Evangelho do dia – mês de setembro de 2016

Setembro de 2016

01.09.2016 –Lc5, 1-11

1Uma vez em que a multidão se apertava em torno de Jesus, a ouvir a palavra de Deus, e Ele mesmo de pé junto ao lago de Genesaré, 2viu dois barcos estacionados no lago. Os pescadores, que deles se haviam retirado, lavavam as redes. 3Depois de subir para um dos barcos, que era de Simão, pediu-lhe que se afastasse um pouco da terra para o largo; e, sentando-Se, pôs-Se a ensinar do barco as multidões.

4Quando cessou de falar, disse a Simão: Faz-te ao largo; e vós, largai as redes para a pesca. 5Disse-Lhe Simão, em resposta: Mestre, moirejámos toda a noite e nada apanhamos; todavia, porque o dizes, largarei as redes. 6E, depois de o terem feito, apanharam grande quantidade de peixe. 7Ora as redes estavam a romper-se, e eles fizeram sinal aos companheiros que se encontravam no outro barco, para os virem ajudar. Estes vieram; e encheram ambos os barcos, a ponto de se irem afundando. 8Ao ver isso, Simão Pedro lançou-se aos pés de Jesus, dizendo: Afasta-Te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador. 9De facto, enchera-se de espanto, ele e todos os que com ele estavam, por causa da pesca que tinham feito, 10o mesmo sucedendo a Tiago e a João, filhos de Zebedeu, que eram companheiros de Simão. Disse Jesus a Simão: Não tenhas receio; doravante ficarás a apanhar homens. 11E eles, depois de reconduzirem os barcos para terra, deixaram tudo e seguiram-No.

Comentário

  1. “Tal como hoje! Não estais a ver? Estão desejando ouvir a mensagem de Deus, embora o dissimulem exteriormente. Talvez alguns se tenham esquecido da doutrina de Cristo; talvez outros, sem culpa sua, nunca a tenham aprendido e olhem para a religião como coisa estranha… Mas convencei-vos de uma realidade sempre actual: chega sempre um momento em que a alma não pode mais; em que não lhe bastam as explicações vulgares; em que não a satisfazem as mentiras dos falsos profetas. E, mesmo que nem então o admitam, essas pessoas sentem fome, desejam saciar a sua inquietação com os ensinamentos do Senhor” (Amigos de Deus, n° 260).
  2. Os Santos Padres viram nesta barca de Pedro, a que o Senhor sobe, uma imagem da Igreja peregrina nesta terra. “Esta é aquela barca que segundo São Mateus ainda se afunda, e segundo São Lucas se enche de peixes. Reconhecei assim os princípios dificultosos da Igreja e a sua posterior fecundidade” (ExpositioEvangelii sec. Lucam, ad loc.). Cristo sobe para a barca para ensinar dali as multidões. De igual modo continua a ensinar da Igreja – a barca de Pedro – todas as gentes.

Cada um de nós pode ver-se representado nesta barca a que Cristo sobe. Externamente pode não mudar nada: “Que mudança há então? Há mudança na alma, porque nela entrou Cristo, tal como entrou na barca de Pedro. Abrem-se amplos horizontes, maior ambição de servir e um desejo irreprimível de anunciar a todas as criaturas as magnalia Dei (Act 2, 11), as coisas maravilhosas que o Senhor faz, se lho permitimos” (Amigos de Deus, n° 265).

  1. “Quando acabou a Sua catequese, ordenou a Simão: Faz-te mais ao largo e lançai as vossas redes para pescar; é Cristo o dono da barca; é Ele quem prepara para a faina. Para isso é que veio ao mundo: para tratar de que os seus irmãos descubram o caminho da glória e do amor do Pai” (Amigos de Deus, n° 260). Para levar a cabo esta tarefa, o Senhor ordena a todos que lancem as redes, mas somente a Pedro que dirija a barca mar adentro.

Todo este passo faz referência, em certo modo, à vida da Igreja. Nela o Romano Pontífice, sucessor de Pedro, “é vigário de Jesus Cristo porque O representa na terra e faz as Suas vezes no governo da Igreja” (Catecismo Maior, n° 195). Cristo dirige-se também a cada um de nós para que nos sintamos urgidos a um trabalho apostólico audaz: “‘Duc in altum’ – Ao largo! – Repele o pessimismo que te torna cobarde. ‘Etlaxateretiavestra in capturam’ – e lança as redes para pescar. Não vês que podes dizer, como Pedro: ‘in nomine tuo, laxaborete’- Jesus, em Teu nome, procurarei almas?” (Caminho, n° 792).

“Se cedesses à tentação de perguntar a ti mesmo: quem me manda a mim meter-me nisto?, teria de responder-te: manda-to, pede-to o próprio Cristo. A messe é grande e os operários são poucos. Rogai, pois, ao Senhor da messe que mande operários para a sua messe (Mt IX, 37-38). Não digas, comodamente: eu para isto não sirvo; para isto já há outros. Se tu pudesses falar assim, todos podiam dizer a mesma coisa.

O pedido de Cristo dirige-se a todos e a cada um dos cristãos. Ninguém está dispensado: nem por razões de idade, nem de saúde, nem de ocupação. Não há desculpas de nenhum género. Ou produzimos frutos de apostolado ou a nossa fé será estéril” (Amigos de Deus, n° 272).

  1. Perante a ordem de Cristo, Simão expõe as suas dificuldades. “A resposta de Simão parece razoável. Costumavam pescar de noite, e precisamente aquela noite tinha sido infrutífera. Para que haviam de pescar de dia? Mas Pedro tem fé: Porém, sobre a Tua palavra, lançarei a rede. Resolve proceder como Cristo lhe sugeriu; compromete-se a trabalhar, fiado na Palavra do Senhor” (Amigos de Deus, n°261).
  2. O desejo de Pedro não é que Cristo Se afaste dele, mas, por causa dos seus pecados, declara-se indigno de estar próximo do Senhor. O que disse Pedro recorda a atitude do Centurião que se confessa indigno de que Jesus entre na sua casa (Mt 8,8). A Igreja manda os seus filhos repetir estas mesmas palavras do Centurião antes de receberem a Santíssima Eucaristia. Como também indica a conveniência de manifestar externamente a reverência devida ao Sacramento no acto de comungar: Pedro ensina-nos com o seu gesto, ao prostrar-se diante do Senhor, que também os sentimentos internos de adoração a Deus se devem manifestar exteriormente.
  3. A perfeição não consiste em deixar simplesmente todas as coisas, mas em deixá-las para seguir a Cristo. Isto é o que fizeram os Apóstolos: abandonam tudo para estarem disponíveis perante as exigências da vocação divina.

Devemos fomentar no nosso coração esta disponibilidade porque “Jesus não Se satisfaz ‘compartilhando’; quer tudo” (Caminho, n° 155).

Se falta a entrega generosa encontraremos muitas dificuldades para seguir a Jesus Cristo: “Desprende-te das criaturas até ficares despido delas. Porque – diz o Papa São Gregório – o demónio nada tem de seu neste mundo, e acode nu à contenda. Se vais, vestido, lutar com ele, em breve cairás por terra. Porque terá por onde apanhar-te” (Caminho, n° 149).

02.09.2016 –Lc5, 33-39

33Disseram-Lhe eles: Os discípulos de João jejuam muita vez e recitam orações; o jejum mesmo fazem também os dos Fariseus. Os Teus, porém, comem e bebem! 34Mas Jesus respondeu-lhes: Podeis vós fazer jejuar os companheiros do noivo, enquanto o noivo está com eles? 35Lá virão dias!… e, quando o noivo lhes for tirado, então, nesses dias, hão-de jejuar. 36Disse-lhes também uma parábola: Ninguém recorta um remendo de vestido novo para o deitar em vestido velho. Aliás, não só rasga o novo, mas também não se ajustará ao velho o remendo que vem do novo. 37Nem ninguém deita vinho novo em odres velhos. Aliás, o vinho novo romperá os odres, derramar-se-á, e os odres ficarão estragados. 38Mas deve deitar-se vinho novo em odres novos. 39E ninguém que bebeu do velho quer do novo, pois diz: «Ó velho é que é bom!»

Comentário

33-35. No Antigo Testamento estavam prescritos por Deus alguns dias de jejum; o mais assinalado era o «dia da expiação» (Num 29,7; Act 27,9). Por jejum costuma enten­der-se a abstenção, total ou parcial, de comida ou de bebida, e assim o entendiam também os Judeus. Moisés e Elias tinham jejuado (Ex 34,28; 1Reg 19,8), e o próprio Senhor jejuaria no deserto durante quarenta dias, antes de começar o Seu ministério público. No passo que comentamos, Jesus Cristo dá também um sentido mais profundo do jejum: a privação da Sua presença física, que os Apóstolos sofrerão depois da morte. O Senhor ia preparando os discípulos durante a Sua vida pública para a separação definitiva. Ao começo os Apóstolos não eram ainda fortes, e era mais conveniente que fossem consolados com a presença corporal de Cristo do que exercitados com a austeridade do jejum. Também os cristãos devem privar-se por vezes do ali­mento: «Jejuar e abster-se de comer carne quando o manda a Santa Madre Igreja» (Catecismo Maior, n° 495). Este é o objecto do quarto mandamento da Igreja. Mas, além disso, num sentido mais profundo, como diz São Leão Magno: «O mérito dos nossos jejuns não consiste somente na absti­nência dos alimentos; de nada serve tirar ao corpo a sua nutrição se a alma não se afasta da iniquidade e se a língua não deixa de falar mal» (Sermo IV in Quadragesima).

03.09.2016 –Lc6, 1-5

Passando Jesus, a um sábado, através dumas searas, puseram-se os Seus discípulos a arrancar e a comer espigas, esfre­gando-as com as mãos. 2Disseram alguns dos Fariseus: Porque fazeis o que não é permitido fazer ao sábado? 3Disse-lhes Jesus, em resposta: Nem sequer lestes o que fez David, quando teve fome, ele e os que estavam com ele? 4Como entrou na casa de Deus e, tomando os pães da proposição, deles comeu e deu aos companheiros, esses pães que só aos sacerdotes é permitido comer? 5E foi-lhes dizendo: O Filho do homem é senhor até do sábado.

Comentário

1-5. Diante da acusação dos fariseus, Jesus explica o sentido correcto do descanso sabático, invocando um exemplo do Antigo Testamento. Além disso, ao declarar-Se «Senhor do sábado» manifesta abertamente que Ele é o próprio Deus que deu o preceito ao povo de Israel. Para uma explicação mais ampla, vejam-se as notas a Mt 12,2 e 12,3-8.

04.09.2016 –Lc 14, 25-33

25Caminhavam com Jesus grandes multidões. Ele voltou-Se e disse-lhes: 26Se alguém vem ter comigo sem odiar pai, mãe, esposa, filhos, irmãos, irmãs e até a própria vida, não pode ser Meu discípulo. 27Quem não carrega com a sua cruz para vir após Mim não pode ser Meu discípulo.

28Pois, quem dentre vós, querendo cons­truir uma torre, não se senta primeiro a calcular a despesa e a ver se tem com que acabá-la? 29Não suceda que, depois de assen­tar os alicerces, não podendo completá-la, comecem todos os que veem a troçar dele, 30dizendo: «Este homem começou a construir e não pôde completar». 31Ou qual é o rei que parte ao encontro de outro rei, para travar combate, e não se senta primeiro a deliberar se é capaz de se opor, com dez mil soldados, àquele que vem sobre ele com vinte mil? 32Aliás, estando o outro ainda longe, manda-lhe uma deputação a pedir as condições de paz. 33Assim, pois, todo aquele dentre vós que não se desliga de todos os seus haveres não pode ser Meu discípulo.

Comentário

  1. Estas palavras do Senhor não devem desconcertar ninguém. O amor a Deus e a Jesus Cristo deve ocupar o primeiro lugar na nossa vida e devemos afastar tudo aquilo que ponha obstáculos a este amor: «Amemos neste mundo a todos, comenta São Gregório Magno, ainda que seja ao inimigo; mas odeie-se o que se nos opõe no caminho de Deus, ainda que seja parente…Devemos, pois, amar o próximo; devemos ter caridade com todos; com os parentes e com os estranhos, mas sem nos afastarmos do amor de Deus por amor deles»(In Evangeliahomiliae, 37,3). Em última análise, trata-se de observar a ordem da caridade: Deus tem priori­dade sobre tudo.

Este versículo há-de entender-se, portanto, dentro do conjunto dos ensinamentos e das exigências do Senhor (cfr Lc 6,27-35). Estas palavras «são duras. Decerto nem o odiar nem o aborrecer exprimem bem o pensamento original de Jesus. De qualquer maneira, as palavras do Senhor foram fortes, pois não se reduzem a um amor menor, como por vezes se interpreta temperadamente, para suavizar a frase. E tremenda essa expressão tão taxativa, não porque implique uma atitude negativa ou impiedosa, pois o Jesus que fala agora é o mesmo que manda amar os outros como a própria alma e entrega a Sua vida pelos homens: aquela locução indica simplesmente que perante Deus não cabem meias-tintas. Poderiam traduzir-se as palavras de Cristo por amar mais, amar melhor, ou então por não amar com um amor egoísta nem também com um amor de vistas curtas: devemos amar com o Amor de Deus»(Cristo que passa, n° 97). Cfr. as notas a Mt 10,34-37; Lc 2,49).

Como explica o Concilio Vaticano II, os cristãos «pro­curam mais agradar a Deus que aos homens, sempre dispostos a deixar tudo por Cristo» (Apostolicamactuositatem, n 4).

  1. Cristo «sofrendo por nós, não só nos deu exemplo, para que sigamos os Seus passos, mas também abriu um novo caminho, em que a vida e a morte são santificados e recebem um novo sentido» (Gaudium et spes, n. 22).

O caminho do cristão é a imitação de Jesus Cristo. Não há outro modo de o seguir senão acompanhá-Lo com a própria Cruz. A experiência mostra-nos a realidade do sofrimento, e que este leva à infelicidade se não se aceita com sentido cristão. A Cruz não é uma tragédia, mas pedagogia de Deus que nos santifica por meio da dor para nos identificarmos com Cristo e nos tornarmos merecedores da glória. Por isso é tão cristão amar a dor: «Bendita seja a dor. — Amada seja a dor. — Santificada seja a dor… Glorificada seja a dor!» (Caminho, n° 208).

28-35. O Senhor mostra-nos com diversas comparações que se a própria prudência humana exige que o homem preveja os riscos das suas empresas, com maior razão o cristão se abraçará voluntária e generosamente à Cruz, porque sem ela não poderia seguir Jesus Cristo «’Quia hic homo coepitaedificareet non potuitconsummare!’ — come­çou a edificar e não pôde terminar!

«Triste comentário, que, se quiseres, não se fará de ti, porque tens todos os. meios para coroar o edifício da tua santificação: a graça de Deus e a tua vontade» (Caminho, n° 324).

  1. Se antes o Senhor falou de «odiar» os pais e até a = própria vida, agora exige com igual vigor o desprendimento total das riquezas. Este versículo é aplicação directa das duas parábolas anteriores: assim como é imprudente um rei que pretende lutar com um número insuficiente de soldados, também é insensato quem quiser seguir o Senhor sem renunciar a todos os seus bens. Esta renúncia das riquezas há-de ser efectiva e concreta: o coração deve estar desembaraçado de todos os bens materiais para poder seguir os passos do Senhor. E é que, como dirá mais adiante, é Impossível «servir a Deus e ao dinheiro» (Lc 16,13). Não é infrequente que o Senhor peça a alguns viver em pobreza absoluta e voluntária; e de todos exige o desprendimento afectivoe a generosidade ao empregar os bens materiais. Se cristão há-de estar pronto a renunciar à própria vida, com mais motivo há-de está-lo relativamente às riquezas: «Se és homem de Deus, põe em desprezar as riquezas o mesmo empenho que põem os homens do mundo em possuí-las» (Caminho. n° 633). Cfr. a nota a Lc 12,33-34.

