Evangelho do dia – mês de outubro de 2013

Outubro de 2013

01.10.13 – Lc 9, 51-56

51Como estivessem a chegar os dias de ser levado deste mundo, tomou Jesus a firme resolução de Se dirigir a Jerusalém e mandou mensageiros à Sua frente. 52Estes puse­ram-se a caminho e entraram numa povoação de Samaritanos, a fim de Lhe prepa­rarem hospedagem. 53Mas não O receberam, por ir ostensivamente a caminho de Jeru­salém. 54Ao verem isto, disseram os discí­pulos Tiago e João: Senhor, queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma? 55Mas Ele, voltando-Se, repreendeu-os. 56E foram para outra povoação.

Comentário

51. «Os dias de ser levado deste mundo»: Literalmente tempo da Sua assunção. Estas palavras referem-se ao momento em que Jesus Cristo, abandonando este mundo, sobe aos Céus. O próprio Senhor o dirá mais claramente na Ultima Ceia: «Saí do Pai e vim ao mundo; de novo deixo o mundo e vou para o Pai» (Ioh 16,28). Ao encaminhar-Se decididamente para Jerusalém, para a Cruz, Jesus cumpre voluntariamente o que Deus Pai tinha determinado: que pela Sua Paixão e Morte chegasse à Ressurreição e à Ascensão gloriosas.

52-53. Os Samaritanos eram inimigos dos Judeus. Esta inimizade provinha de que aqueles descendiam da fusão dos antigos Hebreus com os gentios que repovoaram a região da Samaria na época do cativeiro assírio (século VIII a.C.). A este motivo acrescentavam-se outros de tipo religioso: os Samaritanos tinham misturado com a religião de Moisés certas práticas supersticiosas, e não reconheciam o Templo de Jerusalém como o único lugar onde se podiam oferecer sacrifícios. Construíram o seu próprio templo no monte Garizin, que opunham ao de Jerusalém (cfr Ioh 4,20); por esta razão, ao dar-se conta de que Jesus Se dirigia para a Cidade Santa, não quiseram dar-Lhe hospedagem.

54-56. Jesus Cristo corrige o desejo de vingança dos Seus discípulos, oposto à missão do Messias que não veio para perder os homens mas para os salvar (cfr Lc 19,10; Ioh 12,47). Deste modo os Apóstolos vão aprendendo que o zelo pelas coisas de Deus não deve ser áspero e violento.

«O Senhor faz admiravelmente todas as coisas (…). Actua assim com o fim de nos ensinar que a virtude perfeita não guarda nenhum desejo de vingança, e que onde está presente a verdadeira caridade não tem lugar a ira e, enfim, que a debilidade não deve ser tratada com dureza, mas deve ser ajudada. A indignação deve estar longe das almas santas e o desejo de vingança longe das almas grandes» (Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc.).

Deve advertir-se que entre «repreendeu» do v. 55 e «foram» do v. 56, a Vulgata Clementina inclui a cláusula: «dizendo: Não sabeis a que espírito pertenceis. O Filho do Homem não veio para perder os homens mas para os salvar». Esta cláusula vem em bastantes códices gregos e versões antigas, mas não existe nos melhores e mais antigos códices gregos. Por isso a Neo-vulgata não recolheu este passo.

02.10.13 – Lc 9, 57-62

57Indo eles no caminho, disse-Lhe alguém: Seguir-Te-ei para onde quer que fores. 58Retorquiu-lhe Jesus: As raposas têm tocas e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça. 59Disse a outro: Segue-Me. Este respondeu: Senhor, deixa-me ir primeiro sepultar meu pai. 60Mas Ele replicou-lhe: Deixa os mortos sepultar os seus mortos, e tu vai anunciar ó Reino de Deus. 61Disse outro ainda: Seguir-Te-ei, Senhor, mas antes deixa que vá despedir-me dos meus. 62Mas Jesus respon­deu-lhe: Quem, depois de deitar a mão ao arado, olha para trás, não é apto para o Reino de Deus.

Comentário

57-62. Nosso Senhor exprime claramente as exigências que comporta o segui-Lo. Ser cristão não é tarefa fácil nem cômoda; é necessária a abnegação e pôr o amor a Deus antes de tudo. (Vejam-se as notas a Mt 8,18-22 e Mt 8,22).

Aparece aqui o caso daquele homem que quis seguir Cristo, mas com uma condição: despedir-se dos de sua casa. O Senhor vê nele pouca decisão, e dá-lhe uma resposta que nos alcança a todos, visto que todos recebemos a chamada a segui-Lo e devemos procurar não receber essa graça de Deus em vão: «Nós recebemos a graça de Deus em vão quando a recebemos à porta do coração sem lhe permitir a entrada.

Recebemo-la sem a recebermos; recebemo-la sem fruto, pois de nada serve sentir a inspiração se não se consente nela (…). Sucede por vezes que inspirados a fazer muito não acei­tamos toda a inspiração, mas apenas algo, como aqueles personagens do Evangelho que, aconselhados pelo Senhor a que O seguissem, um pediu-Lhe autorização para enterrar o pai, e o outro para se despedir dos parentes» (Tratado do amor de Deus, liv. 2, cap. 11).

A nossa lealdade e fidelidade à tarefa que Deus nos confia deve superar todo o obstáculo: «Nunca existe razão sufi­ciente para voltarmos atrás (cfr. Lc 9.62): o Senhor está ao nosso lado. Temos de ser fiéis, leais, encarar as nossas obrigações, encontrando em Jesus o amor e o estímulo para compreender os erros dos outros e superar os nossos próprios erros» (Cristo que passa, n° 160).

03.10.13 – Lc 10, 1-12

Depois disto, designou o Senhor outros setenta e dois e mandou-os dois a dois, à Sua frente, a todas as cidades e lugares aonde Ele havia de ir. 2Dizia-lhes Ele: A messe é grande, mas os trabalha­dores são poucos. Pedi, portanto, ao dono da messe que mande trabalhadores para a sua messe. 3Ide e olhai que vos envio como cordeiros para o meio de lobos. 4Não leveis bolsa, nem saco, nem sandálias. Não cumpri­menteis ninguém pelo caminho. 5Em qual quer casa onde entrardes, dizei primeiro: «Paz a esta casa». 6E, se lá houver um homem de paz, sobre ele irá repousar a vossa paz. Senão, a vós há-de voltar. ‘Ficai nessa mesma casa, comendo e bebendo do que tiverem, pois o trabalhador merece o seu salário. Não andeis de casa em casa. 8Em qualquer cidade onde entrardes e vos receberem, comei o que vos servirem, 9curai os enfermos que nela houver e dizei-lhes: «Está perto de vós o Reino de Deus». 10Mas, se em qualquer cidade em que entrardes vos não receberem, saí às suas praças e dizei: “«Até o pó que, da vossa cidade, se pegou aos nossos pés, sacudimos sobre vós». No entanto, ficai sabendo isto: Está perto o Reino de Deus. l2Eu vos digo: Haverá mais tolerância, naquele dia, para Sodoma do que para aquela cidade.

Comentário

1-12. Entre os que seguiam o Senhor e tinham sido chamados por Ele (cfr Lc 9,57-62), além dos Doze, havia numerosos discípulos (cfr Mc 2,15). Os nomes da maioria são para nós desconhecidos; não obstante, entre eles contavam-se com, toda a segurança aqueles que estiveram com Jesus desde o baptismo de João até à Ascensão do Senhor: por exemplo, José chamado Barsabas e Matias (cfr Act 1,21-26). De modo semelhante podemos incluir Cléofas e o seu companheiro, aos quais Cristo ressuscitado apareceu no caminho de Emaús (cfr Lc 24,13-35).

De entre todos aqueles discípulos, o Senhor escolhe setenta e dois para uma missão concreta. Exige-lhes, tal como aos Apóstolos (cfr Lc 9,1-5). desprendimento total e abandono completo à Providência divina.

Desde o Baptismo cada cristão é chamada por Cristo a cumprir uma missão. Com efeito, a Igreja, em nome do Senhor «pede instantemente a todos os leigos que respondam com decisão de vontade, ânimo generoso e disponibilidade de coração à voz de Cristo, que nesta hora os convida com maior insistência, e ao impulso do Espírito Santo. Os mais. novos tomem como dirigido a si de modo particular este chamamento, e recebam-no com alegria e magnanimidade. Com efeito, é o próprio Senhor que, por meio deste sagrado Concilio, mais uma vez convida todos os leigos a que se unam a Ele cada vez mais intimamente, e sentindo como próprio o que é d’Ele (cfr Phil 2,5), se associem à Sua missão salvadora. É Ele quem de novo os envia a todas as cidades e lugares aonde há-de chegar (cfr Lc 10,1); para que, nas diversas formas e modalidades do apostolado único da Igreja, se tornem verdadeiros cooperadores de Cristo, traba­lhando sempre na obra do Senhor com plena consciência de que o seu trabalho não é vão no Senhor (cfr 1Cor 15, 28)» (Apostolicam actuositatem, n. 33).

3-4. Cristo quer inculcar nos Seus discípulos a audácia apostólica; por isso diz «Eu vos envio», que São João Crisóstomo comenta: «Isto basta para vos dar ânimo, isto basta para que tenhais confiança e não temais os que vos atacam» (Hom. sobre S. Mateus, 33). A audácia dos Apóstolos e dos discípulos vinha desta confiança segura de terem sido enviados pelo próprio Deus: actuavam, como explicou com firmeza o próprio Pedro ao Sinédrio, em nome de Jesus Cristo Nazareno, «pois não foi dado aos homens outro nome debaixo do céu pelo qual podemos salvar-nos» (Act 4,12).

« E continua o Senhor — acrescenta São Gregório Magno — ‘Não leveis bolsa nem saco nem sandálias, e não cumpri­menteis ninguém pelo caminho’. Tanta deve ser a confiança que há-de ter em Deus o pregador, que ainda que não se proveja das coisas necessárias para a vida, deve estar persuadido de que não lhe hão-de faltar, não seja que enquanto se ocupa em prover-se das coisas temporais, deixe de procurar para os outros as eternas» (In Evangelia homiliae, 17). O apostolado exige uma entrega generosa que leva ao desprendimento: por isso, Pedro, o primeiro a pôr em prática o mandamento do Senhor, quando o mendigo da Porta Formosa lhe pediu uma esmola (Act 3,2-3), disse1: « Não tenho ouro nem prata» (Ibid., 3,6), «não tanto para se gloriar da sua pobreza — assinala Santo Ambrósio — como da sua obediência ao mandamento do Senhor, como dizendo: vês em mim um discípulo de Cristo, e pedes-me ouro? Ele deu-nos algo muito mais valioso que o ouro, o poder de agir em Seu nome. Não tenho o que Cristo não me deu, mas tenho o que me deu: ‘Em nome de Jesus, levanta-te e anda’ (Act 3,6)» (Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc.). O apostolado exige, portanto, desprendimento dos bens materiais; e também exige estar sempre dispostos, porque a tarefa apostólica é urgente.

«Não cumprimenteis ninguém pelo caminho»: «Como pode ser — pergunta-se Santo Ambrósio — que o Senhor queira eliminar um costume tão cheio de humanidade? Considera, porém, que não diz apenas ‘não cumprimenteis ninguém’, mas que acrescenta ‘pelo caminho’. E isto não é supérfluo.

«Também Eliseu, quando enviou o seu servo a impor o seu bastão sobre o corpo do menino morto, lhe mandou que não cumprimentasse ninguém pelo caminho (2Reg 4,29): deu-lhe ordem de se apressar para cumprir com rapidez a tarefa e realizar a ressurreição, não acontecesse que, por se entreter a falar com algum transeunte, atrasasse o seu encargo. Aqui não se trata então de evitar a urbanidade de cumprimentar, mas de eliminar um possível obstáculo ao serviço; quando Deus manda, o humano deve ser deixado a um lado, pelo menos por algum tempo. Cumprimentar é uma coisa boa, mas melhor é executar quanto antes uma ordem divina que ficaria muitas vezes frustrada por um atraso» (Ibid.).

