In Evangelho do dia

Setembro de 2012

 

01.09.2012 – Mt 25, 1-13

Então será semelhante o Reino dos Céus a dez virgens que, tomando as suas lâmpadas, saíram ao encontro do esposo. Cinco delas eram loucas e cinco prudentes. 3As loucas, tomando as lâmpadas, não tomaram consigo azeite. 4As prudentes, porém, tomaram azeite nas almotolias, junta­mente com as lâmpadas. 5Ora, como o esposo tardasse, começaram todas a cabecear e adormeceram. 6À meia-noite, ouviu-se um clamor: «Aí vem o esposo, saí-lhe ao encontro». 7Então todas aquelas virgens se levantaram e aprontaram as lâmpadas. 8As loucas, porém, disseram às prudentes: «Dai-nos do vosso azeite, que as nossas lâmpadas estão a apagar-se». 9Responderam as prudentes: «Não seja caso que não chegue para nós e para vós, ide antes comprá-lo aos vendeiros ». 10Enquanto o iam comprar, chegou o esposo. As que estavam preparadas entraram com ele para as bodas, e fechou-se a porta. 11Por fim, chegam também as outras virgens e dizem: «Senhor, Senhor, abre-nos!» 12Mas ele respondeu: «Em verdade vos digo que não vos conheço». 13Portanto, vigiai, porque não sabeis o dia nem a hora.

Comentário

1-46. Todo o capítulo 25 é uma aplicação prática da doutrina do capítulo 24. Jesus Cristo, com a parábola das virgens, a dos talentos e os ensinamentos sobre o Juízo Final, volta a insistir sobre a doutrina da vigilância (cfr nota a Mt 24, 42). Neste sentido, todo o capítulo 25 é também uma luz poderosa que se projecta sobre o capítulo 24.

1-13. O ensinamento principal da parábola é a exortação à vigilância: na prática é ter a luz da fé, que se mantém viva com o azeite da caridade. Entre os Hebreus as bodas celebravam-se em casa do pai da desposada. As virgens são as jovens não casadas, damas de honra da noiva, que esperam em casa desta a vinda do esposo. A atenção da parábola centra-se na atitude que se deve adoptar até à chegada do esposo. Com efeito, não é suficiente saber-se dentro do Reino, a Igreja, mas é preciso estar vigilantes e prevenir com boas obras a vinda de Cristo.

Essa vigilância há-de ser contínua, perseverante, porque contínuo é o ataque do demônio que, «como leão rugidor, vagueia à busca de quem devorar» (1Pet 5, 8). «Vela com ó coração, vela com a fé, com a caridade, com as obras (…); prepara as lâmpadas, cuida de que não se apaguem (…), alimenta-as com o azeite interior de uma recta consciência; permanece unido ao Esposo pelo Amor, para que Ele te introduza na sala do banquete, onde a tua lâmpada nunca se extinguira» (S. Agostinho, Sermo 93).

02.09.2012 – Mc 7, 1-8.14-15.21-23

Ajuntaram-se depois à volta d’Ele os Fariseus e alguns Escribas vindos de Jerusalém. 2E, vendo alguns dos Seus discí­pulos a comer com as mãos profanas, isto é, sem as terem lavado; 3de facto, os Fariseus, como todos os Judeus, não comem sem ter lavado as mãos cuidadosamente, seguindo a tradição dos antigos; 4e, ao voltarem da praça, não comem sem se terem lavado; há ainda muitas outras cerimônias que observam por tradição, como abluções de copos e jarros e vasos de metal. 5Perguntaram-Lhe, pois, os Fariseus e os Escribas: Porque é que os Teus discípulos não se conformam com a tradição dos antigos e comem com as mãos profanas? 6Mas Ele disse-lhes: Bem profe­tizou Isaías de vós, hipócritas, como está escrito: Este povo honra-Me com os lábios, mas o seu coração está longe de Mim.

7Em vão Me prestam culto, ensinando doutrinas que são preceitos humanos.

8Desprezando o mandamento de Deus, aferrais-vos à tradição dos homens, abluções de jarros e copos e fazeis muitas outras coisas semelhantes.

14E, chamando outra vez o povo, dizia-lhes: Ouvi-Me todos e entendei: 15Nada há fora do homem que, entrando nele, o possa tornar impuro; mas as coisas que saem do homem, essas é que tornam o homem impuro.

21Porque de dentro, do coração dos homens, saem os maus pensa­mentos, desonestidades, furtos, homicídios, 22adultérios, ambições, maldades, fraude, impudicícia, inveja, blasfêmia, soberba, insensatez. 23Todas estas coisas más procedem do interior e tornam o homem impuro.

Comentário

1-2. O lavar-se as mãos não era por meros motivos de higiene ou de urbanidade, mas tinha um significado religioso de purificação. Em Ex 30,17 ss. a Lei de Deus prescrevia a purificação dos sacerdotes antes das suas funções cultuais. A tradição judaica tinha-o ampliado a todos os israelitas para antes de todas as refeições, querendo dar a estas um significado religioso que se reflectia nas bênçãos com que começavam. A purificação ritual era símbolo da pureza moral com que uma pessoa deve apresen­tar-se diante de Deus (Ps 24,3 ss.; 51,4-9); mas os fariseus tinham conservado o meramente exterior. Por isso Jesus restitui o sentido genuíno destes preceitos da Lei, que tendem a ensinar a verdadeira adoração a Deus (cfr Ioh 4,24).

3-5. No texto vemos com clareza que boa parte dos destinatários imediatos do Evangelho de São Marcos eram cristãos procedentes do paganismo, que desconheciam os costumes dos Judeus. Por isso o Evangelista explica-lhes, com certo pormenor, alguns destes costumes para facilitar a compreensão do sentido dos acontecimentos e dos ensina­mentos da história evangélica.

De modo semelhante a pregação e ensino da Sagrada Escritura deve fazer-se de maneira que seja compreensível e acomodada às circunstâncias dos ouvintes. Por isso ensina o Concilio Vaticano II que «compete aos Bispos ensinar oportunamente os fiéis que lhes foram confiados no uso recto dos livros divinos, de modo particular do Novo Testamento, e sobretudo dos Evangelhos. E isto por meio de traduções dos textos sagrados, que devem ser acompanhadas às explicações necessárias e verdadeiramente suficientes, para que os filhos da Igreja se familiarizem dum modo seguro e útil com a Sagrada Escritura, e se penetrem do seu espírito» (Dei Verbum, n. 25).

15. Alguns códices importantes acrescentam aqui: «Quem têm ouvidos para ouvir oiça…», que corresponderia ao v. 16, que a tradução portuguesa que transcrevemos refere.

20-23. «Na maneira de os homens se exprimirem, que a Sagrada Escritura utiliza para nos dar a entender as coisas divinas, o coração é tido por resumo e fonte, expressão e fundo íntimo dos pensamentos, das palavras, das acções» (Cristo que passa, nº 164).

A bondade ou malícia, a qualidade moral dos nossos actos não depende do seu caracter espontâneo, instintivo. O próprio Senhor diz-nos que do coração humano podem sair acções pecaminosas.

Tal possibilidade compreende-se, se temos em conta que, depois do pecado original, o homem «foi mudado para pior» segundo o corpo e a alma e, portanto, está inclinado para o mal (cfr De peccato originali). Com as palavras deste passo do Evangelho, o Senhor restitui a moral em toda a sua pureza e interioridade.

 

03.09.2012 – Lc 4, 16-30

16Veio a Nazaré, onde Se tinha criado. Segundo o Seu costume, entrou em dia de sábado na sinagoga e levantou-Se para ler. 17Foi-Lhe entregue o Livro do Profeta Isaías e, ao abri-lo, deparou com a passagem em que estava escrito:

18O Espírito do Senhor está sobre Mim, por isso que Me ungiu.

A anunciar a Boa. Nova aos pobres Me enviou, a proclamar a libertação aos cativos e o recobrar da vista aos cegos, a mandar em liberdade os oprimidos, 19a proclamar um ano de graça do Senhor.

20E, depois de enrolar o livro, entregou-o ao empregado e sentou-Se. Estavam cra­vados n’Ele os olhos de quantos se encontra­vam na sinagoga. 21Começou então a dizer-lhes: Cumpriu-se hoje este passo da Escritura que acabais de ouvir. 22Todos davam testemunho em favor d’Ele e admiravam-se com as graciosas palavras que saíam da Sua boca. Não é Este — diziam — o filho de José? 23Disse-lhes Ele: Dir-Me-eis por certo este provérbio: Médico, cura-te a ti mesmo. Quanto ouvimos que se realizou em Cafarnaum, fá-lo aqui também na Tua terra. 24E continuou: Em verdade vos digo: Nenhum profeta é bem recebido na sua terra; 25mas, na realidade, vos digo Eu, muitas viúvas havia em Israel no tempo de Elias, quando o céu se fechou por três anos e seis meses e houve uma grande fome em toda a Terra, 26e a nenhuma delas foi mandado Elias, senão a uma viúva em Sarepta de Sidónia. 27E muitos leprosos havia em Israel, no tempo do Profeta Eliseu, mas nenhum deles foi limpo senão o sírio Naamã.

28Todos na sinagoga se encheram de furor, ao ouvirem estas coisas. 29Ergueram-se então, lançaram-No fora da cidade e levaram-No até a uma escarpa do outeiro em que estava construída a cidade, a fim de O precipitarem. 30Mas Jesus, passando pelo meio deles, seguiu o Seu caminho.

Comentário

16-30. O sábado era o dia de descanso e de oração para os Judeus, por mandamento de Deus (Ex 20,8-11). Neste dia reuniam-se para se instruírem na Sagrada Escritura. Começava a reunião recitando todos juntos a Shemá, resumo dos preceitos do Senhor, e as dezoito bênçãos. Depois lia-se um passo do livro da Lei — o Pentateuco —- e outro dos Profetas, O presidente convidava algum dos presentes que conhecesse bem as Escrituras a dirigir a palavra ao auditório. Por vezes levantava-se algum voluntariamente e solicitava a honra dei cumprir este encargo. Assim deve ter acontecido nesta ocasião. Jesus busca a oportunidade de instruir o povo (cfr Lc 4,16 ss.), e o mesmo farão depois os Apóstolos (cfr Act 13,5.14.42.44; 14,1, etc.). A reunião judaica terminava com a bênção sacerdotal, que recitava o presidente ou um sacerdote se o havia, à qual todos respondiam: «Amen» (cfr Num 6,22 ss.).

18-21. Jesus leu o passo de Isaías 61,1-2, onde o profeta anuncia a chegada do Senhor que libertará o povo das suas aflições. N’Ele se cumpre essa profecia, já que é o Ungido, o Messias que Deus enviou ao Seu povo atribulado. Jesus j recebe a unção do Espírito Santo para a missão que o Pai Lhe confia. «Segundo São Lucas (vv. 18-19), estas afirmações são a Sua primeira declaração messiânica, à qual se seguem os factos e as palavras conhecidos por intermédio do Evangelho. Mediante tais factos e palavras, Cristo torna o Pai presente no meio dos homens» (Dives in misericórdia n. 3).

As promessas anunciadas nos vv. 18 e 19 constituem o conjunto de bens que Deus enviaria ao Seu povo por meio do Messias. Por «pobres» deve entender-se, segundo a tradição do AT e a pregação de Jesus (cfr a nota a Mt 5,3), não tanta! uma determinada condição social mas antes a atitude religiosa de indigência e de humildade diante de Deus dos que, em vez de confiar nos seus próprios bens e méritos, confiam na bondade e misericórdia divinas. Por isso evangelizar os pobres é anunciar-lhes a «boa notícia» de que Deus Se compadeceu deles. Do mesmo modo, a Redenção, a que alude o texto, tem sobretudo um sentido espiritual e trans­cendente: Cristo vem livrar-nos da cegueira e da opressão do pecado, que são, em última análise, a escravidão a que nos submeteu o demônio. «O cativeiro é sensível — ensina São João Crisóstomo num comentário ao Salmo 126 — quando procede de inimigos corporais; mas pior é o cati­veiro espiritual a que se refere aqui, já que o pecado produz a mais dura tirania, manda o mal e confunde os que lhe obedecem: deste cárcere espiritual nos tirou Jesus Cristo» (Catena Áurea). Não obstante, este passo cumpre-se, além disso, na preocupação que Jesus manifesta pelos mais neces­sitados. «De igual modo, a Igreja abraça com amor todos os afligidos pela enfermidade humana; mais ainda, reconhece nos pobres e nos que sofrem a imagem do seu Fundador, pobre e sofredor, procura aliviar as suas necessidades, e intenta servir neles a Cristo» (Lumen gentiiim, n. 8).

18-19. As palavras de Isaías, que Cristo leu nesta ocasião, descrevem de modo gráfico a finalidade para que Deus enviou o Seu Filho: a redenção do pecado, a libertação da escravidão do demônio e da morte eterna. É certo que Cristo durante o Seu ministério público, movido pela Sua miseri­córdia, fez algumas curas, livrou alguns endemoninhados, etc. Mas não curou todos os doentes do mundo, nem suprimiu todas as penalidades desta vida, porque a dor, introduzida no mundo pelo pecado, tem um irrenunciável valor redentor unida aos sofrimentos de Jesus. Por isso, o Senhor realizou alguns milagres, que constituem não tanto o remédio das dores em tais casos concretos, mas a mostra da Sua missão divina de redenção universal e eterna.

A Igreja continua esta missão de Cristo: «Ide, pois, e fazei discípulos todas as gentes, baptizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo; e ensinando-as a observar tudo o que vos mandei. E sabei que Eu estou convosco todos os dias até ao fim do mundo» (Mt 28,19-20). São as palavras simples e sublimes do fim do Evangelho de São Mateus: aí está assinalada «a obrigação de pregar as verdades de fé, a urgência da vida sacramentai, a promessa da assistência contínua de Cristo à Sua Igreja. Não se é fiel ao Senhor se se desatendem essas realidades sobrenaturais: a instrução na fé e na moral cristãs, a prática dos sacramentos. Com este mandato Cristo funda a Sua Igreja (…). E a Igreja só pode dar a salvação às almas se permanece fiel a Cristo na sua consti­tuição, nos seus dogmas, na sua moral.

«Rejeitemos, portanto, o pensamento de que a Igreja — esquecendo o Sermão da Montanha — busca a felicidade humana na terra, porque sabemos que a sua única tarefa consiste em levar as almas à glória eterna do paraíso; rejei­temos qualquer solução naturalista, que não aprecie o papel primordial da graça divina; rejeitemos as opiniões materia­listas, que procuram fazer perder a sua importância aos valores espirituais na vida do homem; rejeitemos de igual modo as teorias secularizantes, que pretendem identificar os fins da Igreja de Deus com os dos Estados terrenos: confundindo a essência, as instituições, a actividade, com características semelhantes às da sociedade temporal» (J. Escrivá de Balaguer, Hom. O fim sobrenatural da Igreja).

18. Os Santos Padres veem designadas neste versículo as três Pessoas da Santíssima Trindade: o Espírito (Espírito Santo) do Senhor (o Pai) está sobre Mim (o Filho) (cfr Orígenes, Homília 32). O Espírito Santo habitava na alma de Cristo desde o instante da Encarnação, e desceu visível mente em forma de pomba quando foi baptizado por João (cfr Lc 3, 21-22).

«Por isso que Me ungiu»: Refere-se à unção que Jesus Cristo recebeu no momento da Encarnação, principalmente pela graça da união hipostática. «Esta unção de Jesus Cristo não foi corporal, como a dos antigos reis, sacerdotes e profetas, mas toda espiritual e divina, porque a plenitude da divindade habita n’Ele substancialmente» (Catecismo Maior, n° 77). Desta união hipostática deriva a plenitude de todas as graças. Para a significar diz-se que Jesus Cristo foi ungido pelo próprio Espírito Santo, e não só recebeu as graças e os dons do Espírito Santo, como os santos.

