In vidas santas
Por Equipe do Opus Alegria
Relato de como uma moça, numerária do Opus Dei, soube abraçar a cruz de forma heróica, com naturalidade, vivendo esquecida de si mesma, atenta aos demais e fiel à sua vocação à Obra.

Montse Grases, a segunda de uma família de nove irmãos – profundamente católica e unidíssima -, foi sempre uma moça direita e pura, bonita, simpática, esportiva, divertida, religiosa sem beatice e absolutamente normal. E como faz parte da normalidade ter, ao lado de belas virtudes, alguns defeitos, Montse também os tinha – não nasceu com auréola de santa -, e é muito importante ter isso presente ao ler o que vem a seguir.

Montse, que era prestativa e sacrificada, de coração sensível, generoso e bom, era também voluntariosa e geniosa. Ai de quem a contradissesse ou pretendesse fazer-lhe uma desfeita! Sem grosserias nem violências – que não eram do seu feitio -, reagia desde muito menina como pessoa que não leva desaforo para o seu cantinho nem tem um braço fácil de torcer. Sabendo disso, as pinceladas que se dão a seguir ganham um sentido maior.

Ao longo de toda a evolução da doença (um câncer incurável, sarcoma de Ewing), Montse esforçou-se por levar, até o limite das suas forças, uma vida normal. Queria ser fiel ao que a sua vocação para o Opus Dei lhe pedia: a santificação pessoal e o apostolado no meio do mundo, dentro da normalidade da vida diária, no cumprimento amoroso e acabado dos deveres cotidianos.

Viver assim – com alegre simplicidade, sem chamar a atenção – representava um esforço que conseguiu praticar rezando muito e lutando muito por corresponder à graça de Deus.

Até os últimos dias, quando, já imóvel na cama, mal podia falar, fez um esforço heroicamente fiel para cumprir os propósitos espirituais a que se tinha comprometido livremente com Deus: duas meias horas de oração mental diária, terço, leitura do Evangelho e de algum livro espiritual (só ouvindo ler, já no final), exame de consciência noturno, que jamais desleixou, etc. Morreu acompanhando o segundo mistério do terço do dia, que a sua mãe e um grupo de amigas rezavam ao pé da sua cama.

Dessa vida de oração, dessa luta denodada por procurar uma união cada dia maior com Deus, vinham-lhe as forças para abraçar a Vontade divina – a doença, a dor e a morte – e para, não só aceitar, como amar de todo o coração a Cruz que Cristo lhe oferecia, para tê-la junto dEle no sofrimento salvador. Daí vinham a serenidade, a paz profunda e a alegria manifestadas no constante sorriso que deixavam desnorteadas as pessoas. Uma grande amiga de Montse, Rosa Pantaleoni, lembra que, entre 2 de julho e 13 de agosto de 1958, acompanhou-a em várias das trinta sessões de radioterapia a que foi submetida. “Quando íamos a essas sessões, todas as enfermeiras perguntavam-lhe o que tinha; mas ela mudava logo de conversa e acabava perguntando pelas coisas delas.

Fez-se muito amiga de uma enfermeira: soube que aquela moça gostava de desenhar, e ficaram falando dos desenhos e dos problemas da outra… Às vezes, quando terminávamos, a enfermeira dizia-me: – «Como é simpática, alegre e carinhosa esta menina! Mas nunca fico sabendo se a perna lhe dói ou não. Você sabe?» E eu lhe respondia: – «Eu também não sei»“.

Doía, porém, e doía muito. A própria Rosa contará que, “no momento de lhe fazerem os curativos, sofria uma barbaridade. Pelos outros. Ela sempre sofria pelos outros”. Tudo oferecia pela felicidade dos outros, a felicidade que – ela bem o sabia – só se encontra junto de Deus.

Nesse contexto, pode-se avaliar o caráter significativo do seguinte detalhe. Em dezembro de 1958, conseguiu ser levada de carro, a duras penas, ao Centro do Opus Dei que freqüentava em Barcelona, um Centro cultural chamado Llar. Eram os primeiros dias desse mês, e as estudantes praticavam o delicado costume cristão da Novena à Imaculada Conceição.

“Montse – lembra ainda Rosa – queria ir à Novena para rezar a Nossa Senhora. Terminada a Novena, ficava em Llar falando com as estudantes que tinham comparecido e fazendo apostolado, ainda que teria estado muito mais confortável em sua casa, na cama […]. Mas achava que não tinha o direito de pensar em si mesma quando havia tantas pessoas a quem podia aproximar de Deus”. Num desses dias da Novena, em que o oratório estava repleto, com umas sessenta moças, “lembro-me – é sempre Rosa quem conta – de que Montse estava sentada, com a perna apoiada em cima do assento de uma cadeira, porque já não a podia flexionar e nessa posição se sentia melhor. Como sempre, procurava não chamar a atenção. Naquele momento, entrou uma estudante que, na penumbra, não percebeu que Montse tinha a perna apoiada na cadeira e lhe perguntou: – «Está livre?» Ela sorriu e respondeu: – «Sim, sim, por favor, sente-se»…, e foi retirando a perna sem que a outra percebesse, cedendo-lhe o lugar”.

A moça voluntariosa e um tanto caprichosa, agora sorria à contrariedade e a amava, como conseqüência do seu amor a Deus; e ainda, no meio de tantos gestos de singelo heroísmo, desculpava-se às vezes: – “Que pouco sofrida eu sou, não é verdade? Olhe que vergonha”…

Equipe do Opus Alegria

(Para elaboração desse relato, selecionamos os textos do livro “A paciência” de Francisco Faus, Ed. Quadrante, São Paulo, 1995. Por sua vez, todos os fatos e depoimentos citados foram extraídos do livro de J. M. Cejas, “Montse Grases, La alegría de la entrega”, Rialp, Madrid, 1993, e reproduzidos resumidamente.)

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