In Evangelho do dia

Setembro de 2014

 

01.09.14 – Lc 4, 16-30

16Veio a Nazaré, onde Se tinha criado. Segundo o Seu costume, entrou em dia de sábado na sinagoga e levantou-Se para ler. 17Foi-Lhe entregue o Livro do Profeta Isaías e, ao abri-lo, deparou com a passagem em que estava escrito:

18O Espírito do Senhor está sobre Mim, por isso que Me ungiu.

A anunciar a Boa. Nova aos pobres Me enviou, a proclamar a libertação aos cativos e o recobrar da vista aos cegos, a mandar em liberdade os oprimidos, 19a proclamar um ano de graça do Senhor.

20E, depois de enrolar o livro, entregou-o ao empregado e sentou-Se. Estavam cra­vados n’Ele os olhos de quantos se encontra­vam na sinagoga. 21Começou então a dizer-lhes: Cumpriu-se hoje este passo da Escritura que acabais de ouvir. 22Todos davam testemunho em favor d’Ele e admiravam-se com as graciosas palavras que saíam da Sua boca. Não é Este — diziam — o filho de José? 23Disse-lhes Ele: Dir-Me-eis por certo este provérbio: Médico, cura-te a ti mesmo. Quanto ouvimos que se realizou em Cafarnaum, fá-lo aqui também na Tua terra. 24E continuou: Em verdade vos digo: Nenhum profeta é bem recebido na sua terra; 25mas, na realidade, vos digo Eu, muitas viúvas havia em Israel no tempo de Elias, quando o céu se fechou por três anos e seis meses e houve uma grande fome em toda a Terra, 26e a nenhuma delas foi mandado Elias, senão a uma viúva em Sarepta de Sidónia. 27E muitos leprosos havia em Israel, no tempo do Profeta Eliseu, mas nenhum deles foi limpo senão o sírio Naamã.

28Todos na sinagoga se encheram de furor, ao ouvirem estas coisas. 29Ergueram-se então, lançaram-No fora da cidade e levaram-No até a uma escarpa do outeiro em que estava construída a cidade, a fim de O precipitarem. 30Mas Jesus, passando pelo meio deles, seguiu o Seu caminho.

Comentário

16-30. O sábado era o dia de descanso e de oração para os Judeus, por mandamento de Deus (Ex 20,8-11). Neste dia reuniam-se para se instruírem na Sagrada Escritura. Começava a reunião recitando todos juntos a Shemá, resumo dos preceitos do Senhor, e as dezoito bênçãos. Depois lia-se um passo do livro da Lei — o Pentateuco —- e outro dos Profetas, O presidente convidava algum dos presentes que conhecesse bem as Escrituras a dirigir a palavra ao auditório. Por vezes levantava-se algum voluntariamente e solicitava a honra dei cumprir este encargo. Assim deve ter acontecido nesta ocasião. Jesus busca a oportunidade de instruir o povo (cfr Lc 4,16 ss.), e o mesmo farão depois os Apóstolos (cfr Act 13,5.14.42.44; 14,l, etc.). A reunião judaica terminava com a bênção sacerdotal, que recitava o presidente ou um sacerdote se o havia, à qual todos respondiam: «Amen» (cfr Num 6,22 ss.).

18-21. Jesus leu o passo de Isaías 61,1-2, onde o profeta anuncia a chegada do Senhor que libertará o povo das suas aflições. N’Ele se cumpre essa profecia, já que é o Ungido, o Messias que Deus enviou ao Seu povo atribulado. Jesus j recebe a unção do Espírito Santo para a missão que o Pai Lhe confia. «Segundo São Lucas (w. 18-19), estas afirmações são a Sua primeira declaração messiânica, à qual se seguem os factos e as palavras conhecidos por intermédio do Evangelho. Mediante tais factos e palavras, Cristo torna o Pai presente no meio dos homens» (Dives in misericórdia n. 3).

As promessas anunciadas nos vv. 18 e 19 constituem o conjunto de bens que Deus enviaria ao Seu povo por meio do Messias. Por «pobres» deve entender-se, segundo a tradição do AT e a pregação de Jesus (cfr a nota a Mt 5,3), não tanta! uma determinada condição social mas antes a atitude religiosa de indigência e de humildade diante de Deus dos que, em vez de confiar nos seus próprios bens e méritos, confiam na bondade e misericórdia divinas. Por isso evangelizar os! pobres é anunciar-lhes a «boa notícia» de que Deus Se compadeceu deles. Do mesmo modo, a Redenção, a que alude o texto, tem sobretudo um sentido espiritual e trans­cendente: Cristo vem livrar-nos da cegueira e da opressão do pecado, que são, em última análise, a escravidão a que nos submeteu o demônio. «O cativeiro é sensível — ensina São João Crisóstomo num comentário ao Salmo 126 — quando procede de inimigos corporais; mas pior é o cati­veiro espiritual a que se refere aqui, já que o pecado produz a mais dura tirania, manda o mal e confunde os que lhe obedecem: deste cárcere espiritual nos tirou Jesus Cristo» (Catena Áurea). Não obstante, este passo cumpre-se, além disso, na preocupação que Jesus manifesta pelos mais neces­sitados. «De igual modo, a Igreja abraça com amor todos os afligidos pela enfermidade humana; mais ainda, reconhece nos pobres e nos que sofrem a imagem do seu Fundador, pobre e sofredor, procura aliviar as suas necessidades, e intenta servir neles a Cristo» (Lumen gentiiim, n. 8).

18-19. As palavras de Isaías, que Cristo leu nesta ocasião, descrevem de modo gráfico a finalidade para que Deus enviou o Seu Filho: a redenção do pecado, a libertação da escravidão do demônio e da morte eterna. É certo que Cristo durante o Seu ministério público, movido pela Sua miseri­córdia, fez algumas curas, livrou alguns endemoninhados, etc. Mas não curou todos os doentes do mundo, nem suprimiu todas as penalidades desta vida, porque a dor, introduzida no mundo pelo pecado, tem um irrenunciável valor redentor unida aos sofrimentos de Jesus. Por isso, o Senhor realizou alguns milagres, que constituem não tanto o remédio das dores em tais casos concretos, mas a mostra da Sua missão divina de redenção universal e eterna.

A Igreja continua esta missão de Cristo: «Ide, pois, e fazei discípulos todas as gentes, baptizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo; e ensinando-as a observar tudo o que vos mandei. E sabei que Eu estou convosco todos os dias até ao fim do mundo» (Mt 28,19-20). São as palavras simples e sublimes do fim do Evangelho de São Mateus: aí está assinalada «a obrigação de pregar as verdades de fé, a urgência da vida sacramentai, a promessa da assistência contínua de Cristo à Sua Igreja. Não se é fiel ao Senhor se se desatendem essas realidades sobrenaturais: a instrução na fé e na moral cristãs, a prática dos sacramentos. Com este mandato Cristo funda a Sua Igreja (…). E a Igreja só pode dar a salvação às almas se permanece fiel a Cristo na sua consti­tuição, nos seus dogmas, na sua moral.

«Rejeitemos, portanto, o pensamento de que a Igreja — esquecendo o Sermão da Montanha — busca a felicidade humana na terra, porque sabemos que a sua única tarefa consiste em levar as almas à glória eterna do paraíso; rejei­temos qualquer solução naturalista, que não aprecie o papel primordial da graça divina; rejeitemos as opiniões materia­listas, que procuram fazer perder a sua importância aos valores espirituais na vida do homem; rejeitemos de igual modo as teorias secularizantes, que pretendem identificar os fins da Igreja de Deus com os dos Estados terrenos: confundindo a essência, as instituições, a actividade, com características semelhantes às da sociedade temporal» (J. Escrivá de Balaguer, Hom. O fim sobrenatural da Igreja).

18. Os Santos Padres vêem designadas neste versículo as três Pessoas da Santíssima Trindade: o Espírito (Espírito Santo) do Senhor (o Pai) está sobre Mim (o Filho) (cfr Orígenes, Homília 32). O Espírito Santo habitava na alma de Cristo desde o instante da Encarnação, e desceu visível mente em forma de pomba quando foi baptizado por João (cfr Lc 3,21-22).

«Por isso que Me ungiu»: Refere-se à unção que Jesus Cristo recebeu no momento da Encarnação, principalmente pela graça da união hipostática. «Esta unção de Jesus Cristo não foi corporal, como a dos antigos reis, sacerdotes e profetas, mas toda espiritual e divina, porque a plenitude da divindade habita n’Ele substancialmente» (Catecismo Maior, n.° 77). Desta união hipostática deriva a plenitude de todas as graças. Para a significar diz-se que Jesus Cristo foi ungido pelo próprio Espírito Santo, e não só recebeu as graças e os dons do Espírito Santo, como os santos.

19. «Ano de graça»: Alude ao ano jubilar dos judeus, estabelecido pela Lei de Deus (Lev 25,8 ss.) cada cincoenta anos, para simbolizar a época de redenção e liberdade que trará o Messias. A época inaugurada por Cristo, o tempo da Nova Lei até ao fim deste mundo, é o «ano de graça», o tempo da misericórdia e da redenção, que se alcançarão completamente na vida eterna.

De maneira semelhante, a instituição do Ano Santo na Igreja Católica tem este sentido de anúncio e recordação da Redenção trazida por Cristo e da sua plenitude na vida futura.

20-22. As palavras dó versículo 21 mostram-nos a auto­ridade com que Cristo falava e explicava as Escrituras: «Cumpriu-se hoje este passo da Escritura que acabais de ouvir». Jesus ensina que esta profecia, como as principais do AT, se referem a Ele e n’Ele têm o seu cumprimento (cfr Lc 24,44 ss.). Por isso, o AT não pode ser rectamente entendido senão à luz do NT: nisto consiste a inteligência para entender as Escrituras que Cristo Ressuscitado deu aos Apóstolos (cfr Lc 24,45) e que o Espírito Santo completou no dia de Pentecostes (cfr Act 2,4).

22-29. Os habitantes de Nazaré escutam ao princípio com agrado as palavras cheias de sabedoria de Jesus. Mas a visão destes homens é muito superficial. Com um orgulho mesquinho sentem-se feridos pelo facto de Jesus, seu con­cidadão, não ter feito em Nazaré os prodígios que fez noutras cidades. Levados por uma confiança mal entendida, exigem–Lhe com insolência que faça ali milagres para agradar à sua vaidade, mas não para se converterem. Diante desta atitude Jesus não faz nenhum prodígio, seguindo o Seu modo habitual de proceder (veja-se, por exemplo, o encontro com Herodes em Lc 23,7-11); inclusivamente censura a sua posi­ção, explicando-lhes com dois exemplos tomados do AT (cfr 1 Reg 17,9 e 2 Reg 5,14) a necessidade de uma boa disposição a fim de que os milagres possam dar origem à fé. A atitude de Cristo fere-os no seu orgulho até ao ponto de O quererem matar. Todo o episódio é uma boa lição para entender de veras a Jesus: só pode ser entendido na humildade e na séria resolução de nos pormos nas Suas mãos.

30. Jesus não foge precipitadamente, mas vai-Se reti­rando por entre a turba agitada com uma majestade que os deixou paralisados. Como noutras ocasiões, os homens não podem nada contra Jesus: o decreto divino era que o Senhor morresse crucificado (cfr Ioh 18,32) quando chegasse a Sua hora.

 

02.09.14 – Lc 4, 31-37

31Depois desceu a Cafarnaum, cidade da Galileia e, ao sábado, lá estava a ensinar aquela gente. 32Eles enchiam-se de assombro com o seu ensino, porque a Sua palavra era cheia de autoridade.

33Achava-se na sinagoga um homem que tinha o espírito dum Demônio impuro, o qual se pôs a bradar em alta voz: 34 — Ah! Que tens que ver connosco, Jesus de Nazaré? Vieste para nos perder? Eu sei quem Tu és: o Santo de Deus! 35Disse-lhe Jesus em tom severo: Cala- te e sai desse homem. E o De­mônio, depois de o arremessar para o meio da assistência, saiu sem lhe fazer mal algum. 36Todos se encheram de espanto e excla­mavam: Que palavra esta! Manda com auto­ridade e poder nos espíritos impuros, e eles saem! 37E a Sua nomeada estendeu-se a todos os lugares da região.

Comentário

33-37. A mesma autoridade que Jesus tinha mostrado com a Sua palavra mostra agora com os Seus factos.

34. O demônio diz a verdade nesta ocasião, ao cha­mar-Lhe «o Santo de Deus», mas Jesus não aceita este testemunho do «pai da mentira» (cfr Ioh 8,44). Com efeito, o demônio costuma dizer algumas vezes a verdade para en­cobrir o erro e, ao semear assim a confusão, enganar mais facilmente. Jesus, ao fazer calar o demônio e ao expul­sá-lo, ensina-nos a ser prudentes e a não nos deixarmos enganar pelas verdades a meias.

 

03.09.14 – Lc 4, 38-44

38Partiu então da sinagoga e entrou em casa de Simão. Ora a sogra de Simão estava com uma febre aguda e os discípulos inter­cederam junto d’Ele em seu favor. 39Chegando à cabeceira dela, falou imperiosa­mente à febre, que a deixou. Ela ergueu-se imediatamente e começou a servi-los.

40Ao pôr do Sol, todos quantos tinham doentes com várias enfermidades traziam-Lhos, e Jesus, impondo as mãos a cada um deles, curava-os. 41Também de muitos saíam Demônios, que gritavam: Tu és o Filho de Deus. Mas Ele, em tom severo, impedia-os de falar, porque sabiam que Ele era o Messias.

42Quando se fez dia, saiu e dirigiu-Se a um lugar solitário. Foram à Sua procura as multidões e, ao chegarem junto d’Ele, tentavam retê-Lo, para que as não deixasse. 43Mas Ele disse-lhes: Eu tenho de ir também anunciar às outras cidades a Boa Nova do Reino de Deus, que para isso é que fui enviado. 44E andava a pregar pelas sinagogas da Judeia.