19. «Ano de graça»: Alude ao ano jubilar dos judeus, estabelecido pela Lei de Deus (Lev 25,8 ss.) cada cinquenta anos, para simbolizar a época de redenção e liberdade que trará o Messias. A época inaugurada por Cristo, o tempo da Nova Lei até ao fim deste mundo, é o «ano de graça», o tempo da misericórdia e da redenção, que se alcançarão completamente na vida eterna.

De maneira semelhante, a instituição do Ano Santo na Igreja Católica tem este sentido de anúncio e recordação da Redenção trazida por Cristo e da sua plenitude na vida futura.

20-22. As palavras dó versículo 21 mostram-nos a auto­ridade com que Cristo falava e explicava as Escrituras: «Cumpriu-se hoje este passo da Escritura que acabais de ouvir». Jesus ensina que esta profecia, como as principais do AT, se referem a Ele e n’Ele têm o seu cumprimento (cfr Lc 24,44 ss.). Por isso, o AT não pode ser rectamente entendido senão à luz do NT: nisto consiste a inteligência para entender as Escrituras que Cristo Ressuscitado deu aos Apóstolos (cfr Lc 24,45) e que o Espírito Santo completou no dia de Pentecostes (cfr Act 2,4).

22-29. Os habitantes de Nazaré escutam ao princípio com agrado as palavras cheias de sabedoria de Jesus. Mas a visão destes homens é muito superficial. Com um orgulho mesquinho sentem-se feridos pelo facto de Jesus, seu con­cidadão, não ter feito em Nazaré os prodígios que fez noutras cidades. Levados por uma confiança mal entendida exigem-Lhe com insolência que faça ali milagres para agradar à sua vaidade, mas não para se converterem. Diante desta atitude Jesus não faz nenhum prodígio, seguindo o Seu modo habitual de proceder (veja-se, por exemplo, o encontro com Herodes em Lc 23,7-11); inclusivamente censura a sua posi­ção, explicando-lhes com dois exemplos tomados do AT (cfr 1Reg 17,9 e 2Reg 5,14) a necessidade de uma boa disposição a fim de que os milagres possam dar origem à fé. A atitude de Cristo fere-os no seu orgulho até ao ponto de O quererem matar. Todo o episódio é uma boa lição para entender de veras a Jesus: só pode ser entendido na humildade e na séria resolução de nos pormos nas Suas mãos.

30. Jesus não foge precipitadamente, mas vai-Se reti­rando por entre a turba agitada com uma majestade que os deixou paralisados. Como noutras ocasiões, os homens não podem nada contra Jesus: o decreto divino era que o Senhor morresse crucificado (cfr Ioh 18,32) quando chegasse a Sua hora.

04.09.2012 – Lc 4, 31-37

31Depois desceu a Cafarnaum, cidade da Galileia e, ao sábado, lá estava a ensinar aquela gente. 32Eles enchiam-se de assombro com o seu ensino, porque a Sua palavra era cheia de autoridade.

33Achava-se na sinagoga um homem que tinha o espírito dum Demônio impuro, o qual se pôs a bradar em alta voz: 34 — Ah! Que tens que ver connosco, Jesus de Nazaré? Vieste para nos perder? Eu sei quem Tu és: o Santo de Deus! 35Disse-lhe Jesus em tom severo: Cala- te e sai desse homem. E o De­mônio, depois de o arremessar para o meio da assistência, saiu sem lhe fazer mal algum. 36Todos se encheram de espanto e exclamavam: Que palavra esta! Manda com auto­ridade e poder nos espíritos impuros, e eles saem! 37E a Sua nomeada estendeu-se a todos os lugares da região.

Comentário

33-37. A mesma autoridade que Jesus tinha mostrado com a Sua palavra mostra agora com os Seus factos.

34. O demônio diz a verdade nesta ocasião, ao cha­mar-Lhe «o Santo de Deus», mas Jesus não aceita este testemunho do «pai da mentira» (cfr Ioh 8,44). Com efeito, o demônio costuma dizer algumas vezes a verdade para en­cobrir o erro e, ao semear assim a confusão, enganar mais facilmente. Jesus, ao fazer calar o demônio e ao expul­sá-lo, ensina-nos a ser prudentes e a não nos deixarmos enganar pelas verdades a meias.

05.09.2012 – Lc 4, 38-44

38Partiu então da sinagoga e entrou em casa de Simão. Ora a sogra de Simão estava com uma febre aguda e os discípulos inter­cederam junto d’Ele em seu favor. 39Chegando à cabeceira dela, falou imperiosa­mente à febre, que a deixou. Ela ergueu-se imediatamente e começou a servi-los.

40Ao pôr do Sol, todos quantos tinham doentes com várias enfermidades traziam-Lhos, e Jesus, impondo as mãos a cada um deles, curava-os. 41Também de muitos saíam Demônios, que gritavam: Tu és o Filho de Deus. Mas Ele, em tom severo, impedia-os de falar, porque sabiam que Ele era o Messias.

42Quando se fez dia, saiu e dirigiu-Se a um lugar solitário. Foram à Sua procura as multidões e, ao chegarem junto d’Ele, tentavam retê-Lo, para que as não deixasse. 43Mas Ele disse-lhes: Eu tenho de ir também anunciar às outras cidades a Boa Nova do Reino de Deus, que para isso é que fui enviado. 44E andava a pregar pelas sinagogas da Judeia.

Comentário

38-39. Na vida pública de Jesus aparecem vários episó­dios estranháveis e familiares (cfr, p. ex., Lc 19,1; Ioh 2.1) que ajudam a compreender e a apreciar a estima do Senhor pela vida ordinária do lar.

Manifesta-se aqui a eficácia da oração pelos outros: «Mal rogavam ao Salvador — diz São Jerónimo — Ele imediata­mente curava os doentes; dando a entender que também atende as súplicas dos fiéis contra as paixões dos pecados» (Expositio in Evangelium sec. Lucam, ad loc.).

Sobre esta cura instantânea e completa observa São João Crisóstomo: «Como a doença era curável deu a conhecer o Seu poder no modo de curar, fazendo o que a medicina não podia. Depois da cura da febre os enfermos necessitam de tempo para recuperar a sua antiga saúde, mas neste caso fez-se tudo no mesmo instante» (Hom. sobre S. Mateus, 27).

Os Santos Padres viram na febre desta mulher uma figura da concupiscência: «Na febre da sogra de Pedro (…) está representada a nossa carne afectada por diversas doenças e concupiscências; a nossa febre é a paixão, à nossa febre é a luxúria, a nossa febre é a ira, vícios que embora digam respeito ao corpo, perturbam a alma, a mente e o sentido» (Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc.).

Quanto às consequências práticas, diz-nos São Cirilo: «Recebamos nós Jesus, porque quando nos visita e O levamos na mente e no coração extingue em nós o ardor das maiores paixões, e manter-nos-á incólumes para que O sirvamos, isto é, para que façamos o que Lhe agrada» (Hom. 28 in Mattheum).

43. De novo o Senhor insiste num dos motivos da Sua vinda a este mundo. São Tomás, falando do fim da Encarnação, explica que Cristo «veio ao mundo em primeiro lugar para manifestar a verdade, como Ele próprio diz: ‘para isto nasci e para isto vim ao mundo, para dar testemunho da verdade’ (Ioh 18,37). Por isto não devia ocultar-Se, levando uma vida solitária, mas manifestar-Se em público e pregar publicamente. E assim dizia aos que pretendiam detê-Lo: É necessário que Eu anuncie também a outras cidades o Evangelho do Reino de Deus, porque para isto fui enviado’. Em segundo lugar, veio para livrar os homens do pecado, de acordo com o que diz o Apóstolo: -‘Jesus Cristo veio a este mundo para salvar os pecadores’ (1Tim 1,15). Pelo que diz o Crisóstomo: ‘Embora permanecendo sempre no mesmo lu­gar Cristo tivesse podido atrair a Si todos para que ouvissem & Sua pregação, não o fez para nos dar exemplo de que temos de ir em busca das ovelhas perdidas, como o pastor busca a ovelha extraviada, ou o médico açode ao enfermo’. Em terceiro lugar, veio para que ‘por Ele tenhamos acesso a Deus’ (Rom 5,2)» (Suma Teológica, III, q. 40, a. l, c.).

06.09.2012 – Lc 5, 1-11

1Uma vez em que a multidão se apertava em torno de Jesus, a ouvir a palavra de Deus, e Ele mesmo de pé junto ao lago de Genesaré, 2viu dois barcos estacionados no lago. Os pescadores, que deles se haviam retirado, lavavam as redes. 3Depois de subir para um dos barcos, que era de Simão, pediu-lhe que se afastasse um pouco da terra para o largo; e, sentando-Se, pôs-Se a ensinar do barco as multidões.

4Quando cessou de falar, disse a Simão: Faz-te ao largo; e vós, largai as redes para a pesca. 5Disse-Lhe Simão, em resposta: Mestre, moirejámos toda a noite e nada apanhamos; todavia, porque o dizes, largarei as redes. 6E, depois de o terem feito, apanharam grande quantidade de peixe. 7Ora as redes estavam a romper-se, e eles fizeram sinal aos companheiros que se encontravam no outro barco, para os virem ajudar. Estes vieram; e encheram ambos os barcos, a ponto de se irem afundando. 8Ao ver isso, Simão Pedro lançou-se aos pés de Jesus, dizendo: Afasta-Te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador. 9De facto, enchera-se de espanto, ele e todos os que com ele estavam, por causa da pesca que tinham feito, 10o mesmo sucedendo a Tiago e a João, filhos de Zebedeu, que eram companheiros de Simão. Disse Jesus a Simão: Não tenhas receio; doravante ficarás a apanhar homens. 11E eles, depois de reconduzirem os barcos para terra, deixaram tudo e seguiram-No.

Comentário

1. “Tal como hoje! Não estais a ver? Estão desejando ouvir a mensagem de Deus, embora o dissimulem exteriormente. Talvez alguns se tenham esquecido da doutrina de Cristo; talvez outros, sem culpa sua, nunca a tenham aprendido e olhem para a religião como coisa estranha… Mas convencei-vos de uma realidade sempre actual: chega sempre um momento em que a alma não pode mais; em que não lhe bastam as explicações vulgares; em que não a satisfazem as mentiras dos falsos profetas. E, mesmo que nem então o admitam, essas pessoas sentem fome, desejam saciar a sua inquietação com os ensinamentos do Senhor” (Amigos de Deus, n° 260).

3. Os Santos Padres viram nesta barca de Pedro, a que o Senhor sobe, uma imagem da Igreja peregrina nesta terra. “Esta é aquela barca que segundo São Mateus ainda se afunda, e segundo São Lucas se enche de peixes. Reconhecei assim os princípios dificultosos da Igreja e a sua posterior fecundidade” (Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc.). Cristo sobe para a barca para ensinar dali as multidões. De igual modo continua a ensinar da Igreja – a barca de Pedro – todas as gentes.

Cada um de nós pode ver-se representado nesta barca a que Cristo sobe. Externamente pode não mudar nada: “Que mudança há então? Há mudança na alma, porque nela entrou Cristo, tal como entrou na barca de Pedro. Abrem-se amplos horizontes, maior ambição de servir e um desejo irreprimível de anunciar a todas as criaturas as magnalia Dei (Act 2, 11), as coisas maravilhosas que o Senhor faz, se lho permitimos” (Amigos de Deus, n° 265).

4. “Quando acabou a Sua catequese, ordenou a Simão: Faz-te mais ao largo e lançai as vossas redes para pescar; é Cristo o dono da barca; é Ele quem prepara para a faina. Para isso é que veio ao mundo: para tratar de que os seus irmãos descubram o caminho da glória e do amor do Pai” (Amigos de Deus, n° 260). Para levar a cabo esta tarefa, o Senhor ordena a todos que lancem as redes, mas somente a Pedro que dirija a barca mar adentro.

Todo este passo faz referência, em certo modo, à vida da Igreja. Nela o Romano Pontífice, sucessor de Pedro, “é vigário de Jesus Cristo porque O representa na terra e faz as Suas vezes no governo da Igreja” (Catecismo Maior, n° 195). Cristo dirige-se também a cada um de nós para que nos sintamos urgidos a um trabalho apostólico audaz: “‘Duc in altum’ – Ao largo! – Repele o pessimismo que te torna cobarde. ‘Et laxate retia vestra in capturam’ – e lança as redes para pescar. Não vês que podes dizer, como Pedro: ‘in nomine tuo, laxabo rete’- Jesus, em Teu nome, procurarei almas?” (Caminho, n° 792).

“Se cedesses à tentação de perguntar a ti mesmo: quem me manda a mim meter-me nisto?, teria de responder-te: manda-to, pede-to o próprio Cristo. A messe é grande e os operários são poucos. Rogai, pois, ao Senhor da messe que mande operários para a sua messe (Mt IX, 37-38). Não digas, comodamente: eu para isto não sirvo; para isto já há outros. Se tu pudesses falar assim, todos podiam dizer a mesma coisa.

O pedido de Cristo dirige-se a todos e a cada um dos cristãos. Ninguém está dispensado: nem por razões de idade, nem de saúde, nem de ocupação. Não há desculpas de nenhum género. Ou produzimos frutos de apostolado ou a nossa fé será estéril” (Amigos de Deus, n° 272).

5. Perante a ordem de Cristo, Simão expõe as suas dificuldades. “A resposta de Simão parece razoável. Costumavam pescar de noite, e precisamente aquela noite tinha sido infrutífera. Para que haviam de pescar de dia? Mas Pedro tem fé: Porém, sobre a Tua palavra, lançarei a rede. Resolve proceder como Cristo lhe sugeriu; compromete-se a trabalhar, fiado na Palavra do Senhor” (Amigos de Deus, n.°261).

8. O desejo de Pedro não é que Cristo Se afaste dele, mas, por causa dos seus pecados, declara-se indigno de estar próximo do Senhor. O que disse Pedro recorda a atitude do Centurião que se confessa indigno de que Jesus entre na sua casa (Mt 8,8). A Igreja manda os seus filhos repetir estas mesmas palavras do Centurião antes de receberem a Santíssima Eucaristia. Como também indica a conveniência de manifestar externamente a reverência devida ao Sacramento no acto de comungar: Pedro ensina-nos com o seu gesto, ao prostrar-se diante do Senhor, que também os sentimentos internos de adoração a Deus se devem manifestar exteriormente.

11. A perfeição não consiste em deixar simplesmente todas as coisas, mas em deixá-las para seguir a Cristo. Isto é o que fizeram os Apóstolos: abandonam tudo para estarem disponíveis perante as exigências da vocação divina.

Devemos fomentar no nosso coração esta disponibilidade porque “Jesus não Se satisfaz ‘compartilhando’; quer tudo” (Caminho, n° 155).

Se falta a entrega generosa encontraremos muitas dificuldades para seguir a Jesus Cristo: “Desprende-te das criaturas até ficares despido delas. Porque – diz o Papa São Gregório – o demónio nada tem de seu neste mundo, e acode nu à contenda. Se vais, vestido, lutar com ele, em breve cairás por terra. Porque terá por onde apanhar-te” (Caminho, n° 149).

Se falta a entrega generosa encontraremos muitas difi­culdades para seguir a Jesus Cristo: «Desprende-te das criaturas até ficares despido delas. Porque — diz o Papa São Gregório — o demônio nada tem de seu neste mundo, e açode nu à contenda. Se vais, vestido, lutar com ele, em breve cairás por terra. Porque terá por onde apanhar-te» (Caminho, n° 149).

07.09.2012 – Lc 5, 33-39

33Disseram-Lhe eles: Os discípulos de João jejuam muita vez e recitam orações; o jejum mesmo fazem também os dos Fariseus. Os Teus, porém, comem e bebem! 34Mas Jesus respondeu-lhes: Podeis vós fazer jejuar os companheiros do noivo, enquanto o noivo está com eles? 35Lá virão dias!… e, quando o noivo lhes for tirado, então, nesses dias, hão-de jejuar. 36Disse-lhes também uma parábola: Ninguém recorta um remendo de vestido novo para o deitar em vestido velho. Aliás, não só rasga o novo, mas também não se ajustará ao velho o remendo que vem do novo. 37Nem ninguém deita vinho novo em odres velhos. Aliás, o vinho novo romperá os odres, derramar-se-á, e os odres ficarão estragados. 38Mas deve deitar-se vinho novo em odres novos. 39E ninguém que bebeu do velho quer do novo, pois diz: «Ó velho é que é bom!»