6. «Homem de paz » é todo o homem que está disposto a receber a doutrina do Evangelho, que traz a paz de Deus. A recomendação do Senhor aos discípulos de que anunciem a paz há-de ser uma constante em toda a acção apostólica dos cristãos: «O apostolado cristão não é um programa político, nem uma alternativa cultural; significa a difusão do bem, o contágio do desejo de amar, uma sementeira concreta de paz e de alegria» (Cristo que passa, n° 124).

O sentir a paz na nossa alma e à nossa volta é sinal inequívoco de que Deus vem a nós, e um fruto do Espírito Santo (cfr Gal 5,22): «Repele esses escrúpulos que te tiram a paz. — Não é de Deus o que rouba a paz da alma.

«Quando Deus te visitar, hás-de sentir a verdade daquelas saudações: dou-vos a paz…, deixo-vos a paz…, a paz seja convosco… E isto, no meio da tribulação» (Caminho, n° 258).

7. Está claro que o Senhor considera que a pobreza e o desprendimento dos bens materiais há-de ser uma das prin­cipais características do apóstolo (vv. 3-4). Não obstante, consciente das necessidades materiais dos Seus discípulos, deixa assente o princípio de que o ministério apostólico merece a sua retribuição. Por isso o Concilio Vaticano II recorda a obrigação que todos temos de contribuir para a sustentação dos que generosamente se entregam ao serviço da Igreja: «Entregues ao serviço de Deus, pelo desempenho do cargo que lhes foi confiado, os presbíteros são merecedores da justa recompensa, visto que o operário é digno do seu salário (Lc 10,7) e o Senhor ordenou àqueles que anunciam o Evangelho, que vivam do Evangelho (1Cor 9,14). Por isso, onde não se tiver providenciado de outra maneira à justa remuneração dos presbíteros, os mesmos fiéis, em cujo benefício eles trabalham, têm verdadeira obrigação de procurar os meios necessários para que levem uma vida digna e honesta» (Presbyterorum ordinis, n. 20).

04.10.13 – Lc 10, 13-16

13Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Porque, se em Tiro e Sídon se tivessem efectuado os milagres que entre vós se efectuaram, de há muito haveriam feito penitência, prostrados no saco e na cinza. 14Aliás, haverá mais tolerância, na altura do Juízo, para Tiro e Sídon do que para vós.

15E tu, Cafarnaum, porventura serás exal­tada até ao Céu? Até ao Inferno é que serás precipitada!

16Quem vos ouve é a Mim que ouve, e quem vos rejeita é a Mim que rejeita; mas quem Me rejeita rejeita Aquele que Me enviou.

Comentário

16. Na tarde do dia da Ressurreição o Senhor transmite aos Apóstolos a missão própria que tinha recebido do Pai, outorgando-lhes poderes semelhantes aos Seus (Ioh 20, 21).

Dias mais tarde confere a Pedro o primado que antes lhe tinha prometido (Ioh 21,15-17). A Pedro sucedeu o Romano Pontífice e aos Apóstolos os Bispos (cfr Lumen gentium, n. 20). Por isso: «Os Bispos, quando ensinam em comunhão com o Romano Pontífice, devem por todos ser venerados como testemunhas da verdade divina e católica (…). Esta religiosa submissão da vontade e do entendimento é por especial razão devida ao magistério autêntico do Romano Pontífice, mesmo quando não fala ‘ex cathedra’» (Lumen gentium, n. 25).

05.10.13 – Lc 10, 17-24

17Ora os setenta e dois voltaram cheios de alegria. Senhor — diziam eles — até os Demônios se nos sujeitam em Teu Nome! 18Disse-lhes Ele: Eu via Satanás cair do céu como um raio!… 19Olhai que vos dei o poder não só de andar em cima de serpentes e de escorpiões, mas também sobre toda a força do inimigo; e nada vos causará dano. 20Entretanto, não vos alegreis com o facto de se vos sujeitarem os espíritos, alegrai-vos antes por estarem inscritos nos Céus os vossos nomes.

21Na mesma ocasião, estremeceu de alegria no Espírito Santo e disse: Bendigo-Te, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos hábeis, e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque isso foi do Teu agrado. 22Tudo Me foi entregue por Meu Pai. E ninguém conhece quem é o Filho senão o Pai, nem quem é o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar. 23E, voltando-Se em particular para os discípulos, disse: Felizes os olhos que veem o que estais a ver; 24pois vos digo que muitos profetas e reis quiseram ver o que estais a ver e não viram, e ouvir o que estais a ouvir e não ouviram.

Comentário

20. O Senhor corrige a atitude dos discípulos, fazendo-lhes ver que os verdadeiros motivos de alegria estão na esperança do Céu, e não no poder de fazer milagres que lhes tinha dado para essa missão. Jesus tinha dado noutra ocasião um ensinamento parecido: «Muitos hão-de dizer-Me naquele dia: ‘Senhor, Senhor, não profetizamos nós em Teu nome e em Teu nome expulsamos demônios e em Teu nome fizemos muitos milagres?’ Então lhes direi abertamente: ‘Nunca vos conheci: apartai-vos de Mim, obreiros da iniquidade!’» (Mt 7,22-23). Com efeito, mais importante aos olhos de Deus do que fazer milagres é cumprir em cada momento a Sua Vontade santíssima.

21. A este passo do Evangelho se costuma chamar «o hino de júbilo» do Senhor. Também se encontra em São Mateus (11,25-27). É um dos momentos em que Jesus manifesta a Sua alegria ao ver como os humildes entendem e aceitam a palavra de Deus.

Nosso Senhor mostra, além disso, uma consequência da humildade: a infância espiritual. Assim, diz noutro lugar: «Em verdade vos digo que, se não voltardes a ser como meninos, não entrareis no Reino dos Céus» (Mt 18,3). Mas a infância espiritual não comporta debilidade, frouxidão ou ignorância: «Tenho meditado com frequência na vida do Infância espiritual, que não se contrapõe à fortaleza, porque requer uma vontade rija, uma maturidade bem temperada, tom caracter firme e aberto (…). Tornar-nos meninos… Renunciar à soberba, à autossuficiência; reconhecer que, sozinhos, nada podemos, porque necessitamos da graça, do poder do nosso Pai, Deus, para aprender a caminhar e para perseverar no caminho. Ser pequeno exige abandonar-se como se abandonam as crianças, crer como creem as crianças, pedir como pedem as crianças» (Cristo que passa, nos 10 e 143).

22. «Esta é uma expressão maravilhosa para a nossa fé —- comenta Santo Ambrósio — porque quando lês ‘tudo’ compreendes que Cristo é todo-poderoso, que não é inferior ao Pai, nem menos perfeito; quando lês ‘foi-me entregue’, confessas que Cristo é o Filho, ao qual tudo pertence de direito pela consubstancialidade de natureza e não por graça de doação» (Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc.).

Cristo aparece aqui Onipotente, Senhor e Deus, consubs­tancial com o Pai, e o único que pode revelar quem é o Pai. Ao mesmo tempo só podemos conhecer a natureza divina de Jesus, se o Pai — como fez com São Pedro (cfr Mt 16,17) — nos dá a graça da fé.

23-24. Sem dúvida que o ter visto Jesus pessoalmente foi uma sorte maravilhosa para aqueles que creram n’Ele. Não obstante, o Senhor dirá a Tome: «Bem-aventurados os que sem terem visto creram» (Ioh 20,29). São Pedro, por sua parte, diz-nos: «Amai-Lo sem O terdes visto; credes n’Ele igualmente agora, ainda que não O vejais; mas porque credes, regozijar-vos-eis com júbilo indizível e cheio de glória quando alcançardes o fim da nossa fé, a salvação das almas» (1Pet 1.8-9).

06.10.13 –Lc 17, 5-10

5Disseram os Apóstolos ao Senhor: Aumenta a nossa fé. 6Disse o Senhor: Se tivésseis fé como um grão de mostarda, diríeis a essa amoreira: «arranca-te e planta-te no mar»; e ela obedecer-vos-ia.

7Qual de vós, que tenha um criado a lavrar ou a guardar gado, lhe dirá, quando ele entrar do campo: «Vem cá depressa e põe-te à mesa.»? 8Não lhe dirá antes: «Prepara-me o jantar e cinge-te para me servires, enquanto eu como e bebo; depois disso é que tu hás-de comer e beber»? 9Irá agradecer ao criado por ter feito o que lhe tora mandado? 10Assim, vós também, quando tiverdes feito tudo o que se vos mandou, dizei: «Somos servos inúteis; fizemos o que devíamos fazer.»

Comentário

5. «Aumenta a nossa fé»: Cada um de nós deveria repetir esta súplica dos apóstolos como uma jaculatória. «’Omnia possibilia sunt credenti’. — Tudo é possível para quem crê. — São palavras de Cristo.

«— Que fazes tu, que não Lhe dizes com os apóstolos: ‘adauge nobis fidem!’ — aumenta-me a Fé!» (Caminho, n° 588).

6. « Não sou ‘milagreiro’. — Disse-te já que me sobejam milagres no Santo Evangelho para firmar fortemente a minha fé. — Mas dão-me pena esses cristãos — até piedosos, ‘apostólicos’! — que sorriem quando ouvem falar de cami­nhos extraordinários, de factos sobrenaturais. — Sinto de­sejos de lhes dizer: sim, também agora há milagres; nós próprios os faríamos se tivéssemos fé!» (Caminho, n° 583).

7-10. Jesus não aprova esse tratamento abusivo e arbi­trário do amo, mas serve-Se de uma realidade muito quoti­diana para as gentes que O escutavam, e ilustra assim qual deve ser a disposição da criatura diante do seu Criador: desde a nossa própria existência até à bem-aventurança eterna que nos é prometida, tudo procede de Deus como um imenso presente. Daí que o homem sempre esteja em dívida com o Senhor, e por mais que faça no Seu serviço as suas acções não passam de ser uma pobre correspondência aos dons divinos. O orgulho diante de Deus não tem sentido numa criatura. O que aqui nos inculca Jesus vemo-lo feito realidade na Virgem Maria, que respondeu diante do anúncio divino: «Eis a escrava do Senhor» (Lc 1,38).

07.10.13 – Lc 10, 25-37

25Nisto, levantou-se um legista com esta pergunta, para O experimentar: Mestre, que hei-de fazer para herdar a vida eterna? :26Disse-lhe Jesus: Que está escrito na Lei? Como é que lês? 27Ele disse-Lhe, em resposta: Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças e com toda a tua mente, e ao teu próximo, como a ti mesmo. 28Disse-lhe Jesus: Respondeste bem: faz isso e vi verás. 29Mas ele, querendo justificar-se, disse a Jesus: E quem é o meu próximo?

30Jesus, tomando-lhe a palavra, respon­deu: Certo homem descia de Jerusalém para Jerico e caiu em poder dos salteadores, os quais, depois de o despojarem e espancarem, se foram, deixando-o meio morto. 31Ora, por coincidência, descia por aquele caminho um sacerdote, que, ao vê-lo, passou do lado oposto. 32Do mesmo modo, também um le­vita, que veio por aquele lugar, ao vê-lo, passou do lado oposto. 33Mas um samaritano, que ia de viagem, veio por junto dele e, quando o viu, encheu-se de compaixão. 34Aproximou-se, ligou-lhe as feridas, dei­tando azeite e vinho, e, depois de o erguer para cima da própria montada, levou-o para uma estalagem e prestou-lhe assistência. 35No dia seguinte, tirando dois denarios, deu-os ao estalajadeiro e disse: «Presta-lhe assistência, e o que dispenderes a mais eu to pagarei, quando voltar». 36Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele que caiu em poder dos salteadores? 37Ele res­pondeu: O que usou de compaixão para com ele. Disse-lhe Jesus: Vai e faz tu também do mesmo modo.

