Evangelho do dia – mês de janeiro de 2014

Janeiro de 2014

01.01.14 – Lc 2, 16-21

16Foram, pressurosos, è encontraram Maria, José e o Menino deitado na manjedoira. 17E, ao verem isto, deram a conhecer o que lhes tinham dito daquele Menino. 18Todos os que ouviram ficaram admirados do que os pastores lhes contaram. 19Maria, por seu turno, conservava todas estas palavras, ponderando-as no seu espí­rito.

20E os pastores voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham visto e ouvido, conforme lhes fora anunciado.

21Quando se completaram oito dias para Ocircuncidarem, deram-Lhe o nome de Jesus, indicado pelo Anjo antes de Ele ter sido concebido no seio materno.

Comentário

16. A pressa dos pastores é fruto da sua alegria e do seu afã por ver o Salvador. Comenta Santo Ambrósio: «Ninguém busca Cristo preguiçosamente» (Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc.). O Evangelista já observou antes que Nossa Senhora, depois da Anunciação, se apressurou a visitar Santa Isabel (Lc l ,39). A alma que deu entrada a Deus no seu coração vive com alegria a visita do Senhor e esta alegria dá asas à sua vida.

19. Em breves palavras este versículo diz muito de Maria Santíssima. Apresenta-no-la serena e contemplativa diante das maravilhas que se estavam a cumprir no nasci­mento do seu divino Filho. Maria penetra-ás com olhar profundo, pondera-as e guarda-as no silêncio da sua alma. Maria Santíssima, mestra de oração! Se a imitarmos, se guardarmos e ponderarmos nos nossos corações o que ouvimos de Jesus e o que Ele faz em nós, estamos a caminho da santidade cristã e não faltará na nossa vida nem a doutrina do Senhor nem a Sua graça. Por outro lado, meditando deste modo os ensinamentos que recebemos de Jesus, vamos aprofundando no mistério de Cristo, e assim «a Tradição apostólica progride na Igreja sob a assistência do Espírito Santo. Com efeito, progride a percepção tanto das coisas como das palavras transmitidas, quer mercê da contemplação e estudo dos crentes, que as meditam no seu coração, quer mercê da íntima inteligência que experi­mentam das coisas espirituais, quer mercê da pregação daqueles que, com a sucessão do episcopado, receberam o carisma da verdade» (Dei Verbum, n. 8).

21. Acerca do significado e do rito da circuncisão, cfr a nota a Lc 1,59. «Jesus» significa «Yahwéh salva» ou «Yahwéh e salvação», isto é, Salvador. Este nome foi imposto ao Menino não por disposição humana, mas para cumprir o que o arcanjo tinha ordenado da parte de Deus à Santíssima Virgem e a São José (cfr Lc 1,31; Mt 1,21).

O fim da Encarnação do Filho de Deus foi a Redenção e a Salvação de todos os homens, e daí que, com razão, se Lhe tenha chamado Jesus, Salvador. Assim o confessamos no Credo: «Que por nós homens e para a nossa salvação, desceu do Céu». «Certamente, houve muitos com este nome (…). Mas, com quanta mais verdade entenderemos que deve ser chamado com este nome o Salvador? Ele, com efeito, trouxe a vida, a liberdade e a salvação eterna não a um povo qualquer, mas a todos os homens de todos os tempos; não em verdade oprimidos pela fome ou pelo domínio dos egípcios ou dos babilônios, mas assentados na sombra da morte e subjugados com as duríssimas cadeias do pecado e do demô­nio» (Catecismo Romano, I, 3,5).

 

02.01.14 – Jo 1, 19-28

19Foi este o testemunho de João, quando os Judeus lhe enviaram, de Jerusalém, sacerdotes e levitas, para lhe perguntarem: Tu quem és? 20Ele confessou e não negou: Eu não sou o Messias — confessou. 21Quem és então? — perguntaram:lhe. — És Elias? Não sou — respondeu ele. És o Profeta? Ele retorquiu: Não! 22Disseram-lhe então: Quem és tu?… É para darmos resposta aos que nos enviaram: Que dizes de ti mesmo? 23Ele declarou:

Sou a voz de um que brada no deserto: «Endireitai o caminho do Senhor», como disse o profeta Isaías.

24Tinham sido enviados alguns dos Fari­seus. 25Interrogaram-no eles, nestes termos: Então porque é que baptizas, se não és o Messias, nem Elias, nem o Profeta? 26Res­pondeu-lhes João, dizendo: Eu baptizo em água; mas no meio de vós se encontra quem vós não conheceis,27Aquele que vem depois de mim; a quem eu não sou digno de desatar as correias das sandálias. 28Deram-se estes factos em Betânia, além-Jordão, onde João estava a baptizar.

Comentário

19-24. Num ambiente de intensa expectativa messiâ­nica, o Baptista aparece como uma figura rodeada de um prestígio extraordinário; prova disso é que as autoridades judaicas enviam personagens qualificadas (sacerdotes e levitas de Jerusalém) a perguntar-lhe se é o Messias.

Chama a atenção a grande humildade de João: adianta-se aos seus interlocutores afirmando: «Não sou o Cristo». Considera-se tão pequeno diante do Senhor que dirá: «Não sou digno de desatar a correia das Suas sandálias» (v. 27). Toda a fama de que desfrutava põe-na ao serviço da sua missão de Precursor do Messias e, com esquecimento total de si mesmo, afirma que «é necessário que Ele cresça e que eu diminua» (Ioh 3,30).

25-26. «Baptizar»: Significava originariamente sub­mergir na água, banhar. O rito da imersão exprimia entre os Judeus a purificação legal daqueles que tivessem contraído alguma impureza prevista pela Lei. Existia também o baptismo dos prosélitos, que era um dos ritos de incorporação dos gentios no povo judeu. Nos manuscritos do Mar Morto fala-se de um baptismo como rito de iniciação e purificação dos adeptos à seita judaica de Qumrán, que existia em tempos de Nosso Senhor.

O baptismo de João tinha um marcado caracter de con­versão interior. As palavras de exortação que pronunciava o Baptista e o reconhecimento humilde dos pecados por parte dos que acorriam a ele dispunham para receber a graça de Cristo. O baptismo de João constituía, pois, um rito de penitência muito apto para preparar o povo para a vinda do Messias, cumprindo-se com isso as profecias que falavam precisamente de uma purificação pela água perante o advento do Reino de Deus nos tempos messiânicos (cfr Zach ;13,1; Ez 36,25; 37,23; ler 4,14). O baptismo de João, todavia, não tinha poder para limpar a alma dos pecados, como faz o Baptismo cristão (cfr Mt 3,11; Mc 1,4). , «Quem vós não conheceis»: Com efeito, Jesus ainda não Se tinha manifestado publicamente como o Messias e Filho de Deus; ainda que alguns O conhecessem enquanto homem, São João Baptista pode afirmar que realmente não O conhe­ciam.

27. O Baptista declara a primazia de Cristo sobre ele por meio da comparação do escravo que desata a correia das sandálias do seu senhor. Para nos aproximarmos de Cristo, que João anuncia, é preciso imitar o Baptista. Como diz Santo Agostinho: «Entenderá estas palavras quem imite a humildade do Precursor… O mérito maior de João é, meus irmãos, este acto de humildade» (In Ioann. Evang., 4,7).

28. Refere-se à cidade de Betânia que estava situada na margem oriental do Jordão, em frente de Jerico, diferente da Betânia onde vivia a família de Lázaro, próximo de Jeru­salém (cfr Ioh 11,18).

 

03.01.14 – Jo 1, 29-34

29No dia seguinte, vê este a Jesus, que vinha ter com ele, e diz: Aí está o Cordeiro de Deus, que vai tirar o pecado do mundo. 30Era d’Este que eu dizia: «Depois de mim vem um homem que passou à minha frente, por­que era antes de mim». 31E eu não O conhe­cia; mas para Ele Se manifestar a Israel é que eu vim baptizar em água.

32João deu mais este testemunho: Eu vi o Espírito que descia do Céu, como uma pomba e permaneceu sobre Ele. 33E eu não O conhe­cia, mas quem me enviou a baptizar em água é que me disse: «Aquele sobre quem vires o Espírito descer e permanecer é que baptiza no Espírito Santo». 34Ora eu vi e sou testemunha de que Ele é o Filho de Deus.

Comentário

29. Pela primeira vez no Evangelho se chama a Cristo «Cordeiro de Deus». Este nome alude ao sacrifício redentor de Cristo. Já Isaías tinha comparado os sofrimentos do Servo de Yahwéh, do Messias, com o sacrifício de um cordeiro (cfr Is 53,7); por outro lado, o sangue do cordeiro pascal, aspergido sobre as portas das casas, tinha servido para livrar da morte os primogênitos dos israelitas no Egipto (cfr Ex 12,6-7). Tudo isso era promessa e figura do verdadeiro Cordeiro, Cristo, vítima no sacrifício do Calvário em favor de toda a humanidade. Por isto. São Paulo dirá que «o nosso Cordeiro pascal, Cristo, foi imolado» (l Cor 5,7). A expressão «Cordeiro de Deus» indica também a inocência imaculada do Redentor (cfr 1Pet 1,18-20; 1Ioh 3,5).

O texto sagrado diz «o pecado do mundo», no singular, para manifestar de modo absoluto que tirou todo o gênero de pecados. Cristo, na verdade, veio livrar-nos do pecado original, que em Adão atingiu todos os homens, e de todos os pecados pessoais.

O livro do Apocalipse revela-nos que Jesus está triunfante e glorioso nos Céus como o «Cordeiro imolado» (Apc 5,6-14), rodeado dos santos, dos mártires e das virgens (Apc 7, 9.14; 14,1-5), dos quais recebe louvor e glória por ser Deus (Apc 7,10).

Sendo a Sagrada Comunhão a participação no Sacrifício de Cristo, os sacerdotes pronunciam estas palavras do Baptista antes de administrar a Sagrada Comunhão, para suscitar nos fiéis o agradecimento ao Senhor por Se ter entregado à morte para nossa salvação e por Se nos dar como alimento das nossas almas.

30-31. João Baptista declara aqui a superioridade de Jesus ao dizer que Ele existia já antes dele, apesar de ter nascido depois. Mostra assim a divindade de Cristo, gerado pelo Pai desde toda a eternidade e nascido de Maria Virgem no tempo. Ê como se o Baptista dissesse: «Embora eu tenha nascido antes d’Ele, a Ele não O limitam os laços do Seu nascimento; porque mesmo quando nasce de Sua Mãe no tempo, foi gerado pelo Pai fora do tempo» (In Evangelia homiliae, 7).

Com as palavras do v. 31 o Precursor não pretende negar o conhecimento pessoal que tinha de Jesus (cfr Lc 1,36 e Mt 3,14), mas manifestar que conheceu por revelação divina o momento de proclamar publicamente a condição do Senhor como Messias e Filho de Deus, e que compreendeu também que a sua própria missão de Precursor não tinha outra finalidade a não ser dar testemunho de Jesus Cristo.

32-34, Para confirmar a divindade de Jesus Cristo, o evangelista recolhe o testemunho do Precursor sobre o Baptismo de Jesus (vejam-se os outros Evangelhos que descrevem com mais pormenor como aconteceu o Baptismo, cfr Mt 3,13-17 e par.). É um dos momentos cume da vida do Senhor em que se revela o mistério da Santíssima Trindade (cfr a nota a Mt 3,16).

A pomba é símbolo do Espírito Santo, de quem se diz no Gen 1,2 que revoava sobre as águas. Com este sinal cum­prem-se as profecias de Is 11,2-5; 42,1-2, segundo as quais o Messias estaria cheio da força do Espírito Santo. O Baptista manifesta a grande diferença entre o seu- baptismo e o de Cristo; em Ioh 3, Jesus falará deste novo Baptismo na água e no Espírito (cfr Act 1,5; Tit 3,5).

«O Filho de Deus»: E de notar que a expressão tem artigo no texto original, o que quer dizer que João Baptista confessa diante dos seus ouvintes o caracter sobrenatural e transcendente do messianismo de Cristo, tão distante da idéia político-religiosa que tinham forjado os dirigentes do judaísmo.

 

04.01.14 – Jo 1, 35-42

35No dia seguinte, novamente se encontrava ali João com dois dos seus discípulos. 36Fitando o olhar em Jesus, que passava, põe-se a dizer: Aí está o Cordeiro de Deus. 37Ora os dois discípulos ouviram-no dizer isto e seguiram a Jesus. 38Voltando-Se Jesus e vendo que eles O seguiam, disse-lhes: Que procurais? Eles responderam: Rabi — que quer dizer Mestre — onde ficas? 39Vinde ver — respondeu-lhes. Foram, pois, ver onde ficava e permaneceram nesse dia junto d’Ele. Era por volta da hora décima.

40André, irmão de Simão Pedro, era um dos dois que tinham ouvido a João e seguido a Jesus. 41Encontra ele primeiro a Simão, seu irmão, e diz-lhe: Encontramos o Messias— que quer dizer Ungido. 42E levou-o a Jesus. Fitando nele o olhar, disse Jesus: Tu és Simão, filho de João; hás-de chamar-te Kefá — que quer dizer Pedro.

Comentário

35-39. Depois das palavras do Baptista, estes dois discí­pulos, movidos interiormente pela graça, aproximaram-se do Senhor. O testemunho de João é um exemplo das graças especiais que Deus outorga para atrair os Seus. Às vezes dirige um chamamento directo e pessoal que move inte­riormente as almas e as convida ao Seu seguimento; outras vezes, como neste caso, quer servir-Se de alguém que está ao nosso lado, que nos conhece e nos situa perante Cristo.

Nos dois discípulos existia já o desejo de ver o Messias; as palavras de João movem-nos a buscar a amizade com o Senhor: não é o interesse meramente humano, mas a perso­nalidade de Cristo que os atrai. Querem conhecê-Lo, ter intimidade com Ele, ser doutrinados por Ele e gozar da Sua companhia. «Vinde e vereis» (l ,39; cfr 11,34): doce convite a iniciar a familiaridade amistosa que buscavam. Necessi­tariam de tempo e de convívio pessoal com Cristo para se assegurarem mais na sua vocação. O apóstolo.São João, um dos protagonistas desta cena, registra o momento em que teve lugar tal episódio: «Era por volta da hora décima», as quatro da tarde aproximadamente.

A fé cristã não se reduz a uma mera curiosidade intelec­tual, mas é toda uma vida que não compreenderá quem realmente não a viva; por isso o Senhor não lhes explica de momento qual é o Seu modo de vida, mas convida-os a que convivam com Ele um dia. São Tomás de Aquino comenta este passo dizendo que o Senhor fala de um modo elevado e místico, porque o que Deus é na Sua glória ou na Sua graça não se pode saber senão por experiência, pois as palavras não conseguem explicá-lo. A esse conhecimento chega-se pelas boas obras (ao convite de Cristo obedeceram imediata­mente, e, como prêmio, «viram»), pelo recolhimento e apli­cação da mente à contemplação das coisas divinas, pelo querer saborear a doçura de Deus, pela assiduidade na oração. A tudo isto convidou o Senhor quando disse «vinde e vereis», e tudo isso puderam alcançá-lo os discípulos quando, prestando atenção ao Senhor, etectivamente «foram» e puderam conhecer por experiência pessoal o que só com as palavras não teriam podido entender (cfr Comentário sobre S. João, ad loc.).

40-41. O Evangelista indica-nos agora o nome de um dos dois discípulos que tinham protagonizado a cena an­terior; voltará a falar de André a propósito da multiplicação dos pães (cfr 6,8) e da última Páscoa (cfr 12,22).

Não se sabe com certeza quem era o segundo dos discí­pulos; mas já desde os primeiros séculos da era cristã se considera que é o próprio Evangelista. A vivacidade do relato, o pormenor de indicar a hora em que sucediam estes factos, e inclusivamente a tendência de João para ficar no anonimato (cfr 19,16; 20,2; 21, 7.20), parecem confirmá-lo.

«O Apóstolo João, que verte no seu Evangelho a expe­riência de uma vida inteira, narra a primeira conversa com o encanto daquilo que nunca mais se pode esquecer: Mestre, onde moras? Disse-lhes Jesus: Vinde e vede. Foram, pois, e viram onde morava e ficaram com Ele aquele dia.

«Diálogo divino e humano, que transformou a vida de João e de André, de Pedro, de Tiago e de tantos outros; que preparou os seus corações para escutarem a palavra impe­riosa que Jesus lhes dirigiu junto ao mar da Galielia» (Cristo que passa, n° 118).

Aquelas horas que tinham passado junto do Senhor produzem depressa os primeiros frutos de apostolado. André, sem poder ocultar a sua alegria, comunica a Simão Pedro a notícia de ter encontrado o Messias e leva-o até Ele. Como então, também agora é urgente fazer que outros conheçam o Senhor.

«Um dia — não quero generalizar, abre o teu coração ao Senhor e conta-Lhe tu a tua história — talvez um amigo, um cristão normal e corrente como tu, te tenha feito descobrir um panorama profundo e novo e ao mesmo tempo tão antigo como o Evangelho. Sugeriu-te a possibilidade de te empenhares seriamente em seguir Cristo, em ser apóstolo de apóstolos. Talvez tenhas perdido então a tranqüilidade e não a terás recuperado, convertida em paz, até que, livre­mente, porque ‘muito bem te apeteceu’ — que é a razão mais sobrenatural — respondeste a Deus que sim. E veio a alegria, vigorosa, constante, que só desaparece quando te afastas d’Ele» (Cristo que passa, n.° 1).

42. Como gostaríamos de contemplar o olhar de Jesus! Aqui, pelas palavras que pronuncia o Senhor, aparece como imperioso e fascinante. Noutras circunstâncias, com o Seu olhar convidará a deixar tudo e a segui-Lo, como no caso de Mateus (Mt 9,9); ou encher-Se-á de amor, como no encontro com o jovem rico (Mc 10,21); ou de ira e de tristeza, vendo a incredulidade dos fariseus (Mc 2,5); de compaixão, diante do filho da viúva de Naim (Lc 7,13); saberá remover o coração de Zaqueu, produzindo a sua conversão (Lc 19,5); enternecer-Se-á diante da fé e da grandeza de ânimo da pobre viúva que deu como esmola tudo o que possuía (Mc 12,41-44). O Seu olhar penetrante punha a descoberto a alma diante de Deus, e suscitava ao mesmo tempo o exame e a contrição. Assim olhou Jesus para a mulher adúltera (Ioh 8,10), e assim olhou para o próprio Pedro que, depois da sua traição (Lc 22,61), chorou amargamente (Mc 14,72).