Comentário

33-35. No Antigo Testamento estavam prescritos por Deus alguns dias de jejum; o mais assinalado era o «dia da expiação» (Num 29,7; Act 27,9). Por jejum costuma enten­der-se a abstenção, total ou parcial, de comida ou de bebida, e assim o entendiam também os Judeus. Moisés e Elias tinham jejuado (Ex 34,28; 1Reg 19,8), e o próprio Senhor jejuaria no deserto durante quarenta dias, antes de começar o Seu ministério público. No passo que comentamos, Jesus Cristo dá também um sentido mais profundo do jejum: a privação da Sua presença física, que os Apóstolos sofrerão depois da morte. O Senhor ia preparando os discípulos durante a Sua vida pública para a separação definitiva. Ao começo os Apóstolos não eram ainda fortes, e era mais conveniente que fossem consolados com a presença corporal de Cristo do que exercitados com a austeridade do jejum. Também os cristãos devem privar-se por vezes do ali­mento: «Jejuar e abster-se de comer carne quando o manda a Santa Madre Igreja» (Catecismo Maior, n° 495). Este é o objecto do quarto mandamento da Igreja. Mas, além disso, num sentido mais profundo, como diz São Leão Magno: «O mérito dos nossos jejuns não consiste somente na absti­nência dos alimentos; de nada serve tirar ao corpo a sua nutrição se a alma não se afasta da iniquidade e se a língua não deixa de falar mal» (Sermo IV in Quadragesima).

08.09.2012 – Mt 1, 1-16.18-23

Genealogia de Jesus Cristo, filho de Genealogia David, filho de Abraão.

2Abraão gerou a Isaac, Isaac gerou a Jacob, Jacob gerou a Judas e seus irmãos. 3Judas gerou a Fares e a Zara, de Tamar. Fares gerou a Esron, Esron gerou a Arão. 4Arão gerou a Aminabad, Aminabad gerou a Naásson, Naásson gerou a Salmon. 5Salmon gerou a Booz, de Raab. Booz gerou a Obed, de Rute. Obed gerou a Jessé, Jessé gerou a el-rei David.

6David gerou a Salomão, da que fora mulher de Urias. 7Salomão gerou a Roboão, Roboão gerou a Abias, Abias gerou a Asa. 8Asa gerou a Josafá, Josafá gerou a Jorão; Joráo gerou a Ozias. 9Ozias gerou a Joatã, Joatã gerou a Acaz, Acaz gerou a Ezequias. 10Ezequias gerou a Manasses, Manasses gerou a Amos, Amos gerou a Josias. 11Josias gerou a Jeconias e seus irmãos, no tempo da deportação para Babilônia.

12Depois da deportação para Babilônia, Jeconias gerou a Salatiel, Salatiel gerou a Zorobabel. 13Zorobabel gerou a Abiud, Abiud gerou a Eliacim, Eliacim gerou a Azor. 14Azor gerou a Sadoc, Sadoc gerou a Aquim, Aquim gerou a Eliud. 15Eliud gerou a Eléazar, Eléazar gerou a Mata, Mata gerou a Jacob. 16Jacob gerou a José, o esposo de Maria da qual nasceu Jesus, que se chama Cristo.

18Ora o nascimento de Jesus foi assim: Estando Maria, sua Mãe, desposada com José, antes de morarem juntos, notou-se que tinha concebido por virtude do Espírito Santo. 19José, seu esposo, como era justo e não a queria infamar, resolveu deixá-la secretamente. 20Mas, andando ele com este pensamento, apareceu-lhe, em sonhos, um anjo do Senhor, que lhe disse:

— José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou, é obra do Espírito Santo. 2lEla dará à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus, porque Ele salvará o seu povo dos seus pecados.

22Ora tudo isto aconteceu para se cumprir o que o Senhor tinha anunciado pelo profeta, que disse: 23«Eis que uma Virgem conceberá e dará à luz um filho, a quem será dado o nome de Emanuel», que quer dizer «Deus connosco».

Comentário

1. Este versículo vem a ser como que o título de todo o Evangelho. Em Jesus Cristo cumprem-se as promessas divinas de salvação feitas a Abraão em favor de toda a humanidade (Gen 12,3). Igualmente se cumpre a profecia de um reino eterno dada por meio do profeta Natan ao rei David (2Sam 7, 12-16).

A genealogia que introduz São Mateus, no começo do seu Evangelho, mostra a ascendência de Jesus Cristo segundo a Sua humanidade, ao mesmo tempo que dá uma indicação da plenitude a que chega a História da Salvação com a Encarnação do Filho de Deus, por obra do Espírito Santo. Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, é o Messias esperado.

A genealogia está apresentada segundo uma estrutura de três grupos. Cada grupo consta de catorze elos que mostram o desenvolvimento progressivo da história sagrada.

Entre os Judeus (como entre outros povos orientais de origem nômada) a árvore genealógica tinha uma importância capital. Há que ter em conta que, precisamente por essa origem seminômade, a identidade de uma pessoa estava especialmente ligada à família e tribo, sendo menos signifi­cativo o lugar. No povo hebreu a essas circunstâncias acrescentava-se o significado religioso de pertencer pelo sangue ao povo eleito.

Ainda na época de Jesus a árvore genealógica se conservava nas famílias judaicas com todo o cuidado, pois segundo essa árvore as pessoas constituíam-se em sujeitos de direitos e obrigações.

6. Nas genealogias nomeiam-se quatro mulheres: Tamar (cfr Gen 38; 1Chr 2,4), Rahab (cfr Ios 2; 6, 17), Betsabé (cfr 2Sam 11; 12,24) e Rut (cfr livro de Rut). Estas quatro mulheres estrangeiras, que de um ou outro modo se incorporam na história de Israel, são um símbolo, entre muitos outros, da salvação divina que abarca toda a humanidade.

Ao citar também outros personagens pecadores, mostra-se como os caminhos de Deus são diferentes dos caminhos humanos. Através de homens cujo comportamento não foi recto Deus vai realizar os Seus planos de salvação. Ele salva-nos, santifica-nos e escolhe-nos para fazer o bem, apesar dos nossos pecados e infidelidades. Tal é o realismo que Deus quis fazer constar na história da nossa salvação.

11. Sobre a deportação para Babilônia fala-se em 2Reg 24-25. Com este facto cumpre-se a ameaça dos profetas ao povo de Israel e aos seus reis, como castigo da sua infidelidade aos mandamentos da Lei de Deus, especialmente ao primeiro.

16. Entre os Hebreus as genealogias faziam-se por via masculina. José, como esposo de Maria, era o pai legal de Jesus. A figura do pai legal é equivalente quanto a direitos e obrigações à do verdadeiro pai. Neste facto se fundamenta solidamente a doutrina e a devoção ao Santo Patriarca como padroeiro universal da Igreja, visto que foi escolhido para desempenhar uma função muito singular no plano divino da nossa salvação: pela paternidade legal de São José é Jesus Cristo Messias descendente de David.

Do costume ordinário de celebrar os desposórios entre os membros de uma mesma estirpe, deduz-se que Maria pertencia à casa de David. Neste sentido falam também antigos Padres da Igreja. Assim Santo Inácio de Antioquia, Santo Ireneu, São Justino e Tertuliano, os quais fundamentam o seu testemunho numa tradição oral constante.

É de assinalar que São Mateus, para indicar o nascimento de Jesus, usa uma fórmula completamente diversa da aplicada aos demais personagens da genealogia. Com estas palavras o texto ensina positivamente a conceição virginal de Jesus, sem intervenção de varão.

18. São Mateus narra aqui como foi a conceição de Cristo (cfr Lc 1, 25-38): «(…) verdadeiramente celebramos e veneramos por Mãe de Deus (Maria), por ter dado à luz uma pessoa que é juntamente Deus e homem (…)» (Catecismo Romano, l, 4, 7).

Segundo as disposições da Lei de Moisés, aproxima­damente um ano antes do casamento realizavam-se os desposórios. Estes tinham praticamente já o valor jurídico do matrimônio. O casamento propriamente dito consistia, entre outras cerimônias, na condução solene e festiva da esposa para casa do esposo (cfr Dt 20,7).

Já desde os desposórios era preciso o libelo de repúdio, no caso de ruptura das relações.

Todo o relato do nascimento de Jesus ensina através do cumprimento da profecia de Isaías 7, 14 (que citará expres­samente nos versículos 22-23): 1° Jesus é descendente de David pela via legal de José; 2° Maria é a Virgem que dá à luz segundo a profecia; 3° o caracter miraculoso da con­ceição do Menino sem intervenção de varão.

19. «José era efectivamente um homem corrente, em quem Deus confiou para operar coisas grandes. Soube viver, tal como o Senhor queria, todos e cada um dos aconteci­mentos que compuseram a sua vida. Por isso, a Escritura Santa louva José, afirmando que era justo. E, na linguagem hebraica, justo quer dizer piedoso, servidor irrepreensível de Deus, cumpridor da Vontade divina (cfr Gen 7,1; 23-32; Ez 18,5 ss; Prv 12, 10); outras vezes significa bom e caritativo com o próximo (cfr Tob 7,6; 9,6). Numa palavra, o justo é o que ama a Deus e demonstra esse amor, cumprindo os Seus mandamentos e orientando toda a sua vida ao serviço dos irmãos, os outros homens» (Cristo que passa, n° 40).

José considerava santa a sua esposa não obstante os sinais da sua maternidade. Por isso se encontrava perante uma situação inexplicável para ele. Procurando precisamente actuar de acordo com a vontade de Deus sentia-se obrigado a repudiá-la, mas, com o fim de evitar a infâmia pública de Maria, decide deixá-la privadamente.

É admirável o silêncio de Maria. A sua entrega perfeita a Deus leva-a inclusivamente a não defender a sua honra e a sua inocência. Prefere que caia sobre Ela a suspeita e a infâmia, a manifestar o profundo mistério da Graça. Perante um facto inexplicável por razões humanas, abandona-se confiadamente no amor e providência de Deus.

Devemos contemplar a magnitude da prova a que Deus submeteu estas duas almas santas: José e Maria. Não nos pode causar estranheza que também nós sejamos submetidos por vezes, ao longo da vida, a provas duras; nelas temos de confiar em Deus e permanecer-Lhe fiéis, a exemplo de José e Maria.

20. Deus ilumina oportunamente o homem que actua com rectidão e confia no poder e sabedoria divina, perante situações que superam a compreensão da razão humana. O anjo recorda neste momento a José, ao chamar-lhe filho de David, que é o elo providencial que une Jesus com a estirpe de David, segundo a profecia messiânica de Natan (cfr 2Sam 7, 12). Corno diz São João Crisóstomo: «Antes de mais recorda-lhe David, de quem tinha de vir Cristo, e não lhe consente estar perturbado desde o momento que, pelo nome do mais glorioso dos seus antepassados, lhe traz à memória a promessa feita a toda a sua linhagem » (Hom. sobre S. Mateus, 4).

«Jesus Cristo, único Senhor, nosso, Filho de Deus, quando tomou por nós carne humana no ventre da Virgem, foi con­cebido não por obra de varão, como os outros homens, mas, sobre toda a ordem natural, por virtude do Espírito Santo; de tal maneira que a mesma pessoa (do Verbo), permanecendo Deus, como o era desde a eternidade, se fizesse homem, o qual não era antes» (Catecismo Romano, 1,4,1).

21. Segundo a raiz hebraica, o nome de Jesus significa «salvador». Depois da Virgem Santa Maria, José é o primeiro homem que recebe esta declaração divina do facto da salvação, que já se estava a realizar.

«Jesus é o nome exclusivo do que é Deus e homem, o qual significa salvador, imposto a Cristo não casualmente nem por ditame ou disposição humana, mas por conselho e mandato de Deus.

(…) Os nomes profetizados (… o Admirável, o Conselheiro, Deus, o Forte, o Pai do século vindouro, o Príncipe da paz, cfr Is 9, 6), que se deviam dar por disposição divina ao Filho de Deus, resumem-se no nome de Jesus, porque, enquanto os outros se referem apenas sob algum aspecto à salvação que nos devia dar, este compendiou em si mesmo a realidade e a causa da salvação de todos os homens» (Catecismo Romano I, 3, 5 e 6).

23. «Emanuel»: A profecia de Isaías 7, 14 citada neste versículo, preanunciava, já desde há uns sete séculos, que o sinal da salvação divina ia ser o acontecimento extraor­dinário de uma virgem que vai dar à luz um filho. O Evan­gelho revela-nos, pois, neste passo duas verdades:

A primeira que, na verdade, Jesus é o Deus connosco preanunciado pelo profeta. Assim o sentiu sempre a tradição cristã. Inclusivamente o Magistério da Igreja (no Breve Divina de Pio VI, 1779) condenou uma interpretação que negava o sentido messiânico do texto de Isaías. Cristo é, pois, verdadeiramente Deus connosco, não só pela Sua missão divina mas porque é Deus feito homem (cfr Jo 1, 14).Não quer dizer que Jesus Cristo tenha de ser normalmente chamado Emanuel: este nome refere-se mais directamente ao Seu mistério de Verbo Encarnado. O anjo da anunciação indicou que Lhe fosse posto o nome de Jesus, que significa Salvador. Assim o fez São José.

A segunda verdade que nos revela o texto sagrado é que Santa Maria, em quem se cumpre a profecia de Is 7, 14, permanece virgem antes do parto e no próprio parto. Preci­samente o sinal miraculoso que dá Deus de que chegou a salvação é que uma mulher que é virgem, sem deixar de o ser, é também mãe.

«Jesus Cristo saiu do seio materno sem detrimento algum da virgindade de Sua Mãe; assim pois, com louvores merecidíssimos, celebramos a sua imaculada e perpétua virgindade. E isto em verdade operou-se por virtude do Espírito Santo, que tanto engrandeceu a Mãe na conceição e no nascimento do Filho, que lhe deu a ela fecundidade e conservou ao mesmo tempo a sua perpétua virgindade» (Catecismo Romano, 1,4,8).

09.09.2012 – Mc 7, 31-37

31Deixando novamente a região de Tiro, veio por Sidónia, para o mar da Galileia, através do território da Decápole. 32Trazem-Lhe um surdo-tartamudo e pedem-Lhe que lhe imponha as mãos. 33E Ele, tomando-o consigo aparte, longe da multidão, meteu-lhe os dedos nos ouvidos e com a saliva tocou-lhe a língua. 34Depois, levantando os olhos ao céu, suspirou e disse-lhe: Effathá! — isto é — Abre-te! 35E imediatamente se lhe abriram os ouvidos e se desatou a prisão da língua e falava expeditamente. Ele mandou-lhes que o não contassem a ninguém. 36Mas quanto mais lho mandava, tanto mais eles o apregoavam 37e, fora de si de espanto, diziam: Tudo faz bem: faz ouvir os surdos e falar os mudos.

Comentário

32-33. Com alguma frequência aparece na Sagrada Escritura a imposição das mãos como gesto para transmitir poderes ou bênçãos (cfr Gen 48,14ss.; 2Reg 5.11; Lc 13,13). De todos é conhecido que a saliva tem certa eficácia para aliviar feridas leves. Os dedos simbolizavam na linguagem da Revelação uma acção divina poderosa (cfr Ex 8,19; Ps 8,4; Lc 11,20). Jesus, pois, emprega sinais que têm uma certa conaturalidade em relação com o efeito que se pretende produzir, ainda que, como vemos pelo texto, o efeito — a cura imediata do surdo-mudo — exceda completamente o sinal empregado.

No milagre do surdo-tartamudo podemos encontrar, além disso, uma imagem da actuação de Deus nas almas: para crer é necessário que Deus abra o nosso coração a fim de que possamos escutar a Sua palavra. Depois, como os Apóstolos, poderemos anunciar com a nossa língua as magnalia Dei, as grandezas divinas (cfr Act 2,11). Na Liturgia da Igreja (cfr o hino Veni Creator) o Espírito Santo é comparado ao dedo da mão direita de Deus Pai (Digitus paternae dexterae). O Consolador realiza nas nossas almas, na ordem sobrenatural, efeitos comparáveis aos que Cristo realizou no corpo do surdo-tartamudo.