Por outro lado, para que a alma possa encher-se de Deus há-de esvaziar-se primeiro de tudo aquilo que lho pudesse impedir: «A doutrina que o Filho de Deus veio ensinar foi o menosprezo de todas as coisas, para poder receber o preço do espírito de Deus em si. Porque, enquanto não.se desfizer delas, a alma não tem capacidade para receber o espírito de Deus em pura transformação» (Subida ao Monte Carmelo, liv. I, cap. 5, n° 2).

05.09.2016 –Lc6, 6-11

6Noutro sábado, entrou na sinagoga e pôs-Se a ensinar. Estava lá um homem que tinha a mão direita ressequida. 7Ora os Escribas e os Fariseus observavam-No de perto, para verem se Ele realizaria uma cura ao sábado, a fim de acharem com que acusá-Lo. 8Mas Ele conhecia-lhes os pensa­mentos. Disse então ao homem que tinha a mão ressequida: Levanta-te e põe-te de pé, aí no meio. Este levantou-se e ficou de pé. 9Disse-lhes Jesus: Pergunto-vos se é permi­tido, ao sábado, fazer bem ou fazer mal, salvar a vida ou tirá-la? 10E, olhando-os a todos em volta, disse ao homem: Estende a mão, Ele estendeu-a, e a mão ficou-lhe curada. 11Eles encheram-se de fúria e come­çaram a falar entre si do que haviam de fazer a Jesus.

Comentário

  1. Os Santos Padres ensinam-nos a descobrir um pro­fundo sentido espiritual mesmo naquelas palavras do Senhor que podem parecer irrelevantes à primeira vista. Assim, Santo Ambrósio comenta a frase «estende a mão»: «Este remédio é comum e geral (…).Estende-a muitas vezes, favorecendo o teu próximo; defende de qualquer injúria a quem vejas sofrer sob o peso da calúnia, estende também a tua mão ao pobre que te pede; estende-a também ao Senhor pedindo-Lhe o perdão dos teus pecados: é assim como se deve estender a mão, e é assim como se cura»(ExpositioEvangelii sec. Lucam, ad loc.).
  2. Perante a pergunta do Senhor os fariseus não que­rem responder, e diante do milagre que realiza depois não sabem que dizer. Deveriam ter-se convertido, mas o seu coração ofusca-se e enche-se de inveja e de furor. Depois, aqueles que não tinham falado diante do Senhor começam a dialogar entre si, não para se aproximarem de Cristo mas para O perder. Neste sentido comenta São Cirilo: «Oh fa­riseu!,vês O que faz coisas prodigiosas e cura os doentes em virtude de um poder superior e tu projectas a Sua morte por inveja» (Commentarium in Lucam, ad loc.).

06.09.2016 –Lc6, 12-19

12Nesses dias, saiu Ele em direcção ao monte, para fazer oração, e passou a noite a orar a Deus. 13Ao amanhecer, chamou os discípulos e escolheu doze entre eles, aos quais deu precisamente o nome de Após­tolos: 14Simão, a quem deu também o nome de Pedro, e André, irmão deste; Tiago e João; Filipe e Bartolomeu; 15Mateus e Tome; Tiago, filho de Alfeu, e Simão, que era chamado Zeloso; 16Judas, irmão de Tiago, e Judas Iscariotes, que veio a ser o traidor.

17Descendo com eles, ficou num sítio plano, Ele, um numeroso grupo de discípulos Seus e grande multidão dos do povo, prove­nientes de toda a Judeia, de Jerusalém e do litoral de Tiro e de Sídon, I8que tinham vindo para O ouvirem e se curarem de suas doenças. E os que eram molestados por espíritos impuros ficavam curados. 19Toda a multidão procurava tocar-Lhe, porque saía d’Ele uma força que a todos curava.

Comentário

12-13. Com certa solenidade o Evangelista relata a trans­cendência deste momento em que Jesus constitui os Doze em Colégio Apostólico: «O Senhor Jesus, depois de ter orado ao Pai, chamando a Si os que Ele quis, elegeu doze para estarem com Ele e para os enviar a pregar o Reino de Deus (cfr Mc3,13-19; Mt 10,1-42): e a estes Apóstolos constituiu-os em colégio ou grupo estável e deu-lhes como chefe a Pedro, escolhido de entre eles (cfr Ioh 21,17). Enviou-os primeiro aos filhos de Israel e, depois, a todos os povos, para que, participando do Seu poder, fizessem de todas as gentes discípulos seus e as santificassem e governassem (cfr Mt 28,16-20 e par J e deste modo propagassem e apascentassem a Igreja, servindo-a, sob a direcção do Senhor, todos os dias até ao fim dos tempos (cfr Mt 28,20). No dia de Pentecostes, foram plenamente confirmados nesta missão (cfrAct 2,1-36) (…). Os Apóstolos, pois, pregando por toda a parte o Evangelho (cfr Mc 16,20), recebido pelos ouvintes graças à acção do Espírito Santo, reúnem a Igreja universal que o Senhor fundou sobre os Apóstolos e levantou sobre o bem-aventurado Pedro seu chefe, sendo Jesus Cristo a suma pedra angular (cfrApc 21,14; Mt 16,18; Eph 2,20). A missão divina confiada por Cristo aos Apóstolos durará até ao fim dos tempos (cfr Mt 28,20), uma vez que o Evangelho que eles devem anunciar é em todo o tempo o princípio de toda a vida na Igreja; pelo que os Apóstolos trataram de estabelecer sucessores, nesta sociedade hierarquicamente constituída» (Lumen gentium, nn. 19-20).

Jesus Cristo, antes de instituir o Colégio Apostólico, passou toda a noite em oração. É uma oração que Cristo faz pela Sua Igreja como tantas outras vezes (Lc 9,18; Ioh 17,1 ss.). Deste modo, o Senhor prepara os Seus Apóstolos, colunas da Igreja (cfr Gal 2,9). Próximo da Paixão, rogará ao Pai por Simão Pedro como cabeça da Igreja, e assim lho manifestará de um modo solene: «Mas Eu roguei por ti para que não desfaleça a tua fé» (Lc 22,32). A Igreja, seguindo o exemplo de Cristo, dispõe que na oração litúrgica se elevem preces em muitas ocasiões pelos pastores da Igreja: Romano Pontífice, Bispos e sacerdotes; pedindo a graça de Deus para que possam cumprir fielmente o seu ministério.

São contínuos os ensinamentos de Cristo de que temos de orar sempre (Lc 18,1). Nesta ocasião mostra-nos com o Seu exemplo que ,nos momentos importantes da nossa vida de­vemos orar com especial intensidade. «’Pernoctans in oratione Dei’» — passou a noite em oração. — É o que São Lucas nos diz do Senhor.

«Tu, quantas vezes perseveraste assim? — Então…?» (Ca­minho, n.° 104).

Sobre a conveniência e as qualidades da oração do cristão, vejam-se as notas a Mt 6,5-6; 7,7-11; 14,22-23; Mc 1,35; Lc 5,16; 11,1-4; 18,1; 22,41-42.

  1. Como é que Jesus Cristo, sendo Deus, faz oração?: Em Cristo há duas vontades, uma divina e outra humana (cfrCatecismo Maior, n.° 91), e ainda que pela Sua vontade divina era omnipotente, não assim pela Sua vontade humana. O que fazemos na oração de petição é manifestar a nossa vontade diante de Deus, e por isso Cristo, semelhante em tudo a nós menos no pecado (Heb 4,15), devia orar também como homem (cfr Suma Teológica, III, q. 21, a. 1). Ao con­templar Jesus em oração. Santo Ambrósio comenta: «O Se­nhor ora não para pedir por Ele, mas para interceder em meu favor; pois ainda que o Pai tenha posto todas as coisas à disposição do Filho, contudo o Filho, para realizar plena­mente a Sua condição de homem, julga oportuno implorar ao Pai por nós, pois Ele é o nosso Advogado (…). Mestre de obediência, instrui-nos com o Seu exemplo nos preceitos da virtude: ‘Temos um Advogado diante do Pai’ (1Ioh 2,1)» (ExpositioEvangelii sec. Lucam, ad loc.).

14-16. Jesus Cristo escolheu para Seus Apóstolos uns homens correntes, quase todos pobres e ignorantes; parece que só Mateus e os irmãos João e Tiago gozavam de certa! posição social e econômica. Mas todos deixaram o muito ou pouco que tinham e também todos, menos Judas, tiveram no Senhor e, vencendo as suas próprias debilidades, souberam finalmente ser fiéis à graça e ser santos, colunas da ‘ Igreja. Não nos inquietemos se, como os Apóstolos, nos vemos faltos de qualidades humanas, porque o importante é ser fiéis, corresponder pessoalmente à graça de Deus.

  1. Deus encarnou para nos salvar. Através da natureza humana que assumiu,actua a Pessoa divina do Verbo. As curas e as expulsões de demônios que Cristo realizou enquanto vivia na terra são também uma prova de que a Redenção operada por Cristo é uma realidade, não uma mera esperança. As multidões da Judeia e das outras regiões de Israel, que se aproximam até tocar o Mestre, são, de alguma maneira, uma antecipação da devoção dos cristãos à Santíssima Humanidade de Cristo.

07.09.2016–Lc 6, 20-26

20Erguendo os olhos para os Seus discípulos, pôs-Se a dizer: Felizes de vós, os pobres, porque é vosso o Reino de Deus.

21Felizes de vós, os que tendes agora fome, porque sereis saciados.

Felizes de vós, os que chorais agora, porque haveis de rir.

22Felizes sereis quando os homens vos odiarem, e quando vos rejeitarem, vos insul­tarem, e proscreverem o vosso nome como infame, por causa do Filho do homem. 23Alegrai-vos e exultai nesse dia, pois é grande no Céu a vossa recompensa. Desse modo, efectivamente, é que pro­cediam os pais deles com os falsos profetas.24Masai de vós, os ricos, porque recebeis a vossa consolação.

25Ai de vós, os que estais agora fartos, porque haveis de ter fome.

Ai de vós, os que rides agora, porque haveis de entristecer-vos e chorar.

26Ai de vós, quando todos os homens de vós disserem bem.

Comentário

20-49. Estes trinta versículos de São Lucas têm uma certa correspondência com o Sermão da Montanha, que São Mateus expõe por extenso nos capítulos cinco a sete do seu Evangelho. É muito verossímil que Nosso Senhor, ao longo do Seu ministério público pelas diversas regiões e cidades de Israel, tenha pregado as mesmas coisas, ditas de modo diferente, em diversas ocasiões. Cada Evangelista recolheu o que, por inspiração do Espírito Santo, pensava mais conveniente para a instrução dos seus leitores imedia­tos: cristãos procedentes do judaísmo, em Mateus; conver­tidos da gentilidade, em Lucas. Nada impede que um e o outro Evangelista tenham apresentado, segundo as necessi­dades desses leitores, umas ou outras coisas da pregação de Jesus, insistindo nuns aspectos e abreviando ou omitindo outros.

No presente discurso, segundo o texto de Lucas, podem distinguir-se três partes: as Bem-aventuranças e imprecações (6,20-26); o amor aos inimigos (6,27-38); e os ensinamentos sobre a rectidão de coração (6,39-40).

É possível que a não poucos cristãos lhes custe com­preender a necessidade de viver até ao fundo a moral evangélica, especialmente os ensinamentos de Cristo no Sermão da Montanha. As palavras de Jesus são exigentes, mas estão dirigidas a todos, não só aos Apóstolos ou aos discípulos que seguiam o Senhor de perto: diz-se expressamente que «quando Jesus terminou estes discursos, as multidões ficaram admi­radas com a Sua doutrina» (Mt 7,28). É evidente que o Mestre chama a todos à santidade, sem distinção de estado, de raça nem de condição. Esta doutrina do chamamento universal à santidade foi ponto central na pregação de Mons. Escrivá de Balaguer desde 1928.0 Concilio Vaticano II, em 1964, expressou com todo o peso da sua autoridade esta doutrina de que todos somos chamados à santidade cristã; para não citar mais que um só texto, eis as seguintes palavras da Const. Dogm. Lumen gentium, n. 11: «Munidos de tantos e tão grandes meios de salvação, todos os fiéis, seja qual for a sua condição ou estado, são chamados pelo Senhor à perfeição do Pai, cada um por seu caminho».

O que exige Cristo no Sermão da Montanha não é um ideal inatingível que seria útil porque nos faz humildes ao ver a nossa incapacidade. Não. A verdadeira doutrina cristã a este respeito é clara: o que Cristo manda é para que se cumpra e obedeça. Para isto, juntamente com o mandato, outorga a graça para o cumprir. Assim, todo o cristão pode viver a moral pregada por Cristo e atingir a plenitude da sua vocação, isto é, a santidade, não apenas com as suas forças, mas com a graça que Cristo nos ganhou e com o auxílio constante dos meios de santificação que entregou à Sua Igreja. «Se alguém aduz a desculpa de que a debilidade humana o impede de amar a Deus, deve ensinar-se-lhe que Deus, que pede o nosso amor, derramou nos nossos corações a virtude da caridade por meio do Espírito Santo; e o nosso Pai Celeste dá este bom Espírito aos que Lho pedem, como suplicava Santo Agostinho: ‘Concede-me o que mandas e manda o que queiras’. E visto que o auxílio divino está à nossa disposição, especialmente depois da morte de Cristo nosso Senhor, pela qual o príncipe deste mundo foi expulso, ninguém deve atemorizar-se diante da dificuldade do man­dato, porque nada há difícil para o que ama»(Catecismo Romano, III, 1,7).

20-26. As oito Bem-aventuranças que São Mateus apre­senta (5,3-12) oferece-as São Lucas resumidas em quatro, mas acompanhadas de quatro antíteses. Podemos dizer, com Santo Ambrósio, que as oito de Mateus estão compreendidas nas quatro de Lucas (cfrExpositioEvangelii sec. Lucam, ad loc.). As expressões do texto de Lucas têm, por vezes, uma forma mais directae incisiva que as do primeiro Evangelho, que são mais explicativas; por exemplo, a primeira bem-aventurança diz simplesmente «Felizes os pobres», en­quanto em Mateus se lê «Bem-aventurados os pobres em espírito», que constitui uma breve explicação do sentido da virtude da pobreza.

  1. «Todo o cristão corrente tem que tornar compa­tíveis na sua vida dois aspectos que, à primeira vista, podem parecer contraditórios: pobreza real, que se note e que se toque — feita de coisas concretas — que seja uma profissão de fé em Deus, uma manifestação de que o coração não se satisfaz com coisas criadas, mas aspira ao Criador, que deseja encher-se do amor de Deus e depois dar a todos desse mesmo amor; e, ao mesmo tempo ser mais um entre os seus irmãos os homens, de cuja vida participa, com que se alegra, com quem colabora, amando o mundo e todas as coisas criadas para resolver os problemas da vida humana e para estabelecer o ambiente espiritual e material que facilite o desenvolvimento das pessoas e das comunidades.

«(…) O melhor exemplo de pobreza sempre foram esses pais e essas mães de família numerosa e pobre que se desfazem pelos seus filhos e que, com o seu esforço e cons­tância — muitas vezes sem voz para dizer a alguém que passam necessidades — mantêm os seus, criando um lar alegre em que todos aprendem a amar, a servir, a trabalhar» (Temas Actuais do Cristianismo, nos 110 e 111).

24-26. Com estas quatro exclamações condena o Ser aavareza e o apego aos bens do mundo; o excessivo cuida do corpo, a gula; a alegria néscia e a busca da própria complacência em tudo; a adulação, o aplauso e o afã desordenado de glória humana. Quatro tipos de vícios que são muito comuns no mundo, e diante dos quais o cristão deve estar vigilante para não se deixar arrastar por eles.