«Hás-de chamar-te Kefá»: Pôr o nome equivalia a tomar posse do nomeado (cfr Gen 17,5; 22,28; 32,28; Is 62,2). Assim, p. ex., Adão, constituído dono da criação, pôs nome a todas as coisas (Gen 2,20). «Kefá» é transcrição grega de uma palavra aramaica que quer dizer pedra, rocha. Daqui que, escrevendo em grego, São João tenha explicado o significado do termo empregado por Jesus. Kefá não era nome próprio, mas o Senhor impõe-no ao Apóstolo para indicar a função de Vigário Seu, que lhe será revelada mais adiante (Mt 16,16-18): Simão estava destinado a ser pedra, a rocha da Igreja.

Os primeiros cristãos consideravam tão significativo este novo nome que o empregaram sem o traduzir (cfr Gal 2,9.11.14); depois tornou-se corrente a sua tradução — Pedro —, que ocultou o antigo nome do Apóstolo — Simão —.«Filho de João»: A antiga documentação manuscrita oferece variantes, como «filho de Jonas», etc.

 

05.01.14 – Mt 2, 1-12

Nascido Jesus em Belém da Judeia, no tempo do rei Herodes, chegaram a Jerusalém uns Magos, vindos do Oriente, 2que perguntavam: Onde está o rei dos Judeus, nascido há pouco? Pois, vimos a Sua estrela e viemos adorá-Lo.

3Ao ouvir isto, o rei Herodes perturbou-se e toda a Jerusalém com ele. 4Convocou então todos os Príncipes dos Sacerdotes e Escribas do povo e inquiriu deles onde havia de nascer o Messias. 5Responderam-lhe eles: Em Belém da Judeia, porque assim está escrito no profeta: 6«E tu, Belém, Terra de Judá, não és, de modo nenhum, a mais peque­nina entre as principais cidades de Judá, porque de ti sairá um chefe que há-de reger o meu povo, Israel».

7Então Herodes, tendo chamado secretamente os magos, procurou saber deles, com exactidão, o tempo em que a estrela lhes ti­nha aparecido 8e, encaminhando-os para Belém, disse-lhes: Ide e informai-vos bem do Menino e, quando O encontrardes, avisai-me para eu ir também adorá-Lo.

9Eles, depois de ouvirem o rei, partiram. E eis que a estrela que tinham visto no Oriente ia diante deles e parou sobre o lugar onde estava o Menino. 10Ao verem a estrela, sentiram grande alegria. 11E, ao entrarem na casa, viram o Menino com Maria, Sua Mãe e, prostrando-se por terra, adoraram-No. Em seguida, abriram os corres e ofereceram-Lhe presentes: oiro, incenso e mirra. 12Foram depois avisados em sonhos que não regres­sassem à presença de Herodes e retiraram-se por outro caminho, para a sua terra.

Comentário

1. «O rei Herodes»: O Novo Testamento fala de quatro Herodes. O primeiro, Herodes o Grande, a que se referem este passo e o seguinte. O segundo, seu filho, Herodes Antipas, que mandou degolar São João Baptista (Mt 14, 1-12) e que ultrajou Jesus durante a Paixão (Lc 23, 7-11). O terceiro, Herodes Agripa I, neto de Herodes o Grande, que mandou matar o Apóstolo São Tiago, o Maior (Act 12,1-3), que meteu no cárcere Pedro (Act 12,4-7), e que morreu repentinamente e de um modo misterioso (Act 12, 20-23). O quarto, Herodes Agripa II, filho do anterior, perante quem São Paulo, prisio­neiro em Cesareia marítima, se defendeu da acusação dos judeus (Act 25, 23).

Herodes o Grande, do qual aqui se trata, era filho de pais não judeus; tinha conseguido reinar sobre estes com a ajuda e como vassalo do Império Romano. Desenvolveu uma grande actividade política e, entre outras coisas, reconstruiu luxuo­samente o Templo de Jerusalém. Sofreu de mania de perse­guição, vendo por toda a parte competidores da sua realeza; célebre pela sua crueldade, matou a maioria das dez mulheres que teve, alguns filhos e bom número de pessoas influentes na sociedade do seu tempo. Estes dados procedem principal­mente do historiador judeu Flávio Josefo (que escreveu em fins do século I) e concordam com a figura cruel que conhecemos pelos Evangelhos. «Uns Magos»: Estes personagens eram uns sábios prove­nientes provavelmente da Pérsia e dedicados ao estudo das estrelas. Por não serem judeus, são como que as primícias dos gentios que receberão o chamamento à salvaçãoem Cristo. Aadoração dos magos foi recolhida pela tradição mais antiga: já em começos do séc. II se encontra a cena nas pinturas das catacumbas de Priscila em Roma.

2. Os judeus tinham difundido pelo Oriente as esperanças messiânicas. Os magos tinham conhecimento do Messias esperado, rei dos Judeus. O qual, segundo idéias difundidas naquela época, devia ter, como personagem muito impor­tante na história universal, uma estrela relacionada com o seu nascimento. Deus quis valer-se destas concepções para conduzir até Cristo os representantes dos gentios, que haviam de crer.

«Precisamente tinha-se-lhes ocultado antes, para que, ao encontrarem-se sem guia, não tivessem outro remédio senão perguntar aos judeus, e ficasse manifesto a todos o nasci­mento de Cristo» (Hom. sobre S. Mateus, 7).

O mesmo São João Crisóstomo explica que «Deus os chama através do que para eles era mais familiar, e mostra-Ihes uma estrela grande e maravilhosa, para que os impres­sione pela sua própria grandeza e formosura» (Hom. sobre S. Mateus, 6). O chamamento dos magos, enquanto se dedicam ao seu ofício, é um facto que se repete no chama­mento que Deus faz aos homens; chamá-los precisamente entre as ocupações ordinárias da sua vida. Assim chamou Moisés quando pastoreava o rebanho (Ex 3, 1-3), o profeta <Eliseu quando lavrava a sua terra com os bois (1Reg 19, 19-20), Amos quando cuidava o seu gado (Am 7,15)…« O que a ti te admira, a mim parece-me razoável. — Deus foi-te procurar no exercício da tua profissão?

«Foi assim que procurou os primeiros: Pedro, André, João e Tiago, junto das redes; Mateus, sentado à mesa dos impostos…

«E assombra-te! — Paulo, no seu afã de acabar com a semente dos cristãos» (Caminho, n.° 799).

«Tal como os Reis Magos, descobrimos uma estrela que é luz, rumo certo no céu da nossa alma.

«Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo. Também nós tivemos esta experiência. Também nós sentimos que, a pouco e pouco, se acendia na nossa alma uma luz nova: o desejo de ser cristãos em plenitude, o desejo, por assim dizer, de tomar Deus a sério» (Cristo que passa, n.° 32).

4. No tempo de Jesus encontrava-se amplamente difun­dida em todos os ambientes judaicos a esperança da iminente vinda do Messias, concebido sobretudo como rei à maneira de um novo e maior David. Daqui a perturbação de Herodes, rei dos Judeus com o apoio dos romanos e cruelmente zeloso da defesa da sua coroa. Pela sua ambição política e pela sua carência de sentido religioso, Herodes viu o possível Messias–Rei como um perigoso competidor do seu poder temporal.

No tempo de Nosso Senhor, tanto o regime monárquico de Herodes como o regime de ocupação directa romana por meio dos procuradores tinham respeitado o organismo representativo do próprio povo judaico, constituído pelo Sinédrio. Este era, pois, o grande conselho da nação, que intervinha nos assuntos ordinários, religiosos ou civis. A execução dos assuntos mais importantes necessitava da aprovação, quer do rei (no tempo da monarquia herodiana), quer do procurador (no tempo da ocupação directa da Palestina pelo Império Romano).

Em recordação de Ex 24, 1-9 e Num 11, 16, o Sinédrio compunha-se de 71 membros, presididos pelo sumo sacerdote, escolhidos entre os seguintes três estratos ou grupos do povo judaico: l.° Os príncipes dos sacerdotes, quer dizer, os chefes das principais famílias sacerdotais, entre as quais costumava recair a nomeação do sumo sacerdote, e aqueles que tinham cessado neste cargo. 2.° Os anciãos, que eram os chefes das principais famílias. 3.° Os escribas, que eram os doutores da lei ou peritos nas questões legais e religiosas; a maior parte destes escribas pertencia ao partido ou escola dos fariseus.

Neste passo de Mateus só se mencionam o l.° e 3.° destes grupos que compunham o Sinédrio: isso é lógico, visto que o grupo dos anciãos não era entendido no assunto do nascimento do Messias, que era uma questão eminentemente religiosa.

5-6. A profecia a que se refere o passo é concretamente a de Miqueias 5, 1. É de notar que na tradição judaica se interpretava esta profecia como predição do lugar exacto do nascimento do Messias, e que este era um personagem determinado.

O livro sagrado ensina-nos uma vez mais queem Jesus Cristose cumprem as profecias do Antigo Testamento.

8. Herodes pretendia saber com exactidão onde estava o Menino não precisamente para O adorar, como dizia, mas para se livrar d’Ele, segundo a visão puramente política que tinha o então rei dos Judeus. A sua astúcia e maldade não podem impedir que se cumpram os desígnios de Deus. Por cima dos cálculos de Herodes é da sua ambição estavam a sabedoria e o poder divinos para realizar a salvação.

9. «Quase sempre por nossa culpa, em certos momentos da nossa vida interior, acontece-nos o que aconteceu na viagem dos Reis Magos: a estrela oculta-se (…). Que havemos de fazer então? Seguir o exemplo daqueles homens santos: perguntar. Herodes serviu-se da ciência para proceder de modo injusto; os Reis Magos utilizam-na para fazer o bem. Mas nós, cristãos, não temos necessidade de perguntar a Herodes ou aos sábios da Terra. Cristo deu à Sua Igreja a segurança da doutrina, a corrente de graça dos Sacramentos; e providenciou para que haja pessoas que nos orientem, que nos conduzam, que nos recordem constantemente o caminho» (Cristo que passa, n.° 34).

10. «E por quê tanta alegria? Porque eles, que nunca duvidaram, recebem do Senhor a prova de que a estrela não tinha desaparecido; tinham deixado de a ver sensivelmente, mas tinham-na conservado sempre na alma. Assim é a vocação cristã: se não se perde a fé, se se mantém a esperança em Jesus Cristo que estará connosco até à consumação dos séculos (Mt XXVIII, 20), a estrela reaparece. E, ao verificar uma vez mais a realidade da vocação, nasce em nós uma alegria maior, que aumenta a nossa fé, a nossa esperança, o nosso amor (Cristo que passa, n.° 35).

11. Os dons oferecidos — ouro, incenso e mirra — eram os mais preciosos do Oriente. O homem tem necessidade de oferecer presentes para testemunhar a sua veneração e a sua fé. Já que não pode oferecer-se o próprio homem como desejaria, oferece em seu lugar o que é mais valioso e lhe é mais querido.

Os profetas e o salmista tinham predito para os tempos messiânicos a submissão a Deus dos reis da terra 0s 49, 23), com o oferecimento dos seus bens (Is 60, 5) e a adoração (Ps72,10-15). Com este acto dos magos e o oferecimento dos seus dons a Jesus, Deus e homem, começam a cumprir-se estas profecias.

O Concilio de Trento cita expressamente este passo da adoração dos magos ao ensinar o culto que se deve dar a Cristo na Eucaristia: «Todos os fiéis de Cristo na sua veneração deste Santíssimo Sacramento devem tributar-lhe aquele culto de latria que é devido ao verdadeiro Deus (…). Porque cremos que nele está presente aquele mesmo Deus, de Quem, ao introduzi-Lo o Pai no orbe da terra, diz: E adorem-No todos os anjos de Deus (Heb 1 ,6; cfr Ps 97, 7); a Quem os magos, prostrando-se por terra, adoraram (cfr Mt 2, 11), de Quem, enfim, a Escritura testemunha (cfr Mt 28, 17) que Q adoraram os Apóstolos na Galileia» (De SS. Eucharistia, çap. 5).

Também a propósito deste versículo, comentava São Gregório de Nazianzo: « Nós permaneçamos em adoração; e a Quem por causa da nossa salvação Se humilhou a tal grau de pobreza que recebeu o nosso corpo, ofereçamos, não já Incenso, ouro e mirra — o primeiro como a Deus, o segundo como a rei e o terceiro como Aquele que buscou a morte por nossa causa —, mas dons espirituais, mais sublimes que os que se vêem com os olhos» (Oratio, 19).

12. A intervenção dos magos nos acontecimentos de Belém termina com um novo acto de delicada obediência e Cooperação com os planos de Deus. Também o cristão deve ser dócil até ao fim à graça e à missão concreta que Deus lhe confie, ainda que isto suponha modificar os planos pessoais que se tenha proposto.

 

06.01.14 – Mt 4, 12-17.23-25

12Quando ouviu que João fora entregue, retirou-se para a Galileia. 13E, deixando Nazaré, passou a morar em Cafarnaum, àbeira-mar, nos confins de Zabulão e de Neftalim, 14para se cumprir o que fora anun­ciado pelo profeta Isaías, que diz: 15«Terra de Zabulão e terra de Neftalim, para os lados do mar, terra de Além-Jordão, Galileia dos Gentios:

16O povo que jazia nas trevas viu uma grande luz, e a luz amanheceu aos que jaziam na região caliginosa da morte».

17Desde então, começou Jesus a pregar e a dizer: Fazei penitência, porque está próximo o Reino dos Céus.

23E Jesus discorria por toda a Galileia, ensinando nas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino e curando todas as doenças e todas as enfermidades no povo. 24A Sua fama espalhou-se por toda a Síria, e traziam-Lhe todos os doentes, atormentados de várias enfermidades e padecimentos, possessos, lunáticos e paralíticos, e Ele curava-os. 25E seguiam-No grandes multidões da Galileia, da Decápole, de Jerusalém, da Judeia e da Transjordânia

Comentário

17. Veja-se a nota a Mt 3, 2. O versículo indica a transcendência do momento inicial da pregação pública de Jesus, que começa pela proclamação da iminência do Reino de Deus. Jesus entronca na proclamação de João Baptista: pode apreciar-se uma coincidência até literal entre a segunda frase deste versículo e Mt 3,2. Esta coincidência sublinha a função que teve São João Baptista como profeta e precursor de Jesus. Tanto o Baptista como Nosso Senhor exigem o arrependimento, a penitência, como condição prévia para o acolhimento do Reino de Deus que começa.

O reinado de Deus sobre os homens é tema central da Revelação de Jesus Cristo, como o tinha sido no AT. Mas então, o Reino de Deus tinha tido uma matização que se pode chamar teocrática: Deus reinava sobre Israel tanto no espi­ritual como no temporal, e, por meio dele, submeteria ao Seu domínio as outras nações. Agora Jesus irá explicando de modo progressivo a renovada natureza deste Reino de Deus, que chegou à sua plenitude, situando-o no seu plano espiritual de amor e santidade, e purificando-o dos desvios nacionalistas dos judeus.

Este Reino, para o qual o Rei convida todos sem excepção (cfr Mt 22, 1-14), tem na terra o seu Banquete, que exige certas condições, que os propagadores deste Reino hão-de pregar. «Portanto, o banquete eucarístico é o centro da assembléia dos fiéis a que o presbítero preside. Por isso, os presbíteros ensinam os fiéis a oferecer a Deus Pai a vítima divina no sacrifício da missa, e a fazer, com ela, a oblação da sua vida; com o espírito de Cristo Pastor, ensinam-nos a submeter de coração contrito à Igreja no sacramento da Peni­tência os próprios pecados, de tal modo que se convertam cada vez mais no Senhor, lembrados das Suas palavras: ‘Fazei penitência, porque o reino dos céus está próximo’» (Presbyterorum ordinis, n. 5).

23. «Sinagoga»: E um nome de origem grega que designa o edifício onde se reúnem os judeus, no dia de Sábado e noutros dias festivos, para celebrar os cultos religiosos, exceptuados os sacrifícios, que só podiam realizar-se no Templo de Jerusalém. A sinagoga era também o lugar onde se atendia à formação religiosa dos judeus. Eram também indicadas com este nome as pequenas comunidades judaicas dentro da Palestina ou no estrangeiro.

24. «Lunático»: De modo muito genérico aplicava-se este nome aos que padeciam de afecçoes de tipo epiléptico, que segundo a opinião vulgar dependiam das fases da lua.

23-25. Encontramos aqui um magnífico sumário, onde o Evangelista resume em poucas linhas amplos aspectos da actividade de Jesus. A pregação do evangelho ou «boa nova» do Reino, as curas de doenças e as expulsões de demônios são sinais específicos da actividade do Messias, conforme as profecias do Antigo Testamento (Is 35,5-6;61, l; 40,9; 52,7).

 

07.01.14 – Mc 6, 34-44

34Ao desembarcar, viu uma grande multidão e condoeu-Se dela, por­que eram como ovelhas sem pastor, e come­çou a ensinar-lhes muitas coisas. 35Quando a hora ia já muito adiantada, chegaram-se a Ele os discípulos e disseram-Lhe: Este lugar é deserto e a hora vai adiantada; 36despede-os, para que vão aos campos e aldeias circunvizinhas comprar alguma coisa de comer. 37Mas Ele respondeu-lhes: Dai-lhes vós mesmos de comer. Tornaram-Lhe eles: Queres então que vamos comprar duzentos dinheiros de pão para lhes darmos de comer? 38E Ele: Quantos pães tendes? Ide ver. Infor­maram-se e disseram-Lhe: Cinco e dois peixes.

39Ordenou-lhes então que os mandassem sentar a todos, em grupos, sobre a relva verde. 40E eles sentaram-se, repartidos em grupos de cem e de cinqüenta.41 Então tomou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos ao céu, pronunciou a fórmula da bênção, partiu os pães e ia-os dando aos discípulos para que lhos servissem e repartiu também os dois peixes por todos. 42Comeram todos, até se saciarem. 43E recolheram doze cestos cheios de pedaços de pão e de restos dos peixes. 44Ora os que tinham comido dos pães eram cinco mil homens.