10.09.2012 – Lc 6, 6-11

6Noutro sábado, entrou na sinagoga e pôs-Se a ensinar. Estava lá um homem que tinha a mão direita ressequida. 7Ora os Escribas e os Fariseus observavam-No de perto, para verem se Ele realizaria uma cura ao sábado, a fim de acharem com que acusá-Lo. 8Mas Ele conhecia-lhes os pensa­mentos. Disse então ao homem que tinha a mão ressequida: Levanta-te e põe-te de pé, aí no meio. Este levantou-se e ficou de pé. 9Disse-lhes Jesus: Pergunto-vos se é permi­tido, ao sábado, fazer bem ou fazer mal, salvar a vida ou tirá-la? 10E, olhando-os a todos em volta, disse ao homem: Estende a mão, Ele estendeu-a, e a mão ficou-lhe curada. 11Eles encheram-se de fúria e come­çaram a falar entre si do que haviam de fazer a Jesus.

Comentário

10. Os Santos Padres ensinam-nos a descobrir um pro­fundo sentido espiritual mesmo naquelas palavras do Senhor que podem parecer irrelevantes à primeira vista. Assim, Santo Ambrósio comenta a frase «estende a mão»: «Este remédio é comum e geral (…). Estende-a muitas vezes, favorecendo o teu próximo; defende de qualquer injúria a quem vejas sofrer sob o peso da calúnia, estende também a tua mão ao pobre que te pede; estende-a também ao Senhor pedindo-Lhe o perdão dos teus pecados: é assim como se deve estender a mão, e é assim como se cura» (Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc.).

11. Perante a pergunta do Senhor os fariseus não que­rem responder, e diante do milagre que realiza depois não sabem que dizer. Deveriam ter-se convertido, mas o seu coração ofusca-se e enche-se de inveja e de furor. Depois, aqueles que não tinham falado diante do Senhor começam a dialogar entre si, não para se aproximarem de Cristo mas para O perder. Neste sentido comenta São Cirilo: «Oh fa­riseu!, vês O que faz coisas prodigiosas e cura os doentes em virtude de um poder superior e tu projectas a Sua morte por inveja» (Commentarium in Lucam, ad loc.).

11.09.2012 – Lc 6, 12-19

12Nesses dias, saiu Ele em direcção ao monte, para fazer oração, e passou a noite a orar a Deus. 13Ao amanhecer, chamou os discípulos e escolheu doze entre eles, aos quais deu precisamente o nome de Após­tolos: 14Simão, a quem deu também o nome de Pedro, e André, irmão deste; Tiago e João; Filipe e Bartolomeu; 15Mateus e Tome; Tiago, filho de Alfeu, e Simão, que era chamado Zeloso; 16Judas, irmão de Tiago, e Judas Iscariotes, que veio a ser o traidor.

17Descendo com eles, ficou num sítio plano, Ele, um numeroso grupo de discípulos Seus e grande multidão dos do povo, prove­nientes de toda a Judeia, de Jerusalém e do litoral de Tiro e de Sídon, I8que tinham vindo para O ouvirem e se curarem de suas doenças. E os que eram molestados por espíritos impuros ficavam curados. 19Toda a multidão procurava tocar-Lhe, porque saía d’Ele uma força que a todos curava.

Comentário

12-13. Com certa solenidade o Evangelista relata a trans­cendência deste momento em que Jesus constitui os Doze em Colégio Apostólico: «O Senhor Jesus, depois de ter orado ao Pai, chamando a Si os que Ele quis, elegeu doze para estarem com Ele e para os enviar a pregar o Reino de Deus (cfr Mc 3,13-19; Mt 10,1-42): e a estes Apóstolos constituiu-os em colégio ou grupo estável e deu-lhes como chefe a Pedro, escolhido de entre eles (cfr Ioh 21,17). Enviou-os primeiro aos filhos de Israel e, depois, a todos os povos, para que, participando do Seu poder, fizessem de todas as gentes discípulos seus e as santificassem e governassem (cfr Mt 28,16-20 e par J e deste modo propagassem e apascentassem a Igreja, servindo-a, sob a direcção do Senhor, todos os dias até ao fim dos tempos (cfr Mt 28,20). No dia de Pentecostes, foram plenamente confirmados nesta missão (cfr Act 2,1-36) (…). Os Apóstolos, pois, pregando por toda a parte o Evangelho (cfr Mc 16,20), recebido pelos ouvintes graças à acção do Espírito Santo, reúnem a Igreja universal que o Senhor fundou sobre os Apóstolos e levantou sobre o bem-aventurado Pedro seu chefe, sendo Jesus Cristo a suma pedra angular (cfr Apc 21,14; Mt 16,18; Eph 2,20). A missão divina confiada por Cristo aos Apóstolos durará até ao fim dos tempos (cfr Mt 28,20), uma vez que o Evangelho que eles devem anunciar é em todo o tempo o princípio de toda a vida na Igreja; pelo que os Apóstolos trataram de estabelecer sucessores, nesta sociedade hierarquicamente constituída» (Lumen gentium, n. 19-20).

Jesus Cristo, antes de instituir o Colégio Apostólico, passou toda a noite em oração. É uma oração que Cristo faz pela Sua Igreja como tantas outras vezes (Lc 9,18; Ioh 17,1 ss.). Deste modo, o Senhor prepara os Seus Apóstolos, colunas da Igreja (cfr Gal 2,9). Próximo da Paixão, rogará ao Pai por Simão Pedro como cabeça da Igreja, e assim lho manifestará de um modo solene: «Mas Eu roguei por ti para que não desfaleça a tua fé» (Lc 22,32). A Igreja, seguindo o exemplo de Cristo, dispõe que na oração litúrgica se elevem preces em muitas ocasiões pelos pastores da Igreja: Romano Pontífice, Bispos e sacerdotes; pedindo a graça de Deus para que possam cumprir fielmente o seu ministério.

São contínuos os ensinamentos de Cristo de que temos de orar sempre (Lc 18,1). Nesta ocasião mostra-nos com o Seu exemplo que nos momentos importantes da nossa vida de­vemos orar com especial intensidade. «’Pernoctans in oratione Dei’» — passou a noite em oração. — É o que São Lucas nos diz do Senhor.

«Tu, quantas vezes perseveraste assim? — Então…?» (Ca­minho, n° 104).

Sobre a conveniência e as qualidades da oração do cristão, vejam-se as notas a Mt 6,5-6; 7,7-11; 14,22-23; Mc 1,35; Lc 5,16; 11,1-4; 18,1; 22,41-42.

12. Como é que Jesus Cristo, sendo Deus, faz oração? Em Cristo há duas vontades, uma divina e outra humana (cfr Catecismo Maior, n° 91), e ainda que pela Sua vontade divina era omnipotente, não assim pela Sua vontade humana. O que fazemos na oração de petição é manifestar a nossa vontade diante de Deus, e por isso Cristo, semelhante em tudo a nós menos no pecado (Heb 4,15), devia orar também como homem (cfr Suma Teológica, III, q. 21, a. 1). Ao con­templar Jesus em oração. Santo Ambrósio comenta: «O Senhor ora não para pedir por Ele, mas para interceder em meu favor; pois ainda que o Pai tenha posto todas as coisas à disposição do Filho, contudo o Filho, para realizar plena­mente a Sua condição de homem, julga oportuno implorar ao Pai por nós, pois Ele é o nosso Advogado (…). Mestre de obediência, instrui-nos com o Seu exemplo nos preceitos da virtude: ‘Temos um Advogado diante do Pai’ (1Ioh 2,1)» (Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc.).

14-16. Jesus Cristo escolheu para Seus Apóstolos uns homens correntes, quase todos pobres e ignorantes; parece que só Mateus e os irmãos João e Tiago gozavam de certa posição social e econômica. Mas todos deixaram o muito ou pouco que tinham e também todos, menos Judas, tiveram no Senhor e, vencendo as suas próprias debilidades, souberam finalmente ser fiéis à graça e ser santos, colunas da Igreja. Não nos inquietemos se, como os Apóstolos, nos vemos faltos de qualidades humanas, porque o importante é ser fiéis, corresponder pessoalmente à graça de Deus.

19. Deus encarnou para nos salvar. Através da natureza humana que assumiu, actua a Pessoa divina do Verbo. As curas e as expulsões de demônios que Cristo realizou enquanto vivia na terra são também uma prova de que a Redenção operada por Cristo é uma realidade, não uma mera esperança. As multidões da Judeia e das outras regiões de Israel, que se aproximam até tocar o Mestre, são, de alguma maneira, uma antecipação da devoção dos cristãos à Santíssima Humanidade de Cristo.

12.09.2012 – Lc 6, 20-26

20Erguendo os olhos para os Seus discípulos, pôs-Se a dizer: Felizes de vós, os pobres, porque é vosso o Reino de Deus.

21Felizes de vós, os que tendes agora fome, porque sereis saciados.

Felizes de vós, os que chorais agora, porque haveis de rir.

22Felizes sereis quando os homens vos odiarem, e quando vos rejeitarem, vos insul­tarem, e proscreverem o vosso nome como infame, por causa do Filho do homem. 23Alegrai-vos e exultai nesse dia, pois é grande no Céu a vossa recompensa. Desse modo, efectivamente, é que pro­cediam os pais deles com os falsos profetas. 24Mas ai de vós, os ricos, porque recebeis a vossa consolação.

25Ai de vós, os que estais agora fartos, porque haveis de ter fome.

Ai de vós, os que rides agora, porque haveis de entristecer-vos e chorar.

26Ai de vós, quando todos os homens de vós disserem bem.

Comentário

20-26. As oito Bem-aventuranças que São Mateus apre­senta (5, 3-12) oferece-as São Lucas resumidas em quatro, mas acompanhadas de quatro antíteses. Podemos dizer, com Santo Ambrósio, que as oito de Mateus estão compreendidas nas quatro de Lucas (cfr Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc.). As expressões do texto de Lucas têm, por vezes, uma forma mais directa e incisiva que as do primeiro Evangelho, que são mais explicativas; por exemplo, a primeira bem-aventurança diz simplesmente «Felizes os pobres», en­quanto em Mateus se lê «Bem-aventurados os pobres em espírito», que constitui uma breve explicação do sentido da virtude da pobreza.

20. «Todo o cristão corrente tem que tornar compa­tíveis na sua vida dois aspectos que, à primeira vista, podem parecer contraditórios: pobreza real, que se note e que se toque — feita de coisas concretas — que seja uma profissão de fé em Deus, uma manifestação de que o coração não se satisfaz com coisas criadas, mas aspira ao Criador, que deseja encher-se do amor de Deus e depois dar a todos desse mesmo amor; e, ao mesmo tempo ser mais um entre os seus irmãos os homens, de cuja vida participa, com que se alegra, com quem colabora, amando o mundo e todas as coisas criadas para resolver os problemas da vida humana e para estabelecer o ambiente espiritual e material que facilite o desenvolvimento das pessoas e das comunidades.

«(…) O melhor exemplo de pobreza sempre foram esses pais e essas mães de família numerosa e pobre que se desfazem pelos seus filhos e que, com o seu esforço e cons­tância — muitas vezes sem voz para dizer a alguém que passam necessidades — mantêm os seus, criando um lar alegre em que todos aprendem a amar, a servir, a trabalhar» (Temas Actuais do Cristianismo, nos 110 e 111).

24-26. Com estas quatro exclamações condena o Ser a avareza e o apego aos bens do mundo; o excessivo cuida do corpo, a gula; a alegria néscia e a busca da própria complacência em tudo; a adulação, o aplauso e o afã desordenado de glória humana. Quatro tipos de vícios que são muito comuns no mundo, e diante dos quais o cristão deve estar vigilante para não se deixar arrastar por eles.

24. De modo semelhante a como no v. 20 se fala dos pobres referindo-se àquelas pessoas que amam a pobreza para agradar mais a Deus, assim, neste versículo, por ricos» há que entender aqueles que se afanam em acumular bens sem atender à liceidade ou iliceidade dos meios empregados, e que, além disso, põem nestas riquezas a sua felicidade, como se fossem o seu fim último. Pelo contrário, aqueles ricos que por herança ou através de um trabalho honrado abundam em bens são realmente pobres se não se apegam àesses bens, e como consequência desse desprendimento sabem empregá-los em benefício dos outros, segundo Deus lhes pede. Na Sagrada Escritura aparecem alguns personagens como Abraão, Isaac, Moisés, David e Job aos quais, mesmo possuindo muitas riquezas, se pode aplicar a bem-aventurança dos pobres.

Já em tempos de Santo Agostinho havia quem entendesse mal a pobreza e a riqueza, fazendo este raciocínio: o Reino dos Céus será dos pobres, dos Lázaros, dos famintos; os ricos são todos maus, como o rico avarento. Diante destas opiniões errôneas explica Santo Agostinho o sentido profundo da riqueza e da pobreza segundo o espírito evangélico: « Ouve-me, senhor pobre, sobre o que dizes. Quando te chamas a ti mesmo Lázaro, aquele santo varão chagado, temo que por soberba não sejas aquele que dizes. Não desprezes os ricos misericordiosos, os ricos humildes; ou, para o dizer em poucas palavras, não desprezes os que denominei ricos pobres. Oh pobre!, sé tu pobre também; pobre, ou seja, humilde (…). Ouve-me, pois. Sé verdadeiro pobre, sé piedoso, sé humilde; se te glorias dos teus andrajos e da tua pobreza ulcerosa, se te glorias de te assemelhares ao mendigo estendido junto da casa do rico, não reparas senão em que foi pobre e não te fixas em nada mais. Em que vou fixar-me?, dizes. Lê as Escrituras e entenderás o que te digo. Lázaro foi pobre, mas aquele para cujo seio foi levado era rico. ‘Sucedeu — está escrito — que morreu o pobre e foi levado pelos anjos ao seio de Abraão’. Para onde? Para o seio de Abraão, ou digamos, para o misterioso lugar onde repousava Abraão. Lê (…) e pondera como Abraão foi opulentíssimo na terra, onde teve em abundância prata, família, gados, fazenda; e, contudo, este rico foi pobre, pois foi humilde. ‘Creu Abraão em Deus, e foi-lhe contado como justiça’ (…) Era fiel, praticava o bem, recebeu o mandato de imolar o seu filho e não demorou a oferecer o que tinha recebido Àquele de Quem, o tinha recebido. Ficou provado aos olhos de Deus e posto como exemplo de fé» (Sermo 14).

Em resumo, a pobreza não consiste em algo puramente exterior, em ter ou não ter bens materiais, mas em algo mais profundo que afecta o coração, o espírito do homem, consiste em ser humilde diante de Deus, em ser piedoso, em ter uma fé submissa. Se se possuem estas virtudes e, além disso, abundância de bens materiais, a atitude do cristão será de desprendimento, de caridade para com os outros homens, e assim agradar-se-á a Deus. Pelo contrário, o que não possui bens materiais abundantes nem por isso está justificado diante de Deus, se não se esforça por adquirir essas virtudes que constituem a verdadeira pobreza.

13.09.2102 – Lc 6, 27-38

27Mas Eu digo-vos a vós que Me ouvis: Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, 28bendizei os que vos amaldi­çoam, rezai pelos que vos maltratam. 29Ao que te bate numa face oferece-lhe também a outra, e àquele que te leva a capa não lhe impeças de ficar também com a túnica. 30Dá a todo aquele que te pede, e ao que leva o que é teu não lho reclames. 31O que quiserdes que vos façam os homens, fazei-lho de igual modo vós também. 32Se amardes os que vos amam, que agradecimento vos é devido? Pois também os pecadores amam aqueles que os amam. 33Se fizerdes bem aos que bem vos fazem, que agradecimento vos é devido? Também os pecadores fazem o mesmo. 34E, se emprestardes àqueles de quem esperais receber, que agradecimento vos é devido? Também os pecadores em­prestam aos pecadores, a fim de receberem outro tanto. 35Mas vós, amai os vossos inimigos, fazei bem e emprestai, sem nada esperar em troca. Será grande assim a vossa recompensa e sereis filhos do Altíssimo, porque Ele é benigno para com os ingratos e os maus. 36Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso. 37Não julgueis, e não sereis julgados. Não condeneis, e não sereis condenados. 38Absolvei, e sereis absolvidos. Dai, e dar-se-vos-á. Deitar-vos-ão no regaço uma boa medida, calcada, agitada, a transbordar, pois com a medida que empregardes vos será medido.

