Evangelho do dia – mês de abril de 2014

Abril de 2014

 

01.04.14 – Jo 5, 1-3a.5-16

Depois disto, houve uma festa dos Judeus, e Jesus subiu a Jerusalém. 2Ora existe em Jerusalém, junto à Piscina das Ovelhas, uma que, em hebraico, se chama Bezatá, que tem cinco pórticos. 3Nestes jazia grande número de enfermos, cegos, coxos, entrevados,.

5Estava ali um homem, enfermo havia trinta e oito anos. 6Jesus, ao vê-lo estendido e sabendo que já estava assim havia muito tempo, diz-lhe: Queres ficar são? 7Senhor — responde-Lhe o enfermo — não tenho nin­guém que me lance na piscina, quando a água se agitar; e enquanto eu vou, outro desce antes de mim. 8Diz-lhe Jesus: Levanta-te, toma o teu catre e anda. 9E logo o homem ficou são, tomou o catre e pôs-se a caminhar.

Ora aquele dia era um sábado. 10Diziam, por isso, os Judeus ao miraculado: É sábado e não podes levar esse catre. 11Mas ele res­pondeu-lhes: Quem me curou é que me disse: «Toma o teu catre e anda». 12Perguntaram-lhe então: Quem é o homem que te disse: «Toma o teu catre e anda »? 13Mas o que tinha sido curado não sabia quem era, pois Jesus havia-Se afastado, por haver muita gente no local.

14Em seguida, encontrou-o Jesus no Templo e disse-lhe: Ficaste curado. Não tornes a pecar, para não te suceder coisa pior. 15O homem foi dizer aos Judeus que tinha sido Jesus que o curara. 16Por isso os Judeus perseguiam Jesus, visto Ele fazer tais coisas ao sábado.

Comentário

1. Não é possível determinar com certeza de que festa se trata; provavelmente refere-se à Páscoa, conhecida inclusivamente no mundo greco-romano como a festa nacional do povo judaico. Mas também poderia referir-se a outras festas, como a de Pentecostes. (Sobre esta questão veja-se Cronologia da vida de Nosso Senhor Jesus Cristo, parágrafo 3, Duração do Ministério Público, pp. 88-89).

2. A esta piscinachama-se também «probática» por estar situada, nos Subúrbios de Jerusalém, junto à porta probática ou das Ovelhas (cfr Neh 3,1-32; 12,39), pela qual entrava o gado que\se destinava aos sacrifícios do Templo. Em fins do século XIX encontraram-se vestígios da piscina: escavada em rocha\ era de forma rectangular e estava rodeada de quatro galerias ou alpendres, e um quinto alpendre dividia o tanque  em duas metades quase quadra­das.

3-4. Os Santos Padres ensinam que essa piscina prefigura o Baptismo cristão. Mas assinalam que enquanto na piscina de Bezatá se curavam as doenças do corpo, no Baptismo curam-se as da alma; ali era de vez em quando e para um só doente; no Baptismo é sempre e para todos; em ambos os casos manifesta-se o poder de Deus por meio da água (cfr Hom. sobre S. João, 36,1).

14. Possivelmente o paralítico tinha acorrido ao Templo para dar graças a Deus pela sua cura. Jesus vem ao seu encontro e recorda-lhe que mais importante que a saúde do corpo é a saúde da alma.

O Senhor recorre ao santo temor de Deus como incentivo na luta contra o pecado: «Não tornes a pecar para não te suceder coisa pior». Este bom temor que nasce do respeito por nosso Pai Deus/ compagina-se perfeitamente com o amor. Assim como os filhos amam e respeitam os pais, e procuram evitar-lhes desgostos também por temor ao castigo, de modo semelhante nós temos de lutar contra o pecado em primeiro lugar porque é uma ofensa a Deus, mas também porque podemos ser castigados nesta vida e, sobretudo, na outra.

 

02.04.14 – Jo 5,17-30

17Mas Jesus respondeu-lhes: Meu Pai trabalha continuamente e Eu também trabalho. 18Daqui resultou que os Judeus mais se esforçavam por Lhe dar a morte, não só por violar o sábado, mas também por chamar a Deus Seu próprio Pai, fazendo-Se igual a Deus.

19Entáo Jesus tomou a palavra e pôs-Se a dizer-lhes: Em verdade, em verdade vos digo: Não pode o Filho fazer nada por Si mesmo, se não vir o Pai fazer alguma coisa; pois aquilo que Este faz, também o Filho o faz igualmente. 20De facto, o Pai ama o Filho e mostra-Lhe tudo o que Ele mesmo faz; e há-de mostrar-Lhe obras maiores do que estas, de modo que ficareis admirados. 21Pois, assim como o Pai ressuscita os mortos e lhes dá vida, assim também o Filho dá vida àqueles que quer. 22O Pai, de facto, não julga ninguém, mas entregou ao Filho todo o julgamento, 23para todos honrarem o Filho como honram o Pai. Quem não honra o Filho não honra o Pai, que O enviou.

24Em verdade, em verdade vos digo: Quem ouve a Minha palavra e acredita n’Aquele que Me enviou tem a vida eterna e não incorre em condenação, mas já transitou da morte para a vida. 25Em verdade, em ver­dade vos digo: Vai chegar a hora — e é já — em que os mortos hão-de ouvir a voz do Filho de Deus; e os que ouvirem viverão! 26Pois, assim como o Pai tem a vida em Si mesmo, assim também concedeu ao Filho o ter a vida em Si mesmo; 27e deu-Lhe o poder de julgar, por ser Filho de homem. 28Não vos admireis com isto, porque vai chegar a hora em que todos os que estão nos túmulos hão-de ouvir a Sua voz; 29os que tiverem feito boas obras ressuscitarão para a vida, e os que tiverem praticado más acções hão-de ressuscitar para a condenação. 30Eu nada posso fazer por Mim mesmo. Conforme oiço é que julgo, e é justo o Meu juízo, porque não busco a Minha vontade, mas a vontade d’Aquele que Me enviou.

Comentário

16-18. A Lei de Moisés assinalava o sábado como o dia de descanso semanal. Desta forma os Judeus pensavam imitar a maneira de agir de Deus na Criação. Observa São Tomás de Aquino que Jesus rejeita a estreita interpretação que davam os Judeus: «Estes, querendo imitar a Deus, não faziam nada ao sábado, como se Deus neste dia tivesse deixado absolutamente de actuar. É verdade que ao sábado descansou da criação de novas criaturas, mas sempre e de forma contínua actua, conservando-as no ser… Deus é causa de todas as coisas no sentido de que também as faz subsistir; porque se num momento dado se interrompesse o Seu poder, imediatamente deixariam de existir todas as coisas que a natureza contém» (Comentário sobre S. João, ad loc.). «Meu Pai trabalha continuamente e Eu também tra­balho»: Já dissemos que Deus não deixa de actuar depois da Criação. Como o Filho actua junto com o Pai, que com o Espí­rito Santo são um só Deus, por esta razão Nosso Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus, pode dizer que não deixa de trabalhar. Estas palavras de Jesus fazem referência implí­cita à Sua natureza divina, e assim o entenderam os Judeus, os quais, considerando-as uma blasfêmia, quiseram dar-Lhe a morte. «Todos — comenta Santo Agostinho — chamamos a Deus «Pai Nosso que estais nos Céus’ (Is 63,16; 64,8). Não se enfureciam, portanto, porque dissesse que Deus era Seu Pai, mas porque Lhe chamava Pai de maneira muito diferente de como Lhe chamam os homens. Vede como os Judeus veem; os arianos, pelo contrário, não querem ver. Estes dizem que o Filho não é igual ao Pai, e daqui surge uma heresia que aflige a Igreja. Vede como até os próprios cegos e os mesmos que mataram Cristo entenderam p sentido das palavras do Senhor» (In Ioann. Evang., 17,l). Nós chamamos a Deus nosso Pai porque somos filhos adoptivos pela graça; Jesus Cristo chama a Deus Seu Pai porque é o Filho por natureza. Por isso diz depois de ressuscitar:\ Subo para Meu Pai e vosso Pai (Ioh 20,17), distinguindo assim com clareza essas duas maneiras diferentes de ser filhos de Deus.

19. Jesus fala da igualdade e ao mesmo tempo da distinção entre o Pai e o Filho. Os dois são iguais: todo o poder do Filho é o poder do Pai, as obras do Filho são as obras do Pai. Ao mesmo tempo são duas Pessoas distintas: por isso o Filho faz o que viu fazer ao Pai.

Não se devem entender estas palavras do Senhor no sentido de que o Filho veja o que o Pai faz e que depois repita o que viu, como um discípulo que imita o professor; mas com esta frase indica-se a comunicação de poderes do Pai para o Filho por geração. Emprega-se o verbo «ver» porque o homem conhece através dos sentidos, especialmente da vista; dizer que o Filho vê o que faz o Pai é um modo de falar dos poderes que desde toda a eternidade recebe d’Ele (cfr Comentário sobre S. João, ad loc.).

20-21. Quando se diz que o Pai mostra ao Filho «tudo o que Ele mesmo faz» indica-se que Cristo pode fazer o mesmo que o Pai. Assim, quando Jesus Cristo realiza obras que são próprias de Deus, está a testemunhar com elas a Sua Divindade (cfr Ioh 5,36).

«Obras maiores»: Pode referir-se aos milagres que Jesus realizará na Sua vida e ao poder de julgar. Mas o milagre por excelência de Jesus é a Sua própria Ressurreição, causa e primícia da nossa (cfr 1Cor 15,20 ss.) e da aquisição para nós da vida sobrenatural. O poder vivificador de Cristo é total, tal como o do Pai. Este ensinamento desenvolve-se ao longo dos versículos seguintes até ao 29.

22-30. O poder de julgar também foi dado pelo Pai ao Verbo Encarnado. O juízo será condenatório para quem não crer em Cristo e na Sua palavra (cfr 3,18). É necessário reconhecer o senhorio de Jesus Cristo, sabendo que só ao aceitar o Filho feito homem honramos o Pai; aquele que não honra Jesus, também não honra o Pai (v. 23). Por esta acei­tação de Cristo, da Sua palavra, possuímos a vida eterna e somos libertados da condenação. Ele, assumida já de modo inseparável a Sua Humanidade, é constituído juiz, e o Seu juízo é justo porque busca cumprir a Vontade do Pai que O enviou, e não faz nada por conta própria; isto é, a Sua vontade humana está perfeitamente identificada com a Sua vontade divina: por isso pode afirmar Jesus que não faz a Sua vontade mas a Vontade do que O enviou.

22. Deus, por ser o Criador do mundo, é o Juiz supremo de todas as criaturas. Só Ele pode saber com toda a profundidade se estas criaturas cumprem o fim que Ele lhes marcou. Jesus Cristo, Verbo Encarnado, recebe os poderes divinos (cfr Mt 11,27;28,18; Dan7,14), entre eles o de julgar os homens. Ora bem, a Vontade de Deus é que estes se salvem: Cristo não veio para um juízo de condenação, mas de salvação (cfr Ioh 12,47). Unicamente o que não aceitar esta missão divina do Filho se coloca a si mesmo fora do âmbito da salvação. Como ensina o Magistério: «Que o poder judi­cial Lhe tenha sido dado por Seu Pai, o próprio Jesus Cristo o proclama diante dos Judeus que Lhe atiram à cara ó ter violado o descanso do sábado ao curar o paralítico (…). Este poder supõe o direito de impor prêmios e castigos aos homens, mesmo nesta vida» (Quas primas, Dz-Sch 3677). Jesus Cristo, portanto, é Juiz de vivos e de mortos, e retri­buirá a cada um segundo as suas obras (cfr 1Pet 1,17).

«É certo que de todas as nossas culpas temos de prestar estreitas contas ao eterno Juiz; mas, quem será este nosso Juiz? O Pai (…) deu todo o juízo ao Filho. Consolemo-nos, pois, já que o Eterno Pai pôs a nossa causa nas mãos do nosso próprio Redentor. São Paulo anima-nos com estas palavras: Quem será o que condene? Cristo, Jesus, o que morreu (…)-é Quem (…) intercede por nós (Rom 8,34). Quem é o juiz que nos há-de condenar? O próprio Salvador que, para não nos condenar à morte eterna, quis condenar-Se a Si mesmo e,por conseguinte, morreu e, não contente com isso, agora no Céu prossegue junto do Pai sendo mediador da nossa sal­vação» (Prática de amor a Jesus Cristo, cap. 3).

24. Escutar a palavra de Cristo e crer n’Aquele que O enviou, isto é, no Pai, são duas expressões intimamente rela­cionadas. O que diz Jesus Cristo é revelação divina; por isso, aceitar as palavras de Jesus equivale a crer em Deus Pai: «Aquele que crê em Mim, não crê em Mim, mas n’Aquele que Me enviou (…). Porque Eu não falei por Mim Mesmo, mas o Pai que Me enviou, ordenou-Me o que hei-de dizer e falar» (Ioh12,44.49).

Aquele que tem fé está no caminho da vida eterna, porque participa, já nesta vida terrena, da vida divina que é eterna; mas não a conseguiu definitivamente — porque pode perdê-la —, nem em plenitude: «Queridos, agora somos filhos de Deus mas ainda não se manifestou o que seremos (…), quando se manifestar seremos semelhantes a Ele» (l Ioh3,2). Para aquele que se mantém firme na fé, e vive de acordo com as suas exigências, o juízo divino não será condenatório mas salvador.

Portanto, vale a pena esforçar-se, apoiados na graça, por viver uma vida coerente com a fé: «Se se procurar com tanto empenho, com tanto trabalho e com tanto esforço viver aqui um pouco mais, quanto não deverá fazer-se para viver eter­namente?» (De verb. Dom. semi. 64).

25-30. Com estes vv encerra-se a primeira parte do dis­curso do Senhor, que abarca de 5,19 a 5,47, e cujo núcleo essencial é a revelação acerca da Sua relação com o Pai. Para compreender as afirmações que o Senhor faz aqui há que ter presente que Ele, por ser uma única Pessoa (divina), um só sujeito de operações, um único Eu, exprime em palavras humanas não só os sentimentos que tem como homem, mas também a realidade mais profunda do Seu ser: é o Filho de Deus, tanto na Sua geração eterna pelo Pai, como na Sua geração no tempo ao assumir a natureza humana. Daqui que Jesus Cristo tenha uma consciência tão viva e profunda — inimaginável para nós — da Sua filiação, que O leva a tratar o Pai com uma intimidade singularíssima, com amor e, ao mesmo tempo, com respeito; está consciente ao mesmo tempo da Sua igualdade com o Pai; por isso, quando fala de que o Pai Lhe deu a vida (v. 26), ou Lhe deu o poder (v. 27), não é que tenha recebido uma parte, mas a totalidade da própria vida — «em si mesmo» — ou do próprio poder, sem que o Pai os perca.

«Vês como mostra a igualdade e como a única diferença consiste em que um é o Pai e outro o Filho. Porque a expressão ‘deu’ introduz esta única diferença e demonstra que tudo o resto é igual. Daí se segue que Ele (Cristo) faz todas as coisas com a mesma potestade e com o mesmo poder que o Pai e que não toma a Sua força senão d’Ele» (Hom. sobre S. João, 39,3).

Maravilha-nos neste passo do Evangelho como na estreiteza da linguagem humana Jesus Cristo exprimiu os sentimentos do Seu único Eu: a Segunda Pessoa da Santís­sima Trindade que assumiu no tempo (e a partir desse momento para sempre) a natureza humana. É um mistério que o cristão deve contemplar, ainda que não o possa com­preender; só pode sentir-se inundado por uma luz tão potente que supera a sua capacidade de compreensão, mas enche a sua alma de fé e de desejos de adoração.

 

03.04.14 – Jo 5,31-47

31Se Eu der testemunho de Mim mesmo, o Meu testemunho não passa por verídico. 32É outro que dá testemunho de Mim, e Eu sei que é verídico o testemunho que Ele dá de Mim. 33Vós mandastes enviados a João e ele deu testemunho da verdade. 34Não é dum homem que Eu recebo testemunho, mas digo-vos isto para que vos salveis. 35Ele era uma lâmpada que ardia e brilhava, e vós, por um momento, deixastes-vos tomar de alegria com a sua luz. 36Mas Eu tenho um testemunho maior que o de João, pois as obras que o Pai Me deu para consumar, essas mesmas obras que faço, atestam, a Meu respeito, que o Pai Me enviou. 37E o Pai que Me enviou deu Ele mesmo testemunho de Mim. Nunca Lhe ouvistes a voz, nem Lhe vistes a figura, 38e não tendes, permanecendo em vós, a Sua palavra, porque não acredi­tais No que Ele enviou. 39Esquadrinhais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna; e são elas que dão testemunho de Mim! 40Vós, porém, não quereis vir a Mim, para terdes a vida.

41Não é dos homens que Eu tiro glória; 42aliás, bem vos conheço: não tendes em vós o amor de Deus. 43Eu vim em nome de Meu Pai e vós não Me recebeis. Se outro vier em seu próprio nome, recebê-lo-eis. 44Como po­deis acreditar, vós que tirais glória uns dos outros e não buscais a glória só da parte de Deus? 45Não penseis que Eu vou acusar-vos ao Pai. Há quem vos acuse, Moisés, em quem pusestes a vossa esperança; 46porquanto, se acreditásseis em Moisés, acreditaríeis em Mim, visto ele ter escrito a Meu respeito! 47Mas, se não acreditais nos seus escritos, como haveis de acreditar nas Minhas pala­vras?

Comentário

         31-40. A Jesus, por ser o Filho de Deus, bastava-Lhe a Sua própria autoridade para dar validade às Suas palavras (cfr 8,18); mas, como outras vezes, acomoda-Se aos usos dos homens e condescende com a forma de pensar dos Seus ouvintes. Assim, antecipando-Se à possível objecçâo dos Judeus de que o testemunho de uma pessoa na sua própria causa não é suficiente (cfr Dt 19,15), explica que as Suas palavras são avalizadas por quatro testemunhos: o de São João Baptista, o dos milagres, o do Pai, e o das Sagradas Escrituras do Antigo Testamento.

João Baptista tinha dado testemunho de que Jesus era o Filho de Deus (1,34). Ainda que Jesus não tivesse necessidade de recorrer ao testemunho de um homem, nem sequer ao de um grande profeta, aquele testemunho foi dado em atenção aos Judeus, para que reconhecessem o Messias. Jesus pode mostrar-lhes, além disso, um testemunho melhor que o do Baptista: os milagres que realiza, e que são, para quem os queira reconhecer com olhar limpo, sinais inequívocos do Seu poder divino, de que procede do Pai; os milagres de Jesus são, pois, testemunhos do Pai acerca do Seu Filho, que enviou ao mundo. Noutras ocasiões o Pai manifesta a divin­dade de Jesus: no Baptismo (cfr 1,31-34), na Transfiguração (cfr Mt 17,1-8) e, mais tarde, diante de toda a multidão (cfr Ioh12,28-30).

Jesus apela também para outro testemunho divino: o que se encontra nas Sagradas Escrituras. Estas falam d’Ele, mas os Judeus não são capazes de penetrar ó seu verdadeiro sentido, porque as leem sem se deixarem iluminar por Aquele a Quem Deus enviou e em Quem se cumprem todas as profecias. «A ‘economia’ do Antigo Testamento destina­va-se sobretudo a preparar, a anunciar profeticamente (cfr Lc 24,44; Ioh 5,39; 1Pet 1,10) e a simbolizar com várias figuras (cfr 1Cor 10,11) o advento de Cristo, redentor universal, e o do reino messiânico (…). Por isso, os fiéis devem receber com devoção estes livros que exprimem o vivo sentido de Deus, nos quais se encontram sublimes doutrinas a respeito de Deus, uma sabedoria salutar a respeito da vida humana, bem como admiráveis tesouros de preces, nos quais, finalmente, está latente o mistério da nossa salvação» (Dei Verbum, n. 15).

41-47. Jesus lança à cara dos Seus ouvintes três impedi­mentos que têm para O reconhecerem como o Messias e Filho de Deus: a falta de amor a Deus, a busca da glória humana e a interpretação interessada dos textos sagrados. A defesa que Jesus fez da Sua própria actuação e das relações com o Pai poderia fazer pensar aos Seus adversários que pretendia glória humana. Porém, os testemunhos aduzidos por Jesus (o Baptista, os milagres, o Pai e as Escrituras) põem em evidência que não é Ele quem busca a Sua glória, e que os Judeus O perseguem não por amor a Deus nem por defesa da honra divina, mas por motivos que não são rectos, ou por uma visão meramente humana.

Na verdade, o Antigo Testamento leva ao conhecimento de Jesus Cristo (cfr Ioh 1,45; 2, 17.22; 5, 39.46; 12,16.41); não obstante, os Judeus permanecem na incredulidade pelas suas disposições interiores, pois reduzem as promessas messiânicas dos livros sagrados a uma esperança nacionalista. Tais concepções, nada sobrenaturais, fecham-lhes a alma para as palavras e para as acções de Jesus, e impedem-nos de ver que n’Ele se estão a cumprir as antigas profecias (cfr 3,14-16).

 

04.04.14 – Jo 7, 1-2.10.25.30

Depois disto, andava Jesus pela Galileia, pois não queria andar pela Judeia, porque os Judeus procuravam dar-Lhe a morte.

2Estava próxima a festa judaica dos Tabernáculos.

10Mas, depois de os Seus irmãos terem subido para irem à festa, subiu então Ele também, não publicamente, mas em segredo..

25Diziam então alguns dos de Jerusalém: Não é a Este que procuram dar a morte? 26Aí está Ele a falar abertamente, e nada Lhe dizem! Teriam, na verdade, os chefes reco­nhecido que Ele é o Messias? 27Mas Este sabemos donde é; o Messias, quando vier, ninguém sabe donde é. 28Entretanto Jesus, estando a ensinar no Templo, disse em voz alta: Não só Me conheceis, mas sabeis tam­bém donde Eu sou, se bem que Eu não tenha vindo de Mim mesmo; mas Aquele que Me enviou é verdadeiro. Esse que vós não conheceis. 29Eu é que O conheço, porque venho de junto d’Ele e foi Ele que Me enviou. 30Procuravam então prendê-Lo, mas ninguém Lhe deitou a mão, porque ainda não chegara a Sua hora.

Comentário

1-3. Os parentes mais próximos costumavam cha­mar-se entre os Judeus com o nome de «irmãos» (cfr as notas a Mt 12,46-47 e a Mc 6,1-3). Estes parentes de Jesus continuavam sem compreender a Sua doutrina e a Sua missão (cfr Mc 3,31); não obstante, como os milagres realizados na Galileia eram patentes (cfr Mt 15,32-39; Mc 8,1-10.22-26), sugerem-Lhe que Se manifeste publicamente em Jerusalém e em toda a Judeia. Com isso quiçá buscassem o triunfo temporal de Jesus, que podia afagar a vaidade familiar.

2. O nome desta festa evoca o tempo que os Hebreus passaram no deserto, habitando em tendas de campanha (cfr Lev 23,34-36). Durante os oito dias que durava a festa (cfr Neh 8,13-18), no começo do Outono, comemorava-se a protecção que os israelitas tinham recebido de Deus ao longo daqueles quarenta anos do Êxodo. Por coincidir com o termo das colheitas, estas festas chamavam-se também das Colheitas (cfr Ex 23,16).

10. Uma vez que não subia com a antecipação costu­mada, as primeiras caravanas que chegassem da Galileia anunciariam que Jesus não estaria presente naquela festi­vidade e, por conseguinte, os membros do Sinédrio desis­tiriam de tomar medidas contra Ele (cfr 7,1). Ao subir mais tarde, as autoridades judaicas não se atreveriam a causar-Lhe dano por temor a uma revolta popular (cfr Mt 26,5). Jesus, possivelmente em companhia dos Seus discípulos, chega a Jerusalém passando despercebido para o povo, «em se­gredo». Estando a festa já a meio, no quarto ou no quinto dia, começou a pregar no Templo (cfr 7,14).

15-16. O Evangelista não se detém aqui em precisar qual a pregação de Jesus Cristo, mas informa-nos acerca da profunda admiração que causavam as Suas explicações entre os Judeus, incluídos os doutores da Lei (cfr Lc 2,47; 4,22; Ioh 7,46). Eles, que não O viram nas escolas dos mestres da Lei, maravilham-se e propõem-se essa pergunta que comportava uma malícia dissimulada: não estará a interpretar a Lei por Sua própria conta, sem atender ao ensino oficial dos «mestres»? É então que o Senhor apro­veita a ocasião para expor brevemente a Sua dignidade messiânica (7,16-24): Ele não inventa nada do que ensina, a Sua doutrina é divina, é a que o Pai Lhe deu a conhecer (cfr 5,30; 8,28; 12,49; 14,10.24). Por ser verdadeiro Deus e verda­deiro Homem, pode falar das coisas de Deus com autoridade singular: «A Deus ninguém O viu jamais; o Deus Unigênito, O que está no seio do Pai, Ele próprio O deu a conhecer» (1,18).

17-18. Para discernir a origem divina da doutrina de Jesus requer-se rectidão de intenção. Jesus, pela Sua parte, propõe um critério para reconhecer a legitimidade da Sua actuação: Ele não Se adjudica a grandeza e a sublimidade da Sua doutrina e das Suas obras (cfr 8,54), mas busca apenas a glorificação do Pai, e expõe a doutrina que Lhe foi entregue (cfr 7,16). Jesus tinha feito milagres portentosos, n’Ele podiam ver-se cumpridas as profecias, e os Seus adversários nada falso podiam encontrar na Sua doutrina nem na Sua conduta. Então, por que não creem n’Ele? Por não terem as disposições interiores adequadas, já que se deixam arrastar pela paixão que os impede de julgar com serenidade, e atribuem as obras de Jesus ao príncipe dos demônios (cfr v. 20). Não obstante, a quem se esforce por cumprir fielmente a Vontade de Deus segundo a sua própria consciência, o Senhor dar-lhe-á luzes novas que o façam descobrir Cristo e a Sua doutrina.

Seguindo o exemplo de Cristo, a Igreja, na sua actuação apostólica, não busca o seu triunfo humano, mas o bem das almas e a glória de Deus. «Deus é plenamente glorificado enquanto os homens por ela recebem, plena e conscientemente, a obra de salvação que Ele em Cristo levou a cabo. E assim se realizam por ela os desígnios de Deus, aos quais Cristo serviu com obediência e amor para glória do Pai que O enviou, e para que todo o gênero humano forme um só Povo de Deus, se una num só Corpo de Cristo, e se edifique num só templo do Espírito Santo» (Ad gentes, n. 7).

19-24. Jesus dá razão das curas feitas ao sábado. Em tal dia, por exemplo, tinha curado o paralítico da piscina de Bezatá (Ioh 5,1-18), o homem da mão ressequida (Mt 12,10-13 e par.), a mulher curvada (Lc 13, 10-17) e um hidrópico (Lc 14,1-6). O Senhor compara a Sua actuação com o cumpri­mento de dois preceitos da Lei, aparentemente opostos: por um lado, o descanso sabático, e, por outro, a obrigação de circuncidar no oitavo dia, ainda que caia num sábado. A conclusão é clara: se é lícito circuncidar ao sábado, com maior razão será lícito curar miraculosamente ao sábado. Por isso pede-lhes que julguem rectamente e descubram o Seu poder salvador, que procurem compreender o sentido profundo das Suas obras, ainda que aparentemente pareça que vão contra a Lei.