Comentário

38-39. Na vida pública de Jesus aparecem vários episó­dios estranhaveis e familiares (cfr, p. ex., Lc 19,1; Ioh 2.1) que ajudam a compreender e a apreciar a estima do Senhor pela vida ordinária do lar.

Manifesta-se aqui a eficácia da oração pelos outros: « Mal rogavam ao Salvador — diz São Jerónimo — Ele imediata­mente curava os doentes; dando a entender que também atende as súplicas dos fiéis contra as paixões dos pecados» (Expositio in Evangelium sec. Lucam, ad loc.).

Sobre esta cura instantânea e completa observa São João Crisóstomo: «Como a doença era curável deu a conhecer o Seu poder no modo de curar, fazendo o que a medicina não podia. Depois da cura -da febre os enfermos necessitam de tempo para recuperar a sua antiga saúde, mas neste caso fez-se tudo no mesmo instante» (Hom. sobre S. Mateus, 27).

Os Santos Padres viram na febre desta mulher uma figura da concupiscência: «Na febre da sogra de Pedro (…) está representada a nossa carne afectada por diversas doenças e concupiscências; a nossa febre é a paixão, à nossa febre é a luxúria, a nossa febre é a ira, vícios que embora digam respeito ao corpo, perturbam a alma, a mente e o sentido» (Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc.).

Quanto às conseqüências práticas, diz-nos São Cirilo: «Recebamos nós Jesus, porque quando nos visita e O levamos na mente e no coração extingue em nós o ardor das maiores paixões, e manter-nos-á incólumes para que O sirvamos, isto é, para que façamos o que Lhe agrada» (Hom. 28 in Mattheum).

43. De novo o Senhor insiste num dos motivos da Sua vinda a este mundo. São Tomás, falando do fim da Encarnação, explica que Cristo «veio ao mundo em primeiro lugar para manifestar a verdade, como Ele próprio diz: ‘para isto nasci e para isto vim ao mundo, para dar testemunho da verdade’ (Ioh 18,37). Por isto não devia ocultar-Se, levando uma vida solitária, mas manifestar-Se em público e pregar publicamente. E assim dizia aos que pretendiam detê-Lo: É necessário que Eu anuncie também a outras cidades o Evangelho do Reino de Deus, porque para isto fui enviado’. Em segundo lugar, veio para livrar os homens do pecado, de acordo com o que diz o Apóstolo: -‘Jesus Cristo veio a este mundo para salvar os pecadores’ (l Tim 1,15). Pelo que diz o Crisóstomo: ‘Embora permanecendo sempre no mesmo lu­gar Cristo tivesse podido atrair a Si todos para que ouvissem & Sua pregação, não o fez para nos dar exemplo de que temos de ir em busca das ovelhas perdidas, como o pastor busca a ovelha extraviada, ou o médico açode ao enfermo’. Em terceiro lugar, veio para que ‘por Ele tenhamos acesso a Deus’ (Rom 5,2)» (Suma Teológica, III, q.40, a. l, c.).

 

04.09.14 – Lc 5, 1-11

1Uma vez em que a multidão se apertava em torno de Jesus, a ouvir a palavra de Deus, e Ele mesmo de pé junto ao lago de Genesaré, 2viu dois barcos estacionados no lago. Os pescadores, que deles se haviam retirado, lavavam as redes. 3Depois de subir para um dos barcos, que era de Simão, pediu-lhe que se afastasse um pouco da terra para o largo; e, sentando-Se, pôs-Se a ensinar do barco as multidões.

4Quando cessou de falar, disse a Simão: Faz-te ao largo; e vós, largai as redes para a pesca. 5Disse-Lhe Simão, em resposta: Mestre, moirejámos toda a noite e nada apanhamos; todavia, porque o dizes, largarei as redes. 6E, depois de o terem feito, apanharam grande quantidade de peixe. 7Ora as redes estavam a romper-se, e eles fizeram sinal aos companheiros que se encontravam no outro barco, para os virem ajudar. Estes vieram; e encheram ambos os barcos, a ponto de se irem afundando. 8Ao ver isso, Simão Pedro lançou-se aos pés de Jesus, dizendo: Afasta-Te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador. 9De facto, enchera-se de espanto, ele e todos os que com ele estavam, por causa da pesca que tinham feito, 10o mesmo sucedendo a Tiago e a João, filhos de Zebedeu, que eram companheiros de Simão. Disse Jesus a Simão: Não tenhas receio; doravante ficarás a apanhar homens. 11E eles, depois de reconduzirem os barcos para terra, deixaram tudo e seguiram-No.

Comentário

Se falta a entrega generosa encontraremos muitas difi­culdades para seguir a Jesus Cristo: «Desprende-te das cria­turas até ficares despido delas. Porque — diz o Papa São Gregório — o demônio nada tem de seu neste mundo, e açode nu à contenda. Se vais, vestido, lutar com ele, em breve cairás por terra. Porque terá por onde apanhar-te» (Caminho, n.° 149).

 

05.09.14 – Lc 5, 33-39

33Disseram-Lhe eles: Os discípulos de João jejuam muita vez e recitam orações; o jejum mesmo fazem também os dos Fariseus. Os Teus, porém, comem e bebem! 34Mas Jesus respondeu-lhes: Podeis vós fazer jejuar os companheiros do noivo, enquanto o noivo está com eles? 35Lá virão dias!… e, quando o noivo lhes for tirado, então, nesses dias, hão-de jejuar. 36Disse-lhes também uma parábola: Ninguém recorta um remendo de vestido novo para o deitar em vestido velho. Aliás, não só rasga o novo, mas também não se ajustará ao velho o remendo que vem do novo. 37Nem ninguém deita vinho novo em odres velhos. Aliás, o vinho novo romperá os odres, derramar-se-á, e os odres ficarão estragados. 38Mas deve deitar-se vinho novo em odres novos. 39E ninguém que bebeu do velho quer do novo, pois diz: «Ó velho é que é bom!»

Comentário

33-35. No Antigo Testamento estavam prescritos por Deus alguns dias de jejum; o mais assinalado era o «dia da expiação» (Num 29,7; Act 27,9). Por jejum costuma enten­der-se a abstenção, total ou parcial, de comida ou de bebida, e assim o entendiam também os Judeus. Moisés e Elias tinham jejuado (Ex 34,28; l Reg 19,8), e o próprio Senhor jejuaria no deserto durante quarenta dias, antes de começar o Seu ministério público. No passo que comentamos, Jesus Cristo dá também um sentido mais profundo do jejum: a privação da Sua presença física, que os Apóstolos sofrerão depois da morte. O Senhor ia preparando os discípulos durante a Sua vida pública para a separação definitiva. Ao começo os Apóstolos não eram ainda fortes, e era mais conveniente que fossem consolados com a presença corporal de Cristo do que exercitados com a austeridade do jejum. Também os cristãos devem privar-se por vezes do ali­mento: «Jejuar e abster-se de comer carne quando o manda a Santa Madre Igreja» (Catecismo Maior, n.° 495). Este é o objecto do quarto mandamento da Igreja. Mas, além disso, num sentido mais profundo, como diz São Leão Magno: «O mérito dos nossos jejuns não consiste somente na absti­nência dos alimentos; de nada serve tirar ao corpo a sua nutrição se a alma não se afasta da iniqüidade e se a língua não deixa de falar mal» (Sermo IV in Quadragesima).

 

06.09.14 – Lc 6, 1-5

Passando Jesus, a um sábado, através dumas searas, puseram-se os Seus discípulos a arrancar e a comer espigas, esfre­gando-as com as mãos. 2Disseram alguns dos Fariseus: Porque fazeis o que não é permitido fazer ao sábado? 3Disse-lhes Jesus, em resposta: Nem sequer lestes o que fez David, quando teve fome, ele e os que estavam com ele? 4Como entrou na casa de Deus e, tomando os pães da proposição, deles comeu e deu aos companheiros, esses pães que só aos sacerdotes é permitido comer? 5E foi-lhes dizendo: O Filho do homem é senhor até do sábado.

Comentário

1-5. Diante da acusação dos fariseus, Jesus explica o sentido correcto do descanso sabático, invocando um exemplo do Antigo Testamento. Além disso, ao declarar-Se «Senhor do sábado» manifesta abertamente que Ele é o próprio Deus que deu o preceito ao povo de Israel. Para uma explicação mais ampla, vejam-se as notas a Mt 12,2 e 12,3-8.

 

07.09.14 – Mt 18, 15-20

15Se teu irmão cometer alguma falta contra ti, vai erepreende-o, a sós, entre ti e ele. Se te ouvir, terás ganho o teu irmão. 16Mas se não te ouvir, toma contigo mais um ou dois, para que toda a questão se ajuste sob a palavra de duas ou três testemunhas. 17Se, porém, os não ouvir, diz à Igreja. E se nem sequer ouvir a Igreja, seja para ti como o gentio e o publicano. 18Em verdade vos digo que tudo o que ligardes na Terra, será ligado no Céu; e tudo o que desligardes na Terra, será des­ligado no Céu.

19Outra vez vos digo em verdade que, se dois de vós sobre a Terra concordarem em pedir alguma coisa, ser-lhes-á concedido por Meu Pai que está nos Céus. 20Porque, onde estão dois reunidos em Meu nome, aí estou Eu no meio deles.

Comentário

15-17. O Senhor faz-nos aqui urna chamada a cooperar com Ele na santificação dos outros através da correcção fraterna, entre outros possíveis meios. Às fortes palavras com que o Senhor condenava o escândalo, seguem-se agora estas outras, não menos fortes, contra o pecado da negligência (cfr Hom. sobre S. Mateus, 61).

Existe obrigação de corrigir. O Senhor indica três graus de correcção: 1) a sós, 2) diante de uma ou duas testemu­nhas, e 3) diante da Igreja. A primeira refere-se aos escânda­los e pecados secretos ou particulares. Deve fazer-se a sós, com o fim de não proclamar sem necessidade o que é privado; também para não ferir o corrigido e facilitar a sua rectificação. Se esta correcção não desse o resultado que se busca, e a causa fosse grave, há-de recorrer-se ao segundo momento: buscar um ou dois amigos, cuja intervenção pode ser mais persuasiva. Por último vem a correcção jurídica, que se faz oficialmente diante da autoridade eclesiástica. Se o pecador assim advertido não admite a correcção, deve ser excomun­gado, isto é, afastado da comunhão da Igreja e dos seus sacramentos.

18. E preciso compreender este versículo em relação com o poder prometido antes a Pedro (cfr Mt 16,13-19). Será, pois, a hierarquia da Igreja quem vai exercer este poder outorgado por Cristo a Pedro, aos Apóstolos e aos seus legítimos sucessores: o Papa e os Bispos.

19-20. «Ubi caritas et amor, Deus ibi est», «onde há caridade e amor, aí está Deus», canta a liturgia da Quinta–Feira Santa, inspirada no texto sagrado de l Ioh 4, 12. Pois, com efeito, o amor não se concebe onde há um só, mas supõe duas ou mais pessoas (cfr Comentário sobre S. Mateus, 18, 19-20). Assim, quando vários cristãos se reúnem em nome de Cristo para orar, entre eles está presente o Senhor, que escuta com agrado essa oração unânime dos seus: «Todos eles se entregavam assiduamente à oração numa só alma, com algumas mulheres, incluindo Maria, mãe de Jesus» (Act l, 14). Por isso, a Igreja viveu desde o princípio a prática da oração em comum (cfr Act 12, 5). «Há práticas de piedade — poucas, breve e habituais — que sempre se viveram nas famílias cristãs, e entendo que são maravilhosas: a bênção da mesa, a oração antes e depois das refeições, a recitação do Terço juntos — apesar de não faltar, nestes tempos, quem ataque essa solidíssima devoção mariana —, as orações pessoais ao levantar e ao deitar. Tratar-se-á de costumes diversos segun­do os lugares, mas penso que sempre se deve fomentar algum acto de piedade, que os membros da família realizem juntos, de forma simples e natural, sem beatices» (Temas Actuais do Cristianismo, n.° 103).

 

08.09.14 – Mt 1, 1-16, 18-23

Genealogia de Jesus Cristo, filho de Genealogia David, filho de Abraão.

2Abraão gerou a Isaac, Isaac gerou a Jacob, Jacob gerou a Judas e seus irmãos. 3Judas gerou a Fares e a Zara, de Tamar. Fares gerou a Esron, Esron gerou a Arão. 4Arão gerou a Aminabad, Aminabad gerou a Naásson, Naásson gerou a Salmon. 5Salmon gerou a Booz, de Raab. Booz gerou a Obed, de Rute. Obed gerou a Jessé, Jessé gerou a el-rei David.

6David gerou a Salomão, da que fora mulher de Urias. 7Salomão gerou a Roboão, Roboão gerou a Abias, Abias gerou a Asa. 8Asa gerou a Josafá, Josafá gerou a Jorão; Joráo gerou a Ozias. 9Ozias gerou a Joatã, Joatã gerou a Acaz, Acaz gerou a Ezequias. 10Ezequias gerou a Manasses, Manasses gerou a Amos, Amos gerou a Josias. 11Josias gerou a Jeconias e seus irmãos, no tempo da deportação para Babilônia.

l2Depois da deportação para Babilônia, Jeconias gerou a Salatiel, Salatiel gerou a Zorobabel. 13Zorobabel gerou a Abiud, Abiud gerou a Eliacim, Eliacim gerou a Azor. l4Azor gerou a Sadoc, Sadoc gerou a Aquim, Aquim gerou a Eliud. 15Eliud gerou a Eléazar, Eléazar gerou a Mata, Mata gerou a Jacob. l6Jacob gerou a José, o esposo de Maria da qual nasceu Jesus, que se chama Cristo.