24.De modo semelhante a como no v. 20 se fala dos pobres referindo-se àquelas pessoas que amam a pobreza para agradar mais a Deus, assim, neste versículo, por ricos» há que entender aqueles que se afanam em acumular bens sem atender à liceidade ou iliceidade dos meios empregados, e que, além disso, põem nestas riquezas a sua felicidade, como se fossem o seu fim último. Pelo contrário, aqueles ricos que por herança ou através de um trabalho honrado abundam em bens são realmente pobres se não se apegam àesses bens, e como consequência desse desprendimento sabem empregá-los em benefício dos outros, segundo Deus lhes pede. Na Sagrada Escritura aparecem alguns personagens como Abraão, Isaac, Moisés, David e Job aos quais, mesmo possuindo muitas riquezas, se pode aplicar a bem-aventurança dos pobres.

Já em tempos de Santo Agostinho havia quem entendesse mal a pobreza e a riqueza, fazendo este raciocínio: o Reino dos Céus será dos pobres, dos Lázaros, dos famintos; os ricos são todos maus, como o rico avarento. Diante destas opiniões errôneas explica Santo Agostinho o sentido profundo da riqueza e da pobreza segundo o espírito evangélico: « Ouve-me, senhor pobre, sobre o que dizes. Quando te chamas a ti mesmo Lázaro, aquele santo varão chagado, temo que por soberba não sejas aquele que dizes. Não desprezes os ricos misericordiosos, os ricos humildes; ou, para o dizer em poucas palavras, não desprezes os que denominei ricos pobres. Oh pobre!,sé tu pobre também; pobre, ou seja, humilde (…). Ouve-me, pois. Sé verdadeiro pobre, sé piedoso, sé humilde; se te glorias dos teus andrajos e da tua pobreza ulcerosa, se te glorias de te assemelhares ao mendigo estendido junto da casa do rico, não reparas senão em que foi pobre e não te fixas em nada mais. Em que vou fixar-me?,dizes. Lê as Escrituras e entenderás o que te digo. Lázaro foi pobre, mas aquele para cujo seio foi levado era rico. ‘Sucedeu — está escrito — que morreu o pobre e foi levado pelos anjos ao seio de Abraão’. Para onde? Para o seio de Abraão, ou digamos, para o misterioso lugar onde repousava Abraão. Lê (…) e pondera como Abraão foi opulentíssimo na terra, onde teve em abundância prata, família, gados, fazenda; e, contudo, este rico foi pobre, pois foi humilde. ‘Creu Abraão em Deus, e foi-lhe contado como justiça’ (…) Era fiel, praticava o bem, recebeu o mandato de imolar o seu filho e não demorou a oferecer o que tinha recebido Àquele de Quem, o tinha recebido. Ficou provado aos olhos de Deus e posto como exemplo de fé»(Sermo14).

Em resumo, a pobreza não consiste em algo puramente exterior, em ter ou não ter bens materiais, mas em algo mais profundo que afecta o coração, o espírito do homem, consiste em ser humilde diante de Deus, em ser piedoso, em ter uma fé submissa. Se se possuem estas virtudes e, além disso, abundância de bens materiais, a atitude do cristão será de desprendimento, de caridade para com os outros homens, e assim agradar-se-á a Deus. Pelo contrário, o que não possui bens materiais abundantes nem por isso está justificado diante de Deus, se não se esforça por adquirir essas virtudes que constituem a verdadeira pobreza.

08.09.2016 –Mt 1, 1-16.18-23

Genealogia de Jesus Cristo, filho de Genealogia David, filho de Abraão.

2Abraão gerou a Isaac, Isaac gerou a Jacob, Jacob gerou a Judas e seus irmãos. 3Judas gerou a Fares e a Zara, de Tamar. Fares gerou a Esron, Esron gerou a Arão. 4Arão gerou a Aminabad, Aminabad gerou a Naásson, Naásson gerou a Salmon. 5Salmon gerou a Booz, de Raab. Booz gerou a Obed, de Rute. Obed gerou a Jessé, Jessé gerou a el-rei David.

6David gerou a Salomão, da que fora mulher de Urias. 7Salomão gerou a Roboão, Roboão gerou a Abias, Abias gerou a Asa. 8Asa gerou a Josafá, Josafá gerou a Jorão; Joráo gerou a Ozias. 9Ozias gerou a Joatã, Joatã gerou a Acaz, Acaz gerou a Ezequias. 10Ezequias gerou a Manasses, Manasses gerou a Amos, Amos gerou a Josias. 11Josias gerou a Jeconias e seus irmãos, no tempo da deportação para Babilônia.

12Depois da deportação para Babilônia, Jeconias gerou a Salatiel, Salatiel gerou a Zorobabel. 13Zorobabel gerou a Abiud, Abiud gerou a Eliacim, Eliacim gerou a Azor. 14Azor gerou a Sadoc, Sadoc gerou a Aquim, Aquim gerou a Eliud. 15Eliud gerou a Eléazar, Eléazar gerou a Mata, Mata gerou a Jacob. 16Jacob gerou a José, o esposo de Maria da qual nasceu Jesus, que se chama Cristo.

18Ora o nascimento de Jesus foi assim: Estando Maria, sua Mãe, desposada com José, antes de morarem juntos, notou-se que tinha concebido por virtude do Espírito Santo. 19José, seu esposo, como era justo e não a queria infamar, resolveu deixá-la secretamente. 20Mas, andando ele com este pensamento, apareceu-lhe, em sonhos, um anjo do Senhor, que lhe disse:

— José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou, é obra do Espírito Santo. 2lEla dará à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus, porque Ele salvará o seu povo dos seus pecados.

22Ora tudo isto aconteceu para se cumprir o que o Senhor tinha anunciado pelo profeta, que disse: 23«Eis que uma Virgem conceberá e dará à luz um filho, a quem será dado o nome de Emanuel», que quer dizer «Deus connosco».

Comentário

  1. Este versículo vem a ser como que o título de todo o Evangelho. Em Jesus Cristo cumprem-se as promessas divinas de salvação feitas a Abraão em favor de toda a humanidade (Gen 12,3). Igualmente se cumpre a profecia de um reino eterno dada por meio do profeta Natan ao rei David (2Sam7,12-16).

A genealogia que introduz São Mateus, no começo do seu Evangelho, mostra a ascendência de Jesus Cristo segundo a Sua humanidade, ao mesmo tempo que dá uma indicação da plenitude a que chega a História da Salvação com a Encarnação do Filho de Deus, por obra do Espírito Santo. Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, é o Messias esperado.

A genealogia está apresentada segundo uma estrutura de três grupos. Cada grupo consta de catorze elos que mostram o desenvolvimento progressivo da história sagrada.

Entre os Judeus (como entre outros povos orientais de origem nômada) a árvore genealógica tinha uma importância capital. Há que ter em conta que, precisamente por essa origem semi-nômada, a identidade de uma pessoa estava especialmente ligada à família e tribo, sendo menos signifi­cativo o lugar. No povo hebreu a essas circunstâncias acrescentava-se o significado religioso de pertencer pelo sangue ao povo eleito.

Ainda na época de Jesus a árvore genealógica se conservava nas famílias judaicas com todo o cuidado, pois segundo essa árvore as pessoas constituíam-se em sujeitos de direitos e obrigações.

  1. 6. Nas genealogias nomeiam-se quatro mulheres: Tamar (cfrGen 38; 1Chr 2,4), Rahab (cfrIos 2; 6, 17), Betsabé (cfr 2Sam 11; 12,24) e Rut (cfr livro de Rut). Estas quatro mulheres estrangeiras, que de um ou outro modo se incorporamna história de Israel, são um símbolo, entre muitos outros, da salvação divina que abarca toda a humanidade.

Ao citar também outros personagens pecadores, mostra-se como os caminhos de Deus são diferentes dos caminhos humanos. Através de homens cujo comportamento não foi recto Deus vai realizar os Seus planos de salvação. Ele salva-nos, santifica-nos e escolhe-nos para fazer o bem, apesar dos nossos pecados e infidelidades. Tal é o realismo que Deus quis fazer constar na história da nossa salvação.

  1. Sobre a deportação para Babilônia fala-se em 2Reg 24-25. Com este facto cumpre-se a ameaça dos profetas ao povo de Israel e aos seus reis, como castigo da sua infidelidade aos mandamentos da Lei de Deus, especialmente ao primeiro.
  2. 16. Entre os Hebreus as genealogias faziam-se por via masculina. José, como esposo de Maria, era o pai legal de Jesus. A figura do pai legal é equivalente quanto a direitos e obrigações à do verdadeiro pai. Neste facto se fundamenta solidamente a doutrina e a devoção ao Santo Patriarca como padroeiro universal da Igreja, visto que foi escolhido para desempenhar uma função muito singular no plano divino da nossa salvação: pela paternidade legal de São José é Jesus Cristo Messias descendente de David.

Do costume ordinário de celebrar os desposórios entre os membros de uma mesma estirpe, deduz-se que Maria pertencia à casa de David. Neste sentido falam também antigos Padres da Igreja. Assim Santo Inácio de Antioquia, Santo Ireneu, São Justino e Tertuliano, os quais fundamentam o seu testemunho numa tradição oral constante.

É de assinalar que São Mateus, para indicar o nascimento de Jesus, usa uma fórmula completamente diversa da aplicada aos demais personagens da genealogia. Com estas palavras o texto ensina positivamente a conceição virginal de Jesus, sem intervenção de varão.

  1. 18. São Mateus narra aqui como foi a conceição de Cristo (cfrLc 1, 25-38): «(…) verdadeiramente celebramos e veneramos por Mãe de Deus (Maria), por ter dado à luz uma pessoa que é juntamente Deus e homem (…)» (Catecismo Romano, l, 4, 7).

Segundo as disposições da Lei de Moisés, aproxima­damente um ano antes do casamento realizavam-se os desposórios. Estes tinham praticamente já o valor jurídico do matrimônio. O casamento propriamente dito consistia, entre outras cerimônias, na condução solene e festiva da esposa para casa do esposo (cfrDt 20,7).

Já desde os desposórios era preciso o libelo de repúdio, no caso de ruptura das relações.

Todo o relato do nascimento de Jesus ensina através do cumprimento da profecia de Isaías 7, 14 (que citará expres­samente nos versículos 22-23): 1.° Jesus é descendente de David pela via legal de José; 2.° Maria é a Virgem que dá à luz segundo a profecia; 3.° o caracter miraculoso da con­ceição do Menino sem intervenção de varão.

  1. «José era efectivamente um homem corrente, em quem Deus confiou para operar coisas grandes. Soube viver, tal como o Senhor queria, todos e cada um dos aconteci­mentos que compuseram a sua vida. Por isso, a Escritura Santa louva José, afirmando que era justo. E, na linguagem hebraica, justo quer dizer piedoso, servidor irrepreensível de Deus, cumpridor da Vontade divina (cfrGen 7,1; 23-32; Ez 18,5 ss; Prv 12, 10); outras vezes significa bom e caritativo com o próximo (cfrTob 7,6; 9,6). Numa palavra, o justo é o que ama a Deus e demonstra esse amor, cumprindo os Seus mandamentos e orientando toda a sua vida ao serviço dos irmãos, os outros homens»(Cristo que passa, nº40).

José considerava santa a sua esposa não obstante os sinais da sua maternidade. Por isso se encontrava perante uma situação inexplicável para ele. Procurando precisamente actuar de acordo com a vontade de Deus sentia-se obrigado a repudiá-la, mas, com o fim de evitar a infâmia pública de Maria, decide deixá-la privadamente.

É admirável o silêncio de Maria. A sua entrega perfeita a Deus leva-a inclusivamente a não defender a sua honra e a sua inocência. Prefere que caia sobre Ela a suspeita e a infâmia, a manifestar o profundo mistério da Graça. Perante um facto inexplicável por razões humanas, abandona-se confiadamente no amor e providência de Deus.

Devemos contemplar a magnitude da prova a que Deus submeteu estas duas almas santas: José e Maria. Não nos pode causar estranheza que também nós sejamos submetidos por vezes, ao longo da vida, a provas duras; nelas temos de confiar em Deus e permanecer-Lhe fiéis, a exemplo de José e Maria.

  1. Deus ilumina oportunamente o homem que actua com rectidão e confia no poder e sabedoria divina, perante situações que superam a compreensão da razão humana. O anjo recorda neste momento a José, ao chamar-lhe filho de David, que é o elo providencial que une Jesus com a estirpe de David, segundo a profecia messiânica de Natan (cfr2 Sam 7, 12). Corno diz São João Crisóstomo: «Antes de mais recorda-lhe David, de quem tinha de vir Cristo, e não lhe consente estar perturbado desde o momento que, pelo nome do mais glorioso dos seus antepassados, lhe traz à memória a promessa feita a toda a sua linhagem » (Hom. sobre S. Mateus, 4).

«Jesus Cristo, único Senhor, nosso, Filho de Deus, quando tomou por nós carne humana no ventre da Virgem, foi con­cebido não por obra de varão, como os outros homens, mas, sobre toda a ordem natural, por virtude do Espírito Santo; de tal maneira que a mesma pessoa (do Verbo), permanecendo Deus, como o era desde a eternidade, se fizesse homem, o qual não era antes» (Catecismo Romano, 1,4,1).

  1. Segundo a raiz hebraica, o nome de Jesus significa «salvador». Depois da Virgem Santa Maria, José é o primeiro homem que recebe esta declaração divina do facto da salvação, que já se estava a realizar.

«Jesus é o nome exclusivo do que é Deus e homem, o qual significa salvador, imposto a Cristo não casualmente nem por ditame ou disposição humana, mas por conselho e mandato de Deus.

(…) Os nomes profetizados (… o Admirável, o Conselheiro, Deus, o Forte, o Pai do século vindouro, o Príncipe da paz, cfrIs 9, 6), que se deviam dar por disposição divina ao Filho de Deus, resumem-se no nome de Jesus, porque, enquanto os outros se referem apenas sob algum aspecto à salvação que nos devia dar, este compendiou em si mesmo a realidade e a causa da salvação de todos os homens» (Catecismo Romano I, 3, 5 e 6).

  1. «Emanuel»: A profecia de Isaías 7, 14 citada neste versículo, preanunciava, já desde há uns sete séculos, que o sinal da salvação divina ia ser o acontecimento extraor­dinário de uma virgem que vai dar à luz um filho. O Evan­gelho revela-nos, pois, neste passo duas verdades:

A primeira que, na verdade, Jesus é o Deus connosco preanunciado pelo profeta. Assim o sentiu sempre a tradição cristã. Inclusivamente o Magistério da Igreja (no Breve Divinade Pio VI, 1779) condenou uma interpretação que negava o sentido messiânico do texto de Isaías. Cristo é, pois, verdadeiramente Deus connosco, não só pela Sua missão divina mas porque é Deus feito homem (cfrJo l, 14).Não quer dizer que Jesus Cristo tenha de ser normalmente chamado Emanuel: este nome refere-se mais directamente ao Seu mistério de Verbo Encarnado. O anjo da anunciação indicou que Lhe fosse posto o nome de Jesus, que significa Salvador. Assim o fez São José.

A segunda verdade que nos revela o texto sagrado é que Santa Maria, em quem se cumpre a profecia de Is 7, 14, permanece virgem antes do parto e no próprio parto. Preci­samente o sinal miraculoso que dá Deus de que chegou a salvação é que uma mulher que é virgem, sem deixar de o ser, é também mãe.

«Jesus Cristo saiu do seio materno sem detrimento algum da virgindade de Sua Mãe; assim pois, com louvores merecidíssimos, celebramos a sua imaculada e perpétua virgindade. E isto em verdade operou-se por virtude do Espírito Santo, que tanto engrandeceu a Mãe na conceição e no nascimento do Filho, que lhe deu a ela fecundidade e conservou ao mesmo tempo a sua perpétua virgindade»(Catecismo Romano, 1,4,8).

09.09.2016 –Lc6, 39-42

39Disse-lhes também uma parábola: Pode um cego guiar a outro cego? Não cairão ambos nalguma cova?

