Seu maior motivo de alegria: perseverar

Por Luiz Roberto de Barros Santos
Perseverar na sua vocação foi para Tadeu o maior motivo de alegria. Engenheiro especializado em construção civil, procurou também construir sua vida sobre sólidos fundamentos: o amor a Deus, seu Pai, e a seus irmãos. Tendo fortalecido seu “edifício”, pode enfrentar com grandeza de alma um câncer que o aproximou ainda mais de Deus e acabou por levar-lhe definitivamente a Ele.

Tadeu Hiroki Nakamura nasceu em Cotia – SP, em 1951. Estudou Engenharia na Fatec e especializou-se em construção civil. Desde que conheceu o Opus Dei, há pouco mais de 35 anos, identificou-se dia-a-dia com esse espírito. Amava muito a sua vocação. Tinha uma jovialidade interior que aumentava à medida que passavam os anos.

Dedicou boa parte de sua vida profissional à construção e manutenção dos Centros da Prelazia. Os funcionários que dirigia tinham-lhe um verdadeiro carinho. Acompanhava a resolução dos inúmeros problemas de cada projeto e o cumprimento dos cronogramas com ordem e diligência. Quando surgia um problema, não se preocupava em identificar os culpados, mas, sobretudo, buscava a melhor solução e a colocava em prática.

Viveu a fraternidade, preocupando-se com todos, com dedicação e bom humor. Aprendeu do Fundador: “filhos, eu vos quero muito, mas vos quero santos”. Viveu heroicamente o espírito de serviço com as pessoas que tinha a sua volta: adiantava-se e fazia muitas tarefas que poderia eludir pela sua posição e idade.

Da sua vida de piedade se destacava o trato com a Eucaristia: o modo como cuidava do oratório – nos dias de festa, sempre chegava mais cedo para colocar as flores no altar –, a atenção na Santa Missa, a unção com que recebia a Hóstia ao comungar, o recolhimento na ação de graças. Aumentou ainda mais a sua devoção ao Santíssimo nos poucos meses que pode viver do Ano Eucarístico.

Em novembro de 2004 lhe diagnosticaram um câncer gástrico, que exigiu cirurgia imediata. Aceitou com grande paz essa situação e colocou-se imediatamente nas mãos de Deus e de D. Álvaro, a quem começou a pedir o seu pronto restabelecimento.

Na doença, revelou-se a genuinidade de um amor que amadureceu ao longo de uma vida de perseverante luta ascética. Os que o visitaram nos últimos dias viram como ele se esforçava para atender a todos, para continuar sorrindo, para ter palavras otimistas. Nunca quis dispensar-se de rezar suas orações de costume: no momento em que espirou, estavam fazendo com ele um tempo de oração mental.

Enfrentou com grandeza de alma as dores que sentiu e que eram maiores à medida que avançava a doença. Sofreu muitas vezes em silêncio, preocupando-se sempre em não ocasionar incômodo aos outros.

No momento em que soube que seu estado de saúde era irreversível e já não havia mais meios humanos a colocar para sua cura, intensificou sua petição a D. Álvaro e continuou oferecendo o que lhe restasse de vida, pelas intenções do Padre – o Prelado do Opus Dei -, pelo crescimento da Obra e da Igreja em todo o mundo.

Após a cirurgia a que foi submetido para retirada de grande parte do estômago, reuniu seus amigos no quarto do hospital para realizarem a palestra mensal que lhes dava. Nesta ocasião foi dada por outra pessoa da Obra. Até os últimos momentos exortou a todos que encontrava a aproximarem-se de Deus. Também se lembrou muito de todos aqueles com quem havia tido algum tipo de relacionamento ao longo da vida, tendo conseguido pôr-se novamente em contato com amigos com quem não falava havia muitos anos. Um desses amigos estava trabalhando no Norte do país e ficou muito comovido quando Tadeu lhe disse que estava telefonando para despedir-se e pedir perdão no caso de que alguma vez lhe tivesse tratado com pouca delicadeza.

Nesse período, comoveu-o especialmente as cartas recebidas do Prelado do Opus Dei, verdadeiro pai para todos os membros da Obra, e as releu muitas vezes. Comentou que, no fim da vida, a perseverança na sua vocação lhe parecia o mais importante, o maior motivo de alegria.

Ao lhe comunicarem que lhe restavam poucos dias de vida exclamou serenamente: “Quero ver a Tua face, Senhor”, como dizia o Fundador do Opus Dei. Não deixou de comungar em nenhum desses dias.

No dia 11 de janeiro de 2005, Tadeu foi internado às pressas para a realização de uma punção no abdômen. Nos dias 14, 15 e 16 de janeiro esteve à beira da morte. No dia 15, recebeu a Unção dos Enfermos e o Viático. Nessa ocasião, decidiu-se fazer algumas diálises para limpar o seu sangue. No seu caso, não havia nenhuma indicação terapêutica para essa medida, mas havia um motivo de caridade muito concreto para que sua vida se prolongasse por mais alguns dias.

Tadeu tinha muita vontade de que sua mãe, que vive no Japão, lhe pudesse ver, depois de oito anos. Por isso quis submeter-se às diálises, a fim de manter estável sua condição. Estava um pouco apreensivo, por ver que não melhorava e pelo que supunham esses procedimentos, deixando-o muito cansado. Tudo oferecia a Deus.

No dia 21 de janeiro, foi acordado pelo enfermeiro do hospital para os preparativos de um procedimento médico. Como lhe era habitual, levantou-se com energia, mas teve de ser amparado pela pessoa que o acompanhara naquela noite e pelo enfermeiro: sua pressão caiu a nível muito baixo e já não atingiria mais os valores normais. Teve que ser medicado e lhe colocaram oxigênio para facilitar a respiração. Recebeu, nessa manhã, novamente, a Unção dos Enfermos. Embora muito ofegante, dava sinais de entender o que as pessoas que iam passando pelo quarto lhe diziam. Um sacerdote da Obra lhe deu a absolvição várias vezes e repetiu em seu ouvido algumas jaculatórias (breves orações). Os que continuaram acompanhando-o rezaram o terço em voz alta, recitaram muitos dos pontos do livro “Caminho” e lhe disseram palavras de carinho. Nesse ínterim, aguardávamos a chegada de sua mãe, que vinha direto do aeroporto. Ela viajou cerca de 25 horas e chegou ao hospital em torno das 10h30. Ao perceber a voz de sua mãe, o Tadeu conseguiu, com grande esforço, sorrir e dizer “mamãe”. Sua agonia continuou por mais algumas horas, agora amparado também por sua mãe e outros familiares. Faleceu em torno das 15h30, em clima de serenidade e fé.

Rezamos algumas vezes o responsum (tradicional oração pelos falecidos) e tomamos as providências para o sepultamento. O féretro foi coberto com rosas vermelhas. Seus familiares e sua mãe ficaram muito impressionados e gratos com todos os detalhes de carinho que se tiveram com ele e com o clima de oração que permeou toda a noite do velório e a manhã antes da sepultura.

Foi celebrada pelo padre Vicente uma missa de corpo presente imediatamente antes do enterro. Na homilia, fez-se referência às virtudes que mais se destacavam no Tadeu e também à fortaleza de ânimo com que enfrentou a doença. Tanto nos funerais como na Missa de sétimo dia havia grande quantidade de pessoas, que se emocionaram muito com o que viram e ouviram. Os funcionários da empresa de construção civil onde Tadeu trabalhava choravam sentidamente.

Seu corpo repousa no cemitério do Santíssimo Sacramento.

Luiz Roberto de Barros Santos