27. Ao longo deste capítulo aparecem frequentemente as dúvidas e o desconcerto dos Judeus. Discutem entre eles se Jesus é o Messias, ou um profeta, ou um impostor (v. 12); não sabem donde Lhe vem a Sua sabedoria (v. 15), respondem-Lhe irritados (vv 19-20) e admiram-se da atitude do Sinédrio (v. 26). Não obstante, apesar dos sinais que viram (milagres, doutrina), resistem a crer que Jesus é o Messias. Possivelmente uns pensavam que era de Nazaré, filho de José e de Maria, o que não se acomodava com a ideia comum derivada do vaticínio de Isaías (Is 53,1-8), de que se desco­nheceria a origem do Messias, excepto a Sua estirpe davídica e o Seu lugar de nascimento, Belém (cfr Mt 2,5 que cita Mich 5,2; cfr Ioh 7,42). Jesus, na realidade, cumpria estas predições proféticas ainda que a maioria dos Judeus não estivessem bem informados, pois desconheciam o Seu nasci­mento virginal em Belém e a Sua ascendência davídica. Outros, pelo contrário, deviam conhecer melhor a estirpe davídica de Jesus, o Seu nascimento em Belém, etc., mas não queriam aceitar as Suas palavras, porque elas levavam con­sigo as exigências de uma conversão moral e mental a que se fechavam culpavelmente.

28-29. Jesus refere-Se com certa ironia ao conhecimento superficial que d’Ele têm aqueles judeus, baseado nas apa­rências: Ele afirma, não obstante, que procede do Pai que O enviou, a Quem só Ele conhece, precisamente por ser o Filho de Deus (cfr Ioh 1,18).

30. Os judeus entenderam que Jesus Se fazia igual a Deus e isto era considerado uma blasfêmia, que segundo a Lei devia ser castigada com a morte por lapidação (cfr Lev 24,15-16.23).

Não é a primeira vez que São João refere a hostilidade dos judeus (cfr Ioh 5,10) nem será a última (cfr Ioh 8,59; 10,3 1-33). Sublinha esta hostilidade porque assim se deu de facto e quiçá também para pôr em realce a liberdade de Jesus que, cumprindo a Vontade do Pai, Se entregará nas mãos dos Seus inimigos quando chegar a Sua «hora» (cfr Ioh 1 8,4-8). «O Senhor não faz referência à hora em que seria obrigado a morrer, mas à hora em que Se deixaria matar. Esperava o tempo em que tinha de morrer, como esperou também o tempo em que tinha de nascer» (In Ioann. Evang., 31,5).

 

05.04.14 – Jo 7, 40-53

47Retorquiram-lhes os Fariseus: Também vós estais seduzidos? 48Porventura creu n’Ele algum dentre os chefes ou dentre os Fariseus? 49Mas essa multidão, que não conhece a Lei, são uns malditos!

50Disse-lhes Nicodemos, aquele que tinha ido anteriormente ter com Jesus e que era um deles: 5IAcaso julga a nossa Lei um homem, sem primeiro o ouvir e saber o que ele faz? 52Eles retorquiram-lhe: Também tu és da Galileia? Trata de indagar e hás-de ver que da Galileia não sai nenhum profeta. 53E foi cada qual para sua casa.

Comentário

06.04.14 – Jo 11, 1-45

Estava doente certo homem, Lázaro, de Betânia, aldeia de Maria e de Marta, sua irmã. 2Maria era aquela que ungiu o Senhor com perfume e Lhe enxugou os pés com os cabelos; seu irmão Lázaro é que estava doente. 3Mandaram-Lhe, pois, dizer as irmãs: Senhor, olha que está doente aquele de quem és amigo! 4Quando ouviu isto, Jesus observou: Essa doença não é de morte, é antes para a glória de Deus, para o Filho de Deus ser glorificado por ela.

5Ora Jesus era amigo de Marta, de sua irmã e de Lázaro. 6Mas, tendo ouvido dizer que ele estava doente, ainda ficou dois dias no sítio em que Se encontrava. 7Só depois é que disse aos discípulos: Vamos outra vez para a Judeia. 8Rabi — observam-Lhe os discípulos — ainda há pouco procuravam os Judeus apedrejar-Te, e Tu vais outra vez para lá?! ‘Jesus retorquiu: Não são doze as horas do dia? Se alguém andar de dia, não tropeça, porque vê a luz deste mundo; 10mas, se andar de noite, tropeça, porque não tem a luz consigo. 11Assim falou, declarando-lhes depois disso: O nosso amigo Lázaro está a dormir, mas Eu vou lá acordá-lo. 12Disse­ram-Lhe então os discípulos: Senhor, se está a dormir, salvar-se-á. 13Jesus referia-Se à morte dele, mas eles pensaram que falava do sono natural. 14Disse-lhes então Jesus aber­tamente: Lázaro morreu, 15e Eu, por vossa causa, estou contente por lá não ter estado, para que vós acrediteis. Mas vamos ter com ele. 16Disse então Tome, que é chamado Dídimo, aos companheiros: Vamos nós tam­bém, para morrermos com Ele!

17E assim Jesus, ao chegar, encontrou-o já com quatro dias de túmulo. 18Ora Betânia era perto de Jerusalém, cerca duns quinze estádios; 19e muitos Judeus tinham vindo até junto de Marta e de Maria, para as consolarem pela morte do irmão.

20Quando Marta ouviu dizer que Jesus estava a chegar, foi-Lhe ao encontro, enquanto Maria ficava em casa. 21Disse então Marta a Jesus: Se cá estivesses, Senhor, não teria morrido meu irmão! 22Ainda agora eu sei que tudo o que pedires a Deus, Deus To há-de conceder. 23Diz-lhe Jesus: Teu irmão ressuscitará. 24Responde-Lhe Marta: Eu sei que há-de ressuscitar na altura da Ressur­reição, no último dia! 25Eu sou a Ressurreição e a Vida — volveu-lhe Jesus. — Quem acredita em Mim, ainda que venha a morrer, viverá; 26e todo aquele que vive e acredita em Mim não morrerá jamais. Acreditas nisto? “Acredito, Senhor— Lhe diz ela — eu já acreditava que Tu és o Messias, o Filho de Deus, que havia de virão mundo!

28Dito isto, retirou-se e foi chamar sua irmã Maria, dizendo em segredo: Está ali o Mestre e manda-te chamar! 29Ela, ao ouvir isto, levanta-se prontamente e vai ter com Ele.30Jesus, de facto, ainda não tinha entrado na aldeia, mas conservava-Se no sítio em que Marta Lhe tinha vindo ao encontro. 31Então os Judeus que estavam com Maria em casa a consolá-la, quando a viram levan­tar-se apressadamente e sair, foram atrás dela, pensando que ia ao túmulo, para aí chorar. 32Maria, ao chegar aonde estava Jesus, caiu-Lhe aos pés, quando O viu, dizendo-Lhe: Se cá estivesses, Senhor, não teria morrido meu irmão! 33Então Jesus, quando a viu a soluçar e os Judeus que tinham vindo com ela a soluçar também, teve um frêmito na alma e perturbou-Se; 34depois perguntou: Onde o pusestes? Responderam-Lhe: Vem ver, Senhor. 35Jesus chorou. 36Diziam então os Judeus: Olha como Ele o estimava! 37Mas alguns deles observavam: Não podia Ele, que abriu os olhos do cego, ter feito igual­mente com que este não tivesse morrido?

38Então Jesus, tendo um novo frêmito no íntimo, chega ao túmulo. Era uma furna e nela estava colocada uma pedra. 39Diz Jesus: Tirai a pedra. Responde-Lhe Marta, irmã do morto: Já cheira, Senhor, pois está no quarto dia. 40Diz-lhe Jesus: Eu não te disse que, se acreditasses, verias a glória de Deus? 4ITiraram, pois, a pedra. Então Jesus ergueu os olhos ao alto e disse: Pai, dou-Te graças por Me teres ouvido. 42Eu bem sabia que sempre Me ouves, mas foi por causa da multidão dos circunstantes que o disse, para que acreditem que Tu Me enviaste. 43Dito isto, bradou em alta voz: Lázaro, vem cá para fora! 44O morto saiu, atado de pés e mãos com ligaduras e a cara envolta num lençol. Diz-lhes Jesus: Desligai-o e deixai-o ir. 45Então, muitos dos Judeus que tinham vindo ter com Maria, ao verem o que Ele fizera, acreditaram n’Ele.

Comentário

1-45. Este capítulo relata um dos milagres mais relevantes de Jesus. Recolheu-o o quarto Evangelho, confirmando assim o poder de Jesus sobre a morte, que os evangelhos sinópticos tinham mostrado com a ressurreição da filha de Jairo (Mt 9,25 par.) e do filho da viúva de Naim (Lc7,12).

O Evangelista apresenta em primeiro lugar as circuns­tâncias do facto (vv. 1-16); depois o diálogo de Jesus com as irmãs de Lázaro (vv. 17-37); finalmente a ressurreição deste, quatro dias após a sua morte (vv. 38-45). Betânia distava apenas uns três quilômetros de Jerusalém (v. 18). Jesus, nos dias anteriores à Sua Paixão, frequentou a casa desta família, com que tinha grande amizade. São João faz notar os senti­mentos de afecto de Jesus (vv. 3.5.36) ao descrever a Sua emoção e dor pela morte do amigo.

A ressurreição de Lázaro é ocasião para que o Senhor mostre o Seu poder divino sobre a morte, e dê assim uma prova da Sua Divindade, para confirmar a fé dos Seus discípulos e manifestar-Se como a Ressurreição e a Vida. A maior parte dos judeus, excepto os saduceus (cfr Mt 22,23), criam na futura ressurreição dos mortos. Essa é a fé que confessa também Marta (cfr v. 24).

A volta de Lázaro à vida, além de ser um facto real, histórico, é um sinal da nossa ressurreição futura. Mas Cristo, com a Sua ressurreição gloriosa, pela qual é o «primogênito de entre os mortos» (l Cor 15,20; Col 1,18; Apc 1,5), é também a causa da nossa ressurreição e modelo da mesma. Nisso se distingue a Sua ressurreição da de Lázaro, visto que «Cristo, ressuscitado de entre os mortos, já não morre mais» (Rom 6,9), enquanto Lázaro só volta à vida terrena para ter de morrer outra vez.

2. Nos Evangelhos aparecem várias mulheres com o nome de Maria. Aqui trata-se de Maria de Betânia, a irmã de Lázaro (v. 2), a mesma que depois ungiu o Senhor, também em Betânia, em casa de Simão o leproso (cfr Ioh 12.1-8; Mc 14,3): o indefinido ou aoristo «ungiu» exprime uma acção passada relativamente ao tempo em que escreve o Evangelista/embora a unção fosse posterior à ressurreição de Lázaro.

Maria de Betânia, Maria Madalena e a mulher «pecadora» que ungiu os pés do Senhor na Galileia (cfr Lc 7,36), são uma, duas ou três mulheres? Ainda que às vezes se tenda a identificar as três, parece mais provável que se trate de pessoas diferentes. Em primeiro lugar, deve distinguir-se a unçáo da Galileia (Lc 7,36) realizada pela «pecadora», da unção de Betânia levada a cabo pela irmã de Lázaro (Ioh 12,1); tanto pelo tempo em que têm lugar, como pelos pormenores específicos, são claramente diferentes (cfr a nota a Ioh 12,1). Por outro lado, nos Evangelhos não há nenhum indício positivo de que Maria de Betânia fosse a mesma que a «pecadora» da Galileia. Também não há base firme para identificar Maria Madalena com a «pecadora», da qual não se dá o nome; a Madalena aparece entre as mulheres que seguem Jesus na Galileia, da qual tinha expul­sado sete demônios (cfr Lc 8,2) e que Lucas apresenta na sua narração como um personagem ainda não conhecido, nem dá nenhum outro elemento que permita relacionar ambas as mulheres.

Por último, Maria de Betânia e Maria Madalena também não se podem identificar, pois João distingue as duas mu­lheres: nunca chama à irmã de Lázaro Maria Madalena, nem a esta, que está junto da Cruz (Ioh 19,25), que acorre ao sepulcro e a quem o Senhor ressuscitado aparece (Ioh 20,1.11-18), a relaciona para nada com Maria de Betânia.

A razão de que algumas vezes se tenha confundido Maria de Betânia com Maria Madalena deve-se, por um lado, à identificação desta com a «pecadora» da Galileia, por relacionar a possessão diabólica da Madalena com a condição pecadora da que fez a unção da Galileia; e, por outro lado, à confusão das duas unções: a irmã de Lázaro seria a «pecadora» protagonista da única unção. Deste modo concluiu-se, sem base sólida, na confusão das três mulheres numa, ainda que a interpretação melhor fundada e mais comum entre os exegetas seja a de que se trata de três mulheres diferentes.

4. A glória de que fala aqui Cristo, diz Santo Agostinho, «não foi um ganho para Jesus, mas proveito para nós. Portanto, diz Jesus que a doença não é de morte, porque aquela morte não era para morte, mas antes em ordem a um milagre, pelo qual os homens cressem em Cristo e evitassem assim a verdadeira morte» (In Ioann. Evang., 49,6).

8-10. A lapidação era a pena capital que se aplicava aos blasfemos (cfr Lev 24,16). Vimos que pelo menos duas vezes intentaram lapidar Jesus. A primeira porque tinha procla­mado a Sua filiação divina e a Sua existência eterna ao afirmar que «era» antes de Abraão (Ioh 8,58-59). A segunda por manifestar a Sua unidade com o Pai (cfr Ioh 10,30-31).

Estes intentos das autoridades judaicas falharam porque ainda não tinha chegado a hora de Jesus, isto é, o tempo designado pelo Pai para a Sua Morte e Ressurreição. Quando chegar a Crucifixão será a hora dos Seus inimigos «e o poder das trevas» (Lc 22,53). Mas até esse momento é o tempo da luz, em que o Senhor podia caminhar sem perigo de morte.

16. As palavras de Tome recordam as dos Apóstolos no Cenáculo, dispostos a tudo, inclusivamente a morrer pelo seu Mestre (cfr Mt 26,31-35). Já por ocasião do discurso do Pão da Vida, quando muitos dos discípulos abandonaram o Senhor, os Doze permaneceram fiéis (cfr Ioh 6,67-71), e seguiram-No apesar das suas debilidades. Mas quando Jesus, depois da traição de Judas Iscariotes, Se deixar prender em Getsemani sem resistência alguma, proibindo inclusivamente a defesa pelas armas (cfr Ioh 18,11), desconcertar-se-ão e abandonarão o Mestre. Só São João permanecerá fiel na hora suprema do Calvário.

18. «Quinze estádios»: Uns três quilômetros.

21-22. Segundo interpreta Santo Agostimho, o pedido de Marta é um exemplo de oração confiante e de abandono nas mãos do Senhor que sabe melhor que nós o que nos convém. Por isso, «não Lhe disse: Rogo-Te agora que ressus­cites meu irmão (…). Somente disse: Sei que tudo podes e  fazes tudo o que queres; mas fazê-lo fica ao Teu juízo, não aos meus desejos» (In Ioann. Evang., 49,13). O mesmo se deve dizer acerca das palavras de Maria que São João relata pouco mais adiante (v. 32).

24-26. Estamos diante de uma das definições concisas que o Senhor deu de Si mesmo, e que São João nos transmite com fidelidade (cfr Ioh 10,9.14; 14-16; 15,1): Jesus é a Res­surreição e a Vida. É a Ressurreição porque com a Sua vitória sobre a morte é causa da ressurreição de todos os homens. O milagre que vai realizar com Lázaro é uni sinal desse poder vivificador de Cristo. Assim, pela fé em Jesus Cristo que foi o primeiro a ressuscitar de entre os mortos, o cristão está seguro de ressuscitar também um dia, como Cristo (cfr 1Cor 15,23; Col 1,18). Por isso para o crente a morte não é o fim, mas a passagem para a vida eterna, uma mudança de morada como diz um dos Prefácios da Liturgia de defuntos: «A vida daqueles que cremos em Ti, Senhor, não termina, transforma-se; e, ao desfazer-se a nossa mo­rada terrena, adquirimos uma mansão eterna no céu».

Ao dizer que é a Vida, Jesus refere-Se não só à que começa no mais além, mas também à vida sobrenatural que a graça opera na alma do homem que ainda se encontra a caminho.

«Esta vida, prometida e proporcionada a cada homem pelo Pai em Jesus Cristo, eterno e unigênito Filho, encarnado e nascido da Virgem Maria ‘ao chegar a plenitude dos tempos’ (cfr Gal 4,4), é o complemento final da vocação do homem; é, de alguma maneira, o cumprir-se daquele ‘des­tino’ que, desde toda a eternidade, Deus lhe preparou. Este ‘destino divino’ torna-se via, por sobre todos os enigmas, as incógnitas, as tortuosidades e as curvas, do ‘destino humano’ 10 mundo temporal. Se, de facto, tudo isto, não obstante toda a riqueza da vida temporal, leva por inevitável neces­sidade à fronteira da morte e à meta da destruição do corpo humano. apresenta-se-nos Cristo para além desta meta: ‘Eu sou a Ressurreição e a Vida. Aquele que crê em Mim… não morrerá jamais’. Em Jesus Cristo crucificado, deposto no sepulcro e depois ressuscitado, ‘brilha para nós a esperança da feliz ressurreição… a promessa da imortalidade futura’ (Missal Romano, Prefácio de defuntos I), em direcção à qual o homem caminha, através da morte do corpo, partilhando com tudo o que é criado e visível esta necessidade a que está sujeita a matéria» (Redemptor hominis, n. 18).

33-36. Podemos contemplar a profundidade e delicadeza dos sentimentos de Jesus. Se a morte corporal do amigo arranca lágrimas ao Senhor, que não fará a morte espiritual do pecador, causa da sua condenação eterna? «Cristo chorou: chore também o homem sobre si mesmo. Por que chorou Cristo senão para ensinar o homem a chorar?» (In Ioann. Evang., 49,19). Choremos nós também, mas pelos nossos pecados, para que voltemos à vida da graça pela conversão e pelo arrependimento. Não desprezemos as lágrimas do Se­nhor, que chora por nós, pecadores: «Jesus é teu amigo. — O Amigo. — Com coração de carne, como o teu. — Com olhos de olhar amabilíssimo, que choraram por Lázaro… «— E tanto como a Lázaro, quere-te a ti» (Caminho, n.°422).

41-42. A Humanidade Santíssima de Jesus está a ex­primir a Sua Filiação divina natural, não adoptiva como a dos outros homens. Daí brotam estes sentimentos de Jesus Cristo que nos ajudam a compreender que quando Ele diz «Pai», o afirma com uma intensidade e autenticidade inefá­veis e únicas. Assim, quando os Evangelhos apresentam Jesus em oração, sempre põem em realce que começa com a invocação «Pai» (veja-se a nota a Lc 11,1-2), reflectindo o Seu amor e confiança singulares (cfr Mt 11,25 e par.). Esses sentimentos devem dar-se também, de algum modo, na nossa própria oração, visto que pelo Baptismo nos unimos a Cristo e n’Ele tornamo-nos filhos de Deus (cfr Ioh 1,12; Rom 6,1-11; 8,14-17). Daqui que devamos orar sempre com espírito filial e com gratidão pelos muitos benefícios rece­bidos de Nosso Pai Deus.

O milagre da ressurreição de Lázaro, realmente extraor­dinário, é uma prova de que Jesus é o Filho de Deus, enviado ao mundo pelo Pai. E assim, quando Lázaro ressuscita, aumenta a fé dos discípulos (v. 15), de Marta e de Maria (vv. 26.40) e da multidão (vv. 36.45).

43. Jesus chama Lázaro pelo seu nome. Embora esti­vesse verdadeiramente morto, não tinha perdido a sua identidade pessoal: os defuntos continuam a existir mas de outro modo, pois passam da vida mortal para a vida eterna. Por isso, Jesus Cristo afirma que Deus «não é Deus de mortos mas de vivos», pois para Ele todos vivem (cfr Mt 22,32; Lc 20,38).

Este passo pode aplicar-se à ressurreição espiritual da alma em pecado que recobra a graça. Deus quer a nossa salvação (cfr 1Tim 2,4), portanto, jamais havemos de desa­nimar no nosso afã e esperança por alcançar essa meta: «Nunca desesperes. Morto e corrompido estava Lázaro: ‘jam foetet, quatriduanus est enim’ — já fede, porque há quatro dias que está enterrado, diz Marta a Jesus.

«Se ouvires a inspiração de Deus e a seguires (‘Lazare, veni foras!’ — Lázaro vem para fora!), voltarás à Vida» (Ca­minho, n.°719).

44. Os Judeus amortalhavam lavando e ungindo o corpo do defunto com aromas para retardar algo a decomposição e atenuar o fedor; depois envolviam o cadáver com tecidos e ligaduras, cobrindo-lhe a cabeça com um sudário. Era um sistema parecido ao que se empregava no Egipto, mas sem proceder a um embalsamamento completo, que implicava a extracção de certas vísceras.

O túmulo de Lázaro devia consistir num aposento subter­râneo que comunicava com a superfície por uma escadaria, cuja porta estava tapada com uma lousa. Lázaro foi movido por uma força sobrenatural até à entrada. Como já tinha acontecido na ressurreição da filha de Jairo (Mc 5,42-43), devido ao assombro, ninguém se moveu até que as palavras do Senhor romperam o ambiente de silêncio e temor que se tinha criado.

Santo Agostinho vê na ressurreição de Lázaro uma figura do sacramento da Penitência: como Lázaro do túmulo «sais tu quando te confessas. Pois, que quer dizer sair senão manifestar-se como vindo de um lugar oculto? Mas para que te confesses, Deus dá um grande grito, chama-te com uma graça extraordinária. E assim como o defunto saiu ainda atado, também o que se vai confessar ainda é réu. Para que fique desatado dos seus pecados disse o Senhor aos minis­tros: Desatai-o e deixai-o andar. Que quer dizer desatai-o e deixai-o andar? O que desatardes na terra, será desatado também no céu» (In Ioann. Evang., 49,24). A arte cristã recolhe esta comparação, já desde os primeiros séculos, nas catacumbas, onde encontramos umas cinquenta e três repre­sentações da ressurreição de Lázaro, simbolizando assim o dom da vida da graça por meio do sacerdote, que repete de novo diante do pecador: «Lázaro, vem cá para fora».

 

07.04.14 – Jo 8, 1-11

Jesus foi para o monte das Oliveiras. 2De madrugada, apareceu outra vez no Templo, e todo o povo ia ter com Ele; sentou-Se então e pôs-Se a instruí-los.

3Entretanto, os Escribas e os Fariseus trazem-Lhe uma mulher apanhada em adul­tério e, depois de a colocarem no meio, 4dizem-Lhe: Mestre, esta mulher foi apanhada em flagrante a cometer adultério. 5Ora Moisés, na Lei, mandou-nos apedrejar tais mulheres. E Tu que dizes? 6Isto diziam eles para Lhe armarem uma cilada, a fim de terem de que O acusar. Mas Jesus, inclinando-Se, pôs-Se a escrever no chão com o dedo.

7Como persistissem em interrogá-Lo, ergueu-Se e disse-lhes: Aquele de vós que estiver sem pecado seja o primeiro a lançar-lhe uma pedra! 8E, inclinando-Se novamente, recomeçou a escrever no chão. 9Eles, porém, ao ouvirem isto, foram saindo um a um, a começar pelos mais velhos, e ficou só Jesus com a mulher, que continuava ali no meio. 10Jesus ergueu-Se e disse-lhe: Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou? 11Ela respondeu: Ninguém, Senhor. Nem Eu te condeno — volveu-lhe Jesus. — Vai e dora­vante não tornes a pecar.

Comentário

1-11. Este episódio falta em bastantes códices antigos, mas conservava-o a Vulgata quando o Magistério da Igreja definiu o Canon dos livros sagrados no Concilio de Trento. Portanto, a canonicidade e a inspiração deste texto estão fora de toda a dúvida. A Igreja utilizou-o e continua a utilizá-lo na liturgia. A recente edição da Neo-vulgata inclui-o neste mesmo lugar.

Santo Agostinho explicava já as dúvidas acerca deste passo dizendo que a grande misericórdia de Jesus manifes­tada com esta mulher parecia a alguns espíritos, exageradamente rigoristas, quê poderia dar azo a uma relaxação das exigências morais. Daqui que muitos copistas o suprimissem dos seus manuscritos (cfr De coniugiis adulterínis, 2,6).

Ao comentar o episódio da mulher adúltera, Frei Luís de Granada escreve, entre outras, esta consideração geral acerca da misericórdia de Jesus: «Tais, pois, convém que sejam, meu irmão, as tuas entranhas, tais as tuas obras e as tuas palavras, se queres ser uma formosíssima reprodução deste Senhor. E por isto não se contenta o Apóstolo com mandar-nos que sejamos misericordiosos, mas, diz, que nos vistamos, como filhos de Deus, de entranhas de misericórdia (cfr Col 3,12). Vê, pois, como estaria o mundo se todos os homens trouxessem este vestido.

«Tudo isto se disse para que, por estas obras tão assina­ladas, se conheça algo daquele grande abismo de bondade e de misericórdia do nosso Salvador, a qual nestas obras tão claramente resplandece, pois (…) não podemos nesta vida conhecer Deus por Si, mas pelas Suas obras (…). Mas aqui também convém avisar que nunca de tal maneira nos transportemos em contemplar a divina misericórdia, que não nos recordemos da justiça; nem de tal maneira contem­plemos a justiça, que não nos recordemos da misericórdia; para que nem a esperança careça de temor, nem o temor da esperança» (Vida de Jesus Cristo, 13, 4.°).

1. Sabemos que Nosso Senhor Se retirou várias vezes durante a noite a orar no monte das Oliveiras (cfr Ioh 18,2; Lc 22,39), situado a Este de Jerusalém. O vale da torrente Cédron (Ioh 18,1) separa-o da colina onde estava edificado o Templo. Era desde tempos antigos lugar de oração: ali foi David adorar a Deus no duro transe da revolta de Absalão (2 Sam 15,32) e ali o profeta Ezequiel contemplou a glória de Yahwéh que entrava no novo Templo (Ez 43,1-4). Ao pé do monte encontrava-se um horto, cujo nome era Getsemani, ou «lugar de azeite», uma quinta fechada com plantação de oliveiras. A tradição cristã rodeou o lugar de respeito e conservou-o como sítio de oração. Em fins do século IV construiu-se uma igreja, sobre cujos restos se edificou a actual. Perduram ainda algumas poucas oliveiras milenárias que podem muito bem ser rebentos dos tempos do Senhor.

6. A pergunta dos escribas e fariseus esconde uma insídia: como o Senhor Se tinha manifestado repetidas vezes compreensivo com os que eram considerados pecadores, recorrem agora a Ele com este caso para ver se também Se mostra indulgente, e assim poderem acusá-Lo de não respei­tar um dos preceitos terminantes da Lei (cfr Lev 20,10).

7. A resposta de Jesus alude ao modo de praticar a lapidação entre os Judeus: as testemunhas do delito tinham que atirar as primeiras pedras, depois seguia-se a comuni­dade, como para apagar colectivamente o opróbrio que recaía sobre o povo (cfr Dt 17,7). A questão, que lhe propõem de um ponto de vista legal, Jesus eleva-a ao plano moral — que sustenta e justifica o legal — interpelando a cons­ciência de cada um. Não viola a Lei, diz Santo Agostinho, e ao mesmo tempo não quer que se perca o que Ele estava a buscar, porque tinha vindo para salvar o que estava perdido: «Vede que resposta tão cheia de justiça, de mansidão e de verdade. Oh verdadeira resposta da Sabedoria! Ouviste-o: Cumpra-se a Lei, que seja apedrejada a adúltera. Mas, como podem cumprir a Lei e castigar aquela mulher uns peca­dores? Veja-se cada um a si mesmo, entre no seu interior e ponha-se em presença do tribunal do seu coração e da sua consciência, e ver-se-á obrigado a confessar-se pecador. Sofra o castigo aquela pecadora, porém não por mão de pecadores; execute-se a Lei, mas não pelos seus transgres­sores» (In Ioann. Evang., 33,5).

