In obrigado, Opus Dei
Por Lenise Garcia
Está escrito: Destruirei a sabedoria dos sábios, e anularei a prudência dos prudentes (Is 29,14). Onde está o sábio? Onde o erudito? Onde o argumentador deste mundo? Acaso não declarou Deus por loucura a sabedoria deste mundo? Já que o mundo, com a sua sabedoria, não reconheceu a Deus na sabedoria divina, aprouve a Deus salvar os que crêem pela loucura de sua mensagem.(1Cor 1, 19-21)
Não é este o filho do carpinteiro? (Mt 13, 54)

Os contemporâneos de Cristo, ao ouvi-lo pregar, surpreendem-se da sua sabedoria. O Mestre que questiona os soberbos doutores da lei é um Homem que se dedicou, durante longos anos, a trabalhos manuais.

São Josemaria Escrivá meditou longamente, e tirou muitos ensinamentos, dessa vida oculta de Cristo, os anos em Nazaré. Entre eles, o que está no cerne do espírito do Opus Dei: qualquer trabalho humano, por mais humilde que seja, é nobre aos olhos de Deus e meio de santidade. O que dá valor ao trabalho não é o brilho humano ou o status que se possa alcançar, mas o amor de Deus com que é feito.

Como nos tempos de Cristo, não surpreende que o espírito cristão choque uma sociedade afetada pelo egoísmo, o materialismo e o hedonismo. Neste sentido, penso que a vocação de numerária auxiliar é uma vocação “profética”, que traz uma resposta à mentalidade self-service de um mundo descristianizado.

Há aqui um ponto paradoxal em relação ao preconceito. Alguns vêem a dedicação de mulheres ao serviço doméstico como um preconceito contra a mulher. Mas esse raciocínio é que nasce de um preconceito contra o serviço doméstico, como se este não fosse um trabalho nobre e digno, como se as pessoas que o exercem ficassem por isso diminuídas.

Além do fato de que todo trabalho honesto é digno, está também o de que o serviço doméstico tem grande importância no ambiente familiar. O seu descuido é responsável por parcela não pequena da atual crise da família, pois muitos encontram em sua casa apenas um teto e não um lar.

Eu não sou numerária auxiliar. Sou professora universitária e doutora, e peço a Deus nunca ser como os soberbos doutores da lei que desprezaram Cristo por este exercer um trabalho manual. Posso testemunhar o quanto aprendi e continuo aprendendo com elas.

Há numerárias auxiliares que mal terminaram o antigo curso primário de quem ouvi raciocínios teológicos magníficos, que não são fruto de sabedoria humana, mas do convívio com o Espírito Santo. Lembram-me Francisca Javiera del Vale, a costureira simples, semi-analfabeta, autora do “Decenário ao Espírito Santo”, livro muito apreciado por São Josemaria. Recordam-me as palavras de Cristo: Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas verdades aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos. (Mt 11, 25)

Lembro-me de uma temporada difícil na minha vida profissional, na qual com freqüência chegava em casa aborrecida por algum incidente na universidade. Quantas vezes uma numerária auxiliar que então morava conosco me elevou o ânimo, com um simples: “que cara cansada, e garanto que não lanchou”. E fazia-me entrar na cozinha para o lanche atrasado, sempre com algum detalhe de carinho. Não hesito em dizer que o convívio com essa pessoa fez enorme bem à minha vida espiritual.

Ninharias? O fundador da Obra preferia chamá-las coisas pequenas, e a elas dedica todo um capítulo do livro Caminho. Nelas se manifestam o amor humano e o divino. Somente quem ama e quem se doa ao outro é capaz de perceber detalhes de serviço.

O serviço ao outro repugna à cultura do self-service, que estimula uma falsa autonomia. Não querer ser servido caminha ao lado de não querer servir. Mas quem quer bastar-se a si mesmo está condenado ao isolamento. E a verdade é que dependemos muito uns dos outros: dependemos do médico, do dentista, do professor e do lixeiro. Na universidade sempre temos inveja das greves de lixeiro, pois a cidade passa 3 meses sem nosso trabalho, mas não passa uma semana sem o deles.

Na última ceia, Cristo se ajoelha e lava os pés dos discípulos. São Pedro não quer aceitar esse serviço e é corrigido pelo Mestre. Talvez se tenha lembrado da lição: Sabeis que os chefes das nações as subjugam, e que os grandes as governam com autoridade Não seja assim entre vós. Todo aquele que quiser tornar-se grande entre vós, se faça vosso servo. E o que quiser tornar-se entre vós o primeiro, se faça vosso escravo. Assim como o Filho do Homem veio, não para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate por uma multidão. (Mt 20, 25-28)

O texto latino diz: non venit ministrari, sed ministrare. Daí derivam as palavras ministro e ministério. Também na concepção civil, “ministro” é o que está para servir ao povo, e não para encastelar-se no poder. Todas as profissões humanas podem e devem ser exercidas como um serviço aos outros, e este é um aspecto fundamental para a santificação do trabalho, que é o cerne do espírito do Opus Dei. Talvez o nosso Brasil fosse diferente se todos os ministros trabalhassem com essa perspectiva…

Outro aspecto importante é a competência profissional com que as numerárias auxiliares buscam exercer a sua tarefa. Conscientes de que a sua não é uma profissão de segunda categoria, capacitam-se continuamente para exercê-la bem. Muitas tornam-se também monitoras e professoras em escolas hoteleiras ou cursos ligados à sua área de atuação.

Qualquer pesquisa na rede hoteleira mostra que um dos aspectos mais valorizados pelos clientes é o serviço. Um hotel pode ter instalações 5 estrelas, mas se o hóspede for mal servido sairá descontente. Do mesmo modo, um ambiente doméstico acolhedor faz grande diferença na qualidade de vida. Se proporcionar esse ambiente é importante, não menos importante é a profissão de quem o propicia.

São Josemaria sempre colocava como exemplo, também neste aspecto, o lar de Nazaré. Como é fácil imaginar Nossa Senhora tirando água do poço, fazendo pão e limpando a casa. Que bonita a inserção, no filme “A paixão de Cristo”, da cena em que Jesus está trabalhando e Maria O chama para o almoço. Esse foi o cotidiano de Nossa Senhora, o serviço doméstico. Ela não era menos santa ao realizá-lo do que aos pés da Cruz.

Lenise Garcia

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