Comentário

34. O Senhor fez planos para descansar algum tempo, juntamente com os Seus discípulos, das absorventes tarefas apostólicas (Mc 6, 31-32). Mas não os pode levar a cabo pela presença de um grande número de gente que acorre a Ele ávida da Sua palavra. Jesus Cristo não só não Se aborrece com eles, mas sente compaixão ao ver a necessidade espiritual que têm. «Morre o Meu povo por falta de doutrina» (Os 4, 6). Necessitam de instrução e o Senhor quer satisfazer esta necessidade por meio da pregação. «A fome e a dor comovem Jesus, mas sobretudo comove-O a ignorância» (Cristo que passa, n.°109).

37. O salário normal de um jornaleiro era um denário. Os discípulos devem ter pensado, portanto, que era pouco menos que impossível cumprir a ordem do Mestre, pois não levariam consigo tanto dinheiro.

41. Este milagre é uma figura da Santíssima Eucaristia: Cristo realizou-o pouco antes da promessa deste sacramento (cfr Ioh 6, l ss.), e é constante esta doutrina nos Santos Padres. No milagre Jesus dá prova do Seu poder sobrenatural e do Seu amor aos homens. Poder e amor que tornarão também possível que o único Corpo de Cristo esteja presente nas espécies consagradas, para alimentar as multidões dos fiéis através da história. Como se diz na seqüência que compôs São Tomás de Aquino para a Missa do Corpus Christi:« Sumit unus, sumunt mille; quantum isti, tantum ille, nec sumptus consumitur» (Quer O tome um ou O tomem mil, tomam o mesmo estes que aquele, não se esgota por ser tomado).

O próprio gesto do Senhor — elevar os olhos ao céu — é recordado pela Liturgia da Igreja no cânon romano da Santa Missa: «Et elevatis oculis in caelum, ad Te Deum Patrem suum omnipotentem…». Ao recordá-lo preparamo-nos para assistir a um milagre maior que a multiplicação dos pães: a conversão do pão no Seu próprio Corpo, que é oferecido sem medida como alimento a todos os homens.

42-44. Cristo quis que fossem recolhidas as sobras da­quela refeição (cfr Ioh 6, 12), para que aprendamos a não esbanjar os bens que Deus nos dá e para que servisse como prova tangível do milagre realizado.

A recolha do que sobrou é um modo pedagógico de nos mostrar o valor das coisas pequenas feitas com amor de Deus: a ordem nos pormenores materiais, a limpeza, o acabar as tarefas até ao fim. Também a alma crente se compraz em adivinhar neste facto o sumo cuidado na reserva das espécies eucarísticas.

Por outro lado, o esplendor do milagre é uma mostra da plenitude messiânica. Os Santos Padres fazem notar que Moisés distribuía «o maná» segundo as necessidades de cada um, de modo que o que sobrava se enchia de vermes (Ex 16, 16-20). Elias deu à viúva o que era indispensável para o seu sustento (1Reg 17, 13-16). Jesus, porém, dá com genero­sidade, com abundância.

 

08.01.14 – Mc 6, 45-52

45E Ele obrigou logo os Seus discípulos a embarcar e ir adiante para o outro lado, para Betsaida, enquanto Ele despedia o povo. 46Depois de os mandar embora, reti­rou-Se para o monte, a orar.

47 Ao cair da noite, estava o barco a meio do mar, e Ele sozinho em terra. 48Vendo-os afadigados a remar, pois o vento era-lhes contrário, cerca da quarta vigília da noite, vem ter com eles, caminhando sobre o mar, e queria passar-lhes adiante. 49Eles, ao verem-No caminhar sobre o mar, julgaram que era um fantasma e gritaram; 50porque todos O tinham visto e ficaram assustados. Mas logo Ele lhes falou, dizendo: Tende confiança, sou Eu, não temais. 51E subiu para junto deles, no barco e cessou o vento. Com isto ficavam ainda muitíssimo mais assombrados, 52pois nem com os pães tinham compreendido, por terem a inteligência obtusa.

Comentário

48. A noite, segundo o uso romano, dividia-se em quatro partes ou vigílias, cuja duração variava em cada época do ano. São Marcos dá o nome popular das quatro em 13, 35; entardecer, meia noite, canto do galo e aurora. O Senhor, portanto, dirigiu-se aos discípulos pelo amanhecer.

Com este inolvidável acontecimento quis ensinar-lhes que no meio das situações mais apertadas e inexplicáveis da vida, Ele está próximo de nós para nos ajudar a seguir para a frente, não sem antes nos ter deixado lutar para que se fortaleça a nossa esperança e se forge o nosso caracter (cfr a nota a Mt 14, 24-33), como diz um antigo comentador grego: « O Senhor permitiu que os Seus discípulos corressem perigo para que se tornassem pacientes, e não lhes acudiu imedia­tamente, mas deixou-os no perigo toda a noite, a fim de os ensinar a esperar com paciência e para que não se acostu­massem a receber imediatamente o socorro nas tribulações» (Enarratio in Evangelium Marci, ad loc.).

52. Os discípulos não acabam de entender os milagres de Jesus como sinais da Sua divindade. Assim acontece diante dos milagres da multiplicação dos pães e dos peixes (Mc 6, 33-44) e da segunda multiplicação dos pães (Mc 8, 17). Diante destas maravilhas sobrenaturais, os Apóstolos têm ainda o seu coração e a sua inteligência endurecidos; não chegam a descobrir em toda a sua profundidade o que Jesus lhes está a ensinar com os Seus feitos: que Ele é o Filho de Deus. Jesus Cristo é compreensivo e paciente com estes defeitos dos Seus discípulos: também não entenderão quando Jesus lhes falar da Sua própria Paixão (Lc 18, 34). O Senhor multiplicará os Seus ensinamentos e milagres para iluminar as inteligências dos discípulos, e mais tarde enviará o Espírito Santo, que lhes ensinará todas as coisas e lhes recordará os Seus ensinamentos (cfr Ioh 14,26).

São Beda o Venerável faz o seguinte comentário a todo o episódio (Mc 6, 45-52): «Em sentido místico, o trabalho dos discípulos a remar e o vento contrário assinalam os trabalhos da Igreja santa que, entre as vagas do mundo inimigo e a exalação dos espíritos imundos, se esforça por chegar ao descanso da pátria celeste. Com razão, pois, se diz que a barca estava no meio do mar e Ele só em terra, porque a Igreja nunca foi tão intensamente perseguida pelos gentios que parecesse que o Redentor a tivesse abandonado de todo. Mas o Senhor vê os Seus a lutar no mar e, para que não desfaleçam nas tribulações, fortalece-os com o seu olhar de misericórdia e algumas vezes livra-os do perigo com a Sua clara ajuda» (In Marci Evangelium expositio, ad loc.).

 

09.01.14 – Lc 4, 14 – 22a

14Voltou Jesus com a força do Espírito para a Galileia, e a Sua fama propagou-se por toda a região. 15Ensinava pessoalmente nas sinagogas daquela gente, sendo elogiado por todos.

16Veio a Nazaré, onde Se tinha criado. Segundo o Seu costume, entrou em dia de sábado na sinagoga e levantou-Se para ler. 17Foi-Lhe entregue o Livro do Profeta Isaías e, ao abri-lo, deparou com a passagem em que estava escrito:

18O Espírito do Senhor está sobre Mim, por isso que Me ungiu a anunciar a Boa. Nova aos pobres Me enviou, a proclamar a libertação aos cativos e o recobrar da vista aos cegos, a mandar em liberdade os oprimidos, 19a proclamar um ano de graça do Senhor.

 20E, depois de enrolar o livro, entregou-o ao empregado e sentou-Se. Estavam cra­vados n’Ele os olhos de quantos se encontra­vam na sinagoga. 21Começou então a dizer-lhes: Cumpriu-se hoje este passo da Escritura que acabais de ouvir. 22Todos davam testemunho em favor d’Ele e admiravam-se com as graciosas palavras que saíam da Sua boca.

Comentário

16-30. O sábado era o dia de descanso e de oração para os Judeus, por mandamento de Deus (Ex 20,8-11). Neste dia reuniam-se para se instruírem na Sagrada Escritura. Começava a reunião recitando todos juntos a Shemá, resumo dos preceitos do Senhor, e as dezoito bênçãos. Depois lia-se um passo do livro da Lei — o Pentateuco —- e outro dos Profetas. O presidente convidava algum dos presentes que conhecesse bem as Escrituras a dirigir a palavra ao auditório. Por vezes levantava-se algum voluntariamente e solicitava a honra dei cumprir este encargo. Assim deve ter acontecido nesta ocasião. Jesus busca a oportunidade de instruir o povo (cfrl Lc 4,16 ss.), e o mesmo farão depois os Apóstolos (cfr Act 1 13, 5.14.42.44; 14,1, etc.). A reunião judaica terminava com a bênção sacerdotal, que recitava o presidente ou um sacerdote se o havia, à qual todos respondiam: «Amen» (cfr Num 6,22 ss.).

18-21. Jesus leu o passo de Isaías 61,1-2, onde o profeta anuncia a chegada do Senhor que libertará o povo das suas aflições. N’Ele se cumpre essa profecia, já que é o Ungido, o Messias que Deus enviou ao Seu povo atribulado. Jesus j recebe a unção do Espírito Santo para a missão que o Pai Lhe confia. «Segundo São Lucas (w. 18-19), estas afirmações são a Sua primeira declaração messiânica, à qual se seguem os factos e as palavras conhecidos por intermédio do Evangelho. Mediante tais factos e palavras, Cristo torna o Pai presente no meio dos homens» (Dives in misericórdia n. 3).

As promessas anunciadas nos vv. 18 e 19 constituem o conjunto de bens que Deus enviaria ao Seu povo por meio do Messias. Por «pobres» deve entender-se, segundo a tradição do AT e a pregação de Jesus (cfr a nota a Mt 5,3), não tanta! uma determinada condição social mas antes a atitude religiosa de indigência e de humildade diante de Deus dos que, em vez de confiar nos seus próprios bens e méritos, confiam na bondade e misericórdia divinas. Por isso evangelizar os! pobres é anunciar-lhes a «boa notícia» de que Deus Se compadeceu deles. Do mesmo modo, a Redenção, a que alude o texto, tem, sobretudo um sentido espiritual e trans­cendente: Cristo vem livrar-nos da cegueira e da opressão do pecado, que são, em última análise, a escravidão a que nos submeteu o demônio. «O cativeiro é sensível — ensina São João Crisóstomo num comentário ao Salmo 126 — quando procede de inimigos corporais; mas pior é o cati­veiro espiritual a que se refere aqui, já que o pecado produz a mais dura tirania, manda o mal e confunde os que lhe obedecem: deste cárcere espiritual nos tirou Jesus Cristo» (Catena Áurea). Não obstante, este passo cumpre-se, além disso, na preocupação que Jesus manifesta pelos mais neces­sitados. «De igual modo, a Igreja abraça com amor todos os afligidos pela enfermidade humana; mais ainda, reconhece nos pobres e nos que sofrem a imagem do seu Fundador, pobre e sofredor, procura aliviar as suas necessidades, e intenta servir neles a Cristo» (Lumen gentium, n. 8).

18-19. As palavras de Isaías, que Cristo leu nesta ocasião, descrevem de modo gráfico a finalidade para que Deus enviou o Seu Filho: a redenção do pecado, a libertação da escravidão do demônio e da morte eterna. É certo que Cristo durante o Seu ministério público, movido pela Sua miseri­córdia, fez algumas curas, livrou alguns endemoninhados, etc. Mas não curou todos os doentes do mundo, nem suprimiu todas as penalidades desta vida, porque a dor, introduzida no mundo pelo pecado, tem um irrenunciável valor redentor unida aos sofrimentos de Jesus. Por isso, o Senhor realizou alguns milagres, que constituem não tanto o remédio das dores em tais casos concretos, mas a mostra da Sua missão divina de redenção universal e eterna.

A Igreja continua esta missão de Cristo: «Ide, pois, e fazei discípulos todas as gentes, baptizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo; e ensinando-as a observar tudo o que vos mandei. E sabei que Eu estou convosco todos os dias até ao fim do mundo» (Mt 28,19-20). São as palavras simples e sublimes do fim do Evangelho de São Mateus: aí está assinalada «a obrigação de pregar as verdades de fé, a urgência da vida sacramentai, a promessa da assistência contínua de Cristo à Sua Igreja. Não se é fiel ao Senhor se se desatendem essas realidades sobrenaturais: a instrução na fé e na moral cristãs, a prática dos sacramentos. Com este mandato Cristo funda a Sua Igreja (…). E a Igreja só pode dar a salvação às almas se permanece fiel a Cristo na sua consti­tuição, nos seus dogmas, na sua moral.

«Rejeitemos, portanto, o pensamento de que a Igreja — esquecendo o Sermão da Montanha — busca a felicidade humana na terra, porque sabemos que a sua única tarefa consiste em levar as almas à glória eterna do paraíso; rejei­temos qualquer solução naturalista, que não aprecie o papel primordial da graça divina; rejeitemos as opiniões materia­listas, que procuram fazer perder a sua importância aos valores espirituais na vida do homem; rejeitemos de igual modo as teorias secularizantes, que pretendem identificar os fins da Igreja de Deus com os dos Estados terrenos: confundindo a essência, as instituições, a actividade, com características semelhantes às da sociedade temporal» (J. Escrivá de Balaguer, Hom. O fim sobrenatural da Igreja).

18. Os Santos Padres vêem designadas neste versículo as três Pessoas da Santíssima Trindade: o Espírito (Espírito Santo) do Senhor (o Pai) está sobre Mim (o Filho) (cfr Orígenes, Homília 32). O Espírito Santo habitava na alma de Cristo desde o instante da Encarnação, e desceu visível mente em forma de pomba quando foi baptizado por João (cfr Lc 3,21-22).

«Por isso que Me ungiu»: Refere-se à unção que Jesus Cristo recebeu no momento da Encarnação, principalmente pela graça da união hipostática. «Esta unção de Jesus Cristo não foi corporal, como a dos antigos reis, sacerdotes e profetas, mas toda espiritual e divina, porque a plenitude da divindade habita n’Ele substancialmente» (Catecismo Maior, n.° 77). Desta união hipostática deriva a plenitude de todas as graças. Para a significar diz-se que Jesus Cristo foi ungido pelo próprio Espírito Santo, e não só recebeu as graças e os dons do Espírito Santo, como os santos.

19. «Ano de graça»: Alude ao ano jubilar dos judeus, estabelecido pela Lei de Deus (Lev 25,8 ss.) cada cinquenta anos, para simbolizar a época de redenção e liberdade que trará o Messias. A época inaugurada por Cristo, o tempo da Nova Lei até ao fim deste mundo, é o «ano de graça», o tempo da misericórdia e da redenção, que se alcançarão completamente na vida eterna.

De maneira semelhante, a instituição do Ano Santo na Igreja Católica tem este sentido de anúncio e recordação da Redenção trazida por Cristo e da sua plenitude na vida futura.

20-22. As palavras dó versículo 21 mostram-nos a auto­ridade com que Cristo falava e explicava as Escrituras: «Cumpriu-se hoje este passo da Escritura que acabais de ouvir». Jesus ensina que esta profecia, como as principais do AT, se referem a Ele e n’Ele têm o seu cumprimento (cfr Lc 24,44 ss.). Por isso, o AT não pode ser rectamente entendido senão à luz do NT: nisto consiste a inteligência para entender as Escrituras que Cristo Ressuscitado deu aos Apóstolos (cfr Lc 24,45) e que o Espírito Santo completou no dia de Pentecostes (cfr Act 2,4).

 

10.01.14 – Lc 5, 12-16

12Estando Ele em uma das cidades, apresentou-se um homem cheio de lepra. Ao ver Jesus, caiu com a face por terra e diri­giu-Lhe esta súplica: Senhor, se quiseres, pode limpar-me. 13Ele, estendendo a mão, tocou-lhe, dizendo: Quero, fica limpo. E logo a lepra o deixou. 14Ordenou-lhe então que não dissesse a ninguém: Vai antes mostrar-te ao sacerdote e fazer, pela tua purificação, a oferta, como estabeleceu Moisés, para lhes servir de prova. 15Cada vez se falava mais a Seu respeito, e reuniam-se grandes multi­dões para O ouvirem e serem curadas de suas enfermidades. 16Mas Ele andava reti­rado pelas solidões e a orar.

Comentário

12. As palavras do leproso são um modelo de oração. Aparece nela, em primeiro lugar, a fé. «Não disse, se o pedires a Deus…, mas se queres» (Hom. sobre S. Mateus, 25). Completa-se com uma afirmação absoluta, podes: que é uma confissão aberta da omnipotência divina. Esta mesma fé foi expressada pelo salmista: «Deus faz tudo o que quer nos céus, na terra, no mar e em todos os abismos» (Ps 135,6). Juntamente com a fé, a confiança na misericórdia divina. «A Deus, que é misericordioso, não é necessário pedir-Lhe, basta expor-Lhe a nossa necessidade» (Comentário sobre S. Mateus, 8,1). E conclui São João Crisóstomo: «A oração é perfeita quando se unem nela a f é e a confissão; o leproso demonstrou a sua fé e confessou a sua necessidade com as suas palavras» (Hom. sobre S. Mateus, 25).

«’Domine!’ — Senhor! — ‘si vis, potes me mundare’ — se quiseres, podes curar-me. — Que bela oração para que a digas muitas vezes, com a fé do pobre leproso, quando te acontecer o que Deus, tu e eu sabemos! — Não tardarás a sentir a resposta do Mestre: ‘volo, mundare!’ — Quero, sé limpo!» (Caminho, n.° 142).