11. «Apenas dois ficam ali: a miserável e a Misericórdia. E o Senhor, depois de ter cravado o dardo da Sua justiça no coração dos judeus, nem Se digna olhar sequer como vão desaparecendo, mas afasta deles a Sua vista e volta outra vez a escrever com o dedo na terra. Quando se afastaram todos e ficou só a mulher, levantou os olhos e fixou-os nela. Já ouvimos a voz da justiça; ouçamos agora também a voz da mansidão. Que aterrada deve ter ficado aquela mulher quando ouviu dizer ao Senhor: ‘Aquele de vós que estiver sem pecado, que atire primeiro a pedra’, porque temia ser castigada por Aquele em que não podia achar-se pecado algum. Mas Aquele que tinha afastado de Si os Seus inimigos com as palavras da justiça, olhando-a com olhos de miseri­córdia, pergunta-lhe: Ninguém te condenou? Responde ela: Ninguém, Senhor. E Ele: Nem Eu te condeno; Eu próprio, de quem talvez tenhas temido ser castigada, porque em Mim não achaste pecado algum. ‘Também Eu não te condeno’. Senhor, que é isto? Favoreces Tu os pecadores? Claro que não. Vê o que se segue: Vai e desde agora não peques mais. Portanto, o Senhor deu sentença de condenação contra o pecado, mas não contra a mulher» (In Ioann. Evang., 33,5-6). Jesus, que é o Justo, não condena; ao contrário, aqueles, que são pecadores, ditam sentença de morte. A misericórdia infinita de Deus há-de mover-nos a ter sempre compaixão daqueles que cometem pecado, porque também nós somos pecadores e necessitamos do perdão de Deus.

 

08.04.14 – Jo 8, 21-30

21Disse-lhes ainda: Eu vou-Me embora; haveis de procurar-Me, mas morrereis no vosso pecado. Vós não podeis vir para onde Eu vou. 22Ele foi-lhes dizendo: Vós sois cá de baixo, Eu sou lá de cima; vós sois deste mundo, Eu não sou deste mundo. 24Ora Eu disse-vos: «Morrereis nos vossos pecados, visto que, se não acreditardes que Eu sou, haveis de morrer nos vossos pecados».

25Perguntaram-Lhe então: Tu quem és? Disse-lhes Jesus: Precisamente aquilo que vos digo! 26Tenho, a vosso respeito, muito que dizer e que julgar. Mas Aquele que Me enviou é verídico e Eu, o que Lhe ouvi, ao mundo o comunico. 27Eles não perceberam que lhes falava do Pai. 28Disse então Jesus: Quando elevardes o Filho do homem, então sabereis que Eu sou e que por Mim nada faço, mas conforme o Pai Me ensinou é que falo. 29Aquele que Me enviou está comigo: não Me deixou só, porque Eu sempre faço o que é do Seu agrado. 30Enquanto assim falava, muitos acreditaram n’Èle.

Comentário

21-24. Ao começar o Seu ministério público, Jesus apresentou-Se com os traços próprios do Messias prometido; alguns reconhecem-No como tal e aderem a Ele (cfr Ioh 1,12-13; 4_42; 6,69; 7,41); mas as autoridades hebreias, apesar de esperarem a vinda do Messias (cfr Ioh 1,19 ss.), persistem na sua atitude de repulsa perante Jesus. Daí à advertência que agora lhes dirige: Ele vai aonde eles não podem ir, isto é, irá para o Céu donde procede (cfr Ioh 6,41 ss.) e eles continuarão a esperar o Messias anunciado pelos profetas; mas nem encontrarão o Messias, porque o buscam fora de Jesus, nem agora O podem seguir, porque não creem n’Ele. Vós sois deste mundo — vem o Senhor dizer-lhes —, não por estardes na terra mas por viverdes sob o influxo do príncipe deste mundo (cfr Ioh 12,31; 14,30; 16,11), por serdes vassalos e realizardes as suas obras (cfr 15,19); por isto morrereis nos vossos pecados. «Todos nascemos com pecado — comenta Santo Agostinho —; todos durante a vida acrescentamos outros ao pecado de origem, e temo-nos feito mais do mundo do que éramos quando nascemos dos nossos pais. Onde estaríamos se aquele que não tem sombra de pecado não tivesse vindo para destruir todo o pecado? Os judeus, por não crerem n’Ele, foram justamente sentenciados: Morrereis nos vossos pecados» (In Ioann. Evang., 38,6).

A salvação que Cristo traz será aplicada a todos os que creem na Sua divindade. A divindade é declarada quando Jesus diz «Eu sou», porque esta expressão, repetida noutras ocasiões (cfr Ioh 8,28; 13,19), estava reservada a Yahwéh no Antigo Testamento (cfr Dt 32,39; Is 43,10-11), onde Deus, ao revelar o Seu Nome, e com ele a Sua essência, diz a Moisés: «Eu sou o que sou» (Ex 3,14). Com esta expressão tão profunda Deus diz de Si mesmo que é o Ser supremo em sentido absoluto e pleno, que não depende de nenhum outro ser, e do qual todos dependem no seu ser e no seu existir. Assim, pois, Jesus ao dizer de Si mesmo «Eu sou» revela que é Deus.

25. Pouco antes Jesus tinha falado da Sua origem celeste e da Sua natureza divina (cfr vv. 23-24); mas os judeus resistem a aceitar essa revelação; por isso buscam agora uma declaração ainda mais explícita: «Tu quem és?». A resposta do Senhor pode entender-se de diversas maneiras, pois o texto grego admite dois sentidos: 1) o Senhor confirma o que tinha proclamado imediatamente antes (cfr vv. 23-24) ou ao longo do Seu ensino em Jerusalém, e assim pode tradu­zir-se «absolutamente», ou então, «em primeiro lugar o que vos estou a dizer». Esta é a interpretação da Neo-vulgata. 2) Jesus indica que Ele é o «Princípio», termo que São João utiliza também no Apocalipse para designar o Verbo, causa de toda a criatura (Apc 3,14; cfr Apc 1,8). Com isso exprime Jesus a Sua origem divina: esta é a interpretação da Vulgata. Em qualquer dos casos. Cristo manifesta de novo a Sua divin­dade, reafirmando o que disse antes, mas sem voltar a repetir as palavras que já escutaram.

Esta mesma pergunta dos judeus põe-se a muitos homens do nosso tempo: « Quem era Jesus? A nossa fé exulta e grita: é Ele, é Ele, o Filho de Deus feito homem; o Messias que esperávamos: é o Salvador do mundo, é, finalmente, o Mestre da nossa vida; é o Pastor que conduz os homens aos seus pastos no tempo, aos seus destinos mais além do tempo; é a alegria do mundo; a imagem do Deus invisível; o Caminho, a Verdade e a Vida; é o Amigo íntimo, o que nos conhece inclusivamente de longe e penetra os nossos pensa­mentos; é o que nos pode perdoar, consolar, curar, inclusiva­mente ressuscitar; e é Aquele que voltará, juiz de todos e de cada um, na plenitude da Sua glória e da nossa felicidade eterna» (Paulo VI, Audiência geral, ll-XII-1974.

26-27. «Aquele que Me enviou»: Expressão que se en­contra muito frequentemente no Evangelho de São João para se referir a Deus Pai (cfr 5,37; 6,44; 7,28; 8,16).

Os judeus que escutavam Jesus não compreendiam a quem Se estava a referir ao dizer «Aquele que Me enviou»; mas São João explica, ao narrar este episódio, que Cristo fala de Deus Pai, de Quem procede.

«Lhes falava do Pai»: Esta é a leitura da maioria dos códices gregos, entre eles os mais importantes. Outros códices gregos e algumas versões, como a Vulgata, lêem «chamava Deus a Seu Pai».

« O que Lhe ou vi»: Jesus tem um conhecimento conatural do Pai, e segundo este conhecimento fala aos homens; não conhece por revelação ou por inspiração como os profetas ou os hagiógrafos, mas de um modo infinitamente superior. Por isso podia dizer que ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho queira revelá-lo (cfr Mt 11,27).

Acerca da ciência que Jesus Cristo tinha durante a Sua vida na terra veja-se a nota a Lc 2,52.

28. O Senhor refere-Se à Sua Paixão e Morte: «E Eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a Mim. Dizia isto assinalando de que morte ia morrer» (Ioh 12,32-33). Completando os Sinópticos e as Cartas de São Paulo, o quarto Evangelho apresenta a Cruz, sobretudo como um trono real em que Cristo «posto no alto» oferece a todos os homens os frutos da salvação (cfr Ioh 3,14-15; cfr também Num 21,9 ss.; Sap 16,6).

Jesus diz que, chegado aquele momento, os judeus conheceriam quem era Ele e a estreita união que tinha com o Pai, porque muitos deles descobririam, mercê da Sua Morte seguida da Ressurreição, que era o Messias, o Filho de Deus (cfr Mc 15,39; Lc 23,47 s.). Depois da vinda do Espírito Santo serão milhares as pessoas que crerão n’Ele (cfr Act 1,41; 4,4).

 

09.04.14 – Jo 8, 31-42

31Dizia então Jesus aos Judeus que n’Ele tinham acreditado: Se permanecerdes na Minha palavra, sereis verdadeiramente Meus discípulos, 32conhecereis a verdade, e a ver­dade libertar-vos-á. 33Eles responderam-Lhe: Nós somos a descendência de Abraão e nunca fomos escravos de ninguém; como é que Tu dizes: «ficareis livres»? 34Retorquiu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: Todo aquele que comete o pecado é escravo do pecado. 35Ora o escravo não fica na casa para sempre; o filho é que fica para sempre. 36Portanto, se o Filho vos libertar, sereis realmente livres. 37Eu sei que sois a descendência de Abraão, mas vós procurais matar-Me, porque a Minha palavra não tem cabimento em vós.

38Eu digo o que vi junto do Pai, e vós fazeis o que ouvistes ao vosso pai. 39Retorquiram-Lhe eles: O nosso pai é Abraão! Se fósseis filhos de Abraão—disse-lhes Jesus—faríeis as obras de Abraão. 40Mas vós procurais matar-Me, a Mim que vos disse a verdade que ouvi a Deus! Isso não fez Abraão! 41Vós fazeis as obras do vosso pai. Disseram-Lhe eles: Nós não nascemos da prostituição; só temos um Pai, que é Deus! 42Disse-lhes Jesus: Se fosse Deus o vosso Pai, vós amar-Me-íeis, pois de Deus é que Eu saí e venho. É que Eu não vim de Mim próprio, mas foi Ele que Me enviou.

Comentário

 

30-32. Aos judeus que então creem em Jesus pede-lhes muito mais que a fé momentânea produzida por um entu­siasmo superficial; trata-se de ser verdadeiros discípulos, de modo que as palavras de Jesus informem as suas vidas para sempre. O fruto dessa fé profunda será o conhecimento da verdade e uma vida autenticamente livre.

O conhecimento da verdade de que fala Cristo não é só intelectual, mas antes o amadurecimento na alma da semente da Revelação divina. Esta culmina nas palavras de Cristo, e é uma verdadeira comunicação de vida sobrenatural (cfr Ioh 5,24): aquele que crê em Jesus, e através d’Ele no Pai, recebe o maravilhoso dom da vida eterna. Conhecer a verdade, em última análise, é conhecer o próprio Cristo, Deus encarnado para a nossa salvação, sentir que o Deus inacessível Se fez homem, nosso Amigo, nossa vida.

Esse conhecimento é o único que realmente nos torna livres, porque nos tira do estado de afastamento de Deus, do pecado, e, portanto, da escravidão do demônio e de todas as ataduras da nossa natureza caída, e nos introduz na senda da amizade divina, da graça, do Reino de Deus. Por isso esta liberdade não só é luz que nos marca o caminho, mas graça, força que nos dá a possibilidade de o percorrer apesar das nossas limitações.

«Jesus Cristo vai ao encontro do homem de todas as épocas, também do da nossa época, com as mesmas palavras que disse alguma vez: ‘conhecereis a verdade, e a verdade tornar-vos-á livres’ (Ioh 8,32). Estas palavras encerram em si uma exigência fundamental e, ao mesmo tempo, uma adver­tência: a exigência de uma relação honesta para com a verdade, como condição de uma autêntica liberdade; e a advertência, ademais, para que seja evitada qualquer ver­dade aparente, toda a liberdade superficial e unilateral, toda a liberdade que não compreenda cabalmente a verdade sobre o homem e sobre o mundo. Ainda hoje, depois de dois mil anos, Cristo continua a aparecer-nos como Aquele que traz ao homem a liberdade baseada na verdade, como Aquele que liberta o homem daquilo que limita, diminui e como que despedaça essa liberdade nas próprias raízes, na alma do homem, no seu coração e na sua consciência. Que confirmação estupenda disto mesmo deram e não cessam de dar aqueles que, graças a Cristo e em Cristo, alcançaram a verdadeira liberdade e a manifestaram até em condições de constrangimento exterior!» (Redemptor hominis, n. 12).

«O próprio Cristo une, de modo particular, a libertação com o conhecimento da verdade: ‘Conhecereis a verdade, e a verdade tornar-vos-á livres’ (Ioh 8,32). Esta frase atesta sobretudo o íntimo significado da liberdade com que Cristo nos liberta. Libertação significa transformação interior do homem, consequência do conhecimento da verdade. A transformação é, portanto, um processo espiritual no qual o homem progride ‘na justiça e na santidade verdadeiras’ (Eph 4,24) (…). A verdade tem importância não só para o crescimento da consciência humana, tornando mais pro­funda deste modo a vida interior do homem; a verdade tem também um significado e uma força profética; ela constitui o conteúdo do testemunho e exige um testemunho. Encon­tramos esta força profética da verdade nos ensinamentos de Cristo: Como Profeta, como testemunha da verdade, Cristo opõe-Se repetidamente à não-verdade; fá-lo com grande força e decisão, e a miúde não duvida em censurar o falso» (João Paulo II, Audiência geral de 21-11-1979).

São Tomás de Aquino explica o profundo conteúdo destas palavras do Senhor do seguinte modo: «Libertar neste passo não se refere a tirar qualquer angústia (…), mas propriamente significa tornar livre, e isto de três modos: primeiro, a verdade da doutrina tornar-nos-á livres do erro da falsidade (…); segundo, a verdade da graça livrará da escravidão do pecado: ‘A lei do espírito de vida que está em Cristo Jesus libertou-me da lei do pecado e da morte’ (Rom 8,2); terceiro, a verdade da eternidade em Cristo Jesus livrar-nos-á da corrupção (cfr Rom 8,21)» (Comentário sobre S. João, ad loc.)

«A verdade libertar-vos-á»: «Oue verdade é esta que inicia e consuma o caminho da liberdade em toda a nossa vida? Resumi-la-ei com a alegria e com a certeza que nascem da relação de Deus com as Suas criaturas: saber que saímos das mãos de Deus, que somos objecto da predilecção da Santíssima Trindade, que somos filhos de tão grande Pai. Eu peço ao meu Senhor que nos decidamos a ter isso sempre em consideração, a saboreá-lo dia-a-dia; assim actuaremos como pessoas livres. Não o esqueçais: quem não sabe que é filho de Deus desconhece a sua verdade mais íntima e carece, na sua actuação, do domínio e do senhorio próprios dos que amam o Senhor acima de todas as coisas» (Amigos de Deus, n° 26).

33-34. Durante séculos o povo de Israel tinha estado sujeito a outras nações (Egipto, Babilônia, Pérsia…), e naquele momento encontrava-se sob a dominação de Roma. Por isso estes judeus entenderam que Jesus Se referia a uma escravidão ou domínio político, ao qual tinham estado submetidos de facto, embora nunca o tivessem aceitado. Além disso, por pertencer ao povo escolhido por Deus, consideravam-se livres dos erros e aberrações morais dos povos pagãos.

Eles pensavam que a verdadeira liberdade estava baseada no facto de pertencer ao povo eleito. O Senhor responde que ser da linhagem de Abraão não basta, mas que a verdadeira liberdade consiste em não ser escravos do pecado. Tanto judeus como pagãos estavam submetidos à escravidão do pecado original e dos pecados pessoais (cfr Rom 5,12; 6,20 e 8,2). Só Cristo, o Filho de Deus, podia libertar desta triste situação (cfr Gal 4,21-51); mas os judeus que O escutavam não entenderam a obra redentora que Cristo estava a realizar e que culminaria com a Sua Morte e Ressurreição.

«O Salvador — comenta Santo Agostinho — manifestou com estas palavras, não que ficaríamos livres dos povos dominadores, mas do demônio; não do cativeiro do corpo, mas da malícia da alma» (Sermo 48).

35-36. As palavras escravo e filho evocam os dois filhos de Abraão: Ismael, nascido da escrava (Agar), que não terá parte na herança; e Isaac, nascido da livre (Sara), que será herdeiro das promessas de Deus (cfr Gen 21,10-12; Gal 4,28-31). Não basta a descendência carnal de Abraão para herdar as promessas de Deus e salvar-se, mas é preciso identificar-se, pela fé e pela caridade, com Jesus Cristo, o verdadeiro e próprio Filho do Pai, o único que pode tornar-nos filhos de Deus e deste modo trazer-nos a verdadeira liberdade (cfr Rom 8,21; Gal 4,31). Cristo dá «poder para ser filhos de Deus, aos que creem no Seu nome, que não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem do querer do homem, mas de Deus» (Ioh 1,12-13). Assim, o homem que se identifica com Cristo torna-se filho de Deus e obtém a liberdade própria dos filhos.

«A liberdade adquire o seu sentido autêntico quando se exerce ao serviço da verdade que resgata, quando se gasta a procurar o amor infinito de Deus, que nos desata de todas as escravidões. Aumentam cada dia mais os meus desejos de anunciar em altos brados esta insondável riqueza do cristão: a liberdade da glória dos filhos de Deus (Rom VIII,21) (…). Donde nos vem esta liberdade? De Cristo, Nosso Senhor. Esta é a liberdade com que Ele nos redimiu (cfr Gal IV,31). Por isso ensina: se o Filho vos libertar, sereis verdadeiramente livres (Ioh VIII,36). Nós, os cristãos, não temos de pedir emprestado a ninguém o verdadeiro sentido deste dom, porque a única liberdade que salva o homem é a cristã (Amigos de Deus, nos 27 e 35).

37-41. O Senhor responde à objecção dos judeus: efectivamente são filhos de Abraão, mas só em sentido natural, segundo a carne, circunstância carecida já de valor, pois o que agora conta é a aceitação de Jesus como Enviado do Pai. Espiritualmente os interlocutores de Jesus estão muito longe de terem a verdadeira filiação de Abraão: este alegrou-se ao ver o Messias (cfr Ioh 8,56); pela sua fé foi justificado (cfr Rom 4,1 ss.), e a sua fé moveu-o a levar uma conduta consequente (cfr íac 2,21-24); por isto chegou a alcançar o gozo da eterna bem-aventurança (cfr Mt 8,11; Lc 16,24). Pelo contrário, aqueles judeus «eram seus descen­dentes carnais, mas tinham degenerado não imitando a fé daquele de quem eram filhos» (In Ioann. Evang., 42,1). Os que vivem da fé — diz São Paulo — são os verdadeiros filhos de Abraão e junto com ele serão abençoados por Deus (cfr Gal 3,7-9). Mais ainda, os que agora discutem com o Senhor não só rejeitam a Sua doutrina, mas as suas obras denunciam outra filiação radicalmente diferente: «Vós fazeis as obras de vosso pai», expressão que contém de forma velada a acusação de serem filhos do diabo (cfr v. 44).

A falsa segurança que sentiam os judeus por descen­derem de Abraão pode ter o seu paralelismo num cristão que se contentasse com ser baptizado e com fazer algumas práticas religiosas, abandonando as exigências que traz consigo a fé em Jesus Cristo.

 

10.04.14 – Jo 8, 51-59

51Em verdade, em verdade vos digo: Se alguém guardar a Minha palavra, nunca mais experimentará a morte. 52Disseram-Lhe os Judeus: Agora sabemos nós que estás possesso do Demônio. Abraão morreu, os profetas também, e Tu dizes: «Se alguém guardar a Minha palavra, nunca mais experi­mentará a morte». 53Serás Tu maior que o nosso pai Abraão, que morreu? E os profetas morreram também! Quem pretendes ser? 54Jesus replicou: Se Eu Me glorificar a Mim mesmo, nada será a Minha glória. É Meu Pai que Me glorifica, Ele de quem dizeis: «É o nosso Deus». 55Vós, porém, não O conheceis; Eu é que O conheço. E se dissesse que O não conhecia, seria, como vós, mentiroso. Mas Eu conheço-O e guardo a Sua palavra. 56O vosso pai Abraão exultou com a idéia de ver o Meu dia; viu-o e rejubilou. 57Disseram-Lhe então os Judeus: Ainda não tens cin­qüenta anos e viste Abraão? 58Retorquiu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: Antes de Abraão existir, Eu sou! 59Então apanharam pedras para Lhas atirarem. Mas Jesus ocultou-Se e saiu do Templo.

Comentário

 

51-53. «Nunca mais experimentará a morte»: O Senhor promete a vida eterna àqueles que acolherem o Seu ensina­mento e permanecerem fiéis a ele.

O pecado, como ensina o quarto Evangelho, é morte da alma; e a graça santificante, vida (cfr Ioh 1,4.13; 3,15.16.36; etc.). Pela graça temos o começo da vida eterna, o penhor da Glória que alcançaremos para além desta vida terrena e que é a Vida verdadeira. Os judeus, obcecados na sua hostilidade, não querem escutar as palavras do Senhor e por isso não O entendem.

55. O conhecimento de que fala o Senhor implica algo mais que um mero saber ou compreender. Deste conhecimento já se fala no Antigo Testamento, onde o verbo «conhe­cer» denota amor, fidelidade, entrega generosa. O amor a Deus é consequência do conhecimento certo que d’Ele tenhamos e, ao mesmo tempo, conhecemos melhor a Deus à medida que O amamos mais.

Jesus, cuja Humanidade Santíssima estava unida inti­mamente — ainda que sem confusão — com a Sua Divin­dade na única Pessoa do Verbo, não podia deixar de afirmar o Seu conhecimento singular e inefável do Pai. Mas esta linguagem verdadeira de Jesus tornava-se absolutamente incompreensível para aqueles que se fechavam à fé, até ao ponto de O considerarem como blasfemo (cfr v. 59).

56. Jesus apresenta-Se como o cumprimento das espe­ranças dos patriarcas do Antigo Testamento. Eles mantiveram-se fiéis anelando ver o dia da Redenção. Referindo-se à fé dos patriarcas exclama São Paulo: «Todos eles morreram na fé, sem terem recebido os bens que lhes tinham sido prometidos, mas contemplando-os de longe e saudando-os, e confessando ao mesmo tempo ser peregrinos e hóspedes na terra» (Heb 11,1-2.13). Entre eles sobressai Abraão, nosso pai na fé (cfr Gal 3,7), que recebe a promessa de ser pai de um povo numeroso, o povo escolhido, de que nascerá o Messias.

O futuro cumprimento das promessas messiânicas foi já para Abraão causa de imensa alegria: «Abraão, nosso pai, tendo a certeza de que se cumpriria a antiga promessa e esperando contra toda a esperança, recebeu no nascimento do seu filho Isaac as primícias proféticas da alegria messiâ­nica. Tal alegria encontra-se como que transfigurada através de uma prova de morte, quando o seu filho único lhe é devolvido vivo, prefigurando a Ressurreição do Filho Único de Deus que havia de vir, prometido para um sacrifício em que se realizaria a Redenção. Abraão exultou ao pensar que veria o dia de Jesus Cristo, o dia da Salvação: ‘viu-o e alegrou-se’ (Gaudete in Domino, II).

-Jesus move-Se num plano superior ao dos patriarcas, pois estes só viram profeticamente, «de longe», o dia de Cristo, isto é, o acontecimento da Redenção, enquanto EÍe é que leva a cabo.

58. A resposta de Jesus à observação céptica dos judeus encerra uma revelação da Sua divindade. Ao dizer «antes de Abraão existir. Eu sou», o Senhor está a referir-Se à Sua eternidade, própria da natureza divina. Por isso exclama Santo Agostinho: «Reconhecei o Criador, distingui a cria­tura. Quem falava era descendente de Abraão, mas para que Abraão fosse feito, antes de Abraão Ele era» (In Ioann. Evang., 43,17).

Os Santos Padres evocam, em relação com as palavras de Cristo, a solene teofania do Sinai: «Eu sou o que sou» (Ex 3,14), e também a distinção que São João faz no prólogo do seu Evangelho entre um mundo que «foi feito» e o Verbo que «era» desde toda a eternidade (cfr Ioh 1,1-3). A expressão «Eu sou», empregada por Jesus de maneira absoluta, equivale, pois, a afirmar a Sua eternidade e a Sua divindade. Cfr a nota a Ioh 8, 21-24.

 

11.04.14 – Jo 10, 31-42

31De novo os Judeus trouxeram pedras para O apedrejarem. 32Jesus dirigiu-lhes a palavra: Tenho-vos apresentado muitas boas obras devidas ao Pai. Por qual dessas obras Me quereis apedrejar? 33Replicaram-Lhe os Judeus: Não é por uma boa obra que Te queremos apedrejar, é por blasfêmia; e porque Tu, sendo homem, Te fazes Deus. 34Jesus respondeu-lhes: Não está escrito na vossa Lei: Eu disse: Vós sois deuses? 35Se ela chamou deuses àqueles a quem se dirigiu a palavra de Deus — e a Escritura não pode abolir-se — 36de Mim, a quem o Pai consagrou e enviou ao mundo, vós dizeis: «estás a blasfemar!» por Eu ter dito: «sou Filho de Deus»? 37Se não faço as obras de Meu Pai, não acrediteis em Mim. 38Mas, se as faço, embora não queirais acreditar em Mim, dai crédito às obras, para que reconheçais e fiqueis a saber que o Pai está em Mim e Eu estou no Pai.

39Procuravam então novamente prendê-Lo, mas Ele escapou-Se-lhes das mãos.

40Depois retirou-Se novamente para o outro lado do Jordão, para o lugar onde João tinha estado primeiro a baptizar, e por lá Se conservou. 41Muitos foram ter com Ele e diziam: João, é certo, não fez qualquer milagre, mas tudo quanto disse acerca d’Este era verdade. 42E muitos, ali, acreditaram n’Ele.

Comentário

31-33. Os judeus compreendem que Jesus afirma ser Deus, mas interpretam as Suas palavras como uma blas­fêmia. Chamaram-Lhe blasfemo quando perdoou os pecados do paralítico (Mt 9,1-8) e acusando-O de. blasfemo condená-Lo-ão também quando confessar solenemente a Sua di­vindade diante do Sinédrio (Mt 26,63-65). Nosso Senhor manifestou, pois, a Sua natureza divina; mas aqueles ouvin­tes rejeitaram esta revelação do mistério de Deus Encar­nado, fechando-se diante das provas que Jesus lhes oferecia. Por isso O acusam de que, sendo homem, Se faz Deus. A fé apoia-se em argumentos razoáveis — milagres e profe­cias — para crer que Jesus é verdadeiro homem e verdadeiro Deus, ainda que o nosso entendimento limitado nos impeça de compreender como isto pode ser. Na verdade, o Senhor, para reafirmar a Sua divindade, recorre a dois argumentos que os Seus adversários não poderão rebater: o testemunho da Sagrada Escritura — profecias — e o das Suas próprias obras — milagres —.

34-36. O Evangelho mostrou-nos já várias respostas do Senhor a objecções dos judeus. Agora Jesus recorre com paciência a uma argumentação que para eles tinha forca decisiva: a autoridade da Sagrada Escritura. Cita o Salmo 82 em que Deus censura uns juízes pela sua actuacão injusta, apesar de lhes ter recordado: «Sois deuses, todos vós, filhos do Altíssimo» (Ps 82,6). Se, segundo este Salmo, os filhos de Israel são chamados deuses e filhos de Deus, com quanta maior razão há-de ser chamado Deus Aquele que foi santificado e enviado por Deus. Com efeito, a natureza humana de Cristo ao ser assumida pelo Verbo fica santificada plena­mente e vem ao mundo para santificar os homens. «Os Santos Padres constantemente proclamam nada estar remido que não tivesse sido primeiro assumido por Cristo. Ora Ele assumiu por inteiro a natureza humana tal qual ela existe em nós, pobres e miseráveis, rejeitando dela apenas o pecado. De Si mesmo disse Cristo que era Aquele a quem o Pai santificou e enviou ao mundo» (Ad gentes, n. 3).