Comentário

27. «No facto de amarmos os nossos inimigos vê-se claramente certa semelhança com Deus Pai, que reconciliou consigo o gênero humano, que estava em inimizade com Ele e era contra Ele, redimindo-o da condenação eterna por meio da morte do Seu Filho (cfr Rom 5,8-10)» (Catecismo Romano, IV, 14,19). Seguindo o exemplo de Deus nosso Pai, devemos desejar para todos os homens — também para os que se declaram nossos inimigos — em primeiro lugar a vida eterna; depois, o cristão tem obrigação de respeitar e de compreender a todos sem excepção pela intrínseca dignidade da criatura humana, feita à imagem e semelhança do Criador.

28. Jesus Cristo ensinou-nos com o Seu exemplo que este preceito não é uma simples recomendação piedosa: estando já pregado na Cruz Jesus pediu a Seu Pai pelos que O tinham entregado: «Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem» (Lc 23,34). À imitação do Mestre, Santo Estêvão, o primeiro mártir da Igreja, no momento de ser lapidado pedia ao Senhor que não tivesse em conta o pecado dos seus inimigos (cfr Act 7,60). A Igreja, na Liturgia de Sexta Feira Santa, eleva a Deus orações e sufrágios pelos que estão fora da Igreja para que lhes dê a graça da fé, para que os que não conhecem a Deus saiam da sua ignorância; para que os Judeus recebam a luz da verdade; para que os não católicos. estreitados pelo laço da verdadeira caridade, se unam de novo à comunhão da Igreja nossa Mãe.

29. O Senhor continua a mostrar-nos como devemos comportar-nos para imitar a misericórdia de Deus. Em primeiro lugar põe-nos um exemplo para que exercitemos uma das obras de misericórdia que a tradição cristã chama espirituais: perdoar as injúrias e sofrer com paciência os defeitos do próximo. Isto é o que quer dizer, em primeiro lugar, a recomendação de apresentar a outra face a quem lhe bate numa.

Para captar bem esta recomendação, comenta São Tomás, «há que entender a Sagrada Escritura à luz do exemplo de Cristo e de outros santos. Cristo não apresentou a outra face ao ser esbofeteado em casa de Anás (Ioh 18,22-23) nem tão-pouco São Paulo quando, segundo nos contam os Actos dos Apóstolos, foi açoitado em Filipos (Act 16,22 ss.). Por isso, não há por que entender que Cristo tenha mandado à letra oferecer a outra face ao que te bate numa; mas isto deve entender-se quanto à disposição interior; ou seja, que se for necessário, devemos estar dispostos a que não se turve o nosso ânimo contra o que nos bate, e a estar preparados para suportar algo semelhante e inclusivamente mais. Assim fez o Senhor quando entregou o Seu corpo à morte» (Comentário sobre S. João, 18,37).

36. O modelo de misericórdia que Cristo nos propõe é o próprio Deus. D’Ele diz São Paulo: «Bendito seja Deus Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai das misericórdias e Deus de toda a consolação, o qual nos consola em todas as nossas tribulações» (2Cor 1, 3-4). «A primeira excelência que tem esta virtude — explica Frei Luís de Granada — é tornar os homens semelhantes a Deus, e semelhantes na coisa mais gloriosa que há n’Ele, que é na misericórdia (Lc 6, 36).

Porque é certo que a maior perfeição que pode ter uma criatura é ser semelhante ao seu Criador: e quanto mais tiver desta semelhança, tanto mais perfeita será. E é certo também que uma das coisas que mais propriamente convém a Deus é a misericórdia, como o significa a Igreja naquela oração que diz: Senhor Deus, de quem é próprio ter misericórdia e perdoar. E diz ser isto próprio de Deus, porque assim como à criatura, enquanto criatura, pertence ser pobre e necessitada (e por isto a ela pertence receber e não dar), assim pelo contrário, como Deus é infinitamente rico e poderoso, só a Ele por excelência pertence dar e não receber, e por isto d ‘Ele é próprio ter misericórdia e perdoar» (Livro da oração e meditação, terceira parte, tratado terceiro).

O comportamento do cristão há-de seguir esta norma: compadecer-se das misérias alheias como se fossem próprias e procurar remediá-las. Neste mesmo sentido a nossa Santa Mãe a Igreja concretizou-nos uma série de obras de miseri­córdia tanto corporais (visitar e cuidar os doentes, dar de comer ao faminto, dar de beber ao sequioso…), como espirituais (ensinar aquele que não sabe, corrigir o que erra, perdoar as injúrias…) (cfr Catecismo Maior, nos 944-945). Também perante quem está no erro temos de ter com­preensão: «Este amor e benevolência de modo algum nos devem tornar indiferentes perante a verdade e o bem. Pelo contrário, é o próprio amor que incita os discípulos de Cristo a anunciar a todos a verdade salvadora. Mas deve distin­guir-se entre o erro, sempre de rejeitar, e aquele que erra, o qual conserva sempre a dignidade própria da pessoa, mesmo quando atingido por ideias religiosas falsas ou menos exactas. Só Deus é juiz e penetra os corações; por esse motivo, proibe-nos Ele de julgar da culpabilidade interna de qualquer pessoa» (Gaudium et spes, n. 28).

38. Lemos na Sagrada Escritura a generosidade da viúva de Sarepta, à qual Deus pediu que alimentasse o profeta Elias com o pouco que lhe restava; depois premiou a sua generosidade multiplicando-lhe a farinha e o azeite que tinha (1Reg 17,9 ss.). De maneira semelhante aquele menino que forneceu os cinco pães e os dois peixes, para que o Senhor os multiplicasse e alimentasse uma grande multidão (cfr Ioh 6,9), é um exemplo vivo do que o Senhor faz quando entregamos o que temos, ainda que seja pouco.

Deus não Se deixa vencer em generosidade: «Vamos! Diz-Lhe com generosidade e como um menino: Que me irás dar quando me exiges ‘isso’?» (Caminho, n° 153). Por muito que demos a Deus nesta vida, mais nos dará o Senhor como prêmio na vida eterna paciência e com carinho os que erram. Mas a pessoa que tem no seu coração um tesouro de maldade faz exactamente o contrário: odeia os seus amigos, fala mal de quem o ama, e todas as outras coisas condenadas pelo Senhor» (In Lucae Evangelium expositio, II, 6).

14.09.2012 – Jo 3, 13-17

13Ninguém subiu ao Céu, a não ser Aquele que do Céu desceu, o Filho do homem. 14Do mesmo modo que Moisés elevou a serpente no deserto, assim tem de ser elevado o Filho do homem, 15para que todo aquele que acredita tenha, por Ele, a vida eterna.

16De facto, Deus amou de tal maneira o mundo que deu o Seu Filho único, para que todo o que n’Ele acredita náo pereça, mas tenha a vida eterna. 17É que Deus não enviou o Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para o mundo ser salvo por Seu inter­médio.

Comentário

13. Afirmação solene da divindade de Jesus. Ninguém sobe ao Céu e, portanto, ninguém pode conhecer perfeita­mente os segredos de Deus, senão o próprio Deus que en­carnou e desceu do Céu: Jesus, segunda Pessoa da Santíssima Trindade, o Filho do Homem profetizado no Antigo Testa­mento (cfr Dn 7,13), ao qual foi concedido senhorio eterno sobre todos os povos, nações e línguas.

Ao encarnar o Verbo não deixa de ser Deus. E assim, ainda que esteja na terra enquanto homem, nem por isso deixa de estar no Céu enquanto Deus. Só depois da Ressur­reição e da Ascensão, Jesus Cristo está no Céu também enquanto homem.

14-15. A serpente de bronze, alçada por Moisés num mastro, era o remédio indicado por Deus para curar aqueles que eram mordidos pelas serpentes venenosas do deserto (cfr Num 21,8-9). Jesus Cristo compara este facto com a Sua Crucifixão, para explicar assim o valor da Sua exaltação na Cruz, que é salvação para todos os que O fixem com fé. Neste sentido podemos dizer que no bom ladrão se cumpre já o poder salvífico de Cristo na Cruz: esse homem descobriu no Crucificado o Rei de Israel, o Messias, que imediatamente lhe promete o Paraíso para aquele mesmo dia (cfr Lc 23,39-43).

O Filho de Deus tomou a nossa natureza humana para dar a conhecer os mistérios ocultos da vida divina (cfr Mc 4,11; Ioh 1,18; 3,1-13; Eph 3,9) e para livrar do pecado e da morte aqueles que O fixem com fé e amor (cfr Ioh 19,37; Gal 3,1) e aceitem a cruz de cada dia.

A fé de que nos fala o Senhor não se reduz simplesmente à aceitação intelectual das verdades que Ele nos ensinou, mas inclui reconhecê-Lo como Filho de Deus (cfr 1Ioh 5,1), parti­cipar da Sua própria Vida (cfr Ioh 1,12), e entregarmo-nos por amor, tornando-nos assim semelhantes a Ele (cfr Ioh 10,27; 1Ioh 3,2). Mas esta fé constitui um dom de Deus (cfr Ioh 3, 3.5-8), a quem devemos pedir que a fortaleça e acres­cente, como fizeram os Apóstolos: Senhor, «aumenta-nos a fé» (Lc 17,5). Sendo a fé um dom divino, sobrenatural e gratuito, é, ao mesmo tempo, uma virtude, um hábito bom, susceptível de ser exercitado pessoalmente e, portanto, robustecido através desse exercício. Daí que o cristão, que já possui o dom divino da fé, ajudado pela graça deva fazer actos explícitos de fé para que esta virtude cresça nele.

15.09.2012 – Jo 19, 25-27

25Estavam junto à cruz de Jesus, Sua mãe, a irmã de Sua mãe, Maria, mulher de Clopá, e Maria de Magdala.26Jesus, ao ver a mãe e o discípulo que amava, ali presente, diz à mãe: Senhora, eis o teu filho. 27A seguir, diz ao discípulo: Eis a tua mãe. E a partir daquele momento, recebeu-a o discí­pulo em sua casa.

Comentário

25. Enquanto os Apóstolos, excepto São João, aban­donam Jesus nesta hora de opróbrio, aquelas piedosas mulheres, que O tinham seguido durante a Sua vida pública (cfr Lc 8, 2-3), permanecem agora junto ao Mestre que morre na Cruz (cfr a nota a Mt 27, 55-56).

O Papa João Paulo II explica que a fidelidade da Virgem Santíssima se manifestou de quatro modos: o primeiro, pela busca generosa do que Deus queria d’Ela (cfr Lc 1,34); o segundo, mediante a aceitação submissa da Vontade divina (cfr Lc 1,38); o terceiro, pela coerência dos actos da vida com a decisão da fé tomada; e, finalmente, mediante a prova da perseverança.« Só pode chamar-se fidelidade uma coerência que dura ao longo de toda a vida. O fiat de Maria na Anunciação encontra a sua plenitude no fiat silencioso que repete ao pé da Cruz» (Homília Catedral México).

A Igreja desde sempre reconheceu a dignidade da mulher e a sua importante missão na História da Salvação. Basta recordar o culto que, desde as origens, o povo cristão tributou à Mãe de Cristo, a Mulher por antonomásia, e a criatura mais excelsa e mais privilegiada que jamais saiu das mãos de Deus. O último Concilio, dirigindo uma mensagem especial às mulheres, diz entre outras coisas: «Mulheres que sofreis provações, finalmente, vós que estais de pé junto à cruz, à imagem de Maria, vós que, tantas vezes através da história, tendes dado aos homens a força para lutar até ao fim, de testemunhar até ao martírio, ajudai-os uma vez mais a conservar a audácia dos grandes empreendimentos, ao mesmo tempo que a paciência e o sentido de humildade de tudo o que principia» (Cone. Vaticano II, Mensagem do Concilio à Humanidade. Às mulheres, n° 9).

26-27. «A pureza limpidíssima de toda a vida de João torna-o forte diante da Cruz. — Os outros apóstolos fogem do Gólgota; ele, com a Mãe de Cristo, fica.

«— Não esqueças que a pureza enrijece, viriliza o caracter» (Caminho, n° 144).

O gesto do Senhor, pelo qual confia Sua Santíssima Mãe ao cuidado do discípulo, tem um duplo sentido (veja-se Introdução ao Evangelho segundo São João, pp. 1109-1116). Por um lado, manifesta o amor filial de Jesus à Virgem Maria. Santo Agostinho considera como Jesus nos ensina a cumprir o quarto mandamento: «É uma lição de moral. Faz o que recomenda fazer, e, como bom Mestre, ensina os Seus com o Seu exemplo, a fim de que os bons filhos tenham cuidado dos pais; como se aquele madeiro que sujeitava os Seus membros moribundos fosse também a cátedra do Mestre que ensinava» (In Ioann. Evang., 119,2).

Por outro lado, as palavras do Senhor declaram que Maria Santíssima é nossa Mãe: «Assim avançou a Virgem pelo caminho da fé, mantendo fielmente a união com seu Filho até à cruz. Junto desta esteve, não sem desígnio de Deus (Ioh 19,25), padecendo acerbamente com o seu Filho único, e associando-se com coração de mãe ao Seu sacrifício, consentindo com amor na imolação da vítima que d’Ela nascera; finalmente, Jesus Cristo, agonizante na cruz, deu-a por mãe ao discípulo» (Lumen gentium, n. 58).

Todos os cristãos, representados em São João, somos filhos de Maria. Ao dar-nos Cristo Sua Mãe por nossa Mãe manifesta o amor aos Seus até ao fim (cfr Ioh 13,1). A Virgem Santíssima ao aceitar o apóstolo João como filho seu mostra o seu amor de Mãe: «A ti, Maria, o Filho de Deus e ao mesmo tempo teu Filho, do alto da Cruz indicou um homem e disse: ‘Eis o teu filho’. E naquele homem confiou-te cada homem, confiou-te todos. E Tu, que no momento da Anunciação, nestas simples palavras: ‘Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra’ (Lc 1,38), concentraste todo o programa da tua vida, abraças todos, aproxi­mas-te de todos, buscas maternalmente a todos. Desta maneira cumpre-se o que o último Concilio declarou acerca da tua presença no mistério de Cristo e da Igreja. Perseveras de maneira admirável no mistério de Cristo, teu Filho unigénito, porque estás sempre onde quer que estão os homens Seus irmãos, onde quer que está a Igreja» (Homília Basílica de Guadalupe ).

«João, o discípulo amado de Jesus, recebe Maria e introdu-la em sua casa, na sua vida. Os autores espirituais viram nestas palavras do Santo Evangelho um convite diri­gido a todos os cristãos para que Maria entre também nas suas vidas. Em certo sentido, é quase supérfluo este esclarecimento. Maria quer certamente que a invoquemos, que nos aproximemos d’Ela com confiança, que apelemos para a sua maternidade, pedindo-lhe que se manifeste como nossa Mãe» (Cristo que passa, n° 140).

Este modo filial de tratar Maria é o que segue constan­temente João Paulo II. Assim, na sua despedida da Virgem de Czestochowa, orava com estas palavras: «Mãe da Igreja de Jasna Gora! Uma vez mais me consagro a Ti na tua maternal escravidão de amor: Totus tuus! Sou todo teu! Consagro-te a Igreja inteira, em toda a parte, até aos confins da terra. Consagro-te a humanidade; consagro-te os homens, meus irmãos. Todos os povos e nações. Consagro-te a Europa e todos os continentes. Consagro-te Roma e a Polônia unidas, através do teu servo, por um novo vínculo de amor. Mãe, aceita! Mãe, não nos abandones! Mãe, guia-nos Tu!» (Alocução de despedida no Santuário de Jasna Gora, 6-VI-1979).

