Meu encontro com um santo

Por Cônego José Mayer Paíne
Por ocasião da Canonização de São Josemaria Escrivá, o Côn. José Mayer Paíne, da Arquidiocese de São Paulo, descreveu, comovido, no boletim da Paróquia de Santa Generosa – que dirige como pároco faz mais de 50 anos! – os seus encontros pessoais com São Josemaria Escrivá, em São Paulo, nos dias 31 de maio e 4 de junho de 1974. O cônego Paíne atualmente* conta 87 anos de idade e 62 anos de ordenação sacerdotal, e é um dos padres mais estimados dos Bispos e do clero em São Paulo.

Prelúdio

Lá pelo ano de 1964, andava eu pelas ruas da cidade, observando vitrinas de livrarias e lojas de artigos religiosos, à cata de um presentinho para regalar as professoras de religião de nossas crianças, pelo “Dia Nacional da Catequista”, comemorado no Brasil no último domingo de agosto.

Vagava ao léu, quando por acaso entrei numa loja em que nunca dantes tinha entrado; procura daqui, mexe ali e nada me agradava. Detive-me por algum tempo diante de uma estante de livros lendo seus títulos e seus autores. Ao acaso puxei um e pus-me a folheá-lo a esmo sem conta nem medida premeditadas, avaliando a olho fosco o apóstolo que o escreveu sem vaidade ou preocupações pessoais, floreando com fino tato e bom gosto, quanto lhe caía da pena. Percebi que escrevia bem para que o lessem bem, para atrair, convencer, conquistar. Versava, com igual amor, pensamentos soltos cheios de piedade, conselhos de direção. Escrevia como via, como sentia, com esplendor radioso de um coração amante. Ressumava de suas belas e ingênuas alegorias o suco delicioso da piedade cristã. Esse autor, pensei comigo, escreve como um santo; este livro é só comparável à Imitação de Cristo. Retornei à capa e à contracapa, para ler às orelhas quem seria o artista da palavra para escrever coisas espirituais com tanto amor e ideal alcandorado! O autor, li no frontispício, Josemaria Escrivá: e quem é esse Josemaria Escrivá? E o livro intitulava-se “Caminho” na sua primeira edição brasileira. Fosse quem fosse o autor, apaixonei-me pelo livro. Não tive mais dúvidas: encontrei o presente que procurava para as minhas catequistas. Chamei o balconista e pedi que embrulhasse doze exemplares para presente… (Hoje, o livro está na 5ª edição brasileira, tendo já alcançado 147 edições em 34 línguas diferentes).

Essa foi a primeira notícia – fortuita – que tive do Santo de hoje e o “Caminho” que a Divina providência traçou para eu conhecer a Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz e o Opus Dei.

Uma Romaria

Chegou-me aos ouvidos que o autor do livro que tanto apreciei, Josemaria Escrivá, viria ao Brasil e, sendo profundo devoto de Nossa Senhora, é seu costume, para onde quer que vá, sobretudo quando de sua primeira visita, fazer romaria a um santuário mariano. Disseram-me ainda que, vindo a São Paulo, ele se encontraria em Aparecida como peregrino, no dia 28 de maio. Era o ano de 1974.

Diante disso, pensei comigo, é uma dupla oportunidade: se for a Aparecia, visitarei Nossa Senhora e, quem sabe, terei a oportunidade de ver de perto o Homem de Deus que escreveu o precioso livrinho que dei de presente às minhas catequistas: “Caminho”.