Com o uso que faz Jesus da Sagrada Escritura (cfr Mt 4,4.7.10; Lc 4,1.17, etc.) ensina-nos o caracter divino desta. Por isto a Igreja crê e afirma que «as coisas reveladas por Deus, contidas e manifestadas na Sagrada Escritura, foram escritas por inspiração do Espírito Santo. Com efeito, a santa Madre Igreja, segundo a fé apostólica, considera como santos e canónicos os livros inteiros do Antigo e do Novo Testamento com todas as suas partes, porque, escritos por inspiração do Espírito Santo (Ioh 20,31; 2Tim 3,16; 2Pet 1,19-21; 3,15-16), têm Deus por autor, e como tais foram confiados à própria Igreja (…). E assim, como tudo quanto afirmam os autores inspirados ou hagiógrafos deve ser tido como afirmado pelo Espírito Santo, por isso mesmo se deve acreditar que os livros da Escritura ensinam com certeza, fielmente e sem erro a verdade que Deus, para nossa salva­ção, quis que fosse consignada nas sagradas Letras» (Dei Verbum, n. 11).

37-38. As obras a que Se refere o Senhor são os Seus milagres, em que se manifesta o poder de Deus. Jesus apresenta as Suas palavras e as Suas obras como uma unidade, em que os milagres confirmam as Suas palavras e estas explicam o sentido dos milagres. Por isso, quando afirma que é o Filho de Deus, confirma esta revelação com os milagres que realiza. Assim, pois, se ninguém pode negar o facto dos milagres, justo é reconhecer a veracidade das Suas palavras.

41-42. Em contraste com a oposição de uns (cfr Ioh 10,20.31.39), está a adesão de outros, que O vão buscar ao lugar para onde Se retirou. A actividade preparatória de São João Baptista continua a dar os seus frutos: aqueles que tinham aceitado a pregação do Baptista agora buscam Cristo, e creem ao verem que n’Ele se cumprem as palavras do Precursor quando anunciava que Jesus era o Messias, o Filho de Deus (Ioh 1,34).

O labor que se faz em nome do Senhor nunca é inútil. «Assim, meus queridos irmãos, mantei-vos firmes, inamoviveis, progredindo sempre na obra do Senhor, sabendo que o nosso trabalho não é vão no Senhor» (l Cor 15,58). Assim como a palavra e o exemplo do Baptista serviram para que mais tarde muitos cressem em Jesus, o exemplo apostólico dos cristãos nunca será de balde, ainda que às vezes não se veja imediatamente o resultado. «Semear. — Saiu o semea­dor… — Semeia aos punhados, alma de apóstolo. — O vento da graça arrastará a tua semente, se o sulco onde caiu não for digno… Semeia, e está certo de que a semente vingará e dará o seu fruto» (Caminho, n° 794).

 

12.04.14 – Jo 11, 45-56

45Então, muitos dos Judeus que tinham vindo ter com Maria, ao verem o que Ele fizera, acreditaram n’Ele.

46Alguns deles, porém, foram ter com os Fariseus e disseram-lhes o que Jesus havia feito. 47Os Sumos Sacerdotes e os Fariseus reuniram conselho. Que havemos de fazer— diziam eles — uma vez que este homem realiza tantos milagres? 48Se O deixarmos assim, todos acreditarão n’Ele, e os Romanos virão destruir-nos o Lugar e a Nação.

49Mas um deles, Caifás, sendo Sumo Sacer­dote nesse ano, disse-lhes: Vós não sabeis nada 50nem discorras que vos interessa que morra um só homem pelo povo e não pereça a Nação inteira! 51Isto, porém, não o disse por si próprio, mas sendo Sumo Sacerdote nesse ano, profetizou que Jesus ia morrer pela Nação, 52e não só pela Nação, mas também para trazer à unidade os filhos de Deus que andavam dispersos. 53A partir, pois, desse dia, ficaram decididos a dar-Lhe a morte. 54Jesus, por isso, já não andava abertamente entre os Judeus, mas retirou-Se dali para uma região junto do deserto, para uma cidade chamada Efraim, e por lá Se conservou com os discípulos.

55Estava próxima a Páscoa dos Judeus, e muitos subiram da província a Jerusalém, antes da Páscoa, para se purificarem. 56Pro-curavam eles a Jesus e diziam entre si, estacionando no Templo: Que vos parece? Que Ele não virá à festa?

Comentário

45-48. Uma vez mais Jesus, tal como o velho Simeão tinha predito, aparece como sinal de contradição (cfr Lc 2,34; Ioh 7,12.31.40; 9,16; etc.): diante do milagre da ressur­reição de Lázaro uns crêem n’Ele (v. 45) e outros denun­ciam-No aos Seus inimigos (vv 46-47). Estas atitudes di­versas confirmam o dito na parábola do rico avarento: «Também não se convencerão mesmo que um dos mortos ressuscite» (Lc 16,31).

«O Lugar»: Com esta expressão, ou outras semelhantes («o lugar», «este lugar»), designava-se o Templo, lugar sagrado por excelência e, por extensão, toda a Cidade Santa, Jerusalém (cfr 2 Mach 5,19; Act 6,14).

49-53. Caifás exerceu o sumo pontificado do ano 18 ao 36 d. C. (cfr Começo do Ministério Público, p. 80). Caifás é o instrumento de Deus para profetizar a Morte redentora do Salvador, pois uma das funções do sumo sacerdote era consultar Deus para guiar o povo (cfr Ex 28,30; Num 27,21; 1Sam 23,9; 30,7-8). Neste caso as palavras de Caifás têm um duplo sentido: um, pretendido por ele mesmo, é a sua intenção de dar morte a Cristo com o pretexto de garantir a tranquilidade e sobrevivência política de Israel; outro, que­rido pelo Espírito Santo, é o anúncio da fundação do novo Israel, a Igreja, mediante a Morte de Cristo na Cruz; Caifás não captou este sentido. Desta maneira o último pontífice da Antiga Aliança profetiza a investidura do Sumo Sacerdote da Nova, selada com o Seu próprio Sangue.

Quando o Evangelista afirma que Cristo ia morrer «para reunir os filhos de Deus que estavam dispersos» (v. 52), refere-se ao que o Senhor tinha dito acerca dos efeitos salvíficos da Sua morte (cfr Ioh 10,14-15). Já os profetas tinham anunciado a futura congregação dos Israelitas fiéis a Deus para formar o novo povo de Israel (cfr Is 43,5; ler 23,3-5; Ez 34,23; 37,21-24). Estes vaticínios cumpriram-se com a Morte de Cristo, que, ao ser exaltado na Cruz, atrai e reúne o verdadeiro Povo de Deus, formado por todos os crentes, sejam ou não Israelitas. O Concilio Vaticano II apoia-se neste passo ao falar da universalidade da Igreja: «Ao novo Povo de Deus todos os homens são chamados. Por isso, este Povo, permanecendo uno e único, deve estender-se a todo o mundo e por todos os séculos/para se cumprir o desígnio da vontade de Deus, que, no princípio, criou uma só natureza humana e resolveu juntar em unidade todos os Seus filhos que estavam dispersos (cfr Ioh 11,52). Foi para isto que Deus enviou o Seu Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas; (cfr Heb 1,2), para ser mestre, rei e sacerdote universal, cabeça do novo e universal Povo dos filhos de Deus» (Lumen gentium, n. 13).

No século IV, São João Crisóstomo explicava aos seus fiéis a catolicidade da Igreja com estas palavras: «Que quer dizer ‘para reunir os que estavam próximo’ e ‘os que esta­vam dispersos’? Que os fez um só corpo. Quem reside em Roma sabe que os cristãos da índia são seus membros» (Hom. sobre S. João, 65,1).

54. Ainda não tinha chegado a hora da Sua morte; por isso Jesus actua com prudência, pondo os meios humanos para não precipitar os acontecimentos.

55. Sendo a Páscoa a festa mais solene dos Judeus, os fiéis chegavam uns dias antes a Jerusalém para se prepararem para a sua celebração por meio de abluções, jejuns e oferendas: práticas que não eram tanto exigidas pela lei moisaica como pela piedade do povo. Os próprios ritos da Páscoa, com a imolação do cordeiro, serviam de purificação e de expiação pelos pecados. A Páscoa dos Judeus era figura da Páscoa cristã, pois, como nos ensina o Apóstolo São Paulo, o nosso cordeiro pascal é Cristo (cfr 1Cor 5,7), o qual Se ofereceu de uma vez para sempre ao eterno Pai na Cruz para expiar pelos nossos pecados. Paulo VI recordava esta verdade gozosa da nossa fé: «Sacrificou-Se? Mas, será que existe ainda uma religião que se exprima em sacrifícios? Não, os sacrifícios da antiga lei e das religiões pagas já não têm razão de ser; mas de um sacrifício, um sacrifício válido, único e perene, sem dúvida que tem sempre necessidade o mundo para a redenção do pecado humano; (…) e é o sacrifício de Cristo sobre a cruz, o que apaga o pecado do mundo; sacrifício que a Eucaristia actualiza no tempo, dando aos homens desta terra a possibilidade de participar nele» (Alocução de 17-VI-1976).

Se os Judeus se preparavam com tantos ritos e abluções para celebrar a Páscoa, que não devemos fazer nós para celebrar ou participar na Santa Missa e receber Cristo — nossa Páscoa — na Eucaristia! «Quando na Terra se recebem pessoas muito importantes, há luzes, música, trajes de gala. Para albergar Cristo na nossa alma, como devemos pre­parar-nos? Já teremos por acaso pensado como nos compor­taríamos se só se pudesse comungar uma vez na vida?» (Cristo que passa, n° 91).

 

13.04.14 – Mt 26, 14-27,66

14Então um dos doze, chamado Judas Iscariotes, foi ter com os Príncipes dos sacer­dotes 15e disse-lhes: Que me quereis dar para eu vo-Lo entregar? E eles deram-lhe em paga trinta moedas de prata. 16E desde então buscava uma ocasião oportuna para O en­tregar.

17No primeiro dia dos ázimos, aproximaram-se de Jesus os discípulos e disseram-Lhe: Onde queres que Te façamos os prepa­rativos para comer a Páscoa? 18E Ele disse: Ide à cidade, a casa de um tal e dizei-lhe: «O Mestre manda dizer: O Meu tempo está próximo: quero celebrar a Páscoa com os Meus discípulos em tua casa». 19Fizeram os discípulos como o Senhor lhes ordenara e prepararam a Páscoa.

20Ao anoitecer, estava Jesus à mesa com os doze; 21e durante a ceia disse: Em verdade vos digo que um de vós Me há-de entregar. 22 Entristeceram-se eles profundamente e ca­da um começou a perguntar-Lhe: Porventu­ra sou eu, Senhor? 23Ele respondeu: O que mete comigo a mão no prato, esse Me há-de entregar. 24O Filho do homem vai, conforme está escrito d’Ele; mas ai daquele por quem o Filho do homem vai ser entregue. Melhor lhe fora a esse homem não ter nascido. 25Tomou aqui a palavra Judas, o que O traíra, e disse: Porventura sou eu, Rabi? E Ele respondeu: Tu o disseste.

26Durante a ceia tomou Jesus um pão, pronunciou a fórmula da bênção, partiu-o,  e, dando-o aos discípulos, disse: Tomai e comei; isto é o Meu corpo. 27Tomou depois um cálice, deu graças, e, passando-lho, disse: Bebei todos dele.

65Então o Sumo Sacerdote rasgou os ves­tidos, exclamando: Blasfemou! Que neces­sidade temos de mais testemunhas? Acabais de ouvir a blasfêmia.

Comentário

15. Desconcerta e põe de sobreaviso pensar como Judas Iscariotes chegou a vender quem ele tinha considerado como Messias e de quem tinha recebido o chamamento para o ministério apostólico. Trinta ciclos ou moedas de prata era o preço de um escravo (cfr Ex 21, 32), a mesma quantia pela qual Judas vendeu o Mestre.

17. Ázimos são os pães sem fermento que deviam comer-se durante sete dias, em recordação do pão sem fermentar que os Israelitas tiveram de tomar apressadamente ao sair do Egipto (cfr Ex 12, 34). No tempo de Jesus a ceia de Páscoa celebrava-se no primeiro dia da semana de Ázimos.

18. Embora a expressão indique uma pessoa, cujo nome não se diz, é de supor que o Senhor o tenha designado concretamente. Em qualquer caso, sabemos pelos outros evangelistas (Mc 14, 13 Lc 22, 10) que Jesus deu indicações suficientes para que os discípulos pudessem encontrar a casa.

22. Embora não tivessem sucedido ainda os aconteci­mentos gloriosos da Páscoa, que dariam aos Apóstolos um conhecimento superior sobre Jesus, contudo, no seu convívio com o Senhor e pela graça divina, que já tinham vindo a receber (cfr Mt 16, 17), os Apóstolos, ao longo do ministério público, tinham robustecido e aprofundado a sua fé em Jesus (cfr Ioh 2,11; 6, 68-69). Neste momento estão persuadidos de que o Senhor conhece as próprias disposições interiores deles e o que vão fazer. Por isso, cada um faz-Lhe a inquietante pergunta acerca da sua própria fidelidade futura.

24. Jesus alude a que Ele próprio Se entregará volunta­riamente à Paixão e à Morte. Com isso, também cumpria a Vontade divina, anunciada desde tempos antigos (cfr Ps 41, 10; Is 53, 7). Ainda que Nosso Senhor vá para a morte por própria vontade, não por isso diminui o pecado do traidor.

25. O anúncio da traição de Judas passou despercebido aos outros apóstolos (cfr Ioh 13,26-29).

 

14.04.14 – Jo 12, 1-11

Seis dias antes da Páscoa, veio Jesus a Betânia, onde se encontrava Lázaro, que Jesus havia ressuscitado dos mortos.

2Ofereceram-Lhe lá um jantar. Marta andava a servir, e Lázaro era um dos que estavam com Ele à mesa. 3Então Maria, tomando uma libra de perfume de nardo genuíno, de alto preço, ungiu os pés de Jesus e enxugou-Lhos com os seus cabelos. E a casa encheu-se com o cheiro do perfume. 4Disse Judas Iscariotes, um dos discípulos, aquele que O ia entregar: 5Por que motivo se não vendeu este perfume por trezentos denários, para se dar aos pobres? 6Disse isto, não por se importar com os pobres, mas porque era ladrão e porque, andando com a bolsa, tirava o que nela se metia. 7Respondeu Jesus: Deixa-a lá; foi para reservar o perfume para o dia da Minha sepultura; 8pois que pobres, sempre os haveis de ter convosco, mas a Mim nem sempre Me tereis.

9Soube então um grande número de Judeus que Ele ali Se encontrava e vieram, não só por causa de Jesus, mas também para verem Lázaro, que Ele tinha ressuscitado dos mortos, 10Ora os Sumos Sacerdotes haviam deliberado dar a morte a Lázaro também, 11porque muitos dos Judeus, por causa dele, se afastavam e acreditavam em Jesus.

Comentário

1- Jesus visita de novo os Seus amigos de Betânia. Comove ver como o Senhor tem esta amizade, tão divina e tão humana, que se manifesta num convívio frequente.

«E verdade que chamo sempre Betânia ao nosso Sacrário… — Faz-te amigo dos amigos do Mestre: Lázaro, Marta, Maria. — E depois já me não perguntarás por que chamo Betânia ao nosso Sacrário» (Caminho, n° 322).

2-3. Parece que houve duas unções do Senhor em ocasiões diferentes e por motivos diversos: a primeira, no princípio do Seu ministério público, na Galileia, relatada por São Lucas (7,36-50); a segunda, no fim da Sua vida, em Betânia, narrada aqui por São João, e que sem dúvida é a mesma que relatam São Mateus (26,6-13) e São Marcos (14,3-9). Tanto pelo tempo em que sucederam, como pelas circunstâncias par­ticulares, ambas as unções se distinguem com clareza: no primeiro caso tratou-se de uma manifestação de arrepen­dimento a que se seguiu o perdão; no segundo caso foi uma mostra delicada de amor, que Jesus interpretou, além disso, como antecipação da Sua unção para a sepultura (v. 7).

Ainda que as unções de que foi objecto Jesus tenham tido uma relevância muito especial, devem ser consideradas dentro dos usos da hospitalidade entre os orientais (veja-se a nota a Mc 14,3-9).

A libra era uma medida de peso equivalente a uns tre­zentos gramas: o denário, como indicámos noutras ocasiões, era a paga diária de um operário agrícola; portanto, o valor do frasco de perfume equivaleria ao salário de um ano completo.

«Que prova tão clara de magnanimidade o excesso de Maria! Judas lamenta que se tenha desperdiçado um perfume que valia — com a sua avareza fez muito bem as contas — pelo menos trezentos dinheiros.

«O verdadeiro desprendimento leva-nos a ser muito gene­rosos com Deus e com os nossos irmãos (…). Não sejais mesquinhos nem tacanhos com quem tão generosamente Se excedeu connosco, até Se entregar totalmente, sem medida. Pensai quanto vos custa — também no domínio econômico — ser cristão! Mas, sobretudo, não esqueçais que Deus ama quem dá com alegria (2 Cor I?í, 7-8)» (Amigos de Deus, n° 126).

4-6. Por este passo e por Ioh 13,29 sabemos que Judas era o que administrava o dinheiro. Com pequenos roubos — não daria para mais a exígua bolsa de Jesus e dos Doze — tinham-se ido preparando em Judas as disposições que contribuíram para a traição final; esta queixa em relação à generosidade da mulher é uma hipocrisia. «Com frequência os servidores de Satanás se disfarçam de servidores da justiça (cfr 2 Cor 11,14-15). Por isso (Judas) ocultou a sua malícia sob capa de piedade» (Comentário sobre S. João, ad loc.).

7-8. Além de louvar o gesto magnânimo de Maria, o Senhor anuncia veladamente a proximidade da Sua morte, e até se vislumbra que será tão inesperada que mal haverá tempo para embalsamar o Seu corpo tal como costumavam fazê-lo os Judeus (Lc 23,56). Jesus não nega o valor da esmola que tantas vezes recomendou (cfr Lc 11,41; 12,33), nem a preocupação pelos pobres (cfr Mt 25,40), mas descobre a hipocrisia daqueles que, como Judas, aduzem falsamente motivos nobres para não dar a Deus a honra devida (ver também as notas a Mt 26,8-11; Mc 14,3-9).

 

15.04.14 – Jo 13, 21-33,36-38

21Dito isto, perturbou-Se Jesus interiormente e asseverou : Em verdade, em verdade vos digo: Um de vós há-de entregar-Me. 22Os discípulos olhavam uns para os outros, sem saberem a quem Se referia. 23Ora um dos discípulos, aquele que Jesus amava, estava à mesa junto do seio de Jesus. 24Então Simão Pedro faz-lhe sinal e diz-lhe: Pergunta lá de quem é que fala. 25Ele, inclinando-se sem mais sobre o peito de Jesus, pergunta-Lhe: Quem é, Senhor? 26Jesus responde: É aquele a quem Eu der o pedaço de pão que vou ensopar. E, depois de ensopar o pedaço de pão, toma-o e entrega-o a Judas, filho de Simão Iscariotes. 27Nessa altura, depois do pedaço de pão, entrou nele Satanás. Diz-lhe então Jesus: O que tens a fazer, fá-lo sem demora. 28Isto, porém, não soube nenhum dos convivas por que lho disse, 29pois alguns, por Judas andar com a bolsa, pensavam que Jesus lhe dizia: Vai comprar aquilo de que precisamos para a festa; ou então que desse alguma coisa aos pobres. 30Tendo, pois, tomado o pedaço de pão, saiu imediatamente. E era noite…

31Depois de ele sair, diz Jesus: Agora é que foi glorificado o Filho do homem e Deus foi n’Ele glorificado. 32Uma vez que Deus foi n’Ele glorificado, também Deus O há-de glorificar em Si mesmo e glorificá-Lo-á sem demora.

33«Filhinhos, ainda estou um pouco convosco. Haveis de procurar-Me e, assim como disse aos Judeus: «Vós não podeis vir para onde Eu vou », também vo-lo digo agora.

36Diz-Lhe Simão Pedro: Para onde vais, Senhor? Para onde Eu vou — respondeu-lhe Jesus — não podes tu seguir-Me por agora; seguir-Me-ás depois. 37Diz-Lhe Pedro: Senhor, por que motivo não posso agora seguir-Te? Eu darei a minha vida por Ti! 38Darás a tua vida por Mim? responde Jesus. — Em ver­dade, em verdade te digo: Não cantará o galo sem tu Me haveres negado por três vezes!

Comentário

21. A dor de Cristo é proporcionada à gravidade da ofensa. Judas era um dos escolhidos por Jesus para ser Apóstolo: durante três anos tinha tido uma convivência familiar e íntima com Ele, tinha-O seguido para toda a parte, tinha visto os Seus milagres, ouvido a Sua doutrina divina e experimentado a ternura do Seu coração… E depois de tudo isto, no momento decisivo, Judas não só abandona o Mestre mas atraiçoa-O e vende-O. A traição de um íntimo é muito mais dolorosa e cruel que a de um estranho, porque supõe uma falta de lealdade. Também a vida espiritual do cristão é verdadeira amizade com Cristo; por isso assenta sobre a lealdade, à honradez e a fidelidade à palavra dada.

Judas tinha decidido entregar Jesus e pôs-se de acordo cornos príncipes dos sacerdotes (cfr Mt 26,14; Mc 14,10-11; Lc 22,3-6). A tentação, consumada já no coração de Judas, vinha-se preparando desde há tempos, como vemos na unção de Betânia quando protestou contra o gesto de amor de Maria; São João comenta então que o fez não por amor aos pobres mas porque era ladrão (cfr Ioh 12,6).

23. Naquele tempo, nas ocasiões solenes costumavam comer recostados sobre uma espécie de divão, chamado triclínio. Apoiavam-se sobre o lado esquerdo para comer com a mão direita. Deste modo era fácil reclinar-se naquele que estava à esquerda e falar de forma confidencial. O que lemos neste versículo é um pormenor que indica a intimidade e confiança que o Mestre e o discípulo amado tinham entre si (cfr Ioh 19,27; 20,2; 21,23), modelo do amor de Jesus por todos os Seus verdadeiros discípulos, e destes pelo Mestre.

26-27. O bocado que lhe oferece Jesus é mostra de amizade e, portanto, convite a emendar as suas perversas maquinações. Judas, porém, desperdiça esta oportunidade. «Bom é o que recebeu — comenta Santo Agostinho —, mas recebeu-o para a sua perdição, porque aquele que era mau recebeu com má disposição o que era bom» (In Joann. Evang., 61,6). A entrada de Satanás indica que desde esse momento Judas se abandona completamente à tentação diabólica.

29. «Todos estes pormenores foram conservados para nos dizer: se alguém vos ultraja, não vos indigneis. Pensai no culpável e chorai a sua violência natural. Aquele que lesa o bem de outro, o caluniador, que interesses fere primeiro? Os seus próprios, sem dúvida (…). Jesus Cristo enche dos Seus benefícios Judas o traidor, lava os seus pés, repreende-o sem acrimónia, censura-o com discrição, procura ganhar o seu coração, honra-o até comer com ele, até o abraçar; e inclusivamente quando Judas não recapacita, Jesus Cristo não cessa no Seu bom empenho» (Hom. sobre S. João, 71,4).

30. A indicação de que « era noite » não é só uma simples referência cronológica, mas alude às trevas como imagem do pecado, do poder tenebroso que naquele instante iniciava a Sua hora (cfr Lc 22,53). O contraste entre luz e trevas, oposição do mal ao bem, é muito frequente na Bíblia, especialmente no quarto Evangelho, onde, já desde o Prólogo, nos é dito que Cristo é a Luz verdadeira que as trevas não receberam (cfr Ioh 1,5).

31-32. Esta glorificação refere-se sobretudo à glória que Cristo receberá a partir da Sua exaltação na Cruz (Ioh 3,14; 12,32). São João sublinha que a morte de Cristo é o começo do Seu triunfo; tanto é assim que a própria crucifixão poderia considerar-se como o primeiro passo da subida para o Pai. Ao mesmo tempo é glorificação do Pai, pois Cristo, aceitando voluntariamente a morte por amor, como acto supremo de obediência à Vontade divina, realiza o maior sacrifício com que o homem pode dar glória a Deus. O Pai corresponderá a esta glorificação que Cristo Lhe tributa glorificando-O a Ele, como Filho do Homem, isto é, na Sua Santíssima Humanidade, através da Ressurreição e exalta­ção à Sua direita. Desta forma a glória que o Filho dá ao Pai é ao mesmo tempo glória para o Filho.

Assim também o discípulo de Cristo encontrará o seu maior motivo de glória na identificação com a atitude obe­diente do Mestre. São Paulo indica-o claramente ao dizer: «Longe de mim gloriar-me a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo» (Gal 6,14).

33. A partir deste versículo o Evangelista relata o que costuma chamar-se o discurso da Ceia. Nele podem distinguir-se três partes. Na primeira, o Senhor começa por pro­clamar o Mandamento Novo (vv 33-35) e anuncia as negações de Pedro (w, 36-38). Explica-lhes depois que a Sua Morte vai ser o trânsito para o Pai (cap. 14), com Quem é um por ser Deus (vv 1-14). Também lhes anuncia que depois da Sua Ressurreição lhes enviará o Espírito Santo, que os guiará ensinando-lhes e recordando-lhes tudo o que lhes tinha dito (vv 15-31).

A segunda parte do discurso está contida nos capítulos 15 e 16. Jesus Cristo promete que aqueles que crerem terão uma nova vida de união com Ele, tão íntima como a que têm as varas com a videira (15,1-8). Para conseguir essa união é necessário praticar o Mandamento Novo do Senhor (vv 9-18). Previne-os das contradições que terão de sofrer, e anima-os com a promessa do Espírito Santo, que os defenderá e conso­lará (vv 18-27). A acção do Paráclito ou Consolador con­duzi-los-á eficazmente ao cumprimento da missão que Jesus lhes confiou (16,1-15). Fruto da presença do Espírito Santo será a plenitude do gozo (vv 16-33).

A terceira parte (cap. 17) recolhe a oração sacerdotal de Jesus, em que roga ao Pai pela Sua glorificação através da Cruz (vv 1-5). Pede também pelos Seus discípulos (vv. 6-19) e por todos os que por meio deles crerão n’Ele, para que, permanecendo no mundo sem serem do mundo, esteja neles o amor de Deus e deem testemunho de que Cristo é o enviado do Pai (vv. 20-26).

34-35. Cristo, depois de anunciar a Sua partida (v. 33), resume os Seus preceitos num só: o Mandamento Novo. Voltará a repeti-lo outras vezes no discurso da Ceia (cfr Ioh 15, 12.17); e São João, na sua primeira carta, insistirá na necessidade de viver este mandato do Senhor e nas exigências que comporta (cfr 1Ioh 2,8; 3,7-21).

O amor ao próximo estava já mandado no Antigo Testa­mento (cfr Lev 19,18), e Jesus ratifica-o dando-lhe o lugar que lhe corresponde no conjunto da Lei: o segundo manda­mento. Este é semelhante ao primeiro: amar a Deus com todo o coração, com toda a alma e com toda a mente (cfr Mt 22,37-40). Mas Jesus dá ao preceito do amor fraterno um sentido e um conteúdo novos ao dizer «como Eu vos amei». O amor ao próximo que se pedia na Antiga Lei alcançava também de algum modo os inimigos (Ex 23,4-5); não obstante, o amor que prega Jesus é muitíssimo mais exigente e inclui devolver bem por mal (cfr Mt 5,43-44), porque a medida do amor cristão não está no coração do homem, mas no coração de Cristo, que entrega a Sua vida na Cruz pela redenção de todos (cfr 1Ioh 4,9-11). Nisto consiste a novidade do ensina­mento de Jesus, e bem pode dizer o Senhor que é o Seu mandamento, expressão da Sua última vontade, a cláusula principal do Seu testamento.

