São Josemaria tinha coração de pai e de mãe

Por Célia de Paula Azevedo
Célia conheceu São Josemaria e escreve suas “lembranças mais corriqueiras, nas quais se nota como sabia conjugar o divino e o humano”. São Josemaria animando as recém-chegadas a Roma a escreverem aos pais; São Josemaria preocupado se chegariam bem em casa por causa do trânsito; São Josemaría servindo bombons, sorrindo… Tudo com uma naturalidade tão grande mas… “sem perceber, junto dele estávamos sempre fazendo oração”.

Seria muito difícil querer expressar tudo o que aprendi e tudo o que devo a São Josemaria. Desde que o conheci, em 1968, se notava à distância que era um santo, convicção que foi se fazendo mais firme à medida que passaram os anos. Considero uma graça especial ter podido conhecê-lo diretamente, ouvir de seus lábios o espírito da Obra e mais do que ouvir, ver plasmado em suas atitudes, com uma naturalidade impressionante, feito vida, o que pregava.

Vou deter-me em lembranças mais corriqueiras, nas quais se nota como sabia conjugar o divino e o humano com uma naturalidade tão grande que, sem perceber, junto dele estávamos sempre fazendo oração.

A primeira lembrança está relacionada com a primeira vez que o vi, em dezembro de 1968. Fomos de Castelgandolfo a Roma para estar com ele. Estávamos muitas numerárias, de vários países, e várias não o conhecíamos. O encontro foi muito rápido, não saberia precisar quantos minutos, talvez uns quinze, no máximo. Desde esse dia me ficou muito gravado na memória como São Josemaria tinha coração de pai e de mãe.

Estávamos bem perto do Natal. Depois de algumas considerações, poucas, nos animou a escrever a nossos pais, se ainda não o tivéssemos feito, já que a maioria havia chegado a Roma fazia pouco tempo. Comentou que podia acontecer que estivéssemos deslumbradas com as maravilhas que estávamos vendo e nos esquecêssemos de que nossos pais estariam preocupados se tínhamos chegado bem, se comíamos, se dormíamos bem, se estávamos nos acostumando num país diferente do nosso.

Depois, reparando que era quase a hora do almoço, pediu que preparassem um aperitivo para nós, porque estaríamos com fome e tardaríamos pelo menos 45 minutos até chegarmos em casa. Depois indicou que lhe telefonassem assim que tivéssemos chegado porque, como era época de festa, haveria seguramente muito trânsito na estrada e ele ficaria preocupado conosco.

Outra graça imensa que Deus me concedeu foi a visita que São Josemaria nos fez em 74, vindo ao Brasil. São muitas as lembranças dessas semanas maravilhosas, nas que percebíamos que nosso Padre desfrutava com tudo o que via, dando-nos conselhos para aproveitar melhor as graças que Deus sempre nos envia a mãos cheias; animou-nos, a lutar para superar os aspectos menos positivos do nosso temperamento e tantas coisas mais.

Impressionou-me particularmente o seu discernimento para dar respostas muito adequadas ao que as pessoas precisavam, mais do que lhe haviam perguntado diretamente. Notava-se sua grande capacidade de adaptar-se às pessoas que tinha na frente. Sentíamos que falava a cada um, a cada uma, de acordo com nossa maneira de ser. Pude constatar que essa opinião foi unânime.

A última vez que vi São Josemaria foi no dia anterior a sua partida: 7 de junho de 1974. Recordou a benção patriarcal que nos havia dado numa das tertúlias gerais (ou seja, num dos encontros em que São Josemaria esteve com milhares de pessoas, ainda que se mantivesse o tom de uma agradável reunião de família); comentou que estando em Roma se lembraria de cada uma e pensaria que hora seria aqui e o que estaríamos fazendo nesse momento. Deu-nos a benção de viagem, como costumava fazer. Quando já ia embora, viu sobre um móvel uma bandeja com chocolates e nos fez passar, uma por uma, e, enquanto pegávamos o bombom, nos dizia alguma coisa. Terminou dizendo: Não podeis reclamar porque vos deixo uma lembrança doce!Agora, quando me dirijo a ele, rezando a oração da estampa ou falando-lhe com as minhas palavras, muitas vezes me vem à cabeça e à memória, o sorriso sereno e divertido com que se despediu de nós.

Penso que, por mais que viva, não terei tempo suficiente para agradecer todos esses detalhes de carinho e tudo o que recebi de São Josemaria e estou segura de que não pode desagradar a Deus o orgulho que sinto por poder chamá-lo, com toda propriedade, nosso Padre.

Célia de Paula Azevedo