Não tive dúvida: na manhã de 28 de maio, após a missa na paróquia, com mais dois sacerdotes, amigos meus, com minha “Variant-73”, metemo-nos Via Dutra afora. Pela estrada, os bons amigos, sacerdotes do Opus Dei, que já me conheciam há algum tempo, vendo minha ansiedade por aquela peregrinação, puseram-se a contar a história do abençoado livrinho, dizendo-me dos milhões de pessoas que encontraram na sua leitura “um apoio para as suas vidas, um código de santidade, onde o Autor, com paternal solicitude, repreende e corrige, persuadindo e não ameaçando… são parágrafos breves que chegam ao coração, como pérolas soltas de um colar…”

Eu já conhecia o caminho de santidade que São Josemaria – inspirado por Deus – abriu em 2 de outubro de 1928, o Opus Dei, hoje Prelazia do Opus Dei, que “visa a incentivar a procura da perfeição cristã entre pessoas de todas as classes sociais, homens, mulheres, sacerdotes ou leigos, nos ambientes em que vivem…”. Ouvindo explicações mais detalhadas sobre esta Obra de Deus, enquanto o carro rodava, eu me via como os discípulos de Emaús, quando caminhavam com o Mestre Ressuscitado, sentindo arder em meu coração uma grande admiração pela espiritualidade do Opus Dei, e um desejo imenso de incorporá-la à minha vida.

Chegamos a Aparecida. A cidade fervilhava de peregrinos, vindos de todos os cantos e por todos os meios: de carro, de ônibus, de trem; a Basílica velha tornou-se pequena para tanta gente; todos, como eu, pareciam querer ver como reza um santo à Santa Mãe de Deus. Entrando na igreja, o Padre ajoelhou-se no chão frio do presbitério, negando-se a receber sequer uma almofada que lhe era oferecida. O quanto pude perceber, lá estava ele, firme, ereto, de olhos fixos na pequena imagem, enquanto seus dedos iam desfilando as contas de um Rosário, alternando com o vozerio piedoso daquele imenso grupo de romeiros. Foi um espetáculo inefável até hoje gravado, indelevelmente, nas minhas retinas e memória.

Para que nunca me esqueça do que meus olhos viram, entrei numa livraria, comprei um bloco de papel de carta e ali mesmo, sobre o balcão, fui escrevendo, “ex abundantia cordis“, o que me vinha do coração.

A aglomerada reunião foi se dispersando: o Padre retornava para São Paulo de helicóptero; enquanto cada viandeiro procurava seu veículo, uma locomotiva da Central, na estação, apitava chamando os errantes que vagueavam desprovidos de condução própria.

Uma tertúlia

Os sacerdotes do Opus Dei, aproveitando a presença de seu Fundador, combinaram uma audiência com alguns padres amigos, no Centro de Estudos Universitários do Sumaré, dia 31 de maio. Para gáudio meu, fiz parte desse grupo. Enquanto os convidados aguardavam a chegada de Mons. Escrivá, por um ato de singular amizade, levaram-me a esperá-lo num dos corredores do Centro. Ele não se fez demorar: com seu largo sorriso, de longe, já com os braços abertos, como se me conhecesse há tempos, vem ao meu encontro e cai de joelhos, pedindo-me que o abençoasse! Confuso com esse gesto inesperado, acabei esquecendo a fórmula tão proverbial da bênção sacerdotal. Refeito do susto, ocorreram-me tão somente as palavras de São João Batista a Nosso Senhor, quando este lhe pedia que o batizasse: “eu é que devo ser batizado por vós e vós vindes a mim?” O Padre não quis saber de nada e ficou esperando pela bênção. Quando ele se levantou, foi minha vez de lhe pedir a bênção, o que fez com muito carinho e, abraçado a mim, dirigiu-se para a sala de audiência. Num diálogo familiar e simples foi respondendo com muita firmeza, bondade e afeto às perguntas que lhe faziam; terminou abençoando a todos nós, sempre sorridente…