Não pode separar-se o amor ao próximo do amor a Deus: «O maior mandamento da Lei é amar a Deus de todo o coração, e ao próximo como a si mesmo (cfr Mt 22,37-40). Cristo fez deste mandamento do amor para com o próximo o Seu mandamento, e enriqueceu-o com novo significado, identificando-Se com os irmãos como objecto da caridade, dizendo: ‘sempre que o fizestes a um destes Meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes’ (Mt 25,40). Com efeito, assu­mindo a natureza humana, Ele uniu a Si como família, por uma certa solidariedade sobrenatural, todos os homens e fez da caridade o sinal dos Seus discípulos, com estas palavras: ‘nisto conhecerão todos que sois Meus discípulos, se vos amardes uns aos outros’» (Apostolicam actuositatem, n. 8).

Cristo, apesar de ser a própria pureza, a sobriedade, a humildade, não põe como distintivo para os Seus segui­dores nenhuma destas virtudes, mas a caridade: «O ensina­mento e o exemplo do Mestre são claros e precisos. Subli­nhou com obras a Sua doutrina. E, no entanto, tenho pen­sado muitas vezes que, passados vinte séculos, ainda con­tinua a ser um mandamento novo, porque muito poucos homens se têm preocupado em levá-lo à prática; os restantes, a maioria, preferiram e preferem desconhecê-lo. Com um egoísmo exarcebado, perguntam: Para quê mais complica­ções? Já me bastam as que tenho com as minhas coisas.

«Não é admissível semelhante atitude entre os cristãos. Se professamos essa mesma fé, se ambicionamos verdadei­ramente seguir as pegadas, tão nítidas, que os passos de Cristo deixaram na terra, não podemos conformar-nos com evitar aos outros os males que não desejamos para nós mesmos. Isto é muito, mas é muito pouco, quando compreendemos que a medida do nosso amor é definida pelo compor­tamento de Jesus. Além disso, Ele não nos propõe essa norma de conduta como uma meta longínqua, como o coroamento de toda uma vida de luta. É — e insisto que deve sê-lo para que o traduzas em propósitos concretos— o ponto de partida, porque Nosso Senhor o indica como sinal prévio: nisto conhecerão que sois Meus discípulos» (Amigos de Deus, n.° 223).

Assim acontecia realmente entre os cristãos dos primeiros séculos no meio da sociedade paga, de modo que, como escreve Tertuliano em fins do século II, todos podiam dizer ao ver a vida daqueles fiéis: «Vede como se amam» (Apologeticum, XXXIX).

36-38. Uma vez mais Pedro fala ao seu Mestre com simplicidade e sincera disposição de O seguir até à morte.  Mas ainda não estava preparado. O Senhor, comenta Santo Agostinho, «estabelece aqui uma dilação; não destrói a esperança, mas confirma-a dizendo ‘seguir-Me-ás mais tarde’. Para que te apressas, Pedro? Ainda não te tinha fortalecido a pedra com a dureza da sua entranha: não te desequilibres agora com a tua presunção. Agora não podes seguir-Me, mas não desesperes, depois fá-lo-ás» (In Ioann. Evang., 66,1). Com efeito, nesses momentos o entusiasmo de Pedro é ar­dente, mas pouco firme. Mais tarde adquirirá a fortaleza que se apoia na humildade. Então, quando não se considerar digno de morrer como o Mestre, morrerá numa cruz, de cabeça para baixo, cravando na terra de Roma essa pedra sólida que continua a viver nos que lhe sucedem e que é o fundamento sobre o qual se edifica, indefectível, a Igreja. As negações de Pedro, sinal da sua debilidade, foram amplamente compensadas pelo seu profundo arrependi­mento. «Que cada um tome exemplo de contrição e se caiu não desespere, mas confie sempre em que pode tornar-se digno do perdão» (S. Beda, In Ioann. Evang. expositio, ad loc.).

 

16.04.14 – Mt 26, 14-25

14Então um dos doze, chamado Judas Iscariotes, foi ter com os Príncipes dos sacer­dotes 15e disse-lhes: Que me quereis dar para eu vo-Lo entregar? E eles deram-lhe em paga trinta moedas de prata. 16E desde então buscava uma ocasião oportuna para O en­tregar.

17No primeiro dia dos ázimos, aproximaram-se de Jesus os discípulos e disseram-Lhe: Onde queres que Te façamos os prepa­rativos para comer a Páscoa? 18E Ele disse: Ide à cidade, a casa de um tal e dizei-lhe: «O Mestre manda dizer: O Meu tempo está próximo: quero celebrar a Páscoa com os Meus discípulos em tua casa». 19Fizeram os discípulos como o Senhor lhes ordenara e prepararam a Páscoa.

20Ao anoitecer, estava Jesus à mesa com os doze; 21e durante a ceia disse: Em verdade vos digo que um de vós Me há-de entregar. 22 Entristeceram-se eles profundamente e ca­da um começou a perguntar-Lhe: Porventu­ra sou eu, Senhor? 23Ele respondeu: O que mete comigo a mão no prato, esse Me há-de entregar. 24O Filho do homem vai, conforme está escrito d’Ele; mas ai daquele por quem o Filho do homem vai ser entregue. Melhor lhe fora a esse homem não ter nascido. 25Tomou aqui a palavra Judas, o que O traíra, e disse: Porventura sou eu, Rabi? E Ele respondeu: Tu o disseste.

Comentário

15. Desconcerta e põe de sobreaviso pensar como Judas Iscariotes chegou a vender quem ele tinha considerado como Messias e de quem tinha recebido o chamamento para o ministério apostólico. Trinta ciclos ou moedas de prata era o preço de um escravo (cfr Ex 21, 32), a mesma quantia pela qual Judas vendeu o Mestre.

17. Ázimos são os pães sem fermento que deviam comer-se durante sete dias, em recordação do pão sem fermentar que os Israelitas tiveram de tomar apressadamente ao sair do Egipto (cfr Ex 12, 34). No tempo de Jesus a ceia de Páscoa celebrava-se no primeiro dia da semana de Ázimos.

18. Embora a expressão indique uma pessoa, cujo nome não se diz, é de supor que o Senhor o tenha designado concretamente. Em qualquer caso, sabemos pelos outros evangelistas (Mc 14, 13 Lc 22, 10) que Jesus deu indicações suficientes para que os discípulos pudessem encontrar a casa.

22. Embora não tivessem sucedido ainda os aconteci­mentos gloriosos da Páscoa, que dariam aos Apóstolos um conhecimento superior sobre Jesus, contudo, no seu convívio com o Senhor e pela graça divina, que já tinham vindo a receber (cfr Mt 16, 17), os Apóstolos, ao longo do ministério público, tinham robustecido e aprofundado a sua fé em Jesus (cfr Ioh 2,11; 6, 68-69). Neste momento estão persuadidos de que o Senhor conhece as próprias disposições interiores deles e o que vão fazer. Por isso, cada um faz-Lhe a inquietante pergunta acerca da sua própria fidelidade futura.

24. Jesus alude a que Ele próprio Se entregará volunta­riamente à Paixão e à Morte. Com isso, também cumpria a Vontade divina, anunciada desde tempos antigos (cfr Ps 41, 10; Is 53, 7). Ainda que Nosso Senhor vá para a morte por própria vontade, não por isso diminui o pecado do traidor.

25. O anúncio da traição de Judas passou despercebido aos outros apóstolos (cfr Ioh 13,26-29).

 

17.04.14 – Jo 13,1-15

Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a Sua hora de passar deste mundo para o Pai, Ele que amara os Seus, que estavam no mundo, levou até ao extremo o Seu amor por eles. 2E, no decorrer da ceia, como o Diabo já tivesse metido na cabeça a Judas Iscariotes, filho de Simão, que O entregasse, 3sabendo Ele que o Pai tudo Lhe pusera nas mãos, e ainda que de Deus saíra e para Deus voltava, 4levanta-Se da mesa, depõe as vestes e, tomando uma toalha, põe-na à cintura. 5A seguir, deita água numa bacia e começa a lavar os pés aos discípulos e a enxugá-los com a toalha que pusera à cintura.

6Chega então a Simão Pedro. Senhor — Lhe diz ele — Tu vai lavar-me os pés?!

7Respondeu-lhe Jesus: O que Eu estou a fazer, não o podes entender por agora, hás-de compreendê-lo depois. 8Não — diz-lhe Pedro — nunca me lavarás os pés! Respon­deu-lhe Jesus: Se não te lavar, não terás parte comigo. 9Senhor — Lhe diz Simão Pedro — então não só os pés, mas também as mãos e a cabeça! 10Jesus respondeu-lhe: Quem tomou banho não precisa de se lavar; está todo limpo. Também vós estais limpos, mas não todos! … 11É que Ele bem sabia quem O ia entregar; por isso é que disse: «Nem todos estais limpos». 12Depois de lhes lavar os pés, de retomar as vestes e de Se pôr de novo à mesa, disse-Ihes: 13Compreendeis o que vos fiz? Vós chamais-Me Mestre e Senhor, e dizeis bem, visto que o sou. 14Ora, se Eu vos lavei os pés, sendo Senhor e Mestre, também vós deveis lavar os pés uns aos outros. 15É que Eu dei-vos o exemplo para que, assim como Eu vos fiz, vós façais também.

Comentário

1-38. São João dedica uma grande parte do seu Evangelho (caps. 13-17) a narrar os ensinamentos de Jesus aos Apóstolos durante a Última Ceia. Nesta secção relata, além disso, alguns factos que não aparecem nos Sinópticos, como o lava-pés; e omite a instituição da Eucaristia, já transmitida pelos outros Evangelhos e por São Paulo (cfr Mt 26,26-28 e par.; 1Cor 11,23-27), e de que o próprio São João falou no cap. 6. Nos capítulos 13 a 17 o Evangelista recorda extensamente as palavras do Senhor em ocasião tão solene.

O cap. 13 começa com uma descrição da importância do momento (vv. 1-3). A seguir narra-se o lava-pés (vv 4-11), e a explicação de Jesus deste facto (vv. 12-17). Relata depois a denúncia do que O ia entregar (vv. 18-32), e termina com o ensinamento do mandamento novo (vv. 33-35) e o anúncio da negação de Pedro (vv. 36-38).

1. As famílias hebreias imolavam um cordeiro na vés­pera da Páscoa, segundo o mandato divino recebido à saída do Egipto, quando Deus os livrou da escravidão do Faraó (Ex 12,3-14; Dt 16,1-8). Esta libertação prefigurava a que Jesus Cristo viria realizar: redimir os homens da escravidão do pecado, mediante o Seu sacrifício na Cruz (cfr 1,29). Por­tanto, a celebração da Páscoa hebraica era o enquadra­mento mais adequado para instituir a nova Páscoa cristã.

Jesus sabia tudo o que ia acontecer e que a Sua Morte e Ressurreição estavam iminentes (cfr 18,4); por isso as Suas palavras adquirem um tom especial de confidencia e amor por aqueles que deixava neste mundo. Chegado este mo­mento, rodeado dos que escolheu e creram n’Ele, deixa-lhes os Seus últimos ensinamentos e institui a Eucaristia, fonte e centro da vida da Igreja. «O próprio Senhor quis dar àquela reunião tal plenitude de significado, tal riqueza de recor­dações, tal comoção de palavras e de sentimentos, tal novi­dade de actos e de preceitos, que nunca acabaremos de meditá-los e de explorá-los. É uma cena testamentária; é uma cena afectuosa e imensamente triste, ao mesmo tempo que misteriosamente reveladora de promessas divinas, de visões supremas. Lança-se por cima a morte, com inauditos presságios de traição, de abandono, de imolação; a conversa apaga-se a seguir, enquanto a palavra de Jesus flui contínua, nova, extremamente doce, tensa em confidencias supremas, movendo-se assim entre a vida e a morte» (Paulo VI, Homília de Quinta Feira Santa).

O que Cristo fez pelos Seus pode resumir-se na frase «amou-os até ao fim». Isto indica a intensidade do amor de Cristo, que vai até dar a Sua vida (cfr Ioh 15,13); mas esse amor não termina com a Sua morte, porque Ele vive, e desde a Sua ressurreição gloriosa continua a amar-nos infinita­mente: «Não nos amou só até aqui quem nos ama sempre e sem fim. Não se pode pensar que a morte tenha posto fim ao amor d’Aquele que não Se extinguiu com a morte» (In Ioann. Evang., 55,2).

2. Os Evangelhos relatam que a presença e a acção do diabo aparecem ao longo da activídade de Jesus (cfr Mt 4,1-11; Lc 22,3; Ioh 8,44; 12,31; etc.). Satanás é o inimigo (Mt 13,39), o Maligno (l Ioh 2,Í3). São Tomás de Aquino (cfr Comentário sobre S. João, ad loc.) faz-nos notar como, neste passo, por um lado, se põe em realce a malícia de Judas, que não se rende diante de tanta prova de amor, e, por outro, sublinha-se a bondade de Cristo, que supera essa maldade diabólica ao lavar também os pés de Judas, a quem tratará como amigo até no momento supremo da traição (Lc 22,48).

3-6. Jesus, consciente de ser o Filho de Deus, humilha-Se voluntariamente até realizar a tarefa própria dos servos da casa. Este passo recorda o hino cristológico da carta de São Paulo aos Filipenses: «Cristo Jesus, sendo de condição divina, não considerou apetecível tesouro o ser igual a Deus, mas aniquilou-Se a Si mesmo, tomando a forma de servo…» (Phil 2,6-7).

Cristo tinha dito que viera ao mundo para servir e não para ser servido (Mc 10,45). Nesta cena ensina-nos o mesmo com um facto concreto, exortando-nos assim a servirmo-nos uns aos outros com toda a humildade e simplicidade (cfr Gal 6,2; Phil 2,3). «Diante dos discípulos, que discutiam por motivos de soberba e de vangloria, Jesus inclina-se e cumpre gostosamente o trabalho próprio de um servo (…). A mim comove-me esta delicadeza do nosso Cristo, porque não afirma: se Eu faço isto, quanto mais deveis fazer vós! Coloca-Se ao mesmo nível, não coage: fustiga amorosamente a falta de generosidade daqueles homens.

«Como aos primeiros Doze, o Senhor também nos pode insinuar a nós, como de facto nos insinua continuamente: exemplum dedi vobis (Ioh XJU, 15), dei-vos exemplo de humil­dade. Converti-Me em servo, para que vós saibais, com coração manso e humilde, servir todos os homens» (Amigos de Deus, n.° 103).

Pedro compreende de maneira particular o profundo da humilhação do Senhor, e rebela-se, como já o fez noutras circunstâncias, opondo-se à idéia do sofrimento de Cristo (cfr Mc 8,32 e par.). Comenta Santo Agostinho:« Quem não se enche de assombro ao ver os seus pés lavados pelo Filho de Deus? (…). Tu? A mim? Mais que explicadas merecem ser meditadas estas palavras, não aconteça que a língua não seja capaz de exprimir o pouco que a nossa mente pode compreender do seu verdadeiro sentido» (In Ioann. Evang., 56,1).

7-14. Aquele gesto do Senhor tinha um profundo signi­ficado que São Pedro não podia compreender então, como também não tinha suspeitado antes dos planos salvíficos de Deus através da imolação de Cristo (ctr Mt 16,22 ss.). Depois da Ressurreição, os Apóstolos compreenderão esse mistério do serviço do Redentor; Jesus, mediante o lava-pés, exprimia de modo simples e simbólico que não tinha «vindo para ser servido, mas para servir». O Seu serviço, como já lhes tinha dito noutra ocasião, consiste sobretudo em «dar a Sua vida em redenção por muitos» (Mt 20,28; Mc 10,45).

Diz o Senhor aos Apóstolos que já estão limpos, porque aceitaram as Suas palavras e O seguiram (cfr 15,3), excepto Judas que tinha decidido atraiçoá-Lo. Assim comenta este passo São João Crisóstomo: «Estais limpos porque recebestes a Minha palavra, recebestes a luz, estais livres dos erros judaicos. Diz o Profeta: ‘Lavai-vos, purificai-vos, arremessai das vossas almas a perversidade’ (Is 1,16) (…). Jesus Cristo chama puros aos Apóstolos, segundo o que disse o Profeta, porque já arremessaram de si toda a malícia dos seus cora­ções e viveram com o seu Mestre em pureza de espírito e de coração» (Hom. sobre S. João, 70,3).

Por outro lado, quando o Senhor fala da limpeza dos Apóstolos, neste momento imediatamente anterior à insti­tuição da Santíssima Eucaristia, está a aludir à necessidade de ter a alma limpa de pecado para O receber. São Paulo repete este ensinamento quando diz: «Quem comer ou beber o cálice do Senhor indignamente será réu do Corpo e do Sangue do Senhor» (1Cor 11,27). A Igreja, fundamentada nestes ensinamentos de Jesus e dos Apóstolos, estabelece que para comungar é preciso confessar-se previamente, se há consciência, ou dúvida positiva, de pecado grave.

 

18.04.14 – Jo 18, 1-19,42

Dito isto, saiu Jesus com os discípulos para o outro lado da torrente do Cedron, onde havia um jardim, em que Ele entrou com os discípulos. 2Ora Judas, o que O ia entregar, conhecia também aquele sítio, por Jesus Se ter lá reunido muitas vezes com os discípulos. 3Judas, portanto, depois de tomar a coorte e alguns dos guardas dos Sumos Sacerdotes e dos Fari­seus, vem ali ter, com archotes, lanternas e armas.

4Então Jesus, que sabia tudo o que Lhe ia acontecer, adiantou-Se e disse-lhes: A quem buscais? 5Responderam-Lhe: A Jesus de Nazaré! Sou Eu! — retorquiu-lhes Jesus. Judas, o que O ia entregar, também se encontrava com eles. 6Mas quando lhes disse: «sou Eu», recuaram e caíram por terra. 7Perguntou-lhes então novamente: A quem buscais? A Jesus de Nazaré! 8Já vos disse que sou Eu, replicou-lhes Jesus; se é, pois, a Mim que buscais, deixai que estes se retirem. 9Isto, para se cumprir a palavra que havia proferido: «Daqueles que Me deste, não perdi nenhum!»

10Então Simão Pedro, que tinha uma espada, puxou dela e feriu o criado do Sumo Sacerdote, cortando-lhe a orelha direita. O criado chamava-se Malco. 11Jesus, porém, disse a Pedro: Mete a espada na bainha. Não havia de beber o cálice que o Pai Me deu?

12 Então a coorte, o tribuno e os guardas dos Judeus apoderaram-se de Jesus, e liga­ram-No.

13E levaram-No a Anás em primeiro lugar, por ser o sogro de Caifás, que era o Sumo Sacerdote desse ano. 14Tinha sido Caifás que havia dado este conselho aos Judeus: «Interessa que morra um só homem pelo povo!» 15Entretanto, Simão Pedro ia seguindo a Jesus com outro discípulo. Esse discípulo era conhecido do Sumo Sacerdote e entrou juntamente com Jesus no pátio do Sumo Sacerdote, 16enquanto Pedro ficava à porta, do lado de fora. Saiu então o outro discí­pulo, conhecido do Sumo Sacerdote, falou à porteira e levou Pedro para dentro. 17Diz a Pedro a criada que servia de porteira: Tu não és também dos discípulos desse homem? Ele responde: Não sou! 18Achavam-se ali presentes os criados e os guardas, que, por estar frio, tinham feito um brasido e esta­vam a aquecer-se. Pedro encontrava-se igualmente ali com eles a aquecer-se.

19O Sumo Sacerdote interrogou Jesus sobre os Seus discípulos e a Sua doutrina.

40Então eles gritaram de novo: Esse não! Antes Barrabás. Ora Barrabás era um salteador.

Comentário

 

1. O capítulo anterior, em que se fala da glória do Filho de Deus (cfr Ioh 17,1.4.10.22.24), é um pórtico esplêndido com que São João apresenta a Paixão e Morte do Senhor como uma glorificação: sublinha a liberdade de Jesus ao aceitar a Sua Morte (14,31) e permitir que os Seus inimigos O prendam (18,4.11). O relato mostra a superio­ridade do Senhor sobre os que O julgam (18,20-21) ou O condenam (19,8.12); e a serenidade majestosa perante a dor física, que faz pensar, mais que nos tormentos que Jesus padece, na Redenção e no triunfo da Cruz.

Os capítulos 18 e 19 narram a Paixão e Morte de Nosso Senhor. São acontecimentos tão importantes e decisivos que todos os escritos do Novo Testamento, de uma forma ou de outra, tratam deles. Assim, os Evangelhos sinópticos rela­tam-nos extensamente. No livro dos Actos, juntamente com a Ressurreição, constituem o núcleo dos discursos dos Apóstolos. São Paulo explica o valor redentor do sacrifício de Jesus Cristo, e as epístolas católicas falam da Sua Morte salvadora. O mesmo acontece no Apocalipse, onde o grande Triunfador, o que está no trono celeste, é o Cordeiro sacrifi­cado, Cristo Jesus. Há que dizer, além disso, que os escri­tores sagrados sempre que falam da Morte do Senhor se referem a seguir à Sua gloriosa Ressurreição.

No Evangelho de São João citam-se cinco lugares ou cenários dos factos passados. O primeiro (18,1-12) é Getsemani, onde prendem Jesus. Depois (18,13-27) o Senhor é levado a casa de Anás, onde começa o processo religioso, e Pedro O nega diante dos criados do Pontífice. O terceiro lugar é o Pretório (18,28-19,16), onde se desenvolve o processo diante do procurador romano, que São João narra com amplitude, pondo em realce o verdadeiro caracter da realeza de Cristo, assim como a rejeição dos judeus que pedem a crucifixão do Senhor. A seguir (19,17-37) narram-se os factos passados depois da sentença injusta do procura­dor, centrando-se nos episódios do Calvário. Por último (19,31-42), como fazem os outros Evangelhos, São João relata a sepultura do Senhor no sepulcro sem estrear, que José de Arimateia tinha próximo do Calvário.

Todos estes acontecimentos culminam com a glorifi­cação de Jesus a que Ele próprio Se tinha referido (cfr Ioh 17,1-5): a Ressurreição e a exaltação junto do Pai (caps. 20-21).

Eis os conselhos que dá Frei Luis de Granada para meditar a história da Paixão de Nosso Senhor: «Há outras cinco coisas a que podemos ter respeito quando pensamos na sagrada Paixão (…). O primeiro, aqui podemos inclinar o nosso coração para a dor e o arrependimento dos nossos pecados, para o que nos é dado um grande motivo na Paixão do Salvador, pois é certo que tudo o que padeceu pelos pecados padeceu-o, de tal maneira que, se não houvesse pecados no mundo, não seria necessário tão custoso remédio. De maneira que os pecados, tanto os teus como os meus, como os de todo o mundo, foram os verdugos que O ataram, e O açoitaram, e O coroaram de espinhos, e O puseram na Cruz. Por isto verás quanta razão tens aqui para sentir a grandeza e a malícia dos teus pecados, pois realmente eles foram a causa de tantas dores, não porque eles levassem necessariamente o Filho de Deus a padecer, mas porque deles tomou ocasião a justiça divina para pedir tão grande satisfação.

«E não só para aborrecer o pecado, mas também para o amor das virtudes, temos aqui grandes motivos nos exemplos das virtudes deste Senhor, que assinaladamente resplan­decem na Sua sagrada Paixão, nas quais também devemos pôr os olhos para nos provocarmos à imitação delas, e particularmente na grandeza da Sua humildade, obediência, mansidão e silêncio, com todas as outras, porque esta é uma das mais altas e proveitosas maneiras que há de meditar a sagrada Paixão, que é por via de imitação.

«Outras vezes devemos pôr os olhos na grandeza do benefício que o Senhor aqui nos fez, considerando o muito que nos amou, e o muito que nos deu, e o muito que Lhe custou o que nos deu (…). Outras vezes convém levantar por aqui os olhos para o conhecimento de Deus, isto é, para considerar a grandeza da Sua bondade, da Sua misericórdia, da Sua justiça e da Sua benignidade, e assinaladamente da Sua ardentíssima caridade, a qual em nenhuma outra obra resplandece mais que na Sua sagrada Paixão. Porque como é maior argumento de amor padecer males pelo amigo do que fazer-lhe bens, e Deus podia uma coisa e outra (…), aprouve à Sua divina bondade vestir-Se de natureza em que pudesse padecer males, e tão grandes males, para que ficasse o homem de todo certificado deste amor, e assim se movesse a amar quem tanto o amou.

«Outras vezes, finalmente, pode considerar por aqui a alteza do conselho divino e a conveniência deste meio, que a sabedoria de Deus escolheu, para remédio do gênero humano; isto é, para satisfazer pelas nossas culpas, para inflamar a nossa caridade, para fortalecer a nossa paciência, para confirmar a nossa esperança, para curar a nossa soberba, a nossa avareza e os nossos regalos, e para inclinar as nossas almas para a virtude da humildade (…), para o aborrecimento do pecado e para o amor da Cruz» (Vida de Jesus Cristo, 15).

1-2. «Dito isto» é uma fórmula frequente no quarto Evangelho para indicar que começa um novo episódio relacionado com o que se acaba de narrar (cfr Ioh 2,12; 3,22; 5,1:6.1; 13,21…).

O Cédron (etimologicamente turvo, negro) é o fundo de um vale que só leva água na época das chuvas; separava Jeru­salém do monte das Oliveiras, em cuja falda se encontrava o horto de Getsemani (cfr Mt 26,32; Lc 21,37; 22,39). A distância do Cenáculo ao horto de Getsemani era de uns mil e duzentos metros.

3. Como a Judeia estava sob o domínio dos Romanos, havia em Jerusalém uma guarnição, composta de uma coorte (600 soldados) aquartelada na torre Antonia, ao mando de um tribuno. O Evangelista, ao dizer que Judas tomou «a coorte», exprime-se de um modo popular, que toma o todo pela parte; não quer dizer, portanto, que os 600 soldados foram em busca do Senhor. É de supor que os judeus, que tinham a sua própria guarda do Templo — os chamados «servidores dos pontífices» —, tinham solicitado algum apoio da coorte. Judas interveio para indicar ao chefe da guarda o lugar e a pessoa que iam prender.

4-9. Só o quarto Evangelho recolhe este episódio acontecido antes da prisão, e que nos recorda aquelas palavras do Salmo: «Retrocederão os meus inimigos no dia em que eu clame» (Ps 56,10). Resplandece a majestade do Senhor que Se entrega voluntária e livremente. Isto, porém, não quer dizer que aqueles judeus fiquem isentos de culpa. Santo Agostinho comenta assim este passo: «Os perseguidores, que vinham com o traidor para prender Jesus, encon­traram O que buscavam e ouviram-No dizer Eu sou. Por que não O prenderam, mas retrocederam e caíram? Porque assim o quis quem podia fazer o que queria. Se não o tivesse permitido, nunca teriam realizado o intento de O pren­derem, mas também Ele não teria cumprido a Sua missão. Eles buscavam com ódio O que queriam matar; Jesus, pelo contrário, buscava-nos com amor querendo morrer. E assim, depois de manifestar o Seu poder àqueles que sem poderem fazê-lo queriam prendê-Lo, prendê-lo-ão e deste modo cum­prirá o Seu desejo por meio daqueles que o ignoravam» (In Ioann. Evang., 112,3).

Por outro lado, emociona contemplar Jesus com cuida­dos pelos Seus discípulos, quando era Ele quem corria perigo. Tinha prometido que nenhum dos Seus se perderia, excepto Judas Iscariotes (cfr Ioh 17,12; 6,39): ainda que aquela promessa se referisse antes a preservá-los da conde­nação eterna, o Senhor preocupa-Se aqui também da sorte imediata dos Seus discípulos, que ainda não estavam prepa­rados para enfrentar o martírio.