18Ora o nascimento de Jesus foi assim: Estando Maria, sua Mãe, desposada com José, antes de morarem juntos, notou-se que tinha concebido por virtude do Espírito Santo. 19José, seu esposo, como era justo e não a queria infamar, resolveu deixá-la secretamente. 20Mas, andando ele com este pensamento, apareceu-lhe, em sonhos, um anjo do Senhor, que lhe disse:

— José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou, é obra do Espírito Santo. 2lEla dará à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus, porque Ele salvará o seu povo dos seus pecados.

22Ora tudo isto aconteceu para se cumprir o que o Senhor tinha anunciado pelo profeta, que disse: 23«Eis que uma Virgem conceberá e dará à luz um filho, a quem será dado o nome de Emanuel», que quer dizer «Deus connosco».

Comentário

1. Este versículo vem a ser como que o título de todo o Evangelho. Em Jesus Cristo cumprem-se as promessas divinas de salvação feitas a Abraão em favor de toda a humanidade (Gen 12,3). Igualmente se cumpre a profecia de um reino eterno dada por meio do profeta Natan ao rei David (2Sam 7,12-16).

A genealogia que introduz São Mateus, no começo do seu Evangelho, mostra a ascendência de Jesus Cristo segundo a Sua humanidade, ao mesmo tempo que dá uma indicação da plenitude a que chega a História da Salvação com a Encarnação do Filho de Deus, por obra do Espírito Santo. Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, é o Messias esperado.

A genealogia está apresentada segundo uma estrutura de três grupos. Cada grupo consta de catorze elos que mostram o desenvolvimento progressivo da história sagrada.

Entre os Judeus (como entre outros povos orientais de origem nômada) a árvore genealógica tinha uma importância capital. Há que ter em conta que, precisamente por essa origem semi-nômada, a identidade de uma pessoa estava especialmente ligada à família e tribo, sendo menos signifi­cativo o lugar. No povo hebreu a essas circunstâncias acrescentava-se o significado religioso de pertencer pelo sangue ao povo eleito.

Ainda na época de Jesus a árvore genealógica se conservava nas famílias judaicas com todo o cuidado, pois segundo essa árvore as pessoas constituiam-se em sujeitos de direitos e obrigações.

6. Nas genealogias nomeiam-se quatro mulheres: Tamar (cfr Gen 38; lChr 2,4), Rahab (cfr Ios 2; 6, l7), Betsabé (cfr 2Sam 11; 12,24) e Rut (cfr livro de Rut). Estas quatro mulheres estrangeiras, que de um ou outro modo se incorporam na história de Israel, são um símbolo, entre muitos outros, da salvação divina que abarca toda a humanidade.

Ao citar também outros personagens pecadores, mostra-se como os caminhos de Deus são diferentes dos caminhos humanos. Através de homens cujo comportamento não foi recto Deus vai realizar os Seus planos de salvação. Ele salva-nos, santifica-nos e escolhe-nos para fazer o bem, apesar dos nossos pecados e infidelidades. Tal é o realismo que Deus quis fazer constar na história da nossa salvação.

11. Sobre a deportação para Babilônia fala-se em 2Reg 24-25. Com este facto cumpre-se a ameaça dos profetas ao povo de Israel e aos seus reis, como castigo da sua infidelidade aos mandamentos da Lei de Deus, especialmente ao primeiro.

16. Entre os Hebreus as genealogias faziam-se por via masculina. José, como esposo de Maria, era o pai legal de Jesus. A figura do pai legal é equivalente quanto a direitos e obrigações à do verdadeiro pai. Neste facto se fundamenta solidamente a doutrina e a devoção ao Santo Patriarca como padroeiro universal da Igreja, visto que foi escolhido para desempenhar uma função muito singular no plano divino da nossa salvação: pela paternidade legal de São José é Jesus Cristo Messias descendente de David.

Do costume ordinário de celebrar os desposórios entre os membros de uma mesma estirpe, deduz-se que Maria pertencia à casa de David. Neste sentido falam também antigos Padres da Igreja. Assim Santo Inácio de Antioquia, Santo Ireneu, São Justino e Tertuliano, os quais fundamentam o seu testemunho numa tradição oral constante.

É de assinalar que São Mateus, para indicar o nascimento de Jesus, usa uma fórmula completamente diversa da aplicada aos demais personagens da genealogia. Com estas palavras o texto ensina positivamente a conceição virginal de Jesus, sem intervenção de varão.

18. São Mateus narra aqui como foi a conceição de Cristo (cfr Lc l, 25-38): «(…) verdadeiramente celebramos e veneramos por Mãe de Deus (Maria), por ter dado à luz uma pessoa que é juntamente Deus e homem (…)» (Catecismo Romano, l, 4, 7).

Segundo as disposições da Lei de Moisés, aproxima­damente um ano antes do casamento realizavam-se os desposórios. Estes tinham praticamente já o valor jurídico do matrimônio. O casamento propriamente dito consistia, entre outras cerimônias, na condução solene e festiva da esposa para casa do esposo (cfr Dt 20,7).

Já desde os desposórios era preciso o libelo de repúdio, no caso de ruptura das relações.

Todo o relato do nascimento de Jesus ensina através do cumprimento da profecia de Isaías 7, 14 (que citará expres­samente nos versículos 22-23): 1.° Jesus é descendente de David pela via legal de José; 2.° Maria é a Virgem que dá à luz segundo a profecia; 3.° o caracter miraculoso da con­ceição do Menino sem intervenção de varão.

19. «José era efectivamente um homem corrente, em quem Deus confiou para operar coisas grandes. Soube viver, tal como o Senhor queria, todos e cada um dos aconteci­mentos que compuseram a sua vida. Por isso, a Escritura Santa louva José, afirmando que era justo. E, na linguagem hebraica, justo quer dizer piedoso, servidor irrepreensível de Deus, cumpridor da Vontade divina (cfr Gen 7,1; 23-32; Ez 18,5 ss; Pry 12, 10); outras vezes significa bom e caritativo com o próximo (cfr Tob 7,6; 9,6). Numa palavra, o justo é o que ama a Deus e demonstra esse amor, cumprindo os Seus manda­mentos e orientando toda a sua vida ao serviço dos irmãos, os outros homens» (Cristo que passa, n.° 40).

José considerava santa a sua esposa não obstante os sinais da sua maternidade. Por isso se encontrava perante uma situação inexplicável para ele. Procurando precisamente actuar de acordo com a vontade de Deus sentia-se obrigado a repudiá-la, mas, com o fim de evitar a infâmia pública de Maria, decide deixá-la privadamente.

É admirável o silêncio de Maria. A sua entrega perfeita a Deus leva-a inclusivamente a não defender a sua honra e a sua inocência. Prefere que caia sobre Ela a suspeita e a infâmia, a manifestar o profundo mistério da Graça. Perante um facto inexplicável por razões humanas, abandona-se confiadamente no amor e providência de Deus.

Devemos contemplar a magnitude da prova a que Deus submeteu estas duas almas santas: José e Maria. Não nos pode causar estranheza que também nós sejamos submetidos por vezes, ao longo da vida, a provas duras; nelas temos de confiar em Deus e permanecer-Lhe fiéis, a exemplo de José e Maria.

20. Deus ilumina oportunamente o homem que actua com rectidão e confia no poder e sabedoria divina, perante situações que superam a compreensão da razão humana. O anjo recorda neste momento a José, ao chamar-lhe filho de David, que é o elo providencial que une Jesus com a estirpe de David, segundo a profecia messiânica de Natan (cfr 2 Sam 7, 12). Corno diz São João Crisóstomo: «Antes de mais recorda-lhe David, de quem tinha de vir Cristo, e não lhe consente estar perturbado desde o momento que, pelo nome do mais glorioso dos seus antepassados, lhe traz à memória a promessa feita a toda a sua linhagem » (Hom. sobre S. Mateus, 4).

«Jesus Cristo, único Senhor, nosso, Filho de Deus, quando tomou por nós carne humana no ventre da Virgem, foi con­cebido não por obra de varão, como os outros homens, mas, sobre toda a ordem natural, por virtude do Espírito Santo; de tal maneira que a mesma pessoa (do Verbo), permanecendo Deus, como o era desde a eternidade, se fizesse homem, o qual não era antes» (Catecismo Romano, 1,4,1).

21. Segundo a raiz hebraica, o nome de Jesus significa «salvador». Depois da Virgem Santa Maria, José é o primeiro homem que recebe esta declaração divina do facto da salvação, que já se estava a realizar.

«Jesus é o nome exclusivo do que é Deus e homem, o qual significa salvador, imposto a Cristo não casualmente nem por ditame ou disposição humana, mas por conselho e mandato de Deus.

(…) Os nomes profetizados (… o Admirável, o Conselheiro, Deus, o Forte, o Pai do século vindouro, o Príncipe da paz, cfr Is 9, 6), que se deviam dar por disposição divina ao Filho de Deus, resumem-se no nome de Jesus, porque, enquanto os outros se referem apenas sob algum aspecto à salvação que nos devia dar, este compendiou em si mesmo a realidade e a causa da salvação de todos os homens» (Catecismo Romano I, 3, 5 e 6).

23. «Emanuel»: A profecia de Isaías 7, 14 citada neste versículo, preanunciava, já desde há uns sete séculos, que o sinal da salvação divina ia ser o acontecimento extraor­dinário de uma virgem que vai dar à luz um filho. O Evan­gelho revela-nos, pois, neste passo duas verdades:

A primeira que, na verdade, Jesus é o Deus connosco preanunciado pelo profeta. Assim o sentiu sempre a tradição cristã. Inclusivamente o Magistério da Igreja (no Breve Divina de Pio VI, 1779) condenou uma interpretação que negava o sentido messiânico do texto de Isaías. Cristo é, pois, verdadeiramente Deus connosco, não só pela Sua missão divina mas porque é Deus feito homem (cfr Jo 1, 14).Não quer dizer que Jesus Cristo tenha de ser normalmente chamado Emanuel: este nome refere-se mais directamente ao Seu mistério de Verbo Encarnado. O anjo da anunciação indicou que Lhe fosse posto o nome de Jesus, que significa Salvador. Assim o fez São José.

A segunda verdade que nos revela o texto sagrado é que Santa Maria, em quem se cumpre a profecia de Is 7, 14, permanece virgem antes do parto e no próprio parto. Preci­samente o sinal miraculoso que dá Deus de que chegou a salvação é que uma mulher que é virgem, sem deixar de o ser, é também mãe.

« Jesus Cristo saiu do seio materno sem detrimento algum da virgindade de Sua Mãe; assim pois, com louvores merecidíssimos, celebramos a sua imaculada e perpétua virgindade. E isto em verdade operou-se por virtude do Espírito Santo, que tanto engrandeceu a Mãe na conceição e no nascimento do Filho, que lhe deu a ela fecundidade e conservou ao mesmo tempo a sua perpétua virgindade» (Catecismo Romano, 1,4,8).

 

09.09.14 – Lc 6, 12-19

12Nesses dias, saiu Ele em direcção ao monte, para fazer oração, e passou a noite a orar a Deus. 13Ao amanhecer, chamou os discípulos e escolheu doze entre eles, aos quais deu precisamente o nome de Após­tolos: 14Simão, a quem deu também o nome de Pedro, e André, irmão deste; Tiago e João; Filipe e Bartolomeu; 15Mateus e Tome; Tiago, filho de Alfeu, e Simão, que era chamado Zeloso; 16Judas, irmão de Tiago, e Judas Iscariotes, que veio a ser o traidor.

17Descendo com eles, ficou num sítio plano, Ele, um numeroso grupo de discípulos Seus e grande multidão dos do povo, prove­nientes de toda a Judeia, de Jerusalém e do litoral de Tiro e de Sídon, I8que tinham vindo para O ouvirem e se curarem de suas doenças. E os que eram molestados por espíritos impuros ficavam curados. 19Toda a multidão procurava tocar-Lhe, porque saía d’Ele uma força que a todos curava.

Comentário

12-13. Com certa solenidade o Evangelista relata a trans­cendência deste momento em que Jesus constitui os Doze em Colégio Apostólico: «O Senhor Jesus, depois de ter orado ao Pai, chamando a Si os que Ele quis, elegeu doze para estarem com Ele e para os enviar a pregar o Reino de Deus (cfr Mc3,13-19;Mt 10,1-42): e a estes Apóstolos constituiu-os em colégio ou grupo estável e deu-lhes como chefe a Pedro, escolhido de entre eles (cfr Ioh 21,17). Enviou-os primeiro aos filhos de Israel e, depois, a todos os povos, para que, participando do Seu poder, fizessem de todas as gentes discípulos seus e as santificassem e governassem (cfr Mt 28,16-20 e par J e deste modo propagassem e apascentassem a Igreja, servindo-a, sob a direcção do Senhor, todos os dias até ao fim dos tempos (cfr Mt 28,20). No dia de Pentecostes, foram plenamente confirmados nesta missão (cfr Act 2,1-36) (…). Os Apóstolos, pois, pregando por toda a parte o Evan­gelho (cfr Mc 16,20), recebido pelos ouvintes graças à acção do Espírito Santo, reúnem a Igreja universal que o Senhor fundou sobre os Apóstolos e levantou sobre o bem-aventurado Pedro seu chefe, sendo Jesus Cristo a suma pedra angular (cfr Apc 21,14; Mt 16,18; Eph 2,20). A missão divina confiada por Cristo aos Apóstolos durará até ao fim dos tempos (cfr Mt 28,20), uma vez que o Evangelho que eles devem anunciar é em todo o tempo o princípio de toda a vida na Igreja; pelo que os Apóstolos trataram de estabelecer sucessores, nesta sociedade hierarquicamente constituída» (Lumen gentium, nn. 19-20).