Comentário

25-28. O Senhor ensina que o caminho para conseguir a vida eterna consiste no cumprimento fiel da Lei de Deus. Os Dez Mandamentos, que Deus entregou a Moisés no monte Sinai (Ex 20,1-17), são a expressão concreta e clara da Lei natural. Faz parte da doutrina cristã a existência da Lei natural, que é a participação da Lei eterna na criatura racional, e que foi impressa na consciência de cada homem ao ser criado por Deus (cfr Libertas praestantissimum). É evidente, portanto, que a Lei natural, expressada nos Dez Mandamentos, não pode mudar, nem passar de moda, já que não depende da vontade do homem nem das circunstâncias mutáveis dos tempos.

Neste passo Jesus louva e aceita o resumo da Lei que faz o escriba judeu. A resposta é tirada do Deuteronómio (6,4 ss.) e era uma oração que os judeus repetiam com frequência. Esta mesma resposta dá o Senhor quando Lhe perguntam qual é o mandamento principal da Lei, para terminar dizendo: «Destes dois mandamentos depende toda a Lei e os «Profetas» (Mt 22,40), (cfr também Rom 13,8-9; Gal 5,14

Há uma hierarquia e uma ordem nestes dois mandamentos que constituem o duplo preceito da caridade: antes de mais e sobretudo amar a Deus por Si mesmo; em segundo lugar, e como consequência do anterior, amar o próximo porque essa é a vontade explícita de Deus (1Ioh 4,21 (vejam-se as notas a Mt 22,34-40 e 22,37-38).

Neste passo do Evangelho encerra-se também outro ensinamento fundamental: a Lei de Deus não é algo negativo «não fazer», mas algo claramente positivo, é amor; a santidade, a que todos os baptizados estão chamados, não consiste tanto em não pecar, mas em amar, em fazer coisas positivas, em dar frutos de amor de Deus. Quando o Senhor nos descreve o Juízo Final realça esse aspecto positivo da Lei de Deus (Mt 25,31-46). O prêmio da vida eterna será concedido aos que fizeram o bem.

27. «Sem dúvida, a nossa única ocupação aqui na terra é a de amar a Deus: ou seja, começar a praticar o que faremos durante toda a eternidade. Por que temos de amar a Deus? Porque a nossa felicidade consiste, e não pode consistir noutra coisa, no amor de Deus. De maneira que se não amamos a Deus, seremos constantemente infelizes; e se queremos desfrutar de alguma consolação e de alguma suavidade nas nossas penas, somente o conseguiremos recorrendo ao amor de Deus. Se quereis convencer-vos disso ide buscar o homem mais feliz segundo o mundo; se não ama a Deus, vereis como na realidade não deixa de ser um grande desgraçado. E, pelo contrário, se vos encontrais com o homem mais infeliz aos olhos do mundo, vereis como, amando a Deus, é ditoso em todos os conceitos. Meu Deus! Abri-nos os olhos da alma, e assim buscaremos a nossa felicidade onde realmente podemos achá-la!»(Sermões esco­lhidos, Décimo segundo Domingo depois do Pentecostes).

29-37. Nesta comovente parábola, que apenas São Lucas recolhe, o Senhor dá uma explicação concreta de quem é o próximo e de como há que viver a caridade com ele, ainda que seja nosso inimigo.

Santo Agostinho, seguindo outros Santos Padres (De verb. Dom. serm., 37), identifica o Senhor com o bom samaritano, e o homem assaltado pelos ladrões com Adão, origem e figura de toda a humanidade caída. Levado por essa com­paixão e misericórdia, desce à terra para curar as chagas do homem, fazendo-as suas próprias (Is 53,4; Mt 8,17; 1Pet 2,24; 1Ioh 3,5). Assim, em mais de uma ocasião, vemos como Jesus Se compadece e Se comove diante do sofrimento do homem (cfr Mt 9,36; Mc 1,41; Lc 7,13). Com efeito, diz São João: «Nisto se demonstrou o amor de Deus para connosco, em que enviou o Seu Filho Unigênito ao mundo para que por Ele tenhamos a vida. E nisto consiste o Seu amor, que não é porque nós tenhamos amado a Deus, mas porque Ele nos amou primeiro a nós, e enviou o Seu Filho para ser vítima de propiciação pelos nossos pecados. Queridos, se Deus nos amou assim, também nós devemos amar-nos uns aos outros» (1Ioh 4,9-11).

Esta parábola deixa claro quem é o nosso próximo: quem quer que esteja perto de nós — sem distinção alguma de raça, de amizade, etc. — e necessite da nossa ajuda. De igual modo fica claro como há que amar o próximo: tendo misericórdia com ele, compadecendo-nos da sua necessi­dade espiritual ou corporal; e esta disposição tem de ser eficaz, concreta, deve manifestar-se em obras de entrega e de serviço, não pode ficar apenas em sentimento.

Essa mesma compaixão e amor de Jesus Cristo temos de sentir nós, os cristãos, que devemos ser discípulos Seus, para não passar nunca do lado oposto perante as necessidades alheias. Uma concretização do amor ao próximo está plasmada nas Obras de Misericórdia, que se chamam assim porque não são devidas por justiça. São catorze sete espirituais e sete corporais. As espirituais abarcam: ensinar a quem não sabe, dar bom conselho a quem dele tenha necessidade, corrigir a quem erra, perdoar as injúrias, consolar o triste, sofrer com paciência as adversidades e as fraquezas do próximo, e rogar a Deus pelos vivos e pelos mortos. As corporais são: visitar os doentes, dar de comer ao faminto, dar de beber ao que tem sede, redimir o cativo, vestir o nu, dar pousada ao peregrino, e enterrar os mortos.

31-32. É muito provável que Nosso Senhor tenha corri­gido também com esta parábola uma das deformações e exageros a que tinha chegado a falsa piedade judaica entre os Seus contemporâneos. Segundo a Lei de Moisés, o contacto com os cadáveres fazia contrair a impureza legal, que se reparava com diversas abluções ou lavagens (cfr Num 19, 11-22; Lev 21,1-4,11-12). Essas disposições não estavam dadas para impedir o auxílio aos feridos ou doentes, mas para outros fins secundários higiênicos e de respeito aos cadáveres. A aberração no caso do sacerdote e do levita da parábola consistiu em que, diante da dúvida de se p homem assaltado pelos ladrões estava morto ou não, antepuseram uma má interpretação de um preceito secundário e ritual da Lei, perante o mandamento mais importante: o amor ao próximo e a ajuda que lhe deve ser prestada.

08.10.13 – Lc 10, 38-42

38Quando iam no caminho, entrou Jesus em certa povoação. E uma mulher, por nome Marta, recebeu-O em sua casa. 39Tinha esta Jesus uma irmã, chamada Maria, a qual, depois de se sentar aos pés do Senhor, se pôs a ouvir a Sua palavra. 40Quanto a Marta, andava atarefada com muito serviço. Estacou então e disse: Senhor, não se Te dá que minha irmã me tenha deixado só a servir? Diz-lhe, pois, que me venha ajudar. 41Volveu-lhe o Senhor, em resposta: Marta, Marta, andas inquieta e agitada com muita coisa, 42quando uma só é necessária. Maria escolheu, de facto, a me­lhor parte, que lhe não será tirada.

Comentário

38-42. O Senhor ia para Jerusalém (Lc 9,51), e uns três quilômetros antes passou por Betânia, a aldeia de Lázaro, Marta e Maria, três irmãos aos quais o Senhor amava entranhavelmente, como se vê noutros lugares do Evangelho (cfr Ioh 11,1-45; 12,1-9). O diálogo de Jesus com Marta tem um tom familiar cheio de confiança, que nos faz pensar na grande amizade do Senhor com os três irmãos.

Santo Agostinho comenta esta cena da seguinte maneira: «Marta ocupava-se em muitas coisas, dispondo e preparando a refeição do Senhor. Pelo contrário, Maria preferiu alimen­tar-se do que dizia o Senhor. Não reparou de certo modo na agitação contínua de sua irmã e sentou-se aos pés de Jesus, sem fazer outra coisa senão escutar as Suas palavras. Tinha compreendido de forma fidelíssima o que diz o Salmo: ‘Descansai e vede que Eu sou o Senhor’ (Ps 46,11). Marta consumia-se, Maria alimentava-se; aquela abarcava muitas coisas, esta só atendia a uma. Ambas as coisas são boas» (Sermo 103).

Marta veio a ser como o símbolo da vida activa, enquanto Maria o é da vida contemplativa. Não obstante, para a maioria dos cristãos, chamados a santificar-se no meio do mundo, não se podem considerar como dois modos contrapostos de viver o cristianismo: uma vida activa que se esqueça da união com Deus é algo inútil e estéril; mas uma suposta vida de oração que prescinda da preocupação apos­tólica e da santificação das realidades ordinárias também não pode agradar a Deus. A chave está, pois, em saber unir essas duas vidas, sem prejuízo nem de uma nem da outra. Esta união profunda entre acção e contemplação pode viver-se de modos muito diversos, segundo a vocação concreta que cada um recebe de Deus.

O trabalho, longe de ser obstáculo, há-de ser meio e ocasião de uma intimidade afectuosa com Nosso Senhor, que é o mais importante.

O cristão corrente, seguindo este ensinamento do Senhor, deve esforçar-se por conseguir a unidade de vida: vida de piedade intensa e actividade exterior orientada para Deus, feita por amor a Ele e com rectidão de intenção, que se manifestará no apostolado, na tarefa profissional, nos deveres de estado. «Deveis compreender agora — com uma nova clareza — que Deus vos chama a servi-Lo em e a partir das ocupações civis, materiais, seculares, da vida humana. Deus espera-vos: no laboratório, na sala de operações, no quartel, na cátedra universitária, na fábrica, na oficina, no campo, no lar, e em todo o imenso panorama do trabalho. Ficai a sabê-lo: escondido nas situações mais comuns, há algo de santo, de divino, que vos toca a cada um de vós descobrir (…). Não há outro caminho, meus filhos: ou sabemos encontrar o Senhor na nossa vida corrente, ou nunca O encontraremos. Por isso vos posso dizer que a nossa época precisa de restituir à matéria e às situações que parecem mais vulgares o seu nobre e original sentido, colocá-las ao serviço do Reino de Deus, espiritualizá-las fazendo delas o meio e a ocasião do nosso encontro contínuo com Jesus Cristo» (Temas Actuais do Cristianismo, n° 114).

09.10.13 – Lc 11, 1-4

Estando Ele algures a orar, disse-Lhe, quando acabou, um dos discípulos: Senhor, ensina-nos a orar, como João também ensinou os seus discípulos. 2Ele respondeu-lhes: Quando orardes, dizei:

Pai, santificado seja o Teu nome; Venha o Teu Reino.

3Dá-nos em cada dia o pão da nossa subsistência.

4Perdoa-nos os nossos pecados, pois também nós perdoamos a todo aquele que nos deve. E não nos sujeites à tentação.

Comentário

1.4. O texto que nos apresenta São Lucas da oração dominical ou Pai-Nosso é algo mais breve que o que se contém em São Mateus (6,9-13). Ali especificavam-se sete petições; em São Lucas só quatro. Por outro lado, o contexto de São Mateus é o do Sermão da Montanha e, mais concretamente, a explicação sobre o modo de orar; o de São Lucas é um dos momentos em que Jesus esteve a orar. Os dois contextos diferem. Não é de estranhar que Nosso Senhor ensinasse o mesmo em diversas ocasiões e com palavras não literalmente idênticas nem com a mesma extensão, insistin­do, porém, nos pontos fundamentais. Como é lógico, a Igreja recolheu a oração dominical na sua forma mais completa, que é a de São Mateus.

