O seqüestro de um filho de Deus

Por Antônio Luciano
Relato de um seqüestro de um empresário mexicano, supernumerário do Opus Dei. Mostra seu conflito interior e as conseqüências da fé nessa situação limite. Apoiado na filiação divina, conseguiu reverter o estado depressivo em que se encontrou no cativeiro.

Introdução

No ano passado tive a oportunidade de assistir a um filme sobre o relato de um seqüestro de um empresário mexicano, supernumerário, embora no relato ele tenha dito apenas ser católico e não um fiel do Opus Dei. Penso mesmo que não precisava dizê-lo, pois é uma experiência de vida tão rica, útil a qualquer pessoa ouvi-la, independente da instituição da Igreja Católica a que pertença. E, com o preconceito de algumas pessoas com relação ao Opus Dei, talvez elas deixassem de ouvi-la e de beneficiar-se com o relato.

Relato

No dia 29 de agosto de 1990, com 33 anos naquele momento e com sete filhos, Bosco Gutierrez foi seqüestrado e levado para permanecer num quartinho fechado de 1 metro por 3 metros, monitorado por câmera 24 horas por dia, onde permaneceria 275 dias em uma total solidão.

Já no esconderijo os seqüestradores lhe indicaram “as regras” a serem seguidas, por escrito: “Você terá direito a um balde de água por dia, racionalize-a, aproveite-a, porque dela terá que beber, dar descarga e fazer a higiene pessoal. Terá direito a um livro, direito a pedir remédios que necessite. Pedir com os guardas.”; e muitas ameaças: “se você mexer, se você aparecer, se você escutar, se você nos agredir, se você se comportar mal, é um homem morto. A liberdade vem enquanto você não represente uma ameaça para nós, estando solto.

Além das ameaças os seqüestradores lhe trazem um interrogatório de duas folhas escritas, acompanhado das seguintes recomendações: “Se alguma destas perguntas você responde com mentiras, o matamos e vamos atrás da sua família”.

O interrogatório era composto de uma série de perguntas tão agressivas que o seqüestrado fica “gelado”. Se nega a respondê-las, até que chega a ameaça escrita em um papel: “Tenha todo o tempo para responder. Até que você não responda, não começamos a negociar… Estamos dispostos a esperar”.

Depois de três dias, Bosco responde o questionário, de forma mais evasiva possível, pois não lhe restava outra saída. Logo após o seu preenchimento, se sentiu um covarde, um traidor: “Eu nesse momento caí numa depressão impressionante, me abandonei e, logo no momento, pensei: melhor morrer. É melhor morrer do que sair a enfrentar uma realidade cruel, e por culpa minha. Tinha medo de sair e encontrar um sobrinho morto ou uma irmã; ou minha esposa afetada porque o fraco de seu marido não pôde defender a honra da família. Essa depressão levou-me a ficar dezesseis dias jogado no chão, nu e em situações muito desagradáveis…”.

No dia da independência do México um dos seqüestradores que o vigiam escreve-lhe: “Hoje você pode beber o que quiser”.

Eu seguindo o jogo irônico do seqüestrador… Disse-lhe: — Traga-me whisky, eu sempre gostei de whisky. Traga um copo alto e cheio de whisky, puro com gelo”.

Depois de mais ou menos três ou quatro horas, chega o seqüestrador encarapuçado e põe o whisky na soleira da porta.

“Eu não podia andar, estava dezesseis dias jogado num canto, despido, sem caminhar, encolhido, … não podia nem ficar em pé… Arrasto-me três metros, pego o whisky e volto como um animalzinho com sua presa, para o fundo do quartinho, e digo: Isto vou saborear; vou desfrutar até o último gole; porque é vida para mim. E comecei a cheirá-lo. Era quase um ‘culto’ ao whisky. Cheirava-o, passava-o pela cara: pela ferida da boca, pelo nariz. O cheiro era delicioso. Era algo de sabor novo.

E quando estava no ‘culto’ ao whisky, ouço na minha consciência a voz de Deus, que me diz:
– Ofereça-me o whisky.
Eu lhe digo:
– Ofereço-te o que quiseres. Ofereço-te estar aqui…
– Isto não depende de ti.
– Ofereço-te não ver minha família.
– Isso também não depende de ti, não sejas tolo. Ofereça-me o whisky. Quero um sacrifício teu…. Ofereça-me o whisky.

E nesse ‘vai e vem’, viro-me para cobrir a câmera, porque sei que esta está me ‘vendo’. Eu digo a mim mesmo: ‘que os guardas não me vejam fazendo isso’.” E joga o Whisky fora.

E dorme pensando: “És um bobo. Como desperdiçaste o whisky?!

Mas quando acorda, experimenta certa satisfação, e diz a si mesmo: “Valho algo, … não sou completamente uma porcaria; não sou um completo covarde, … não sou alguém que não vale nada, como me dizia depois do questionário. Valho algo, porque pude oferecer isso, … porque me custou muito; porque … pude oferecer (a Deus). E foi de grande utilidade para mim, desde o ponto de vista espiritual. Foi muito melhor do que eu tomar o whisky. E, nesse momento, recobro um pouco de forças e pela primeira vez posso mover-me em dezesseis dias“.

Bosco, depois dessa experiência, passa a rezar de uma forma clara. Antes tinha reclamado com Deus; chorado; havia dito – aflito – pedaços de orações, desesperos e prantos. Mas não havia rezado.

Este é o momento de rezar e vou rezar o terço completinho.