13. Jesus Cristo atende a súplica do leproso e cura-o da sua doença. Cada um de nós tem doenças na sua alma e ç Senhor está à espera de que nos aproximemos d’Ele: «É Médico e cura o nosso egoísmo, se deixarmos que a Sua graça penetre até ao fundo da nossa alma. Jesus disse-nos que a pior doença é a hipocrisia, o orgulho que nos faz dissimular os nossos pecados. Com o Médico é imprescin­dível, pela nossa parte, uma sinceridade absoluta, explicar-Lhe toda a verdade e dizer: Domine, si vis, potes me mundare, Senhor, se quiseres — e Tu queres sempre — podes curar-me. Tu conheces as minhas fraquezas, tenho estes sintomas e estas debilidades. Mostramos-Lhe também com toda a simplicidade as chagas e o pus, no caso de haver pus. Senhor, Tu, que curaste tantas almas, faz com que, ao ter-Te no meu peito ou ao contemplar-Te no Sacrário, Te reconheça como Médico divino» (Cristo que passa, n.° 93).

16. No terceiro Evangelho põe-se em realce com fre­qüência que Jesus Se .retirava, só, para orar: cfr 6,12;9,18; 11,1. Jesus ensina assim a necessidade de uma oração pes­soal nas diversas circunstâncias da vida.

«É muito importante — perdoai a minha insistência — observar os passos do Messias, porque Ele veio mostrar-nos o caminho que nos leva ao Pai: descobriremos, com Ele, como se pode dar relevo sobrenatural às actividades aparen­temente mais pequenas; aprenderemos a viver cada instante com vibração de eternidade e compreenderemos com maior profundidade que a criatura precisa desses tempos de con­versa íntima com Deus, para privar com Ele na Sua inti­midade, para invocá-Lo, para ouvi-Lo ou, simplesmente, para estar com Ele» (Amigos de Deus, n° 239).

 

11.01.14 – Jo 3, 22-30

22Depois disto, foi Jesus com os discípulos para o território da Judeia, onde Se demorou com eles e Se pôs a baptizar. 23Ora João estava também a baptizar em Enon, perto de Salim, porque havia ali muita água e aparecia gente para se baptizar. 24João, de facto, ainda não tinha sido metido no cár­cere.

25Houve então uma disputa entre os discí­pulos de João e um judeu, a propósito da purificação. 26Vieram eles ter com João e disseram-lhe: Rabi, Aquele que estava con­tigo além-Jordão, de quem deste testemunho, está lá a baptizar, e todos vão ter com Ele. “Respondeu João, dizendo: Nada pode um homem receber que não lhe seja dado lá do Céu. 28Vós próprios sois testemunhas de que eu disse: «Não sou o Messias; apenas sou enviado à Sua frente». “Quem tem a noiva é que é o noivo; e o amigo do noivo, que lhe assiste e o escuta, sente muita alegria com a voz do noivo. Pois essa alegria, que é a minha, é completa. 30Ele deve crescer e eu diminuir!

Comentário

22-24.   O Evangelista, um pouco mais adiante (Ioh 4,2), esclarece que não era o próprio Jesus quem baptizava, mas os Seus discípulos. Provavelmente o Senhor quis que desde o primeiro momento se exercitassem na tarefa de exortar à conversão. Aquele rito não era ainda o Baptismo cristão — pois este só começa depois da Ressurreição de Cristo (cfr Ioh 7,39; 16,7; Mt 28,19)—, mas «ambos os baptismos, o de São João Baptista e este dos discípulos do Senhor (…) tinham por finalidade aproximar esses baptizados de Cristo (…) e preparar o caminho para a fé futura» (Hom. sobre S. João, 29,1).

O Evangelho indica o lugar e o momento concreto em que aconteceu este episódio. Enon em aramaico significa «fon­tes». Salim estava situada ao Noroeste da Samaria, ao Sul da cidade de Scitópolis ou Betshan, próximo da margem ocidental do Jordão, a uns vinte quilômetros a Sul do lago de Genesaré.

O Evangelho assinala que «João ainda não tinha sido me­tido no cárcere» (v. 24), completando assim os dados dos Sinópticos (Mt 4,12; Mc 1,14). Sabemos, portanto, que o minis­tério público de Jesus começou quando ainda continuava o de João Baptista, e, sobretudo, que entre eles não havia nenhuma rivalidade; pelo contrário, o Baptista, que prepa­rava a vinda do Senhor, teve a alegria de contemplar pessoal­mente como os seus próprios discípulos iam atrás de Jesus (cfr Ioh 1,37).

27-29. João Baptista fala aqui de modo simbólico, como às vezes tinham feito os profetas e também fará Nosso Senhor. O Esposo é Jesus Cristo. Por outros passos do Novo Testamento sabemos que a Igreja é designada com o título de Esposa (cfr Eph 5,24-32; Apc 19,7-9). Este símbolo dos desposórios exprime a união pela qual Cristo incorpora a Si a Igreja, e a comunhão de vida pela qual a Igreja é santificada e participa da própria vida divina. O Baptista alegra-se porque vê que já está a começar a actuação do Messias, e reconhece a infinita distância que há entre a sua condição e a de Cristo. Por isso a sua alegria é completa quando Jesus Cristo vai convocando os homens e estes vão atrás d’Ele.

O «amigo do noivo» refere-se ao que, segundo o costume dos desposórios judaicos, costumava acompanhar o noivo nos primeiros momentos do seu matrimônio e participava de forma especial nos festejos e na alegria das núpcias. Não obstante, como esclarece o Baptista, havia uma grande diferença entre ele e o esposo, verdadeiro protagonista do gozoso acontecimento.

30. O Baptista compreendeu a sua missão de Precursor, que devia desaparecer ante a chegada do Messias, e cum­priu-a fielmente e com humildade. Do mesmo modo, o cristão há-de evitar em todas as tarefas apostólicas o protagonismo pessoal, e deixar que seja Cristo o objecto da busca dos homens; há-de esvaziar-se cada vez mais de si mesmo para que Cristo encha toda a sua vida. «É necessário que Cristo cresça em ti, para que progridas no Seu conheci­mento e amor: porque quanto mais O conheces e O amas, tanto mais cresce Cristo em ti (…). Por isso é necessário que os homens que progridem deste modo diminuam a sua própria estima, porque quanto mais penetra alguém na grandeza divina tanto mais considera pequena a condição humana» (Comentário sobre S. João, ad loc.).

 

12.01.14 – Mt 3, 13-17

13Entáo veio Jesus da Galileia ao Jordão e apresentou-se a João, para ser por ele baptizado. l4Queria João impedi-Lo e dizia-Lhe: Eu é que preciso de ser baptizado por Ti, e Tu vens a mim?

15Jesus, porém, respondeu-Lhe: Deixa por agora, pois assim nos convém cumprir toda a justiça.

Então ele deixou-O.

16Baptizado Jesus, subiu logo da água e eis que se Lhe abriram os céus e viu o Espírito de Deus que, em figura de pomba, descia e vinha sobre Ele, 17enquanto dos céus uma voz dizia: Este é o meu Filho amado, no Qual pus as minhas complacências.

Comentário

13. Jesus tinha passado uns trinta anos (Lc 3, 23) no que normalmente chamamos vida oculta. Admira-nos o silêncio do Verbo de Deus Encarnado durante todo este tempo. Muitas podem ser as razões desta longa espera de Jesus antes de começar o Seu ministério público. Pode ter influído nisso o costume judaico de que os rabinos tivessem feito os trinta anos, antes de exercer o seu ofício de mestres. Em qualquer dos casos, Nosso Senhor, com os Seus longos anos de trabalho na oficina de São José, ensina aos cristãos o sentido santificador da vida e trabalho ordinários.

Jesus começa o Seu ministério público depois de o Baptista “ter preparado o povo, segundo o plano divino, para receber o Messias”.

14. São João Baptista, ao ver aproximar-se do seu baptismo Aquele de quem tinha dado testemunho tão autên­tico, resistia razoavelmente a baptizá-Lo. Não era necessário que Jesus fosse baptizado por João, já que não tinha pecado algum. Mas Jesus quis submeter-Se a este baptismo (veja-se nota ao v. 15) antes de inaugurar a Sua pregação para nos ensinar a obedecer a todas as disposições divinas (antes tinha-Se submetido, por exemplo, à circuncisão, à apresen­tação no Templo e ao resgate como primogênito). Os planos de Deus dispunham que Jesus Se aniquilasse até Se submeter à autoridade de outros homens.

15. «Justiça», na Bíblia, tem um significado muito rico: refere-se ao plano que Deus, na Sua infinita bondade e sabedoria, traçou para a salvação do homem. Por isso «cumprir toda a justiça» deve ser interpretado na linha de cumprir a vontade de Deus e os Seus desígnios. Daí que pudéssemos traduzir «cumprir toda a justiça» por: «cumprir tudo o estabelecido por Deus».

Jesus Cristo acorre ao baptismo de João em reconhecimento de uma etapa da História da Salvação, prevista por Deus como preparação última e imediata da era messiânica. O cumprimento de qualquer destas etapas ou actos do plano divino pode chamar-se, resumidamente, um acto de justiça. Jesus, que veio cumprir a Vontade do Pai (Ioh 4, 34), procura cumprir esse plano salvador em todos os seus pormenores.

16. Jesus desde a Sua própria conceição, possuía a plenitude do Espírito Santo. Isto é assim pela união da natureza humana com a natureza divina na pessoa do Verbo (dogma da união hipostática). A doutrina cristã ensina que em Cristo há uma só Pessoa, divina, e duas naturezas, divina e humana. A descida do Espírito de Deus, de que fala o nosso texto, exprime que, assim como Jesus iniciava de modo solene o Seu ofício messiânico, assim o Espírito Santo começava a Sua acção por meio do Messias. São muitos os textos do Antigo Testamento em que se anuncia a especialíssima manifestação do Espírito Santo no futuro Messias. Com este sinal do Espírito, recebia também São João Baptista a prova inequívoca da autenticidade do seu teste­munho acerca de Cristo (cfr Iph 1, 29-34).

No Baptismo de Jesus Cristo revela-se o mistério da Santíssima Trindade: o Filho, que recebe o Baptismo; o Espírito Santo, que desce sobre Ele em figura de pomba; e a voz do Pai, que dá testemunho da pessoa de Seu Filho. No nome das três Pessoas divinas deverão ser baptizados os cristãos. «Se tu tens uma piedade sincera, sobre ti descerá também o Espírito Santo e ouvirás a voz do Pai do alto que diz: este não é o Meu Filho, mas agora depois do Baptismo, foi feito meu filho» (De Baptismo,14)

17. Literalmente: «Este é o Meu Filho, o amado». «Amado», precedido do artigo e unido à expressão «o Filho», normalmente refere-se a um filho único (cfr Gen 22,2.12.16.; ler 6,26; Am 8,10; Zach 12,10; etc.). O duplo uso do artigo e a Solenidade do passo fazem que este testemunho divino acerca de Jesus mostre claramente, na linguagem da Bíblia, que Jesus Cristo não é mais um, nem sequer o mais excelente, de tantos filhos adoptivos de Deus; mas com toda a propriedade e força, declara que Jesus é «o Filho de Deus», o Unigênito, absolutamente distinto, pela Sua condição divina, dos outros homens (cfr Mt 7,21; 11,27; 17,5; Ioh 3,35; 5,20; 20, 17; etc.).

Neste passo têm cumprimento as profecias messiânicas, especialmente Is42, l, cuja expressão é aplicada agora a Jesus Cristo pela voz do Pai, que fala do céu.

 

13.01.14 – Mc 1, 14-20

14Depois que João foi entregue, veio Jesus para a Galileia a pregar o Evangelho de Deus, 15dizendo: Terminou o prazo e está próximo o Reino de Deus. Fazei penitência e crede no Evangelho.

16Passàndo junto ao mar da Galileia, viu Simão e André, irmão de Simão, que lan­çavam as redes ao mar, pois eram pesca­dores, e disse-lhes Jesus:17Vinde após Mim, e farei que venhais a ser pescadores de homens. I8E imediatamente, deixadas as redes, seguiram-No. 19Prosseguindo um pouco, viu Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, que estavam também na barca a consertar as redes, e chamou-os logo. 20Eles, deixando na barca seu pai Zebedeu com os mercenários, foram após Ele.

Comentário

14-15. «Evangelho de Deus»: Esta expressão encon­tramo-la em São Paulo (Rom 1, 1; 2Cor. 11,7; etc.) como equivalente à de «Evangelho de Jesus Cristo» (Phil 1, 1; 2Thes 1,8; etc.), insinuando-se deste modo a divindade de Jesus Cristo. A chegada iminente do Reino exige uma conversão autêntica do homem a Deus (Mt 4,17; 10,7; Mc 6, 12; etc.). Já os Profetas tinham falado da necessidade de converter-se e de abandonar os maus caminhos que seguia Israel, longe de Deus (ler 3,22; Is 30,15; Os 14, 2; etc.). Tanto João Baptista como Cristo e os Seus Apóstolos insistem em que é preciso converter-se, mudar de atitude e de vida como condição prévia para receber o Reino de Deus. Recentemente o Papa João Paulo II realça a importância da conversão perante o Reino de Deus, expressão clara da Sua miseri­córdia: «Portanto, a Igreja professa e proclama a conversão. A conversão a Deus consiste sempre em descobrir a Sua misericórdia, isto é, esse amor que é paciente e benigno (cfr 1Cor 13,4) à medida do Criador e Pai: o amor, a que ‘Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo’ (2Cor l, 3) é fiel até às últimas conseqüências na história da aliança com o homem: até à cruz, até à morte e à ressurreição de Seu Filho. A conversão a Deus é sempre fruto do ‘reencontro’ deste Pai, rico em misericórdia.

«O autêntico conhecimento de Deus, Deus da misericórdia e do amor benigno, é uma fonte constante e inexaurível de conversão, não somente como momentâneo acto interior, mas também como disposição permanente, como estado de espírito. Aqueles que assim chegam ao conhecimento de Deus, aqueles que assim O ‘vêem’, não podem viver de outro modo que não seja convertendo-se a Ele continuamente. Passam a viver in statu conversionis, em estado de conver­são; e é este estado que constitui a característica mais profunda da peregrinação de todo o homem sobre a terra in statu viatoris, em estado de peregrino» (Dives in misericórdia, n. 13).

16-20. O Evangelista narra nestes versículos o chama­mento de Jesus a alguns dos que formariam parte do Colégio Apostólico (3, 16 ss.). O Messias, desde o começo do Seu ministério público na Galileia, busca colaboradores para levar a cabo a Sua missão de Salvador e Redentor. E busca-os habituados ao trabalho, acostumados ao esforço e à luta constantes, simples de costumes. A desproporção humana é patente, mas isso não constitui um obstáculo para que a entrega seja generosa e livre. A luz acesa nos seus corações foi suficiente para abandonar tudo. O simples convite ao seguimento bastou para se porem incondicionalmente à disposi­ção do Mestre.

E Jesus quem escolhe; meteu-Se na vida dos Apóstolos, como Se mete na nossa, sem pedir autorização: Ele é o nosso Senhor. Cfr a nota a Mt 4,18-22.

 

14.01.14 – Mc 1, 21b-28

No sábado seguinte, indo à sinagoga, pôs-Se a ensinar. 22E maravilhavam-se por causa da Sua dou­trina, pois os ensinava como quem tinha autoridade e não como os Escribas. 23Nisto um homem possuído do espírito imundo, o qual estava na sinagoga, começou a gritar: 24Ai! Que tens Tu connosco, Jesus de Nazaré? Vieste para nos perder. Sei quem Tu és: o Santo de Deus. 25Mas Jesus intimou-lhe: Cala-te e sai desse homem! 26O espírito imundo, agitando-o convulsivamente e fa­zendo grande alarido, saiu dele. 27Ficaram todos atônitos, de modo que perguntavam uns aos outros: Que é isto? Uma doutrina nova, e com autoridade! Manda nos espí­ritos imundos, e eles obedecem-Lhe! 28E a Sua fama correu logo por toda a parte, em toda a vizinha região da Galileia.

Comentário

21. Sinagoga quer dizer reunião, assembléia, comuni­dade. Assim se chamava — e se chama — o lugar em que os Judeus se reuniam para escutar a leitura da Sagrada Escritura e rezar. Parece que as sinagogas tiveram a sua origem nas reuniões cultuais que celebravam os Judeus cativos em Babilônia, ainda que não se estendessem até pais tarde. No tempo de Nosso Senhor havia-as em todas as cidades e aldeias da Palestina de certa importância; e fora da Palestina nos lugares onde havia uma comunidade de Judeus suficien­temente numerosa. A sinagoga constava principalmente de uma sala rectangular, construída de tal forma que os assis­tentes, sentados, olhassem para Jerusalém. Na sala havia uma tribuna ou estrado onde se lia e se explicava a Sagrada Escritura.

22. Aparece aqui como Jesus mostrava a Sua autoridade ao ensinar. Inclusivamente quando tomava como base a Escritura, como no Sermão da Montanha, distinguia-Se dos outros mestres, pois falava em nome próprio: «Mas Eu digo-vos» (cfr a nota a Mt 7,28-29). O Senhor, na verdade, fala dos mistérios de Deus e das relações entre os homens; explica com simplicidade e com poder, porque fala do que sabe e dá testemunho do que viu (Ioh 3, 11). Os escribas ensinavam também ao povo — comenta São Beda — o que está escrito em Moisés e nos Profetas; mas Jesus pregava ao povo como Deus e Senhor do próprio Moisés (cfr In Marci Evangelium expositio, ad loc.) Além disso, primeiro faz e depois diz (Act 1, 1) e não é como os escribas que dizem e não fazem (Mt 23,1-5).

23-26. Os Evangelhos apresentam vários relatos de curas miraculosas. Entre elas sobressaem as de alguns endemoninhados. A vitória sobre o espírito imundo, nome que se dava correntemente ao demônio, é um sinal claro de que chegou a salvação divina: Jesus, ao vencer o Maligno, revela-Se como o Messias, o Salvador, com um poder superior ao dos demônios: «Agora é que é o julgamento deste mundo. Agora é que o Príncipe deste mundo vai ser lançado fora» (Ioh 12, 31). Ao longo do Evangelho torna-se patente a luta contínua e vitoriosa do Senhor contra o demônio.

A oposição do demônio a Jesus vai aparecendo, cada vez mais clara: é solapada e subtil no deserto; manifesta e violenta nos endemoninhados; radical e total na Paixão, que é «a hora e o poder das trevas» (Lc 22,53). A vitória de Jesus é também cada vez mais patente, até ao triunfo total da Ressurreição.