«Quando os discípulos pediram ao Senhor Jesus: ‘Ensi­na-nos a orar’, Ele respondeu pronunciando as palavras da oração do Pai-Nosso, criando assim um modelo concreto e ao mesmo tempo universal. De facto, tudo o que se pode e se deve dizer ao Pai está encerrado nas sete petições que todos sabemos de cor. Há nelas uma simplicidade tal, que até uma criança as aprende, e ao mesmo tempo uma profundidade tal, que Se pode consumir uma vida inteira a meditar o sentido de cada uma delas. Porventura não é assim? Não nos fala cada uma delas, uma depois da outra, do que é essencial para a nossa existência, dirigida totalmente a Deus, ao Pai? Não nos fala do ‘pão de cada dia’, do ‘perdão das nossas ofensas, visto que também nós perdoamos’, e ao mesmo tempo de preservar-nos da ‘tentação’ e de ‘livrar-nos do mal ?» (Audiência geral João Paulo II, 14-111-1979).

O primeiro que o Senhor nos ensina a pedir é a glorificação de Deus e a vinda do/Seu Reino. Isto é o que realmente importa, o Reino de Deus e a sua Justiça (cfr Mt 6, 33). O Senhor também quer que peçamos, confiados em que o nosso Pai Deus atenderá as nossas necessidades materiais, pois «bem sabe o vosso Pai Celeste que de tudo isso estais necessitados» (Mt 6,32). De todos os modos, o Pai-Nosso faz- -nos aspirar especialmente aos bens do espírito e convida-nos a pedir perdão com a exigência de perdoar, e a afastarmo-nos do perigo de pecar. Finalmente, o Pai-Nosso põe em realce a importância da oração vocal: «’Domine, doce nos orare’ — Senhor, ensina-nos a orar: — E o Senhor respondeu: Quando orardes, dizei: ‘Pater noster, qui es in coelis…’.— Pai nosso, que estais no Céu…

«Como não havemos de ter em muito apreço a oração vocal!» (Caminho, n° 84).

1. Jesus retirava-Se com frequência para fazer oração (cfr Lc 6,12; 22,39 ss.). Esta prática do Mestre suscita nos discípulos o desejo de aprender a orar. Jesus ensina-lhes o que Ele próprio faz. Com efeito, quando o Senhor faz oração, começa com a palavra «Pai!»: «Pai, nas Tuas mãos enco­mendo o Meu espírito» (Lc 23,46; vejam-se também Mt 11,25; 26,42.53; Lc 23,34; Ioh 11,41; etc.). Não constitui realmente uma excepção desta norma a oração « Meu Deus, Meu Deus…» (Mt 27,46), que o Senhor recita na Cruz, suposto que se trata do Salmo vinte e dois, que é a oração final do justo perse­guido.

Pode, portanto, dizer-se que o primeiro que deve ter a oração é a simplicidade do filho que fala com seu Pai. «Escreveste-me: ‘Orar é falar com Deus. Mas de quê? De quê?! D’Ele e de ti; alegrias, tristezas, êxitos e fracassos, ambições nobres, preocupações diárias…, fraquezas; e acções de graças e pedidos; e Amor e desagravo.

«Em duas palavras: conhecê-Lo e conhecer-te — ganhar intimidade!» (Caminho, n° 91).

2. «Santificado seja o Teu Nome»; Nesta primeira petição do Pai-Nosso «pedimos que Deus seja conhecido, amado, honrado e servido por todo o mundo e por nós em particular». Isto quer dizer que «os infiéis cheguem ao conhecimento do verdadeiro Deus, os hereges reconheçam os seus erros, os cismáticos voltem à unidade da Igreja, os pecadores se convertam e os justos perseverem no bem». Com esta primeira petição, o Senhor ensina-nos que «de­vemos desejar mais a glória de Deus que todos os nossos interesses e proveitos». Esta glória de Deus que pedimos procura-se «com orações e bom exemplo, e orientando para Ele todos os nossos pensamentos, afectos e acções» (cfr Catecismo Maior, nos 290-293).

«Venha o Teu Reino»: «Por Reino de Deus entendemos um triplo reino espiritual: o Reino de Deus em nós, que é a graça; o Reino de Deus na terra, que é a Igreja Católica, e o Reino de Deus no Céu, que é a bem-aventurança… Em ordem à graça, pedimos que Deus reine em nós com á Sua graça santificante, pela qual Se compraz em morar em nós como rei na sua corte, e que nos conserve unidos a Ele com as virtudes da fé, esperança e caridade, pelas quais reina no nosso entendimento, no nosso coração e na nossa vontade (…). Em ordem à Igreja, pedimos que se dilate e propague por todo o mundo para salvação dos homens (…). Em ordem à glória, pedimos ser um dia admitidos na bem-aventurança para a qual fomos criados, onde seremos completamente felizes» (Catecismo Maior, n.os 294-297).

3. É interpretação comum da Tradição da Igreja que o pão a que se alude aqui não é meramente o pão material, já que «não só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que procede da boca de Deus» (Mt 4,4; Dt 8,3). Jesus quer aqui que pecamos «a Deus o que nos é necessário cada dia para a alma e para o corpo (…). Para a nossa alma pedimos a Deus o mantimento da vida espiritual, isto é, rogamos ao Senhor nos dê a Sua graça, de que continuamente temos necessi­dade (…). A vida da nossa alma mantém-se sobretudo com a palavra divina e com o Santíssimo Sacramento do altar (…). Para o nosso corpo pedimos o necessário para o mantimento da vida temporal» (Catecismo Maior, nos 302-305).

A doutrina cristã sublinha duas ideias nesta petição do Pai-Nosso: a primeira é a confiança na Providência divina, que nos livra da preocupação excessiva por amontoar bens e dinheiro para o dia de amanhã (cfr Lc 12,16-21); a outra ideia é que temos de nos interessar fraternalmente pelas necessidades dos outros, superando deste modo a nossa inclinação para o egoísmo.

4. «De tal maneira exige Deus de nós o esquecimento das injúrias e o afecto e amor mútuo entre os homens, que rejeita e despreza as oferendas e os sacrifícios dos que não se tenham reconciliado amistosamente» (Catecismo Romano, IV, 14,16).

«Irmãs, esta coisa é para que olhemos muito para ela; que uma coisa tão grande e de tanta importância como que nos perdoe o Senhor as nossas culpas, que mereciam fogo eterno, nos seja perdoado com coisa tão baixa como é que perdoemos; e mesmo desta baixeza tenho tão poucas que oferecer, que em balde me tendes, Senhor, de perdoar. Aqui tem muito lugar a Vossa misericórdia. Bendito sejais Vós, que tão pobre me sofreis» (Caminho de perfeição, cap. 36).

«E não nos sujeites à tentação»: «Não é pecado sentir a tentação, mas consentir nela. Também é pecado pôr-se voluntariamente em ocasião próxima de pecar. Deus permite que sejamos tentados para provar a nossa fidelidade, para nos exercitarmos nas virtudes e acrescentar, com a ajuda da graça, os nossos merecimentos. Nesta petição rogamos ao Senhor que nos dê a Sua graça para não sermos vencidos na prova, ou que nos livre desta se não formos capazes de superá-la.

10.10.13 – Lc 11, 5-13

5Disse-lhes ainda: Se algum de vós tiver um amigo, e for ter com ele à meia-noite e lhe disser: «amigo, empresta-me três pães, 6pois me chegou de viagem um amigo meu e não tenho que lhe dar», 7e se ele disser, em resposta, lá de dentro: «não me incomodes, a porta já está fechada e os meus filhos estão comigo na cama; não posso levantar-me para tos dar». 8Eu vos digo: Ainda que se não levante para lhos dar por ser seu amigo, ao menos levantar-se-á, devido à impertinência dele, e dar-lhe-á quanto precisa.

9Também Eu vos digo a vós: Pedi e dar-se-vos-á; procurai e achareis; batei e abrir-se-vos-á. 10Pois todo aquele que pede recebe, quem procura encontra e ao que bate abrir-se-á. 11E, se a algum de vós que seja pai, o filho pedir pão, dar-lhe-á uma pedra? Ou, se lhe pedir um peixe, em vez dum peixe, dar-lhe-á uma serpente? 12Ou ainda, se pedir um ovo, dar-lhe-á um escorpião? 13Se vós, portanto, maus como sois, sabeis oferecer boas dádivas a vossos filhos, quanto mais o Pai do Céu dará o Espírito Santo àqueles que Lho pedirem!

Comentário

5-10. Uma das notas essenciais da oração há-de ser a constância confiada no pedir. Através deste simples exemplo e de outros parecidos (cfr Lc 18,1-7) o Senhor anima-nos a não decair na nossa petição constante a Deus. «Persevera na oração. — Persevera, ainda que o teu esforço pareça estéril. — A oração é sempre fecunda» (Caminho, n° 101).

9-10. «Vedes a eficácia da oração quando se faz nas devidas condições? Não estareis de acordo comigo em que, se não alcançamos o que pedimos a Deus, é porque não oramos com fé, com o coração bastante puro, com uma confiança bastante grande, ou porque não perseveramos na oração como deveríamos? Deus nunca negou nem negará nada aos que Lhe pedem as Suas graças devidamente. A oração é o grande recurso que nos resta para sair do pecado, perseverar na graça, mover o coração de Deus e atrair sobre nós toda a sorte de bênçãos do céu, quer para a alma, quer pelo que respeita às nossas necessidades tem­porais» (Sermões escolhidos, Quinto Domingo depois de Páscoa).

11-13. A paternidade humana que o homem tem diante dos olhos serve ao Senhor como ponto de comparação para voltar a ensinar-nos a realidade gozosa de que Deus é nosso Pai, porque a verdade é que a paternidade de Deus é a fonte de toda a paternidade nos Céus e na terra (cfr Eph 3,15). « O Deus da nossa fé não é um ser longínquo, que contempla com indiferença a sorte dos homens, os seus afãs, as suas lutas, as suas angústias. É um pai que ama os Seus filhos até ao ponto de enviar o Verbo, Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, a fim de, com a sua encarnação, morrer por nós e nos redimir. É ele ainda o mesmo Pai amoroso que agora nos atrai suavemente para Si, mediante a acção do Espírito Santo que habita nos nossos corações» (Cristo que passa, n° 84).

13. O Espírito Santo é o dom supremo de Deus, a grande promessa que Cristo faz aos discípulos (cfr Ioh 15,26), o fogo divino que desce sobre os Apóstolos no Pentecostes e os enche de fortaleza e liberdade para pro­clamar a mensagem de Cristo (cfr Act 2). «Eu rogarei ao Pai — anunciou o Senhor aos Seus discípulos — e Ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco eternamente (Ioh XIV.16). Jesus cumpriu as Suas promessas: ressuscitou, subiu aos Céus e, em união com o Eterno Pai, envia-nos o Espírito Santo para nos santificar e nos dar a vida» (Cristo que passa, n° 128).

11.10.13 – Lc 11, 15-26

15Disseram, porém, alguns dentre eles: É por Belzebu, Príncipe dos Demônios, que Ele expulsa os Demônios. 16Outros, para O expe­rimentarem, solicitavam da Sua parte um sinal do céu. 17Mas Ele, que conhecia os pensamentos deles, disse-lhes: Todo o reino que se dividiu contra si mesmo ficará devas­tado, caindo casa sobre casa. l8Então, se Satanás, também, se dividiu contra si mesmo, como há-de manter-se o seu reino? Pois vós dizeis que por Belzebu é que Eu expulso os Demônios!… 19Mas se Eu expulso os Demônios por Belzebu, por quem os expulsam os vossos filhos? Por isso é que eles mesmos serão vossos juízes! 20Mas, se Eu expulso os Demônios pelo dedo de Deus, é que chegou até vós o Reino de Deus.

21Quando um homem forte e bem armado guarda o seu palácio, estão em segurança os seus haveres. 22Mas, quando surge um mais forte do que ele e o vence, tira-lhe o equipa­mento em que estava confiado e distribui-lhe os despojos.

23Quem não está comigo é contra Mim, e quem não junta comigo dispersa.

24Quando o espírito impuro sai do homem, anda a vaguear por sítios áridos, em busca de repouso. Como o não encontra, diz: «Vol­tarei para minha casa, donde saí». 25E, quando chega, encontra-a varrida e arrumada. 26Vai então e toma consigo outros sete espíritos piores do que ele; e, entrando, ali se insta­lam. E, o último estado daquele homem torna-se pior do que o primeiro.

