In alegria de falar com Deus
Por Antônio Luciano
Bosco Gutierrez, nos limites da sua solidão no cativeiro, preso num quarto cuja área era de 3 metros quadrados, viveu uma programação de atividades que ele mesmo estabeleceu. Apesar de tantas dificuldades e questionamentos a que foi submetido, foi fiel a seu plano. Como ele mesmo descreve, “dividi [o plano] … em três partes e coloquei na primeira coluna saúde mental, na segunda saúde física e na terceira faça algo: aproveita o tempo que é ouro, ainda que dentro dessas circunstâncias”.

Introdução

Algumas pessoas pensam erroneamente que a programação das diversas atividades – incluindo as espirituais – a serem feitas em uma semana ou em um dia, tolhem a sua liberdade ou impedem a sua espontaneidade e até mesmo “quadriculam” a vida.

Soube de uma vez, que um jornalista, ao receber a programação da visita do Papa João Paulo II a um determinado país, percebeu que praticamente todo o tempo do Papa estava “preenchido” com alguma atividade e perguntou-lhe na entrevista coletiva: “Santo Padre… sua santidade não tem nenhum tempo livre?” E a resposta do Papa João Paulo II foi:“todo o meu tempo é livre”.
Vê-se que para o Papa João Paulo II a liberdade estava em conseguir fazer todo o bem que podia, ocupando o seu tempo para melhor cumprir a sua missão de Pastor de toda a Igreja.

A programação das nossas atividades diárias para atingirmos os nossos ideais é denominada plano de vida. E a sua realização de forma consciente e amorosa é causa de grande realização.
Algumas vezes, o cumprimento do plano de vida pode ser mais custoso, principalmente quando a nossa sensibilidade, no momento, é contrária à realização da atividade planejada. Isso é mais fácil de se observar quando passamos por momentos de grandes contrariedades, dificuldades internas ou externas.

Chamou-me muito a atenção a forma como Bosco Gutierrez, um seqüestrado, viveu seu plano de vida nos limites da sua solidão no cativeiro, preso num quarto cuja área era de 3 metros quadrados. Apesar de tantas dificuldades e questionamentos a que foi submetido, o seqüestrado foi fiel a seu plano.
Penso que o relato de Bosco mostra como a dependência que o ser humano tem de Deus não é algo secundário, mas vital, mesmo em uma situação limite.

Fez-me lembrar do seguinte ponto de Caminho:
Sujeitar-se a um plano de vida, a um horário, é tão monótono!, disseste-me. – E eu te respondi: há monotonia porque falta amor (nº 76).

Relato

No dia 29 de agosto de 1990, pela manhã, Bosco Gutierrez vai à Missa e saindo da igreja, quando estava abrindo o carro, uns braços fortes atrás dele o agarram e o imobilizam. Um homem armado lhe dá uma coronhada na boca, causando-lhe um ferimento com grande sangramento. Bosco fora capturado por um grupo organizado de seqüestradores encapuzados e fortemente armados; e se vê a caminho de um destino desconhecido que o levaria a longos e temerosos dias, como já mencionei no relato “O seqüestro de um filho de Deus”.

Quando já havia transcorrido dezenove dias do seqüestro, Bosco não sabia ainda nada da sua família. Não sabia se havia uma negociação em andamento, nem o possível valor do resgate. Chegava a questionar-se se a família teria ou não se esquecido dele. Além disso, havia perdido a noção de tempo. Necessitava de ânimo. E nesse estado toma a iniciativa: “aproximei-me da porta e disse ao seqüestrador: ‘Necessito de uma carta de minha família’. O seqüestrador fechou a porta, como dizendo: ‘Está louco!’. E então eu disse: ‘Meu Deus!’

Bosco necessitava muito do apoio familiar, desejava saber o que seus parentes estariam pensando naqueles momentos. E pensou: “Não seria muito diferente o que eu escreveria a meu irmão estando ele seqüestrado do que meu irmão escreveria a mim nesse momento“. E tomou a iniciativa de escrever a seu suposto irmão, fazendo um exercício teatral. Depois de terminada a carta, ele a pôs debaixo da porta para depois pegá-la e lê-la, deixando-se enganar por ele mesmo.

Reza o terço e ao terminá-lo, continua a sua mais real encenação: “virei-me para a porta e vi o pedaço de papel ao meu lado. Escreveram uma carta para mim! E me atirei, como um idiota, para pegá-la. Ao te-la nas mãos, exclamei: ‘Escreveram-me uma carta, bendito seja Deus! Meu Deus, obrigado!’ E essa carta… tinha sentido comum e não só isso: penso que o Espírito Santo me iluminou ao escrevê-la, pois ela serviu muito para mim. Esta dizia: ‘Querido irmão, antes de mais nada quero dizer a você que não está seqüestrado, sua família é que está seqüestrada. Este não é um problema pessoal, é um problema familiar. E vamos resolvê-lo todos em conjunto. De maneira que nos organizemos em família…’ Era lógico: eu nesse momento era parte de um problema familiar e, portanto, o que vivia não era apenas um problema pessoal. Percebi que era uma atitude muito egoísta jogar-me no chão e abandonar a luta por estar bem, porque nesse momento eu não me pertencia. Eu era parte de uma questão familiar, de uma família muito grande, em que todo mundo estava envolvido de alguma maneira… A partir desse momento, toda a concentração do meu esforço estaria para mim num empreendimento, que denominei ‘estar perfeito’ : ‘eu, agora, o que tenho que fazer é estar perfeito’. […] Tenho que estruturar minha vida para estar perfeito: esse é meu trabalho, essa é minha responsabilidade, isso é o que Deus quer que eu faça agora“.