40Não está o discípulo acima do mestre, mas todo o discípulo bem formado ficará como o seu mestre.

41Porque olhas para o argueiro que está no olho de teu irmão, e não reparas na trave que tens no teu? 42Como podes dizer a teu irmão: «irmão, deixa que eu extraia o argueiro que está no teu olho», tu que não vês a trave que tens no teu? Hipócrita, extrai primeiro a trave do teu olho, e então verás bem, para extraíres o argueiro que está no olho de teu irmão.

Comentário

20-49. Estes trinta versículos de São Lucas têm uma certa correspondência com o Sermão da Montanha, que São Mateus expõe por extenso nos capítulos cinco a sete do seu Evangelho. É muito verossímil que Nosso Senhor, ao longo do Seu ministério público pelas diversas regiões e cidades de Israel, tenha pregado as mesmas coisas, ditas de modo diferente, em diversas ocasiões. Cada Evangelista recolheu o que, por inspiração do Espírito Santo, pensava mais conveniente para a instrução dos seus leitores imedia­tos: cristãos procedentes do judaísmo, em Mateus; conver­tidos da gentilidade, em Lucas. Nada impede que um e o outro Evangelista tenham apresentado, segundo as necessi­dades desses leitores, umas ou outras coisas da pregação de Jesus, insistindo nuns aspectos e abreviando ou omitindo outros.

No presente discurso, segundo o texto de Lucas, podem distinguir-se três partes: as Bem-aventuranças e imprecações (6,20-26); o amor aos inimigos (6,27-38); e os ensinamentos sobre a rectidão de coração (6,39-40).

É possível que a não poucos cristãos lhes custe com­preender a necessidade de viver até ao fundo a moral evangélica, especialmente os ensinamentos de Cristo no Sermão da Montanha. As palavras de Jesus são exigentes, mas estão dirigidas a todos, não só aos Apóstolos ou aos discípulos que seguiam o Senhor de perto: diz-se expressamente que «quando Jesus terminou estes discursos, as multidões ficaram admi­radas com a Sua doutrina» (Mt 7,28). É evidente que o Mestre chama a todos à santidade, sem distinção de estado, de raça nem de condição. Esta doutrina do chamamento universal à santidade foi ponto central na pregação de Mons. Escrivá de Balaguer desde 1928.0 Concilio Vaticano II, em 1964, expressou com todo o peso da sua autoridade esta doutrina de que todos somos chamados à santidade cristã; para não citar mais que um só texto, eis as seguintes palavras da Const. Dogm. Lumen gentium, n. 11: «Munidos de tantos e tão grandes meios de salvação, todos os fiéis, seja qual for a sua condição ou estado, são chamados pelo Senhor à perfeição do Pai, cada um por seu caminho».

O que exige Cristo no Sermão da Montanha não é um ideal inatingível que seria útil porque nos faz humildes ao ver a nossa incapacidade. Não. A verdadeira doutrina cristã a este respeito é clara: o que Cristo manda é para que se cumpra e obedeça. Para isto, juntamente com o mandato, outorga a graça para o cumprir. Assim, todo o cristão pode viver a moral pregada por Cristo e atingir a plenitude da sua vocação, isto é, a santidade, não apenas com as suas forças, mas com a graça que Cristo nos ganhou e com o auxílio constante dos meios de santificação que entregou à Sua Igreja. «Se alguém aduz a desculpa de que a debilidade humana o impede de amar a Deus, deve ensinar-se-lhe que Deus, que pede o nosso amor, derramou nos nossos corações a virtude da caridade por meio do Espírito Santo; e o nosso Pai Celeste dá este bom Espírito aos que Lho pedem, como suplicava Santo Agostinho: ‘Concede-me o que mandas e manda o que queiras’. E visto que o auxílio divino está à nossa disposição, especialmente depois da morte de Cristo nosso Senhor, pela qual o príncipe deste mundo foi expulso, ninguém deve atemorizar-se diante da dificuldade do man­dato, porque nada há difícil para o que ama»(Catecismo Romano, III, 1,7).

10.09.2016 –Lc6, 43-49

43De facto, não há árvore boa que dê mau fruto, nem tão-pouco árvore má que dê bom fruto, 44pois cada árvore se conhece pelo próprio fruto. Não se colhem,efectivamente, figos dos espinheiros, nem se apanham uvas duma silva. 45O homem bom, do bom tesoiro do seu coração, tira o que é bom, e o mau, do mau tesoiro, tira o que é mau, pois da abundância do coração é que fala a sua boca. 46Porque Me chamais: «Senhor, Senhor», e não fazeis o que Eu digo? 47Mostrar-vos-ei a quem é semelhante todo aquele que vem ter comigo, ouve as Minhas palavras e as põe em prática. 48É semelhante a um homem que, para construir uma casa, esca­vou, aprofundou e assentou os alicerces sobre a rocha. E, sobrevindo uma inundação, irrompeu a torrente contra aquela casa e não conseguiu abalá-la, por ter sido bem construída. 49Mas aquele que as ouve e as não põe em prática é semelhante a um homem que construiu uma casa sobre a terra, sem alicerces. Irrompeu a torrente contra ela, e logo ruiu. E foi grande o desmoronamento daquela casa.

Comentário

  1. Jesus pede que o nosso comportamento seja coerente com a condição de cristãos e que não haja separação entre a fé que professamos e a nossa forma de viver: «Não está o negócio em ter hábito de religião ou não; mas em procurar exercitar as virtudes e submeter a nossa vontade à de Deus em tudo e que o concerto da nossa vida seja o que Sua Majestade ordenar dela, e não queiramos nós que se faça a nossa vontade, mas a Sua» (Moradas, moradas terceiras, cap. 2, n° 6).

11.09.2016 –Lc 15, 1-32

Ora os publicanos e os pecadores aproximavam-se todos de Jesus para O ouvirem. 2E os Fariseus e os Escribas murmuravam entre si, dizendo: Este homem acolhe os pecadores e come com eles. 3Pro­pôs-lhes então a seguinte parábola: 4Quem dentre vós — disse Ele — possuindo cem ovelhas e, tendo perdido uma delas, não deixa as noventa e nove no deserto, para ir atrás da que está perdida, até a encontrar? 5E, ao encontrá-la, a não põe, radiante, aos ombros 6e, ao chegar a casa, não convoca os amigos e vizinhos, dizendo-lhes: «Alegrai-vos comigo, porque achei a minha ovelha perdida.»? 7Eu vos digo que haverá assim mais alegria no Céu por um só pecador que se arrepende do que por noventa e nove justos que não têm necessidade de arrepen­dimento.

8Ou qual é a mulher que, possuindo dez dracmas e tendo perdido uma, não acende uma lâmpada, não varre a casa e não procura cuidadosamente, até a encontrar? 9Ao encon­trá-la, convoca as amigas e vizinhas e diz: «Alegrai-vos comigo, porque achei a dracma que perdera». 10Assim, vos digo Eu, é que há alegria entre os Anjos de Deus por um só pecador que se arrepende.

11Disse ainda: Certo homem tinha dois filhos. 12E o mais novo dentre eles disse ao pai: «Pai, dá-me a parte que me cabe da fortuna». E ele repartiu-lhes os bens. 13Alguns dias depois, o filho mais novo, reunindo tudo, ausentou-se para uma região longín­qua e por lá esbanjou os seus bens, vivendo dissipadamente. 14Depois de haver gastado tudo, houve uma grande fome por aquela região, e ele começou a passar privações. 15Foi então ligar-se a um dos habitantes daquela região, o qual o mandou para os seus campos guardar porcos. 16Bem desejava ele encher o ventre com as alfarrobas que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava. 17Então caiu em si e disse: «Quantos jornaleiros de meu pai têm pão com fartura, e eu morro aqui à fome! 18Vou ter com meu pai e digo-lhe: Pai, pequei contra o Céu e para contigo. 19Já não sou digno de cha­mar-me teu filho. Trata-me como um dos teus jornaleiros». 20Partiu, pois, e foi ter com o pai.

Estando ele ainda longe, viu-o o pai, e encheu-se de compaixão e correu a lançar-se-lhe ao pescoço, beijando-o. 21Disse-lhe o filho: «Pai, pequei contra o Céu e para contigo. Já não sou digno de chamar-me teu filho». 22Disse o pai aos seus criados: «Trazei depressa o fato melhor e vesti-lho; ponde-lhe um anel na mão, e calçado nos pés. “Trazei o vitelo gordo, matai-o; e comamos em festa, 24porque este meu filho estava morto e voltou à vida, estava perdido e encontrou-se». E começaram com a festa.

25Ora o filho mais velho estava no campo. Quando, à volta, se aproximou da casa, ouviu música e danças. 26Chamando um dos moços, pediu-lhe informações sobre o que era aquilo. 27«É que chegou teu irmão — lhe disse este — e teu pai matou o vitelo gordo, porque de regresso o encontrou com saúde.» 28Ele ficou irritado e não queria entrar. O pai veio cá fora instar com ele. 29Mas ele, em resposta, disse ao pai: «Há já tantos anos que te sirvo sem nunca transgredir uma ordem tua, e tu nunca me deste um cabrito, para eu fazer uma festa com os meus amigos! 30Mas, quando chegou esse teu filho, que te consumiu a fortuna com meretrizes, mataste-lhe o vitelo gordo». 31O pai respondeu-lhe: «Filho, tu sempre estás comigo e tudo o que é meu é teu. 32Mas nós tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e voltou à vida, estava perdido e encontrou-se».

Comentário

1-32. Com as Suas obras Jesus manifesta a misericórdia divina: aproxima-Se dos pecadores para os converter. Os escribas e os fariseus, que desprezam os pecadores, não compreendem esse comportamento de Jesus, e murmuram d’Ele; será ocasião para que Nosso Senhor pronuncie as parábolas da misericórdia. «O Evangelista que trata de modo particular estes temas do ensino de Cristo é São Lucas, cujo Evangelho mereceu ser chamado ‘o Evan­gelho da misericórdia’» (Dives in misericórdia, n 3).

Neste capítulo São Lucas recolhe três destas parábolas, em que de modo gráfico Jesus descreve a infinita e paterna! misericórdia de Deus, e a Sua alegria pela conversão do pecador.

O Evangelho ensina que ninguém está excluído do per dão, e que os pecadores podem chegar a ser filhos que­ridos de Deus mediante o arrependimento e a conversão. E é tal o desejo divino de que os pecadores se convertam que as três parábolas terminam repetindo, a modo de estribilho, a alegria grande no Céu por cada pecador arrependido.

1-2. Não é esta a primeira vez que publicanos e peca­dores se aproximam de Jesus (cfr Mt 9,10). A pregação do Senhor atraía pela sua simplicidade e pelas suas exigências de entrega e de amor. Os fariseus tinham-Lhe inveja porque a gente ia atrás d’Ele (cfr Mt 26,3-5; Ioh 11,47). Essa atitude farisaica pode repetir-se entre os cristãos: uma dureza de juízo tal que não aceite que um pecador, por maiores que tenham sido os seus pecados, possa converter-se e ser santo; uma cegueira de mente tal que impeça reconhecer o bem que fazem os outros e alegrar-se disso. Nosso Senhor já vai ao encontro desta atitude errada quando responde aos Seus discípulos que se queixam de que outros expulsem demônios em Seu nome: «Não lho proibais, pois não há ninguém que faça um milagre em Meu nome e possa a seguir falar mal de Mim» (Mc 9,39). Igualmente São Paulo alegrava-se de que i. outros anunciassem Cristo, e inclusivamente passava por alto que o fizessem por interesse, desde que Cristo fosse pregado (cfr Phil 1,17-18).

5-6. A tradição cristã, fundada também noutros passos evangélicos (cfr Ioh 10,11), aplica esta parábola a Cristo, Bom Pastor, que sente falta e busca com afã a ovelha perdida: o Verbo, desencaminhada a humanidade pelo pecado, sai ao seu encontro na Encarnação. Neste sentido comenta São Gregório Magno: «Pôs a ovelha aos ombros, porque, ao assumir a natureza humana, Ele próprio carregou com os nossos pecados» (In Evangeliahomiliae, 2,14).

O Concilio Vaticano II aplica estes versículos de São Lucas ao cuidado pastoral que hão-de ter os sacerdotes: «No seu trato e solicitude de cada dia, não se esqueçam de apresentar aos fiéis e infiéis, aos católicos e não-católicos, a imagem do autêntico ministério sacerdotal e pastoral, de dar a todos o testemunho de verdade e de vida, e de procurar também, como bons pastores, aqueles que, baptizados embora na Igreja católica, abandonaram os sacramentos ou até mesmo a fé» (Lumen gentium, n 28). Mas um cuidado semelhante, vivido fraternalmente, incumbe também a todo o fiel cristão, que deve ajudar os seus irmãos os homens no caminho da salvação e da santificação.

  1. Isto não quer dizer que o Senhor não estime a perseverança dos justos, mas que aqui se põe em realce o gozo de Deus e dos bem-aventurados diante do pecador que se converte. É um claro chamamento ao arrependimento e a não duvidar nunca do perdão de Deus.« Outra queda…, e que queda!… Desesperar-te? Não; humilhar-te e recorrer, por Maria, tua Mãe, ao Amor Misericordioso de Jesus. — Um ‘miserere’ e, coração ao alto! — A começar de novo» (Cami­nho, n° 711).
  2. A dracma era uma moeda de prata que equivalia a um denário, isto é, aproximadamente o jornal de um trabalhador agrícola (cfr Mt 20,2).
  3. Estamos perante uma das parábolas mais belas de Jesus, em que nos é ensinado uma vez mais que Deus é um Pai bom e compreensivo (cfr Mt 6,8; Rom 8,15; 2 Cor 1,3). O filho que pede a parte da sua herança é figura do homem que se afasta de Deus por causa do pecado. Nesta parábola «a essência da misericórdia divina — embora no texto origi­nal não seja usada a palavra ‘misericórdia’ — aparece de modo particularmente límpido» (Dives in misericórdia, n 5).

12-13. «Este filho, que recebe do pai a parte da herança que lhe toca e deixa a casa paterna para esbanjar essa herança numa terra longínqua ‘vivendo dissolutamente’, em certo sentido é o homem de todos os tempos, a começar por aquele que foi o primeiro a perder a herança da graça e da justiça original. Neste ponto a analogia é muito vasta. Indirectamente a parábola estende-se a todas as rupturas da aliança de amor: a toda a perda da graça, e todo o pecado»(Dives in misericórdia, n 5).

14-15. Neste momento da parábola vemos as tristes consequências do pecado. Com essa fome fala-se-nos da ansiedade e do vazio que sente o coração do homem quando está longe de Deus. Com a servidão do filho pródigo é-nos descrita a escravidão a que fica submetido quem pecou (cfr Rom 1,25:6.6; Gal 5,1). Assim, pelo pecado o homem perde a liberdade dos filhos de Deus (cfr Rom 8,21; Gal 4,31; 5,13) e submete-se ao poder de Satanás.

17-21. A recordação da casa paterna e a segurança no amor do pai fazem que o filho pródigo reflicta e decida pôr-se a caminho. «De certo modo, a vida humana é um constante regresso à casa do Pai, um regresso mediante a contrição, a conversão do coração que significa o desejo de mudar, a decisão firme de melhorar a nossa vida e que, portanto, se manifesta em obras de sacrifício e de doação; regresso a casa do Pai, por meio do sacramento do perdão, em que, ao confessar os nossos pecados, nos revestimos de Cristo e nos tornamos assim seus irmãos, membros da família de Deus» (Cristo que passa, n° 64).

20-24. Deus espera sempre o regresso do pecador e quer que se arrependa. Quando chega O filho pródigo as palavras do pai não são de repreensão mas de imensa compaixão, que o leva a abraçar o filho e a cobri-lo de beijos.