Comentário

14-23. A obstinação dos inimigos de Jesus não cede nem diante da evidência do milagre. Uma vez que não podem negar o valor extraordinário do facto, atribuem-no a artes demoníacas, com o intento de negar que Jesus é o Messias. O Senhor replica-lhes com um raciocínio que não admite escapatória: as expulsões de demônios que faz são provas evidentes de que com Ele chegou o Reino de Deus. O Concilio Vaticano II recordou de novo esta verdade: «O Senhor Jesus deu início à Sua Igreja pregando a boa nova do advento do Reino de Deus prometido desde há séculos nas Escrituras (…). Também os milagres de Jesus comprovam que já chegou à terra o Reino: «Se lanço fora os demônios com o poder de Deus, é que chegou a vós o Reino de Deus (Lc 11,20; cfr Mt 12,28). Mas este Reino manifesta-se sobretudo na própria pessoa de Cristo, Filho de Deus e Filho do homem, que veio para servir e dar a Sua vida em redenção por muitos (Mc 10,45)» (Lumen gentium, n° 5).

O forte e bem armado é o demônio (v. 21), que com o seu poder tinha escravizado o homem; mas Jesus Cristo, mais forte que ele, veio, venceu-o e está a desalojá-lo de onde se tinha assenhoreado. São Paulo dirá que Cristo «despojou os principados e às potestades, triunfando publicamente sobre eles»(Col 2,15).

Depois da vitória de Cristo, o « mais forte », as palavras do V. 23 são uma séria advertência aos que O escutavam, e a toda a humanidade: ainda que o não queiram reconhecer Jesus Cristo venceu, e doravante não é admissível a neutralidade diante da Sua causa: quem não estiver com Ele, está contra Ele.

18. O argumento de Cristo é claro. Um dos maiores males que podem sobrevir à Igreja é precisamente a divisão entre os cristãos, a desunião dos crentes. Temos de fazer nossa a oração de Jesus:« Que todos sejam um; como Tu, Pai, em Mim e Eu em Ti, que assim eles estejam em Nós, para que o mundo creia que Tu Me enviaste» (Ioh 17,21).

24-26. O Senhor descobre-nos como o demônio não descansa na sua luta contra o homem; uma vez rejeitado pela graça de Deus, de novo lança as suas ciladas e ataques. Conhecedor de tudo isto, São Pedro recomenda-nos viver com sobriedade e estar vigilantes, «porque o vosso inimigo o diabo dá voltas ao redor de vós como um leão rugidor buscando a quem devorar: resisti-lhe fortes na fé» (l Pet 5,8-9).

Além disso, Jesus põe-nos de sobreaviso contra uma nova derrota às mãos de Satanás, advertindo-nos de que essa nova situação seria ainda pior que a primeira. Com razão diz o adágio latino que «corruptio optimi, péssima» (a corrupção do melhor é a pior). Também São Pedro, com palavra inspirada, recrimina os cristãos corrompidos, que, com grave e expressiva frase, compara ao «cão que voltou ao seu vômito e à porca que apenas lavada, se revolve na lama» (2 Pet 2,22).

12.10.13 – Jo 2, 1-11

No terceiro dia, houve um casamento em Cana da Galileia, e estava lá a mãe de Jesus. 2Ora Jesus e os discípulos foram também convidados para o casamento. 3Como viesse a faltar o vinho, diz a mãe de Jesus para Este: Não têm vinho… 4Responde-lhe Jesus: Que Me desejas, Senhora? Ainda não chegou a Minha hora. 5Diz Sua mãe aos serventes: Fazei o que Ele vos disser.

6Havia ali seis talhas de pedra, dispostas para a purificação dos Judeus, cada uma das quais levava duas ou três medidas. 7Diz-lhes Jesus: Enchei essas talhas de água. E eles encheram-nas até acima. 8Depois diz-lhes: Tirai agora e levai ao chefe de mesa. E eles levaram. 9O chefe de mesa, depois de provar a água convertida em vinho — ele não sabia donde era, sabiam-no os serventes que ti­nham tirado a água — chama o noivo 10e diz-lhe: Toda a gente serve primeiro o vinho bom e, quando tiverem bebido bem, serve então o inferior. Tu guardaste o vinho bom até agora!

11Foi assim que, em Cana da Galileia, Jesus deu início aos Seus milagres. Mani­festou a Sua glória, e acreditaram n’Ele os discípulos.

Comentário

1. Caná da Galileia parece que deve identificar-se com a actual Kef Kenna, situada a7 quilômetros a Noroeste de Nazaré.

Entre os convidados menciona-se em primeiro lugar Maria Santíssima. Não se cita São José, coisa que não se pode atribuir a um esquecimento de São João: este silêncio — e outros muitos no Evangelho — faz supor que o Santo Patriarca já tinha morrido.

As festas de casamento tinham longa duração no Oriente (Gen 29,27; Ide 14,10.12.17; Tob 9,12; 10,1). Durante elas, parentes e amigos iam acorrendo a felicitar os esposos; nos banquetes podiam participar até os transeuntes. O vinho era considerado elemento indispensável nas refeições e servia, além disso, para criar um ambiente festivo. As mulheres intervinham nas tarefas da casa; a Santíssima Virgem prestaria também a sua ajuda: por isso pôde dar-se conta de que ia faltar vinho.

2. «Para demonstrar a bondade de todos os estados de vida (…) Jesus dignou-Se nascer das entranhas puríssimas da Virgem Maria; recém-nascido recebeu o louvor que saiu dos lábios proféticos da viúva Ana e, convidado na Sua juventude pelos noivos, honrou as bodas com a presença do Seu poder» (São Beda, Hom. 13, para o 2.° Domingo depois da Epif.). Esta presença de Cristo nas bodas de Caná é sinal de que Jesus abençoa o amor entre homem e mulher, selado com o matrimônio. Deus, com efeito, instituiu p matrimônio no princípio da Criação (cfr Gen 1,27-28), e Jesus Cristo confirmou-o e elevou-o à dignidade de Sacramento (cfr Mt 19,6).

3. No quarto Evangelho a Mãe de Jesus — este é o título que lhe dá São João — aparece somente duas vezes. Uma neste episódio, a outra no Calvário (Ioh 19,25). Com isso vem insinuar-se a missão da Santíssima Virgem Maria na Reden­ção. Entre os dois acontecimentos, Caná e o Calvário, há várias analogias. Situam-se um no começo e o outro no fim da vida pública, como para indicar que toda a obra de Jesus está acompanhada pela presença de Maria Santíssima. O seu título de Mãe adquire ressonância especialíssima: Maria actua como verdadeira Mãe de Jesus nesses dois momentos em que o Senhor manifesta a Sua divindade. Ao mesmo tempo, ambos os episódios assinalam a especial solicitude de Maria Santíssima pelos homens: num caso intercede quando ainda não chegou « a hora »; no outro oferece ao Pai a morte redentora de seu Filho, e aceita a missão que Jesus lhe confere de ser Mãe de todos os crentes, representados no Calvário pelo discípulo amado.

«Na vida pública de Jesus, Sua mãe aparece duma maneira bem marcada logo no princípio, quando, nas bodas de Caná, movida de compaixão, levou Jesus Messias a dar início aos Seus milagres (cfr Ioh 2,1-11). Durante a pregação de Seu Filho, acolheu as palavras com que Ele, pondo o reino acima de todas as relações de parentesco, proclamou bem-aventurados todos os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática (cfr Mc 3,35 e par.; Lc 11,27-28); coisa que ela fazia fielmente (cfr Lc 2,19.51). Assim avançou a Virgem pelo caminho da fé, mantendo fielmente a união com seu Filho até à cruz. Junto desta esteve, não sem desígnio de Deus (cfr Ioh19,25), padecendo acerbamente com o seu Filho único, e associando-se com coração de mãe ao Seu sacrifício, consentindo com amor na imolação da vítima que d’Ela nascera; finalmente, Jesus Cristo, agonizante na cruz, deu-a por mãe ao discípulo, com estas palavras: ‘Mulher, eis aí o teu filho'(cfr Ioh19,26-27)» (Lúmen gentium, n. 58).

4. Para o significado das palavras deste versículo veja-se o dito na epígrafe dedicada a Maria Santíssima na Introdução ao Evangelho segundo São João (pp 1109-1113). Além disso, o relato evangélico do diálogo entre Jesus e Sua Mãe não nos revela todos os gestos, as inflexões da voz, etc., que deram o tom exacto às palavras. Ao nosso ouvido, por exemplo, a resposta de Jesus soa dura, como se dissesse «este é um assunto que não nos diz respeito». Na realidade não é assim.

«Mulier» que alguns traduzem para português por «Mu­lher»: é um título respeitoso, que era equivalente a «senhora», uma maneira de falar em tom solene. Este nome voltou a empregá-lo Jesus na Cruz, com grande afecto e veneração (Ioh 19, 26).

A frase «que Me desejas?» corresponde a uma maneira proverbial de falar no Oriente, que pode ser empregada com diversos matizes. A resposta de Jesus parece indicar que embora, em princípio, não pertencesse ao plano divino que Jesus interviesse com poder para resolver as dificuldades surgidas naquelas bodas, o pedido de Maria Santíssima O move a atender a essa necessidade. Também se pode pensar que nesse plano divino estava previsto que Jesus fizesse o milagre por intercessão de Sua Mãe. Em qualquer caso, foi Vontade de Deus que a Revelação do Novo Testamento nos deixasse este ensinamento capital: a Virgem Santíssima é tão poderosa na sua intercessão que Deus atenderá todos os pedidos por mediação de Maria. Por isso a piedade cristã, com precisão teológica, chamou a Nossa Senhora «omnipotência suplicante».

«Ainda não chegou a Minha hora»: O termo «hora» é utilizado por Jesus Cristo algumas vezes para designar o momento da Sua vinda gloriosa (cfr Ioh5,28), ainda que geralmente se refira ao tempo da Sua Paixão, Morte e Glorificação (cfr Ioh7,30; 12,23; 13,1; 17,1).

5. A Virgem Maria, como boa mãe, conhece perfeita­mente o valor da resposta de seu Filho, que para nós poderia resultar ambígua («que Me desejas»), e não duvida que Jesus fará algo para resolver o apuro daquela família. Por isso indica de modo tão directo aos serventes que façam o que Jesus lhes disser. Podemos considerar as palavras da Virgem como um convite permanente para cada um de nós: «Nisso consiste toda a santidade cristã: pois a perfeita santidade é obedecer a Cristo em todas as coisas» (Comentário sobre S. João, ad loc.).

Com esta mesma atitude rezava o Papa João Paulo II no santuário mariano de Knock, ao consagrar à Virgem o povo irlandês: «Neste momento solene escutamos com atenção particular as tuas palavras: ‘Fazei o que vos disser o meu Filho . E desejamos responder às tuas palavras com todo o coração. Queremos fazer o que nos diz o teu Filho e o que nos manda; pois tem palavras de vida eterna. Queremos cumprir e pôr em prática tudo o que vem d’Ele, tudo o que está contido na Boa Nova, como o fizeram os nossos antepassados durante séculos (…). Por isso hoje (…) confiamos e consa­gramos a Ti, Mãe de Cristo e Mãe da Igreja, o nosso coração, consciência e obras, a fim de que estejam em consonância com a fé que professamos. Confiamos e consagramos a Ti todos e cada um dos que constituem o povo irlandês e a comunidade do Povo de Deus que habita nestas terras» Homília Santuário de Knock).

6. A ‘medida’ ou ‘metreta’ correspondia a uns40 litros. A capacidade de cada uma destas talhas era, portanto, de80 a120 litros; no total 480-720 litros de vinho da melhor quali­dade. São João sublinha a abundância do dom concedido pelo milagre, como fará também a quando da multiplicação dos pães (Ioh 6,12-13). Um dos sinais da chegada do Messias era a abundância; por isso nela vê o Evangelista o cumprimento das antigas profecias: « O próprio Yahwéh dará a felicidade e a terra dará os seus frutos», anunciava o Salmo 85,13: «as eiras encher-se-ão de bom trigo, os lagares transbordarão de mosto e de azeite puro» (Ioel 2,24; cfr Am 9,13-15). Essa abundância de bens materiais é um símbolo dos dons sobre­naturais que Cristo nos obtém com a Redenção: mais adiante, São João porá em realce aquelas palavras do Senhor: « Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância» (Ioh 10,10; cfr Rom5,20).