16.09.2012 – Mc 8, 27-35

27Partiu dali Jesus com os discípulos para as aldeias de Cesareia de Filipe e, no caminho, perguntava aos discípulos: Quem dizem os homens que Eu sou? 28Responderam-Lhe eles: João Baptista, outros Elias, outros que um dos profetas. 29E Ele perguntou-lhes: E vós quem dizeis que Eu sou? Respondeu Pedro e disse-Lhe: Tu és o Cristo. 30E Ele intimou-lhes que não dissessem nada d’Ele a ninguém.

31E começou a ensinar-lhes que o Filho do homem tinha de padecer muito, e ser rejei­tado pelos Anciãos e Príncipes dos sacerdotes e Escribas, e ser morto, e ressuscitar depois de três dias. 32Falava com toda a clareza. Então Pedro, tomando-O à parte, começou a estranhar-Lho. 33Voltou-Se Ele e, olhando para os discípulos, repreendeu a Pedro, dizendo: Tira-te de diante de Mim, satanás, pois não aprecias as coisas de Deus, mas só as dos homens.

34E, chamando o povo com os Seus discí­pulos, disse-lhes: Se alguém quer vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me. 35Porque quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas quem perder a sua vida por causa de Mim e do Evangelho, salvá-la-á.

Comentário

29. A profissão de fé de Pedro é relatada aqui de uma maneira mais breve que em Mt 16,18-19. Pedro parece limi­tar-se a afirmar que Jesus é o Cristo, o Messias. Já Eusébio de Cesareia, no s. IV, explicava a sobriedade do Evangelista pela sua condição de intérprete de São Pedro, que na sua pregação costumava omitir tudo o que pudesse aparecer como louvor próprio. O Espírito Santo, ao inspirar São Marcos, quis que ficasse reflectida no seu Evangelho a pregação do Príncipe dos Apóstolos, deixando para outros Evangelhos o completar alguns pormenores importantes do mesmo epi­sódio da confissão de Pedro nos confins de Cesareia de Filipe.

Dentro da simplicidade do relato fica claro o papel de Pedro: adianta-se a todos os outros afirmando o messianismo de Jesus. Esta pergunta do Senhor, «e vós, quem dizeis que Eu sou?», assinala o que Jesus pede aos Apóstolos: não uma opinião, mais ou menos-favorável, mas a firmeza da fé. São Pedro é quem manifesta esta fé (cfr a nota a Mt 16,13-20).

31-33. Esta é a primeira ocasião em que Jesus anuncia aos discípulos os sofrimentos e a morte que terá de padecer. Mais tarde fá-lo-á outras duas vezes (cfr Mc 9,31 e 10,32). Perante esta revelação os Apóstolos ficam surpreendidos, porque não podem nem querem compreender que o Messias tenha de passar pelo sofrimento e pela morte, e muito menos que isto Lhe seja imposto «pelos Anciãos e Príncipes dos sacerdotes e Escribas». Pedro, com a sua espontaneidade habitual, levanta imediatamente um protesto. E Jesus res­ponde-lhe usando as mesmas palavras que dirigiu ao diabo quando este O tentou (cfr Mt 4,10) para afirmar/uma vez mais, que a Sua missão não é terrena mas espiritual, e que por isso não pode ser compreendida com meros critérios humanos, mas segundo os desígnios de Deus. Estes eram que Jesus Cristo nos redimisse mediante a Sua Paixão e Morte. Por sua vez, o sofrimento do cristão, unido ao de Cristo, é também meio de salvação.

34. Quando Jesus disse «se alguém quer vir após Mim…», tinha presente que o cumprimento da Sua missão O levaria à morte de cruz; por isso fala claramente da Sua Paixão (vv. 31-32). Mas também a vida cristã, vivida como se deve viver, com todas as suas exigências, é uma cruz que se deve levar em seguimento de Cristo.

As palavras de Jesus, que devem ter parecido assusta­doras àqueles que as escutavam, dão a medida do que Cristo exige para O seguir. Jesus não pede um entusiasmo passa­geiro, nem uma dedicação momentânea; o que pede é a renúncia de si mesmo, o carregar cada um com a sua cruz e o segui-Lo, Porque a meta que o Senhor quer para os homens é a vida eterna. Todo este passo evangélico está contem­plando precisamente o destino eterno do homem. À luz dessa vida eterna é que deve ser avaliada a vida presente: esta não tem um caracter definitivo nem absoluto, mas é transitória, relativa; é um meio para conseguir aquela vida definitiva do Céu. «Tudo isso, que te preocupa de momento, é mais ou menos importante. — O que importa acima de tudo é que sejas feliz, que te salves» (Caminho, n° 297).

«Há no ambiente uma espécie de medo da Cruz, da Cruz do Senhor. Tudo porque começaram a chamar cruzes a todas as coisas desagradáveis que acontecem na vida, e não sabem aceitá-las com sentido de filhos de Deus, com visão sobrenatural. Até tiram as cruzes que os nossos avós levan­taram nos caminhos!…

«Na Paixão, a Cruz deixou de ser símbolo de castigo para se converter em sinal de vitória. A Cruz é o emblema do Redentor, in quo est salus, vita et resurrectio nostra, ali está a nossa salvação, a nossa vida e a nossa ressurreição» (Via Sacra, II, n° 5).

35. «Vida»; O texto original e a Neo-vulgata dizem literalmente «alma». Mas neste, como noutros muitos casos, «alma» e «vida» são equivalentes. A palavra «vida» é empregada, como é claro, num duplo significado: vida terrena e vida eterna, a vida do homem aqui na terra, e a felicidade eterna do homem no Céu. A morte pode pôr fim à vida terrena, mas não pode destruir a vida eterna (cfr Mt 10,28), a vida que só pode dar Aquele que vivifica os mortos.

Entendido isto capta-se bem o sentido paradoxal da frase do Senhor: quem quiser salvar a sua vida (terrena), perderá a sua vida (eterna). Mas quem perder a sua vida (terrena) por Mim e pelo Evangelho, salvá-la-á (a eterna). Que significa, pois, salvar a vida (terrena)? Significa viver esta vida como se tudo acabasse aqui na terra: deixando-se dominar pela concupiscência da carne, pela concupiscência dos olhos, e pela soberba da vida (cfr 1Ioh 2,16). Por contraposição, compreende-se bem que significa «perder a vida» (terrena): fazer morrer, por meio de uma luta ascética continuada, aquela tripla concupiscência — isto é tomar sobre si a cruz (v. 34) — e viver, por conseguinte, buscando e saboreando as coisas que são de Deus e não as da terra (cfr Col 3,1-2).

17.09.2012 – Lc 7, 1-10

Depois de ter feito ouvir ao povo todas estas palavras, entrou em Cafarnaum. 2Estava doente e quase a morrer o criado de certo centurião, a quem este tinha em muito apreço. 3Ouvindo falar de Jesus, mandou-Lhe alguns anciãos dos Judeus com o seu pedido de que viesse salvar-lhe o criado. 4Chegando estes junto de Jesus, fizeram-Lhe solicita­mente o pedido, dizendo: Ele é digno de que lhe concedas essa graça, 5pois estima o nosso país e até foi ele que nos construiu a sinagoga.6Jesus foi com eles. Não estando já longe da casa, mandou-Lhe o centurião uns amigos com este pedido: Não Te incomodes, Senhor, pois não mereço que entres debaixo do meu tecto, 7pelo que nem digno me achei de ir ter contigo. Mas, com uma palavra, diz que se cure o meu criado. 8É que eu, posto como estou às ordens de outros, tenho soldados sob o meu comando; e digo a um: «vai», e ele vai, e a outro: «vem cá», e ele vem, e ao meu criado: «faz isto», e ele faz. 9Jesus, quando isto ouviu, ficou admirado com ele e, voltando-Se para a multidão que O acompanhava, exclamou: Eu vos digo: Nem em Israel encontrei tão grande fé. 10E os enviados, ao voltarem para casa, acharam o criado com saúde.

Comentário

1-10. «Fizeram-Lhe solicitamente o pedido» (v. 4). É um exemplo da eficácia da oração de petição, que obtém da omnipotência de Deus um milagre. A este propósito esclarece São Bernardo o que se há-de pedir a Deus: «Em três coisas julgo que consistem as petições do coração (…). As duas primeiras são deste tempo, isto é, os bens do corpo e os da alma; a terceira é a bem-aventurança da vida eterna. Não te admires de que tenha dito que os bens do corpo se tenham de pedir a Deus, porque d’Ele são todos os bens: os corporais e os espirituais (…). Não obstante, devemos orar com mais frequência e com mais fervor pelas necessidades da alma, isto é, por obter a graça de Deus e as virtudes» (Sermão quinto de Quaresma, 8-9). Para alcançar os Seus benefícios o próprio Deus espera que pecamos com atenção, perseverança, confiança e humildade.

Sobressai a humildade na petição do milagre que nos narra o texto. O Centurião não pertencia ao povo eleito, era um pagão; mas através dos seus amigos pede com profunda humildade. A humildade é caminho para a fé, tanto para a receber como para a avivar. Falando da experiência da sua conversão, Santo Agostinho diz que ele, que não era humilde, não era capaz de compreender como Jesus tão humilde podia ser Deus, nem o que Deus podia ensinar a ninguém abaixando-se até assumir a condição humana. Para isso o Verbo, Verdade eterna, fez-Se homem: para abater a nossa soberba, fomentar o nosso amor, submeter todas as coisas e assim poder elevar-nos (cfr Confissões, VIII, 18,24).

6-7. É tal a fé e a humildade do Centurião ao dizer isso, que aIgreja, na liturgia eucarística, põe no nosso coração e na nossa boca estas mesmas palavras antes de receber a sagrada Comunhão. Esforcemo-nos, pois, por ter sincera­mente esta mesma disposição interior diante de Jesus que vem à nossa casa, à nossa alma.

18.09.2012 – Lc 7, 11-17

11Em seguida, dirigiu-Se a uma cidade chamada Naim, indo com Ele os Seus discípulos e grande multidão. 12Quando Se aproximava da porta da cidade, traziam um defunto a enterrar, filho único de sua mãe. Esta era viúva, e vinha a acompanhá-la bastante gente da cidade. 13Ao vê-la, o Senhor compadeceu-Se dela e disse-lhe: Não chores. 14Aproximando-Se, tocou no caixão e estacaram os que o transportavam. Depois disse: Meu rapaz, Eu to digo, levan­ta-te. I5O morto sentou-se e começou a falar; e Ele entregou-o à mãe. 16Encheram-se todos de temor e davam glória a Deus, dizendo: Surgiu entre nós um grande profeta, e Deus visitou o Seu povo. 17Divulgou-se este dito a Seu respeito na Judeia inteira e em toda a região circunvizinha.

Comentário

11-17. «Jesus vê a angústia daquelas pessoas com quem Se cruza ocasionalmente. Podia ter passado de lado ou ter esperado que O chamassem e Lhe fizessem um pedido. Mas não Se afasta, nem fica na expectativa. Toma Ele próprio a iniciativa, movido pela aflição de uma viúva que perdera a única coisa que lhe restava — o filho.

«Explica o evangelista que Jesus Se compadeceu, talvez a Sua comoção tivesse também sinais externos, como pela morte de Lázaro. Jesus não era, nem é, insensível ao padecimento que nasce do amor, nem sente prazer em separar os filhos dos pais. Supera a morte, para dar a vida, para que aqueles que se amam convivam, exigindo, antes e ao mesmo tempo, a preeminência do Amor divino que deve informar a autêntica existência cristã.

Cristo sabe que O rodeia uma grande multidão, a quem o milagre encherá de pasmo e que há-de ir apregoando o sucedido por toda aquela região. Mas o Senhor não actua com artificialismo, só para praticar um ‘feito’; sente-Se singelamente afectado pelo sofrimento daquela mulher; não pode deixar de a consolar. Então, aproximou-Se e disse-lhe: não chores (Lc 7, 13). Que é como se lhe dissesse: não te quero ver desfeita em lágrimas, pois Eu vim trazer à Terra a alegria e a paz. E imediatamente se dá o milagre, manifestação do poder de Cristo, Deus. Mas antes já se dera a comoção da Sua alma, manifestação evidente da ternura do coração de Cristo, Homem» (Cristo que passa, n° 166).

15. A alegria da mãe ao recuperar vivo o seu filho recorda a alegria da Santa Madre Igreja pelos seus filhos pecadores regressados à vida da graça. «A mãe viúva — comenta Santo Agostinho — alegra-se com o seu filho ressus­citado. A Mãe Igreja alegra-se diariamente com os homens que ressuscitam na sua alma. Aquele, morto quanto ao corpo; estes, quanto ao seu espírito. Aquela morte visível chora-se visivelmente; a morte invisível destes nem se chora nem se vê. Busca estes mortos o que os conhece, o que os pode fazer regressar à vida» (Sermo 98,2).

19.09.2012 – Lc 7, 31-35

31A quem hei-de, pois, comparar os homens desta geração? A quem são semelhantes? 32Assemelham-se a esses garotos que, sen­tados na praça, se interpelam uns aos outros, dizendo: Tocamos flauta para vós e não dançastes! Entoamos endechas e não chorastes!

33Veio, efectivamente, João Baptista, que não come pão nem bebe vinho, e vós dizeis: «Está possesso do Demônio». 34Veio o Filho do homem, que come e bebe, e vós dizeis: «Aí está um homem glutão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores». 35Mas a Sabedoria foi justificada por todos os Seus filhos.

Comentário

31-34. Veja-se a nota a Mt 11,16-19.

35. A sabedoria que aqui se menciona é a Sabedoria divina, que é por excelência o próprio Cristo (cfr Sap 7,26; Prv 8,22). «Filhos da Sabedoria» é um hebraísmo que signi­fica simplesmente «sábios»; por sua vez, é verdadeiramente sábio o que chega a conhecer Deus, O ama e se salva: numa palavra, o santo.

A sabedoria divina manifesta-se na criação e no governo do universo e, sobretudo, na salvação do gênero humano. Que os sábios justifiquem a sabedoria parece significar que os sábios, os santos, deem testemunho de Cristo com a sua vida santa: «Brilhe assim a vossa luz diante dos homens para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos Céus» (Mt 5,16).

20.09.2012 – Lc 7, 36-50

36Um fariseu convidou-O a comer consigo. Ele entrou em casa do fariseu e pôs-Se à mesa. 37Ora uma mulher, que era pecadora naquela cidade, ao saber que Ele estava à mesa em casa do fariseu, trouxe um vaso de alabastro com perfume. 38Colocou-se por detrás, chorando a Seus pés e, com lágrimas, começou a banhar-Lhe os pés; pôs-se depois a enxugar-Lhos com os seus cabelos, a beijar-Lhos e a ungir-Lhos com perfume. 39Ao ver tal cena, o fariseu que O tinha convidado disse consigo: «Este homem, se fosse profeta, saberia quem é e de que espécie é a mulher que Lhe está a tocar: uma pecadora!» 40Então Jesus tomou a palavra e disse-lhe: Simão, tenho uma coisa a dizer-te. Este respondeu: Diz lá, Mestre. 41Tinha certo prestamista dois devedores: um devia qui­nhentos denarios e o outro cinquenta. 42Não tendo eles com que pagar, perdoou a ambos. Qual deles então lhe ficará com mais amizade? 43Simão disse, em resposta: Penso que aquele a quem mais perdoou. Respondeu-lhe Ele: Julgaste bem. «E, voltando-Se para a mulher, disse a Simão: Vês esta mulher? Entrei em tua casa e não Me deste água para os pés; mas ela banhou-Me os pés com lágrimas e enxugou-Mos com os seus cabelos. 45Não Me deste um ósculo; mas ela, desde que Eu entrei, não deixou de Me beijar os pés. 46Não Me ungiste a cabeça com óleo; mas ela ungiu-Me os pés com perfume. 47Por isso te digo: Estão perdoados os seus muitos peca­dos, visto que manifestou muito amor. Mas aquele a quem pouco se perdoa pouco amor manifesta. 48Depois, disse-lhe a ela: Estão perdoados os teus pecados. 49Começaram então os convivas a dizer consigo: Quem é Este que até os pecados perdoa? 50E Jesus disse à mulher: Salvou-te a tua fé: vai em paz!