O demônio é chamado imundo — diz São João Crisóstomo — pela sua impiedade e afastamento de Deus, e porque se mistura em toda a obra má e contrária a Deus. Reconhece de alguma maneira a santidade de Cristo, mas este conhecimento não vai acompanhado pela caridade. Além do facto histórico concreto, podemos ver neste endemoninhado os pecadores que se querem converter a Deus, libertando-se da escravidão do demônio e do pecado. A luta pode ser longa, mas terminará com uma vitória: o espírito maligno não pode nada contra Cristo (cfr a nota a Mt 12, 22-24). /

27. A mesma autoridade que Jesus mostrou no ensino (l, 22) aparece agora nos Seus feitos. Fá-lo só com o Seu querer, sem necessitar de múltiplas invocações e conjuros. As palavras e os actos de Jesus evidenciam algo de superior, um poder divino, que enche de admiração e de temor aqueles que O escutam e observam.

Esta primeira impressão manter-se-á até ao fim (Mc 2, 12; 5, 20. 42 ; 7, 37; 1 5, 39; Lc 19,48; Ioh 7, 46). Jesus de Nazaré é o Salvador esperado. Ele sabe-o e manifesta-o precisamente nos Seus actos e nas Suas palavras, que constituem uma unidade inseparável segundo os relatos evangélicos (Mc 1, 38-39; 2, 10-11; 4, 39). Como ensina o Vaticano II (Dei Verbum, n. 2), a Revelação faz-se com actos e palavras intimamente unidos entre si. As palavras esclarecem os actos; os factos confirmam as palavras. Deste modo Jesus vai revelando progressivamente o mistério da Sua Pessoa: primeiro as gentes captam a Sua autoridade excepcional, e os Apóstolos, iluminados pela graça de Deus, reconhecerão depois a raiz última dessa autoridade: «Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo»(Mt 16,16).

 

15.01.14 – Mc 1, 29-39

29Saindo depois da sinagoga, foi para casa de Simão e André, com Tiago e João. 30Ora a sogra de Simão estava de cama com febre e logo Lhe falam dela. 31E Ele, aproximando-Se, pegou-lhe na mão e ergueu-a. A febre deixou-a, e ela pôs-se a servi-los.

32Ao anoitecer, depois do sol-posto, trouxeram-Lhe todos os doentes e possessos, 33e toda a cidade se apinhou diante da porta. Soltes 34Ele curou muitos, atacados de várias enfermidades, e expulsou muitos Demônios; mas não deixava que os Demônios falassem, porque sabiam quem Ele era.

35De madrugada, muito antes de amanhecer, levantou-Se e saiu para um lugar solitário e ali orava. 36Simáo e os que com ele estavam foram à procura d’Ele. 37Quando O encontraram, disseram-Lhe: Andam todos a procurar-Te. 38Diz-lhes Ele: Vamos a outro lugar, às vilas circunvizinhas, para também ali pregar, pois para isso é que saí. 39E andava a pregar nas suas sinagogas, por toda a Galileia, e a expulsar os Demônios.

Comentário

34. Os demônios possuem um saber sobre-humano, por, isso reconhecem Jesus como o Messias (Mc 1, 24). Por meio dos endemoninhados, os demônios podiam dar a conhecer o caracter messiânico de Jesus. Mas o Senhor, com o Seu poder divino, manda-os guardar silêncio. Ordena a mesma coisa, noutras ocasiões, aos discípulos (Mc 8,30; 9,9), e aos doentes, depois da sua cura, ordena que não propaguem a notícia (Mc 1,44; 5,43; 7,36; 8,26).

Este proceder do Senhor pode explicar-se como pedagogia divina para ir ensinando que a idéia que do Messias tinham a maioria dos contemporâneos de Jesus era demasiado humana e politizada (cfr a nota a Mt 9, 30). Por isso quer primeiro despertar o interesse com os Seus milagres, e ir esclarecendo o sentido do Seu messianismo com as Suas palavras, para que os discípulos e todo o povo o possam compreender progressivamente.

Também devemos pensar, com alguns Santos Padres, que Jesus não quer aceitar em favor da verdade o testemunho daquele que é o pai da mentira. E por isso, apesar de O reconhecerem, não os deixa dizer Quem é. Cfr a nota a Ioh 8,44.

35. São muitos os passos do Novo Testamento que referem a oração de Jesus. Os evangelistas assinalaram-no nos momentos mais importantes do ministério público do Senhor: Baptisrno (Lc 3,21), escolha dos Apóstolos (Lc 6,12), primeira multiplicação dos pães (Mc 6,46), Transfiguração (Lc 9, 29), no horto do Getsémani antes da Paixão (Mt 26,39), etc. Marcos, por seu lado, refere a oração de Jesus em três momentos solenes: no começo do Seu ministério público (1, 35), no meio (6,46), e no fim, no Getsémani (14,3,2).

A oração de Jesus é oração de louvor perfeito ao Pai, é oração de petição por Si mesmo e por nós, e é, finalmente, modelo para os Seus discípulos. É louvor e acção de graças perfeita porque Ele é o Filho amado de Deus em Quem o Pai Se compraz plenamente (cfr Mc 1, 11). É oração de petição, pois pedir coisas a Deus é o primeiro movimento espontâneo da alma que reconhece Deus como Pai. A oração de Jesus, segundo vemos por numerosos passos evangélicos (p. ex. Ioh 17, 9 e ss.), era uma petição contínua ao Pai pela obra da Redenção, que Ele devia realizar por meio da dor e do sacrifício (cfr as notas a Mc 14, 32-42 e Mt 7, 7-11). O Senhor quer, além disso, ensinar-nos com o Seu exemplo qual deve ser a atitude do cristão: entabular habitualmente um diálogo filial com Deus, no meio e por ocasião das nossas actividades ordinárias — trabalho, vida familiar, relações sociais, apostolado —, com o fim de dar à nossa vida um significado e uma presença autenticamente cristãos, já que, como assinalará mais tarde Jesus, «sem Mim nada podeis fazer» (Ioh 15,5).

«Escreveste-me: ‘Orar é falar com Deus. Mas de quê?’ De quê? D’Ele e de ti; alegrias, tristezas, êxitos e fracassos, ambições nobres, preocupações diárias…, fraquezas; e acções de graças e pedidos; e Amor e desagravo.

«Em duas palavras: conhecê-Lo e conhecer-te — ganhar intimidade!» (Caminho, nº 91) (cfr as notas a Mt 6, 5-6; 7, 7-11 e 14, 22-23).

38. Jesus Cristo diz-nos aqui que a Sua missão é pregar, evangelizar. Para isto foi enviado (vid. também Lc 4, 43). Os Apóstolos, por sua vez, foram escolhidos por Jesus para os enviar a pregar (Mc 3, 14; 16, 15). A pregação é o meio escolhido por Deus para levar a cabo a salvação: « Aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação» (l Cor l, 21). Por isso o mesmo São Paulo diz a Timóteo: «Prega a palavra, insiste oportuna e inoportunamente, repreende censura e exorta com bondade e doutrina» (2 Tim 4,1-2). A fé vem-nos pelo ouvido, dirá em Rom 10, 17 e, citando o profeta Isaías, exclama com entusiasmo: «Que formosos são os pés dos que anunciam boas novas!» (Rom 10,15; Is 52,7).

A Igreja põe em realce entre os ofícios principais de Bispos e de presbíteros o de pregar o Evangelho. São Pio X chegou a dizer que «o dever de pregar é o que mais grave e estritamente obriga o sacerdote» (Acerbo nimis). No mesmo sentido se pronunciou o Concilio Vaticano II: «O Povo de Deus é reunido antes de mais pela palavra de Deus vivo (cfr 1 Pet 1, 23; Act 6, 7; 12, 24), que é justíssimo esperar receber da boca dos sacerdotes (cfr Mal 2, 7; 1 Tim 4, 11-13; etc.). Com efeito, como ninguém se pode salvar se antes não tiver acreditado (cfr Mc 16,16), os presbíteros, como cooperadores dos Bispos, têm, como primeiro dever, anunciar a todos o Evangelho de Deus (cfr 2 Cor 11, 7), para que, realizando o mandato do Senhor: Ide por todo o mundo, pregai o Evangelho a todas as criaturas (Mc 16, 15), constituam e aumentem o Povo de Deus» (Presbiterorum ordinis, n. 4).

A pregação de Jesus não consiste apenas em palavras. É uma doutrina acompanhada com a autoridade e eficácia de uns factos(Mc 1, 27.39). Jesus faz e ensina (Act 1, 1). Também a Igreja foi enviada a pregar a salvação, e a realizar a obra salvífica que proclama. Esta obra é posta em prática mediante os sacramentos e, especialmente, através da renovação do sacrifício do Calvário na Santa Missa (Sacrosanctum Concilium, n. 6).

Na Igreja de Deus, todos os fiéis têm de escutar devota­damente a pregação do Evangelho e todos têm de sentir, por sua vez, a responsabilidade de transmiti-lo com palavras e com factos. Por seu lado, à Hierarquia da Igreja corresponde ensinar autenticamente — com a autoridade de Cristo — a doutrina evangélica.

 

16.01.14 – Mc 1, 40-45

40Vem ter com Ele um leproso que, suplicando e lançando-se de joelhos, Lhe diz: Se quiseres, podes limpar-me. 41Ele, enternecido, estendeu a mão, e tocou-o e disse-lhe: Quero; se limpo! 42E imediatamente desapa­receu a lepra, e ficou limpo. 43Entáo Jesus, tomando um ar severo, mandou-o embora e disse-lhe: 44Vê lá, não digas nada a ninguém; mas vai, mostra-te ao sacerdote e oferece pela tua cura o que Moisés ordenou, para que lhes sirva de testemunho. 45Ele, porém, saindo, começou a apregoar altamente e a espalhar a notícia do facto, de tal sorte que Jesus já não podia entrar às claras em nenhuma cidade; mas ficava fora, em lugares desertos. E de toda a parte vinham ter com Ele.

Comentário

40-44. Na lepra via-se um castigo de Deus (cfr Num 12, 10-15). O desaparecimento desta doença era considerado como uma das bênçãos da época messiânica (Is 35, 8; cfr Mt 11, 5; Lc 7, 22). Ao doente de lepra, pelo caracter contagioso desta doença, a Lei tinha-o declarado impuro e transmissor de impureza àquelas pessoas que tocava, ou àqueles lugares em que entrava. Por isso tinha de viver isolado (Num 5,2; 12, 14 ss.), e mostrar, por um conjunto de sinais externos, a sua condição de leproso. Relativamente ao rito da sua purifi­cação, cfr a nota a Mt 8,4.

O passo mostra-nos a oração, cheia de fé e de confiança, de um homem que necessita da ajuda de Jesus e pede-a seguro de que, se o Senhor o quer, tem poder para o livrar do mal de que padece (cfr a nota a Mt 8, 2). «Aquele homem ajoelha-se prostrando-se em terra — o que é sinal de humildade e de vergonha —, para que cada um se envergonhe das manchas da sua vida. Mas a vergonha não há-de impedir a confissão: o leproso mostrou a chaga e pediu o remédio. A sua confissão está cheia de piedade e de fé. Se queres, diz podes: isto é, reconheceu que o poder de curar-se estava nas mãos do Senhor» (In Marci Evangelium expositio, ad loc.).

Sobre esta discrição e prudência exigidas por Jesus acerca da Sua pessoa, cfr as notas a Mc 1, 34 e a Mt 9, 30.

 

17.01.14 – Mc 2, 1-12

Dias depois, entrou outra vez em Cafarnaum.2Quando se soube que estava em casa, juntou-se tanta gente, que não cabia nem sequer nas adjacências diante da porta; e Ele expunha-lhes a Palavra. 3Nisto chegam alguns que Lhe traziam um paralítico, trans­portado por quatro homens. 4Como não pudessem pôr-Lho diante por causa da multidão, descobriram o tecto sobre o lugar onde estava e, praticando uma abertura, arrearam a enxerga em que o paralítico jazia. 5Vendo Jesus a fé daqueles homens, diz ao paralítico: Filho, perdoados te são os teus pecados.

6Estavam ali sentados alguns dos Escribas e pensavam de si para consigo: Como é que Este assim fala? Ele blasfema: Quem pode perdoar pecados senão só Deus? 8E logo Jesus, conhecendo pelo Seu espírito que assim pensavam dentro de si, diz-lhes: Porque estais a pensar essas coisas no vosso íntimo? 9Qual é mais fácil, dizer a este paralítico: «perdoados te são os teus pecados’», ou dizer: «levanta-te, toma a tua enxerga e anda?» 10Ora, para que saibais que o Filho do homem tem poder de perdoar pecados sobre a Terra, 11Eu te ordeno — diz ao paralítico — levanta-te, toma a tua enxerga e vai para tua casa. 12E ele levantou-se e, sem mais, tomando a enxerga, saiu à vista de todos, de modo que todos ficaram pasmados e glorificavam a Deus, dizendo: Nunca vimos coisa assim!

Comentário

4. Era muito freqüente que as casas judaicas tivessem o telhado em forma de terraço, ao qual se podia subir por uma escadinha situada na parte posterior. Hoje pode obser­var-se ainda a mesma estrutura.

5. Jesus põe em realce neste versículo a relação entre a fé e o perdão dos pecados. A audácia dos que levam o paralítico mostra a fé que tinham em Cristo. -Movido por isso Jesus perdoa os pecados do doente. Consideremos o que vale a nossa fé diante de Deus, quando a dos outros é via para que um homem seja curado interior e exteriormente de modo instantâneo, e que pelo mérito de uns se remedeiam as necessidades de outros.

São Jerónimo vê na paralisia corporal daquele homem um tipo ou figura da paralisia espiritual: o tolhido de Cafarnaum também não tinha forças, por si mesmo, para voltar a Deus. Jesus, Deus e Homem, curou-o de ambas as paralisias (cfr Comm. in Marcum, ad loc.). Cfr as notas a Mt 9, 2-7.

As palavras dirigidas ao paralítico — «os teus pecados te são perdoados» — reflectem que no facto de lhe perdoar se dá um encontro pessoal com Cristo; o mesmo acontece no sacramento da Penitência: «A Igreja, pois, ao observar fielmente a plurissecular prática do sacramento da Penitência — a prática da confissão individual, unida ao acto pessoal de arrependimento e ao propósito de se corrigir e de satisfazer — defende o direito particular da alma humana. E o direito a um encontro mais pessoal do homem com Cristo crucificado que perdoa, com Cristo que diz, por meio do ministro do sacramento da Reconciliação: ‘São-te perdoados os teus pecados’ (Mc 2,5); ‘Vai e doravante não tornes a pecar’ (Ioh 8, 11). Como é evidente, isto é ao mesmo tempo o direito do próprio Cristo em relação a todos e a cada um dos homens por Ele remidos. É o direito de encontrar-se com cada um de nós naquele momento-chave da vida humana, que é o momento da conversão e do perdão» (Redemptor hóminis, n. 20).

7-12. São vários os elementos que manifestam aqui a divindade de Jesus: perdoa os pecados, conhece por Si mesmo a intimidade do coração humano e tem poder para curar instantaneamente doenças corporais. Os escribas sabem que só Deus pode outorgar o perdão das culpas e por isso consideram infundada, e inclusivamente blasfema, a afirmação do Senhor. Necessitam de um sinal que mostre a verdade daquelas palavras. E Jesus oferece-lho: assim como ninguém discutirá a cura do paralítico, do mesmo modo ninguém poderá negar razoavelmente a libertação das suas culpas. Cristo, Deus e Homem, exerceu o poder de perdoar os pecados e, pela Sua infinita misericórdia, quis estendê-lo à Sua Igreja. Cf a nota a Mt 9,3-7.

 

18.01.14 – Mc 2, 13-17

l3Em seguida, saiu outra vez para a beira-mar; e todo o povo concorria para junto d’Ele, e Ele ensinava-os. 14Ao passar, viu Levi, filho de Alfeu, sentado ao telónio e disse-lhe:  Segue-Me. E Ele levantou-se e seguiu-O. I5E sucedeu que, estando à mesa em casa dele, também muitos publicanos e pecadores se puseram à mesma mesa com Jesus e Seus discípulos, porque eram muitos os que O seguiam. l6Os Escribas dos Fariseus, ao verem-No a comer com os pecadores e publicanos, diziam aos discípulos: Porque é que Ele come e bebe com os publicanos e pecadores? 17Mas Jesus, que os ouvia, diz-lhes: Náo precisam de médico os sãos, mas os doentes. Não vim chamar justos, mas pecadores.

Comentário

14. São Marcos e São Lucas (5, 27-32) coincidem em chamar-lhe «Levi». O primeiro Evangelho, porém (Mt 9, 9-13), chama-lhe «Mateus». Trata-se de uma mesma pessoa, ainda que tenha nomes diferentes. Nos três relatos dão-se as mesmas circunstâncias. Mais adiante, São Marcos e São Lucas, ao darem a lista dos Apóstolos (Mc 3, 13-19; Lc 6, 12-16), incluem Mateus, não Levi. Os Santos Padres identifi­caram-nos. Além disso, era freqüente entre os Judeus terem dois nomes: Jacob-Israel; Simão-Pedro; Saulo-Paulo; José-Caifás; João-Marcos… Com freqüência, o nome e o sobrenome estavam relacionados com uma mudança significativa na vida e missão de tal pessoa. Terá havido também neste caso uma mudança originada pela irrupção salvadora de Jesus na vida do apóstolo? O Evangelho nada diz.

Levi-Mateus, pela sua condição de publicano (Mt 9, 9-13), estava a cobrar os impostos no «telónio» — posto público para o pagamento de tributos —. Os publicanos eram cobradores ao serviço dos romanos. Por isso era um ofício odiado e desprezado pelo povo, ainda que, ao mesmo tempo, apetecido pela facilidade de enriquecimento. Quando Jesus chama Mateus, este deixa tudo. Obedece imediatamente à vocação de Jesus, que lhe dá a graça para responder ao Seu chamamento.