7. «Até acima»: O Evangelista volta a sublinhar com este pormenor a superabundância dos bens da Redenção e, ao mesmo tempo, indica com quanta exactidão obedeceram os serventes, como insinuando a importância da docilidade no cumprimento da Vontade de Deus, mesmo nos pequenos por menores.

9-10. Jesus faz os milagres sem tacanhez, com magnani­midade; por exemplo, na multiplicação dos pães e dos peixes (cfr Ioh 6,10-13) sacia uns cinco mil homens e ainda sobram doze canastras. Neste milagre de Cana não converteu a água em qualquer vinho, mas num de excelente qualidade.

Os Santos Padres viram no Vinho de qualidade, reservado para o fim das bodas, e na sua abundância, uma figura do coroamento da História da Salvação: Deus tinha enviado os patriarcas e profetas, mas, ao chegar a plenitude dos tempos, enviou o Seu próprio Filho, cuja doutrina leva a Revelação antiga à perfeição, e cuja graça excede as esperanças dos justos do A. Testamento. Também viram neste vinho bom do fim das bodas o prêmio e a alegria da vida eterna, que Deus concede àqueles que, querendo seguir Cristo, sofreram as amarguras e contrariedades desta vida (cfr Comentário sobre S. João, ad loc.).

11. Antes do milagre os discípulos já criam que Jesus era o Messias; mas ainda tinham um conceito excessiva­mente terreno da Sua missão salvífica. São João testemunha aqui que este milagre foi o começo de uma nova dimensão da sua fé, que tornava mais profunda a que já tinham. O milagre de Cana constitui um passo decisivo na formação da fé dos discípulos. «Maria aparece como Virgem orante em Cana, onde, manifestando ao Filho com delicada súplica uma necessidade temporal, obtém também um efeito de graça: que Jesus, realizando o primeiro dos Seus ‘sinais’, confirme os discípulos na fé n’Ele» (Marialis cultus, n. 18).

«Por que terão tanta eficácia os pedidos de Maria diante de Deus? As orações dos santos são orações de servos, enquanto as de Maria são orações de Mãe, donde procede a sua eficácia e caracter de autoridade; e como Jesus ama imensa­mente Sua Mãe, não pode rogar sem ser atendida (…).

«Para conhecer bem a grande bondade de Maria recor­demos o que refere o Evangelho (…). Faltava o vinho, com o consequente apuro dos esposos. Ninguém pede à Santíssima Virgem que interceda diante do seu Filho em favor dos consternados esposos. Contudo, o coração de Maria, que não pode deixar de se compadecer dos infelizes (…), impeliu-a a encarregar-se por si mesma do ofício de intercessora e a pedir ao Filho o milagre, apesar de ninguém lho ter pedido (…). Se a Senhora agiu assim sem que lho tivessem pedido, que teria sido se lho tivessem pedido?» (Sermões abreviados, 48).

13.10.13 – Lc 17, 11-19

11Na Sua marcha para Jerusalém, ia passando entre a Samaria e a Galileia. 12Ao entrar em certa povoação, vieram-Lhe ao encontro dez leprosos, que, mantendo-se a distância, 13ergueram a voz, dizendo: Jesus, Mestre, tem piedade de nós. 14Este, ao vê-los, disse-lhes: Ide mostrar-vos aos sacerdotes. Enquanto iam a caminho, ficaram limpos. 15Um deles, vendo que se tinha curado, voltou, glorificando a Deus em alta voz, 16e caiu a Seus pés com a face em terra, agradecen­do-Lhe. E esse era samaritano. 17Jesus tomou a palavra e disse: Não ficaram limpos os dez? Então, onde estão os outros nove? 18Não se encontrou quem voltasse para dar glória a Deus, a não ser este estrangeiro? 19E disse-lhe a ele: Levanta-te e segue o teu caminho. Salvou-te a tua fé.

Comentário

11-19. O lugar onde se desenrola a cena explica que tivesse andado um samaritano junto com uns judeus. Havia uma antipatia mútua entre ambos os povos (cfr Ioh 4,9), mas a dor unia aqueles leprosos por cima dos ressentimentos de raça.

Segundo estava mandado na Lei de Moisés, os leprosos, precisamente para evitar o contágio, deviam viver longe do convívio com a gente, e dar mostras visíveis da sua doença (cfr Lev 13,45-46). Isto explica que não se aproximem de Jesus e daqueles que O acompanhavam, mas de longe expu­sessem o pedido aos gritos. O Senhor, antes de os curar, manda-lhes que vão aos sacerdotes para que certifiquem a sua cura (cfr Lev 14,2 ss.) e cumpram os ritos estabelecidos. A obediência dos leprosos ao mandato de ir aos sacerdotes supõe uma prova de fé nas palavras de Jesus. Efectivamente, pouco depois de se porem a caminho ficam limpos.

Contudo, só um deles, o samaritano que volta para trás louvando e agradecendo o milagre, recebe um dom ainda maior que a cura da lepra. Jesus, com efeito, diz-lhe: «Sal­vou-te a tua fé» (v. 19), e louva as manifestações de agradeci­mento deste homem. O Evangelho conservou-nos a cena para ensinamento nosso. «Habitua-te a elevar o coração a Deus em acção de graças, muitas vezes ao dia. — Porque te dá isto e aquilo. — Porque te desprezaram. — Porque não tens o que precisas, ou porque o tens.

«Porque fez tão formosa a Sua Mãe, que é também tua Mãe. — Porque criou o Sol e a Lua e este animal e aquela planta. — Porque fez aquele homem eloquente e a ti te fez difícil de palavra…

«Dá-Lhe graças por tudo, porque tudo é bom» (Caminho, n° 268).

14.10.13 – Lc 11, 29-32

29Como as multidões tivessem afluído em massa, começou a dizer: Esta geração é uma geração perversa: pede um sinal, mas não lhe será dado nenhum sinal, a não ser o sinal de Jonas. 30Pois, do mesmo modo que Jonas foi um sinal para os Ninivitas, assim o será também o Filho do homem para esta geração. 31A rainha do Sul há-de surgir na altura do Juízo com os homens desta geração e con­dená-los-á, porque veio dos confins da Terra para ouvir a sabedoria de Salomão, e está aqui algo mais do que Salomão. 32Os homens de Nínive hão-de ressuscitar na altura do Juízo com esta geração e hão-de condená-la, porque, à pregação de Jonas, fizeram peni­tência, e está aqui algo mais do que Jonas.

Comentário

29-32. Jonas foi o profeta que levou os ninivitas à penitência porque na sua pregação e nas suas obras, na sua pessoa e na sua vida, reconheceram o sinal de um enviado de Deus (cfr a nota a Mt 12,41-42).

15.10.13 – Lc 11, 37-41

37Enquanto falava, convidou-O um fariseu para almoçar consigo. 38Ele entrou e pôs-Se à mesa. O fariseu viu e admirou-se de que não Se tivesse lavado primeiro, antes do almoço. 39Disse-lhe o Senhor: Vós então, os Fariseus!… Vós limpais o exterior do copo e do prato, mas o vosso interior está cheio de rapina e malvadez. 40Insensatos! Não fez o interior Aquele que fez o exterior? 4lDai antes de esmola o que está dentro, e tudo para vós ficará limpo.

Comentário

39-52. Neste passo — um dos mais duros do Evangelho — Jesus Cristo desmascara de modo veemente o vício com que o judaísmo oficial mais se opôs à aceitação da Sua doutrina: a hipocrisia revestida de legalismo. Há pessoas que, sob a capa de bem, cumprindo a mera letra dos preceitos, não cumprem o seu espírito; não se abrem ao amor de Deus e do próximo; endurecem-se no seu coração e com aparência de honorabilidade afastam os homens do caminho de entrega fervorosa a Deus, tornando intolerável a virtude. Jesus Cristo desmascara-os com tanta veemência porque são piores que os inimigos manifestos; destes qualquer se pode defender; daqueles é pouco menos que impossível. De facto, os escribas e os fariseus estavam a impedir a passagem ao povo que queria seguir Jesus, constituindo-se no obstáculo mais malicioso ao Evangelho. As invectivas contra os escri­bas e os fariseus que São Lucas recolhe aqui encontram-se também no capítulo vinte e três de São Mateus, inclusivamente com maior amplitude. Cfr a nota a Mt 23,1-39.

40-41. O sentido deste texto não é fácil de captar. Provavelmente Nosso Senhor aproveita o jogo de palavras «o de fora» e «o de dentro», por ocasião da limpeza de copos e pratos, para dar um ensinamento acerca da importância primordial do interior do homem sobre as meras aparências, contra o erro comum dos fariseus e a tendência frequente de tantas pessoas. Assim, com estas palavras Jesus admoesta-nos dizendo que em vez de andar tão preocupados pelas coisas «de fora» nos devem preocupar sobretudo as «de dentro». Aplicado ao caso da esmola, o que importa é dar generosamente dos bens que guardamos de forma egoísta: isto é, não basta dar umas moedas, que é algo que pode ficar apenas na exterioridade, mas há que dar aos outros o amor, a compreensão, o convívio delicado, o respeito pela sua liberdade, a preocupação profunda pelo seu bem espiritual e material…, que são irrealizáveis sem disposições interiores de amor ao próximo.

O Papa João Paulo II explicava assim, numa alocução aos jovens, o significado genuíno da esmola: «Esmola, palavra grega, significa etimologicamente compaixão e misericórdia. Circunstâncias diversas e influxos de uma mentalidade restritiva alteraram e profanaram de certo modo o seu significado primigênio, reduzindo-o talvez a um acto sem espírito e sem amor. Mas a esmola, em si mesma, entende-se essencialmente como atitude do homem que adverte a necessidade dos outros, que quer tornar partici­pantes os outros do próprio bem. Quem diria que não haverá sempre outro que tenha necessidade de ajuda, antes de mais espiritual, de apoio, de consolação, de fraternidade, de amor? O mundo está sempre muito pobre de amor» (Alocução aos jovens, 28-11-1979).

16.10.13 – Lc 11, 42-46

42Mas ai de vós, Fari­seus, porque pagais o dízimo da hortelã, da arruda e de todas as plantas hortenses, e descurais a justiça e o amor de Deus. Estas são as coisas que devíeis praticar, sem omitir aquelas. 43Ai de vós, Fariseus, porque gostais do primeiro lugar nas sinagogas e dos cum­primentos nas praças. 44Ai de vós, porque sois como os túmulos dissimulados: os homens que lhes passam por cima não o sabem. 45Ora um dos Legislas tomou a palavra e disse-Lhe: Mestre, dizendo isso, também a nós nos insultas! 46Mas Ele respondeu: Ai de vós também, Legislas, porque carregais os homens com fardos difíceis de levar, e vós nem com um dedo lhes locais.

Comentário

42. Segundo a Lei de Moisés havia que pagar o dízimo das colheitas (cfr Lev 27, 30-33; Dt 12,22 ss.; etc.) para contribuir para a sustentação do culto no Templo. Os produtos insignificantes não estavam sujeitos a esta Lei. A arruda é uma planta amarga e medicinal que se usava antigamente entre os judeus. Discutia-se entre eles se a arruda devia entrar ou não no pagamento dos dízimos. Os fariseus, levados por uma extrema meticulosidade, ensi­navam que devia pagar-se.