Jesus Cristo, antes de instituir o Colégio Apostólico, passou toda a noite em oração. É uma oração que Cristo faz pela Sua Igreja como tantas outras vezes (Lc 9,18; Ioh 17,1 ss.). Deste modo, o Senhor prepara os Seus Apóstolos, colunas da Igreja (cfr Gal 2,9). Próximo da Paixão, rogará ao Pai por Simão Pedro como cabeça da Igreja, e assim lho manifestará de um modo solene: «Mas Eu roguei por ti para que não desfaleça a tua fé» (Lc 22,32). A Igreja, seguindo o exemplo de Cristo, dispõe que na oração litúrgica se elevem preces em muitas ocasiões pelos pastores da Igreja: Romano Pontífice, Bispos e sacerdotes; pedindo a graça de Deus para que possam cumprir fielmente o seu ministério.

São contínuos os ensinamentos de Cristo de que temos de orar sempre (Lc 18,1). Nesta ocasião mostra-nos com o Seu exemplo que ,nos momentos importantes da nossa vida de­vemos orar com especial intensidade. «’Pernoctans in oratione Dei’» — passou a noite em oração. — É o que São Lucas nos diz do Senhor.

«Tu, quantas vezes perseveraste assim? — Então…?» (Ca­minho, n.° 104).

Sobre a conveniência e as qualidades da oração do cristão, vejam-se as notas a Mt 6,5-6; 7,7-11; 14,22-23; Mc 1,35; Lc 5,16; 11,1-4; 18,1; 22,41-42.

12. Como é que Jesus Cristo, sendo Deus, faz oração?: Em Cristo há duas vontades, uma divina e outra humana (cfr Catecismo Maior, n.° 91), e ainda que pela Sua vontade divina era omnipotente, não assim pela Sua vontade humana. O que fazemos na oração de petição é manifestar a nossa vontade diante de Deus, e por isso Cristo, semelhante em tudo a nós menos no pecado (Heb 4,15), devia orar também como homem (cfr Suma Teológica, III, q. 21, a. 1). Ao con­templar Jesus em oração. Santo Ambrósio comenta: «O Se­nhor ora não para pedir por Ele, mas para interceder em meu favor; pois ainda que o Pai tenha posto todas as coisas à disposição do Filho, contudo o Filho, para realizar plena­mente a Sua condição de homem, julga oportuno implorar ao Pai por nós, pois Ele é o nosso Advogado (…). Mestre de obediência, instrui-nos com o Seu exemplo nos preceitos da virtude: ‘Temos um Advogado diante do Pai’ (1 Ioh 2,1)» (Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc.).

14-16. Jesus Cristo escolheu para Seus Apóstolos uns homens correntes, quase todos pobres e ignorantes; parece que só Mateus e os irmãos João e Tiago gozavam de certa! posição social e econômica. Mas todos deixaram o muito ou pouco que tinham e também todos, menos Judas, tiveram li l no Senhor e, vencendo as suas próprias debilidades, souberam finalmente ser fiéis à graça e ser santos, colunas da ‘ Igreja. Não nos inquietemos se, como os Apóstolos, nos vemos faltos de qualidades humanas, porque o importante é j ser fiéis, corresponder pessoalmente à graça de Deus.

19. Deus encarnou para nos salvar. Através da natureza humana que assumiu, actua a Pessoa divina do Verbo. As curas e as expulsões de demônios que Cristo realizou enquanto vivia na terra são também uma prova de que a Redenção operada por Cristo é uma realidade, não uma mera esperança. As multidões da Judeia e das outras regiões de Israel, que se aproximam até tocar o Mestre, são, de alguma maneira, uma antecipação da devoção dos cristãos à Santíssima Humanidade de Cristo.

 

10.09.14 – Lc 6, 20-26

20Erguendo os olhos para os Seus discípulos, pôs-Se a dizer: Felizes de vós, os pobres, porque é vosso o Reino de Deus.

21Felizes de vós, os que tendes agora fome, porque sereis saciados.

Felizes de vós, os que chorais agora, porque haveis de rir.

22Felizes sereis quando os homens vos odiarem, e quando vos rejeitarem, vos insul­tarem, e proscreverem o vosso nome como infame, por causa do Filho do homem. 23Alegrai-vos e exultai nesse dia, pois é grande no Céu a vossa recompensa. Desse modo, efectivamente, é que procediam os pais deles com os profetas.

24Mas?ai de vós, os ricos, porque recebeis a vossa consolação.

25Ai de vós, os que estais agora fartos, porque haveis de ter fome.

Ai de vós, os que rides agora, porque haveis de entristecer-vos e chorar.

26Ai de vós, quando todos os homens de vós disserem bem.

Desse modo, efectivamente, é que pro­cediam os pais deles com os falsos profetas. 24Mas?ai de vós, os ricos, porque recebeis a vossa consolação.

25Ai de vós, os que estais agora fartos, porque haveis de ter fome.

Ai de vós, os que rides agora, porque haveis de entristecer-vos e chorar.

26Ai de vós, quando todos os homens de vós disserem bem.

Desse modo, efectivamente, é que pro­cediam os pais deles com os falsos profetas.

Comentário

20-26. As oito Bem-aventuranças que São Mateus apre­senta (5,3-12) oferece-as São Lucas resumidas em quatro, mas acompanhadas de quatro antíteses. Podemos dizer, com Santo Ambrósio, que as oito de Mateus estão compreendidas nas quatro de Lucas (cfr Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc.). As expressões do texto de Lucas têm, por vezes, uma forma mais directa e incisiva que as do primeiro Evangelho, que são mais explicativas; por exemplo, a primeira bem-aventurança diz simplesmente «Felizes os pobres», en­quanto em Mateus se lê «Bem-aventurados os pobres em espírito», que constitui uma breve explicação do sentido da virtude da pobreza.

20. «Todo o cristão corrente tem que tornar compa­tíveis na sua vida dois aspectos que, à primeira vista, podem parecer contraditórios: pobreza real, que se note e que se toque — feita de coisas concretas — que seja uma profissão de fé em Deus, uma manifestação de que o coração não se satisfaz com coisas criadas, mas aspira ao Criador, que deseja encher-se do amor de Deus e depois dar a todos desse mesmo amor; e, ao mesmo tempo ser mais um entre os seus irmãos os homens, de cuja vida participa, com que se alegra, com quem colabora, amando o mundo e todas as coisas criadas para resolver os problemas da vida humana e para estabelecer o ambiente espiritual e material que facilite o desenvolvimento das pessoas e das comunidades.

«(…) O melhor exemplo de pobreza sempre foram esses pais e essas mães de família numerosa e pobre que se desfazem pelos seus filhos e que, com o seu esforço e cons­tância — muitas vezes sem voz para dizer a alguém que passam necessidades — mantêm os seus, criando um lar alegre em que todos aprendem a amar, a servir, a trabalhar» (Temas Actuais do Cristianismo, n.os 110 e 111).

24-26. Com estas quatro exclamações condena o Ser a avareza e o apego aos bens do mundo; o excessivo cuida do corpo, a gula; a alegria néscia e a busca da própria l complacência em tudo; a adulação, o aplauso e o afã desordenado de glória humana. Quatro tipos de vícios que são muito comuns no mundo, e diante dos quais o cristão deve l estar vigilante para não se deixar arrastar por eles.

24. De modo semelhante a como no v. 20 se fala dos pobres referindo-se àquelas pessoas que amam a pobreza para agradar mais a Deus, assim, neste versículo, por ricos» há que entender aqueles que se afanam em acumular bens sem atender à liceidade ou iliceidade dos meios empregados, e que, além disso, põem nestas riquezas a sua felicidade, como se fossem o seu fim último. Pelo contrário, aqueles ricos que por herança ou através de um trabalho honrado abundam em bens são realmente pobres se não se apegam àesses bens, e como conseqüência desse desprendimento sabem empregá-los em benefício dos outros, segundo Deus lhes pede. Na Sagrada Escritura aparecem alguns personagens como Abraão, Isaac, Moisés, David e Job aos quais, mesmo possuindo muitas riquezas, se pode aplicar a bem-aventurança dos pobres.

Já em tempos de Santo Agostinho havia quem entendesse mal a pobreza e a riqueza, fazendo este raciocínio: o Reino dos Céus será dos pobres, dos Lázaros, dos famintos; os ricos são todos maus, como o rico avarento. Diante destas opiniões errôneas explica Santo Agostinho o sentido profundo da riqueza e da pobreza segundo o espírito evangélico: « Ouve-me, senhor pobre, sobre o que dizes. Quando te chamas a ti mesmo Lázaro, aquele santo varão chagado, temo que por soberba não sejas aquele que dizes. Não desprezes os ricos misericordiosos, os ricos humildes; ou, para o dizer em poucas palavras, não desprezes os que denominei ricos pobres. Oh pobre!, sé tu pobre também; pobre, ou seja, humilde (…). Ouve-me, pois. Se verdadeiro pobre, sé piedoso, sé humilde; se te glorias dos teus andrajos e da tua pobreza ulcerosa, se te glorias de te assemelhares ao mendigo estendido junto da casa do rico, não reparas senão em que foi pobre e não te fixas em nada mais. Em que vou fixar-me?, dizes. Lê as Escrituras e entenderás o que te digo. Lázaro foi pobre, mas aquele para cujo seio foi levado era rico. ‘Sucedeu — está escrito — que morreu o pobre e foi levado pelos anjos ao seio de Abraão’. Para onde? Para o seio de Abraão, ou digamos, para o misterioso lugar onde repousava Abraão. Lê (…) e pondera como Abraão foi opulentíssimo na terra, onde teve em abundância prata, família, gados, fazenda; e, contudo, este rico foi pobre, pois foi humilde. ‘Creu Abraão em Deus, e foi-lhe contado como justiça’ (…) Era fiel, praticava o bem, recebeu o mandato de imolar o seu filho e não demorou a oferecer o que tinha recebido Àquele de Quem, o tinha recebido. Ficou provado aos olhos de Deus e posto como exemplo de fé» (Sermo 14).

Em resumo, a pobreza não consiste em algo puramente exterior, em ter ou não ter bens materiais, mas em algo mais profundo que afecta o coração, o espírito do homem, consiste em ser humilde diante de Deus, em ser piedoso, em ter uma fé submissa. Se se possuem estas virtudes e, além disso, abundância de bens materiais, a atitude do cristão será de desprendimento, de caridade para com os outros homens, e assim agradar-se-á a Deus. Pelo contrário, o que não possui bens materiais abundantes nem por isso está justificado diante de Deus, se não se esforça por adquirir essas virtudes que constituem a verdadeira pobreza.

 

11.09.14 – Lc 6, 27-38

27Mas Eu digo-vos a vós que Me ouvis: Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, 28bem-dizei os que vos amaldi­çoam, rezai pelos que vos maltratam. 29Ao que te bate numa face oferece-lhe também a outra, e àquele que te leva a capa não lhe impeças de ficar também com a túnica. 30Dá a todo aquele que te pede, e ao que leva o que é teu não lho reclames. 31O que quiserdes que vos façam os homens, fazei-lho de igual modo vós também. 32Se amardes os que vos amam, que agradecimento vos é devido? Pois também os pecadores amam aqueles que os amam. 33Se fizerdes bem aos que bem vos fazem, que agradecimento vos é devido? Também os pecadores fazem o mesmo. 34E, se emprestardes àqueles de quem esperais receber, que agradecimento vos é devido? Também os pecadores em­prestam aos pecadores, a fim de receberem outro tanto. 35Mas vós, amai os vossos inimigos, fazei bem e emprestai, sem nada esperar em troca. Será grande assim a vossa recompensa e sereis filhos do Altíssimo, porque Ele é benigno para com os ingratos e os maus. 36Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso. 37Não julgueis, e não sereis julgados. Não condeneis, e não sereis condenados. 38Absolvei, e sereis absolvidos. Dai, e dar-se-vos-á. Deitar-vos-ão no regaço uma boa medida, calcada, agitada, a transbordar, pois com a medida que empregardes vos será medido.

Comentário

27. «No facto de amarmos os nossos inimigos vê-se claramente certa semelhança com Deus Pai, que reconciliou consigo o gênero humano, que estava em inimizade com Ele e era contra Ele, redimindo-o da condenação eterna por meio da morte do Seu Filho (cfr Rom 5,8-10)» (Catecismo Romano, IV, 14,19). Seguindo o exemplo de Deus nosso Pai, devemos desejar para todos os homens — também para os que se declaram nossos inimigos — em primeiro lugar a vida eterna; depois, o cristão tem obrigação de respeitar e de compreender a todos sem excepção pela intrínseca dignidade da criatura humana, feita à imagem e semelhança do Criador.

28. Jesus Cristo ensinou-nos com o Seu exemplo que este preceito não é uma simples recomendação piedosa: estando já pregado na Cruz Jesus pediu a Seu Pai pelos que O tinham entregado: «Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem» (Lc 23,34). À imitação do Mestre, Santo Estêvão, o primeiro mártir da Igreja, no momento de ser lapidado pedia ao Senhor que não tivesse em conta o pecado dos seus inimigos (cfr Act 7,60). A Igreja, na Liturgia de Sexta Feira Santa, eleva a Deus orações e sufrágios pelos que estão fora da Igreja para que lhes dê a graça da fé, para que os que não conhecem a Deus saiam da sua ignorância; para que os Judeus recebam a luz da verdade; para que os não católicos. estreitados pelo laço da verdadeira caridade, se unam de novo à comunhão da Igreja nossa Mãe.

29. O Senhor continua a mostrar-nos como devemos comportar-nos para imitar a misericórdia de Deus. Em primeiro lugar põe-nos um exemplo para que exercitemos uma das obras de misericórdia que a tradição cristã chama espirituais: perdoar as injúrias e sofrer com paciência os defeitos do próximo. Isto é o que quer dizer, em primeiro lugar, a recomendação de apresentar a outra face a quem lhe bate numa.