Bosco pegou o próprio papel da carta, para fazer o seu plano de vida.
Dividi o papel da carta em três partes e coloquei na primeira coluna saúde mental, na segunda saúde física e na terceira faça algo: aproveita o tempo que é ouro, ainda que dentro dessas circunstâncias“.

“Na primeira coluna, Saúde mental, a primeira coisa que constava era: liberta-te da angústia. Eu dizia: ‘Ok! … não podes viver com angústia … não podes estar cheio de angústia e com o ódio ‘no estômago’. É verdade que … não podes produzir … não podes caminhar … não podes conversar, não podes estar da maneira que gostas, mas tens que te libertar da angústia’“.

Outra coisa que perturbava Bosco era o controle do tempo. Como controlar o tempo em um quarto em que não havia nada, nem se via nada? Bosco se questiona até que lembra da fita cassete que foi pega no seu carro pelos seqüestradores e que ficava ligada as 24 horas do dia. Ele usa essa fita para medir o tempo e controlar as suas atividades. Passou a fazer dezesseis horas de atividade diária, sem descanso, para depois poder dormir as oito horas seguintes.

Bosco mesmo nos conta como se organizou:
Então pus na parede, trinta e duas rodas com a caneta Bic, que eram as trinta e duas fitas cassetes que eu tinha que viver em plena atividade (…) primeira bolinha, limpo o quarto, então espero o ‘clic’ da fita; limpeza do quarto, meia hora. Muito trabalho sem dar tempo à imaginação, que é a louca da casa. Segunda fita… pedir o café da manhã. Terceira fita… meia hora de oração mental. Quarta fita… leitura do Evangelho, do Antigo Testamento, pois teria que tirar proveito do que tinha para leitura” (ele só tinha a Bíblia).

Ao meio-dia ficava de pé, rezava o Angelus, uma oração à Virgem, e então nesse momento chegava a hora da Missa diária. Desenhei uma cruz na parede com uma caneta vermelha e disse: ‘Veja, a esta hora em algum ponto do planeta há uma Missa. Eu não sei onde. Eu não sei se na China, na França, (…) mas agora mesmo há uma Missa. E eu me uno espiritualmente à essa Missa’. Então fechava os olhos e dizia: ‘em nome do Pai, do Filho, do Espírito Santo, Amém’. E imaginava o padre entrando… as leituras… a consagração… as pessoas comungando. Dizia: ‘Deus quero comungar, quero recebê-Lo espiritualmente no meu coração agora mesmo onde estou…’, dava graças pela comunhão e terminava a Missa. Quero dizer-te que diariamente, acabando essa meditação, tendo ‘participado’ dessa Missa, estava eu verdadeiramente reconfortado. E o fazia por necessidade. Não fazia por obrigação. (…) Necessitava nutrir-me do caminho que havia escolhido: que era a fé. E eu dizia: ‘Pois sim, eu vou (à Missa)’ e vou ‘com tudo’! E se na Missa está Deus, … eu a quero porque necessito d’Ele“.

Teria, a seguir, o almoço; depois a meditação da tarde; logo após a leitura espiritual da tarde e às 18h00 (de acordo com a contagem das fitas) três horas de exercícios diários. Nessas três horas de exercícios: corria; acabando de correr fazia flexões, abdominais e, pendurado no teto, fazia barras – a quantidade de vezes que podia. Eu acabava esgotado depois das três horas de exercícios. E vinha o momento mais satisfatório do dia: o meu banho” (a água era escassa e vinha num balde).

No tema ‘Faça algo’ … coloquei três pontos importantes:
Primeiro, capta toda a evidência que possa. Eu anotava os ruídos e tudo que acontecia por ali…
A seguir, eu escrevi uma coisa que para mim era muito divertida ‘fuja!’. Pensava meia hora por dia na fuga. (…) Obviamente era meu grande segredo. Era como minha travessura, era como a meia hora divertida do dia.
O terceiro ponto era rezar (além das orações pela família) pelos seqüestradores… se chamava ‘oração para os seqüestradores’. Comecei a rezar um terço de manhã e um terço à noite para os seqüestradores. … Assim, às vezes, tive que me forçar, para vencer um pouquinho meu orgulho pessoal. “Vou rezar para estes homens para que sejam menos infantis e para que me ajudem a sair, para que o Espírito Santo também os ilumine“.

Conclusão

Mesmo em uma situação extrema é possível ter um plano de vida espiritual bem definido… é vital. A virtude da ordem é necessária para que se tenha a vida e as coisas bem organizadas. Quando as obrigações que temos são feitas com amor, somos os primeiros beneficiados. Não se trata nunca de um fardo, mas de servir a Deus e ao próximo com a habilidade criativa própria do amor.

E o tempo que Bosco esteve no cativeiro foi-lhe de grande proveito espiritual.

Antônio Luciano, seminarista

Este relato foi elaborado a partir do filme “Relato de um seqüestro” e de uma entrevista de Bosco Gutierrez (LA VANGUARDIA – 21/11/2005).

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