44. Segundo a Antiga Lei quem tocasse uma sepultura ficava impuro durante sete dias (Num 19,16); não obstante, podia acontecer que com o decorrer do tempo, por causa da terra acumulada e da erva que a cobria, a sepultura ficasse imperceptível para quem passasse por cima. O Senhor toma esta comparação para desmascarar a hipocrisia dos Seus interlocutores: são cumpridores dos mais pequenos pormenores mas esquecem os deveres fundamentais, a justiça e o amor a Deus (v. 42). Limpos por fora e ao mesmo tempo com um coração cheio de malícia e podridão (v. 39), dissimulam para parecer justos e, como vivem das aparên­cias, preocupam-se por cultivá-las; sabem que a virtude é motivo de honra, e interessam-se por simulá-la (v. 43). Isto é, a sua vida caracteriza-se pela dissimulação e pelo dolo.

17.10.13 – Lc 11, 47-54

47Ai de vós, porque edificais os túmulos dos profetas, quando foram vossos pais que os mataram. 48Assim, dais testemunho e aprovação às obras de vossos pais, porque eles mata­ram-nos, e vós levantais-lhes monumentos. 49Por isso mesmo é que disse a Sabedoria de Deus: «Hei-de enviar-lhes profetas e após­tolos, a alguns dos quais hão-de matar e perseguir, 50para se pedirem contas a esta geração do sangue de todos os profetas, derramado a partir da constituição do mundo, 51desde o sangue de Abel até ao sangue de Zacarias, que pereceu entre o altar e o San­tuário». Sim, vos digo Eu, serão pedidas contas a esta geração! 52Ai de vós, Legistas, porque tirastes a chave da ciência: vós pró­prios não entrastes e impedistes os que pre­tendiam entrar.

53Quando Ele saiu dali, começaram os Escribas e os Fariseus a provocá-Lo furiosa­mente e a faze-Lo falar sobre muitas coisas, 54armando-Lhe ciladas para apanharem alguma coisa da Sua boca.

Comentário

51. Zacarias foi um profeta que morreu apedrejado no Templo de Jerusalém pelo ano 800 a.C., por atirar à cara ao povo de Israel a sua infidelidade aos preceitos divinos (cfr 2Chr 24,20-22). O assassinato de Abel (Gen 4,8) e o de Zacarias eram, respectivamente, o primeiro e último dos narrados no conjunto dos Livros que os judeus reconheciam como sagrados. Jesus alude a uma tradição judaica segundo a qual, ainda no Seu tempo e mesmo depois, se mostrava ali a mancha de sangue de Zacarias.

O altar a que se refere o texto era o dos holocaustos, situado ao ar livre no átrio dos sacerdotes, diante da edificação que propriamente constituía o Templo.

52. Jesus faz-lhes uma grave repreensão: aqueles dou­tores da Lei, precisamente pelo estudo e meditação da Escritura, deveriam ter reconhecido Jesus como o Messias, visto que assim estava profetizado nos livros sagrados. Não obstante, a história evangélica mostra-nos que sucedeu precisamente o contrário. Não só não aceitaram Jesus, mas opuseram-se-Lhe obstinadamente. Eles, como mestres da Lei. deviam de ter ensinado o povo a seguir Jesus; pelo contrário, impediram-lho.

53-54. São Lucas recordará frequentemente esta ati­tude dos inimigos do Senhor (cfr 6,11; 19,47-48; 20,19-20; 22,2). O povo seguia Jesus e entusiasmava-se com a Sua pregação e com as Suas obras, enquanto os fariseus e os escribas não aceitaram o Senhor, e não toleravam que a multidão aderisse a Ele: intentavam por todos os meios desacreditá-Lo diante do povo (cfr Ioh 11,48).

18.10.13 – Lc 10, 1-9

Depois disto, designou o Senhor outros setenta e dois e mandou-os dois a dois, à Sua frente, a todas as cidades e lugares aonde Ele havia de ir. 2Dizia-lhes Ele: A messe é grande, mas os trabalha­dores são poucos. Pedi, portanto, ao dono da messe que mande trabalhadores para a sua messe. 3Ide e olhai que vos envio como cordeiros para o meio de lobos. 4Não leveis bolsa, nem saco, nem sandálias. Não cumpri­menteis ninguém pelo caminho. 5Em qual quer casa onde entrardes, dizei primeiro: «Paz a esta casa». 6E, se lá houver um homem de paz, sobre ele irá repousar a vossa paz. Senão, a vós há-de voltar. ‘Ficai nessa mesma casa, comendo e bebendo do que tiverem, pois o trabalhador merece o seu salário. Não andeis de casa em casa. 8Em qualquer cidade onde entrardes e vos receberem, comei o que vos servirem, 9curai os enfermos que nela houver e dizei-lhes: «Está perto de vós o Reino de Deus».

Comentário

1-12. Entre os que seguiam o Senhor e tinham sido chamados por Ele (cfr Lc 9,57-62), além dos Doze, havia numerosos discípulos (cfr Mc 2,15). Os nomes da maioria são para nós desconhecidos; não obstante, entre eles contavam-se com, toda a segurança aqueles que estiveram com Jesus desde o baptismo de João até à Ascensão do Senhor: por exemplo, José chamado Barsabas e Matias (cfr Act 1,21-26). De modo semelhante podemos incluir Cléofas e o seu companheiro, aos quais Cristo ressuscitado apareceu no caminho de Emaús (cfr Lc 24,13-35).

De entre todos aqueles discípulos, o Senhor escolhe setenta e dois para uma missão concreta. Exige-lhes, tal como aos Apóstolos (cfr Lc 9,1-5). desprendimento total e abandono completo à Providência divina.

Desde o Baptismo cada cristão é chamada por Cristo a cumprir uma missão. Com efeito, a Igreja, em nome do Senhor «pede instantemente a todos os leigos que respondam com decisão de vontade, ânimo generoso e disponibilidade de coração à voz de Cristo, que nesta hora os convida com maior insistência, e ao impulso do Espírito Santo. Os mais. novos tomem como dirigido a si de modo particular este chamamento, e recebam-no com alegria e magnanimidade. Com efeito, é o próprio Senhor que, por meio deste sagrado Concilio, mais uma vez convida todos os leigos a que se unam a Ele cada vez mais intimamente, e sentindo como próprio o que é d’Ele (cfr Phil 2,5), se associem à Sua missão salvadora. É Ele quem de novo os envia a todas as cidades e lugares aonde há-de chegar (cfr Lc 10,1); para que, nas diversas formas e modalidades do apostolado único da Igreja, se tornem verdadeiros cooperadores de Cristo, traba­lhando sempre na obra do Senhor com plena consciência de que o seu trabalho não é vão no Senhor (cfr 1Cor 15, 28)» (Apostolicam actuositatem, n. 33).

3-4. Cristo quer inculcar nos Seus discípulos a audácia apostólica; por isso diz «Eu vos envio», que São João Crisóstomo comenta: «Isto basta para vos dar ânimo, isto basta para que tenhais confiança e não temais os que vos atacam» (Hom. sobre S. Mateus, 33). A audácia dos Apóstolos e dos discípulos vinha desta confiança segura de terem sido enviados pelo próprio Deus: actuavam, como explicou com firmeza o próprio Pedro ao Sinédrio, em nome de Jesus Cristo Nazareno, «pois não foi dado aos homens outro nome debaixo do céu pelo qual podemos salvar-nos» (Act 4,12).

« E continua o Senhor — acrescenta São Gregório Magno — ‘Não leveis bolsa nem saco nem sandálias, e não cumpri­menteis ninguém pelo caminho’. Tanta deve ser a confiança que há-de ter em Deus o pregador, que ainda que não se proveja das coisas necessárias para a vida, deve estar persuadido de que não lhe hão-de faltar, não seja que enquanto se ocupa em prover-se das coisas temporais, deixe de procurar para os outros as eternas» (In Evangelia homiliae, 17). O apostolado exige uma entrega generosa que leva ao desprendimento: por isso, Pedro, o primeiro a pôr em prática o mandamento do Senhor, quando o mendigo da Porta Formosa lhe pediu uma esmola (Act 3,2-3), disse1: « Não tenho ouro nem prata» (Ibid., 3,6), «não tanto para se gloriar da sua pobreza — assinala Santo Ambrósio — como da sua obediência ao mandamento do Senhor, como dizendo: vês em mim um discípulo de Cristo, e pedes-me ouro? Ele deu-nos algo muito mais valioso que o ouro, o poder de agir em Seu nome. Não tenho o que Cristo não me deu, mas tenho o que me deu: ‘Em nome de Jesus, levanta-te e anda’ (Act 3,6)» (Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc.). O apostolado exige, portanto, desprendimento dos bens materiais; e também exige estar sempre dispostos, porque a tarefa apostólica é urgente.

«Não cumprimenteis ninguém pelo caminho»: «Como pode ser — pergunta-se Santo Ambrósio — que o Senhor queira eliminar um costume tão cheio de humanidade? Considera, porém, que não diz apenas ‘não cumprimenteis ninguém’, mas que acrescenta ‘pelo caminho’. E isto não é supérfluo.

«Também Eliseu, quando enviou o seu servo a impor o seu bastão sobre o corpo do menino morto, lhe mandou que não cumprimentasse ninguém pelo caminho (2Reg 4,29): deu-lhe ordem de se apressar para cumprir com rapidez a tarefa e realizar a ressurreição, não acontecesse que, por se entreter a falar com algum transeunte, atrasasse o seu encargo. Aqui não se trata então de evitar a urbanidade de cumprimentar, mas de eliminar um possível obstáculo ao serviço; quando Deus manda, o humano deve ser deixado a um lado, pelo menos por algum tempo. Cumprimentar é uma coisa boa, mas melhor é executar quanto antes uma ordem divina que ficaria muitas vezes frustrada por um atraso» (Ibid.).

6. «Homem de paz » é todo o homem que está disposto a receber a doutrina do Evangelho, que traz a paz de Deus. A recomendação do Senhor aos discípulos de que anunciem a paz há-de ser uma constante em toda a acção apostólica dos cristãos: «O apostolado cristão não é um programa político, nem uma alternativa cultural; significa a difusão do bem, o contágio do desejo de amar, uma sementeira concreta de paz e de alegria» (Cristo que passa, n° 124).

O sentir a paz na nossa alma e à nossa volta é sinal inequívoco de que Deus vem a nós, e um fruto do Espírito Santo (cfr Gal 5,22): «Repele esses escrúpulos que te tiram a paz. — Não é de Deus o que rouba a paz da alma.

«Quando Deus te visitar, hás-de sentir a verdade daquelas saudações: dou-vos a paz…, deixo-vos a paz…, a paz seja convosco… E isto, no meio da tribulação» (Caminho, n° 258).

7. Está claro que o Senhor considera que a pobreza e o desprendimento dos bens materiais há-de ser uma das prin­cipais características do apóstolo (vv. 3-4). Não obstante, consciente das necessidades materiais dos Seus discípulos, deixa assente o princípio de que o ministério apostólico merece a sua retribuição. Por isso o Concilio Vaticano II recorda a obrigação que todos temos de contribuir para a sustentação dos que generosamente se entregam ao serviço da Igreja: «Entregues ao serviço de Deus, pelo desempenho do cargo que lhes foi confiado, os presbíteros são merecedores da justa recompensa, visto que o operário é digno do seu salário (Lc 10,7) e o Senhor ordenou àqueles que anunciam o Evangelho, que vivam do Evangelho (1Cor 9,14). Por isso, onde não se tiver providenciado de outra maneira à justa remuneração dos presbíteros, os mesmos fiéis, em cujo benefício eles trabalham, têm verdadeira obrigação de procurar os meios necessários para que levem uma vida digna e honesta» (Presbyterorum ordinis, n. 20).

19.10.13 – Lc 12, 8-12

8Eu vos digo: Todo aquele que se tiver declarado por Mim diante dos homens, também o Filho do homem Se há-de declarar por ele diante dos Anjos de Deus. 9Mas quem Me tiver negado diante dos homens será negado diante dos Anjos de Deus.

10E a todo aquele que disser uma palavra contra o Filho do homem perdoar-se-á; mas não se perdoará a quem tiver blasfemado contra o Espírito Santo.