Para captar bem esta recomendação, comenta São Tomás, «há que entender a Sagrada Escritura à luz do exemplo de Cristo e de outros santos. Cristo não apresentou a outra face ao ser esbofeteado em casa de Anás (Ioh 18,22-23) nem tão–pouco São Paulo quando, segundo nos contam os Actos dos Apóstolos, foi açoitado em Filipos (Act 16,22 ss.). Por isso, não há por que entender que Cristo tenha mandado à letra oferecer a outra face ao que te bate numa; mas isto deve entender-se quanto à disposição interior; ou seja, que se for necessário, devemos estar dispostos a que não se turve o nosso ânimo contra o que nos bate, e a estar preparados para suportar algo semelhante e inclusivamente mais. Assim fez o Senhor quando entregou o Seu corpo à morte» (Comentário sobre S. João, 18,37).

36. O modelo de misericórdia que Cristo nos propõe é o próprio Deus. D’Ele diz São Paulo: «Bendito seja Deus Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai das misericórdias e Deus de toda a consolação, o qual nos consola em todas as nossas tribulações» (2 Cor 1,3-4). «A primeira excelência que tem esta virtude — explica Frei Luís de Granada — é tornar os homens semelhantes a Deus, e semelhantes na coisa mais gloriosa que há n’Ele, que é na misericórdia (Lc 6,36).

Porque é certo que a maior perfeição que pode ter uma criatura é ser semelhante ao seu Criador: e quanto mais tiver desta semelhança, tanto mais perfeita será. E é certo também que uma das coisas que mais propriamente convém a Deus é a misericórdia, como o significa a Igreja naquela oração que diz: Senhor Deus, de quem é próprio ter misericórdia e perdoar. E diz ser isto próprio de Deus, porque assim como à criatura, enquanto criatura, pertence ser pobre e necessitada (e por isto a ela pertence receber e não dar), assim pelo contrário, como Deus é infinitamente rico e poderoso, só a Ele por excelência pertence dar e não receber, e por isto d ‘Ele é próprio ter misericórdia e perdoar» (Livro da oração e meditação, terceira parte, tratado terceiro).

O comportamento do cristão há-de seguir esta norma: compadecer-se das misérias alheias como se fossem próprias e procurar remediá-las. Neste mesmo sentido a nossa Santa Mãe a Igreja concretizou-nos uma série de obras de miseri­córdia tanto corporais (visitar e cuidar os doentes, dar de comer ao faminto, dar de beber ao sequioso…), como espirituais (ensinar aquele que não sabe, corrigir o que erra, perdoar as injúrias…) (cfr Catecismo Maior, n.os 944-945). Também perante quem está no erro temos de ter com­preensão: «Este amor e benevolência de modo algum nos devem tornar indiferentes perante a verdade e o bem. Pelo contrário, é o próprio amor que incita os discípulos de Cristo a anunciar a todos a verdade salvadora. Mas deve distin­guir-se entre o erro, sempre de rejeitar, e aquele que erra, o qual conserva sempre a dignidade própria da pessoa, mesmo quando atingido por idéias religiosas falsas ou menos exactas. Só Deus é juiz e penetra os corações; por esse motivo, proibe-nos Ele de julgar da culpabilidade interna de qualquer pessoa» (Gaudium et spes, n. 28).

38. Lemos na Sagrada Escritura a generosidade da viúva de Sarepta, à qual Deus pediu que alimentasse o profeta Elias com o pouco que lhe restava; depois premiou a sua generosidade multiplicando-lhe a farinha e o azeite que tinha (l Reg 17,9 ss.). De maneira semelhante aquele menino que forneceu os cinco pães e os dois peixes, para que o Senhor os multiplicasse e alimentasse uma grande multidão (cfr Ioh 6,9), é um exemplo vivo do que o Senhor faz quando . entregamos o que temos, ainda que seja pouco.

Deus não Se deixa vencer em generosidade: «Vamos! Diz-Lhe com generosidade e como um menino: Que me irás dar quando me exiges ‘isso’?» (Caminho, n.° 153). Por muito que demos a Deus nesta vida, mais nos dará o Senhor como prêmio na vida eterna. paciência e com carinho os que erram. Mas a pessoa que tem no seu coração um tesouro de maldade faz exactamente o contrário: odeia os seus amigos, fala mal de quem o ama, e todas as outras coisas condenadas pelo Senhor» (In Lucae Evangelium expositio, II, 6).

 

12.09.14 – Lc 6, 39-42

39Disse-lhes também uma parábola: Pode um cego guiar a outro cego? Não cairão ambos nalguma cova?

40Não está o discípulo acima do mestre, mas todo o discípulo bem formado ficará como o seu mestre.

41Porque olhas para o argueiro que está no olho de teu irmão, e não reparas na trave que tens no teu? 42Como podes dizer a teu irmão: «irmão, deixa que eu extraia o argueiro que está no teu olho», tu que não vês a trave que tens no teu? Hipócrita, extrai primeiro a trave do teu olho, e então verás bem, para extraíres o argueiro que está no olho de teu irmão.

Comentário

38. Lemos na Sagrada Escritura a generosidade da viúva de Sarepta, à qual Deus pediu que alimentasse o profeta Elias com o pouco que lhe restava; depois premiou a sua generosidade multiplicando-lhe a farinha e o azeite que tinha (l Reg 17,9 ss.). De maneira semelhante aquele menino que forneceu os cinco pães e os dois peixes, para que o Senhor os multiplicasse e alimentasse uma grande multidão (cfr Ioh 6,9), é um exemplo vivo do que o Senhor faz quando . entregamos o que temos, ainda que seja pouco.

Deus não Se deixa vencer em generosidade: «Vamos! Diz-Lhe com generosidade e como um menino: Que me irás dar quando me exiges ‘isso’?» (Caminho, n.° 153). Por muito que demos a Deus nesta vida, mais nos dará o Senhor como prêmio na vida eterna. paciência e com carinho os que erram. Mas a pessoa que tem no seu coração um tesouro de maldade faz exactamente o contrário: odeia os seus amigos, fala mal de quem o ama, e todas as outras coisas condenadas pelo Senhor» (In Lucae Evangelium expositio, II, 6).

 

13.09.14 – Lc 6, 43-49

43De facto, não há árvore boa que dê mau fruto, nem tão-pouco árvore má que dê bom fruto, 44pois cada árvore se conhece pelo próprio fruto. Não se colhem, efectivamente, figos dos espinheiros, nem se apanham uvas duma silva. 45O homem bom, do bom tesoiro do seu coração, tira o que é bom, e o mau, do mau tesoiro, tira o que é mau, pois da abundância do coração é que fala a sua boca. 46Porque Me chamais: «Senhor, Senhor», e não fazeis o que Eu digo? 47Mostrar-vos-ei a quem é semelhante todo aquele que vem ter comigo, ouve as Minhas palavras e as põe em prática. 48É semelhante a um homem que, para construir uma casa, esca­vou, aprofundou e assentou os alicerces sobre a rocha. E, sobrevindo uma inundação, irrompeu a torrente contra aquela casa e não conseguiu abalá-la, por ter sido bem construída. 49Mas aquele que as ouve e as não põe em prática é semelhante a um homem que construiu uma casa sobre a terra, sem alicerces. Irrompeu a torrente contra ela, e logo ruiu. E foi grande o desmoronamento daquela casa.

Comentário

46. Jesus pede que o nosso comportamento seja coerente com a condição de cristãos e que não haja separação entre a fé que professamos e a nossa forma de viver: «Não está o negócio em ter hábito de religião ou não; mas em procurar exercitar as virtudes e submeter a nossa vontade à de Deus em tudo e que o concerto da nossa vida seja o que Sua Majestade ordenar dela, e não queiramos nós que se faça a nossa vontade, mas a Sua» (Moradas, moradas terceiras, cap. 2, n.° 6).

 

14.09.14 – Jo 3, 13-17

13Ninguém subiu ao Céu, a não ser Aquele que do Céu desceu, o Filho do homem. 14Do mesmo modo que Moisés elevou a serpente no deserto, assim tem de ser elevado o Filho do homem, 15para que todo aquele que acredita tenha, por Ele, a vida eterna.

l6De facto, Deus amou de tal maneira o mundo que deu o Seu Filho único, para que todo o que n’Ele acredita não pereça, mas tenha a vida eterna. I7É que Deus não enviou o Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para o mundo ser salvo por Seu inter­médio.

Comentário

13. Afirmação solene da divindade de Jesus. Ninguém sobe ao Céu e, portanto, ninguém pode conhecer perfeita­mente os segredos de Deus, senão o próprio Deus que en­carnou e desceu do Céu: Jesus, segunda Pessoa da Santíssima Trindade, o Filho do Homem profetizado no Antigo Testa­mento (cfr Dn 7,13), ao qual foi concedido senhorio eterno sobre todos os povos, nações e línguas.

Ao encarnar o Verbo não deixa de ser Deus. E assim, ainda que esteja na terra enquanto homem, nem por isso deixa de estar no Céu enquanto Deus. Só depois da Ressur­reição e da Ascensão, Jesus Cristo está no Céu também enquanto homem.

14-15. A serpente de bronze, alçada por Moisés num mastro, era o remédio indicado por Deus para curar aqueles que eram mordidos pelas serpentes venenosas do deserto (cfr Num 21,8-9). Jesus Cristo compara este facto com a Sua Crucifixão, para explicar assim o valor da Sua exaltação na Cruz, que é salvação para todos os que O fixem com fé. Neste sentido podemos dizer que no bom ladrão se cumpre já o poder salvífico de Cristo na Cruz: esse homem descobriu no Crucificado o Rei de Israel, o Messias, que imediatamente lhe promete o Paraíso para aquele mesmo dia (cfr Lc 23,39-43).

O Filho de Deus tomou a nossa natureza humana para dar a conhecer os mistérios ocultos da vida divina (cfr Mc 4,11; Ioh 1,18; 3,1-13; Eph 3,9) e para livrar do pecado e da morte aqueles que O fixem com fé e amor (cfr Ioh19,37; Gal 3,1) e aceitem a cruz de cada dia.

A fé de que nos fala o Senhor não se reduz simplesmente à aceitação intelectual das verdades que Ele nos ensinou, mas inclui reconhecê-Lo como Filho de Deus (cfr l Ioh 5,1), parti­cipar da Sua própria Vida (cfr Ioh 1,12), e entregarmo-nos por amor, tornando-nos assim semelhantes a Ele (cfr Ioh 10,27; l Ioh 3,2). Mas esta fé constitui um dom de Deus (cfr Ioh 3,3.5-8), a quem devemos pedir que a fortaleça e acres­cente, como fizeram os Apóstolos: Senhor, «aumenta-nos a fé» (Lc 17,5). Sendo a fé um dom divino, sobrenatural e gratuito, é, ao mesmo tempo, uma virtude, um hábito bom, susceptível de ser exercitado pessoalmente e, portanto, robustecido através desse exercício. Daí que o cristão, que já possui o dom divino da fé, ajudado pela graça deva fazer actos explícitos de fé para que esta virtude cresça nele.

 

15.09.14 – Jo 19, 25-27

25Estavam junto à cruz de Jesus, Sua mãe, a irmã de Sua mãe, Maria, mulher de Clopá, e Maria de Magdala.26Jesus, ao ver a mãe e o discípulo que amava, ali presente, diz à mãe: Senhora, eis o teu filho. 27A seguir, diz ao discípulo: Eis a tua mãe. E a partir daquele momento, recebeu-a o discí­pulo em sua casa.

Comentário

25. Enquanto os Apóstolos, excepto São João, aban­donam Jesus nesta hora de opróbrio, aquelas piedosas mu­lheres, que O tinham seguido durante a Sua vida pública (cfr Lc 8,2-3), permanecem agora junto ao Mestre que morre na Cruz (cfr a nota a Mt 27,55-56).

O Papa João Paulo II explica que a fidelidade da Virgem Santíssima se manifestou de quatro modo: o primeiro, pela busca generosa do que Deus queria d’Ela (cfr Lc 1,34); o segundo, mediante a aceitação submissa da Vontade divina (cfr Lc l ,38); o terceiro, pela coerência dos actos da vida com a decisão da fé tomada; e, finalmente, mediante a prova da perseverança.« Só pode chamar-se fidelidade uma coerência que dura ao longo de toda a vida. O fiat de Maria na Anunciação encontra a sua plenitude no fiat silencioso que repete ao pé da Cruz» (Homília Catedral México).

A Igreja desde sempre reconheceu a dignidade da mulher e a sua importante missão na História da Salvação. Basta recordar o culto que, desde as origens, o povo cristão tributou à Mãe de Cristo, a Mulher por antonomásia, e a criatura mais excelsa e mais privilegiada que jamais saiu das mãos de Deus. O último Concilio, dirigindo uma mensagem especial às mulheres, diz entre outras coisas: «Mulheres que sofreis provações, finalmente, vós que estais de pé junto à cruz, à imagem de Maria, vós que, tantas vezes através da história, tendes dado aos homens a força para lutar até ao fim, de testemunhar até ao martírio, ajudai-os uma vez mais a conservar a audácia dos grandes empreendimentos, ao mesmo tempo que a paciência e o sentido de humildade de tudo o que principia» (Cone. Vaticano II, Mensagem do Concilio à Humanidade. Às mulheres, n.° 9).

26-27. «A pureza limpidíssima de toda a vida de João torna-o forte diante da Cruz. — Os outros apóstolos fogem do Gólgota; ele, com a Mãe de Cristo, fica.

«— Não esqueças que a pureza enrijece, viriliza o caracter» (Caminho, n.° 144).

O gesto do Senhor, pelo qual confia Sua Santíssima Mãe ao cuidado do discípulo, tem um duplo sentido (veja-se Introdução ao Evangelho segundo São João, pp. 1109-1116). Por um lado, manifesta o amor filial de Jesus à Virgem Maria. Santo Agostinho considera como Jesus nos ensina a cumprir o quarto mandamento: «É uma lição de moral. Faz o que recomenda fazer, e, como bom Mestre, ensina os Seus com o Seu exemplo, a fim de que os bons filhos tenham cuidado dos pais; como se aquele madeiro que sujeitava os Seus membros moribundos fosse também a cátedra do Mestre que ensinava» (In Ioann. Evang., 119,2).