Jesus é o fundamento da confiança na nossa própria transformação, se colaborarmos com a Sua graça, por mais desprezível que tenha sido o nosso comportamento anterior. E é também o fundamento da confiança para o nosso apostolado em favor da conversão e santificação dos outros. Ele, que é o Filho de Deus, até das pedras é capaz de tirar filhos de Deus (cfr Mt 3, 9). Cfr a nota a Mt 9. 9.

17. À pergunta que, em tom de censura, os escribas e os fariseus fazem aos discípulos, Jesus responde com um provérbio já conhecido: «Não têm necessidade de médico os sãos, mas os doentes». Ele é o médico das almas e veio para curar os pecadores das doenças espirituais de que padecem. O Senhor chama a todos, a Sua missão redentora é universal; noutras ocasiões afirma-o utilizando parábolas como a do banquete de núpcias (Mt 22, 1-14; Lc 14, 16-24). Como explicar então essa restrição que parece pôr aqui o Senhor, ao dizer que não veio para chamar os justos? Não se trata na realidade de uma restrição. Jesus aproveita a ocasião para censurar aos escribas e fariseus a sua atitude orgulhosa: consideravam-se justos e a sua complacência nesta aparente virtude afastava-os do chamamento à con­versão, pensando que se salvariam por si mesmos (cfr Ioh 9, 41). Assim se pode explicar este provérbio pronunciado por Jesus, que, por outro lado, deixou claro na Sua pregação que «ninguém é bom senão um, Deus» (Mc 10,18), e que todos os homens têm de recorrer à misericórdia e ao perdão de Deus para se salvarem. Porque, em última análise, não há dois blocos na humanidade: um de justos e outro de pecadores. Todos somos pecadores, como atesta São Paulo: «Todos pecaram e carecem da glória de Deus» (Rom 3, 23). Preci­samente por isto. Cristo veio para nos chamar a todos, e àquele que responde ao Seu chamamento, fá-lo justo.

As palavras do Senhor devem mover-nos também a rezar com humildade e confiança por aquelas pessoas que parece que querem continuar a viver no pecado. Como suplicava Santa Teresa: «Oh, que dura coisa Vos peço, verdadeiro Deus meu: que ameis a quem não vos ama, que abrais a quem não Vos chama, que deis saúde a quem gosta de estar doente e anda a procurar a doença! Vós dizeis, Senhor meu, que vindes buscar os pecadores. Estes, Senhor, são os verda­deiros pecadores. Não olheis a nossa cegueira, meu Deus. mas o muito sangue que derramou o Vosso Filho por nós; resplandeça a Vossa misericórdia em tão crescida maldade; olhai, Senhor, que somos feitura Vossa» (Exclamações, n° 8).

Por outro lado, os Santos Padres costumam entender esse chamamento de Jesus aos pecadores como um convite ao arrependimento e à penitência. Assim, São João Crisóstomo (Hom. sobre S. Mateus, 30,3) explica a frase, pondo na boca de Jesus estas palavras: «Não vim para que continuem a ser pecadores, mas para que se convertam e cheguem a ser melhores».

 

19.01.14 – Jo 1, 29-34

29No dia seguinte, vê este a Jesus, que vinha ter com ele, e diz: Aí está o Cordeiro de Deus, que vai tirar o pecado do mundo. 30Era d’Este que eu dizia: «Depois de mim vem um homem que passou à minha frente, por­que era antes de mim». 31E eu não O conhe­cia; mas para Ele Se manifestar a Israel é que eu vim baptizar em água.

32João deu mais este testemunho: Eu vi o Espírito que descia do Céu, como uma pomba e permaneceu sobre Ele. 33E eu não O conhe­cia, mas quem me enviou a baptizar em água é que me disse: «Aquele sobre quem vires o Espírito descer e permanecer é que baptiza no Espírito Santo». 34Ora eu vi e sou testemunha de que Ele é o Filho de Deus.

Comentário

29. Pela primeira vez no Evangelho se chama a Cristo «Cordeiro de Deus». Este nome alude ao sacrifício redentor de Cristo. Já Isaías tinha comparado os sofrimentos do Servo de Yahwéh, do Messias, com o sacrifício de um cordeiro (cfr Is 53,7); por outro lado, o sangue do cordeiro pascal, aspergido sobre as portas das casas, tinha servido para livrar da morte os primogênitos dos israelitas no Egipto (cfr Ex 12,6-7). Tudo isso era promessa e figura do verdadeiro Cordeiro, Cristo, vítima no sacrifício do Calvário em favor de toda a humanidade. Por isto. São Paulo dirá que «o nosso Cordeiro pascal, Cristo, foi imolado» (1Cor 5,7). A expressão «Cordeiro de Deus» indica também a inocência imaculada do Redentor (cfr 1Pet 1,18-20; 1Ioh 3,5).

O texto sagrado diz «o pecado do mundo», no singular, para manifestar de modo absoluto que tirou todo o gênero de pecados. Cristo, na verdade, veio livrar-nos do pecado original, que em Adão atingiu todos os homens, e de todos os pecados pessoais.

O livro do Apocalipse revela-nos que Jesus está triunfante e glorioso nos Céus como o «Cordeiro imolado» (Apc 5,6-14), rodeado dos santos, dos mártires e das virgens (Apc 7, 9.14; 14,1-5), dos quais recebe louvor e glória por ser Deus (Apc 7,10).

Sendo a Sagrada Comunhão a participação no Sacrifício de Cristo, os sacerdotes pronunciam estas palavras do Baptista antes de administrar a Sagrada Comunhão, para suscitar nos fiéis o agradecimento ao Senhor por Se ter entregado à morte para nossa salvação e por Se nos dar como alimento das nossas almas.

30-31. João Baptista declara aqui a superioridade de Jesus ao dizer que Ele existia já antes dele, apesar de ter nascido depois. Mostra assim a divindade de Cristo, gerado pelo Pai desde toda a eternidade e nascido de Maria Virgem no tempo. Ê como se o Baptista dissesse: «Embora eu tenha nascido antes d’Ele, a Ele não O limitam os laços do Seu nascimento; porque mesmo quando nasce de Sua Mãe no tempo, foi gerado pelo Pai fora do tempo» (In Evangelia homiliae, 7).

Com as palavras do v. 31 o Precursor não pretende negar o conhecimento pessoal que tinha de Jesus (cfr Lc 1,36 e Mt 3,14), mas manifestar que conheceu por revelação divina o momento de proclamar publicamente a condição do Senhor como Messias e Filho de Deus, e que compreendeu também que a sua própria missão de Precursor não tinha outra finalidade a não ser dar testemunho de Jesus Cristo.

32-34, Para confirmar a divindade de Jesus Cristo, o evangelista recolhe o testemunho do Precursor sobre o Baptismo de Jesus (vejam-se os outros Evangelhos que descrevem com mais pormenor como aconteceu o Baptismo, cfr Mt 3,13-17 e par.). É um dos momentos cume da vida do Senhor em que se revela o mistério da Santíssima Trindade (cfr a nota a Mt 3,16).

A pomba é símbolo do Espírito Santo, de quem se diz no Gen 1,2 que revoava sobre as águas. Com este sinal cum­prem-se as profecias de Is 11,2-5; 42,1-2, segundo as quais o Messias estaria cheio da força do Espírito Santo. O Baptista manifesta a grande diferença entre o seu baptismo e o de Cristo; em Ioh 3, Jesus falará deste novo Baptismo na água e no Espírito (cfr Act 1,5; Tit 3,5).

«O Filho de Deus»: E de notar que a expressão tem artigo no texto original, o que quer dizer que João Baptista confessa diante dos seus ouvintes o caracter sobrenatural e transcendente do messianismo de Cristo, tão distante da idéia político-religiosa que tinham forjado os dirigentes do judaísmo.

 

20.01.14 – Mc 2, 18-22

18Um dia em que os discípulos de João e os dos Fariseus jejuavam, vêm e dizem-Lhe: Porque é que os discípulos de João e os discípulos dos Fariseus jejuam e os Teus discípulos não jejuam? 19Disse-lhes Jesus: Porventura podem os convidados das bodas jejuar enquanto está com eles o esposo? Enquanto têm consigo o esposo, não podem jejuar. 20Dias virão em que o esposo lhes será tirado, e então jejuarão naquele dia.21Nin­guém cose um remendo de pano não pisoado num vestido velho, senão o conserto novo puxa pelo velho, e o rasgão torna-se ainda maior. 22Como também ninguém deita vinho novo em odres velhos; aliás o vinho arre­bentará os odres, e perde-se o vinho e os odres. Para vinho novo, odres novos.

Comentário

18-22. A resposta de Cristo declara, a propósito de/um caso particular, as relações entre o Antigo e o Novo Testa­mento. No Antigo o Esposo ainda não tinha chegado, no Novo está presente em Cristo. Com Ele começam os tempos mes­siânicos, uma época nova e diferente da anterior. O jejum dos judeus, portanto, deve ser entendido, dentro do conjunto das suas observâncias religiosas, como preparação de todo o povo para a vinda do Messias. Cristo mostra a diferença entre o espírito que Ele traz e o do judaísmo daquela época. Este espírito novo não será uma peça acrescentada ao velho, mas um princípio vivificante dos ensinamentos perenes da antiga Revelação. A novidade do Evangelho, tal como o vinho novo, não cabe nos moldes da Lei antiga.

Mas este passo diz algo mais: para receber a nova doutrina de Cristo é preciso que os homens se renovem por dentro e, por conseguinte, se desprendam das rotinas de uma vida anquilosada. Cfr a nota a Mt 9,14-17.

19-20. Jesus Cristo designa-Se no v. 19 como o Esposo (cfr também Lc 12, 35-36; Mt 25,1-13; Ioh 3,29), cumprindo assim o que tinham dito os profetas relativamente às relações

Deus com o Seu povo (cfr Os 2, 18-22; Is 54, 5 ss.). Os Apóstolos são os companheiros do Esposo nas núpcias, convidados a participar com Ele no banquete nupcial, na alegria do Reino dos Céus (cfr Mt 22,1-14).

No v. 20 Jesus Cristo anuncia que o Esposo lhes será arrebatado: é a primeira alusão que faz Jesus à Sua Paixão e Morte (cfr Mc 8, 31; Ioh 2,19; 3,14). A visão de alegria e dor, que encontramos nestes dois versículos, ajuda-nos a com­preender também a condição humana enquanto caminhamos na terra.

 

21.01.14 – Mc 2, 23-28

23Sucedeu também que, atravessando Ele por meio de umas searas em dia de o sábado, os discípulos começaram a colher espigas enquanto caminhavam. 24E os Fariseus diziam-Lhe: Olha! Como é que eles fazem ao sábado o que não é lícito? 25Diz-lhes Ele: Nunca lestes o que fez David, quando se viu em necessidade e teve fome, ele e os que estavam com ele? 26Como entrou na casa de Deus, no tempo do Sumo Sacerdote Abiatar, e comeu os pães da proposição, que só os sacerdotes podem comer, e deu também aos que estavam com ele? 27E acrescentou: O sábado fez-se para o homem e não o, homem para o sábado. 28Por isso o Filho do homem é também senhor do sábado.

 

Comentário

24.   Cfr a nota a Mt 12,2.

26-27. Os pães da proposição eram doze pães que se colocavam todas as semanas na mesa do santuário, como homenagem das doze tribos de Israel ao Senhor (cfr Lev 24, 5-9). Os pães substituídos ficavam reservados para os sacer­dotes que serviam no culto.

O comportamento de Abiatar antecipou a doutrina que Cristo ensina neste passo. Já no Antigo Testamento Deus tinha estabelecido uma ordem nos preceitos da Lei, de modo que os de menor categoria cedem diante dos principais.

À luz disto explica-se que um preceito cerimonial (como o que comentamos) cedesse diante de um preceito da lei natural. Igualmente o preceito do sábado não está por cima das necessidades elementares da subsistência. O Concilio Vaticano II inspira-se neste passo para sublinhar o valor da pessoa por cima do desenvolvimento econômico e social: «A ordem social e o seu progresso devem, pois, reverter sempre em bem das pessoas, já que a ordem das coisas deve estar subordinada à ordem das pessoas e não ao contrário; foi o próprio Senhor quem o insinuou ao dizer que o sábado fora feito para o homem, não o homem para o sábado. Essa ordem, fundada na verdade, construída sobre a justiça e vivificada pelo amor, deve ser cada vez mais desenvolvida» (Gaudium et spes, n. 26).

Finalmente, neste passo Cristo ensina qual era o sentido da instituição divina do sábado: Deus tinha-o instituído para bem do homem, para que pudesse descansar e dedicar-se com paz e alegria ao culto divino. A interpretação dos fariseus tinha convertido este dia em ocasião de angústia e de preocupação por causa da multiplicidade de prescrições e de proibições.

Ao proclamar-Se «senhor do sábado», Jesus afirma a Sua divindade e o Seu poder universal. Por esta razão, pode esta­belecer outras leis. tal como Yahwéh no Antigo Testamento.

28. O sábado tinha sido feito não só para que o homem descansasse, mas para que desse glória a Deus: este é o autêntico sentido da expressão «o sábado foi feito para o homem». Jesus bem pode chamar-se senhor do sábado, porque é Deus. Cristo restitui ao descanso semanal toda a sua força religiosa: não se trata do mero cumprimento de uns preceitos legais, nem de preocupar-se apenas dum bem-estar material: o sábado pertence a Deus e é um modo, adaptado à natureza humana, de dar glória e honra ao Todo-poderoso. A Igreja, desde o tempo dos Apóstolos, transferiu a obser­vância deste preceito para o dia seguinte, domingo — dia do Senhor —, para celebrar a Ressurreição de Cristo (Act 20, 7).

«Filho do Homem»: A origem do significado messiânico da expressão «Filho do Homem» aparece sobretudo na profecia de Daniel 7, 13 ss., que contempla em visão profética que sobre as nuvens do céu desce um «como Filho de Homem», que avança até ao tribunal de Deus e recebe o senhorio, a glória e o império sobre todos os povos e nações. Esta expressão foi preferida por Jesus (69 vezes aparece nos Evangelhos Sinópticos) a outras denominações messiânicas, como Filho de David, Messias, etc., para evitar, ao mesmo tempo, a carga nacionalista que os outros títulos tinham então na mente dos Judeus (cfr Introdução ao Evangelho segundo São Marcos, p. 459).

 

22.01.14 – Mc 3, 1-6

Entrou outra vez na sinagoga. Achava-se lá um homem que tinha uma das mãos ressequida. 2E eles estavam-No observando, para ver se o curava ao sábado, com intento de O acusarem. 3Então diz ao homem que tinha a mão seca: Levanta-te e vem para o meio. 4Depois pergunta-lhes: É lícito, em dia de sábado, fazer bem, ou fazer mal? Salvar uma vida, ou tirá-la? Mas eles cala­ram-se. 5E Jesus, lançando sobre eles um olhar de indignação, contristado por ver aqueles corações tão calejados, diz ao homem: Estende a mão. Ele estendeu-a, e a mão ficou curada. 6Os Fariseus, porém, saindo dali, reuniram imediatamente conselho com os Herodianos contra Ele, para O matarem.

Comentário

5. Os evangelistas falam-nos várias vezes do olhar de Jesus (p. ex. ao jovem rico: Mc 10,21; a São Pedro: Lc22, 61; etc.). Esta é a única vez em que se alude à indignação no olhar de Nosso Senhor, provocada pela hipocrisia que foi indicada no v. 2.

6. Os fariseus eram os dirigentes espirituais do judaísmo e os herodianos os partidários do regime de Herodes, com o qual tinham prosperado política e economicamente. Opunham-se uns aos outros e não conviviam, mas juntos vão fazer s causa comum contra Jesus. Os fariseus tentam fazê-Lo desa­parecer porque O consideram como um perigoso inovador. A ocasião mais imediata pôde ser que tinha perdoado os pecados (Mc 2, 1 ss.) e interpretado com toda a autoridade o preceito do sábado (Mc 3, 2); querem também acabar com Jesus porque consideram que Ele, com o Seu proceder, os desprestigiou ao curar o homem que tinha a mão seca. Os herodianos, por seu lado, desprezavam o tom sobrenatural e escatológico da mensagem de Cristo, já que eles esperavam um Messias meramente político e temporal.

 

23.01.14 – Mc 3, 7-12

7E Jesus com Seus discípulos retirou-Se para o mar, seguido por uma grande multidão da Galileia; e outra grande multidão da Judeia, 8de Jerusalém, da Idumeia, de além–Jordão e das comarcas de Tiro e de Sidónia, ouvindo as grandes coisas que fazia, veio ter com Ele, 9tanto que disse aos discípulos que Lhe tivessem pronta uma barca, para que o tropel da gente O não oprimisse; 10pois, tendo curado muitos, todos os que tinham doenças se precipitavam para Ele, para Lhe tocarem; 11e os espíritos imundos, quando O viam, caíam-Lhe aos pés, gritando: Tu és o Filho de Deus. 12Mas Ele intimava-lhes com energia que O não dessem a conhecer.

Comentário

10.    Durante a vida pública do Senhor repetidamente as multidões aglomeravam-se junto d’Ele para serem curadas (cfr Lc 6, 19; 8, 45; etc,). Como em muitas curas, São Marcos recolhe graficamente o que Jesus realizava sobre os doentes (cfr Mc l, 31.41; 7,31-37; 8,22-26; Ioh 9,1-7.11.15). O Senhor, ao fazer estas curas, mostra que é Deus e homem ao mesmo tempo: cura em virtude do Seu poder divino, servindo-Se da Sua natureza humana. Com efeito, só no Verbo de Deus feito carne se realizou a obra da nossa Redenção, e o instrumento da nossa salvação foi a Humanidade de Jesus — corpo e alma — na unidade da pessoa do Verbo (cfr Sacrosanctum Concilium, n. 5).

Este aglomerar-se das gentes reitera-se em todos os cristãos de qualquer época, porque a Humanidade Santíssima do Senhor é o único caminho para a nossa salvação e o meio insubstituível para nos unir com Deus. Assim, pois, hoje nós podemos aproximar-nos do Senhor por meio dos sacra­mentos, de modo singular e eminente pela Eucaristia. Pelos sacramentos flui também para nós, desde Deus e através da Humanidade do Verbo, uma virtude que cura aqueles que os recebem com fé (cfr Suma Teológica, III, q.62, a. 5).