Depois com a cabeça mais clara e ordenada, enfrenta-se consigo mesmo e questiona a sua fé: “agora você tem que me responder… VOCÊ e não seus pais, nem seus tios, nem sua tia, nem sua sogra, nem sua esposa: VOCÊ acredita ou não em Deus? Cuidado com sua resposta sobre a crença em Deus… porque trazem conseqüências de vida totalmente radicais.
…Eu disse: ‘bem, olhe, eu creio!’

Eu gosto dos relógios, para montar um relógio simples se necessita menos inteligência do que para montar um relógio mais complicado. Para um universo (tão elaborado) tem que existir quem o organizasse… E assim fui elaborando algumas idéias… para eu aproximar-me da resposta.

Escuta Bosco, você não gosta da arquitetura? Não gosta da beleza? Mas você não conhece a beleza, conhece? Você tem o conceito de beleza? Viu parcialidades de beleza, mas não pode dizer: essa paisagem é beleza. É muito bonita essa paisagem, é bela, mas não é a beleza. Essa outra coisa é bela, mas não é a beleza. Tem que haver uma fonte de beleza, pois essa fonte é Deus.

Depois de vários raciocínios pessoais, disse com convicção: “Creio em Deus“.

Então automaticamente, sai a conclusão de dizer: ok Bosco! Só que aí vem a conseqüência. Se acreditas em Deus, crês num Deus onipotente, não em um Deus paraplégico, porque se um Deus é deficiente, não pode fazer tudo e, portanto, não é Deus. …É um Deus onipotente que pode tudo, é teu pai e te ama mais porque é Deus, e Deus ama a todos. Ama-te com um amor maior do que o amor que sentes por teus filhos. Mesmo dentro dessas circunstâncias, onde o amor se incrementa – imagina o que era para mim nesse momento a recordação dos meus filhos, o que era nesse momento abraçar a meus filhinhos, os sete que deixava, a Gabi (sua esposa) – eu dizia: bem, mais que isso, Deus me ama e eu não posso sair desse quarto para abraça-los, mas Ele pode fazer o que quiser porque é Deus.

Portanto, aceita como ‘homenzinho’ a vontade de Deus, como vem. Ele sabe mais que tu e o que é melhor para ti, ponto! Não discutas com Ele!

[…] Deus sabe mais! Quem sabe mais tu ou Deus? Se dizes que crês em Deus, pois Deus sabe mais. Se Deus sabe mais, convém por-te nas suas mãos.

Nas mãos de quem, eu ponho a nave da minha vida? Na perspectiva de um piloto que enxerga três metros por um, como eu estava vendo, com uma miopia desse nível… ou (nas mãos de) um piloto que vê a eternidade e possui uma visão sem limite? Pois sabes que é melhor que ele pilote!

Deus toma o rumo da minha vida e faça-se a tua vontade – o que quiseres – e se quiseres que eu fique aqui, um dia, pois um dia; dois dias, pois dois dias; um mês, pois um mês; eu estou convencido que Tu és meu pai e que queres o melhor para mim. Não discuto!

…Nos momentos de situações limites da vida, como no caso de um seqüestro, tu não podes ser light, tens que tomar partido, tens que dizer: eu aposto em acreditar em Deus, eu apostei!…

Não estou dizendo que todo mundo deva tomar as mesmas decisões que eu tomei, simplesmente digo as decisões que tomei. Mas recomendo que alguma vez tome essa opção, porque é importante comprometer-se, para orientar o curso da sua vida…

E para mim, é muito bom e importante recordar o que vivi, para eu voltar a me comprometer (com Deus).

Conclusão

Eu, ao ouvir esse relato, pensei que Deus deu a Bosco Gutierrez uma oportunidade de experimentar algo que é o fundamento do espírito do Opus Dei: a consciência viva da filiação divina.

Tenho a impressão que Deus, assim como fez na vida de São Josemaria Escrivá, permite que as pessoas do Opus Dei passem por experiências fortes, para que elas descubram por si mesmas, com profundidade, o espírito do Opus Dei.

Ao ler a seguinte declaração de Bosco: “Eu entendo meu seqüestro como se Deus me tivesse dito: não posso voltar a colocar-te no ventre de tua mãe, mas vou colocar-te nove meses num quartinho para que com tua inteligência e tua memória decidas como irás viver tua segunda oportunidade” recordei-me do diálogo de Jesus com Nicodemus, no qual Nosso Senhor lhe diz: “Ninguém pode ver o reino de Deus, se não nascer de novo.” Se não nascer para a filiação divina.

Bosco experimentou que “omnia in bonum” (tudo é para o bem): “tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus”.

Por um motivo sempre justificado e com visão plena e perfeita, Deus, Nosso Senhor, permite (certos acontecimentos), dentro de Sua Santa vontade, buscando sempre como um bom Pai, o Pai por excelência, o bem de Seus filhos.

…Hoje após a tormenta, vejo com clareza que Deus sabe mais. Nós somos muito limitados para entender o que acontece e o porque das coisas. …Há situações na qual Deus nos pede um exercício de abandono de nossos próprios juízos, para que eliminemos obstáculos egoístas, para nos fazermos mais humildes, para que Ele seja quem reine em nós.

Podemos nos queixar perante as dificuldades quando, quem sabe, seja a medicina para nossos verdadeiros males? …Tem confiança, mas não deixe de lutar com fé, otimismo e perseverança. …Estamos garantidos, se nos pusermos em Suas mãos.

Antônio Luciano, seminarista
Março de 2006

Este relato foi elaborado a partir do filme “Relato de um seqüestro” e de uma entrevista de Bosco Gutierrez (LA VANGUARDIA – 21/11/2005).