10-11. Uma vez mais se manifesta o temperamento impetuoso e a lealdade de Pedro que, com o risco da própria vida, defende o Mestre. Pedro, porém, não tinha compreen­dido ainda os planos salvíficos de Deus; continua a resistir à idéia do sacrifício de Cristo, como já o tinha feito no momento do primeiro anúncio da Paixão (Mt 16,21-22). Cristo não aceitou aquela defesa violenta. As Suas palavras aludem à oração no horto (cfr Mt 26,39), em que tinha aceitado livremente a Vontade do Pai, entregando-Se sem resistência para levar a cabo a Redenção pela Cruz.

Devemos acatar a Vontade de Deus com a docilidade e prontidão com que Jesus enfrenta a Paixão. «Gradação: resignar-se com a Vontade de Deus; conformar-se com a Vontade de Deus; querer á Vontade de Deus; amar a Vontade de Deus» (Caminho, n.° 774).

13-18. Jesus é levado a casa de Anás, que, embora já não fosse Sumo Pontífice, conservava uma grande influência religiosa e política no povo (cfr a nota a Lc 3,2). Os dois discípulos, Simão Pedro e outro, provavelmente o próprio João, estão desconcertados; não sabem que fazer e seguem-No de longe. A sua adesão e afecto a Jesus não eram ainda suficientemente sobrenaturais; à coragem e lealdade de antes sucede agora o desânimo. Esta situação desembocará na tripla negação de Pedro. O cristão, por mais nobres que sejam os seus sentimentos, também não terá a fortaleza para ser fiel às exigências da fé se não fundamentar a sua vida numa piedade profunda.

 

19.04.14 – Mt 28, 1-10

Ao romper da alva do primeiro dia da semana, depois do sábado, foram  Maria Madalena e a outra Maria ver o sepulcro.2 Senão quando sentiu-se um grande terramoto, porque um Anjo do Senhor desceu do Céu e, aproximando-se, rolou a pedra e sentou-se sobre ela. 3O seu aspecto era como o relâmpago, e o vestido branco como neve. 4Com medo dele, assombraram-se os guardas e ficaram como mortos. 5Mas o Anjo, dirigindo-se às mulheres, disse: Não tenhais medo, vós, pois sei que buscais a Jesus, o crucificado. 6Não está aqui, porque ressus­citou como tinha dito. Vinde ver o lugar onde jazia 7e depois ide depressa dizer aos discípulos: Ressuscitou dos mortos e vai adiante de vós para a Galileia. Lá O vereis. Eis que eu vo-lo disse.

8Elas saíram à pressa do sepulcro com medo e com grande alegria e correram a dar a notícia aos discípulos. 9E eis que Jesus lhes saiu ao encontro, dizendo: Deus vos salve. E elas aproximaram-se, abraçaram-se-Lhe aos pés e adoraram-No. 10Disse-lhes então Jesus: Não temais. Ide dar a notícia aos Meus irmãos, para que vão para a Galileia e lá Me verão.

Comentário

1-15. A Ressurreição de Jesus Cristo, realizada nas primeiras horas do domingo, é um facto que todos os Evangelhos afirmam de modo claro e rotundo: Umas santas mulheres comprovam com assombro que o sepulcro está aberto. Ao entrar no vestíbulo (cfr Mc 16, 5-6), veem um anjo que lhes diz: «Não está aqui, porque ressuscitou como tinha dito». Alguns guardas, os que estavam de vigia quando o anjo fez rodar a pedra, foram à cidade e comunicaram aos pontífices tudo o que tinha acontecido. Como o assunto era urgente, optaram por subornar os guardas: deram-lhes bastante dinheiro com a condição de divulgar que os Seus discípulos foram de noite e roubaram o corpo de Jesus! enquanto dormiam. «Astúcia miserável!, diz Santo Agostinho apresentas testemunhas adormecidas? Verdadeiramente estás, a dormir tu mesmo ao imaginar semelhante explicação!» (Enarrationes in Psalmos, 63, 1 5). Os Apóstolos que dias antes, tinham fugido por medo, serão agora, depois de O terem visto e de terem comido e bebido com Ele, os pregadores mais incansáveis deste facto. «Este Jesus — dirão — é quem Deus ressuscitou, do qual todos nós somos testemunhas» (Act 2,32).

Cristo, do mesmo modo que prediz a Sua subida a Jeru­salém, a Sua entrega nas mãos dos Judeus e a Sua morte, prediz a Sua Ressurreição ao terceiro dia (Mt 20, 17-19; Mc 10, 32-34; Lc 18, 31-34). Com a Ressurreição Jesus cumpre o sinal que sobre a Sua divindade tinha prometido dar aos incrédulos (Mt 12, 40).

A Ressurreição de Cristo é um dos dogmas fundamentais da nossa fé católica. Na verdade, São Paulo diz: «Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação; é também vã a vossa fé» (l Cor 15, 14). E para ratificar a afirmação de que Cristo ressuscitou diz-nos «que apareceu a Cefas, depois aos Doze. Depois apareceu uma vez a mais de quinhentos irmãos, dos quais muitos vivem ainda e alguns morreram; depois apareceu a Tiago; depois a todos os apóstolos; e depois de todos, como a um aborto, apareceu-me também a mim» (l Cor 15, 5-8). Já os primeiros Símbolos afirmam que Jesus ressuscitou ao terceiro dia (Símbolo de Niceia), pela sua própria virtude (Símbolo De Redemptione) , com uma verdadeira ressurreição da Sua carne (Símbolo de S. Leão IX), voltando a unir-Se a Sua alma com o Seu corpo (Eius exemplo), resultando este facto da ressurreição historicamente demonstrado e demonstrável (Lamentabili. n. 36).

«Pelo nome de Ressurreição não se deve entender unica­mente que Cristo ressuscitou de entre os mortos (…) mas que ressuscitou pela sua virtude e poder próprio, o que foi exclusivo e singular n’Ele (…); confirmou-o o próprio Senhor com o testemunho divino da Sua boca: ‘porque dou a Minha vida para a tomar de novo. Ninguém Ma tira mas Eu dou-a livremente. Tenho poder para a dar e tenho poder para a tomar de novo’ (Ioh 10, 17-18) (…). Igualmente disse aos Judeus, para confirmar a verdade da Sua doutrina: ‘Destruí este Templo e em três dias o levantarei… mas Ele falava do Templo do Seu corpo’ (Ioh 2, 19-21) (…). E embora leiamos alguma vez nas Escrituras que Cristo Nosso Senhor foi ressuscitado pelo Pai (cfr Act 2, 24; Rom 8, 11), isto deve ser-Lhe aplicado enquanto homem; assim como, por outra parte, se referem a Ele próprio enquanto Deus aqueles textos em que se diz que ressuscitou pela Sua própria virtude» (Catecismo Romano, 1,6, 8).

Não é uma volta ao seu anterior estado de vida terrestre, mas é Ressurreição gloriosa: isto é, plenitude de vida humana, imortal, libertado de todas as limitações de tempo e de espaço. Como consequência da Ressurreição o corpo de Cristo participa da glória que desde o princípio enchia a alma do Senhor. Aqui está a singularidade do facto histórico da Ressurreição, pelo que se constitui em objecto de fé. Nem todos podem vê-Lo, mas é uma graça que Ele concedeu a alguns, para que fossem as testemunhas dessa Ressurreição, e os outros creiam pelo testemunho deles.

A Ressurreição de Cristo foi necessária para que se completasse a obra da nossa Redenção. Porque Jesus Cristo com a Sua Morte livrou-nos dos pecados; mas com a Sua Ressurreição devolveu-nos os bens que tínhamos perdido pelo pecado e, além disso, abriu-nos as portas da vida eterna (cfr Rom 4, 25). Igualmente, o ter ressuscitado de entre os mortos pela Sua própria virtude é prova definitiva de que Cristo é o Filho de Deus e, portanto, a Sua Ressurreição confirma cumpridamente a nossa fé na Sua divindade.

A Ressurreição de Cristo, como foi indicado, é a verdade mais transcendente da nossa fé católica. Por isso Santo Agostinho exclama: «Não é grande coisa crer que Cristo morreu; porque isto também o creem os pagãos e judeus e todos os iníquos: todos crêem que morreu. A fé dos cristãos é a Ressurreição de Cristo; isto é o que temos por coisa grande; o crer que ressuscitou» (Enarrationes in Psalmos, 120).

O mistério redentor do Senhor, que compreende a Sua Morte e a Sua Ressurreição, aplica-se a todo o homem pelo Baptismo e pelos outros sacramentos, mediante os quais fica o crente como que submerso em Cristo e na Sua morte, isto é, misticamente compenetrado, morto e ressuscitado com Cristo: «Pois fomos sepultados juntamente com Ele por meio do Baptismo em ordem à morte, para que, assim como Cristo foi ressuscitado de entre os mortos para a glória do Pai, assim também nós caminhemos numa vida nova» (Rom 6,4).

Sinais da nossa ressurreição com Cristo são o desejo ardente de buscar as coisas de Deus e, além disso, o gosto interior da alma por elas (cfr Col 3, 1 -3)

 

20.04.14 – Lc 24, 13-35

13Ora, no mesmo dia, iam dois deles a caminho duma povoação, que dista cento e sessenta estádios de Jerusalém, chamada Emaús, 14e conversavam entre si sobre tudo o que havia acontecido.  15Enquanto eles conversavam e discutiam, acercou-Se o pró­prio Jesus e pôs-Se com eles a caminho. 16Os seus olhos, porém, estavam impedidos de O reconhecerem. 17Disse-lhes Ele: Que palavras são essas que trocais entre vós, a andar? Estacaram acabrunhados. 18E um deles, cha­mado Cléopas, disse-Lhe em resposta: Tu és o único forasteiro em Jerusalém a não saber o que lá se passou nestes dias! 19Disse-lhes Ele: Que foi? Eles retorquiram-Lhe: O que se refere a Jesus de Nazaré, que foi um profeta poderoso em obras e palavras, diante de Deus e de todo o povo; 20como O entregaram os Sumos Sacerdotes e os nossos chefes, para ser condenado à morte, e O fizeram crucificar. 21Nós esperávamos que Ele fosse o futuro Libertador de Israel. Mas, com tudo isto, lá vai o terceiro dia desde que se deram estas coisas. 22Certo é que algumas mulheres do nosso grupo nos sobressaltaram: indo de madrugada ao túmulo 23e, não Lhe achando o corpo, vieram dizer que tinham tido, além disso, a visão duns Anjos, que afirmavam que Ele vivia. 24Foram então alguns dos nossos companheiros ao túmulo e acharam as coisas como as mulheres haviam decla­rado; mas a Ele não O viram.

25Então, Ele disse-lhes: Ó homens sem compreensão e lentos de espírito em crer em tudo o que disseram os Profetas. 26Não tinha o Messias de sofrer essas coisas, para entrar na Sua glória? 27Depois, começando por Moisés e seguindo por todos os profetas, explicou-lhes em todas as Escrituras o que Lhe dizia respeito. 28Ao chegarem junto da povoação para onde iam, fez menção de seguir mais para a frente. 29Mas os outros fizeram pressão sobre Ele: Fica connosco — diziam — porque está a entardecer e o dia já declinou. Entrou, então, para ficar com eles. 30Quando Se pôs com eles à mesa, tomou o pão, pronunciou a bênção e depois de o partir, entregou-lho. 31Abriram-se-lhes os olhos e reconheceram-No; mas Ele desapa­receu da presença deles. 32Disseram então um para o outro: Não estava a arder cá dentro o nosso coração, quando Ele nos falava no caminho e nos desvendava as Escrituras? 33Partindo no mesmo instante, voltaram para Jerusalém e acharam reu­nidos os onze e os seus companheiros, 34que diziam: Realmente o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão. 35E eles puseram-se a contar o que se tinha passado no caminho e como Jesus Se lhes dera a conhecer ao partir do pão.

Comentário

13-35. Ao longo da conversa com Jesus os discípulos passam da tristeza à alegria, recuperam a esperança e com isso o afã de comunicar o gozo que há nos seus corações, tornando-se deste modo anunciadores e testemunhas de Cristo ressuscitado.

Esta é uma das cenas exclusivas de São Lucas, descrita com grande mestria literária. Apresenta-nos o zelo apostó­lico do Senhor. «Jesus caminha junto daqueles dois homens que perderam quase toda a esperança, de modo que a vida começa a parecer-lhes sem sentido. Compreende a sua dor, penetra nos seus corações, comunica-lhes algo da vida que Nele habita.

«Quando, ao chegar àquela aldeia, Jesus faz menção de seguir para diante, os dois discípulos retêm-No e quase O forçam a ficar com eles. Reconhecem-No depois ao partir o pão: — O Senhor, exclamam, esteve connosco! Então disseram um para o outro: Não é verdade que sentíamos abrasar-se-nos o coração dentro de nós, enquanto nos falava no caminho e nos explicava as Escrituras? (Lc 24, 32). Cada cristão deve tornar Cristo presente entre os homens; deve viver de tal maneira que todos com quem contacte sintam o bônus odor Christi (cfr 2Cor 11,15), o bom odor de Cristo, deve actuar de forma que, através das acções do discípulo, se possa descobrir o rosto do Mestre» (Cristo que passa, n° 105).

13-27. A conversa dos dois discípulos com Jesus a caminho de Emaús, resume perfeitamente a desilusão dos que tinham seguido o Senhor, diante do aparente fracasso que representava para eles a Sua morte. Nas palavras de Cléofas está recolhida a vida e a missão de Cristo f v. 19), a Sua Paixão e Morte (v. 20), o desalento destes discípulos ao cabo de três dias (v. 21), e os factos acontecidos na manhã do domingo (v. 22).

Já antes Jesus tinha dito aos Judeus: «Investigai as Escrituras, já que vós pensais ter nelas a vida eterna: elas são as que dão testemunho de Mim» (Ioh 5,39). Dá-nos assim um caminho seguro para O conhecermos. O Papa Paulo VI assi­nala que também hoje o uso frequente e a devoção à Sagrada Escritura é uma moção clara do Espírito Santo: «O progresso dos estudos bíblicos, a crescente difusão da Sagrada Escri­tura e, sobretudo, o exemplo da Tradição e a moção íntima do Espírito orientam os cristãos do nosso tempo a servir-se cada vez mais da Bíblia como do livro fundamental de oração, e a buscar nela inspiração genuína e modelos insuperáveis» (Marialis cultus, n 30).

Jesus, em resposta ao desalento dos discípulos, vai pacientemente descobrindo-lhes o sentido de toda a Sagrada Escritura acerca do Messias: «Não era preciso que o Cristo padecesse estas coisas e assim entrasse na Sua glória?». Com estas palavras o Senhor desfaz a ideia que ainda poderiam ter de um Messias terreno e político, fazendo-lhes ver que a missão de Cristo é sobrenatural: a Salvação do gênero humano.

Na Sagrada Escritura estava anunciado que o plano salvador de Deus se realizaria por meio da Paixão e Morte redentora do Messias. A Cruz não é um fracasso, mas o caminho querido por Deus para o triunfo definitivo de Cristo sobre o pecado e sobre a morte (cfr 1Cor 1,23-24). Muitos contemporâneos do Senhor não compreenderam a Sua missão sobrenatural por não terem interpretado correctamente os textos do AT. Ninguém como Jesus pode conhecer o verdadeiro sentido das Escrituras Santas. E, depois d’Ele, só a Igreja tem a missão e o ofício de as interpretar autentica­mente: «Com efeito, tudo quanto diz respeito à interpre­tação da Escritura, está sujeito ao juízo último da Igreja, que tem o divino mandato e o ministério de guardar e interpretar a palavra de Deus» (Dei Verbum, n 12).

28-35. A presença e a palavra do Mestre recupera estes discípulos desalentados, e acende neles uma esperança nova e definitiva: «Iam os dois discípulos para Emaús. O seu caminhar era normal, como o de tantas outras pessoas que transitavam por aquelas paragens. E aí, com naturalidade, aparece-lhes Jesus e vai com eles, com uma conversa que diminui a fadiga. Imagino a cena: já bem adiantada a tarde, sopra uma brisa suave; de um lado e de outro, campos semeados de trigo já crescido e as velhas oliveiras com os ramos prateados pela luz indecisa…

«Jesus, no caminho! Senhor, que grande és Tu sempre! Mas comoves-me quando Te rebaixas para nos acompanhares, para nos procurares na nossa lida diária. Senhor, concede-nos a ingenuidade de espírito, o olhar limpo, a mente clara, que permitem entender-Te, quando vens sem nenhum sinal externo da Tua glória!

«Termina o trajecto ao chegar à aldeia e aqueles dois que, sem o saberem, tinham sido feridos no fundo do coração pela palavra e pelo amor de Deus feito homem, têm pena de que Ele se vá embora. Porque Jesus despede-Se como quem vai para mais longe (Lc XXIV, 28). Nosso Senhor nunca Se impõe. Quer que O chamemos livremente, desde que entre­vimos a pureza do Amor que nos meteu na alma. Temos de O deter à força e pedir-Lhe: fica connosco, porque é tarde e já o dia está no ocaso (Lc XXIV,29), faz-se de noite.

«Somos assim: sempre pouco atrevidos, talvez por falta de sinceridade, talvez por pudor. No fundo pensamos: fica connosco, porque as trevas nos rodeiam a alma e só Tu és luz, só Tu podes acalmar esta ânsia que nos consome! Porque entre as coisas belas, honestas, não ignoramos qual é a primeira: possuir sempre Deus (São Gregório Nazianzeno, Epistulae, 212).

«E Jesus fica. Abrem-se os nossos olhos como os de Cléofas e do seu companheiro, quando Cristo parte o pão; e, mesmo que Ele volte a desaparecer da nossa vista, também seremos capazes de empreender de novo a marcha — anoitece — para falar d’Ele aos outros; porque tanta alegria não cabe num só coração…

«Caminho de Emaús… O nosso Deus encheu de doçura este nome. E Emaús é o mundo inteiro, porque o Senhor abriu os caminhos divinos da terra» (Amigos de Deus, nos 313-314).

30-31. Muitos Santos Padres viram nesta acção do Senhor uma consagração do pão como na Última Ceia. O modo peculiar com que abençoa e parte o pão fá-los ver que é Ele.

Na vida da Igreja a liturgia sempre teve uma grande importância como culto a Deus, como expressão da fé e como catequese eficaz das verdades reveladas. Por isso, os gestos externos — as cerimônias litúrgicas — hão-de ser observados com a maior fidelidade: «Regular a sagrada Liturgia compete unicamente à autoridade da Igreja, a qual reside na Sé Apostólica e, segundo as normas do direito, no Bispo (…). Por isso, ninguém mais, mesmo que seja sacerdote, ouse, por sua iniciativa, acrescentar, suprimir ou mudar seja o que for em matéria litúrgica» (Sacrosanctum Concilium, n 221)  Tem veneração e respeito pela santa Liturgia da Igreja e por cada uma das suas cerimônias. — Cumpre-as fielmente. — Não vês que nós, os pobrezitos dos homens, necessitamos que até as coisas mais nobres e grandes entrem pelos sentidos?» (Caminho, n° 522).

32. «Estas palavras dos discípulos de Emaús deviam sair espontaneamente dos lábios dos teus companheiros de profissão, depois de te encontrarem a ti no caminho da vida» (Caminho, n° 917).

33-35. Os discípulos de Emaús sentem agora a urgência de voltar a Jerusalém, onde os Apóstolos e alguns outros discípulos se encontram reunidos com Pedro, a quem Jesus apareceu.

Na História Sagrada, Jerusalém foi o lugar onde Deus quis ser louvado de modo particular, e ali os profetas exerceram o seu principal ministério. Por vontade divina Jesus Cristo padeceu, morreu e ressuscitou em Jerusalém, e a partir dali começará a estender-se o Reino de Deus (cfr Lc 24,47; Act 1,8). No Novo Testamento a Igreja de Cristo é denominada «a Jerusalém do alto» (Gal 4,26), «a Jerusalém celeste» (Heb 12,22), «a nova Jerusalém» (Apc 21,2).

Na Cidade Santa também começa a Igreja. Mais tarde São Pedro, não sem uma especial Providência divina, transfere-se para Roma que, deste modo, se converte no centro da Igreja. Como aqueles discípulos são confirmados na fé por São Pedro, os cristãos de todos os séculos acorrem à Sé de Pedro para confirmar a sua fé, e manter assim a unidade da Igreja: «Sem o Papa a Igreja Católica já não seria a Igreja Católica, e, faltando na Igreja de Cristo o ofício pastoral supremo, eficaz e decisivo de Pedro, a unidade desmoronar-se-ia, e em vão se intentaria reconstruí-la depois com critérios substitutivos daquele autêntico estabelecido pelo próprio Cristo (…). Queremos, além disso, considerar que esse gonzo central da Santa Igreja não pretende constituir uma supremacia de orgulho espiritual ou de domínio humano, mas um primado de serviço, de ministério e de amor. Não é vã retórica a que atribui ao Vigário de Cristo o título de servus servorum Dei» (Ecclesiam suam, n 83).

 

21.04.14 – Mt 28, 8-15

8Elas saíram à pressa do sepulcro com medo e com grande alegria e correram a dar a notícia aos discípulos. 9E eis que Jesus lhes saiu ao encontro, dizendo: Deus vos salve. E elas aproximaram-se, abraçaram-se-Lhe aos pés e adoraram-No. 10Disse-lhes então Jesus: Não temais. Ide dar a notícia aos Meus irmãos, para que vão para a Galileia e lá Me verão.

11Enquanto iam de caminho, alguns dos soldados vieram à cidade e contaram aos Príncipes dos sacerdotes tudo o que tinha acontecido. 12Reuniram-se eles em conselho com os Anciãos e deliberaram dar uma boa soma de dinheiro aos soldados, 13ordenan-do-lhes: Dizei: Vieram de noite os Seus discípulos e roubaram-No, enquanto nós estávamos a dormir. 14E se isto chegar aos ouvidos do governador, nós o convenceremos e vos tiraremos de cuidados. 15Eles, tendo recebido o dinheiro, fizeram como lhes tinham ensinado. E esta versão divulgou-se entre os Judeus até ao dia de hoje.

Comentário

1-15. A Ressurreição de Jesus Cristo, realizada nas primeiras horas do domingo, é um facto que todos os Evangelhos afirmam de modo claro e rotundo: Umas santas mulheres comprovam com assombro que o sepulcro está aberto. Ao entrar no vestíbulo (cfr Mc 16, 5-6), veem um anjo que lhes diz: «Não está aqui, porque ressuscitou como tinha dito». Alguns guardas, os que estavam de vigia quando o anjo fez rodar a pedra, foram à cidade e comunicaram aos pontífices tudo o que tinha acontecido. Como o assunto era urgente, optaram por subornar os guardas: deram-lhes bastante dinheiro com a condição de divulgar que os Seus discípulos foram de noite e roubaram o corpo de Jesus! enquanto dormiam. «Astúcia miserável!, diz Santo Agostinho apresentas testemunhas adormecidas? Verdadeiramente estás a dormir tu mesmo ao imaginar semelhante explicação!» (Enarrationes in Psalmos, 63, 1 5). Os Apóstolos que dias antes, tinham fugido por medo, serão agora, depois de O terem visto e de terem comido e bebido com Ele, os pregadores mais incansáveis deste facto. «Este Jesus — dirão — é quem Deus ressuscitou, do qual todos nós somos testemunhas» (Act 2,32).

Cristo, do mesmo modo que prediz a Sua subida a Jeru­salém, a Sua entrega nas mãos dos Judeus e a Sua morte, prediz a Sua Ressurreição ao terceiro dia (Mt 20, 17-19; Mc 10, 32-34; Lc 18, 31-34). Com a Ressurreição Jesus cumpre o sinal que sobre a Sua divindade tinha prometido dar aos incrédulos (Mt 12, 40).

A Ressurreição de Cristo é um dos dogmas fundamentais da nossa fé católica. Na verdade, São Paulo diz: «Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação; é também vã a vossa fé» (l Cor 15, 14). E para ratificar a afirmação de que Cristo ressuscitou diz-nos «que apareceu a Cefas, depois aos Doze. Depois apareceu uma vez a mais de quinhentos irmãos, dos quais muitos vivem ainda e alguns morreram; depois apareceu a Tiago; depois a todos os apóstolos; e depois de todos, como a um aborto, apareceu-me também a mim» (l Cor 15, 5-8). Já os primeiros Símbolos afirmam que Jesus ressuscitou ao terceiro dia (Símbolo de Niceia), pela sua própria virtude (Símbolo De Redemptione) , com uma verdadeira ressurreição da Sua carne (Símbolo de S. Leão IX), voltando a unir-Se a Sua alma com o Seu corpo (Eius exemplo), resultando este facto da ressurreição historicamente demonstrado e demonstrável (Lamentabili. n. 36).

«Pelo nome de Ressurreição não se deve entender unica­mente que Cristo ressuscitou de entre os mortos (…) mas que ressuscitou pela sua virtude e poder próprio, o que foi exclusivo e singular n’Ele (…); confirmou-o o próprio Senhor com o testemunho divino da Sua boca: ‘porque dou a Minha vida para a tomar de novo. Ninguém Ma tira mas Eu dou-a livremente. Tenho poder para a dar e tenho poder para a tomar de novo’ (Ioh 10, 17-18) (…). Igualmente disse aos Judeus, para confirmar a verdade da Sua doutrina: ‘Destruí este Templo e em três dias o levantarei… mas Ele falava do Templo do Seu corpo’ (Ioh 2, 19-21) (…). E embora leiamos alguma vez nas Escrituras que Cristo Nosso Senhor foi ressuscitado pelo Pai (cfr Act 2, 24; Rom 8, 11), isto deve ser-Lhe aplicado enquanto homem; assim como, por outra parte, se referem a Ele próprio enquanto Deus aqueles textos em que se diz que ressuscitou pela Sua própria virtude» (Catecismo Romano, 1,6, 8).

Não é uma volta ao seu anterior estado de vida terrestre, mas é Ressurreição gloriosa: isto é, plenitude de vida humana, imortal, libertado de todas as limitações de tempo e de espaço. Como consequência da Ressurreição o corpo de Cristo participa da glória que desde o princípio enchia a alma do Senhor. Aqui está a singularidade do facto histórico da Ressurreição, pelo que se constitui em objecto de fé. Nem todos podem vê-Lo, mas é uma graça que Ele concedeu a alguns, para que fossem as testemunhas dessa Ressurreição, e os outros creiam pelo testemunho deles.

A Ressurreição de Cristo foi necessária para que se completasse a obra da nossa Redenção. Porque Jesus Cristo com a Sua Morte livrou-nos dos pecados; mas com a Sua Ressurreição devolveu-nos os bens que tínhamos perdido pelo pecado e, além disso, abriu-nos as portas da vida eterna (cfr Rom 4, 25). Igualmente, o ter ressuscitado de entre os mortos pela Sua própria virtude é prova definitiva de que Cristo é o Filho de Deus e, portanto, a Sua Ressurreição confirma cumpridamente a nossa fé na Sua divindade.

A Ressurreição de Cristo, como foi indicado, é a verdade mais transcendente da nossa fé católica. Por isso Santo Agostinho exclama: «Não é grande coisa crer que Cristo morreu; porque isto também o crêem os pagãos e judeus e todos os iníquos: todos crêem que morreu. A fé dos cristãos é a Ressurreição de Cristo; isto é o que temos por coisa grande; o crer que ressuscitou» (Enarrationes in Psalmos, 120).

O mistério redentor do Senhor, que compreende a Sua Morte e a Sua Ressurreição, aplica-se a todo o homem pelo Baptismo e pelos outros sacramentos, mediante os quais fica o crente como que submerso em Cristo e na Sua morte, isto é, misticamente compenetrado, morto e ressuscitado com Cristo: «Pois fomos sepultados juntamente com Ele por meio do Baptismo em ordem à morte, para que, assim como Cristo foi ressuscitado de entre os mortos para a glória do Pai, assim também nós caminhemos numa vida nova» (Rom 6,4).