 

24.01.14 – Mc 3, 13-19

13Subiu depois ao monte e chamou a Si os que Ele quis, e eles foram-se para junto d Ele. 14E designou doze para andarem com Ele e para os mandar a pregar, 15com poder de expulsarem os Demônios. 16Designou, pois, os doze: Simão, a quem impôs o nome de Pedro; 17Tiago, filho de Zebedeu, e João, irmão de Tiago, aos quais pôs o nome de Boanerges, isto é, «filhos do trovão»;18André, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tome, Tiago, filho de Alfeu, Tadeu, Simão, o Cananeu, 19e Judas Iscariotes, que foi o que O entregou.

Comentário

13. «Chamou a Si os que Ele quis»: Deus quer ensinar-nos que a vocação é uma iniciativa divina. Isto é particularmente aplicável à vocação dos Apóstolos. Por isso pôde Jesus dizer-lhes mais tarde: «Não fostes vós que Me escolhestes a Mim, mas Eu que vos escolhi a vós» (Ioh 15, 16). Aqueles que iam ter poder e autoridade dentro da Igreja, não obteriam esses poderes em virtude de um oferecimento pessoal, aceite depois por Jesus, mas ao contrário. «Pois não por própria iniciativa e preparação, mas pela graça divina, seriam chamados ao apostolado» (In Marci Evangelium expositio, ad loc.).

14-19. Os Doze são escolhidos por Jesus (cfr 3, 14), recebendo uma vocação específica para serem «enviados», que é o que significa a palavra «apóstolos». Jesus escolhe-os para a missão posterior (6, 6-13), e para isso lhes outorgará parte do Seu poder. O facto de Jesus escolher precisamente doze tem um profundo significado. O seu número corresponde ao dos doze Patriarcas de Israel, e os Apóstolos representam o novo Povo de Deus, a Igreja, fundada por Cristo. Jesus quis assim pôr em relevo a continuidade entre o Antigo e o Novo Testamento. Eles são as colunas sobre as quais Cristo edifica a Igreja (cfr Gal 2,9). A sua missão consistirá em fazer discípulos do Senhor (ensinar) todos os povos, santificar e governar os crentes (Mt 28, 16-20; Mc 16, 15; Lc 24, 45-48; Ioh 20, 21-23). A própria designação dos Doze mostra que formam um grupo determinado e completo; por isso, depois da morte de Judas, o traidor, é escolhido Matias para completar este número (Act 1, 15-26).

14. O Concilio Vaticano II vê neste texto a instituição do Colégio Apostólico: «O Senhor Jesus, depois de ter orado ao Pai, chamando a Si os que Ele quis, elegeu doze para estarem com Ele e para os enviar a pregar o Reino de Deus (cfr Mc 3, 13-19; Mt 10, 1-42); e a estes Apóstolos (cfr Lc 6, 13) constituiu-os em colégio ou grupo estável e deu-lhes como chefe a Pedro, escolhido de entre eles (cfr Ioh 21, 15-17) (…). Esta missão divina confiada por Cristo aos Apóstolos durará até ao fim dos tempos (cfr Mt 28, 20), uma vez que o Evangelho que eles devem anunciar é em todo o tempo o princípio de toda a vida na Igreja. Pelo que os Apóstolos trataram de estabelecer sucessores, nesta sociedade hierarquicamente constituída» (Lumen gentium, n. 19-20). Portanto, o Papa e os Bispos, que sucedem ao Colégio dos Doze, são também chamados pelo Senhor para estarem sempre com Jesus e pregar o Evangelho, secundados pelos presbíteros.

Insiste-se, por outro lado, em que a vida de união com Cristo e o zelo apostólico devem estar estreitamente vincu­lados; isto é, a eficácia no apostolado depende sempre da união com o Senhor, da oração contínua, e da vida sacra­mentai: «O zelo é uma loucura divina de apóstolo, que te desejo, e que tem estes sintomas: fome de intimidade com o Mestre; preocupação constante pelas almas; perseverança, que nada faz desfalecer» (Caminho, n° 934).

16. A frase «designou os doze», semelhante a «designou doze» do v. 14, está atestada por muitos manuscritos, apesar de que não a recolhe a Neo-vulgata. A insistência na mesma expressão e o artigo «os doze» manifestam a importância da instituição do Colégio Apostólico.

 

25.01.14 – Mc 16, 15-18

15e disse-lhes Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura. 16Quem acre­ditar e for baptizado será salvo, mas quem não crer será condenado. 17Aos que crerem acompanhá-los-ão estes milagres: em Meu nome expulsarão Demônios, falarão novas línguas, 18pegarão em serpentes e, se beberem peçonha, não lhes fará mal, imporão as mãos aos doentes, e eles recobrarão saúde.

Comentário

15. Este versículo contém o chamado mandato apostó­lico universal, que é paralelo ao de Mt 28,19-20 e ao de Lc 24,46-48. É um mandato imperativo de Cristo aos Seus Após­tolos para que preguem o Evangelho a todas as nações. Essa mesma missão apostólica incumbe, de modo especial, aos sucessores dos Apóstolos, que são os Bispos em comunhão com o Papa, sucessor de Pedro.

Não só eles, porém, mas toda «a Igreja nasceu para tornar todos os homens participantes da redenção salvadora e, por eles, ordenar efectivamente a Cristo o universo inteiro, dilatando pelo mundo o Seu Reino para glória de Deus Pai. Toda a actividade do Corpo místico que a este fim se oriente, chama-se apostolado. A Igreja exerce-o de diversas maneiras, por meio de todos os seus membros, já que a vocação cristã é também, por sua própria natureza, vocação ao aposto-lado. (…). Existe na Igreja diversidade de funções, mas unidade de missão. Aos Apóstolos e seus sucessores, confiou Cristo a missão de ensinar, santificar e governar em Seu nome e com o Seu poder. Mas os leigos, dado que são participantes do múnus sacerdotal, profético e real de Cristo, têm um papel próprio a desempenhar na missão do inteiro Povo de Deus, na Igreja e no mundo» (Apostolicatn actuositatem, n. 2).

É verdade que Deus actua directamente na alma de cada pessoa por meio da Sua graça, mas, ao mesmo tempo, deve afirmar-se que é vontade de Cristo, expressa neste e noutros textos, que os homens sejam instrumento ou veículo de salvação para os outros homens.

Neste sentido também o Concilio Vaticano II ensina: «A todos os fiéis incumbe, portanto, o glorioso encargo de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens em toda a terra» (Ibid., n. 3).

16. Como conseqüência da proclamação da Boa Nova ensina-se neste versículo que a fé e o Baptismo são requisitos indispensáveis para alcançar a salvação. A conversão à fé de Jesus Cristo há-de levar directamente ao Baptismo, que nos «confere a primeira graça santificante, pela qual se perdoa o pecado original e também os actuais, se os houver; remete toda a pena por eles devida; imprime o caracter de cristãos; faz-nos filhos de Deus, membros da Igreja e herdeiros da glória, e habilita-nos para receber os outros sacramentos» (Catecismo Maior, n° 553).

O Baptismo é absolutamente necessário para o homem se salvar, como se depreende destas palavras do Senhor. Mas a impossibilidade física do rito baptismal pode ser suprida ou pelo martírio, que é chamado baptismo de sangue, ou por um acto perfeito de amor de Deus ou de contrição, unidos ao desejo, pelo menos implícito, de ser baptizado; a isto chama-se baptismo de desejo (cfr Ibid., nos 567-568).

Relativamente ao Baptismo das crianças, já Santo Agos­tinho ensinava que «de nenhum modo se pode rejeitar nem considerar como desnecessário o costume da Santa Madre Igreja de baptizar as crianças; antes pelo contrário, há que admiti-lo forçosamente por ser tradição apostólica» (De Gen. ad litt., 10,23,39). O novo Código de Direito Canónico assinala a necessidade de que as crianças sejam baptizadas: «Os pais têm obrigação de procurar que as crianças sejam baptizadas dentro das primeiras semanas; logo após o nasci­mento, ou até antes deste, vão ter com o pároco, peçam-lhe o sacramente para o filho e preparem-se devidamente para ele» (cân. 867 § 1).

Outra conseqüência ligada intimamente à anterior é a necessidade da Igreja, como declara o Concilio Vaticano II: «Com efeito, só Cristo é mediador e caminho de salvação e Ele torna-Se-nos presente no Seu corpo, que é a Igreja; ao inculcar expressamente a necessidade da fé e do Baptismo (cfr Mc 16,16; Ioh 3,5), confirmou simultaneamente a neces­sidade da Igreja, para a qual os homens entram pela porta do Baptismo. Pelo que, não se poderiam salvar aqueles que, não ignorando ter sido a Igreja católica fundada por Deus, por meio de Jesus Cristo, como necessária, contudo, ou não querem entrar nela ou nela não querem perseverar» (Lumen gentium, n. 14; cfr Presbyterorum ordinis, n. 4; Ad gentes, nn. 1.3; Dignitatis humanae, n. 11).

17-18. Nos primeiros tempos da expansão da Igreja, estes factos miraculosos que Jesus anuncia cumpriram-se de modo freqüente e visível. Os testemunhos históricos destes acontecimentos são abundantíssimos no Novo Testamento (cfr, p. ex. Act 3,1-11; 28,3-6) e noutros escritos cristãos antigos. Era muito conveniente que assim sucedesse para mostrar ao mundo de uma maneira palpável a verdade do cristianismo. Mais tarde, continuaram a realizar-se milagres deste tipo, mas em menor número, como casos excepcionais. Também é conveniente que assim seja porque, por um lado, a verdade do Cristianismo está já suficientemente atestada; e, por outro, para dar lugar ao mérito da fé. «Os milagres — comenta São Jerónimo — foram precisos ao princípio para confirmar com eles a fé. Mas, uma vez que a fé da Igreja está confirmada, os milagres não são necessários» (Comm. in Marcum, ad loc.). De qualquer modo, Deus continua a realizar milagres através dos santos de todos os tempos, também dos actuais.

 

26.01.14 – Mt 4, 12-23

12Quando ouviu que João fora entregue, retirou-se para a Galileia. 13E, deixando Nazaré, passou a morar em Cafarnaum, àbeira-mar, nos confins de Zabulão e de Neftalim, 14para se cumprir o que fora anun­ciado pelo profeta Isaías, que diz: 15«Terra de Zabulão e terra de Neftalim, para os lados do mar, terra de Além-Jordão, Galileia dos Gentios:

16O povo que jazia nas trevas viu uma grande luz, e a luz amanheceu aos que jaziam na região caliginosa da morte».

17Desde então, começou Jesus a pregar e a dizer: Fazei penitência, porque está próximo o Reino dos Céus.

18Passeando ao longo do mar da Galileia, viu dois irmãos, Simão chamado Pedro e André, seu irmão, a deitarem a tarrafa ao mar, pois eram pescadores, 19e disse-lhes: Vinde após Mim, e far-vos-ei pescadores de homens.

20E eles imediatamente, deixadas as redes, seguiram-No.

21Prosseguindo dali, viu outros dois irmãos, Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, na barca, com o pai Zebedeu, a consertarem as redes e chamou-os 22E eles imediatamente, deixando a barca e o pai, seguiram-No.

23E Jesus discorria por toda a Galileia, ensinando nas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino e curando todas as doenças e todas as enfermidades no povo.

Comentário

17. Veja-se a nota a Mt 3, 2. O versículo indica a transcendência do momento inicial da pregação pública de Jesus, que começa pela proclamação da iminência do Reino de Deus. Jesus entronca na proclamação de João Baptista: pode apreciar-se uma coincidência até literal entre a segunda frase deste versículo e Mt 3,2. Esta coincidência sublinha a função que teve São João Baptista como profeta e precursor de Jesus. Tanto o Baptista como Nosso Senhor exigem o arrependimento, a penitência, como condição prévia para o acolhimento do Reino de Deus que começa.

O reinado de Deus sobre os homens é tema central da Revelação de Jesus Cristo, como o tinha sido no AT. Mas então, o Reino de Deus tinha tido uma matização que se pode chamar teocrática: Deus reinava sobre Israel tanto no espi­ritual como no temporal, e, por meio dele, submeteria ao Seu domínio as outras nações. Agora Jesus irá explicando de modo progressivo a renovada natureza deste Reino de Deus, que chegou à sua plenitude, situando-o no seu plano espiritual de amor e santidade, e purificando-o dos desvios nacionalistas dos judeus.

Este Reino, para o qual o Rei convida todos sem excepção (cfr Mt 22, 1-14), tem na terra o seu Banquete, que exige certas condições, que os propagadores deste Reino hão-de pregar. «Portanto, o banquete eucarístico é o centro da assembléia dos fiéis a que o presbítero preside. Por isso, os presbíteros ensinam os fiéis a oferecer a Deus Pai a vítima divina no sacrifício da missa, e a fazer, com ela, a oblação da sua vida; com o espírito de Cristo Pastor, ensinam-nos a submeter de coração contrito à Igreja no sacramento da Peni­tência os próprios pecados, de tal modo que se convertam cada vez mais no Senhor, lembrados das Suas palavras: ‘Fazei penitência, porque o reino dos céus está próximo’» (Presbyterorum ordinis, n. 5).

18-22. Os quatro discípulos conheciam já o Senhor (Ioh l, 35-42). A breve convivência com Jesus deve ter produzido uma atracção imperiosa nas suas almas. Cristo preparava assim a vocação destes homens. Agora trata-se já daquela vocação eficaz, que os moveu a abandonar todas as suas coisas para O seguir e ser Seus discípulos. Por cima dos defeitos humanos — que os Evangelhos não dissimulam — ressalta, sem dúvida e de modo exemplar, a generosidade e prontidão com que os Apóstolos corresponderam ao chama­mento divino.

O leitor atento poderá descobrir e admirar a terna simplicidade com que os evangelistas relataram, para sempre, as circunstâncias da vocação destes homens no meio dos seus afazeres quotidianos.

«Deus tira-nos das trevas da nossa ignorância, do nosso caminho incerto entre os acontecimentos da história e chama-nos com voz forte, como um dia o fez com Pedro e André» (Cristo que passa, n° 45).

«Diálogo divino e humano, que transformou a vida de João e de André, de Pedro, de Tiago e de tantos outros; que preparou os seus corações para escutarem a palavra imperiosa que Jesus lhes dirigiu junto ao mar da Galileia» (Cristo que passa, n° 108).

São de salientar as palavras com que a Sagrada Escritura descreve a entrega imediata destes apóstolos. Pedro e André deixaram imediatamente as redes e seguiram-No. Do mesmo modo, Tiago e João deixaram imediatamente a barca e o pai e seguiram-No. Deus passa e chama. Se não se Lhe responde imediatamente, Ele pode continuar o Seu caminho e nós podemos perdê-Lo de vista. A passagem de Deus pode ser rápida; seria triste que ficássemos para trás, por querermos segui-Lo levando connosco muitas coisas que não serão senão peso e estorvo.

Sobre o chamamento de Cristo dirigido aos homens no meio do seu trabalho habitual, veja-se a nota a Mt 2,2.

23. «Sinagoga»: E um nome de origem grega que designa o edifício onde se reúnem os judeus, no dia de Sábado e noutros dias festivos, para celebrar os cultos religiosos, exceptuados os sacrifícios, que só podiam realizar-se no Templo de Jerusalém. A sinagoga era também o lugar onde se atendia à formação religiosa dos judeus. Eram também indicadas com este nome as pequenas comunidades judaicas dentro da Palestina ou no estrangeiro.

 

27.01.14 – Mc 3, 22-30

22Mas os Escribas, descidos de Jerusalém, diziam: Está possesso de Belzebu, e é em virtude do príncipe dos Demônios que os expulsa. 23Chamou-os Ele e disse-lhes, em parábolas: Como pode Satanás expulsar a Satanás? 24Se um reino se divide contra si mesmo, não pode um tal reino sustentar-se. 25E, se uma casa se divide contra si mesma, não poderá esta casa sustentar-se. 26Se, pois, Satanás se levantou contra si mesmo e se dividiu, não pode sustentar-se, mas está no fim. 27O facto é que ninguém pode entrar em casa dum valente e saquear-lhe as alfaias, sem primeiro o prender; só então lhe saqueará a casa.

28Em verdade vos digo que aos filhos dos homens serão perdoados todos os pecados e todas as blasfêmias que proferirem; 29mas quem blasfemar contra o Espírito Santo jamais alcançará perdão: será réu de delito eterno, 30porque diziam: — Está possesso de um espírito imundo.

Comentário

22-23. Até os milagres de Jesus foram mal entendidos por aqueles escribas que O acusam de ser instrumento do príncipe dos demônios: Beelzebu. Este nome pode rela­cionar-se com Beelzebub, assim o escrevem alguns códices,  nome de um deus da cidade filisteia do Eqroii (Accaron), que significa «deus das moscas». Embora seja mais provável que o príncipe dos demônios se denomine Beelzebu, porque este termo significa «deus do estéreo», e estéreo chamavam os Judeus aos sacrifícios pagãos. Beelzebub ou Beelzebu, era aquele a quem se dirigiam, em última análise, esses sacri­fícios: o demônio (l Cor 10, 20). É o mesmo personagem misterioso, mas real, que Jesus chama Satanás, que significa o adversário, e a que Cristo veio arrancar o domínio que tinha sobre o mundo (1Cor 15, 24-28; Col 1, 13 s.), numa luta incessante (Mt 4, 1-10; Ioh 16, 11). Estes nomes mostram a realidade do demônio, como um ser pessoal, que tem ao seu serviço outros muitos da sua natureza (Mc 5,9).

24-27. O Senhor convida agora os fariseus, obcecados e endurecidos, a fazer uma consideração simples: se alguém expulsa o demônio, isto quer dizer que é mais forte do que ele. É uma exortação mais a reconhecer em Jesus o Deus «forte», o Deus que com o Seu poder liberta o homem da escravidão do demônio. Terminou o domínio de Satanás: o príncipe deste mundo está a ponto de ser expulso. A vitória de Jesus sobre o poder das trevas, que culmina na Sua Morte e Ressur­reição, demonstra que a luz está já no mundo. Disse-o o próprio Senhor: «Agora é o julgamento deste mundo. Agora é que o Príncipe deste mundo vai ser lançado fora» (Ioh 12,31-32).