Por outro lado, as palavras do Senhor declaram que Maria Santíssima é nossa Mãe: «Assim avançou a Virgem pelo caminho da fé, mantendo fielmente a união com seu Filho até à cruz. Junto desta esteve, não sem desígnio de Deus (Ioh 19,25), padecendo acerbamente com o seu Filho único, e associando-se com coração de mãe ao Seu sacrifício, consentindo com amor na imolação da vítima que d’Ela nascera; finalmente, Jesus Cristo, agonizante na cruz, deu-a por mãe ao discípulo» (Lumen gentium, n. 58).

Todos os cristãos, representados em São João, somos filhos de Maria. Ao dar-nos Cristo Sua Mãe por nossa Mãe manifesta o amor aos Seus até ao fim (cfr Ioh 13,1). A Virgem Santíssima ao aceitar o apóstolo João como filho seu mostra o seu amor de Mãe: «A ti, Maria, o Filho de Deus e ao mesmo tempo teu Filho, do alto da Cruz indicou um homem e disse: ‘Eis o teu filho’. E naquele homem confiou-te cada homem, confiou-te todos. E Tu, que no momento da Anunciação, nestas simples palavras: ‘Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra’ (Lc 1,38), concentraste todo o programa da tua vida, abraças todos, aproxi­mas-te de todos, buscas maternalmente a todos. Desta ma­neira cumpre-se o que o último Concilio declarou acerca da tua presença no mistério de Cristo e da Igreja. Perseveras de maneira admirável no mistério de Cristo, teu Filho unigênito, porque estás sempre onde quer que estão os homens Seus irmãos, onde quer que está a Igreja» (Homília Basílica de Guadalupe ).

«João, o discípulo amado de Jesus, recebe Maria e introdu-la em sua casa, na sua vida. Os autores espirituais viram nestas palavras do Santo Evangelho um convite diri­gido a todos os cristãos para que Maria entre também nas suas vidas. Em certo sentido, é quase supérfluo este esclare­cimento. Maria quer certamente que a invoquemos, que nos aproximemos d’Ela com confiança, que apelemos para a sua maternidade, pedindo-lhe que se manifeste como nossa Mãe» (Cristo que passa, n.° 140).

Este modo filial de tratar Maria é o que segue constan­temente João Paulo II. Assim, na sua despedida da Virgem de Czestochowa, orava com estas palavras: «Mãe da Igreja de Jasna Gora! Uma vez mais me consagro a Ti na tua maternal escravidão de amor: Totus tuus! Sou todo teu! Consagro-te a Igreja inteira, em toda a parte, até aos confins da terra. Consagro-te a humanidade; consagro-te os homens, meus irmãos. Todos os povos e nações. Consagro-te a Europa e todos os continentes. Consagro-te Roma e a Polônia unidas, através do teu servo, por um novo vínculo de amor. Mãe, aceita! Mãe, não nos abandones! Mãe, guia-nos Tu!» (Alocução de despedida no Santuário de Jasna Gora, 6-VI-1979).

 

16.09.14 – Lc 7, 11-17

11Em seguida, dirigiu-Se a uma cidade chamada Naim, indo com Ele os Seus discípulos e grande multidão. 12Quando Se aproximava da porta da cidade, traziam um defunto a enterrar, filho único de sua mãe. Esta era viúva, e vinha a acompanhá-la bastante gente da cidade. 13Ao vê-la, o Senhor compadeceu-Se dela e disse-lhe: Não chores. 14Aproximando-Se, tocou no caixão e estacaram os que o transportavam. Depois disse: Meu rapaz, Eu to digo, levan­ta-te. I5O morto sentou-se e começou a falar; e Ele entregou-o à mãe. 16Encheram-se todos de temor e davam glória a Deus, dizendo: Surgiu entre nós um grande profeta, e Deus visitou o Seu povo. 17Divulgou-se este dito a Seu respeito na Judeia inteira e em toda a região circunvizinha.

Comentário

11-17. «Jesus vê a angústia daquelas pessoas com quem Se cruza ocasionalmente. Podia ter passado de lado ou ter esperado que O chamassem e Lhe fizessem um pedido. Mas não Se afasta, nem fica na expectativa. Toma Ele próprio a iniciativa, movido pela aflição de uma viúva que perdera a única coisa que lhe restava —o filho.

«Explica o evangelista que Jesus Se compadeceu- talvez a Sua comoção tivesse também sinais externos, como pela morte de Lázaro. Jesus não era, nem é, insensível ao padecimento que nasce do amor, nem sente prazer em separar os filhos dos pais. Supera a morte, para dar a vida, para que aqueles que se amam convivam, exigindo, antes e ao mesmo tempo, a preeminência do Amor divino que deve informar a autêntica existência cristã.

Cristo sabe que O rodeia uma grande multidão, a quem o milagre encherá de pasmo e que há-de ir apregoando o sucedido por toda aquela região. Mas o Senhor não actua com artificialismo, só para praticar um ‘feito’; sente-Se singelamente afectado pelo sofrimento daquela mulher; não pode deixar de a consolar. Então, aproximou-Se e disse-lhe: não chores (Lc VII, 13). Que é como se lhe dissesse: hão te quero ver desfeita em lágrimas, pois Eu vim trazer à Terra a alegria e a paz. E imediatamente se dá o milagre, manifes­tação do poder de Cristo, Deus. Mas antes já se dera a comoção da Sua alma, manifestação evidente da ternura do coração de Cristo, Homem» (Cristo que passa, n.° 166).

15. A alegria da mãe ao recuperar vivo o seu filho recorda a alegria da Santa Madre Igreja pelos seus filhos pecadores regressados à vida da graça. «A mãe viúva — comenta Santo Agostinho — alegra-se com o seu filho ressus­citado. A Mãe Igreja alegra-se diariamente com os homens que ressuscitam na sua alma. Aquele, morto quanto ao corpo; estes, quanto ao seu espírito. Aquela morte visível chora-se visivelmente; a morte invisível destes nem se chora nem se vê. Busca estes mortos o que os conhece, o que os pode fazer regressar à vida» (Sermo 98,2).

 

17.09.14 – Lc 7, 31-35

31A quem hei-de, pois, comparar os homens desta geração? A quem são semelhantes? 32Assemelham-se a esses garotos que, sen­tados na praça, se interpelam uns aos outros, dizendo:

Tocamos flauta para vós e não dançastes! Entoamos endechas e não chorastes!

33Veio, efectivamente, João Baptista, que não come pão nem bebe vinho, e vós dizeis: «Está possesso do Demônio». 34Veio o Filho do homem, que come e bebe, e vós dizeis: «Aí está um homem glutão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores». 35Mas a Sabedoria foi justificada por todos os Seus filhos.

Comentário

31-34. Veja-se a nota a Mt 11,16-19.

35. A sabedoria que aqui se menciona é a Sabedoria divina, que é por excelência o próprio Cristo (cfr Sap 7,26; Prv 8,22). «Filhos da Sabedoria» é um hebraísmo que signi­fica simplesmente «sábios»; por sua vez, é verdadeiramente sábio o que chega a conhecer Deus, O ama e se salva: numa palavra, o santo.

A sabedoria divina manifesta-se na criação e no governo do universo e, sobretudo, na salvação do gênero humano. Que os sábios justifiquem a sabedoria parece significar que os sábios, os santos, dêem testemunho de Cristo com a sua vida santa: «Brilhe assim a vossa luz diante dos homens para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos Céus» (Mt 5,16).

 

18.09.14 – Lc 7, 36-50

36Um fariseu convidou-O a comer consigo. Ele entrou em casa do fariseu e pôs-Se à mesa. 37Ora uma mulher, que era pecadora naquela cidade, ao saber que Ele estava à mesa em casa do fariseu, trouxe um vaso de alabastro com perfume. 38Colocou-se por detrás, chorando a Seus pés e, com lágrimas, começou a banhar-Lhe os pés; pôs-se depois a enxugar-Lhos com os seus cabelos, a beijar-Lhos e a ungir-Lhos com perfume. 39Ao ver tal cena, o fariseu que O tinha convidado disse consigo: «Este homem, se fosse profeta, saberia quem é e de que espécie é a mulher que Lhe está a tocar: uma pecadora!» 40Então Jesus tomou a palavra e disse-lhe: Simão, tenho uma coisa a dizer-te. Este respondeu: Diz lá, Mestre. 41Tinha certo prestamista dois devedores: um devia qui­nhentos denarios e o outro cinqüenta. 42Não tendo eles com que pagar, perdoou a ambos. Qual deles então lhe ficará com mais amizade? 43Simão disse, em resposta: Penso que aquele a quem mais perdoou. Respondeu-lhe Ele: Julgaste bem. «E, voltando-Se para a mulher, disse a Simão: Vês esta mulher? Entrei em tua casa e não Me deste água para os pés; mas ela banhou-Me os pés com lágrimas e enxugou-Mos com os seus cabelos. 45Não Me deste um ósculo; mas ela, desde que Eu entrei, não deixou de Me beijar os pés. 46Não Me ungiste a cabeça com óleo; mas ela ungiu-Me os pés com perfume. 47Por isso te digo: Estão perdoados os seus muitos peca­dos, visto que manifestou muito amor. Mas aquele a quem pouco se perdoa pouco amor manifesta. 48Depois, disse-lhe a ela: Estão perdoados os teus pecados. 49Começaram então os convivas a dizer consigo: Quem é Este que até os pecados perdoa? 50E Jesus disse à mulher: Salvou-te a tua fé: vai em paz!

Comentário

36-40. A mulher pecadora, movida sem dúvida pela graça, acorreu atraída pela pregação de Cristo e pelo que se dizia d’Ele. Os convidados punham-se à mesa apoiados sobre o braço esquerdo, em pequenos divas, de forma que os pés ficavam retirados para fora. Eram deveres de cortesia para com o hóspede dar-lhe o beijo de boas-vindas, ofere­cer-lhe água para lavar os pés e perfumes com que se ungisse.

41-50. Três coisas nos ensina Cristo na breve parábola dos dois devedores: a Sua divindade e o poder de perdoar os pecados; o mérito do amor da pecadora; e a descortesia que encerram os descuidos de Simão, que omitiu no convívio com Jesus os pormenores de urbanidade que se costumavam ter com os convidados. O Senhor não buscava esses porme­nores pelo valor que em si possuíam mas pelo carinho que eles expressavam, e por isso queixa-Se da falta de cortesia de Simão.

«(…) Jesus repara em todos esses pormenores de cortesia e de delicadeza humanas, que o fariseu não soube manifes­tar-Lhe. Cristo é perfectus Deus, perfectus homo (Símbolo Atanasiano), Deus, Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, e homem perfeito. Traz a salvação e não a destruição da natureza. Com Ele aprendemos que não é cristão compor­tar-se mal com o homem, criatura de Deus, feito à Sua imagem e semelhança (Gen I, 26)» (Amigos de Deus, n.° 73).

Além disso, o fariseu pensou mal ao julgar negativa­mente a pecadora e Jesus: Simão duvida do conhecimento que Cristo tem e murmura interiormente. O Senhor, que conhecia os segredos dos corações dos homens (manifes­tando assim a Sua divindade), intervém para lhe indicar o seu descaminho. A verdadeira justiça, diz-nos São Gregório Magno (cfr In Evangelia homiliae, 33), tem compaixão; a falsa, pelo contrário, indigna-se. Muitos são como esse fa­riseu: esquecendo a sua condição, passada ou presente, de pobres pecadores, quando vêem os pecados dos outros, imedia­tamente, sem piedade, deixam-se levar pela indignação, ou apressam-se a julgar, ou riem-se ironicamente deles. Não pensam nas frases de São Paulo: «O que crê estar de pé, veja que não caia» (l Cor 10,12). «Irmãos, se porventura alguém é achado em alguma falta, vós, que sois espirituais, corrigi-o com espírito de mansidão (…). Levai os fardos uns dos outros, e assim cumprireis a lei de Cristo» (Gal 6,1-2).

Devemos esforçar-nos para que a caridade presida a todos os nossos juízos. Se não, facilmente seremos injustos com os outros: «Não queiramos julgar. — Cada qual vê as coisas do seu ponto de vista… e com o seu entendimento, bem limitado quase sempre, e com os olhos obscuros 6u enevoados, com trevas de exaltação muitas vezes (…).

«Como valem pouco os juízos dos homens! — Não jul­gueis sem joeirar o vosso juízo na oração» (Caminho, n.° 451).

A caridade e a humildade far-nos-ão ver nos pecados dos outros a nossa própria condição débil e desprotegida, e ajudar-nos-ão a unir-nos do coração à dor de todo o pecador que se arrepende, porque também nós cairíamos em iguais ou mais graves pecados se a divina piedade não estivesse» misericordiosamente junto de nós. ,’«

«O Senhor — conclui Santo Ambrósio — amou não o ungüento, mas o carinho; agradeceu a fé, louvou a humildade. E tu também, se desejas a graça, aumenta o teu amor; derrama sobre o corpo de Jesus a tua fé na Ressurreição, os perfume da Igreja santa e o ungüento da caridade com os outros» (Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc.). ,.|

47. O homem não pode merecer o perdão dos pecados porque, sendo Deus o ofendido, a sua gravidade torna-se’ infinita. É necessário o sacramento da Penitência, com que ‘ Deus nos perdoa pelos méritos infinitos de Jesus Cristo; só há uma condição indispensável para alcançar o perdão de Deus: o nosso amor, o nosso arrependimento. Perdoa-se-nos na medida em que amamos; e quando o nosso coração está cheio de amor já não há nele lugar para o pecado, porque então demos lugar a Jesus, que nos diz como a esta mulher: Ficam perdoados os teus pecados. O arrependimento é mostra de que amamos a Deus. Mas Deus é que nos amou primeiro (cfr l Ioh 4,10). Quando Deus nos perdoa mani­festa o Seu amor por nós. O nosso amor a Deus, pois, é sempre de correspondência, depois do Seu. O perdão divino faz crescer o nosso agradecimento e o nosso amor por Ele. «Ama pouco — comenta Santo Agostinho — aquele que é perdoado em pouco. Tu, que dizes não ter cometido muitos pecados, por que não os fizeste? (…). É por te ter Deus levado pela mão (…). Nenhum pecado, com efeito, comete um homem que não possa fazê-lo também outra pessoa se Deus, que fez o homem, não o segura pela Sua mão» (Sermo 99,6). Por conseguinte, devemos amar, enamorar-nos cada dia mais do Senhor, não só porque nos perdoa os nossos peca­dos, mas também porque nos preserva, com a ajuda da Sua graça, de os cometer.