Comentário

36-40. A mulher pecadora, movida sem dúvida pela graça, acorreu atraída pela pregação de Cristo e pelo que se dizia d’Ele. Os convidados punham-se à mesa apoiados sobre o braço esquerdo, em pequenos divãs, de forma que os pés ficavam retirados para fora. Eram deveres de cortesia para com o hóspede dar-lhe o beijo de boas-vindas, ofere­cer-lhe água para lavar os pés e perfumes com que se ungisse.

41-50. Três coisas nos ensina Cristo na breve parábola dos dois devedores: a Sua divindade e o poder de perdoar os pecados; o mérito do amor da pecadora; e a descortesia que encerram os descuidos de Simão, que omitiu no convívio com Jesus os pormenores de urbanidade que se costumavam ter com os convidados. O Senhor não buscava esses porme­nores pelo valor que em si possuíam mas pelo carinho que eles expressavam, e por isso queixa-Se da falta de cortesia de Simão.

«(…) Jesus repara em todos esses pormenores de cortesia e de delicadeza humanas, que o fariseu não soube manifes­tar-Lhe. Cristo é perfectus Deus, perfectus homo (Símbolo Atanasiano), Deus, Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, e homem perfeito. Traz a salvação e não a destruição da natureza. Com Ele aprendemos que não é cristão compor­tar-se mal com o homem, criatura de Deus, feito à Sua imagem e semelhança (Gen 1, 26)» (Amigos de Deus, n° 73).

Além disso, o fariseu pensou mal ao julgar negativa­mente a pecadora e Jesus: Simão duvida do conhecimento que Cristo tem e murmura interiormente. O Senhor, que conhecia os segredos dos corações dos homens (manifes­tando assim a Sua divindade), intervém para lhe indicar o seu descaminho. A verdadeira justiça, diz-nos São Gregório Magno (cfr In Evangelia homiliae, 33), tem compaixão; a falsa, pelo contrário, indigna-se. Muitos são como esse fa­riseu: esquecendo a sua condição, passada ou presente, de pobres pecadores, quando veem os pecados dos outros, imedia­tamente, sem piedade, deixam-se levar pela indignação, ou apressam-se a julgar, ou riem-se ironicamente deles. Não pensam nas frases de São Paulo: «O que crê estar de pé, veja que não caia» (1Cor 10,12). «Irmãos, se porventura alguém é achado em alguma falta, vós, que sois espirituais, corrigi-o com espírito de mansidão (…). Levai os fardos uns dos outros, e assim cumprireis a lei de Cristo» (Gal 6,1-2).

Devemos esforçar-nos para que a caridade presida a todos os nossos juízos. Se não, facilmente seremos injustos com os outros: «Não queiramos julgar. — Cada qual vê as coisas do seu ponto de vista… e com o seu entendimento, bem limitado quase sempre, e com os olhos obscuros 6u enevoados, com trevas de exaltação muitas vezes (…).

«Como valem pouco os juízos dos homens! — Não jul­gueis sem joeirar o vosso juízo na oração» (Caminho, n° 451).

A caridade e a humildade far-nos-ão ver nos pecados dos outros a nossa própria condição débil e desprotegida, e ajudar-nos-ão a unir-nos do coração à dor de todo o pecador que se arrepende, porque também nós cairíamos em iguais ou mais graves pecados se a divina piedade não estivesse» misericordiosamente junto de nós.

«O Senhor — conclui Santo Ambrósio — amou não o ungüento, mas o carinho; agradeceu a fé, louvou a humildade. E tu também, se desejas a graça, aumenta o teu amor; derrama sobre o corpo de Jesus a tua fé na Ressurreição, os perfume da Igreja santa e o ungüento da caridade com os outros» (Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc.).

47. O homem não pode merecer o perdão dos pecados porque, sendo Deus o ofendido, a sua gravidade torna-se’ infinita. É necessário o sacramento da Penitência, com que ‘ Deus nos perdoa pelos méritos infinitos de Jesus Cristo; só há uma condição indispensável para alcançar o perdão de Deus: o nosso amor, o nosso arrependimento. Perdoa-se-nos na medida em que amamos; e quando o nosso coração está cheio de amor já não há nele lugar para o pecado, porque então demos lugar a Jesus, que nos diz como a esta mulher: Ficam perdoados os teus pecados. O arrependimento é mostra de que amamos a Deus. Mas Deus é que nos amou primeiro (cfr 1Ioh 4,10). Quando Deus nos perdoa mani­festa o Seu amor por nós. O nosso amor a Deus, pois, é sempre de correspondência, depois do Seu. O perdão divino faz crescer o nosso agradecimento e o nosso amor por Ele. «Ama pouco — comenta Santo Agostinho — aquele que é perdoado em pouco. Tu, que dizes não ter cometido muitos pecados, por que não os fizeste? (…). É por te ter Deus levado pela mão (…). Nenhum pecado, com efeito, comete um homem que não possa fazê-lo também outra pessoa se Deus, que fez o homem, não o segura pela Sua mão» (Sermo 99,6). Por conseguinte, devemos amar, enamorar-nos cada dia mais do Senhor, não só porque nos perdoa os nossos peca­dos, mas também porque nos preserva, com a ajuda da Sua graça, de os cometer.

50. Jesus Cristo declara que a fé levou aquela mulher a prostrar-se aos Seus pés e a mostrar-Lhe o seu arrependi­mento; este arrependimento mereceu-lhe o perdão. Da mesma maneira nós, ao aproximar-nos do sacramento da Penitência, devemos reavivar a nossa fé em que «a confissão sacramental não é um diálogo humano; é um colóquio divino; é um tribunal de segura e divina justiça e, sobretudo, de misericórdia, com um juiz amoroso que não deseja a morte do pecador, mas que ele se converta e viva (Ez XXXIII, 11)» (Cristo que passa, n.° 78).

21.09.2012 – Mt 9, 9-13

9Seguindo Jesus dali, viu sentado ao telónio um homem chamado Mateus e disse-lhe: Segue-Me. E ele levantou-se e seguiu-O. 10Ora, sucedeu que, estando à mesa em sua casa, vieram muitos publicanos e pecadores pôr-se à mesa com Jesus e Seus discípulos. 11Ao verem isto os Fariseus, diziam aos discípulos: Porque é que o vosso Mestre come com os publicanos e pecadores? 12Mas Ele, que os ouviu, disse: Não precisam de médico os que têm boa saúde, mas os doen­tes. 13lde, pois, aprender o que significa: quero misericórdia e não sacrifício, porque não vim Eu chamar os justos, mas os peca­dores.

Comentário

9. «Telónio»: Posto público para o pagamento de tribu­tos. Acerca do «seguir Jesus» veja-se a nota a Mt 8,18-22.

Este Mateus, a quem Jesus chama, é o apóstolo do mesmo nome e autor humano do primeiro Evangelho. É o mesmo que em Mc 2,14 e em Lc 5,27 é chamado Levi o de Alfeu, ou simplesmente Levi.

Deus é quem chama. Para seguir Jesus de modo perma­nente não basta a própria determinação do homem, mas requer-se, absolutamente, o chamamento individual por parte do Senhor; isto é, a graça da vocação (cfr Mt 4, 19-21; Mc 1, 17-20; Ioh 1, 39; etc.). Esse chamamento implica a prévia escolha divina. Por outras palavras, não é o homem quem toma a iniciativa; pelo contrário, é Jesus quem chama primeiro e o homem corresponde a esse chamamento com a 0tlá livre decisão pessoal: «Não fostes vós que Me escolhestes, filas fui Eu que vos escolhi a vós» (Ioh 15,16). Deve pôr-se em relevo a prontidão com que Mateus «segue» o chamamento de Jesus. Diante da voz de Deus pode entrar na alma a tentação de responder: «Amanhã, ainda não estou preparado». No fundo esta e outras razões não são mais que egoísmo e medo, além de que o medo pode ser um sintoma a mais do chamamento (cfr Ioh 1). Amanhã corre-se o risco de ser demasiado tarde.

Como o dos outros apóstolos, o chamamento de São Mateus dá-se no meio das circunstâncias normais da sua vida: «— Deus foi-te procurar no exercício da tua profissão? ,,, « Foi assim que procurou os primeiros: Pedro, André, João e Tiago, junto das redes; Mateus, sentado à mesa dos Impostos…

«E — assombra-te! — Paulo, no seu afã de acabar com a semente dos cristãos» (Caminho, n° 799).

10-11. A mentalidade desses fariseus, tão inclinada a julgar os outros e classificar facilmente como justos e pecadores, não concorda com a atitude e ensinamentos de Jesus. Já tinha dito: «Não julgueis e não sereis julgados» (Mt 7, 1), e acrescentou ainda: «Quem de vós estiver sem pecado seja o primeiro a lançar-lhe uma pedra» (Ioh 8,7).

A realidade é que todos os homens são pecadores e o Senhor veio para remir a todos. Não há, pois, razão para que se dê entre os cristãos o escandalizar-se pelos pecados de outros, visto que qualquer de nós é capaz de cometer as maiores vilezas se não for assistido pela graça de Deus.

12. Ninguém deve desanimar ao ver-se cheio de misérias: reconhecer-se pecador é a única atitude justa diante de Deus. Ele veio buscar a todos, mas o que se considera justo, por esse mesmo facto, está a fechar as portas a Deus, porque na realidade todos somos pecadores.

13. A frase de Jesus, tomada de Os 6, 6, conserva a expressão hiperbólica do estilo semítico. Uma tradução mais fiel ao sentido seria: «quero mais misericórdia que sacrifí­cio» . Não é que o Senhor não queira os sacrifícios que Lhe são oferecidos, mas insiste em que estes háo-de ir sempre acompanhados pela bondade do coração, visto que a caridade há-de informar toda a actividade do cristão e com maior razão o culto a Deus (vid. 1Cor 13,1-13; Mt 5,23-24).

22.09.2012 – Lc 8, 4-15

4Como afluísse grande multidão e os de cada cidade a Ele acorressem, disse em parábola: 5Saiu o semeador para semear a sua semente. Ora, quando semeava, caiu parte da semente à beira do caminho; foi calcada e as aves do céu comeram-na. 6Outra caiu sobre a rocha e, depois de brotar, secou por não ter humildade. 7Outra caiu no meio de espinhos e os espinhos, brotando com ela, sufocaram-na. 8E outra caiu na boa terra e, depois de brotar, deu fruto centuplicado. Dizendo isto, bradava: Quem tem ouvidos para ouvir, que oiça!

9Perguntaram-Lhe os discípulos o que queria dizer esta parábola, 10e Ele respon­deu: A vós está concedido conhecer os mistérios do Reino de Deus, mas aos outros é só em parábolas, a fim de que vendo, não vejam e, ouvindo, não entendam.

11E isto a parábola: A semente é a Palavra de Deus. 12Os que estão à beira do caminho são aqueles que ouviram; em seguida, vem o Diabo e tira-lhes a Palavra do coração, para não se salvarem, acreditando. 13Os que estão sobre a rocha são aqueles que, ao ouvirem, recebem alegremente a Palavra; mas esses não têm raiz: acreditam por algum tempo e afastam-se na altura da provação. 14A se mente que caiu nos espinhos são aqueles que ouviram, mas, no seu caminho, são sufo­cados pelos cuidados, pela riqueza e pelos prazeres da vida e não chegam à maturidade. I5E a que está na boa terra são aqueles que, tendo ouvido a Palavra com um coração recto e bom, a conservam e dão fruto com a sua perseverança.

Comentário

4-8. O Senhor dará a explicação da parábola (vv. 11-15). A semente é o próprio Jesus Cristo e a Sua pregação; e as diferentes terras reflectem as diversas atitudes dos homens diante de Jesus e da Sua doutrina: o Senhor semeia nas almas a vida divina através da pregação da Igreja e de tantas graças actuais que concede.

10-12. A finalidade que Jesus persegue com as pará­bolas é ensinar aos homens os mistérios da vida sobrenatural para os encaminhar para a salvação, prevê, porém, que, pelas más disposições de alguns ouvintes, as parábolas serão ocasião de endurecimento e de rejeição da graça. Uma explicação mais ampla da finalidade das parábolas pode ver-se nas notas a Mt 13,10-13 e Mc 4,11-12.

12. Há homens que, metidos numa vida de pecado, são. como o caminho onde cai a semente «que sofre um duplo dano, é pisada pelos caminhantes e arrebatada pelas aves. O caminho é, portanto o coração que está espezinhado pela frequente passagem dos maus pensamentos, e seco de tal modo que não pode receber a semente nem esta germinar» (In Lucae Evangelium expositio, ad loc.). As almas endure­cidas pelos pecados podem chegar a ser terra boa e dar fruto pelo arrependimento sincero e pela penitência. É de notar o empenho do demônio por conseguir que a alma continue endurecida e não se converta.

13. «A muitos agrada o que escutam, e propõem-se agir bem; mas logo que começam a ser incomodados pelas adversidades abandonam as boas obras que tinham começado. A terra pedregosa não teve suficiente substância, pelo que, o germinado não chegou a dar fruto. Há muitos que quando ouvem falar contra a avareza a detestam, e exaltam o menosprezo das coisas deste mundo; mas mal a alma vê outra coisa para desejar, esquece-se do que exaltava. Há também muitos que quando ouvem falar contra a impureza não só não desejam manchar-se com as sujidades da carne, mas até se envergonham das manchas com que se mancharam; mas logo que se apresenta à sua vista a beleza corporal, é arras­tado o coração pelos desejos de tal maneira que é como se nada tivessem feito nem determinado contra esses desejos, e fazem o que é digno de condenação e eles próprios tinham condenado ao recordar que o tinham cometido. Muitas vezes nos compungimos pelas nossas culpas e, contudo solta­remos a cometê-las depois de as termos chorado» (In Evangelia homiliae, 15).

14. Trata-se daqueles que depois de receberem a semente divina, a vocação cristã, e tendo caminhado com passo firme durante algum tempo, começam a ceder na luta. Estas almas estão expostas a perder o gosto pelas coisas de Deus e, paralelamente, a iniciar o fácil e desviado caminho das compensações que lhes sugerem a sua ambição desordenada de poder, o seu afã pelas riquezas e a vida cômoda sem sofrimento.

Nesta situação começa a aparecer a tibieza, e o homem quer servir ao mesmo tempo a dois senhores: «Não é lícito viver tentando manter acesas, como diz o povo, uma vela a São Miguel e outra ao Diabo. É preciso apagar a vela do Diabo. Temos de consumir a vida fazendo-a arder inteira­mente ao serviço do Senhor. Se o nosso empenho pela santidade é sincero, se temos a docilidade de nos abandonar nas mãos de Deus, tudo correrá bem. Porque Ele está sempre disposto a dar-nos a Sua graça» (Cristo que passa, n° 59).

15. Três são as características que Jesus Cristo assinala na terra boa: ouvir com as boas disposições de um coração generoso os requerimentos divinos; esforçar-se para que essas exigências não se atenuem com o decurso do tempo; e, por fim, começar e recomeçar sem desanimar se o fruto tarda. «Não podes ‘subir’. — Não é de estranhar: aquela queda!…

«Persevera e ‘subirás’. — Recorda o que diz um autor espiritual: a tua pobre alma é um pássaro que ainda tem as asas empastadas de lama.

«É preciso muito calor do céu e esforços pessoais, pequenos e constantes, para arrancar essas inclinações, essas imaginações, esse abatimento, essa lama pegajosa das tuas asas.

«E ver-te-ás livre. — Se perseverares, ‘subirás’» (Cami­nho, n° 991).

23.09.2012 – Mc 9, 30-37

30Partindo dali, iam a atravessar a Galileia, e Ele não queria que ninguém o soubesse, 31porque entretanto ia instruindo os discí­pulos e dizia-lhes: O Filho do homem vai ser entregue nas mãos dos homens que O hão-de matar, mas três dias depois de morto res­suscitará. 32Eles, porém, não compreendiam estas palavras e tinham medo de O interrogar.