28-30. Jesus acaba de realizar um milagre, mas os escribas não o reconhecem «porque eles diziam: Tem um espírito imundo» (v. 30). Não querem admitir que Deus é o autor do milagre. Nessa atitude consiste precisamente a gravidade especial da blasfêmia contra o Espírito Santo: atribuir ao príncipe do mal, a Satanás, as obras de bondade realizadas pelo próprio Deus. Quem actuasse assim viria a ser como um doente que, no cúmulo da sua desconfiança, repelisse o médico como um inimigo, e rejeitasse como um veneno o remédio que o poderia salvar. Por isso diz Nosso Senhor que o que blasfema contra o Espírito Santo não terá perdão: não porque Deus não possa perdoar todos os pecados, mas porque esse homem, na sua obcecação perante Deus, rejeita Jesus Cristo, a Sua doutrina e os Seus milagres, e despreza as graças do Espírito Santo como se fossem enganos para o perder (cfr Catecismo Romano, II, 5,  19; Suma Teológica, II-II q.14, a. 3). Veja-se a nota a Mt 12, 31-32.

 

28.01.14 – Mc 3, 31-35

31Nisto chegaram Sua Mãe e Seus irmãos e, ficando fora, mandaram-No chamar. “Ora estava muita gente sentada à volta d’Ele, quando Lhe disseram: Olha, Tua Mãe, Teus irmãos e Tuas irmãs estão ali fora a pro­curar-Te. 33Mas Ele respondeu: Quem é Minha mãe e Meus irmãos?34 E, percorrendo com o olhar todos o que estavam à volta d’Ele, disse: 35Quem faz a vontade de Deus, esse é Meu irmão, e irmã, e mãe.

Comentário

31-35. A palavra «irmãos» era em aramaico, a língua falada por Jesus, uma expressão genérica para indicar um parentesco: irmãos também se chamavam os sobrinhos, os primos direitos e os parentes em geral. (Para mais explica­ções cfr a nota a Mc 6, 1-3). «Jesus não disse estas palavras para renegar Sua mãe, mas para mostrar que não só é digna de honra por ter gerado Cristo, mas também pelo cortejo de todas as virtudes» (Enarratio in Evangelium Marci, ad loc.).

Por isso, a Igreja recorda-nos que a Santíssima Virgem « acolheu as palavras com que o Filho, pondo o reino acima de todas as relações de parentesco, proclamou bem-aventurados todos os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática; coisa que Ela fazia fielmente» (Lumen gentium, n. 58).

O Senhor, pois, ensina também que segui-Lo nos leva a compartilhar a Sua Vida até tal ponto de intimidade que constitui um vínculo mais forte que o familiar. São Tomás explica-o dizendo que Cristo «tinha uma geração eterna e outra temporal, e antepõe a eterna à temporal. Aqueles que fazem a vontade de Meu Pai alcançam-No segundo a geração celestial (…). Todo o fiel que faz a vontade do Pai, isto é, que simplesmente Lhe obedece, é irmão de Cristo, porque é semelhante Àquele que cumpriu a vontade do Pai. Mas, quem não só obedece, mas converte os outros, gera Cristo neles, e desta maneira chega a ser como a Mãe de Cristo» (Comentário sobre S. Mateus, 12,49-50).

 

29.01.14 – Mc 4, 1-20

E Jesus começou outra vez a ensinar à beira-mar. Juntou-se logo à volta d’Ele uma grandíssima multidão, tanto que teve de subir e sentar-Se numa barca, no meio da água, enquanto todo o povo estava em terra, ao longo do mar. 2Ensinava-lhes então muitas coisas em parábolas e dizia-lhes na Sua exposição: 3Ouvi: Saiu o semeador a semear. 4E sucedeu que, ao semear, uma semente caiu ao longo do caminho, e vieram os pássaros e comeram-na. 5Outra caiu em terreno pedregoso, onde não tinha muita terra;  e logo brotou, porque a terra era pouco funda. 6Mas, quando nasceu o sol, ficou queimada e, como não tinha raiz, secou. 7Outra ainda caiu entre espinhos, e os espinhos cresceram e sufocaram-na, e não deu fruto. 8Outras enfim caíram em terra boa e, crescendo e vicejando, davam fruto e produziam a trinta, a sessenta e a cem por um 9E dizia: Quem tem ouvidos para ouvir, oiça.

10Quando, depois, Se encontrou sozinho, os discípulos com os doze interrogaram-No sobre as parábolas, 11e Ele dizia-lhes: A. vós foi-vos dado o mistério do Reino de Deus. Mas àqueles que são de fora tudo se propõe em parábolas, 12para que, olhando, olhem e não vejam; ouvindo, oiçam e não compre­endam; não seja que se convertam e que se lhes perdoe.

13E acrescentou: Não entendeis esta pará­bola? E como podereis compreender todas as parábolas? 14O semeador semeia a palavra. 15Os que estão ao longo do caminho onde é semeada a palavra, são aqueles que apenas ouvem, logo vem Satanás e tira a palavra neles semeada. 16Do mesmo modo, os que recebem a semente em terreno pedregoso são os que apenas ouvem a palavra, logo a recebem com alegria, 17mas não têm raiz em si mesmos, pois são volúveis; sobrevindo depois alguma tribulação ou perseguição por causa da palavra, logo se escandalizam. 18Outros são os que recebem a semente entre os espinhos. Estes são os que ouvem a palavra, 19mas os cuidados do século e a alucinação das riquezas e as outras paixões a que dão entrada sufocam a palavra, e fica infrutuosa. 20Os que recebem a semente em terra boa são aqueles que ouvem a palavra e a acolhem e dão fruto a trinta, a sessenta e a cem por um.

Comentário

1-34. As parábolas são um modo peculiar da pregação de Jesus Cristo. Por meio delas, o Senhor vai desco­brindo paulatinamente os mistérios do Reino de Deus aos Seus ouvintes. Cfr a nota a Mt 13, 3. O capítulo 4 de São Marcos, ainda que mais reduzido, é o equivalente do capítulo 13 de São Mateus, e do capítulo 8, 4-18 de São Lucas, que é o mais breve dos Sinópticos relativamente a este grupo de parábolas do Reino.

1-9. O cristão corrente, que busca a santidade através do seu trabalho ordinário, não pode deixar de comover-se diante da freqüência com que o Senhor recorre nas Suas parábolas a exemplos tomados desse mesmo trabalho: «O pró­prio Jesus, nas Suas parábolas sobre o Reino de Deus, refere-Se constantemente ao trabalho humano: ao trabalho do pastor (por ex. Ioh 10,1-6), do agricultor (cfr Mc 12,1-12), do médico (cfr Lc 4,23), do semeador (cfr Mc 4, l -9), do patrão (cfr Mt 13, 52), do servo (cfr Mt 24,45; Lc 12,42-48), do feitor (cfr Lc 16, 1-8), do pescador (cfr Mt 13,47-50), do comerciante (cfr Mt 13, 45-46) e do operário (cfr Mt 20, l -l 6). Fala também das diversas actividades das mulheres (cfr Mt 13,33; Lc 15, 8-9). Apresenta o apostolado sob a imagem do trabalho braçal dos ceifeiros (cfr Mt 9, 37; Ioh 4, 35-38) ou dos pescadores (cfr Mt 4, 19). Refere-Se, enfim, também ao trabalho dos estudiosos (cfr Mt 13, 52)» (Laborem exercens, n. 26).

3-9. Com a parábola do semeador Jesus quer mover os que O escutam a que abram generosamente o seu coração à palavra de Deus e a ponham em prática (cfr Lc 11, 28). Essa mesma docilidade é a que Deus espera também de cada um de nós: «A cena é actual. O semeador divino lança agora, também, a sua semente. A obra da salvação continua a cum­prir-se e o Senhor quer servir-Se de nós: deseja que nós, os cristãos, abramos ao Seu amor todos os caminhos da Terra; convida-nos a propagar a mensagem divina, com a doutrina e com o exemplo, até aos últimos recantos do mundo (…). Se olharmos à nossa volta, para este mundo que amamos porque foi feito por Deus, dar-nos-emos conta de que se veri­fica a parábola: a palavra de Jesus Cristo é fecunda, suscita em muitas almas desejos de entrega e de fidelidade. A vida e o comportamento dos que servem Deus mudaram a história e inclusivamente muitos dos que não conhecem o Senhor regem-se — talvez sem sequer o advertirem — por ideais nascidos do Cristianismo.

«Vemos também que parte da semente cai em terra estéril, ou entre espinhos e abrolhos: há corações que se fecham à luz da fé. Os ideais de paz, de reconciliação, de fraternidade, são aceites e proclamados, mas — não poucas vezes — são desmentidos com os factos. Alguns homens empenham-se inutil­mente em afogar a voz de Deus, impedindo a sua difusão com a força bruta ou então com uma arma, menos ruidosa, mas talvez mais cruel, porque insensibiliza o espírito: a indi­ferença» (Cristo que passa, n.° 150).

A parábola do semeador ensina também a admirável economia da Providência divina, que distribui graças diversas entre os homens, mas a todos as suficientes para conseguir a salvação: «A divina Providência concedeu uma graça incomparável à Rainha das rainhas, Mãe do Amor Formoso, singularmente perfeita. Também concedeu favores extraor­dinários a outros seres. Depois, esta Bondade soberana derramou abundantes bênçãos sobre o gênero humano e sobre a natureza angélica (…). Todos receberam a sua parte como de sementeira que cai não só no terreno bom, mas também pelo caminho, entre os espinhos e as pedras, a fim de que todos fiquem inescusáveis diante do Redentor se não empregam redenção tão superabundante para a sua própria salvação eterna» (Tratado do amor de Deus, livro 2, cap. 7).

11-12. O Reino de Deus é um mistério. Se os Doze o conheceram, foi por pura concessão da misericórdia de Deus, não porque eles pelas suas próprias luzes tenham compre­endido melhor que os outros as parábolas.

Foi muito conveniente que Jesus Cristo tenha falado em parábolas: em primeiro lugar por ser este um modo de conhecer do entendimento humano, que chega ao inteligível através do sensível, já que todos os nossos conhecimentos começam nos sentidos, mas não ficam aí: a nossa inteligência vai mais além. Por isso, na pregação de Cristo propõem-se com freqüência as coisas espirituais envolvidas em imagens de coisas corpóreas. Em segundo lugar, a Sagrada Escritura foi escrita para todos, segundo aquelas palavras de São Paulo: « Sou devedor de sábios e de ignorantes» (Rom 1,14); por isso foi conveniente que Nosso Senhor tivesse proposto as realidades mais profundas através de comparações, para que pelo menos deste modo as pudessem conseguir todos os homens com mais facilidade (cfr Suma Teológica, I, q. l, a. 9).

Os discípulos distinguem-se aqui dos «que estão fora», expressão que para os Judeus significava os gentios, e que agora Jesus aplica aos próprios Judeus, que não querem compreender os sinais que Jesus realiza (cfr Lc 12, 41).

Aos discípulos, pois, concede o Senhor uma instrução mais clara ainda acerca do conteúdo das parábolas. Mas, visto que os Judeus não querem aceitar os sinais que Jesus realiza, neles cumprem-se as palavras do profeta Isaías (6, 9-10). As parábolas, que são uma manifestação da miseri­córdia do Senhor, foram ocasião de condenação para os Judeus incrédulos, aos quais não se pode perdoar os seus pecados, já que não querem ver, nem escutar, nem conver­ter-se.

17. «Escandalizam-se»: Escândalo significa originaria-mente a pedra ou obstáculo onde facilmente se tropeça e se cai. Daqui é tomado na linguagem moral para indicar tudo o que induz outros a pecar (cfr a nota a Mt 18, 1-7). Também se chama escândalo em sentido amplo aquilo que pode ser ocasião de pecado, por exemplo, a dor e a tribulação. Neste passo, escandalizar-se significa, pois, desmoralizar-se, tro­peçar, sucumbir e cair. Se por malícia, diante de uma acção boa alguém se escandaliza, cai no escândalo chamado farisaico. Neste sentido, diz-nos São Paulo que a Cruz de Cristo foi escândalo para os Judeus, ao não quererem compreender que os planos salvíficos de Deus são levados a cabo através da dor e do sacrifício (cfr l Cor l, 23; vid. também Mc 14,27; Mt 16,23).

 

30.01.14 – Mc 4, 21-25

21Dizia-lhes mais: Porventura vem a candeia para se pôr debaixo do alqueire ou debaixo do leito? Não é para se colocar sobre o velador? 22Pois nada há oculto senão para se manifestar, e nada se escondeu senão para que venha a público. 23Quem tem ouvidos para ouvir, oiça.

24E dizia-lhes mais: Reparai no que ouvis: Com a medida com que medirdes vos será medido, mais ainda a vós que ouvis. 25Porque ao que tem dar-se-lhe-á, e ao que não tem ainda o que tem lhe será tirado.

Comentário

21. «Alqueire»: Era um recipiente que servia para medir cereais e legumes. Tinha uma capacidade de um pouco acima de oito litros.

22. Há nesta parábola um duplo ensinamento. Por um lado, a doutrina de Cristo não deve ficar escondida, mas ser pregada no mundo inteiro. Encontramos o mesmo ensina­mento noutros passos dos Evangelhos: «O que ouvis em segredo, apregoai-o nos terraços» (Mt 10,27); «Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho…» (Mc 16, 15). O outro ensina­mento desta parábola é que o Reino que Cristo anuncia tem tal força de penetração em todos os corações que, no fim da história, quando Jesus vier de novo, não ficará uma só accão do homem, a favor ou contra Cristo, que não passe a ser pública e manifesta. Cfr Mt 25,31-46.

24-25. O Senhor não Se cansa de pedir aos Apóstolos, germe da Igreja, que prestem atenção à doutrina que ouvem: estão a receber um tesouro do qual deverão dar contas. «Aquele que tem dar-se-á…»: a quem corresponde à graça dar-se-lhe-á mais graça ainda e abundará cada vez mais; mas o que não faz frutificar a graça divina recebida, ticará cada vez mais empobrecido (cfr Mt 25, 14-30). Por isso, á medida das virtudes teologais é não ter medida: «Se dizes basta, já morreste» (Santo Agostinho, Sermo 51). Uma alma que queira progredir no caminho interior fará sua esta oração: «Senhor: que eu tenha peso e medida em tudo, menos no Amor» (Caminho, n° 427).

 

31.01.14 – Mc 4, 26-34

26Dizia também: O Reino de Deus é assim como um homem que lançou a semente à terra, 27e dorme, e levanta-se, de noite e de dia, e a semente germina e cresce sem ele saber como. 28Porqüe a terra por si mesma produz primeiro o colmo, depois a espiga, depois o trigo grado na espiga. 29E, quando o fruto o permite, logo lhe mete a foice, porque chegou o tempo da ceifa.

30Dizia ainda: A que havemos de assemelhar o Reino de Deus, ou com que parábola o hemos de representar? 31É como o grão de mostarda que, ao ser semeado na terra, é a mais pequenina de todas as sementes que na Terra há. 32Mas, depois de semeado, cresce e torna-se maior que todas as hortaliças e deita ramos tão grandes, que as aves do céu podem acolher-se à sua sombra.

33E com muitas parábolas como esta lhes Conclusão expunha a palavra, segundo a sua capacidade de ouvir. 34E sem parábolas não lhes falava; mas, em particular, explicava tudo aos Seus discípulos.

Comentário

26-29. Os agricultores esforçam-se por preparar bem o terreno para a sementeira; mas, uma vez semeado o grão, já não podem fazer por ele nada mais, até ao momento da ceifa; de maneira que o grão se desenvolve pela sua própria força. Com esta comparação, exprime o Senhor o vigor íntimo do crescimento do Reino de Deus na terra, até ao dia da ceifa (cfr Ioel 3, 13 e Apc 14,15), ou seja, o dia do Juízo Final.

Jesus fala da Igreja aos Seus discípulos: a pregação do Evangelho, que é a semente generosamente espalhada, dará o seu fruto sem falta, não dependendo de quem semeia ou de quem rega, mas de Deus, que dá o incremento (cfr 1Cor 3, 5-9). Tudo se realizará «sem que ele saiba como», sem que os homens se deem plenamente conta.

Ao mesmo tempo o Reino de Deus indica a operação da graça em cada alma: Deus opera silenciosamente em nós uma transformação, enquanto dormimos ou enquanto velamos, fazendo brotar no fundo da nossa alma resoluções de fide­lidade, de entrega, de correspondência, até nos levar à idade «perfeita» (cfr Eph 4, 13). Ainda que seja necessário este esforço do homem, em última análise é Deus quem actua, «porque é o Espírito Santo que, com as suas inspirações, vai dando tom sobrenatural aos nossos pensamentos, desejos e obras. É Ele que nos impele a aderir à doutrina de Cristo e a assimilá-la em profundidade; que nos dá luz para tomar consciência da nossa vocação pessoal e força para realizar tudo o que Deus espera de nós. Se formos dóceis ao Espírito Santo, a imagem de Cristo ir-se-á formando, cada vez mais nítida, em nós e assim nos iremos aproximando cada vez mais de Deus Pai. Os que são conduzidos pelo Espirito de Deus, esses são filhos de Deus (Rom 8, 14)» (Cristo que passa, n° 135).

30-32. O sentido principal desta parábola é dado pelo contraste entre o pequeno e o grande. A semente do Reino de Deus na Terra é algo muito pequeno ao princípio (Lc 12, 32; Act 1,15); depois será uma árvore grande. Assim vemos como o reduzido grupo inicial dos discípulos cresce nos começos da Igreja (cfr Act 2,47; 6,7; 12,24), se estende ao longo dos séculos e chegará a ser uma multidão imensa «que ninguém poderá contar» (Apc 7,9).

Também se realiza em cada alma esse mistério do crescimento, a que se referem as palavras do Senhor:  «O Reino de Deus está dentro de vós» (Lc 17, 21), e que podemos ver anunciado com aquelas outras do Salmo: «O justo multiplicar-se-á como o cedro do Líbano» (Ps 92, 13). Para que brilhe a misericórdia do Senhor que nos exalta, que nos faz grandes, é preciso que nos encontre pequenos, humildes (Ez 17, 22-24; Lc 18,9-14).