50. Jesus Cristo declara que a fé levou aquela mulher a prostrar-se aos Seus pés e a mostrar-Lhe o seu arrependi­mento; este arrependimento mereceu-lhe o perdão. Da mesma maneira nós, ao aproximar-nos do sacramento da Penitência, devemos reavivar a nossa fé em que «a confissão sacramental não é um diálogo humano; é um colóquio divino; é um tribunal de segura e divina justiça e, sobretudo, de misericórdia, com um juiz amoroso que não deseja a morte do pecador, mas que ele se converta e viva (Ez XXXIII, 11)» (Cristo que passa, n.° 78).

 

19.09.14 – Lc 8, 1-3

O Em seguida, ia caminhando por cidades e aldeias, a pregar e a anunciar a Boa Nova do Reino de Deus. 2Andavam com Ele os doze e algumas mulheres, que tinham sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades: Maria, que era chamada de Magdala e de quem tinham saído sete Demônios, 3Joana, mulher de Cuzá, adminis­trador de Herodes, Susana e muitas outras, que os serviam com os seus haveres.

Comentário

1-3. Em várias ocasiões nos fala o Evangelho de mulheres que acompanhavam o Senhor. São Lucas recolhe aqui o nome de três: Maria, chamada Madalena, a quem Cristo ressuscitado aparece junto do sepulcro (Ioh 20,11-18: Mc 16,9); Joana, de posição remediada, que se encontra também entre as que acorrem ao sepulcro na manhã da Ressurreição (Lc 24,10) e Susana, da qual não temos ne­nhuma outra notícia no Evangelho. A missão destas mulheres consistia em ajudar com os seus bens e com o seu trabalho a Jesus e aos discípulos. Deste modo correspondiam com agradecimento aos benefícios que tinham recebido de Cristo, e cooperavam na tarefa apostólica.

Na Igreja a mulher e o homem gozam de igual dignidade. Dentro desta dignidade comum há na mulher, sem dúvida, características peculiares que se hão-de reflectir necessa­riamente no seu papel dentro da Igreja: «Todos os baptizados — homens e mulheres — participam igualmente da comum dignidade, liberdade e responsabilidade dos filhos de Deus (…). A mulher é chamada a levar à família, à sociedade civil, à Igreja, alguma coisa de característico, que lhe é próprio e que só ela pode dar: a sua delicada ternura, a sua generosidade incansável, o seu amor ao concreto, a sua agudeza de engenho, a sua capacidade de intuição, a sua piedade profunda e simples, a sua tenacidade… A femini­lidade não é autêntica se não reconhece a formosura dessa contribuição insubstituível e não a incorpora na própria vida» (Temas Actuais do Cristianismo, n.os 14 e 87).

O Evangelho põe em realce a generosidade das santas mulheres. E formoso pensar que o Senhor quis apoiar-Se nesta caridade, e que elas souberam corresponder-Lhe com um desprendimento tão delicado e generoso, que provoca na mulher cristã «uma santa inveja, cheia de eficácia» (cfr Caminho, n.°981).

 

20.09.14 – Lc 8, 4-15

4Como afluísse grande multidão e os de cada cidade a Ele acorressem, disse em parábola: 5Saiu o semeador para semear a sua semente. Ora, quando semeava, caiu parte .da semente à beira do caminho; foi calcada e as aves do céu~ comeram-na. . 6Outra caiu sobre a rocha e, depois de brotar, secou por não ter humildade. 7Outra caiu no meio de espinhos e os espinhos, brotando com ela, sufocaram-na. 8E outra caiu na boa terra e, depois de brotar, deu fruto centuplicado. Dizendo isto, bradava: Quem tem ouvidos para ouvir, que oiça!

9Perguntaram-Lhe os discípulos o que queria dizer esta parábola, 10e Ele respon­deu: A vós está concedido conhecer os mistérios do Reino de Deus, mas aos outros é só em parábolas, a fim de que vendo, não vejam e, ouvindo, não entendam.

11E isto a parábola: A semente é a Palavra de Deus. 12Os que estão à beira do caminho são aqueles que ouviram; em seguida, vem o Diabo e tira-lhes a Palavra do coração, para não se salvarem, acreditando. 13Os que estão sobre a rocha são aqueles que, ao ouvirem, recebem alegremente a Palavra; mas esses não têm raiz: acreditam por algum tempo e afastam-se na altura da provação. 14A se mente que caiu nos espinhos são aqueles que ouviram, mas, no seu caminho, são sufo­cados pelos cuidados, pela riqueza e pelos prazeres da vida e não chegam à maturidade. I5E a que está na boa terra são aqueles que, tendo ouvido a Palavra com um coração recto e bom, a conservam e dão fruto com a sua perseverança.

Comentário

4-8. O Senhor dará a explicação da parábola (w. 11-15). A semente é o próprio Jesus Cristo e a Sua pregação; e as diferentes terras reflectem as diversas atitudes dos homens diante de Jesus e da Sua doutrina: o Senhor semeia nas almas a vida divina através da pregação da Igreja e de tantas graças actuais que concede.

10-12. A finalidade que Jesus persegue com as pará­bolas é ensinar aos homens os mistérios da .vida sobrenatural para os encaminhar para a salvação, prevê, porém, que, pelas más disposições de alguns ouvintes, as parábolas serão ocasião de endurecimento e de rejeição da graça. Uma explicação mais ampla da finalidade das parábolas pode ver-se nas notas a Mt 13,10-13 e Mc 4,11-12.

12. Há homens que, metidos numa vida de pecado, são. como o caminho onde cai a semente «-que sofre um duplo dano, é pisada pelos caminhantes e arrebatada pelas aves. O caminho é portanto o coração que está espezinhado pela freqüente passagem dos maus pensamentos, e seco de tal modo que não pode receber a semente nem esta germinar» (In Lucae Evangelium expositio, ad loc.). As almas endure­cidas pelos pecados podem chegar a ser terra boa e dar fruto pelo arrependimento sincero e pela penitência. É de notar o empenho do demônio por conseguir que a alma continui endurecida e não se converta.

13. «A muitos agrada o que escutam, e propõem-se agir bem; mas logo que começam a ser incomodados pelas adversidades abandonam as boas obras que tinham começado. A terra pedregosa não teve suficiente substância, pelo que, o germinado não chegou a dar fruto. Há muitos que quando ouvem falar contra a avareza a detestam, e exaltam o menos­prezo das coisas deste mundo; mas mal a alma vê outra coisa para desejar, esquece-se do que exaltava. Há também muitos que quando ouvem falar contra a impureza não só não desejam manchar-se com as sujidades da carne, mas até se envergonham das manchas com que se mancharam; mas logo que se apresenta à sua vista a beleza corporal, é arras­tado o coração pelos desejos de tal maneira que é como se nada tivessem feito nem determinado contra esses desejos, e fazem o que é digno de condenação e eles próprios tinham condenado ao recordar que o tinham cometido. Muitas vezes nos compungimos pelas nossas culpas e, contudo/solta­remos a cometê-las depois de as termos chorado» (In Evangelia homiliae, 15).

14. Trata-se daqueles que depois de receberem a se-f mente divina, a vocação cristã, e tendo caminhado com| passo firme durante algum tempo, começam a ceder na luta. Estas almas estão expostas a perder o gosto pelas coisas de f Deus e, paralelamente, a iniciar o fácil e desviado caminho J das compensações que lhes sugerem a sua ambição desor­denada de poder, o seu afã pelas riquezas e a vida cômoda j sem sofrimento.

Nesta situação começa a aparecer a tibieza, e o homem quer servir ao mesmo tempo a dois senhores: «Não é lícito viver tentando manter acesas, como diz o povo, uma vela a São Miguel e outra ao Diabo. É preciso apagar a vela do Diabo. Temos de consumir a vida fazendo-a arder inteira­mente ao serviço do Senhor. Se o nosso empenho pela santidade é sincero, se temos a docilidade de nos abandonar nas mãos de Deus, tudo correrá bem. Porque Ele está sempre disposto a dar-nos a Sua graça» (Cristo que passa, n.° 59).

15. Três são as características que Jesus Cristo assinala na terra boa: ouvir com as boas disposições de um coração generoso os requerimentos divinos; esforçar-se para que essas exigências não se atenuem com o decurso do tempo; e, por fim, começar e recomeçar sem desanimar se o fruto tarda. «Não podes ‘subir’. — Não é de estranhar: aquela queda!…

«Persevera e ‘subirás’. — Recorda o que diz um autor espiritual: a tua pobre alma é um pássaro que ainda tem as asas empastadas de lama.

«É preciso muito calor do céu e esforços pessoais, pequenos e constantes, para arrancar essas inclinações, essas imaginações, esse abatimento, essa lama pegajosa das tuas asas.

«E ver-te-ás livre. — Se perseverares, ‘subirás’» (Cami­nho, n.° 991).

21.09.14 – Mt 20, 1-16a

Com efeito, o Reino dos Céus é semelhante a um proprietário que saiu de manhã cedo a contratar trabalhadores para da vinha a sua vinha. 2E, tendo ajustado com os trabalhadores a um dinheiro por dia, mandou-os para a sua vinha. 3Saindo depois, cerca da terceira hora, viu outros que estavam na praça ociosos 4e disse-lhes: «Ide também vós para a minha vinha, e dar-vos-ei o que for; justo». 5E eles foram. Tornando a sair, certa da hora sexta e da nona, fez na mesma. 6Enfim, cerca da undécima, saindo, encon­trou lá outros parados e disse-lhes: «Porque estais aqui todo o dia sem fazer nada?» 7Responderam-lhe: «Porque ninguém nos falou». Disse-lhes: «Ide também vós para a minha vinha». 8Ao anoitecer, diz o dono da vinha ao feitor: «Chama os trabalhadores e paga-lhes a jorna, a começar pelos últimos até aos primeiros». 9E, chegando-se os da undécima hora, receberam cada qual um dinheiro. 10Quando chegaram os primeiros, julgaram que receberiam mais, mas rece­beram também eles cada qual um dinheiro. 11E, ao recebê-lo, murmuravam contra o proprietário 12e diziam: «Estes últimos tra­balharam só uma hora e igualaste-los a nós que agüentamos o peso do dia e a calma!» 13Ele, porém, respondendo a um deles, disse: «Meu amigo, não te faço nenhuma injus­tiça? Não ajustaste comigo por um dinheiro? 14Toma o que é teu e vai-te. Quero dar a este último tanto como a ti. 15Ou não me será lícito fazer o que quero do que é meu? Serão maus os teus olhos porque eu sou bom?» 16Assim, os últimos serão primeiros e pri­meiros os últimos.

Comentário

1-16. A parábola refere-se directamente ao povo judaico. Deus chamou-o na primeira hora, desde há séculos. Ultimamente chamou também os gentios. Todos são chamados com o mesmo direito a fazer parte do novo Povo de Deus, que é a Igreja. Para todos o convite é gratuito. Por isso, os Judeus, que foram chamados primeiro, não teriam razão ao murmurar contra Deus pela escolha dos últimos, que têm o mesmo prêmio: fazer parte do Seu Povo. À primeira vista, o protesto dos jornaleiros da primeira hora parece justo. E parece-o, porque não compreendem que poder trabalhar na vinha do Senhor é um dom divino. Jesus deixa claro com a parábola que são diversos os caminhos pelos quais chama, mas que o prêmio é sempre o mesmo: o Céu.

2. «Denario» era uma moeda de prata com inscrição e imagem de César Augusto (Mt 22,19-21) e, como se vê aqui, equivalia ao jornal de um operário agrícola.

3. Os judeus calculavam o tempo de modo diferente ao nosso. Dividiam a totalidade do dia em oito partes, quatro para a noite, que chamavam vigílias (Lc 12,38), e quatro para o tempo compreendido entre o nascer e o pôr do sol, que chamavam horas: hora de prima, de tércia, de sextae de noa.

A hora de prima começava ao nascer do sol e terminava pelas nove; a de tércia abarcava até às doze; a de sexta até às três da tarde e a de noa até ao pôr do sol. Por isso a duração das horas de prima e de noa era instável: minguava durante o Outono e o Inverno, e crescia durante a Primavera e o Verão; ao invés acontecia com as vigílias primeira e quarta.

Convém notar que por vezes se contavam as horas intermédias como aparece no v. 6, onde se fala da hora undécima talvez para recalcar o pouco tempo que faltava já para o pôr do sol, fim do trabalho.

16. A Vulgata, outras versões e bastantes códices gregos acrescentam: «Porque muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos» (cfr Mt 22,14).

22.09.14 – Lc 8, 16-18

16Ninguém, depois de acender uma lâm­pada, a cobre com um vaso ou a põe debaixo da cama, antes a põe no candelabro, para verem a luz. 17Não há, efectivamente, coisa oculta que não se torne manifesta, nem segredo que não se saiba e venha a público. 18Tomai sentido, portanto, na maneira como ouvis, pois àquele que tiver dar-se-lhe-á, mas àquele que não tiver, ainda o que julga ter lhe será tirado.

