O meu encontro com São Josemaria Escrivá

Por Liliana Ancona Lopez

Na época em que seu filho Vicente estudava no Colégio Romano da Santa Cruz, Liliana foi recebida por Mons. Escrivá. Se São Josemaria iniciou este encontro dizendo: “Estou agradecendo a Deus por poder conhecer a mãe de um dos meus filhos!”, até hoje Liliana se alegra com a oportunidade que teve de conversar com um santo “muito humano e muito pai”.

Para mim o dia 25 de junho de 1972 é uma data inesquecível! Nesse dia meu filho Vicente e eu fomos recebidos por Mons. Escrivá em Roma, em Villa Tevere. Ainda continuo a agradecer a Deus por essa oportunidade ímpar de ter conversado com calma, familiarmente, numa sala de visitas, com um grande santo por quase meia hora.

Essa minha viagem -a segunda que fiz à Europa- foi longamente planejada. Dessa vez o objetivo não era turístico, mas matar saudades dos meus filhos. Nesse momento, três dos meus 5 filhos se encontravam na Europa: a Cristina em Londres, a Lilia, que morava em New York, estava de passagem por Paris e o Vicente em Roma. Quis visitá-los individualmente para depois reunir-nos todos na Itália.

Quando anunciei por carta a minha viagem o Vicente ficou eufórico! Embora mantivéssemos uma correspondência continua e as vezes conversávamos por telefone, não nos víamos há quase três anos! Entre outras coisas ele me disse que pensava que seria possível que eu pudesse conhecer o Padre (Mons. Escrivá) pessoalmente, possibilidade que me alegrou muito porque o Vicente sempre se referia nas cartas ao Fundador do Opus Dei, como um homem muito especial e um verdadeiro santo e eu realmente estava curiosa.

Poucos dias depois de minha chegada a Roma, -onde matei as saudades do meu filho e ele de mim em longas conversas e passeios (conheci também Villa Tevere e fiquei maravilhada)-, ficou confirmado que o Padre nos receberia no dia 25 às 11 h da manhã. Nossa expectativa era grande.

Lembro-me que nesse dia usei um vestido de seda, azul marinho, que tinha levado para essa ocasião, de mangas compridas, de gola redonda e com uma renda branca ao redor da gola e dos punhos. Usei um colar de pérolas Dior, brincos e estreei um sapato novo comprado na França. Meu filho me disse que eu estava especialmente bonita. Ele também estava, com um terno azul claro, que lhe caía bem, gravata azul de nó grosso: parecia um perfeito italiano.

Dirigimo-nos a Villa Sacchetti, onde o Padre nos receberia, e fomos introduzidos numa sala ampla, iluminada e alegre, com plantas, muito aconchegante. Logo em seguida, por outra porta, entrou o Padre, sorridente, dizendo festivamente: “Estou agradecendo a Deus por poder conhecer a mãe de um dos meus filhos!”. Nós o cumprimentamos beijando a mão e ele me sorriu com tanto carinho que me emocionei!

Foi muito direto e afetuoso! Interessou-se por mim, quis saber como havia feito a viagem, como tinha encontrado o meu filho etc. Falávamos em italiano e logo criou-se um clima familiar e informal (ele me tratava por você: como se diz em italiano “mi dava del tu”). Lembro-me que, entre outras coisas, disse-me divertido que já era um ancião de 70 anos, e podia dizer galanteios às mães dos seus filhos. Disse também que podia dispensar o zero do número 70, pois se sentia diante de Deus como um menino de 7 anos.

Logo o nosso Padre dirigiu o rumo da conversa a um assunto mais íntimo e perguntou-me: “E o que você fez para merecer ter um filho do Opus Dei?” Instintivamente eu respondi que não era mérito meu e sim de minha sogra. O Padre se surpreendeu e me disse que eu era humilde por atribuir essa graça à minha sogra. Então me senti no dever de explicar e acrescentei que minha sogra rezava muito, assistia Missa diariamente e se preocupava pela vida cristã de todos os netos.

