Sem “puxar a brasa para a minha sardinha”

Por Gustave Thibon
Gustave Thibon*, filósofo e escritor francês mundialmente conhecido, não pertenceu ao Opus Dei, mas em seu contato com a Obra não viu nada que a pudesse assemelhar a uma seita ou a um partido, pelo contrário. Entendeu bem a espiritualidade vivida por São Josemaria e a resumiu como “presença do cristão no mundo temporal, santificação do trabalho e, acima de tudo, do trabalho profissional”. Na data do primeiro aniversário do falecimento de São Josemaria Escrivá escreveu as seguintes considerações.

Faz agora um ano que Mons. Josemaria Escrivá, fundador e animador do Opus Dei, nos deixou. Eu estava participando de um colóquio cultural em um centro da Obra no exato momento em que nos chegou a notícia da sua morte, e, na qualidade da emoção dos participantes (há atitudes, palavras e olhares que não enganam, através das quais o corpo traduz o segredo da alma), eu adivinhei, como que num relâmpago, a profunda influência exercida por este homem nos seus discípulos.

Não é possível abrigar a menor dúvida quanto à influência do Fundador do Opus Dei. Eu não pertenço ao Opus Dei e, portanto, não estou “puxando a brasa para a minha sardinha”. No entanto, como testemunha imparcial de uma obra sobre a qual já ouvi dizer o pior e o melhor, posso afirmar que, em todos os contatos que tive com seus membros, jamais experimentei a atmosfera fechada e a dificuldade indefinível na respiração que caracterizam uma seita ou um partido. Encontrei, por toda a parte, o mesmo clima em que a ordem faz brotar a convergência das liberdades, em que a unidade de fins respeita a diversidade de caminhos, em que a disciplina é inspirada por motivos interiores, mais do que imposta de fora. Em resumo, num limite ideal, achei uma sociedade em que, segundo a fórmula admirável do Bossuet, “todo o mundo obedece sem que ninguém mande”.

O princípio que domina a espiritualidade de Mons. Escrivá resume-se nisso: presença do cristão no mundo temporal, santificação do trabalho e, acima de tudo, do trabalho profissional. Isso implica na superação da dicotomia tradicional entre a ação e a oração, o profano e o sagrado […]. Pode-se santificar as coisas chamadas profanas, aplicando-se a elas com amor; pode-se também, infelizmente!, profanar as coisas sagradas, misturando-as com a nossa mediocridade e com a nossa baixeza.

Seria escandaloso que as atividades que ocupam a terceira parte da vida dos homens escapassem ao mandamento que nos impele a “ser perfeitos como é perfeito o vosso Pai que está nos Céus”. O trabalho profissional é o nosso caminho privilegiado para a perfeição: não podemos convertê-lo num beco sem saída.

É assim que se preenche o vazio que existe entre o eterno e o cotidiano […]. Não há um tempo para a ação e outro (completamente separado) para a oração. Mons. Josemaria Escrivá, apóstolo da unidade de vida, convida-nos, não a diluir Deus no mundo, mas a impregnar de Deus o mundo.

Gustave Thibon

Artigo publicado no jornal Le Figaro, de Paris, em 25 de junho de 1976.

*Gustave Thibon (1903-2001) como autodidata estudou o grego, o latim, os “Diálogos” de Platão, a filosofia de Aristóteles e a “Suma Teológica” de Santo Tomás de Aquino. Conheceu bem a obra de Nietzche e os sistemas da filosofia moderna, sem por isso tornar-se subjetivista. É sua a frase: “Eu não aspiro a iluminar os homens com a minha lanterna: minha única ambição é ajudá-los a melhor contemplar o sol”.