Comentário

 

 

23.09.14 – Lc 8, 19-21

19Vieram então ter com Ele Sua mãe e Seus irmãos, mas não podiam abeirar-se d’Ele por causa da multidão. 20Foi-Lhe anun­ciado: Tua mãe e Teus irmãos estão lá fora e querem ver-Te. 2lDisse-lhes Ele, em resposta: Minha mãe e Meus irmãos são aqueles que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática.

Comentário

19-21. Estas palavras do Senhor ensinam-nos que o cumprimento da Vontade de Deus está por cima dos laços do sangue e que, portanto, Nossa Senhora está mais unida ao seu Filho pelo perfeito cumprimento do que Deus lhe pediu, que por o Espírito Santo ter formado d’Ela o corpo de Cristo (cfr as notas a Mt 12,48-50 e a Mc 3,31-35).

 

24.09.14 – Lc 9, 1-6

Depois de convocar os doze, deu-lhes poder e autoridade sobre todos os Demônios e para curarem doenças. 2Depois, enviou-os a proclamar o Reino de Deus e a curar os enfermos. 3E disse-lhes: Nada leveis para o caminho, nem cajado, nem saco, nem pão, nem dinheiro, e não tenha cada um duas túnicas. 4Em qualquer casa onde entrardes. ficai lá e de lá é que haveis de partir. 5E quanto aos que vos não receberem, ao sair da respectiva cidade, sacudi o pó dos vossos pés, para servir de testemunho contra eles. 6Partindo então, percorriam todas as povoações, a anunciar a Boa Nova e a operar curas por toda a parte.

Comentário

1.4. Trata-se da primeira missão dos Apóstolos. Ao enviá-los quer que se preparem de maneira prática para a sua futura missão depois que Ele suba aos Céus. Encarre­ga-os de que façam o mesmo que Ele fez: pregar o Reino de Deus e curar doentes. Esta cena está mais amplamente comentada nas notas a Mt 10,7-8; 10,9-10; e a Mc 6,8-9.

 

25.09.14 – Lc 9, 7-9

7Ouviu o tetrarca Herodes tudo o que se passava, e andava perplexo, porque alguns diziam: João ressuscitou dentre os mortos. 8Outros: Foi Elias que apareceu. E outros ainda: Foi um dos antigos profetas que ressuscitou. 9Disse Herodes: A João mandei-o eu decapitar, mas quem é Este de quem oiço tais coisas? E procurava vê-Lo.

Comentário

7-9. Todos os judeus, se exceptuarmos os saduceus, criam na ressurreição dos mortos, ensinada por Deus nas Sagradas Escrituras (cfr Ez 37,10; Dan 12,2 e 2 Mach 7,9). Por outro lado, era opinião comum entre os judeus contem­porâneos de Cristo que Elias ou algum profeta havia de vir de novo (cfr Dt 19,15). Esta poderia ser a razão pela qual Herodes chegou a pensar na possibilidade de que João tivesse ressuscitado (cfr Mt 14, 1-2 e Mc 6,14-16): a esta opinião era induzido ao ouvir que Jesus fazia milagres, pois supunha que os ressuscitados eram os que tinham poderes para os fazer. Não obstante, por outro lado, constava-lhe que Cristo fazia milagres já antes de morrer João (cfr Ioh 2,23) e, por isso, num primeiro momento, não sabia a que ater-se. Depois, ao crescer a fama dos milagres de Cristo, e para encontrar alguma explicação que o convencesse, decide considerar verdade que João ressuscitou, tal como no-lo contam os outros Evangelhos.

 

26.09.14 – Lc 9, 18-22

18Uma vez que rezava em particular, estando os discípulos com Ele, interrogou-os, nestes termos: Quem dizem as mul­tidões que Eu sou? 19Disseram eles, em resposta: João Baptista; outros, Elias, e outros que ressuscitou um dos antigos pro­fetas. 20Disse-lhes Ele: E vós quem dizeis que Eu sou? Pedro tomou então a palavra e respondeu: O Messias de Deus. 21Mas Ele, em tom severo, ordenou-lhes que a ninguém o dissessem, 22e acrescentou: O Filho do homem tem de sofrer muito, ser rejeitado por parte dos Anciãos, dos Sumos Sacer­dotes e dos Escribas, ser morto e, ao terceiro dia, ressuscitar.

Comentário

20. «Cristo» significa ungido e é nome de honra e de ofício. Na Antiga Lei ungiam-se os sacerdotes (Ex 29,7 e 40,13) e os reis (l Sam 9,16), a quem Deus tinha mandado que se ungisse pela dignidade do seu cargo; também houve o costume de ungir os profetas (l Sam 16,13) enquanto eram intérpretes e intermediários de Deus. «Mas ao vir ao mundo Jesus Cristo, nosso Salvador, recebeu o estado e as obriga­ções dos três ofícios de sacerdote, rei e profeta, e por esta causa foi chamado Cristo» (Catecismo Romano, 1,3,7).

22. O Senhor profetizou a Sua Paixão e Morte para facilitar a fé dos discípulos. Ao mesmo tempo manifesta a voluntariedade com que aceita os sofrimentos. «Cristo não quis glorificar-Se, mas desejou vir sem glória para padecer o sofrimento; e tu, que nasceste sem glória, queres glorificar-te? Pelo caminho que Cristo percorreu é por onde tu deves caminhar. Isto é reconhecê-Lo, isto é imitá-Lo tanto na ignomínia como na boa fama, para que te glories na Cruz, como Ele próprio Se glorificou. Tal foi o comportamento de Paulo e por isso se gloria ao dizer: ‘Longe de mim gloriar-me a não ser na Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo’ (Gal 6,14)» (Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc).

 

27.09.14 – Lc 9, 43b-45

Estando todos admirados com tudo o que fazia, disse Jesus aos Seus discípulos: 44Fixai bem estas palavras nos vossos ouvidos: O Filho do homem vai, de facto, ser entregue nas mãos dos homens. 45Eles, porém, não entendiam aquela linguagem; estava-lhes velada, de sorte que a não atingiam e tinham receio de O interrogar sobre tais palavras.

Comentário

44. Cristo insiste em anunciar a Sua Paixão e Morte. Primeiro veladamente (Ioh 2,19; Lc 5,35) à multidão, e depois com mais clareza aos discípulos (Lc 9,22). Estes, contudo, não entendem as Suas palavras, não porque não sejam claras, mas pela falta das disposições adequadas. Comenta São João Crisóstomo: «Ninguém se escandalize ao contemplar uns Apóstolos tão imperfeitos, porque ainda não tinha chegado a Cruz nem tinha sido dado o Espírito Santo» (Hom. sobre S. Mateus, 65).

 

28.09.14 – Mt 21, 28-32

28Mas que vos parece? Certo homem tinha dois filhos. Chegou-se ao primeiro e disse-lhe «Filho, vai hoje trabalhar na vinha». 29Ele respondeu: Vou sim, senhor»; mas não foi. 30Chegou depois ao segundo e disse-lhe a mesma coisa. Ele respondeu: «Não quero»; mas depois arrependeu-se e foi. 31Qual destes dois fez a vontade do pai? O último, respon­deram eles. Disse-lhes Jesus: Em verdade vos digo que os publicanos e as meretrizes entram adiante de vós no Reino de Deus. 32Porque veio a vós João, no caminho da justiça, e não crestes nele. Os publicanos, porém, e as meretrizes creram nele, E vós, vendo isto, nem assim vos arrependestes depois, crendo nele.

Comentário

 

32. São João Baptista tinha ensinado o caminho da santidade, anunciando o Reino de Deus e pregando a conversão. Os escribas e fariseus não o tinham crido, apesar de se gloriarem de uma atitude oficial de fidelidade aos planos de Deus. Estavam representados pelo filho que diz «vou» e depois não vai. Pelo contrário, os publicanos e as meretrizes que se arrependerem e rectificarem a sua vida precedê-los-ão no Reino: vêm a ser o filho que diz «não vou», mas depois vai. O Senhor põe em relevo que a penitência e a conversão podem orientar e situar a todos no caminho da santidade, ainda que tenham vivido muito tempo afastados de Deus.

 

29.09.14 – Jo 1, 47-51

47Jesus, vendo Natanael, que vinha ao Seu encontro, diz acerca dele: Aí está um autên­tico israelita, em quem não há fingimento! 48Diz-Lhe Natanael: Donde me conheces? Respondeu-lhe Jesus, dizendo: Antes de Fi­lipe te haver chamado, quando estavas de­baixo da figueira, Eu vi-te! 49Volveu-Lhe Natanael: Rabi, Tu és o Filho de Deus, Tu és o Rei de Israel. 50Retorquiu-lhe Jesus, nestes termos: Porque te disse: «Eu vi-te debaixo da figueira», acreditas? Verás coisas maiores do que estas. 51E acrescentou: Em verdade, em verdade vos digo: Heis-de ver o Céu aberto e os Anjos de Deus subir e descer por sobre o Filho do homem.

Comentário

45-51. O apóstolo Filipe não pode deixar de transmitir ao seu amigo Natanael (Bartolomeu) a alegria da sua desco­berta, cheio de emoção (v. 45). «Natanael (…) tinha ouvido pelas Escrituras que o Cristo devia vir de Belém, da aldeia de David. Assim o criam os judeus e o tinha anunciado, tempo atrás, o profeta: ‘E tu, Belém, não és certamente a menor entre as principais cidades de Judá; pois de ti sairá um chefe, que apascentará o Meu povo, Israel’ (Mich 5,2). Portanto, ao escutar que provinha de Nazaré turvou-se e duvidou por não ver como compaginar as palavras de Filipe com a predição profética» (Hom. sobre S. João, 20,1).

Pense o cristão que ao transmitir a sua fé a outros, estes podem apresentar-lhe dificuldades. Que deve fazer? O que fez Filipe: não confiar nas suas próprias explicações, mas convidá-los a vir pessoalmente até Jesus: «Vem ver» (v. 46). O cristão, pois, deve pôr os seus irmãos os homens diante do Senhor através dos meios da graça que Ele próprio deu e a Igreja administra: freqüência de Sacramentos e prática da piedade cristã.

Natanael, homem sincero (v. 47), acompanha Filipe até Jesus. Estabelece-se o contacto pessoal com o Senhor (v. 48). E o resultado é a fé do novo discípulo, fruto do seu bom acolhimento da graça, que lhe chega através da Humani­dade de Cristo (v. 49).

Segundo podemos deduzir dos Evangelhos, Natanael é o primeiro Apóstolo que faz uma confissão explícita de fé em Jesus como Messias e como Filho de Deus. Mais tarde São Pedro, de modo mais solene, reconhecerá a divindade do Senhor (cfr Mt 16,16). Aqui (v. 51) Jesus evoca um texto de Daniel (7,13) para confirmar e dar profundidade às palavras que pronunciou o novo discípulo.

 

 

30.09.14 – Lc 9, 51-56

51Como estivessem a chegar os dias de ser levado deste mundo, tomou Jesus a firme resolução de Se dirigir a Jerusalém e mandou mensageiros à Sua frente. 52Estes puse­ram-se a caminho e entraram numa povoação de Samaritanos, a fim de Lhe prepa­rarem hospedagem. 53Mas não O receberam, por ir ostensivamente a caminho de Jeru­salém. 54Ao verem isto, disseram os discí­pulos Tiago e João: Senhor, queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma? 55Mas Ele, voltando-Se, repreendeu-os. 56E foram para outra povoação.

Comentário

 

51. «Os dias de ser levado deste mundo»: Literalmente tempo da Sua assunção. Estas palavras referem-se ao mo­mento em que Jesus Cristo, abandonando este mundo, sobe aos Céus. O próprio Senhor o dirá mais claramente na Ultima Ceia: «Saí do Pai e vim ao mundo; de novo deixo o mundo e vou para o Pai» (Ioh 16,28). Ao encaminhar-Se decididamente para Jerusalém, para a Cruz, Jesus cumpre voluntariamente o que Deus Pai tinha determinado: que pela Sua Paixão e Morte chegasse à Ressurreição e à Ascensão gloriosas.

52-53. Os Samaritanos eram inimigos dos Judeus. Esta inimizade provinha de que aqueles descendiam da fusão dos antigos Hebreus com os gentios que repovoaram a região da Samaria na época do cativeiro assírio (século VIII a.C.). A este motivo acrescentavam-se outros de tipo religioso: os Samaritanos tinham misturado com a religião de Moisés certas práticas supersticiosas, e não reconheciam o Templo de Jerusalém como o único lugar onde se podiam oferecer sacrifícios. Construíram o seu próprio templo no monte Garizin, que opunham ao de Jerusalém (cfr Ioh 4,20); por esta razão, ao dar-se conta de que Jesus Se dirigia para a Cidade Santa, não quiseram dar-Lhe hospedagem.

54-56. Jesus Cristo corrige o desejo de vingança dos Seus discípulos, oposto à missão do Messias que não veio para perder os homens mas para os salvar (cfr Lc 19,10; Ioh 12,47). Deste modo os Apóstolos vão aprendendo que o zelo pelas coisas de Deus não deve ser áspero e violento.

« O Senhor faz admiravelmente todas as coisas (…). Actua assim com o fim de nos ensinar que a virtude perfeita não guarda nenhum desejo de vingança, e’que onde está presente a verdadeira caridade não tem lugar a ira e, enfim, que a debilidade não deve ser tratada com dureza, mas deve ser ajudada. A indignação deve estar longe das almas santas e o desejo de vingança longe das almas grandes» (Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc.).

Deve advertir-se que entre «repreendeu» do v. 55 e «foram» do v. 56, aVulgata Clementina inclui a cláusula: «dizendo: Não sabeis a que espírito pertenceis. O Filho do Homem não veio para perder os homens mas para os salvar». Esta cláusula vem em bastantes códices gregos e versões antigas, mas não existe nos melhores e mais antigos códices gregos. Por isso a Neo-vulgata não recolheu este passo.

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