  1. «Não há dúvida de que, naquela simples mas pene­trante comparação, a figura do pai revela-nos Deus como Pai (…). O pai do filho pródigo é f tela sua paternidade, fiel ao amor que desde sempre tinha dedicado ao seu filho. Tal fidelidade manifesta-se na parábola não apenas na prontidão em rece­bê-lo em casa, quando ele voltou depois de ter esbanjado a herança, mas sobretudo na alegria e no clima de festa tão generoso para com o esbanjador que regressa. Esta atitude provoca até a inveja do irmão mais velho, que nunca se tinha afastado do pai, nem abandonado a casa paterna.

«A fidelidade a si próprio por parte do pai — traço caracte­rístico já conhecido pelo termo do Antigo Testamento ‘hesed’ — exprime-se de modo particularmente denso de afecto. Lemos, com efeito, que, ao ver o filho pródigo regressar a casa, o pai, ‘movido de compaixão, correu ao seu encontro, abraçou-o efusivamente e beijou-o’. Procede deste modo levado certamente por profundo afecto; e assim se explica também a sua generosidade para com o filho, generosidade que causará tanta indignação no irmão mais velho»(Dives in misericórdia, n 6).

«Perante um Deus que corre para nós, não podemos calar-nos e dir-Lhe-emos com São Paulo: Abba, Pater!(Rom VIII, 15). Pai! Meu Pai! Pois, sendo Ele o Criador do universo, não dá importância a títulos altissonantes, nem sente falta da justa confissão do seu poderio. Quer que Lhe chamemos Pai, que saboreemos essa palavra, enchendo a alma de alegria (…).

«Deus espera-nos como o pai da parábola, estendendo para nós os braços, embora não o mereçamos. Não importa o que lhe devemos. Como no caso do filho pródigo, o que é preciso é que lhe abramos o coração, que tenhamos sau­dades do lar paterno, que nos maravilhemos e nos alegremos perante o dom que Deus nos fez de nos podermos chamar e sermos realmente, apesar de tanta falta de correspondência da nossa parte, seus filhos» (Cristo que passa,n° 64).

25-30. A misericórdia de Deus é tão grande que escapa à compreensão do homem; e este é o caso do filho mais velho, que considera excessivo o amor do pai para com o filho mais novo; a sua inveja não o deixa compreender as manifestações de amor que o pai mostra ao recuperar o filho perdido, nem compartilhar a alegria da família. «É verdade que foi pecador. — Mas não faças dele esse juízo inabalável. — Abre o coração à piedade, e não te esqueças de que ainda pode vir a ser um Agostinho, enquanto tu não passas de um medíocre»(Caminho, n° 675).

Por outro lado, devemos considerar que se Deus tem compaixão dos pecadores, quanto mais terá dos que se esforçam por permanecer fiéis. Bem o compreendia Santa Teresinha de Lisieux: «Que doce alegria a de pensar que o Senhor é justo, isto é, que conta com as nossas debilidades, que conhece perfeitamente a fragilidade da nossa natureza!Por quê, pois, temer? O bom Deus, infinitamente justo, que Se dignou perdoar com tanta misericórdia as culpas do filho pródigo, não será também justo comigo que estou sempre junto d’Ele?» (História de uma alma, cap. 8).

32.«A misericórdia apresentada por Cristo na parábola do filho pródigo tem a característica interior do amor, que no Novo Testamento é chamado ‘agape’.Este amor é capaz de debruçar-se sobre todos os filhos pródigos, sobre qualquer miséria humana e, especialmente, sobre toda a miséria moral, sobre o pecado. Quando isto acontece, aquele que é objecto da misericórdia não se sente humilhado, mas como que reencontrado e ‘revalorizado’. O pai manifesta-lhe alegria, antes de mais por ele ter sido ‘reencontrado’ e por ter ‘voltado à vida’. Esta alegria indica um bem que não foi destruído: o filho, embora pródigo, não deixa de ser real­mente filho de seu pai. Indica ainda um bem reencontrado: no caso do filho pródigo, o regresso à verdade sobre si próprio»(Dives in misericórdia, n 6).

12.09.2016 –Lc7, 1-10

Depois de ter feito ouvir ao povo todas estas palavras, entrou em Cafarnaum. 2Estava doente e quase a morrer o criado de certo centurião, a quem este tinha em muito apreço. 3Ouvindo falar de Jesus, mandou-Lhe alguns anciãos dos Judeus com o seu pedido de que viesse salvar-lhe o criado. 4Chegando estes junto de Jesus, fizeram-Lhe solicita­mente o pedido, dizendo: Ele é digno de que lhe concedas essa graça, 5pois estima o nosso país e até foi ele que nos construiu a sinagoga.6Jesus foi com eles. Não estando já longe da casa, mandou-Lhe o centurião uns amigos com este pedido: Não Te incomodes, Senhor, pois não mereço que entres debaixo do meu tecto, 7pelo que nem digno me achei de ir ter contigo. Mas, com uma palavra, diz que se cure o meu criado. 8É que eu, posto como estou às ordens de outros, tenho soldados sob o meu comando; e digo a um: «vai», e ele vai, e a outro: «vem cá», e ele vem, e ao meu criado: «faz isto», e ele faz. 9Jesus, quando isto ouviu, ficou admirado com ele e, voltando-Se para a multidão que O acompanhava, exclamou: Eu vos digo: Nem em Israel encontrei tão grande fé. 10E os enviados, ao voltarem para casa, acharam o criado com saúde.

Comentário

1-10. «Fizeram-Lhe solicitamente o pedido» (v. 4). É um exemplo da eficácia da oração de petição, que obtém da omnipotência de Deus um milagre. A este propósito esclarece São Bernardo o que se há-de pedir a Deus: «Em três coisas julgo que consistem as petições do coração (…). As duas primeiras são deste tempo, isto é, os bens do corpo e os da alma; a terceira é a bem-aventurança da vida eterna. Não te admires de que tenha dito que os bens do corpo se tenham de pedir a Deus, porque d’Ele são todos os bens: os corporais e os espirituais (…). Não obstante, devemos orar com mais frequência e com mais fervor pelas necessidades da alma, isto é, por obter a graça de Deus e as virtudes»(Sermão quinto de Quaresma, 8-9). Para alcançar os Seus benefícios o próprio Deus espera que pecamos com atenção, perseverança, confiança e humildade.

Sobressai a humildade na petição do milagre que nos narra o texto. O Centurião não pertencia ao povo eleito, era um pagão; mas através dos seus amigos pede com profunda humildade. A humildade é caminho para a fé, tanto para a receber como para a avivar. Falando da experiência da sua conversão, Santo Agostinho diz que ele, que não era humilde, não era capaz de compreender como Jesus tão humilde podia ser Deus, nem o que Deus podia ensinar a ninguém abaixando-se até assumir a condição humana. Para isso o Verbo, Verdade eterna, fez-Se homem: para abater a nossa soberba, fomentar o nosso amor, submeter todas as coisas e assim poder elevar-nos (cfr Confissões, VIII, 18,24).

6-7. É tal a fé e a humildade do Centurião ao dizer isso, que aIgreja, na liturgia eucarística, põe no nosso coração e na nossa boca estas mesmas palavras antes de receber a sagrada Comunhão. Esforcemo-nos, pois, por ter sincera­mente esta mesma disposição interior diante de Jesus que vem à nossa casa, à nossa alma.

13.09.2016 –Lc7, 11-17

11Em seguida, dirigiu-Se a uma cidade chamada Naim, indo com Ele os Seus discípulos e grande multidão. 12Quando Se aproximava da porta da cidade, traziam um defunto a enterrar, filho único de sua mãe. Esta era viúva, e vinha a acompanhá-la bastante gente da cidade. 13Ao vê-la, o Senhor compadeceu-Se dela e disse-lhe: Não chores. 14Aproximando-Se, tocou no caixão e estacaram os que o transportavam. Depois disse: Meu rapaz, Eu to digo, levan­ta-te. I5O morto sentou-se e começou a falar; e Ele entregou-o à mãe. 16Encheram-se todos de temor e davam glória a Deus, dizendo: Surgiu entre nós um grande profeta, e Deus visitou o Seu povo. 17Divulgou-se este dito a Seu respeito na Judeia inteira e em toda a região circunvizinha.

Comentário

11-17.«Jesus vê a angústia daquelas pessoas com quem Se cruza ocasionalmente. Podia ter passado de lado ou ter esperado que O chamassem e Lhe fizessem um pedido. Mas não Se afasta, nem fica na expectativa. Toma Ele próprio a iniciativa, movido pela aflição de uma viúva que perdera a única coisa que lhe restava —o filho.

«Explica o evangelista que Jesus Se compadeceu- talvez a Sua comoção tivesse também sinais externos, como pela morte de Lázaro. Jesus não era, nem é, insensível ao padecimento que nasce do amor, nem sente prazer em separar os filhos dos pais. Supera a morte, para dar a vida, para que aqueles que se amam convivam, exigindo, antes e ao mesmo tempo, a preeminência do Amor divino que deve informar a autêntica existência cristã.

Cristo sabe que O rodeia uma grande multidão, a quem o milagre encherá de pasmo e que há-de ir apregoando o sucedido por toda aquela região. Mas o Senhor não actua com artificialismo, só para praticar um ‘feito’; sente-Se singelamente afectado pelo sofrimento daquela mulher; não pode deixar de a consolar. Então, aproximou-Se e disse-lhe: não chores (Lc VII, 13). Que é como se lhe dissesse: hão te quero ver desfeita em lágrimas, pois Eu vim trazer à Terra a alegria e a paz. E imediatamente se dá o milagre, manifes­tação do poder de Cristo, Deus. Mas antes já se dera a comoção da Sua alma, manifestação evidente da ternura do coração de Cristo, Homem»(Cristo que passa, n° 166).

  1. A alegria da mãe ao recuperar vivo o seu filho recorda a alegria da Santa Madre Igreja pelos seus filhos pecadores regressados à vida da graça. «A mãe viúva — comenta Santo Agostinho — alegra-se com o seu filho ressus­citado. A Mãe Igreja alegra-se diariamente com os homens que ressuscitam na sua alma. Aquele, morto quanto ao corpo; estes, quanto ao seu espírito. Aquela morte visível chora-se visivelmente; a morte invisível destes nem se chora nem se vê. Busca estes mortos o que os conhece, o que os pode fazer regressar à vida»(Sermo98,2).

14.09.2016 –Jo3, 13-17

13Ninguém subiu ao Céu, a não ser Aquele que do Céu desceu, o Filho do homem. 14Do mesmo modo que Moisés elevou a serpente no deserto, assim tem de ser elevado o Filho do homem, 15para que todo aquele que acredita tenha, por Ele, a vida eterna.

16De facto, Deus amou de tal maneira o mundo que deu o Seu Filho único, para que todo o que n’Ele acredita não pereça, mas tenha a vida eterna. 17É que Deus não enviou o Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para o mundo ser salvo por Seu inter­médio.

Comentário

  1. Afirmação solene da divindade de Jesus. Ninguém sobe ao Céu e, portanto, ninguém pode conhecer perfeita­mente os segredos de Deus, senão o próprio Deus que en­carnou e desceu do Céu: Jesus, segunda Pessoa da Santíssima Trindade, o Filho do Homem profetizado no Antigo Testa­mento (cfrDn 7,13), ao qual foi concedido senhorio eterno sobre todos os povos, nações e línguas.

Ao encarnar o Verbo não deixa de ser Deus. E assim, ainda que esteja na terra enquanto homem, nem por isso deixa de estar no Céu enquanto Deus. Só depois da Ressur­reição e da Ascensão, Jesus Cristo está no Céu também enquanto homem.

14-15. A serpente de bronze, alçada por Moisés num mastro, era o remédio indicado por Deus para curar aqueles que eram mordidos pelas serpentes venenosas do deserto (cfr Num 21,8-9). Jesus Cristo compara este facto com a Sua Crucifixão, para explicar assim o valor da Sua exaltação na Cruz, que é salvação para todos os que O fixem com fé. Neste sentido podemos dizer que no bom ladrão se cumpre já o poder salvífico de Cristo na Cruz: esse homem descobriu no Crucificado o Rei de Israel, o Messias, que imediatamente lhe promete o Paraíso para aquele mesmo dia (cfrLc 23,39-43).

O Filho de Deus tomou a nossa natureza humana para dar a conhecer os mistérios ocultos da vida divina (cfr Mc 4,11; Ioh 1,18; 3,1-13; Eph 3,9) e para livrar do pecado e da morte aqueles que O fixem com fé e amor (cfrIoh 19,37; Gal 3,1) e aceitem a cruz de cada dia.

A fé de que nos fala o Senhor não se reduz simplesmente à aceitação intelectual das verdades que Ele nos ensinou, mas inclui reconhecê-Lo como Filho de Deus (cfr1Ioh 5,1), parti­cipar da Sua própria Vida (cfrIoh 1,12), e entregarmo-nos por amor, tornando-nos assim semelhantes a Ele (cfrIoh 10,27; 1Ioh3,2). Mas esta fé constitui um dom de Deus (cfrIoh3,3.5-8), a quem devemos pedir que a fortaleça e acres­cente, como fizeram os Apóstolos: Senhor, «aumenta-nos a fé» (Lc 17,5). Sendo a fé um dom divino, sobrenatural e gratuito, é, ao mesmo tempo, uma virtude, um hábito bom, susceptível de ser exercitado pessoalmente e, portanto, robustecido através desse exercício. Daí que o cristão, que já possui o dom divino da fé, ajudado pela graça deva fazer actos explícitos de fé para que esta virtude cresça nele.

15.09.2016 – Jo 19, 25-27

25Estavam junto à cruz de Jesus, Sua mãe, a irmã de Sua mãe, Maria, mulher de Clopá, e Maria de Magdala.26Jesus, ao ver a mãe e o discípulo que amava, ali presente, diz à mãe: Senhora, eis o teu filho. 27A seguir, diz ao discípulo: Eis a tua mãe. E a partir daquele momento, recebeu-a o discí­pulo em sua casa.

Comentário

  1. Enquanto os Apóstolos, excepto São João, aban­donam Jesus nesta hora de opróbrio, aquelas piedosas mulheres, que O tinham seguido durante a Sua vida pública (cfrLc 8,2-3), permanecem agora junto ao Mestre que morre na Cruz (cfr a nota a Mt 27,55-56).

O Papa João Paulo II explica que a fidelidade da Virgem Santíssima se manifestou de quatro modos: o primeiro, pela busca generosa do que Deus queria d’Ela (cfrLc 1,34); o segundo, mediante a aceitação submissa da Vontade divina (cfrLc 1,38); o terceiro, pela coerência dos actos da vida com a decisão da fé tomada; e, finalmente, mediante a prova da perseverança.« Só pode chamar-se fidelidade uma coerência que dura ao longo de toda a vida. O fiatde Maria na Anunciação encontra a sua plenitude no fiat silencioso que repete ao pé da Cruz» (Homília Catedral México).

A Igreja desde sempre reconheceu a dignidade da mulher e a sua importante missão na História da Salvação. Basta recordar o culto que, desde as origens, o povo cristão tributou à Mãe de Cristo, a Mulher por antonomásia, e a criatura mais excelsa e mais privilegiada que jamais saiu das mãos de Deus. O último Concilio, dirigindo uma mensagem especial às mulheres, diz entre outras coisas: «Mulheres que sofreis provações, finalmente, vós que estais de pé junto à cruz, à imagem de Maria, vós que, tantas vezes através da história, tendes dado aos homens a força para lutar até ao fim, de testemunhar até ao martírio, ajudai-os uma vez mais a conservar a audácia dos grandes empreendimentos, ao mesmo tempo que a paciência e o sentido de humildade de tudo o que principia» (Cone. Vaticano II, Mensagem do Concilio à Humanidade. Às mulheres, n.° 9).

26-27. «A pureza limpidíssima de toda a vida de João torna-o forte diante da Cruz. — Os outros apóstolos fogem do Gólgota; ele, com a Mãe de Cristo, fica.