Um feliz encontro

4 de junho de 1974. No Centro de Estudos do Sumaré, eram 17 horas e trinta minutos de uma terça-feira. Era o dia marcado para um encontro pessoal com o Padre. Acompanhado pelo Vigário da Obra no Brasil e pelo sacerdote que me havia conseguido essa audiência, entra o Padre e me cumprimenta com um apertado abraço, um beijo na testa e, afagando-me o rosto com ambas as mãos, manda-me assentar. Tendo sempre minhas mãos entre as suas e pronunciando múltiplas vezes meu nome, como se fôssemos velhos amigos, vai entabulando uma conversa inteira só de espiritualidade. Suas palavras brotavam espontâneas do coração; falando também com os olhos de paz que se não desgrudavam dos meus, foi traçando um roteiro de santidade, com a altura que eu sonhava no meu tempo de seminário: os exercícios de espiritualidade nunca podem ser esquecidos, malgrado a vida operosa de um sacerdote diocesano no mundo. Um conselho eu posso revelar: “quando estiver com Jesus nas mãos, na hora da elevação, diga sempre a Nosso Senhor as palavras dos Apóstolos: Domine, adauge mihi fidem, spem et caritatem – Senhor, aumenta a minha fé, a esperança e a caridade”. Os outros, guardo-os para mim, como jóias, no escrínio do meu coração, e, para que nunca os esqueça, transcrevi-os também no meu canhenho de espiritualidade. Foi assim que vi, ouvi e falei com um Santo que hoje – 6 de outubro de 2002 – a Santa Igreja canonizou!

Beatificação

Olhando ainda para trás, com minha querida e inesquecível irmã e mais uma dedicada paroquiana, engrossamos a turma de brasileiros que lotaram o avião rumo à Cidade Eterna a fim de participarmos da solene cerimônia de Beatificação de Mons. Josemaria Escrivá. No dia 17 de maio de 1992 foi um custo chegar à enorme Praça de São Pedro: valeu-me a vaidade da batina de frisos vermelhos de Cônego para abrir caminho diante dos guardas que controlavam as estradas, de acordo com a cor do bilhete de convidado. De todas as partes do mundo, praça e ruas adjacentes eram um mar de peregrinos, falando todas as línguas da Terra com sotaque bem diferente da gente brasileira, mas todos unidos numa só família, a família que o Padre viu, quando Nosso Senhor lhe “mostrou” a Obra. Enquanto grande multidão assistia ao ato pelos telões, tivemos a felicidade de obter um lugar junto ao Obelisco, bem defronte ao eirado onde o Santo Padre concelebraria a missa da beatificação. No frontispício da Basílica, num lindo e grande quadro ainda velado, estava a imagem daquele que, pela autoridade que Cristo conferiu a Pedro e seus sucessores, seria declarado, oficialmente, mais um feliz célico confessor.

Toda a santa missa teve a participação dos fiéis, cantando na língua oficial da Igreja, o latim, as partes fixas do santo Sacrifício. Cantado o Evangelho, o Santo Padre, comovido, lê o decreto pontifício da beatificação e pela primeira vez incensa o quadro do beato postado junto ao altar, enquanto o do frontispício da Basílica vai sendo descoberto sob uma interminável salva e incontidas lágrimas de alegria…

Ao ofertório, uma extensa fila de sacerdotes deixa o interior da Basílica, com cibórios nas mãos e postam-se diante do palanque papal para que as hóstias fossem consagradas. E aqui, mais uma graça me é concedida: entre os felizardos sacerdotes, lá estava eu, honrado que fui com a escolha para distribuir a santa comunhão àquela imensa multidão que lotava a praça; naquele momento bem podia repetir as palavras do centurião romano: “Senhor, eu não sou digno…”

O Padre que por um acaso encontrei no “Caminho” ao procurar um presente; o Padre que vi numa romaria; o Padre que me fez esquecer a bênção sacerdotal; o Padre que me imprimiu na testa um beijo de santidade; o Padre que me levou a Roma para a sua Beatificação, esse é o Padre, São Josemaria Escrivá de Balaguer que invoco, pedindo-lhe as primícias de suas bênçãos para mim e para a Paróquia de Santa Generosa!…Amém!…

Cônego José Mayer Paíne