In obrigado, Opus Dei
Por Caroline Bonacin
Explicação do processo de discernimento da vocação de uma amiga à Caroline e a sua visão desse processo como um quebra-cabeça de duas faces: vocação / liberdade.

Conheci um Centro Cultural do Opus Dei em 2001 com uma amiga de trabalho. A partir deste momento não parei mais de freqüentá-lo. Dei muitas aulas de catequese, reforço escolar, participei dos meios de formação, promoções rurais e de muitas outras atividades que este oferece, em relação a formação pessoal e espiritual.

Fazia uns três anos que freqüentava este Centro Cultural quando comecei a sentir uma certa inquietação e percebi que Deus queria mais de mim. Foi quando procurei uma pessoa do Opus Dei e pedi que me ajudasse a descobrir se eu tinha ou não uma vocação.

Lembro-me da conversa que tivemos e, com a ajuda desta pessoa que me orientou, transcrevo-a abaixo:

– Todo o cristão tem uma vocação. Todos nós, por termos recebido o Batismo e nos termos tornados filhos de Deus, somos chamados por Cristo a viver com Ele, procurando conhecê-lo e amá-lo cada vez mais, meditando o Evangelho, praticando os sacramentos e a oração, dedicando-nos uns aos outros; todos nós somos chamados por Cristo a levá-lo aos outros, com o nosso exemplo e com a nossa palavra; todos e cada um dos cristãos temos uma missão a desempenhar nesse mundo, nos diversos âmbitos da nossa vida: na família, na sociedade, no nosso trabalho profissional…

Cada pessoa tem a sua vocação particular, específica, com características próprias. Assim como seu pai, sua mãe, seus irmãos, você tem vocação, uma vocação cristã.

– E há pessoas que são chamadas por Deus para fazerem parte de uma instituição da Igreja…

– Sem dúvida, Deus chama algumas pessoas a fazerem parte de uma instituição: a desempenharem uma mesma missão específica e a viverem em grandes linhas um mesmo espírito e até mesmo, algumas vezes, como é o caso das freiras, a viverem em comunidade. Deus deu aos fundadores dessas entidades ou instituições e dos movimentos da Igreja, um carisma, uma missão e uma espiritualidade cristã com características, com nuances bem determinadas, abrindo novos caminhos da Igreja.

– E como se consegue descobrir qual é o nosso caminho?

– Gosto de utilizar uma comparação para o processo de discernimento da vocação: a imagem do quebra-cabeça…Você já deve ter montado um quebra-cabeça, não?! Para montá-lo é preciso identificar as peças e encaixá-las umas nas outras até que forme uma imagem. Pois bem, penso que para nós vermos a nossa vocação cristã temos que encaixar as peças que Deus nos dá, durante a nossa vida, até que se possa visualizar a imagem da vocação. É preciso ter presente que esse quebra-cabeça só será montado por completo no final da nossa vida, mas que é possível descobrir a imagem bem antes do término. É muito interessante perceber como uma mesma peça encaixa perfeitamente para alguns e para outros não, pois cada indivíduo possui uma vocação única. O mais importante é que cada pessoa deve montá-lo sozinha, ninguém o pode fazer por ela.

– E quais são as possíveis “peças” do quebra-cabeça da vocação?

– Uma peça imprescindível é a do amor a Deus. A pessoa faz a sua descoberta do amor a Deus por ela e deseja corresponder com todo o seu amor. Isso ocorre normalmente quando a pessoa passa a ter uma vida de intenso trato e intimidade com Deus em diversos momentos da vida… e Deus vai lhe pedindo cada vez mais amor, até o ponto que a pessoa percebe que Ele está lhe pedindo todo o seu coração. Com São Josemaria Escrivá aconteceu assim. Ele mesmo relatou: Comecei a vislumbrar o amor, a dar-me conta de que o coração me pedia algo grande e que fosse amor…Eu não sabia o que Deus queria de mim, mas era evidentemente uma escolha.

Uma segunda peça presente no quebra-cabeça de muitas pessoas é o desejo de gastar a sua vida para levar as demais pessoas a Deus, e ajudá-las a alcançar a santificação desta vida e a felicidade eterna. Muitas pessoas experimentam uma grande realização ao aproximarem os outros de Deus, que pouco a pouco vai se transformando em desejo de gastar as suas melhores energias, de dar a vida nessa tarefa.

A terceira peça possível é a identificação e o enamoramento progressivo pelo espírito cristão, que cala fundo na alma…A pessoa se sente atraída especialmente por alguma vivência cristã: a consideração de que Deus é Pai, a presença de Deus contínua ao longo do dia, a ajuda aos mais necessitados, a constatação de que a Igreja é divina e é uma família…

Então chegou o momento em que fui direto ao assunto:

– E como uma pessoa pode saber se possui vocação ao Opus Dei?

– Existem estes três fatores que eu já lhe disse e outros, mais próprios da vocação a esta Obra de Deus, embora também não lhe sejam exclusivas. São, por exemplo: um grande amor ao mundo em que vivemos, acompanhado do desejo de conduzi-lo a Deus; o desejo de realizar com a maior perfeição possível o trabalho e as diversas atividades do dia a dia, fazendo-as com Deus, por Deus e para servir os outros; o desejo de que todos os cristãos tomem consciência de que podem e devem lutar por serem santos, esforçando-se por fazerem tudo bem feito.

Aquela explicação foi o bastante para que eu tirasse duas conclusões: A primeira era a de que eu me identificava intensamente com tudo o que esta pessoa me falava, e a segunda… é a que eu estava morrendo de medo com o que tudo isso poderia significar. Foi um medo como eu senti quando fui escolher meu curso universitário e como aquele que as pessoas sentem quando sabem que deverão tomar uma decisão para toda a vida: casar e saber se aquela é a pessoa certa, ou como a de um seminarista na véspera de sua ordenação.

Pelo medo que senti, disse à pessoa que me deu a explicação do quebra-cabeça, que não queria falar mais de vocação.

Ela apenas me disse: “se algum dia você quiser voltar a falar do assunto, você é que terá que tomar a iniciativa, pois respeito a sua decisão”.

Aos poucos fui percebendo tantos pontos que apontavam para esta vocação de numerária, que me parecia impossível imaginar-me fazendo outra coisa que não fosse esse buscar a santidade no meio do mundo através do apostolado de amizade e confidência.

Eu poderia ter ficado quieta para sempre, mas não era o que Deus me pedia e nem mesmo o que eu queria.

Passaram-se muitos meses e fui me acostumando com a idéia de ser numerária, lembro-me perfeitamente do dia em que aceitei plenamente.

Juntei um pouco de coragem e pedi para voltar a falar sobre a minha vocação. Explicaram-me com todos os detalhes as características da vocação de numerária, os compromissos e as exigências que traz consigo uma vocação como essa, e não me senti pressionada em nenhum momento, em vez disso as pessoas falavam para que eu pensasse bem na minha escolha e eu, livremente, decidi: pedi admissão ao Opus Dei. Posso dizer hoje que não me arrependo nem um pouco desta minha escolha e a cada dia a confirmo mais.

Ao montar o quebra-cabeça da vocação, dei a volta a todas as peças e percebi que o quebra-cabeça que eu tinha montado era de duas faces: de um lado a minha vocação e do outro a minha liberdade. Compreendi que é assim que sempre Deus age conosco: mostra delicadamente o nosso caminho, pede o nosso coração, respeita a liberdade que Ele nos deu e aguarda, com muita paciência, a nossa resposta livre e sincera.

Caroline Bonacin

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