Sinais da nossa ressurreição com Cristo são o desejo ardente de buscar as coisas de Deus e, além disso, o gosto interior da alma por elas (cfr Col 3, 1 -3)

 

22.04.14 – Jo 20, 11-18

11Entretanto,  Maria estava cá fora a chorar, junto do túmulo. Enquanto chorava, debruçou-se para dentro do túmulo e viu dois Anjos vestidos de branco, sen­tados, um à cabeceira e outro aos pés, onde jazera o corpo de Jesus. 13Mulher, pergunta­ram-lhe eles, porque choras? Porque tira­ram o meu Senhor, lhes diz ela, e não sei onde O puseram.

14Dito isto, voltou-se para trás e viu Jesus ali de pé. Não sabia, porém, que era Jesus. Mulher, diz-lhe Jesus, porque choras? A quem procuras? Ela supondo que era o jardineiro, respondeu-Lhe: Senhor, se foste Tu que O levaste, diz-me onde O puseste, para eu O ir buscar. 16Maria! diz-lhe Jesus. Ela, voltando-se, diz-Lhe em hebraico: Rabbuni que quer dizer: «Mestre!» 17Não Me prendas, responde-lhe Jesus, que ainda não subi para o Pai; mas vai ter com Meus irmãos e diz-lhes que vou subir para Meu Pai e vosso Pai, Meu Deus e vosso Deus. 18Maria de Magdala parte, para ir anunciar aos discípulos: Vi o Senhor! ajuntando o que Este lhe havia dito.

Comentário

11-18. São comovedores o carinho e a delicadeza desta mulher preocupada pela sorte do Corpo morto de Jesus. Leal na Paixão, o amor da que esteve possessa por sete demônios (cfr Lc 8,2) continua a ser grande e inflamado. O Senhor tinha-a livrado do Maligno, e aquela graça frutificou em correspondência humilde e generosa.

Depois de consolar a Madalena, Jesus dá-lhe uma men­sagem para os Apóstolos, a quem chama com o apelativo entranhável de «irmãos». Tal mensagem supõe um Pai comum, ainda que seja de modo essencialmente diferente: «Vou subir para Meu Pai — por natureza — e vosso Pai» — que o é pela adopção que ganhei para vós com a Minha morte — . É grande a misericórdia e a compreensão de Jesus que, como Bom Pastor, cuida de recolher os discípulos que O tinham abandonado na Paixão e que estavam escondidos por medo aos judeus (Ioh 20.19).

O exemplo de Maria Madalena, que persevera na fide­lidade ao Senhor em momentos difíceis, ensina-nos que quem busca com sinceridade e constância a Jesus Cristo acaba por O encontrar. O gesto familiar de Jesus que chama «irmãos» aos Seus discípulos, apesar de O terem abando­nado, deve encher-nos de esperança no meio das nossas infidelidades.

15. O diálogo de Jesus com a Madalena reflecte o estado de ânimo de todos os discípulos, que não esperavam a Ressurreição do Senhor.

17. «Não Me prendas»: No texto original esta frase está construída em imperativo presente, que indica continuidade da acção que se realiza. A frase negativa do texto grego, reflectida na Neo-vulgata («noli me tenere»), indica que o Senhor manda à Madalena que deixe de O reter, que O solte, pois ainda terá ocasião de O ver antes da Ascensão aos céus.

 

23.04.14 – Lc 24, 13-35

13Ora, no mesmo dia, iam dois deles a caminho duma povoação, que dista cento e sessenta estádios de Jerusalém, chamada Emaús, 14e conversavam entre si sobre tudo o que havia acontecido.  15Enquanto eles conversavam e discutiam, acercou-Se o pró­prio Jesus e pôs-Se com eles a caminho. 16Os seus olhos, porém, estavam impedidos de O reconhecerem. 17Disse-lhes Ele: Que palavras são essas que trocais entre vós, a andar? Estacaram acabrunhados. 18E um deles, cha­mado Cléopas, disse-Lhe em resposta: Tu és o único forasteiro em Jerusalém a não saber o que lá se passou nestes dias! 19Disse-lhes Ele: Que foi? Eles retorquiram-Lhe: O que se refere a Jesus de Nazaré, que foi um profeta poderoso em obras e palavras, diante de Deus e de todo o povo; 20como O entregaram os Sumos Sacerdotes e os nossos chefes, para ser condenado à morte, e O fizeram crucificar. 21Nós esperávamos que Ele fosse o futuro Libertador de Israel. Mas, com tudo isto, lá vai o terceiro dia desde que se deram estas coisas. 22Certo é que algumas mulheres do nosso grupo nos sobressaltaram: indo de madrugada ao túmulo 23e, não Lhe achando o corpo, vieram dizer que tinham tido, além disso, a visão duns Anjos, que afirmavam que Ele vivia. 24Foram então alguns dos nossos companheiros ao túmulo e acharam as coisas como as mulheres haviam decla­rado; mas a Ele não O viram.

25Então, Ele disse-lhes: Ó homens sem compreensão e lentos de espírito em crer em tudo o que disseram os Profetas. 26Não tinha o Messias de sofrer essas coisas, para entrar na Sua glória? 27Depois, começando por Moisés e seguindo por todos os profetas, explicou-lhes em todas as Escrituras o que Lhe dizia respeito. 28Ao chegarem junto da povoação para onde iam, fez menção de seguir mais para a frente. 29Mas os outros fizeram pressão sobre Ele: Fica connosco — diziam — porque está a entardecer e o dia já declinou. Entrou, então, para ficar com eles. 30Quando Se pôs com eles à mesa, tomou o pão, pronunciou a bênção e depois de o partir, entregou-lho. 31Abriram-se-lhes os olhos e reconheceram-No; mas Ele desapa­receu da presença deles. 32Disseram então um para o outro: Não estava a arder cá dentro o nosso coração, quando Ele nos falava no caminho e nos desvendava as Escrituras? 33Partindo no mesmo instante, voltaram para Jerusalém e acharam reu­nidos os onze e os seus companheiros, 34que diziam: Realmente o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão. 35E eles puseram-se a contar o que se tinha passado no caminho e como Jesus Se lhes dera a conhecer ao partir do pão.

Comentário

13-35. Ao longo da conversa com Jesus os discípulos passam da tristeza à alegria, recuperam a esperança e com isso o afã de comunicar o gozo que há nos seus corações, tornando-se deste modo anunciadores e testemunhas de Cristo ressuscitado.

Esta é uma das cenas exclusivas de São Lucas, descrita com grande mestria literária. Apresenta-nos o zelo apostó­lico do Senhor. «Jesus caminha junto daqueles dois homens que perderam quase toda a esperança, de modo que a vida começa a parecer-lhes sem sentido. Compreende a sua dor, penetra nos seus corações, comunica-lhes algo da vida que Nele habita.

«Quando, ao chegar àquela aldeia, Jesus faz menção de seguir para diante, os dois discípulos retêm-No e quase O forçam a ficar com eles. Reconhecem-No depois ao partir o pão: — O Senhor, exclamam, esteve connosco! Então disseram um para o outro: Não é verdade que sentíamos abrasar-se-nos o coração dentro de nós, enquanto nos falava no caminho e nos explicava as Escrituras? (Lc 24, 32). Cada cristão deve tornar Cristo presente entre os homens; deve viver de tal maneira que todos com quem contacte sintam o bônus odor Christi (cfr 2Cor 11,15), o bom odor de Cristo, deve actuar de forma que, através das acções do discípulo, se possa descobrir o rosto do Mestre» (Cristo que passa, n° 105).

13-27. A conversa dos dois discípulos com Jesus a caminho de Emaús, resume perfeitamente a desilusão dos que tinham seguido o Senhor, diante do aparente fracasso que representava para eles a Sua morte. Nas palavras de Cléofas está recolhida a vida e a missão de Cristo f v. 19), a Sua Paixão e Morte (v. 20), o desalento destes discípulos ao cabo de três dias (v. 21), e os factos acontecidos na manhã do domingo (v. 22).

Já antes Jesus tinha dito aos Judeus: «Investigai as Escrituras, já que vós pensais ter nelas a vida eterna: elas são as que dão testemunho de Mim» (Ioh 5,39). Dá-nos assim um caminho seguro para O conhecermos. O Papa Paulo VI assi­nala que também hoje o uso frequente e a devoção à Sagrada Escritura é uma moção clara do Espírito Santo: «O progresso dos estudos bíblicos, a crescente difusão da Sagrada Escri­tura e, sobretudo, o exemplo da Tradição e a moção íntima do Espírito orientam os cristãos do nosso tempo a servir-se cada vez mais da Bíblia como do livro fundamental de oração, e a buscar nela inspiração genuína e modelos insuperáveis» (Marialis cultus, n 30).

Jesus, em resposta ao desalento dos discípulos, vai pacientemente descobrindo-lhes o sentido de toda a Sagrada Escritura acerca do Messias: «Não era preciso que o Cristo padecesse estas coisas e assim entrasse na Sua glória?». Com estas palavras o Senhor desfaz a ideia que ainda poderiam ter de um Messias terreno e político, fazendo-lhes ver que a missão de Cristo é sobrenatural: a Salvação do gênero humano.

Na Sagrada Escritura estava anunciado que o plano salvador de Deus se realizaria por meio da Paixão e Morte redentora do Messias. A Cruz não é um fracasso, mas o caminho querido por Deus para o triunfo definitivo de Cristo sobre o pecado e sobre a morte (cfr 1Cor 1,23-24). Muitos contemporâneos do Senhor não compreenderam a Sua missão sobrenatural por não terem interpretado correctamente os textos do AT. Ninguém como Jesus pode conhecer o verdadeiro sentido das Escrituras Santas. E, depois d’Ele, só a Igreja tem a missão e o ofício de as interpretar autentica­mente: «Com efeito, tudo quanto diz respeito à interpre­tação da Escritura, está sujeito ao juízo último da Igreja, que tem o divino mandato e o ministério de guardar e interpretar a palavra de Deus» (Dei Verbum, n 12).

28-35. A presença e a palavra do Mestre recupera estes discípulos desalentados, e acende neles uma esperança nova e definitiva: «Iam os dois discípulos para Emaús. O seu caminhar era normal, como o de tantas outras pessoas que transitavam por aquelas paragens. E aí, com naturalidade, aparece-lhes Jesus e vai com eles, com uma conversa que diminui a fadiga. Imagino a cena: já bem adiantada a tarde, sopra uma brisa suave; de um lado e de outro, campos semeados de trigo já crescido e as velhas oliveiras com os ramos prateados pela luz indecisa…

«Jesus, no caminho! Senhor, que grande és Tu sempre! Mas comoves-me quando Te rebaixas para nos acompanhares, para nos procurares na nossa lida diária. Senhor, concede-nos a ingenuidade de espírito, o olhar limpo, a mente clara, que permitem entender-Te, quando vens sem nenhum sinal externo da Tua glória!

«Termina o trajecto ao chegar à aldeia e aqueles dois que, sem o saberem, tinham sido feridos no fundo do coração pela palavra e pelo amor de Deus feito homem, têm pena de que Ele se vá embora. Porque Jesus despede-Se como quem vai para mais longe (Lc XXIV, 28). Nosso Senhor nunca Se impõe. Quer que O chamemos livremente, desde que entre­vimos a pureza do Amor que nos meteu na alma. Temos de O deter à força e pedir-Lhe: fica connosco, porque é tarde e já o dia está no ocaso (Lc XXIV,29), faz-se de noite.

«Somos assim: sempre pouco atrevidos, talvez por falta de sinceridade, talvez por pudor. No fundo pensamos: fica connosco, porque as trevas nos rodeiam a alma e só Tu és luz, só Tu podes acalmar esta ânsia que nos consome! Porque entre as coisas belas, honestas, não ignoramos qual é a primeira: possuir sempre Deus (São Gregório Nazianzeno, Epistulae, 212).

«E Jesus fica. Abrem-se os nossos olhos como os de Cléofas e do seu companheiro, quando Cristo parte o pão; e, mesmo que Ele volte a desaparecer da nossa vista, também seremos capazes de empreender de novo a marcha — anoitece — para falar d’Ele aos outros; porque tanta alegria não cabe num só coração…

«Caminho de Emaús… O nosso Deus encheu de doçura este nome. E Emaús é o mundo inteiro, porque o Senhor abriu os caminhos divinos da terra» (Amigos de Deus, nos 313-314).

30-31. Muitos Santos Padres viram nesta acção do Senhor uma consagração do pão como na Última Ceia. O modo peculiar com que abençoa e parte o pão fá-los ver que é Ele.

Na vida da Igreja a liturgia sempre teve uma grande importância como culto a Deus, como expressão da fé e como catequese eficaz das verdades reveladas. Por isso, os gestos externos — as cerimônias litúrgicas — hão-de ser observados com a maior fidelidade: «Regular a sagrada Liturgia compete unicamente à autoridade da Igreja, a qual reside na Sé Apostólica e, segundo as normas do direito, no Bispo (…). Por isso, ninguém mais, mesmo que seja sacerdote, ouse, por sua iniciativa, acrescentar, suprimir ou mudar seja o que for em matéria litúrgica» (Sacrosanctum Concilium, n 221)  Tem veneração e respeito pela santa Liturgia da Igreja e por cada uma das suas cerimônias. — Cumpre-as fielmente. — Não vês que nós, os pobrezitos dos homens, necessitamos que até as coisas mais nobres e grandes entrem pelos sentidos?» (Caminho, n° 522).

32. «Estas palavras dos discípulos de Emaús deviam sair espontaneamente dos lábios dos teus companheiros de profissão, depois de te encontrarem a ti no caminho da vida» (Caminho, n° 917).

33-35. Os discípulos de Emaús sentem agora a urgência de voltar a Jerusalém, onde os Apóstolos e alguns outros discípulos se encontram reunidos com Pedro, a quem Jesus apareceu.

Na História Sagrada, Jerusalém foi o lugar onde Deus quis ser louvado de modo particular, e ali os profetas exerceram o seu principal ministério. Por vontade divina Jesus Cristo padeceu, morreu e ressuscitou em Jerusalém, e a partir dali começará a estender-se o Reino de Deus (cfr Lc 24,47; Act 1,8). No Novo Testamento a Igreja de Cristo é denominada «a Jerusalém do alto» (Gal 4,26), «a Jerusalém celeste» (Heb 12,22), «a nova Jerusalém» (Apc 21,2).

Na Cidade Santa também começa a Igreja. Mais tarde São Pedro, não sem uma especial Providência divina, transfere-se para Roma que, deste modo, se converte no centro da Igreja. Como aqueles discípulos são confirmados na fé por São Pedro, os cristãos de todos os séculos acorrem à Sé de Pedro para confirmar a sua fé, e manter assim a unidade da Igreja: «Sem o Papa a Igreja Católica já não seria a Igreja Católica, e, faltando na Igreja de Cristo o ofício pastoral supremo, eficaz e decisivo de Pedro, a unidade desmoronar-se-ia, e em vão se intentaria reconstruí-la depois com critérios substitutivos daquele autêntico estabelecido pelo próprio Cristo (…). Queremos, além disso, considerar que esse gonzo central da Santa Igreja não pretende constituir uma supremacia de orgulho espiritual ou de domínio humano, mas um primado de serviço, de ministério e de amor. Não é vã retórica a que atribui ao Vigário de Cristo o título de servus servorum Dei» (Ecclesiam suam, n 83).

 

24.04.14 – Lc 24, 35-48

35E eles puseram-se a contar o que se tinha passado no caminho e como Jesus Se lhes dera a conhecer ao partir do pão.

36Enquanto diziam isto, apresentou-Se Ele próprio no meio deles e disse-lhes: A paz seja convosco. 37Eles ficaram aturdidos e cheios de medo, e julgavam estar a ver um espírito. 38Disse-lhes então: Porque estais perturbados e por que motivo surgem tais hesitações no vosso íntimo? 39Vede as Minhas mãos e os Meus pés; sou Eu mesmo. Palpai-Me e olhai que um espírito não tem carne nem ossos, como verificais que Eu tenho. 40E, dizendo isto, mostrou-lhes as mãos e os pés. 41Estando eles ainda sem querer acreditar, com a alegria, e cheios de pasmo, perguntou-lhes: Tendes aí alguma coisa que se coma? 42Eles passa­ram-Lhe uma posta de peixe assado. 43To-mando-a, pôs-Se a comer à vista deles.

44Depois disse-lhes: Foram estas as palavras que vos disse, quando ainda Me achava entre vós: «Tem de cumprir-se tudo o que está escrito a Meu respeito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos». 45Abriu-lhes então o entendimento, para compreenderem as Escrituras, 46e disse-lhes: Assim está es­crito que o Messias havia de sofrer e ressus­citar dos mortos ao terceiro dia 47e que se havia de pregar, em Seu nome, o arrepen­dimento e a remissão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém. 48Vós sois as testemunhas destas coisas!

Comentário

36-43. Esta aparição de Jesus ressuscitado é referida por São Lucas e São João (cfr Ioh 20,19-23). São João recolhe a instituição do sacramento da Penitência, ao mesmo tempo que São Lucas sublinha a dificuldade dos discípulos para aceitar o milagre da Ressurreição, apesar do testemunho dos anjos às mulheres (cfr Mt 28,5-7; Mc 16,5-7; Lc 24,4-11) e daqueles que já tinham visto o Senhor ressuscitado (cfr Mt 28,9-10; Mc 16,9-13; Lc 24,13 ss.; Ioh 20,11-18).

Jesus aparece-lhes de improviso, estando as portas fecha­das (cfr Ioh 20,19), o que explica a sua surpresa e a sua reacção. Santo Ambrósio comenta que «penetrou no recinto fechado não porque a sua natureza fosse incorpórea, mas porque tinha a qualidade de um corpo ressuscitado» (Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc.). Entre essas qualidades do corpo glorioso, a subtileza faz que «o corpo esteja totalmente submetido ao império da alma» (Catecismo Romano, I, 12,13), de modo que pode atravessar os obstáculos materiais sem nenhuma resistência.

A cena reveste-se de um encanto especial quando o Evan­gelista descreve os pormenores de condescendência divina para os confirmar na verdade da Sua Ressurreição.

41-43. Ainda que o corpo ressuscitado seja impassível e, por conseguinte, não necessite já de alimentos para se nutrir, o Senhor confirma os discípulos na verdade da Sua Ressurreição com estas duas provas: convidando-os a que O toquem e comendo na sua presença. «Eu, por minha parte, confessa Santo Inácio de Antioquia, sei muito bem e nisto ponho a minha fé que, depois da Sua Ressurreição, o Senhor permaneceu na Sua carne. E assim, quando Se apresentou a Pedro e aos seus companheiros, disse-lhes: Tocai-Me, palpai-Me e compreendei que não sou um espírito incorpóreo. E prontamente tocaram-No e acreditaram, ficando persua­didos da Sua carne e do Seu espírito (…). Mais ainda, depois da Sua Ressurreição comeu e bebeu com eles, como homem de carne que era, embora espiritualmente estivesse feito uma coisa com Seu Pai» (Carta aos de Esmirna, III, 1-3).

44-49. São Mateus insiste no cumprimento em Cristo das profecias do AT, porque os primeiros destinatários do seu Evangelho eram judeus, para quem isto constituía uma prova manifesta de que Jesus era o Messias prometido e esperado. São Lucas não utiliza habitualmente este argu­mento, porque escreve para os gentios; não obstante, neste epílogo recolhe sumariamente a advertência de Cristo que declara ter-se cumprido tudo o que estava predito acerca d’Ele. Sublinha-se assim a unidade dos dois Testamentos e que Jesus é verdadeiramente o Messias.

Por outro lado, São Lucas refere a promessa do Espírito Santo (cfr Ioh 14,16-17.26; 15,26; 16,7 ss.), cujo cumprimento no dia de Pentecostes narrará com pormenor no livro dos Actos(cfr Act 2,1-4).

46. São Lucas pôs em realce a falta de inteligência dos Apóstolos quando Jesus anuncia a Sua Morte e Ressurreição (cfr 9,45; 18,34). Agora, cumprida a profecia, recorda a necessidade de que Cristo padecesse e ressuscitasse de entre os mortos (cfr 24,25-27).

A Cruz é um mistério não só na vida de Cristo mas também na nossa: «Jesus sofre para cumprir a Vontade do Pai… E tu, que também queres cumprir a Santíssima Vontade de Deus, seguindo os passos do Mestre, poderás queixar-te se encontrares por companheiro de caminho o sofrimento?» (Caminho, n° 213).

 

25.04.14 – Jo 21, 1-14

Depois disso, voltou Jesus a manifestar-Se aos discípulos, à beira do mar de Tiberíade. Manifestou-Se deste modo: 2Estavam  Simão Pedro, Tome, a quem chamavam Dídimo, e Natanael, que era de Cana da Galileia, bem como os filhos de Zebedeu e mais dois dos Seus discípulos. 3Diz-lhes Simão Pedro: Vou pescar. Eles respondem-Lhe: Nós também vamos con­tigo. Saíram, pois, e subiram para o barco, mas naquela noite não apanharam nada. 4 Já ia a amanhecer quando Jesus Se apre­sentou na margem. Os discípulos, porém, não sabiam que era Ele. 5Diz-lhes então Jesus: Rapazes, tendes algum peixe que se coma? Não — responderam-Lhe. 6Ele retorquiu-lhes: Lançai a rede para o lado direito do barco e haveis de encontrar. Lançaram-na, pois, e já não a podiam arrastar, devido à grande quantidade de peixe. 7Diz então a Pedro aquele discípulo que Jesus amava: É o Senhor! Simão Pedro, ao ouvir dizer que era o Senhor, apertou o blusão à cintura, pois estava despido, e lançou-se ao mar. 8Entretanto, os outros discípulos, visto não estarem longe da terra senão uns duzentos côvados, vieram no barco, puxando a rede com peixes.

9Depois de virem para terra, vêem um monte de brasas no solo, com peixe em cima, e pão. 10Diz-lhes Jesus: Trazei dos peixes que apanhastes agora. 11Então Simão Pedro subiu ao barco e arrastou a rede para terra, cheia com cento e cin­qüenta e três grandes peixes. E, sendo tantos, não se rompeu a rede. 12Diz-lhes Jesus: Vinde almoçar. E nenhum dos dis­cípulos se atrevia a perguntar-Lhe: Tu quem és? por saberem que era o Senhor.

13Jesus aproxima-Se, toma o pão e dá-lho, o mesmo fazendo com o peixe. 14Com esta, era já a terceira vez que Jesus se mani­festava aos discípulos, depois de ressuscitar dos mortos.

Comentário

1-3. Há vários dados significativos nesta cena: os discípulos encontram-se «junto ao mar de Tiberíades». na Galileia. cumprindo assim o mandato de Jesus ressuscitado (cfr Mt 28,7); estão juntos porque os laços de fraternidade que os unem são muito fortes; Pedro toma a iniciativa manifestando de alguma maneira a sua autori­dade; por último, vemo-los dedicados de novo ao seu ofício de pescadores, provavelmente à espera de novas instruções do Senhor.

Ao ler este episódio vem-nos à memória a primeira pesca milagrosa (ctr Lc 5,1-11), em que o Senhor prometeu a Pedro fazê-lo pescador de homens; aqui vai confirmá-lo na sua missão de Cabeça visível da Igreja.

4-8. Jesus ressuscitado vai em busca dos Seus discípulos para os animar e continuar a explicar-lhes a grande missão que lhes confiou. O relato descreve uma cena íntima do Senhor com os Seus: «Passa ao lado dos Seus Apóstolos, junto daquelas almas que se Lhe entregaram… E eles não se dão conta disso! Quantas vezes está Cristo, não perto de nós, mas dentro de nós, e temos uma vida tão humana! (…). Recordam o que tinham ouvido tantas vezes dos lábios do Mestre: pescadores de homens, apóstolos!… E compreen­dem que tudo é possível, porque é Ele quem dirige a pesca.

«Então aquele discípulo que Jesus amava disse a Pedro: É o Senhor! O amor vê. E de longe. O amor é o primeiro a captar aquela delicadeza. O Apóstolo adolescente, com o firme carinho que sentia por Jesus, pois amava Cristo com toda a pureza e toda a ternura de um coração que nunca se corrompera, exclamou: É o Senhor!

«Simão Pedro, mal ouviu dizer que era o Senhor, cingiu a túnica e lançou-se ao mar. Pedro é a fé. E lança-se ao mar, com uma audácia maravilhosa. Com o amor de João e a fé de Pedro, aonde podemos nós chegar!?» (Amigos de Deus, n.º 265-266).

9-14. Fica reflectida a profunda impressão que deve ter causado aos Apóstolos esta aparição de Jesus Ressuscitado e a recordação íntima que dela guardava São João. Jesus manifesta depois da Ressurreição a mesma delicadeza que tinha tido durante a Sua vida pública. Usa os meios materiais — as brasas, o peixe, etc. —, que põem em realce o realismo da Sua presença e continuam a dar o tom familiar costumado na convivência com os discípulos.

Os Santos Padres e Doutores da Igreja comentaram com frequência este episódio em sentido místico: a barca é a Igreja cuja unidade está simbolizada pela rede que não se rompe, o mar é o mundo, Pedro na barca simboliza a suprema autoridade na Igreja, o número de peixes significa o número dos escolhidos (cfr Comentário sobre S. João, ad loc.).

 

26.04.14 – Mc 16, 9-15

9Tendo ressuscitado de manhãzinha, no Aparição primeiro dia da semana, apareceu primeiro? Maria Madalena, da qual tinha expulsado sete Demônios. 10Ela partiu a anunciar aos que tinham vivido com Ele e que estavam imersos em tristeza e pranto. 11Mas eles, ouvindo dizer que vivia e que ela O tinha visto, não acreditaram.

12Depois disto, manifestou-Se noutra forma a dois deles que iam de caminho, dirigindo-se  para o campo. 13E eles correram a anunciar aos outros, mas também lhes não deram crédito.

14Mais tarde, estando os onze à mesa, manifestou-Se-lhes e repreendeu-os da sua incredulidade e dureza de coração, porque não tinham dado crédito àqueles que O tinham visto ressuscitado dos mortos, 15e disse-lhes Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura.

Comentário

11-14. São Marcos realça a incredulidade dos discí­pulos e a sua dureza de entendimento para aceitar o facto da Ressurreição, ainda que Jesus o tenha predito (cfr Mc 8,31; 9,31; 10,34). Fica, pois, muito patente a atitude desconfiada dos discípulos, diante das primeiras aparições de Jesus ressuscitado. Esta resistência dos Apóstolos constitui para nós mais uma garantia da veracidade do facto da Ressur­reição de Jesus. Eles, que estavam destinados a ser teste­munhas directas e autorizadas do Ressuscitado, resistem a aceitar o conteúdo do que há-de ser o seu testemunho diante de todos os homens, até que não o comprovem de uma maneira imediata e palpável.

Não obstante, o Senhor dirá: «Bem-aventurados os que sem terem visto acreditaram» (Ioh 20,29). No caso dos Após­tolos era preciso que, além da fé em Cristo ressuscitado, tivessem uma clara evidência da Ressurreição, visto que tinham de ser as testemunhas oculares que anunciassem com especial conhecimento de causa esse facto irrefutável. Neste sentido comenta São Gregório Magno: «A razão de que os discípulos tardassem em crer na Ressurreição do Senhor, não foi tanto pela sua fraqueza como pela nossa futura firmeza na fé; pois a própria Ressurreição demonstrada com muitos argumentos aos que duvidavam, que outra coisa significa senão que a nossa fé se fortalece pela sua dúvida?» (In Evangelia homiliae, 16).

12. A aparição do Senhor a estes dois discípulos é relatada amplamente por São Lucas (cfr 24,13-35).

15. Este versículo contém o chamado mandato apostó­lico universal, que é paralelo ao de Mt 28,19-20 e ao de Lc 24,46-48. É um mandato imperativo de Cristo aos Seus Após­tolos para que preguem o Evangelho a todas as nações. Essa mesma missão apostólica incumbe, de modo especial, aos sucessores dos Apóstolos, que são os Bispos em comunhão com o Papa, sucessor de Pedro.