«— Não esqueças que a pureza enrijece, viriliza o caracter» (Caminho, n.° 144).

O gesto do Senhor, pelo qual confia Sua Santíssima Mãe ao cuidado do discípulo, tem um duplo sentido (veja-se Introdução ao Evangelho segundo São João, pp. 1109-1116). Por um lado, manifesta o amor filial de Jesus à Virgem Maria. Santo Agostinho considera como Jesus nos ensina a cumprir o quarto mandamento: «É uma lição de moral.Faz o que recomenda fazer, e, como bom Mestre, ensina os Seus com o Seu exemplo, a fim de que os bons filhos tenham cuidado dos pais; como se aquele madeiro que sujeitava os Seus membros moribundos fosse também a cátedra do Mestre que ensinava»(In Ioann. Evang., 119,2).

Por outro lado, as palavras do Senhor declaram que Maria Santíssima é nossa Mãe: «Assim avançou a Virgem pelo caminho da fé, mantendo fielmente a união com seu Filho até à cruz. Junto desta esteve, não sem desígnio de Deus (Ioh 19,25), padecendo acerbamente com o seu Filho único, e associando-se com coração de mãe ao Seu sacrifício, consentindo com amor na imolação da vítima que d’Ela nascera; finalmente, Jesus Cristo, agonizante na cruz, deu-a por mãe ao discípulo» (Lumen gentium, n. 58).

Todos os cristãos, representados em São João, somos filhos de Maria. Ao dar-nos Cristo Sua Mãe por nossa Mãe manifesta o amor aos Seus até ao fim (cfrIoh 13,1). A Virgem Santíssima ao aceitar o apóstolo João como filho seu mostra o seu amor de Mãe: «A ti, Maria, o Filho de Deus e ao mesmo tempo teu Filho, do alto da Cruz indicou um homem e disse: ‘Eis o teu filho’. E naquele homem confiou-te cada homem, confiou-te todos. E Tu, que no momento da Anunciação, nestas simples palavras: ‘Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra’ (Lc 1,38), concentraste todo o programa da tua vida, abraças todos, aproxi­mas-te de todos, buscas maternalmente a todos. Desta maneira cumpre-se o que o último Concilio declarou acerca da tua presença no mistério de Cristo e da Igreja. Perseveras de maneira admirável no mistério de Cristo, teu Filho unigénito, porque estás sempre onde quer que estão os homens Seus irmãos, onde quer que está a Igreja» (Homília Basílica de Guadalupe ).

«João, o discípulo amado de Jesus, recebe Maria e introdu-la em sua casa, na sua vida. Os autores espirituais viram nestas palavras do Santo Evangelho um convite diri­gido a todos os cristãos para que Maria entre também nas suas vidas. Em certo sentido, é quase supérfluo este esclarecimento. Maria quer certamente que a invoquemos, que nos aproximemos d’Ela com confiança, que apelemos para a sua maternidade, pedindo-lhe que se manifeste como nossa Mãe» (Cristo que passa, n° 140).

Este modo filial de tratar Maria é o que segue constan­temente João Paulo II. Assim, na sua despedida da Virgem de Czestochowa, orava com estas palavras: «Mãe da Igreja de Jasna Gora! Uma vez mais me consagro a Ti na tua maternal escravidão de amor: Totustuus! Sou todo teu! Consagro-te a Igreja inteira, em toda a parte, até aos confins da terra. Consagro-te a humanidade; consagro-te os homens, meus irmãos. Todos os povos e nações. Consagro-te a Europa e todos os continentes. Consagro-te Roma e a Polônia unidas, através do teu servo, por um novo vínculo de amor. Mãe, aceita! Mãe, não nos abandones! Mãe, guia-nos Tu!» (Alocução de despedida no Santuário de Jasna Gora, 6-VI-1979).

16.09.2016 – Lc8, 1-3

Em seguida ia caminhando por cidades e aldeias, a pregar e a anunciar a Boa Nova do Reino de Deus. 2Andavam com Ele os doze e algumas mulheres, que tinham sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades: Maria, que era chamada de Magdala e de quem tinham saído sete Demônios, 3Joana, mulher de Cuzá, adminis­trador de Herodes, Susana e muitas outras, que os serviam com os seus haveres.

Comentário

1-3. Em várias ocasiões nos fala o Evangelho de mulheres que acompanhavam o Senhor. São Lucas recolhe aqui o nome de três: Maria, chamada Madalena, a quem Cristo ressuscitado aparece junto do sepulcro (Ioh 20,11-18: Mc 16,9); Joana, de posição remediada, que se encontra também entre as que acorrem ao sepulcro na manhã da Ressurreição (Lc 24,10) e Susana, da qual não temos ne­nhuma outra notícia no Evangelho. A missão destas mulheres consistia em ajudar com os seus bens e com o seu trabalho a Jesus e aos discípulos. Deste modo correspondiam com agradecimento aos benefícios que tinham recebido de Cristo, e cooperavam na tarefa apostólica.

Na Igreja a mulher e o homem gozam de igual dignidade. Dentro desta dignidade comum há na mulher, sem dúvida, características peculiares que se hão-dereflectir necessa­riamente no seu papel dentro da Igreja: «Todos os baptizados — homens e mulheres — participam igualmente da comum dignidade, liberdade e responsabilidade dos filhos de Deus (…). A mulher é chamada a levar à família, à sociedade civil, à Igreja, alguma coisa de característico, que lhe é próprio e que só ela pode dar: a sua delicada ternura, a sua generosidade incansável, o seu amor ao concreto, a sua agudeza de engenho, a sua capacidade de intuição, a sua piedade profunda e simples, a sua tenacidade… A femini­lidade não é autêntica se não reconhece a formosura dessa contribuição insubstituível e não a incorpora na própria vida»(Temas Actuais do Cristianismo, nos 14 e 87).

O Evangelho põe em realce a generosidade das santas mulheres. E formoso pensar que o Senhor quis apoiar-Se nesta caridade, e que elas souberam corresponder-Lhe com um desprendimento tão delicado e generoso, que provoca na mulher cristã «uma santa inveja, cheia de eficácia» (cfr Caminho, n°981).

17.09.2016 –Lc8, 4-15

4Como afluísse grande multidão e os de cada cidade a Ele acorressem, disse em parábola: 5Saiu o semeador para semear a sua semente. Ora, quando semeava, caiu parte .da semente à beira do caminho; foi calcada e as aves do céu comeram-na. 6Outra caiu sobre a rocha e, depois de brotar, secou por não ter humildade. 7Outra caiu no meio de espinhos e os espinhos, brotando com ela, sufocaram-na. 8E outra caiu na boa terra e, depois de brotar, deu fruto centuplicado. Dizendo isto, bradava: Quem tem ouvidos para ouvir, que oiça!

9Perguntaram-Lhe os discípulos o que queria dizer esta parábola, 10e Ele respon­deu: A vós está concedido conhecer os mistérios do Reino de Deus, mas aos outros é só em parábolas, a fim de que vendo, não vejam e, ouvindo, não entendam.

11E isto a parábola: A semente é a Palavra de Deus. 12Os que estão à beira do caminho são aqueles que ouviram; em seguida, vem o Diabo e tira-lhes a Palavra do coração, para não se salvarem, acreditando. 13Os que estão sobre a rocha são aqueles que, ao ouvirem, recebem alegremente a Palavra; mas esses não têm raiz: acreditam por algum tempo e afastam-se na altura da provação. 14A se mente que caiu nos espinhos são aqueles que ouviram, mas, no seu caminho, são sufo­cados pelos cuidados, pela riqueza e pelos prazeres da vida e não chegam à maturidade. I5E a que está na boa terra são aqueles que, tendo ouvido a Palavra com um coração recto e bom, a conservam e dão fruto com a sua perseverança.

Comentário

4-8. O Senhor dará a explicação da parábola (vv. 11-15). A semente é o próprio Jesus Cristo e a Sua pregação; e as diferentes terras reflectem as diversas atitudes dos homens diante de Jesus e da Sua doutrina: o Senhor semeia nas almas a vida divina através da pregação da Igreja e de tantas graças actuais que concede.

10-12. A finalidade que Jesus persegue com as pará­bolas é ensinar aos homens os mistérios da .vida sobrenatural para os encaminhar para a salvação, prevê, porém, que, pelas más disposições de alguns ouvintes, as parábolas serão ocasião de endurecimento e de rejeição da graça. Uma explicação mais ampla da finalidade das parábolas pode ver-se nas notas a Mt 13,10-13 e Mc 4,11-12.

  1. Há homens que, metidos numa vida de pecado, são. como o caminho onde cai a semente «-que sofre um duplo dano, é pisada pelos caminhantes e arrebatada pelas aves. O caminho é portanto o coração que está espezinhado pela frequente passagem dos maus pensamentos, e seco de tal modo que não pode receber a semente nem esta germinar» (In LucaeEvangeliumexpositio, ad loc.). As almas endure­cidas pelos pecados podem chegar a ser terra boa e dar fruto pelo arrependimento sincero e pela penitência. É de notar o empenho do demônio por conseguir que a alma continue endurecida e não se converta.

13.«A muitos agrada o que escutam, e propõem-se agir bem; mas logo que começam a ser incomodados pelas adversidades abandonam as boas obras que tinham começado. A terra pedregosa não teve suficiente substância, pelo que, o germinado não chegou a dar fruto. Há muitos que quando ouvem falar contra a avareza a detestam, e exaltam o menosprezo das coisas deste mundo; mas mal a alma vê outra coisa para desejar, esquece-se do que exaltava. Há também muitos que quando ouvem falar contra a impureza não só não desejam manchar-se com as sujidades da carne, mas até se envergonham das manchas com que se mancharam; mas logo que se apresenta à sua vista a beleza corporal, é arras­tado o coração pelos desejos de tal maneira que é como se nada tivessem feito nem determinado contra esses desejos, e fazem o que é digno de condenação e eles próprios tinham condenado ao recordar que o tinham cometido. Muitas vezes nos compungimos pelas nossas culpas e, contudo/solta­remos a cometê-las depois de as termos chorado»(In Evangeliahomiliae, 15).

  1. Trata-se daqueles que depois de receberem a semente divina, a vocação cristã, e tendo caminhado com passo firme durante algum tempo, começam a ceder na luta. Estas almas estão expostas a perder o gosto pelas coisas de Deus e, paralelamente, a iniciar o fácil e desviado caminho das compensações que lhes sugerem a sua ambição desordenada de poder, o seu afã pelas riquezas e a vida cômoda sem sofrimento.

Nesta situação começa a aparecer a tibieza, e o homem quer servir ao mesmo tempo a dois senhores: «Não é lícito viver tentando manter acesas, como diz o povo, uma vela a São Miguel e outra ao Diabo. É preciso apagar a vela do Diabo. Temos de consumir a vida fazendo-a arder inteira­mente ao serviço do Senhor. Se o nosso empenho pela santidade é sincero, se temos a docilidade de nos abandonar nas mãos de Deus, tudo correrá bem. Porque Ele está sempre disposto a dar-nos a Sua graça»(Cristo que passa, n° 59).

  1. Três são as características que Jesus Cristo assinala na terra boa: ouvir com as boas disposições de um coração generoso os requerimentos divinos; esforçar-se para que essas exigências não se atenuem com o decurso do tempo; e, por fim, começar e recomeçar sem desanimar se o fruto tarda. «Não podes ‘subir’. — Não é de estranhar: aquela queda!…

«Persevera e ‘subirás’. — Recorda o que diz um autor espiritual: a tua pobre alma é um pássaro que ainda tem as asas empastadas de lama.

«É preciso muito calor do céu e esforços pessoais, pequenos e constantes, para arrancar essas inclinações, essas imaginações, esse abatimento, essa lama pegajosa das tuas asas.

«E ver-te-ás livre. — Se perseverares, ‘subirás’»(Cami­nho, n° 991).

 

18.09.2016 –Lc 16, 1-13

Disse também aos Seus discípulos: Havia um homem rico, que tinha um infiel administrador, e este foi acusado perante ele de lhe malbaratar os bens. 2Chamou-o e disse-lhe: «Que é isto que oiço a teu respeito? Presta contas da tua administração, pois já não poderás administrar». 3Disse consigo o administrador: «Que hei-de fazer, visto o meu senhor me ir tirar a administração? Cavar não posso; mendigar, tenho vergo­nha… 4Já sei o que hei-de fazer, para que me recebam em casa, quando for removido da administração». 5E, mandando chamar um a um os devedores do seu senhor, disse ao primeiro: «Quanto deves ao meu senhor?». 6Este respondeu: «Cem talhas de azeite». «Toma o teu recibo — retorquiu-lhe — sen­ta-te depressa e escreve cinquenta». 7A seguir, disse a outro: «E tu, quanto deves?». Este respondeu: «Cem medidas de trigo». «Toma o teu recibo — retorquiu-lhe — e escreve oi­tenta». 8E o senhor elogiou o administrador desonesto, por ter procedido acautelada-mente. E que os filhos deste mundo são mais cautelosos que os filhos da luz, no trato com os seus semelhantes.

9E Eu digo-vos a vós: Arranjai amigos com o vil dinheiro para, quando este faltar, eles vos receberem nas tendas eternas.

10Quem é fiel em mui pouco é fiel também em muito, e quem é infiel em mui pouco é infiel também em muito.

11Portanto, se não fostes fiéis no que toca ao vil dinheiro, quem vos há-de confiar o verdadeiro bem? 12E se não fostes fiéis no alheio, quem vos dará o que é vosso?

I3Nenhum servo pode servir a dois senho­res, porquanto, ou há-de odiar a um e amar o outro, ou então ligar-se-á a um, desprezando o outro. Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro.

Comentário

1-8. O administrador infiel congemina o modo aresolver a sua futura situação de indigência. O Senhor dá por suposta — era evidente — a imoralidade de tal actuação. Põe em realce e louva, porém, a agudeza e o empenhe» que demonstra este homem para tirar proveito material da sua antiga condição de administrador. Jesus quer que nasalvação da alma e na propagação do Reino de Deus apliquemos, pelo menos, a mesma sagacidade e o mesmo esforço» que põem os homens nos seus negócios materiais ou na luta por fazer triunfar um ideal humano. O facto de contar com a graça de Deus não exime de modo algum de pôr todos os meios humanos honestos que sejam possíveis, ainda que isso suponha esforço árduo e sacrifício heroico.

«Que empenho põem os homens nas suas coisas terrenas!:sonhos de honras, ambição de riquezas, preocupações de sensualidade. — Eles e elas, ricos e pobres, velhos e homens feitos, e jovens, e até crianças; todos, a mesma coisa.

«—Quando tu e eu pusermos o mesmo empenho nos assuntos da nossa alma, teremos uma fé viva e operante; e não haverá obstáculo que não vençamos nos nossos empreen­dimentos apostólicos» (Caminho, n° 317).

9-11. Chama-se aqui «vil dinheiro» — aos bens deste mundo que foram obtidos por processos injustos. É tanta a misericórdia divina que essa mesma riqueza injusta pode ser também ocasião de virtude por meio da restituição, da reparação de danos e prejuízos e, depois, excedendo-se na ajuda ao próximo, nas esmolas, no fomento das fontes de trabalho, de riqueza, etc. Tal é o caso de Zaqueu, chefe de publicanos, que se compromete a restituir o: quádruplo do que tivesse roubado e, além disso, a entregar a metade dos seus bens aos necessitados. O Senhor diante dessa atitude declara categoricamente que a salvação entrou naquele dia na casa de Zaqueu (cfr Lc 19, 1-10).