33Chegaram a Cafarnaum . Quando estava já em casa, perguntou-lhes: Que é que discutíeis no caminho? 34Mas eles calaram-se, porque tinham discutido uns com os outros sobre qual deles era o maior. 35Então, assentando-Se, chamou os doze e disse-lhes: Se alguém quer ser o primeiro há-de ser o último de todos e o servo de todos. 36E, tomando um menino, pô-lo em frente deles e, estreitando-o nos braços disse-lhes: 37Quem receber um destes meninos em Meu nome, é a Mim que recebe; e quem Me receber, não Me recebe a Mim, mas sim Aquele que Me enviou.

Comentário

30-32. Jesus Cristo, que Se comove ao ver as multidões como ovelhas sem pastor (Mt 9,36), deixa-as, porém, para Se dedicar a uma instrução esmerada dos Apóstolos. Retira-Se com eles para lugares afastados e ali, pacientemente, expli­ca-lhes aqueles pontos que não tinham compreendido na pregação ao povo (Mt 13,36). Concretamente aqui, pela segunda vez, anuncia-lhes o acontecimento próximo da Sua Morte redentora na Cruz, seguida da Sua Ressurreição. Na Sua convivência com as almas Jesus actua da mesma forma: chama o homem ao retiro da oração e, ali, instrui-o sobre os Seus desígnios mais íntimos e sobre os aspectos mais exigentes da vida cristã. Depois, como os Apóstolos, os cristãos terão de semear esta doutrina até aos confins da terra.

34-35. Partindo de uma discussão mantida atrás de Si, Jesus Cristo doutrina os discípulos sobre o modo de exercer a autoridade na Igreja não como quem domina, mas como quem serve. Ele, no desempenho da Sua missão de fundar a Igreja de que é Cabeça e Legislador supremo, veio servir e não ser servido (Mt 20,28).

Quem não busca esta atitude de serviço abnegado, além de carecer de uma das melhores disposições para o recto exercício da autoridade, expõe-se a ser arrastado pela ambição do poder, pela soberba e pela tirania. «Estar à frente de uma obra de apostolado é o mesmo que estar disposto a sofrer tudo de todos, com infinita caridade». (Caminho, n° 951).

36-37. Jesus, para ensinar graficamente aos Seus Após­tolos a abnegação e a humildade de que necessitam no exercício do seu ministério, toma uma criança, abraça-a e explica-lhes o significado deste gesto: acolher em nome e por amor de Cristo os que, como essa criança, não têm relevo aos olhos do mundo, é acolher o próprio Cristo e o Pai que O enviou. Nessa criança que Jesus abraça estão representadas todas as crianças do mundo, e também todos os homens necessitados, desprotegidos, pobres, doentes, nos quais nada há de brilhante e destacado para admirar.

24.09.2012 – Lc 8, 16-18

16Ninguém, depois de acender uma lâm­pada, a cobre com um vaso ou a põe debaixo da cama, antes a põe no candelabro, para verem a luz. 17Não há, efectivamente, coisa oculta que não se torne manifesta, nem segredo que não se saiba e venha a público. 18Tomai sentido, portanto, na maneira como ouvis, pois àquele que tiver dar-se-lhe-á, mas àquele que não tiver, ainda o que julga ter lhe será tirado.

Comentário

25.09.2012 – Lc 8, 19-21

19Vieram então ter com Ele Sua mãe e Seus irmãos, mas não podiam abeirar-se d’Ele por causa da multidão. 20Foi-Lhe anun­ciado: Tua mãe e Teus irmãos estão lá fora e querem ver-Te. 2lDisse-lhes Ele, em resposta: Minha mãe e Meus irmãos são aqueles que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática.

Comentário

19-21. Estas palavras do Senhor ensinam-nos que o cumprimento da Vontade de Deus está por cima dos laços do sangue e que, portanto, Nossa Senhora está mais unida ao seu Filho pelo perfeito cumprimento do que Deus lhe pediu, que por o Espírito Santo ter formado d’Ela o corpo de Cristo (cfr as notas a Mt 12,48-50 e a Mc 3,31-35).

26.09.2012 – Lc 9, 1-6

Depois de convocar os doze, deu-lhes poder e autoridade sobre todos os Demônios e para curarem doenças. 2Depois, enviou-os a proclamar o Reino de Deus e a curar os enfermos. 3E disse-lhes: Nada leveis para o caminho, nem cajado, nem saco, nem pão, nem dinheiro, e não tenha cada um duas túnicas. 4Em qualquer casa onde entrardes. ficai lá e de lá é que haveis de partir. 5E quanto aos que vos não receberem, ao sair da respectiva cidade, sacudi o pó dos vossos pés, para servir de testemunho contra eles. 6Partindo então, percorriam todas as povoações, a anunciar a Boa Nova e a operar curas por toda a parte.

Comentário

1.4. Trata-se da primeira missão dos Apóstolos. Ao enviá-los quer que se preparem de maneira prática para a sua futura missão depois que Ele suba aos Céus. Encarre­ga-os de que façam o mesmo que Ele fez: pregar o Reino de Deus e curar doentes. Esta cena está mais amplamente comentada nas notas a Mt 10,7-8; 10,9-10; e a Mc 6,8-9.

27.09.2012 – Lc 9, 7-9

7Ouviu o tetrarca Herodes tudo o que se passava, e andava perplexo, porque alguns diziam: João ressuscitou dentre os mortos. 8Outros: Foi Elias que apareceu. E outros ainda: Foi um dos antigos profetas que ressuscitou. 9Disse Herodes: A João man­dei-o eu decapitar, mas quem é Este de quem oiço tais coisas? E procurava vê-Lo.

Comentário

7-9. Todos os judeus, se exceptuarmos os saduceus, criam na ressurreição dos mortos, ensinada por Deus nas Sagradas Escrituras (cfr Ez 37,10; Dan 12,2 e 2 Mach 7,9). Por outro lado, era opinião comum entre os judeus contemporâneos de Cristo que Elias ou algum profeta havia de vir de novo (cfr Dt 19,15). Esta poderia ser a razão pela qual Herodes chegou a pensar na possibilidade de que João tivesse ressuscitado (cfr Mt 14, 1-2 e Mc 6,14-16): a esta opinião era induzido ao ouvir que Jesus fazia milagres, pois supunha que os ressuscitados eram os que tinham poderes para os fazer. Não obstante, por outro lado, constava-lhe que Cristo fazia milagres já antes de morrer João (cfr Ioh 2,23) e, por isso, num primeiro momento, não sabia a que ater-se. Depois, ao crescer a fama dos milagres de Cristo, e para encontrar alguma explicação que o convencesse, decide considerar verdade que João ressuscitou, tal como no-lo contam os outros Evangelhos.

28.09.2012 – Lc 9, 18-22

18Uma vez que rezava em particular, estando os discípulos com Ele, interrogou-os, nestes termos: Quem dizem as mul­tidões que Eu sou? 19Disseram eles, em resposta: João Baptista; outros, Elias, e outros que ressuscitou um dos antigos pro­fetas. 20Disse-lhes Ele: E vós quem dizeis que Eu sou? Pedro tomou então a palavra e respondeu: O Messias de Deus. 21Mas Ele, em tom severo, ordenou-lhes que a ninguém o dissessem, 22e acrescentou: O Filho do homem tem de sofrer muito, ser rejeitado por parte dos Anciãos, dos Sumos Sacer­dotes e dos Escribas, ser morto e, ao terceiro dia, ressuscitar.

Comentário

20. «Cristo» significa ungido e é nome de honra e de ofício. Na Antiga Lei ungiam-se os sacerdotes (Ex 29,7 e 40,13) e os reis (1Sam 9,16), a quem Deus tinha mandado que se ungisse pela dignidade do seu cargo; também houve o costume de ungir os profetas (1Sam 16,13) enquanto eram intérpretes e intermediários de Deus. «Mas ao vir ao mundo Jesus Cristo, nosso Salvador, recebeu o estado e as obrigações dos três ofícios de sacerdote, rei e profeta, e por esta causa foi chamado Cristo» (Catecismo Romano, 1,3,7).

22. O Senhor profetizou a Sua Paixão e Morte para facilitar a fé dos discípulos. Ao mesmo tempo manifesta a voluntariedade com que aceita os sofrimentos. «Cristo não quis glorificar-Se, mas desejou vir sem glória para padecer o sofrimento; e tu, que nasceste sem glória, queres glorificar-te? Pelo caminho que Cristo percorreu é por onde tu deves caminhar. Isto é reconhecê-Lo, isto é imitá-Lo tanto na ignomínia como na boa fama, para que te glories na Cruz, como Ele próprio Se glorificou. Tal foi o comportamento de Paulo e por isso se gloria ao dizer: ‘Longe de mim gloriar-me a não ser na Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo’ (Gal 6,14)» (Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc).

29.09.2012 – Jo 1, 47-51

47Jesus, vendo Natanael, que vinha ao Seu encontro, diz acerca dele: Aí está um autên­tico israelita, em quem não há fingimento! 48Diz-Lhe Natanael: Donde me conheces? Respondeu-lhe Jesus, dizendo: Antes de Fi­lipe te haver chamado, quando estavas de­baixo da figueira, Eu vi-te! 49Volveu-Lhe Natanael: Rabi, Tu és o Filho de Deus, Tu és o Rei de Israel. 50Retorquiu-lhe Jesus, nestes termos: Porque te disse: «Eu vi-te debaixo da figueira», acreditas? Verás coisas maiores do que estas. 51E acrescentou: Em verdade, em verdade vos digo: Heis-de ver o Céu aberto e os Anjos de Deus subir e descer por sobre o Filho do homem.

Comentário

45-51. O apóstolo Filipe não pode deixar de transmitir ao seu amigo Natanael (Bartolomeu) a alegria da sua desco­berta, cheio de emoção (v. 45). «Natanael (…) tinha ouvido pelas Escrituras que o Cristo devia vir de Belém, da aldeia de David. Assim o criam os judeus e o tinha anunciado, tempo atrás, o profeta: ‘E tu, Belém, não és certamente a menor entre as principais cidades de Judá; pois de ti sairá um chefe, que apascentará o Meu povo, Israel’ (Mich 5,2). Portanto, ao escutar que provinha de Nazaré turvou-se e duvidou por não ver como compaginar as palavras de Filipe com a predição profética» (Hom. sobre S. João, 20,1).

Pense o cristão que ao transmitir a sua fé a outros, estes podem apresentar-lhe dificuldades. Que deve fazer? O que fez Filipe: não confiar nas suas próprias explicações, mas convidá-los a vir pessoalmente até Jesus: «Vem ver» (v. 46). O cristão, pois, deve pôr os seus irmãos os homens diante do Senhor através dos meios da graça que Ele próprio deu e a Igreja administra: frequência de Sacramentos e prática da piedade cristã.

Natanael, homem sincero (v. 47), acompanha Filipe até Jesus. Estabelece-se o contacto pessoal com o Senhor (v. 48). E o resultado é a fé do novo discípulo, fruto do seu bom acolhimento da graça, que lhe chega através da Humani­dade de Cristo (v. 49).

Segundo podemos deduzir dos Evangelhos, Natanael é o primeiro Apóstolo que faz uma confissão explícita de fé em Jesus como Messias e como Filho de Deus. Mais tarde São Pedro, de modo mais solene, reconhecerá a divindade do Senhor (cfr Mt 16,16). Aqui (v. 51) Jesus evoca um texto de Daniel (7,13) para confirmar e dar profundidade às palavras que pronunciou o novo discípulo.

30.09.2012 – Mc 9, 38-43.45.47-48

38Disse-Lhe João: Mestre, vimos um homem que não anda connosco a expulsar os Demô­nios em Teu nome e proibimos-lho, porque não andava connosco. 39Não lho proibais — respondeu Jesus . — Porque não há ninguém que possa fazer um milagre em Meu nome e vá logo falar mal de Mim. 40Pois quem não é contra nós é por nós. 41E quem vos der um copo de água a beber, a título de que sois de Cristo, digo-vos em verdade que náo perderá a sua recompensa.

42E quem escandalizar um destes peque­ninos que crêem em Mim, a esse é melhor que lhe ponham ao pescoço a mo de uma atafona e o lancem ao mar.

43E, se a tua mão é para ti ocasião de escândalo, corta-a, porque é melhor entrares na vida mutilado, do que ires com ambas as mãos para a Geena, para o fogo inextinguível.

45E, se o teu pé é para ti ocasião de escândalo, corta-o, porque melhor é entrares na vida coxo, do que com ambos os pés seres lançado na Geena.

47E, se algum dos teus olhos é para ti ocasião de escândalo, deita-o fora, porque melhor é entrares no Reino de Deus com uma só vista, do que com ambos os olhos seres lançado na Geena, 48onde o seu verme não morre e o fogo não se extingue.

Comentário

38-40. O Senhor previne os Apóstolos, e depois deles todos os cristãos, contra o exclusivismo e o espírito de partido único na tarefa apostólica, que se exprime no falso refrão: «O bem, se não o faço eu, já não é bem». Pelo contrário, devemos assimilar este ensinamento de Cristo, porque o bem é bem, mesmo que o não faça eu. Cfr a nota a Lc 9,49-50.

41. O valor e o mérito das obras boas está princi­palmente no amor a Deus com que se realizam: «Um pequeno acto, feito por Amor, quanto não vale!» (Caminho, n° 814). Deus recompensa, sobretudo, as acções de serviço aos outros, por pequenas que pareçam: «Vês esse copo de água ou esse pedaço de pão que uma mão caritativa dá a um pobre por amor de Deus? Pouca coisa é na realidade e quase não estimável para o juízo humano; mas Deus recom­pensa-o e concede imediatamente por isso aumento de caridade» (Tratado do amor de Deus, livro 3, cap. 2).

42. «Escândalo é qualquer dito, facto ou omissão que dá ocasião a outro de cometer pecados» (Catecismo Maior, n° 417). Chama-se diabólico, e é-o, quando o fim intentado por quem produz o escândalo é o pecado do próximo, enquanto ofensa a Deus. Por ser o pecado o maior de todos os males, compreende-se a gravidade do escândalo e, portanto, a decidida condenação de Cristo. Reveste-se de particular gravidade escandalizar as crianças, porque estão mais indefesas contra o mal. A advertência de Cristo vale para todos, mas de modo especial para os pais e educadores, que são responsáveis diante do tribunal de Deus pela alma dos pequenos.

43. «Geena» ou Ge-hinnom, era um pequeno vale ao sul de Jerusalém, fora das muralhas e mais baixo do que a cidade. Durante séculos este lugar foi utilizado para depo­sitar o lixo da povoação. Habitualmente esse lixo era quei­mado para evitar o foco de infecção que constituía e a acumulação do mesmo. Era proverbial como lugar imundo e doentio. Nosso Senhor serve-Se deste facto conhecido para explicar, de modo gráfico, o fogo inextinguível do inferno.

43-48. Jesus, depois de ter ensinado a obrigação de evitar o escândalo aos outros, assenta agora as bases da doutrina moral cristã sobre a ocasião de pecado; a doutrina do Senhor é imperiosa: o homem está obrigado a afastar e evitar a ocasião próxima de pecado, como o próprio pecado, segundo o que já tinha dito Deus no AT: «O que ama o perigo cairá nele» (Eccli 3, 26-27). O bem eterno da nossa alma é superior a qualquer estima de bens temporais. Portanto, tudo aquilo que nos põe em perigo próximo de pecado deve ser cortado e arrancado de nós. Esta forma de falar — tão gráfica — do Senhor deixa bem assente a gravidade desta obrigação.

Os Santos Padres, sob a imagem dos membros corporais, veem aquelas pessoas que obstinadas no mal nos induzem irremediavelmente às más obras ou à má doutrina. É a estes que devemos afastar de nós para que cheguemos à vida, antes que ir com eles para o inferno (De consensu Evangelistarum, IV, 16; Hom. sobre S. Mateus, 60).

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