Não só eles, porém, mas toda «a Igreja nasceu para tornar todos os homens participantes da redenção salvadora e, por eles, ordenar efectivamente a Cristo o universo inteiro, dilatando pelo mundo o Seu Reino para glória de Deus Pai. Toda a actividade do Corpo místico que a este fim se oriente, chama-se apostolado. A Igreja exerce-o de diversas maneiras, por meio de todos os seus membros, já que a vocação cristã é também, por sua própria natureza, vocação ao apostolado. (…). Existe na Igreja diversidade de funções, mas unidade de missão. Aos Apóstolos e seus sucessores, confiou Cristo a missão de ensinar, santificar e governar em Seu nome e com o Seu poder. Mas os leigos, dado que são participantes do múnus sacerdotal, profético e real de Cristo, têm um papel próprio a desempenhar na missão do inteiro Povo de Deus, na Igreja e no mundo» (Apostolicam actuositatem, n. 2).

É verdade que Deus actua directamente na alma de cada pessoa por meio da Sua graça, mas, ao mesmo tempo, deve afirmar-se que é vontade de Cristo, expressa neste e noutros textos, que os homens sejam instrumento ou veículo de salvação para os outros homens.

Neste sentido também o Concilio Vaticano II ensina: «A todos os fiéis incumbe, portanto, o glorioso encargo de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens em toda a terra» (Ibid., n. 3).

 

27.04.14 – Jo 20, 19-31

19Na tarde deste dia, o primeiro da semana, estando, por medo dos Judeus, fechadas as portas no lugar onde se encon­travam os discípulos, veio Jesus colocar-Se no meio deles e disse-lhes: A paz seja convosco! 20Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos ficaram cheios de ale­gria, ao verem o Senhor. 21Jesus então dis­se-lhes de novo: A paz seja convosco! Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos mando a vós. 22Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo. 23Àqueles a quem perdoardes os pecados, ficar-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ficar-lhes-ão retidos.

24Ora Tome, um dos doze, a quem chama­vam Dídimo, não estava com eles quando veio Jesus. 25Diziam-lhe os outros discí­pulos: Vimos o Senhor! Ele, porém, respon­deu-lhes: Se não Lhe vir nas mãos a marca dos cravos, se não chegar com o dedo ao sítio dos ‘cravos e levar a mão ao Seu lado, não acreditarei.

26Oito dias depois, estavam os discípulos novamente lá dentro, e Tome com eles. Veio Jesus, com as portas fechadas, colocou-Se no meio deles e disse: A paz seja convosco! 27A seguir, disse a Tome: Chega aqui o teu dedo e vê as Minhas mãos, aproxima a tua mão e chega com ela ao Meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente. 28Respondeu-Lhe Tome, dizendo: Meu Senhor e meu Deus! 29Jesus replicou-lhe: Porque Me viste acreditaste? Felizes os que, sem terem visto, acreditam!

30Muitos outros milagres fez Jesus na pre­sença dos discípulos, os quais não estão escritos neste livro. 31 Estes, porém, estão escritos para que acrediteis que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, e para que, acre­ditando, tenhais a Vida em Seu nome.

Comentário

19-20. Jesus aparece aos Apóstolos na própria tarde do Domingo em que ressuscitou. Apresenta-Se no meio deles sem necessidade de abrir as portas, já que goza das quali­dades do corpo glorioso; mas para desfazer a possível im­pressão de que é só um espírito, mostra-lhes as mãos e o lado: não fica nenhuma dúvida de que é o próprio Jesus e de que verdadeiramente ressuscitou. Além disso, saúda-os por duas vezes com a fórmula usual entre os Judeus, com o acento entranhável que noutras ocasiões poria nessa sau­dação. Com essas palavras amigáveis ficavam dissipados o temor e a vergonha que teriam os Apóstolos por se terem comportado deslealmente durante a Paixão. Desta forma voltou a criar-se o ambiente de intimidade, em que Jesus lhes vai comunicar poderes transcendentes.

21. O Papa Leão XIII explicava como Cristo transferiu a Sua própria missão aos Apóstolos: «Que quis e que procurou ao fundar e conservar a Igreja? Isto: transmitir a mesma missão e o mesmo mandato que tinha recebido do Pai para que Ela os continue. Isto é claramente o que Se tinha proposto fazer e isto é o que fez: ‘Como o Pai Me enviou assim Eu vos envio’ (Ioh 20,21). ‘Como Tu Me enviaste ao mundo, assim os enviei Eu ao mundo’ (Ioh 17,18) (…). Momentos antes de retornar ao Céu envia os Apóstolos com o mesmo poder com que o Pai O tinha enviado; ordenou-lhes que estendessem e semeassem por todo o mundo a Sua doutrina (cfr Mt 28,18). Todos os que obedecerem aos Apóstolos salvar-se-ão; os que não lhes obedecerem perecerão (cfr Mc 16,16) (…). Por isso manda aceitar religiosamente e guardar santamente a doutrina dos Apóstolos como Sua: ‘Quem vos ouve a vós, ouve-Me a Mim; quem vos despreza a vós, des­preza-Me a Mim’ (Lc 10,16). Em conclusão, os Apóstolos são enviados por Jesus Cristo da mesma forma que Ele foi enviado pelo Pai» (Satis cognitum). Nesta missão os Bispos são sucessores dos Apóstolos: «Cristo, através dos mesmos Apóstolos, tornou participantes da sua consagração e missão os sucessores deles, os Bispos, cujo cargo ministerial, em grau subordinado, foi confiado aos presbíteros, para que, constituídos na Ordem do presbiterado, fossem cooperadores da Ordem do episcopado para o desempenho perfeito da missão apostólica confiada por Cristo» (Presbytemrorum ordinis, n. 2).

22-23. A Igreja compreendeu sempre — e assim o de­finiu — que Jesus Cristo com estas palavras conferiu aos Apóstolos o poder de perdoar os pecados, poder que se exerce no sacramento da Penitência. «O Senhor, principalmente então, instituiu o sacramento da Penitência, quando, ressus­citado de entre os mortos, soprou sobre os Seus discípulos dizendo: ‘Recebei o Espírito Santo…’. Por este facto tão insigne e por tão claras palavras, o sentir comum de todos os Padres entendeu sempre que foi comunicado aos Apóstolos e aos seus legítimos sucessores o poder de perdoar e reter os pecados para reconciliar os fiéis caídos em pecado depois do Baptismo» (De Paenitentia, cap. 1).

O sacramento da Penitência é a expressão mais sublime do amor e da misericórdia de Deus com os homens, como ensina Jesus na parábola do filho pródigo (cfr Lc 15,11-32). O Senhor espera sempre com os braços abertos que voltemos arrependidos, para nos perdoar e nos devolver a nossa digni­dade de filhos Seus.

Os Papas têm recomendado com insistência que nós, os cristãos, saibamos apreciar e aproveitemos com fruto este Sacramento: «Para progredir mais rapidamente no cami­nho da virtude, recomendamos vivamente o pio uso, intro­duzido pela Igreja sob a inspiração do Espírito Santo, da confissão freqüente, que aumenta o conhecimento próprio, desenvolve a humildade cristã, desarraiga os maus cos­tumes, combate a negligência e tibieza espiritual, purifica a consciência, fortifica a vontade, presta-se à direcção espiritual, e por virtude do mesmo sacramento aumenta a graça» (Mystici Corporis).

24-28. A dúvida do Apóstolo Tome leva o Senhor a dar-lhe uma prova especial da realidade do Seu corpo ressus­citado. Assim confirma, ao mesmo tempo, a fé daqueles que mais tarde haviam de crer n’Ele. «Será que pensais — comenta São Gregório Magno — que aconteceu por pura casualidade que estivesse ausente então aquele discípulo escolhido, que ao voltar ouvisse relatar a aparição, e que ao ouvir duvidasse, duvidando palpasse e palpando cresse? Não foi por casualidade, mas por disposição de Deus. A divina clemência actuou de modo admirável para que tocando o discípulo duvidador as feridas da carne no seu Mestre, sarasse em nós as feridas da incredulidade (…). Assim o discípulo, duvidando e palpando, converteu-se em teste­munha da verdadeira ressurreição» (In Evangelia homiliae, 26,7).

A resposta de Tome não é uma simples exclamação, é uma afirmação: um maravilhoso acto de fé na Divindade de Jesus Cristo: «Meu Senhor e meu Deus!». Estas palavras constituem uma jaculatória que repetiram com frequência os cristãos, especialmente como acto de fé na presença real de Jesus Cristo na Santíssima Eucaristia.

29. O mesmo São Gregório Magno explica estas palavras do Senhor: « São Paulo ao dizer que ‘a fé é o fundamento das coisas que se esperam e uma convicção das que não se vêem’ (Heb 11,1), torna evidente que a fé versa sobre as coisas que não se vêem, pois as que se veem já não são objecto da fé, mas da experiência. Ora bem, por que é dito a Tome quando viu e tocou: Porque viste, acreditaste? Porque uma coisa é o que se viu e outra o que se creu. É certo que o homem mortal não pode ver a divindade; portanto, ele viu o Homem e reconhe­ceu-O como Deus, dizendo: ‘Meu Senhor e meu Deus’. Em conclusão, vendo creu, porque contemplando atentamente este homem verdadeiro exclamou que era Deus, a quem não podia ver» (In Evangelia homiliae, 27,8).

Tomé, como todos os homens, necessitou da graça de Deus para crer, mas, além disso, recebeu uma prova singular; teria sido mais meritória a sua fé se tivesse aceitado o testemunho dos Apóstolos. As verdades reveladas transmitem-se normalmente pela palavra, pelo testemunho de outros homens que, enviados por Cristo e assistidos pelo Espírito Santo, pregam o depósito da fé (cfr Mc 16,15-16). «Por conseguinte a fé vem pela pregação e a pregação pela palavra de Cristo» (Rom 10,17). A pregação, pois, do Evangelho tem as garantias suficientes de credibilidade, e o homem ao aceitá-lo «oferece a Deus a homenagem total da sua inteligência e da sua vontade prestando voluntário assentimento à Sua revelação» (Dei Verbum, n. 5).

«Alegra-nos muito o que se segue: ‘Bem-aventurados os que sem ter visto creram’. Sentença na qual, sem dúvida, estamos assinalados nós, que confessamos com a alma o que não vimos na carne. Alude-se a nós, desde que vivamos de acordo com a fé; porque só crê de verdade aquele que pratica o que crê» (In Evangelia homiliae, 26,9).

30-31. Temos aqui como um primeiro epílogo ou con­clusão do Evangelho de São João. Segundo a opinião mais comum, o evangelista acrescentaria mais tarde o capítulo 21, onde narra acontecimentos tão importantes como a tríplice confissão de São Pedro, a sua confirmação no Primado e também a profecia do Senhor acerca da morte do discípulo amado. Aqui nestes vv 30-31 manifesta-se a fina­lidade que perseguia o autor inspirado ao escrever o seu Evangelho: que os homens creiam que Jesus é o Messias, o Cristo anunciado no Antigo Testamento pelos profetas, o Filho de Deus, e que, ao crer esta verdade salvadora, centro da Revelação, possam participar já aqui da vida eterna (cfr Ioh 1,12;2,23; 3,18; 14,13; 15,16; 16,23-26).

 

28.04.14 – Jo 3, 1-8

Havia, entre os Fariseus, um homem visita chamado Nicodemos, um dos principais dos Judeus. 2Veio ele ter com Jesus. e disse-Lhe: Rabi, sabemos que vieste da parte de Deus, como mestre, pois ninguém pode fazer esses milagres que Tu fazes, se Deus não estiver com ele. 3Respondeu-lhe Jesus: Em verdade, em verdade te digo: Quem não nascer de novo não pode ver o Reino de Deus. 4Disse-Lhe Nicodemos: Como pode um homem nascer, sendo velho? Po­derá entrar segunda vez no seio de sua mãe e renascer? 5Jesus retorquiu: Em verdade, em verdade te digo: Quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus. 6Aquilo que nasceu da carne é carne, e aquilo que nasceu do Espírito é espírito. 7Não te admires de Eu te haver dito: «Vós tendes de nascer de novo». 8O vento sopra onde quer, e tu ouves a sua voz, mas não sabes donde vem nem para onde vai. Assim é todo aquele que nasceu do Espírito.

Comentário

1-21. Nicodemos era membro do Sinédrio de Jerusalém (cfr Ioh 7,50). Devia ser também homem culto, provavelmente escriba ou doutor da Lei: Jesus dirigindo-Se a ele, chama-lhe mestre em Israel. Poderíamos qualificá-lo, portanto, como intelectual: é um homem que raciocina, que indaga, que busca a verdade como uma das tarefas fundamentais da sua vida. Fá-lo naturalmente, movendo-se dentro das proposições próprias da mentalidade judaica do seu tempo. Para entender as coisas divinas, porém, faz falta a humildade, não basta a razão. Cristo vai, em primeiro lugar, elevar Nicodemos ao plano dessa virtude; por isso Jesus não responde imediatamente às suas perguntas, mas faz-lhe ver quão longe está ainda da verdadeira sabedoria: «Tu és mestre em Israel e não o sabes?». Nicodemos deve reco­nhecer que, não obstante os seus estudos, é ainda ignorante nas coisas de Deus. Como comenta São Tomás de Aquino, «o Senhor não o repreende para o injuriar, mas porque con­fiava ainda na sua ciência; por isso quis, fazendo-o passar pela humilhação, convertê-lo em morada do Espírito Santo» (Comentário sobre S. João, ad loc.). Pelo desenvolvimento da conversa é evidente que Nicodemos deu esse passo de humil­dade, e colocou-se diante de Jesus como um discípulo diante do Mestre. Então o Senhor descobre-lhe os mistérios da fé. Nicodemos seria desde esse momento muito mais sábio que todos os seus colegas que não deram esse passo.

A ciência humana, por muito grande que seja, é minúscula diante das verdades — simplesmente enunciadas mas pro­fundíssimas — dos artigos da fé (cfr Eph 3,15-19; 1Cor 2;9). As verdades divinas devem ser recebidas com a simplicidade de uma criança (sem a qual não podemos entrar no Reino dos Céus), para depois serem meditadas durante toda a vida, e estudadas com a admiração do que sabe que a realidade divina sempre supera a nossa pobre inteligência.

1-2. Ao longo do diálogo íntimo daquela noite, Nico­demos mostra grande delicadeza: dirige-se a Jesus com respeito e chama-Lhe Rabbi, meu Mestre. Possivelmente tinha sido movido pelos milagres e pela pregação de Cristo, e tinha necessidade de saber. Diante do ensinamento do Senhor, a sua maneira de reflectir e de pensar é ainda pouco sobrenatural, mas é humanamente nobre. A sua visita de noite,« por temor dos judeus» (Ioh 19,39), é muito compreen­sível dada a sua condição de membro do Sinédrio; de todos os modos, arrisca-se e vai.

Quando os fariseus tentaram deter Jesus (Ioh 7,32), fra­cassando no seu propósito por causa da admiração do povo, Nicodemos opôs-se àquela maneira injusta de actuar, que condenava um homem antes de o julgar, e opôs-se com fortaleza de ânimo aos outros (Ioh7,50-53); também não teve medo, na hora mais difícil, de honrar o Corpo morto do Senhor (Ioh19,39).

3-8. A pergunta inicial de Nicodemos, que mostra ainda a sua dúvida acerca de Jesus (um profeta ou o Messias?), o Senhor responde-lhe de maneira inesperada: Nicodemos espe­rava que lhe falasse d’Ele, da Sua missão, e, pelo contrário, Jesus revela-lhe uma verdade assombrosa: há que nascer de novo. Trata-se de um nascimento espiritual pela água e pelo Espírito Santo: é um mundo novo que se abre diante dos olhos de Nicodemos.

As palavras do Senhor também constituem um horizonte sem limites para o progresso espiritual de qualquer alma cristã, que se deixa documente conduzir pela graça divina e pelos dons do Espírito Santo, infundidos no Baptismo e corroborados pelos Sacramentos; junto com a aber­tura da alma a Deus, o cristão deve igualmente afastar as apetências egoístas e as inclinações da soberba, para poder ir entendendo o que Deus lhe ensina no seu interior. «Por isso há-de desnudar-se a alma (…) do seu entender, saborear e sentir, para que arremessado tudo o que é dissimil e desconforme com Deus, venha a receber semelhança de Deus (…); e7assim se transforma em Deus. Porque, ainda que seja verdade que, como dissemos, Deus está sempre na alma dando e conservando nela o ser natural com a Sua assis­tência, todavia nem sempre lhe comunica o ser sobrenatural. Porque este não se comunica senão por amor e graça, na qual nem todas as almas estão; e ainda essas não estão em igual grau, porque umas (estão) em maior, outras em menor grau de amor. Donde Deus comunica-se mais àquela alma que está mais avantajada em amor, o que é ter mais con­forme a sua vontade com a de Deus. E a que totalmente a tem conforme e semelhante, totalmente está unida e transformada em Deus sobrenaturalmente» (Subida ao Monte Carmelo, liv. 2, cap. 5).

Jesus sublinha com força a nova condição do homem: já não se trata de nascer da carne, da linhagem de Abraão (cfr Ioh 1,13), mas de renascer por obra do Espírito Santo, por meio da água. O Senhor fala aqui pela primeira vez do Baptismo cristão, confirmando a profecia de João Baptista (cfr Mt 3,11; Ioh1,33): veio para instituir um Baptismo no Espírito Santo.

«Nicodemos — diz Santo Agostinho — não saboreava ainda nem este espírito nem esta vida (…). Não conhece outro nascimento senão o de Adão e Eva, e ignora o que se origina de Cristo e da Igreja. Só entende da paternidade que gera para a vida. Existem dois nascimentos; mas ele só tem notícia de um. Um é da terra e outro é do Céu; um da carne e outro do Espírito; um da mortalidade, outro da eternidade; um de homem e mulher, e outro de Cristo e da Igreja. Os dois são únicos. Nem um nem outro se podem repetir» (In Ioann. Evang., 11,6).

O Senhor fala dos efeitos maravilhosos que a força do Espírito Santo produz na alma do baptizado. Assim como quando sopra o vento nos damos conta da sua presença, ouvimos o seu silvo mas não sabemos donde surgiu nem onde terminará, assim sucede também com o Espírito Santo, que é «sopro» (pneuma) divino, e que nos é dado no novo nascimento do Baptismo: não se sabe por que caminho o Espírito penetra, no coração, mas dá a conhecer a Sua presença pela mudança no comportamento do que O recebe.

 

29.04.14 – Jo 3, 7b-15

«Vós tendes de nascer de novo». 8O vento sopra onde quer, e tu ouves a sua voz, mas não sabes donde vem nem para onde vai. Assim é todo aquele que nasceu do Espírito. 9Nicodemos interveio, para Lhe dizer: Como pode ser isso? 10Respondeu-lhe Jesus, di­zendo: Tu és mestre em Israel e não o sabes?! 11Em verdade, em verdade te digo: Nós fa­lamos do que sabemos e damos testemunho do que vimos, mas vós não recebeis o Nosso testemunho. 12Se vos disse coisas da Terra e as não acreditais, como haveis de acreditar, se vos disser coisas do Céu? 13Ninguém subiu ao Céu, a não ser Aquele que do Céu desceu, o Filho do homem. 14Do mesmo modo que Moisés elevou a serpente no deserto, assim tem de ser elevado o Filho do homem, 15para que todo aquele que acredita tenha, por Ele, a vida eterna.

Comentário

10-12. Ante a perplexidade de Nicodemos, Jesus ratifica o valor das Suas palavras, e explica-lhe que fala das coisas do Céu porque procede do Céu, e para Se fazer compreender usa comparações e imagens terrenas. Não obstante, esta lin­guagem não é suficiente para aqueles que adoptam uma posição de incredulidade.

Comenta o Crisóstomo: «Com razão Cristo não disse: não compreendeis, mas: não credes. Porque se alguém não quer admitir aquilo que se pode perceber com a mente, este seria acusado com razão de estupidez; contudo, se alguém não admite aquilo que não se percebe com a mente mas com a fé, este já não pecapor estupidez, mas por incredulidade» (Hom. sobre S. João, 27,1).

13. Afirmação solene da divindade de Jesus. Ninguém sobe ao Céu e, portanto, ninguém pode conhecer perfeita­mente os segredos de Deus, senão o próprio Deus que en­carnou e desceu do Céu: Jesus, segunda Pessoa da Santíssima Trindade, o Filho do Homem profetizado no Antigo Testa­mento (cfr Dn 7,13), ao qual foi concedido senhorio eterno sobre todos os povos, nações e línguas.

Ao encarnar o Verbo não deixa de ser Deus. E assim, ainda que esteja na terra enquanto homem, nem por isso deixa de estar no Céu enquanto Deus. Só depois da Ressur­reição e da Ascensão, Jesus Cristo está no Céu também enquanto homem.

14-15. A serpente de bronze, alçada por Moisés num mastro, era o remédio indicado por Deus para curar aqueles que eram mordidos pelas serpentes venenosas do deserto (cfr Num 21,8-9). Jesus Cristo compara este facto com a Sua Crucifixão, para explicar assim o valor da Sua exaltação na Cruz, que é salvação para todos os que O fixem com fé. Neste sentido podemos dizer que no bom ladrão se cumpre já o poder salvífico de Cristo na Cruz: esse homem descobriu no Crucificado o Rei de Israel, o Messias, que imediatamente lhe promete o Paraíso para aquele mesmo dia (cfr Lc 23,39-43).

O Filho de Deus tomou a nossa natureza humana para dar a conhecer os mistérios ocultos da vida divina (cfr Mc 4,11; Ioh 1,18; 3,1-13; Eph 3,9) e para livrar do pecado e da morte aqueles que O fixem com fé e amor (cfr Ioh 19,37; Gal 3,1) e aceitem a cruz de cada dia.

A fé de que nos fala o Senhor não se reduz simplesmente à aceitação intelectual das verdades que Ele nos ensinou, mas inclui reconhecê-Lo como Filho de Deus (cfr 1Ioh 5,1), parti­cipar da Sua própria Vida (cfr Ioh 1,12), e entregarmo-nos por amor, tornando-nos assim semelhantes a Ele (cfr Ioh 10,27; 1Ioh3,2). Mas esta fé constitui um dom de Deus (cfr Ioh 3,3.5-8), a quem devemos pedir que a fortaleça e acres­cente, como fizeram os Apóstolos: Senhor, «aumenta-nos a fé» (Lc 17,5). Sendo a fé um dom divino, sobrenatural e gratuito, é, ao mesmo tempo, uma virtude, um hábito bom, susceptível de ser exercitado pessoalmente e, portanto, robustecido através desse exercício. Daí que o cristão, que já possui o dom divino da fé, ajudado pela graça deva fazer actos explícitos de fé para que esta virtude cresça nele.

 

30.04.14 – Jo 3, 16-21

16De facto, Deus amou de tal maneira o mundo que deu o Seu Filho único, para que todo o que n’Ele acredita náo pereça, mas tenha a vida eterna. 17É que Deus não enviou o Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para o mundo ser salvo por Seu inter­médio. 18Quem n’Ele acredita não é conde­nado; mas quem não acredita já está conde­nado, porque não acreditou no nome do Filho único de Deus. 19É esta a causa da con­denação: veio a Luz ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a Luz, pois eram más as suas obras. 20E que todo aquele que pratica más acções odeia a Luz e não se aproxima da Luz, para não serem postas a descoberto as suas obras. 21Quem pratica a verdade aproxima-se da Luz, para se tornar bem claro que as suas obras estão realizadas em Deus.

Comentário

16-21. Com estas palavras carregadas de sentido sinte­tiza-se como a Morte de Jesus Cristo é a manifestação suprema do amor de Deus pelos homens (cfr Introdução ao Evangelho segundo São João, parágrafo sobre A caridade, pp 1101-1105). «De tal maneira Deus amou o mundo que lhe en­tregou Seu Filho Unigênito para a sua salvação. Toda a nossa religião é uma revelação da bondade, da misericórdia, do amor de Deus por nós. ‘Deus é amor’ (cfr 1Ioh4,16), isto é, amor que se difunde e se prodigaliza; e tudo se resume nesta grande verdade que tudo explica e tudo ilumina. É necessário ver a história de Jesus a esta luz. ‘Ele amou-me’, escreve São Paulo, e cada um de nós pode e deve repeti-lo a si mesmo: Ele amou-me, e sacrificou-Se por mim (Gal 2,20)» (Homília do Corpus Christi).

A entrega de Cristo constitui o chamamento mais pre­mente a corresponder ao Seu grande amor: «Se Deus nos criou, se nos redimiu, se nos ama ao ponto de entregar por nós o Seu Filho Unigênito (Ioh III, 16), se nos espera — todos os dias! — como aquele pai da parábola esperava o filho pródigo (cfr Lc XV, 11-32). como não há-de desejar que O tratemos com amor? O que seria estranho era não falar com Deus, afastar-se d’Ele, esquecê-Lo, dedicar-se a actividades estranhas a esses toques ininterruptos da graça» (Amigos de Deus, n° 251).

«O homem não pode viver sem amor. Ele permanece para si próprio um ser incompreensível e a sua vida é destituída de sentido, se não lhe for revelado o amor, se ele não se encontra com o amor, se o não experimenta e se o não torna algo seu próprio, se nele não participa vivamente. E por isto precisamente Cristo Redentor (…) revela plena­mente o homem ao próprio homem. Esta é — se assim é lícito exprimir-se — a dimensão humana do mistério da Redenção. Nesta dimensão o homem reencontra a grandeza, a dignidade e o valor próprios da sua humanidade (…). O homem que quiser compreender-se a si mesmo profun­damente (…) deve, com a sua inquietude, incerteza e também fraqueza e pecaminosidade, com a sua vida e com a sua morte, aproximar-se de Cristo. Ele deve, por assim dizer, entrar n’Ele com tudo o que é em si mesmo, deve ‘apro­priar-se’ e assimilar toda a realidade da Encarnação e da Redenção, para se encontrar a si mesmo. Se no homem se actuar este processo profundo, então ele produz frutos, não somente de adoração de Deus, mas também de profunda maravilha perante si próprio. Que grande valor deve ter o homem aos olhos do Criador, se ‘mereceu ter um tal e tão grande Redentor’ (Missal Romano, Hino Exultei da Vigília Pascal), se ‘Deus deu o Seu Filho’, para que ele, o homem, ‘não pereça, mas tenha a vida eterna’.

«(…) A Igreja, que não cessa de contemplar o conjunto do mistério de Cristo, sabe com toda a certeza da fé, que a Redenção que se verificou por meio da Cruz, restituiu defini­tivamente ao homem a dignidade e o sentido da sua existência no mundo, sentido que ele havia perdido em consi­derável medida por causa do pecado. E por isso a Redenção realizou-se no mistério pascal, que, através da cruz e da morte, conduz à ressurreição» (Redemptor hominis, n. 10). Jesus Cristo exige como primeiro requisito para parti­cipar do Seu amor a fé n’Ele. Com ela passamos das trevas para a luz e entramos em caminho de salvação. «Quem não acredita já está condenado» (v. 18). «As palavras de Cristo são, ao mesmo tempo, palavras de juízo e de graça, de morte e de vida. É que só infligindo a morte ao que é velho podemos ter acesso à novidade de vida: e isto, que vale, em primeiro lugar, das pessoas, vale também dos diversos bens deste mundo que estão marcados tanto pelo pecado do homem como pela bênção de Deus (…). Por si mesmo e pelas próprias forças não há ninguém que se liberte do pecado e se eleve acima de si mesmo, ninguém absolutamente que se liberte a si mesmo da sua enfermidade, da sua solidão ou da sua escravidão, mas todos precisam de Cristo como modelo, mestre, libertador, salvador, vivificador. De facto, na história humana, mesmo sob o ponto de vista temporal, o Evangelho foi um fermento de liberdade e de progresso e apresenta-se sempre como fermento de fraternidade, de unidade e de paz» (Ad gentes, n. 8).