Nosso Senhor fala de fidelidade no pouco referindo-se às riquezas, já que na realidade estas são mui pouca coisa comparadas com os bens espirituais. .Se o homem é fiel, generoso e desprendido no uso dessas riquezas caducas, receberá no fim o prêmio da vida eterna, a riqueza máxima e definitiva. Por outro lado, a vida humana pela sua própria natureza é um tecido de coisas pequenas; quem não lhes prestar atenção não poderá realizar coisas grandes. «Tudo aquilo em que intervimos nós, os pobrezitos dos homens — mesmo a santidade — é um tecido de pequenas coisas, que — segundo a intenção com que se fazem — podem formar uma tapeçaria esplêndida de heroísmo ou de baixeza, de virtudes ou de pecados.

«As gestas relatam sempre aventuras gigantescas, mas misturadas com pormenores caseiros do herói. — Oxalá tenhas sempre em muito apreço — é a linha recta! — as coisas pequenas»(Caminho, n° 826).

A parábola do administrador infiel é uma imagem da vida do homem. Tudo o que temos é dom de Deus, e nós somos os seus administradores, que tarde ou cedo teremos de Lhe prestar contas.

  1. Por alheio entendem-se os bens deste mundo, porque são passageiros e mutáveis. Por vosso entendem-se os bens do espírito, valores imperecedoiros, que são radicalmente nossos porque nos acompanharão na vida eterna. Por outras palavras: como nos irá ser dado o Céu se não tivermos sido fiéis na terra?

19.09.2016 –Lc8, 16-18

16Ninguém, depois de acender uma lâm­pada, a cobre com um vaso ou a põe debaixo da cama, antes a põe no candelabro, para verem a luz. 17Não há, efectivamente, coisa oculta que não se torne manifesta, nem segredo que não se saiba e venha a público. 18Tomai sentido, portanto, na maneira como ouvis, pois àquele que tiver dar-se-lhe-á, mas àquele que não tiver, ainda o que julga ter lhe será tirado.

Comentário

……

20.09.2016 –Lc8, 19-21

19Vieram então ter com Ele Sua mãe e Seus irmãos, mas não podiam abeirar-se d’Ele por causa da multidão. 20Foi-Lhe anun­ciado: Tua mãe e Teus irmãos estão lá fora e querem ver-Te. 2lDisse-lhes Ele, em resposta: Minha mãe e Meus irmãos são aqueles que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática.

Comentário

19-21. Estas palavras do Senhor ensinam-nos que o cumprimento da Vontade de Deus está por cima dos laços do sangue e que, portanto, Nossa Senhora está mais unida ao seu Filho pelo perfeito cumprimento do que Deus lhe pediu, que por o Espírito Santo ter formado d’Ela o corpo de Cristo (cfr as notas a Mt 12,48-50 e a Mc 3,31-35).

21.09.2016 –Mt 9, 9-13

9Seguindo Jesus dali, viu sentado ao telónio um homem chamado Mateus e disse-lhe: Segue-Me. E ele levantou-se e seguiu-O. 10Ora, sucedeu que, estando à mesa em sua casa, vieram muitos publicanos e pecadores pôr-se à mesa com Jesus e Seus discípulos.11Ao verem isto os Fariseus, diziam aos discípulos: Porque é que o vosso Mestre come com os publicanos e pecadores? 12Mas Ele, que os ouviu, disse: Não precisam de médico os que têm boa saúde, mas os doen­tes. 13lde, pois, aprender o que significa: quero misericórdia e não sacrifício, porque não vim Eu chamar os justos, mas os peca­dores.

Comentário

9.«Telónio»: Posto público para o pagamento de tribu­tos. Acerca do «seguir Jesus» veja-se a nota a Mt 8,18-22.

Este Mateus, a quem Jesus chama, é o apóstolo do mesmo nome e autor humano do primeiro Evangelho. É o mesmo que em Mc 2,14 e em Lc 5,27 é chamado Levi o de Alfeu, ou simplesmente Levi.

Deus é quem chama. Para seguir Jesus de modo perma­nente não basta a própria determinação do homem, mas requer-se, absolutamente, o chamamento individual por parte do Senhor; isto é, a graça da vocação (cfrMt 4, 19-21; Mc l, 17-20; Ioh l, 39; etc.). Esse chamamento implica a prévia escolha divina. Por outras palavras, não é o homem quem toma a iniciativa; pelo contrário, é Jesus quem chama primeiro e o homem corresponde a esse chamamento com a sua livre decisão pessoal: «Não fostes vós que Me escolhestes, filas fui Eu que vos escolhi a vós» (Ioh 15,16). Deve pôr-se em relevo a prontidão com que Mateus «segue» o chamamento de Jesus. Diante da voz de Deus pode entrar na alma a tentação de responder: «Amanhã, ainda não estou preparado». No fundo esta e outras razões não são mais que egoísmo e medo, além de que o medo pode ser um sintoma a mais do chamamento (cfrIoh1). Amanhã corre-se o risco de ser demasiado tarde.

Como o dos outros apóstolos, o chamamento de São Mateus dá-se no meio das circunstâncias normais da sua vida: «— Deus foi-te procurar no exercício da tua profissão?,,, « Foi assim que procurou os primeiros: Pedro, André, João e Tiago, junto das redes; Mateus, sentado à mesa dos Impostos…

«E — assombra-te! — Paulo, no seu afã de acabar com a semente dos cristãos»(Caminho, nº799).

10-11. A mentalidade desses fariseus, tão inclinada a julgar os outros e classificar facilmente como justos e pecadores, não concorda com a atitude e ensinamentos de Jesus. Já tinha dito: «Não julgueis e não sereis julgados» (Mt 7, 1), e acrescentou ainda: «Quem de vós estiver sem pecado seja o primeiro a lançar-lhe uma pedra» (Ioh 8,7).

A realidade é que todos os homens são pecadores e o Senhor veio para remir a todos. Não há, pois, razão para que se dê entre os cristãos o escandalizar-se pelos pecados de outros, visto que qualquer de nós é capaz de cometer as maiores vilezas se não for assistido pela graça de Deus.

  1. Ninguém deve desanimar ao ver-se cheio de misérias: reconhecer-se pecador é a única atitude justa diante de Deus. Ele veio buscar a todos, mas o que se considera justo, por esse mesmo facto, está a fechar as portas a Deus, porque na realidade todos somos pecadores.
  2. A frase de Jesus, tomada de Os 6, 6, conserva a expressão hiperbólica do estilo semítico. Uma tradução mais fiel ao sentido seria: «quero mais misericórdia que sacrifí­cio» . Não é que o Senhor não queira os sacrifícios que Lhe são oferecidos, mas insiste em que estes háo-de ir sempre acompanhados pela bondade do coração, visto que a caridade há-de informar toda a actívidade do cristão e com maior razão o culto a Deus (vid. 1Cor 13,1-13; Mt 5,23-24).

22.09.2016 –Lc9, 7-9

7Ouviu o tetrarca Herodes tudo o que se passava, e andava perplexo, porque alguns diziam: João ressuscitou dentre os mortos. 8Outros: Foi Elias que apareceu. E outros ainda: Foi um dos antigos profetas que ressuscitou. 9Disse Herodes: A João man­dei-o eu decapitar, mas quem é Este de quem oiço tais coisas? E procurava vê-Lo.

Comentário

7-9. Todos os judeus, se exceptuarmos os saduceus, criam na ressurreição dos mortos, ensinada por Deus nas Sagradas Escrituras (cfrEz 37,10; Dan 12,2 e 2 Mach 7,9). Por outro lado, era opinião comum entre os judeus contemporâneos de Cristo que Elias ou algum profeta havia de vir de novo (cfrDt 19,15). Esta poderia ser a razão pela qual Herodes chegou a pensar na possibilidade de que João tivesse ressuscitado (cfr Mt 14, 1-2 e Mc 6,14-16): a esta opinião era induzido ao ouvir que Jesus fazia milagres, pois supunha que os ressuscitados eram os que tinham poderes para os fazer. Não obstante, por outro lado, constava-lhe que Cristo fazia milagres já antes de morrer João (cfr Ioh 2,23) e, por isso, num primeiro momento, não sabia a que ater-se. Depois, ao crescer a fama dos milagres de Cristo, e para encontrar alguma explicação que o convencesse, decide considerar verdade que João ressuscitou, tal como no-lo contam os outros Evangelhos.

23.09.2016 –Lc9, 18-22

18Uma vez que rezava em particular, estando os discípulos com Ele, interrogou-os, nestes termos: Quem dizem as mul­tidões que Eu sou? 19Disseram eles, em resposta: João Baptista; outros, Elias, e outros que ressuscitou um dos antigos pro­fetas. 20Disse-lhes Ele: E vós quem dizeis que Eu sou? Pedro tomou então a palavra e respondeu: O Messias de Deus. 21Mas Ele, em tom severo, ordenou-lhes que a ninguém o dissessem, 22e acrescentou: O Filho do homem tem de sofrer muito, ser rejeitado por parte dos Anciãos, dos Sumos Sacer­dotes e dos Escribas, ser morto e, ao terceiro dia, ressuscitar.

Comentário

  1. «Cristo» significa ungido e é nome de honra e de ofício. Na Antiga Lei ungiam-se os sacerdotes (Ex 29,7 e 40,13) e os reis (1Sam 9,16), a quem Deus tinha mandado que se ungisse pela dignidade do seu cargo; também houve o costume de ungir os profetas (l Sam 16,13) enquanto eram intérpretes e intermediários de Deus. «Mas ao vir ao mundo Jesus Cristo, nosso Salvador, recebeu o estado e as obriga­ções dos três ofícios de sacerdote, rei e profeta, e por esta causa foi chamado Cristo» (Catecismo Romano, 1,3,7).
  2. O Senhor profetizou a Sua Paixão e Morte para facilitar a fé dos discípulos. Ao mesmo tempo manifesta a voluntariedade com que aceita os sofrimentos. «Cristo não quis glorificar-Se, mas desejou vir sem glória para padecer o sofrimento; e tu, que nasceste sem glória, queres glorificar-te? Pelo caminho que Cristo percorreu é por onde tu deves caminhar. Isto é reconhecê-Lo, isto é imitá-Lo tanto na ignomínia como na boa fama, para que te glories na Cruz, como Ele próprio Se glorificou. Tal foi o comportamento de Paulo e por isso se gloria ao dizer: ‘Longe de mim gloriar-me a não ser na Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo’ (Gal 6,14)» (ExpositioEvangelii sec. Lucam, ad loc).

24.09.2016 –Lc9, 43b-45

Estando todos admirados com tudo o que fazia, disse Jesus aos Seus discípulos: 44Fixai bem estas palavras nos vossos ouvidos: O Filho do homem vai, de facto, ser entregue nas mãos dos homens. 45Eles, porém, não entendiam aquela linguagem; estava-lhes velada, de sorte que a não atingiam e tinham receio de O interrogar sobre tais palavras.

Comentário

  1. Cristo insiste em anunciar a Sua Paixão e Morte. Primeiro veladamente (Ioh 2,19; Lc 5,35) à multidão, e depois com mais clareza aos discípulos (Lc 9,22). Estes, contudo, não entendem as Suas palavras, não porque não sejam claras, mas pela falta das disposições adequadas. Comenta São João Crisóstomo: «Ninguém se escandalize ao contemplar uns Apóstolos tão imperfeitos, porque ainda não tinha chegado a Cruz nem tinha sido dado o Espírito Santo» (Hom. sobre S. Mateus, 65).

25.09.2016 –Lc 16, 19-31

19Havia um homem rico que se vestia de púrpura e linho fino e todos os dias se dava esplêndidas festas. 20Jazia ao seu portão, Lázaro coberto de chagas, um pobre chamado Lá­zaro, 21que bem desejava saciar-se do que caía da mesa do rico. E até os cães lhe vinham lamber as chagas. 22Ora o pobre morreu e foi levado pelos Anjos ao seio de Abraão. Morreu também o rico e foi sepultado. 23E, no outro mundo, achando-se em tormentos, ergueu os olhos e viu de longe a Abraão, e Lázaro em seu seio. 24Então ergueu a voz e disse: «Pai Abraão, tem dó de mim e envia Lázaro para que molhe em água a ponta do dedo e me refresque a língua, porque sou atormentado nestas chamas». 25« Filho — respondeu Abraão — lembra-te que recebeste os teus benefícios em vida, e Lázaro de igual modo os infortúnios. E agora, ele é aqui consolado, enquanto tu és ator­mentado. 26Além de tudo isso, entre nós e vós cava-se um grande abismo, de modo que não podem os que quiserem, passar daqui para junto de vós, nem atravessar daí para junto de nós». 27Ele retorquiu: «Peço-te então, ó pai, que o mandes à minha casa paterna, pois tenho cinco irmãos; 28que os previna, para não virem, eles também, para este lugar de tormento». 29Disse-lhe Abraão: «Têm Moisés é os Profetas; que os oiçam!». 30Ele, porém, replicou: «Não, pai Abraão, mas, se alguém do seio dos mortos for ter com eles, hão-de arrepender-se». 31Este respondeu-lhe: «Uma vez que não ouvem Moisés e os Pro­fetas, tãopouco se hão-de convencer, se res­suscitar alguém dentre os mortos».

Comentário

19-31. A parábola dissipa dois erros: o dos que negavam a sobrevivência da alma depois da morte e, portanto, a retribuição ultraterrena, e o dos que interpretavam a pros­peridade material nesta vida como prêmio da rectidão moral, e a adversidade, pelo contrário, como castigo. Perante este duplo erro a parábola deixa claros os seguintes ensinamentos: que imediatamente depois da morte a alma é julgada por Deus de todos os seus actos — juízo particular —, recebendo o prêmio ou o castigo merecidos; que a Revelação divina é, de per si, suficiente para que os homens creiam no mais além.

Noutra ordem de ideias, a parábola ensina também a dignidade de toda a pessoa humana pelo tacto de o ser, independentemente da sua posição social, econômica, cul­tural, religiosa, etc. E o respeito por essa dignidade leva consigo a ajuda ao desprotegido de. bens materiais ou espiri­tuais: «Vindo a conclusões práticas e mais urgentes, o Con­cilio recomenda a reverência para com o homem, de ma­neira que cada um deve considerar o próximo, sem excepção, como um outro eu, tendo em conta, antes de mais, a sua vida e os meios necessários para a levar dignamente, não imitando aquele homem rico que não fez caso algum do pobre Lázaro» (Gaudium et spes, n 27).

Outra consequência prática do respeito pelo homem é a correcta distribuição de bens materiais, buscando ao mesmo tempo os recursos suficientes para defender a vida do homem, inclusivamente a do que ainda não nasceu, como exortava Paulo VI diante da Assembleia Geral das Nações Unidas: «Na vossa assembleia, inclusive no que diz respeito ao problema da natalidade, é onde o respeito pela vida deve encontrar a sua mais alta profissão e a sua mais razoável defesa. A vossa tarefa é actuar de tal sorte que o pão seja suficientemente abundante na mesa da humanidade e não favorecer um controle artificial dos nascimentos, que seria irracional, tendo em vista diminuir o número de comensais no banquete da vida»(Discurso Nações Unidas, n° 6).

  1. A alusão aos cães não parece um pormenor de alívio para o pobre Lázaro, mas antes uma intensificação das suas dores, em contraste com os prazeres do rico avarento, porque os cães, entre os judeus, eram animais impuros e, portanto, ordinariamente não se domesticavam.

22-26. Os bens terrenos, como também os sofrimentos, são efêmeros: acabam-se com a morte, com a qual também termina o tempo de provação, a nossa possibilidade de pecar ou de merecer; e começa imediatamente o gozo do prêmio ou o sofrimento do castigo, ganhos durante a prova da vida. Segundo definiu o Magistério da Igreja, as almas de todos os que morrem em graça de Deus, imediatamente depois da sua morte, ou da purificação para os que dela precisarem, estarão no Céu: «Cremos na vida eterna.Cremos que as almas de todos aqueles que morrem na graça de Cristo — tanto as que ainda devem ser purificadas pelo fogo do Purgatório como as que imediatamente depois de se separarem do corpo, como o bom ladrão, são recebidas por Jesus no Paraíso — constituem o Povo de Deus depois da morte, a qual será destruída totalmente no dia da Ressurreição em que estas almas se unirão com os seus corpos»(Credo do Povo de Deus, n° 28).

