O tesouro da Obra

Por Vera Helena de G.
Quer saber qual é o grande tesouro da Obra, assim considerado desde a sua fundação? Pois bem, dizia São Josemaria que os doentes são o tesouro da Obra. Tendo recorrido à oração dos enfermos que atendia no início do Opus Dei, o Fundador sempre viveu e ensinou uma caridade ainda mais delicada para com os doentes. Vera Helena nos fala das inúmeras demonstrações de carinho que sua mãe recebeu, quando enferma, “dessa família da Obra”. Foram pequenos e grandes gestos, algumas vezes inesperados, que ajudaram sua mãe, que foi sempre alegre, a nunca perder seu bom humor.

Em abril de 2002 faleceu minha mãe que era Supernumerária do Opus Dei. Durante 10 anos sofreu muito com um quadro de diabete e pressão alta que se agravou durante os dois últimos anos de sua vida, trazendo-lhe uma série de outras complicações. Muitas vezes foi preciso interná-la para exames médicos, adaptações de remédios etc.

Meu pai, também Supernumerário, cuidou dela com muito carinho e dedicação. Naquela época, meu pai e minha mãe se encontravam ambos com 83 anos. Meu pai, muito bem de saúde, vivo até hoje. Moravam os dois sós, pois eu sou Numerária e moro num Centro da Obra e minha irmã, casada com 4 filhos, mora numa cidade a 500 km de São Paulo. Estávamos muito atentas e acompanhávamos toda a evolução da doença.

Minha mãe sempre foi uma pessoa alegre, tirava partido de tudo e gostava de brincar com as pessoas, sabendo arrancar pelo menos um sorriso, quando não conseguia umas boas gargalhadas. Era muito querida por suas amigas que a acompanharam durante sua enfermidade. Estiveram presentes, especialmente as Supernunerárias, que se turnavam todos os dias para estar com ela: fazer algumas orações, uma leitura com tema espiritual que a confortasse, passar juntas uns bons momentos, pois minha mãe nunca perdeu o bom humor, ainda nos momentos mais difíceis, quando se encontrava totalmente dependente, necessitando de alguém que lhe desse banho, de comer etc.

Nos dois últimos anos de vida de minha mãe, meu pai – que sempre foi uma pessoa com ânimo forte e estava bem de saúde – sofria muito com o estado debilitado de minha mãe. As coisas se agravaram e quem teve ou tem na família alguém assim doente sabe que é preciso que pelo menos uma pessoa esteja presente a todo momento, pendente do que o doente necessita. Meu pai, ainda que estivesse bem, não tinha condições de fazê-lo e foi preciso contratar duas pessoas que se turnavam para atendê-la.

Minha irmã veio muitas vezes da cidade onde mora para estar com minha mãe, fazer-lhe companhia, cuidá-la, mas não podia deixar por muito tempo a sua família. Muitos dias na semana eu me alternava com meu pai para cuidar de minha mãe, dedicando-lhe com muito carinho o tempo que necessitasse. O combinado com meu pai era que ele me chamasse em qualquer momento e sempre que quisesse alguma ajuda. Passava com eles todos os sábados e domingos, quando as cuidadoras não compareciam, e sempre estávamos acompanhados de pessoas da Obra que vinham para estar uns momentos conosco. Aproveitavam para trazer-nos algum prato gostoso que haviam feito, algo que sabiam que minha mãe apreciaria. Era freqüente que alguma Supernumerária viesse com o marido para bater um papo com meu pai, o que ele agradecia muito. E penso ser especialmente importante ressaltar que minha mãe recebeu toda a assistência sacerdotal durante a sua doença, pois um sacerdote da Obra comparecia semanalmente para administrar-lhe o Sacramento da Penitência.

Os gastos cresciam com remédios, internações, exames e com os ordenados das cuidadoras. Ainda que tivesse uma reserva, com o salário de aposentado, meu pai não estava conseguindo arcar com todas essas despesas. Minha irmã e eu passamos a ajudá-los com uma quantia – com a que cada uma de nós podia contribuir -, mas mesmo assim era insuficiente, pois os gastos eram elevados.

Uma das amigas de minha mãe, Supernumerária, por iniciativa própria, pois ninguém lhe tinha manifestado nenhuma preocupação nesse sentido, quis arcar com os gastos de uma das cuidadoras, aliviando assim, parte desse peso amoroso.

Minha mãe faleceu depois de estar alguns dias na UTI e de ter recebido os últimos Sacramentos, rodeada pelo carinho dessa família da Obra que a acompanhou até o último momento.

Vera Helena de G.