecável: o asseio, a ordem, um ambiente de leveza e de seriedade, onde moravam alguns estudantes e os convidados podiam lá ir estudar também se o quisessem. Fui umas duas ou três vezes e limitei-me a isso.

Só muitos anos mais tarde, já em São Paulo, tive um contato maior com a Obra, por ter freqüentado alguns retiros espirituais e os recolhimentos, palestras dadas numa das casas por um dos sacerdotes do Opus Dei sobre temas de doutrina cristã, embora sem muita regularidade. Sempre admirei a profundidade, a elevação e o ambiente que os impregnava, tanto os recolhimentos como os retiros.

Sempre que conheço um membro do Opus Dei, seja ele numerário ou supernumerário, homem ou mulher, celibatário ou não, leigo ou padre, fico impressionado com a sua formação moral e cultural, o seu apego aos princípios e a sua fidelidade à Igreja Católica e ao Papa. A sua firmeza de princípios não me choca, antes se constitui em motivo de inspiração para imitá-la. Se todos a tivessem, certamente, viveríamos num mundo melhor.

O que o Opus Dei se propõe é a santificação de cada um no seu trabalho cotidiano, qualquer que ele seja, desde que obviamente digno e honesto, e o exercício do apostolado, a difusão da mensagem cristã, pelo maior número possível de pessoas, no sentido de que o cristianismo é, não uma teoria que se aprende, mas uma vida que tem de ser vivida, plenamente, a cada momento do dia.

Tem-se criticado algumas das “práticas” do Opus Dei. Diz-se que ele é cercado de mistérios, mas não vejo nas casas do Opus Dei maior mistério do que nas casas das famílias em geral: um ambiente de privacidade e discrição, limitado aos seus membros.

Tenho um filho no Opus Dei. É um médico, que vive a sua profissão com entusiasmo e exerce incansavelmente o seu apostolado; tem uma vida irrepreensível e posso dizer, com toda a humildade, que aprendo com ele. Aprecio a sua formação humanística e cultural e a sua fé e amor a Deus. Entrou para o Opus Dei, não porque o “seqüestraram”, como já vi na televisão uma mãe dizer a respeito de seu filho, mas porque tinha vocação para isso.

Aqui se toca um ponto melindroso. Os pais geralmente se chocam e se surpreendem quando um filho diz que quer entrar para o Opus Dei. Muitas vezes vêem ruir os seus planos em relação a eles, e por mais que saibam racionalmente que eles têm a própria vida e são livres para fazer suas escolhas, não sabem aceitar isso emocionalmente, quando se trata de enfrentar a hora da verdade. Mas têm de aceitar, como aceitariam um genro ou uma nora que não fosse de seus sonhos.

Assim como, por outro lado, têm de aceitar um sentimento de perda que acompanha essa entrada para a Obra, porque, depois disso passa-se a ver menos o filho, que terá de ir para onde ela o chamar e ver-se nela engajado até a medula. Não se esqueça de que eles seguem à risca os ensinamentos de Cristo: “Deixarás o teu pai e a tua mãe, por amor de Mim”. Reconheço que tudo isso implica, até certo ponto, um sacrifício para os pais, muito mais difícil de aceitar para os não católicos, ou para os católicos não praticantes, por óbvias razões.

Outra crítica que tenho ouvido é a de que, uma vez que se entra no Opus Dei, é quase impossível dali sair. Que eu saiba, ninguém veda essa saída, não existe coação de quem quer que seja que a impeça. Se a pessoa entra em conflitos pessoais, de consciência ou de outra natureza, quando quer sair, é evidente que terá de trabalhar isso, com a ajuda de um terapeuta, da mesma forma que o faria quando quisesse abandonar uma relação conjugal, ou até mesmo, por vezes, sair de uma longa relação profissional.

Para finalizar, o que posso dizer em resumo sobre o Opus Dei, da minha experiência pessoal, é o seguinte: pelos frutos se conhece a árvore e, se os frutos são bons, também boa será a árvore: muito boa.

Custódio da Piedade Miranda
Advogado
Professor Associado da Faculdade de Direito da USP