A expressão « seio de Abraão» indica o lugar ou estado em «que residiam as almas dos santos antes da vinda de Cristo Senhor Nosso, onde, sem sentir dor alguma, sustentados com a esperança ditosa da redenção, desfrutavam de pací­fica morada. A estas almas piedosas que estavam à espera do Salvador no seio de Abraão, libertou Cristo Nosso Senhor ao baixar aos infernos»(Catecismo Romano, l, 6,3).

22.«Morreram os dois, o rico e o mendigo, e foram levados diante de Abraão e fez-se o juízo do seu comporta mento. E a Escritura diz-nos que Lázaro recebeu consolação e, pelo contrário, ao rico foram dados tormentos. Será que o rico foi condenado porque tinha riquezas, porque abundava em bens da terra, porque ‘vestia de púrpura e linho e celebrava cada dia esplêndidos banquetes’? Não, quero dizer que não foi por esta razão. O rico foi condenado porque não ajudou o outro homem. Porque nem sequer se deu conta de Lázaro, da pessoa que se sentava ao seu portal e ansiava pelas migalhas da sua mesa. Em nenhum lugar condena Cristo a mera posse de bens terrenos enquanto tal. Pelo contrário, pronuncia palavras muito duras contra os que utilizam os bens egoisticamente, sem se fixarem nas necessi­dades dos outros (…).

«A parábola do rico avarento e do pobre Lázaro deve estar sempre presente na nossa memória; deve formar-nos a consciência. Cristo pede abertura para os irmãos e irmãs necessitados; abertura de parte do rico, do opulento, do que está abastado economicamente; abertura para o pobre, o subdesenvolvido, o desprotegido. Cristo pede uma abertura que é mais que atenção benigna, ou mostras de atenção ou meio-esforço, que deixam o pobre tão desprotegido como antes ou inclusivamente mais (…).

«Não podemos permanecer ociosos desfrutando as nossas riquezas e liberdade se nalgum lugar o Lázaro do século XX está à nossa porta. À luz da parábola de Cristo, as riquezas e a liberdade criam responsabilidades especiais. As riquezas e a liberdade criam uma obrigação especial. E, por isso, em nome da solidariedade que nos vincula a todos numa única humanidade, proclamo de novo a dignidade de toda a pessoa humana; o rico e Lázaro, os dois, são seres humanos, criados os dois à imagem e semelhança de Deus, redimidos os dois por Cristo por grande preço, pelo preço do ‘precioso Sangue de Cristo’ .(1Pet 1,19)» (Homília YankeeStadium).

24-31. O diálogo entre o rico avarento e Abraão é uma encenação didática para gravar nos ouvintes os ensina­mentos da parábola. Assim, em sentido estrito, no inferno não pode haver compaixão alguma em favor do próximo, já que ali só reina a lei do ódio contra tudo e contra todos. «Quando Abraão disse ao rico: ‘Entre vós e nós existe um abismo (…)’, manifestou que depois da morte e ressurreição não haverá lugar para penitência alguma. Nem os ímpios se arrependerão e entrarão no Reino, nem os justos pecarão e baixarão para o inferno. Este é um abismo intransponível» (A frates, Demonstratio, 20; De Sustentationeegenorum, 12). Por isso se compreendem as seguintes palavras de São João Crisóstomo: «Rogo-vos e peco-vos e, abraçado aos vossos pés, suplico-vos que, enquanto gozemos desta pequena res­piração da vida, nos arrependamos, nos convertamos, nos tornemos melhores, para que não nos lamentemos inutil­mente como aquele rico quando morrermos e o pranto não nos traga remédio algum. Porque ainda que tenhas um pai ou um filho ou um amigo ou qualquer outro que tenha influência diante de Deus, todavia, ninguém te livrará, sendo como são os teus próprios factos que te condenam»(Hom. sobre 1Cor).

26.09.2016 –Lc9, 46-50

46Veio-lhes então este pensamento: qual deles seria o maior? 47Mas Jesus, que conhe­cia o íntimo pensar deles, tomou um menino, colocou-o junto de Si 48e disse-lhes: Quem acolher em Meu nome este menino é a Mim que acolhe; e quem Me acolher acolhe Aquele que Me enviou, pois quem for o mais pequeno entre vós todos, esse é que é grande!

49João tomou a palavra e disse: Mestre, nós vimos alguém a expulsar Demônios em Teu nome e impedimo-lo, porque não anda connosco. 50Respondeu-lhe Jesus: Não impeçais, pois quem não é contra vós é a vosso favor.

Comentário

46-48. Jesus toma uma criança nos Seus braços para a oferecer como exemplo aos Apóstolos e corrigir as ambições demasiado humanas que tinham então no seu coração. Nos Apóstolos ensinou-nos a todos nós, corrigindo a nossa inclinação para buscar o que nos torna importantes, adultos. «Não queiras ser grande. — Criança, criança sempre, ainda que morras de velho. — Quando um menino tropeça e cai, ninguém estranha…; seu pai apressa-se a levantá-lo.

«Quando quem tropeça e cai é adulto, o primeiro movi­mento é de riso. — Às vezes, passado esse primeiro ímpeto, o ridículo cede o lugar à piedade. — Mas os adultos têm de se levantar sozinhos.

«A tua triste experiência quotidiana está cheia de tro­peços e quedas. Que seria de ti se não fosses cada vez mais pequeno?

«Não queiras ser grande, mas menino.Para que, quando tropeçares, te levante a mão de teu Pai-Deus»(Caminho, n° 870).

49-50. O Senhor corrige a atitude exclusivista e intole­rante dos Apóstolos. São Paulo tinha aprendido esta lição e por isso pode exclamar quando está na sua prisão romana: «É verdade que há alguns que pregam Cristo por espírito de inveja e de rivalidade, enquanto outros o fazem com boa intenção. (…) Mas, que importa? Desde que, de qualquer modo, Cristo seja anunciado, quer seja por algum pretexto quer por um verdadeiro zelo, alegro-me e alegrar-me-ei sempre» (Phil 1,15.18). «Alegra-te quando vires que outros trabalham em bons campos de apostolado. — E pede, para eles, graça de Deus abundante e correspondência a essa graça.

«Depois, tu — segue o teu caminho; persuade-te de que não tens outro» (Caminho, n° 965).

 

27.09.2016 – Lc9, 51-56

51Como estivessem a chegar os dias de ser levado deste mundo, tomou Jesus a firme resolução de Se dirigir a Jerusalém e mandou mensageiros à Sua frente. 52Estes puse­ram-se a caminho e entraram numa povoação de Samaritanos, a fim de Lhe prepa­rarem hospedagem. 53Mas não O receberam, por ir ostensivamente a caminho de Jeru­salém. 54Ao verem isto, disseram os discí­pulos Tiago e João: Senhor, queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma? 55Mas Ele, voltando-Se, repreendeu-os. 56E foram para outra povoação.

Comentário

  1. «Os dias de ser levado deste mundo»: Literalmente tempo da Sua assunção. Estas palavras referem-se ao momento em que Jesus Cristo, abandonando este mundo, sobe aos Céus. O próprio Senhor o dirá mais claramente na Ultima Ceia: «Saí do Pai e vim ao mundo; de novo deixo o mundo e vou para o Pai» (Ioh 16,28). Ao encaminhar-Se decididamente para Jerusalém, para a Cruz, Jesus cumpre voluntariamente o que Deus Pai tinha determinado: que pela Sua Paixão e Morte chegasse à Ressurreição e à Ascensão gloriosas.

52-53. Os Samaritanos eram inimigos dos Judeus. Esta inimizade provinha de que aqueles descendiam da fusão dos antigos Hebreus com os gentios que repovoaram a região da Samaria na época do cativeiro assírio (século VIII a.C.). A este motivo acrescentavam-se outros de tipo religioso: os Samaritanos tinham misturado com a religião de Moisés certas práticas supersticiosas, e não reconheciam o Templo de Jerusalém como o único lugar onde se podiam oferecer sacrifícios. Construíram o seu próprio templo no monte Garizin, que opunham ao de Jerusalém (cfrIoh 4,20); por esta razão, ao dar-se conta de que Jesus Se dirigia para a Cidade Santa, não quiseram dar-Lhe hospedagem.

54-56. Jesus Cristo corrige o desejo de vingança dos Seus discípulos, oposto à missão do Messias que não veio para perder os homens mas para os salvar (cfrLc 19,10; Ioh 12,47). Deste modo os Apóstolos vão aprendendo que o zelo pelas coisas de Deus não deve ser áspero e violento.

«O Senhor faz admiravelmente todas as coisas (…).Actua assim com o fim de nos ensinar que a virtude perfeita não guarda nenhum desejo de vingança, e que onde está presente a verdadeira caridade não tem lugar a ira e, enfim, que a debilidade não deve ser tratada com dureza, mas deve ser ajudada. A indignação deve estar longe das almas santas e o desejo de vingança longe das almas grandes»(ExpositioEvangelii sec. Lucam, ad loc.).

Deve advertir-se que entre «repreendeu» do v. 55 e «foram» do v. 56, a Vulgata Clementina inclui a cláusula: «dizendo: Não sabeis a que espírito pertenceis. O Filho do Homem não veio para perder os homens mas para os salvar». Esta cláusula vem em bastantes códices gregos e versões antigas, mas não existe nos melhores e mais antigos códices gregos. Por isso a Neo-vulgatanão recolheu este passo.

28.09.2016 – Lc9, 57-62

57Indo eles no caminho, disse-Lhe alguém: Seguir-Te-ei para onde quer que fores. 58Retorquiu-lhe Jesus: As raposas têm tocas e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça. 59Disse a outro: Segue-Me. Este respondeu: Senhor, deixa-me ir primeiro sepultar meu pai. 60Mas Ele replicou-lhe: Deixa os mortos sepultar os seus mortos, e tu vai anunciar ó Reino de Deus. 61Disse outro ainda: Seguir-Te-ei, Senhor, mas antes deixa que vá despedir-me dos meus. 62Mas Jesus respon­deu-lhe: Quem, depois de deitar a mão ao arado, olha para trás, não é apto para o Reino de Deus.

Comentário

57-62. Nosso Senhor exprime claramente as exigências que comporta o segui-Lo. Ser cristão não é tarefa fácil nem cômoda; é necessária a abnegação e pôr o amor a Deus antes de tudo. (Vejam-se as notas a Mt 8,18-22 e Mt 8,22).

Aparece aqui o caso daquele homem que quis seguir Cristo, mas com uma condição: despedir-se dos de sua casa. O Senhor vê nele pouca decisão, e dá-lhe uma resposta que nos alcança a todos, visto que todos recebemos a chamada a segui-Lo e devemos procurar não receber essa graça de Deus em vão: «Nós recebemos a graça de Deus em vão quando a recebemos à porta do coração sem lhe permitir a entrada.

Recebemo-la sem a recebermos; recebemo-la sem fruto, pois de nada serve sentir a inspiração se não se consente nela (…). Sucede por vezes que inspirados a fazer muito não acei­tamos toda a inspiração, mas apenas algo, como aqueles personagens do Evangelho que, aconselhados pelo Senhor a que O seguissem, um pediu-Lhe autorização para enterrar o pai, e o outro para se despedir dos parentes»(Tratado do amor de Deus, liv. 2, cap. 11).

A nossa lealdade e fidelidade à tarefa que Deus nos confia deve superar todo o obstáculo: «Nunca existe razão sufi­ciente para voltarmos atrás (cfr. Lc 9.62): o Senhor está ao nosso lado.Temos de ser fiéis, leais, encarar as nossas obrigações, encontrando em Jesus o amor e o estímulo para compreender os erros dos outros e superar os nossos próprios erros»(Cristo que passa, n° 160).

29.09.2016 – Jo1, 47-51

47Jesus, vendo Natanael, que vinha ao Seu encontro, diz acerca dele: Aí está um autên­tico israelita, em quem não há fingimento! 48Diz-Lhe Natanael: Donde me conheces? Respondeu-lhe Jesus, dizendo: Antes de Fi­lipe te haver chamado, quando estavas de­baixo da figueira, Eu vi-te! 49Volveu-Lhe Natanael: Rabi, Tu és o Filho de Deus, Tu és o Rei de Israel. 50Retorquiu-lhe Jesus, nestes termos: Porque te disse: «Eu vi-te debaixo da figueira», acreditas? Verás coisas maiores do que estas. 51E acrescentou: Em verdade, em verdade vos digo: Heis-de ver o Céu aberto e os Anjos de Deus subir e descer por sobre o Filho do homem.

Comentário

45-51. O apóstolo Filipe não pode deixar de transmitir ao seu amigo Natanael (Bartolomeu) a alegria da sua desco­berta, cheio de emoção (v. 45). «Natanael (…) tinha ouvido pelas Escrituras que o Cristo devia vir de Belém, da aldeia de David. Assim o criam os judeus e o tinha anunciado, tempo atrás, o profeta: ‘E tu, Belém, não és certamente a menor entre as principais cidades de Judá; pois de ti sairá um chefe, que apascentará o Meu povo, Israel’ (Mich 5,2). Portanto, ao escutar que provinha de Nazaré turvou-se e duvidou por não ver como compaginar as palavras de Filipe com a predição profética»(Hom. sobre S. João, 20,1).

Pense o cristão que ao transmitir a sua fé a outros, estes podem apresentar-lhe dificuldades. Que deve fazer? O que fez Filipe: não confiar nas suas próprias explicações, mas convidá-los a vir pessoalmente até Jesus: «Vem ver» (v. 46). O cristão, pois, deve pôr os seus irmãos os homens diante do Senhor através dos meios da graça que Ele próprio deu e a Igreja administra: freqüência de Sacramentos e prática da piedade cristã.

Natanael, homem sincero (v. 47), acompanha Filipe até Jesus. Estabelece-se o contacto pessoal com o Senhor (v. 48). E o resultado é a fé do novo discípulo, fruto do seu bom acolhimento da graça, que lhe chega através da Humani­dade de Cristo (v. 49).

Segundo podemos deduzir dos Evangelhos, Natanael é o primeiro Apóstolo que faz uma confissão explícita de fé em Jesus como Messias e como Filho de Deus. Mais tarde São Pedro, de modo mais solene, reconhecerá a divindade do Senhor (cfrMt 16,16). Aqui (v. 51) Jesus evoca um texto de Daniel (7,13) para confirmar e dar profundidade às palavras que pronunciou o novo discípulo.

30.10.2016 – Lc 10, 13-16

13Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Porque, se em Tiro e Sídon se tivessem efectuado os milagres que entre vós se efectuaram, de há muito haveriam feito penitência, prostrados no saco e na cinza. 14Aliás, haverá mais tolerância, na altura do Juízo, para Tiro e Sídon do que para vós.

15E tu, Cafarnaum, porventura serás exal­tada até ao Céu? Até ao Inferno é que serás precipitada!

16Quem vos ouve é a Mim que ouve, e quem vos rejeita é a Mim que rejeita; mas quem Me rejeita rejeita Aquele que Me enviou.

Comentário

  1. Na tarde do dia da Ressurreição o Senhor transmite aos Apóstolos a missão própria que tinha recebido do Pai, outorgando-lhes poderes semelhantes aos Seus (Ioh 20, 21).

Dias mais tarde confere a Pedro o primado que antes lhe tinha prometido (Ioh 21,15-17). A Pedro sucedeu o Romano Pontífice e aos Apóstolos os Bispos (cfrLumen gentium, n. 20). Por isso: «Os Bispos, quando ensinam em comunhão com o Romano Pontífice, devem por todos ser venerados como testemunhas da verdade divina e católica (…). Esta religiosa submissão da vontade e do entendimento é por especial razão devida ao magistério autêntico do Romano Pontífice, mesmo quando não fala ‘ex cathedra’»(Lumen gentium, n. 25).