O nosso Padre tornou a se surpreender com aquela minha certeza, e me disse novamente: “Você é humilde! Você atribui os méritos da boa educação do seu filho à sua sogra? Você está me ensinando a ser humilde!”. Começou então a dizer-me que a maior parte dos méritos da vocação de um filho, 90%, deve-se aos pais: as virtudes que eles têm e cultivam nos filhos, até sem perceber, por exemplo, a abnegação em procurar a alegria dos filhos, a fidelidade no amor entre marido e mulher, saber superar com elegância momentos difíceis… Estava impressionada também pela serenidade e segurança que as palavras do Padre me infundiam, que me pareciam muito verdadeiras e me surpreenderam. Nesse momento da conversa, talvez por ter me lembrado do ambiente de alegria e de amor da minha família, do meu marido que faleceu quando o Vicente tinha 9 anos, me comovi e comecei a chorar, com dificuldade para articular as palavras. Nessa altura a voz do nosso Padre se tornou ainda mais alegre e carinhosa. Falou-me da importância de agradecer a Deus e de que meu papel de mãe junto ao meu filho continuava sendo importante… Voltou ao assunto de que ele me considerava humilde e me pediu se eu poderia ajudá-lo a fazer o Opus Dei. Também instintivamente disse que era principalmente o meu filho quem deveria ajudá-lo. O Padre disse que o Vicente o ajudava muito.

Dessa forma, o centro da conversa se deslocou para o Vicente. O Padre me falou do entusiasmo do meu filho, dos seus estudos, da sua alegria na sua vocação. Eu então lhe contei que inclusive no primeiro dia em que ele foi a um Centro do Opus Dei, já voltou com essa alegria e ao chegar em casa veio me contar empolgado que tinha conhecido naquela noite um grupo de universitários que o tinha surpreendido pelo nível intelectual e humano. O Padre me comentou que isso se devia a que meu filho tinha vislumbrado a figura de Jesus Cristo através daqueles rapazes do Opus Dei. Voltou a insistir em que eu também deveria ajudá-lo.

Nessa altura entrou na sala um rapaz que trouxe uma bandeja com um estojo azul muito bonito. O Padre apanhou esse estojo e disse que queria me dar um presente. Abriu-me e era uma linda medalha, grande, comemorativa e o Padre me explicou que se tratava de uma lembrança que ele dava aos pais que tinham filhos no Colégio Romano da Santa Cruz, -onde o Vicente estava morando e estudando-, e que o visitavam. Disse-me que a medalha parecia de ouro, mas não era de ouro, na verdade era de um material barato. Tinha mandado cunhá-las faz anos, num momento de especial dificuldade econômica, mas quis fazê-lo mesmo assim porque queria dar-nos essa lembrança, para que ficássemos orgulhosos dos filhos estarem participando daquele projeto que dava muita glória a Deus e a Igreja. No verso da medalha havia uma belíssima imagem de Nossa Senhora dos Anjos com uma jaculatória em latim. Guardo com imenso carinho e veneração essa medalha que mandei emoldurar e coloquei na cabeceira de minha cama.

O rapaz que havia trazido o presente avisou delicadamente ao Padre que ele estava sendo esperado em outro lugar, e o Padre disse que sentia ter que se despedir de mim, mas que não era uma despedida porque sabia que a partir de agora eu iria ajudá-lo. O Vicente pediu que ele nos desse a bênção e assim foi, deu-me a bênção de viagem. Estávamos todos emocionados e o Padre muito alegre: despediu-se mais uma vez, dizendo-me que contava comigo. Naturalmente pela emoção, perdi muitos aspectos do diálogo, e é possível que tenha sido imprecisa ao narrá-lo. Mas permanece viva na minha memória a alegria de ter conversado durante quase meia hora, que passou voando, com um santo que era muito humano e muito pai: até hoje me sinto confortada com a sua bênção. Embora não seja muito, faço o que posso para ajudar o Opus Dei e o meu filho, como São Josemaria me pediu.

Liliana Ancona Lopez, mãe do Mons. Vicente Ancona Lopez, vigário regional do Opus Dei no Brasil