11Quando vos levarem às sinagogas, aos magistrados e às autoridades, não vos dê preocupação como ou com que haveis de defender-vos, ou o que haveis de dizer, 12pois o Espírito Santo vos ensinará nessa hora o que deveis dizer.

Comentário

8-9. Conclusão lógica do ensinamento anterior de Cristo: O pior que os males corporais, incluída a morte, são os males da alma — isto é, o pecado —. Aqueles que por medo aos sofrimentos temporais negam o Senhor e não são fiéis às exigências da fé cairão noutro mal muito pior: serão negados pelo próprio Cristo no dia do juízo. Pelo contrário, aqueles que sofram por fidelidade a Cristo penas nesta vida rece­berão o prêmio eterno de ser reconhecidos por Ele, e serão participantes da Sua glória.

10. A blasfêmia contra o Espírito Santo consiste em atribuir maliciosamente ao demônio as acções sobrena­turais. O homem que adopta tal disposição impede que lhe chegue o perdão de Deus e, por isto, não pode ser perdoado (cfr Mt 12,31; Mc 3,28-30). Jesus compreende e desculpa a fraqueza do homem que erra, mas, pelo contrário, não tem essa atitude indulgente com aquele que fecha os olhos e o coração às obras admiráveis do Espírito; assim agiam os fariseus que acusavam Jesus de expulsar os demônios em nome de Beelzebu; assim actua o incrédulo que nega a manifestação da bondade divina na obra de Cristo; ao negá-la, rejeita o convite que Deus lhe faz e situa-se fora da Salvação (cfr Heb 6,4-6; 10,26-31). Veja-se a nota a Mc 3,28-30.

20.10.13 – Lc 18, 1-8

Expôs-lhes então uma parábola sobre a necessidade de eles orarem sempre sem desfalecer: Em certa cidade — disse Ele — havia um juiz que não temia a Deus nem respeitava os homens. 3Ora, naquela cidade, existia uma viúva, que ia ter com ele e lhe dizia: «Faz-me justiça contra o meu adversário». 4Por algum tempo, ele não quis; mas, depois, disse consigo: «Se bem que não temo a Deus nem respeito os homens, ‘con­tudo, já que esta viúva me incomoda, vou fazer-lhe justiça, para que não venha moer-me até ao fim!». 6E o Senhor acrescentou: Es­cutai o que diz o juiz iníquo!… 7E Deus não havia de fazer justiça aos Seus eleitos, que a Ele clamam dia e noite, e iria ter demoras com eles? 8Eu digo-vos que lhes fará justiça bem depressa. Mas o Filho do homem, quando voltar, achará acaso a fé sobre a Terra?!

Comentário

1-8. A parábola do juiz injusto é um ensinamento muito expressivo acerca da eficácia da oração perse­verante e firme. Por sua vez constitui a conclusão da dou­trina sobre a vigilância, exposta nos versículos anteriores (17,23-26). O facto de comparar o Senhor com uma pessoa como esta, põe em relevo o contraste entre ambos: se até um juiz injusto acaba por fazer justiça àquele que insiste com perseverança, quanto mais Deus, infinitamente justo e nosso Pai, escutará as orações perseverantes dos Seus filhos. Deus, com efeito, fará justiça aos Seus escolhidos que clamam por Ele sem cessar.

1. «É preciso orar em todo o tempo e não desfalecer. Por que devemos orar?

1) Devemos orar antes de mais, porque somos crentes. Com efeito, a oração é o reconhecimento dos nossos limites e da nossa dependência: vimos de Deus, somos de Deus e retornamos a Deus. Portanto, não podemos deixar de nos abandonarmos n’Ele, nosso Criador e Senhor, com plena e total confiança (…). A oração é, antes de mais, um acto de inteligência, um sentimento de humildade e de reconhecimento, uma atitude de confiança e de abandono n’Aquele que nos deu a vida por amor. A oração é um diálogo misterioso, mas real, com Deus, um diálogo de confiança e de amor.

«2) Mas nós somos cristãos, e por isto devemos orar como cristãos. Efectivamente, a oração para o cristão adquire uma característica particular que muda totalmente a sua natu­reza íntima e o seu valor íntimo. O cristão é discípulo de Jesus; é o que crê verdadeiramente que Jesus é o Verbo encarnado; o Filho de Deus vindo entre nós a esta terra.

«Como homem, a vida de Jesus foi uma oração contínua, um acto contínuo de adoração e de amor ao Pai, e porque a expressão máxima da oração é o sacrifício, o apogeu da oração de Jesus é o sacrifício da cruz, antecipado com a Eucaristia na Última Ceia e transmitido a todos os séculos com a Santa Missa.

«Por isto o cristão sabe que a sua oração é Jesus; toda a sua oração parte de Jesus; é Ele quem ora em nós, connosco e por nós. Todos os que creem em Deus, oram; mas o cristão ora em Jesus Cristo: Cristo é a nossa oração! (…).

«3) Finalmente, devemos orar também porque somos frá­geis e culpáveis. É preciso reconhecer humilde e realmente que somos pobres criaturas, com ideias confusas (…), frágeis e débeis, com necessidade contínua de força interior e de consolação. A oração dá força para os grandes ideais, para manter a fé, a caridade, a pureza, a generosidade; a oração dá ânimo para sair da indiferença e da culpa, se por desgraça se cedeu à tentação e à debilidade; a oração dá luz para ver e julgar os acontecimentos da própria vida e da própria his­tória na perspectiva salvífica de Deus e da eternidade. Por isto, não deixeis de orar! Não passe um dia sem que tenhais orado um pouco! A oração é um dever, mas também é uma grande alegria, porque é um diálogo com Deus por meio de Jesus Cristo! Cada domingo a Santa Missa e, se vos é possível, alguma vez também durante a semana; cada dia as orações da manhã e da noite e nos momentos mais oportunos!» (João Paulo II, Audiência com os jovens, 14-11-1979).

8. O ensinamento de Jesus sobre a perseverança na oração une-se com a severa advertência de que é preciso manter-se fiéis na fé; fé e oração vão intimamente unidas: «Creiamos para orar — comenta Santo Agostinho —; e para que não dês faleça a fé com que oramos, oremos. A fé faz brotar a oração, e a oração, enquanto brota, alcança a firmeza da fé» (Sermo 115).

O Senhor anunciou a Sua assistência à Igreja para que possa cumprir indefectivelmente a sua missão até ao fim dos tempos (cfr Mt 28,20); a Igreja, portanto, não pode desviar-se da verdadeira fé. Porém, nem todos os homens perseverarão fiéis, mas alguns afastar-se-ão voluntariamente da fé. É o grande mistério que São Paulo chama de iniquidade e de apostasia (2Thes 2,3), e que o próprio Jesus Cristo anuncia noutros lugares (cfr Mt 24,12-13). Deste modo o Senhor previne-nos para que, ainda que à nossa volta haja quem desfaleça, nos mantenhamos vigilantes e perseverando na fé e na oração.

21.10.13 – Lc 12, 13-21

13Disse-Lhe alguém do meio da multidão: Mestre, diz a meu irmão que reparta comigo a herança. 14Mas Ele respondeu-lhe: Homem, quem Me constituiu juiz ou repartidor entre vós? 15Depois, disse-lhes: Olhai bem e guardai-vos de toda a cobiça, pois não é por alguém ter em abundância que a vida lhe depende dos seus bens. 16E referiu-lhes esta parábola: Teve bom rendimento a fazenda de certo rico. 17Ele pôs-se a discorrer, dizendo consigo: «Que hei-de fazer, pois não tenho onde guardar a minha colheita?» 18Disse então: «Eis o que hei-de fazer: vou deitar abaixo os meus celeiros, para construir uns maiores, e lá guardarei todo o meu trigo e os meus bens. l9Depois, direi à minha alma: O alma, tens muitos bens em depósito para largos anos; descansa, come, bebe, regala-te». 20Deus, porém, disse-lhe: «Insensato! Esta noite, hão-de reclamar-te a tua alma; e o que preparaste para quem será?» 21Assim é o que entesoira para si e não é rico em relação a Deus.

Comentário

13-14. Aquele homem só está interessado nos seus próprios problemas; só vê em Jesus um mestre de reconhe­cida autoridade e prestígio para resolver o seu caso (cfr Dt 21,17). O personagem pode muito bem representar aqueles que recorrem à autoridade religiosa não para pedir ; uma orientação na sua vida espiritual mas para resolver os assuntos materiais. Jesus, decididamente, desinteressa-Se de semelhante petição. E não é por insensibilidade diante de uma situação de possível injustiça familiar, mas porque intervir em tais assuntos não é próprio da Sua missão reden­tora. O Mestre ensina-nos, com a Sua actuação e com as Suas palavras, que a Sua obra salvífica não se dirige a resolver os muitos conflitos familiares e sociais que se dão entre os homens; Jesus veio dar os princípios e os critérios morais que deverão informar a justa acção dos homens nos assuntos temporais, mas não resolvê-los tecnicamente; para isto dotou-nos de inteligência e de liberdade.

15-21. Depois da sentença do v.15 Jesus expõe a parábola do rico insensato: que loucura é pôr a confiança na acumulação de bens materiais para assegurar a vida cá de baixo, enquanto se esquecem os bens do espírito, que são os que nos asseguram, de verdade e para sempre, pela misericórdia divina, a vida eterna!

Assim explicava Santo Atanásio estas palavras do Senhor: «Quem vive como se tivesse de morrer cada dia — visto que é incerta a nossa vida por natureza — não pecará, já que o bom temor extingue grande parte da desordem dos apetites; pelo contrário, quem julga que vai ter uma vida longa, facilmente se deixa dominar pelos prazeres» (Contra Antígono).

19. A insensatez deste homem consiste em que consi­derou a posse de bens materiais como o único fim da sua existência e a garantia da sua segurança. É legítima a aspiração do homem a possuir o necessário para a sua vida e o seu desenvolvimento, mas ter como bem absoluto a posse de bens materiais acaba por destruir o homem e a sociedade. «Tanto para os povos como para as pessoas, possuir mais não é o fim último. Qualquer crescimento é ambivalente. Embora necessário para permitir ao homem ser mais homem, torna-o contudo prisioneiro no momento em que se transforma no bem supremo que impede de ver mais além. Então os corações endurecem e os espíritos fecham-se, os homens já não se reúnem pela amizade, mas pelo interesse, que bem depressa os opõe e os desune. A busca exclusiva do ‘ter’ forma, então, um obstáculo ao crescimento do ‘ser’ e opõe-se à sua verdadeira grandeza: tanto para as nações como para as pessoas, a avareza é a forma mais evidente do subdesenvolvimento moral» (Populorum progressio, n. 19).

22.10.13 – Lc 12, 35-38

35Estejam cingidos os vossos rins e a arder as vossas lâmpadas. 36E vós, sede como os homens que esperam o seu senhor, ao voltar do noivado, para, quando vier e bater, lhe abrirem logo a porta. “Felizes daqueles servos que o senhor, quando vier, encontrar vigi­lantes. Em verdade vos digo que se há-de cingir e mandar que se ponham à mesa e, passando diante deles, servi-los-á. 38E felizes deles, se, vindo na segunda ou na terceira vigília, assim os encontrar.

Comentário

35-39. A exortação a estar vigilantes repete-se com frequência na pregação de Cristo e na dos Apóstolos (cfr Mt 24,42; 25,13; Mc 14,34). Por um lado, porque o inimigo está sempre à espreita (cfr 1Pet 5,8), e, por outro, porque quem ama nunca dorme (cfr Cant 5,2). Manifestações concretas dessa vigilância são o espírito de oração (cfr Lc 21,36; 1Pet 4,7) e a fortaleza na fé (cfr 1Cor 16,13). Cfr. a nota a Mt. 25, 1-13).

35. As vestes amplas que usavam os judeus cingiam-se à cinta para poder realizar determinados trabalhos. «Ter as roupas cingidas» é uma imagem clara para indicar que alguém se prepara para o trabalho, a luta, as viagens, etc. (cfr ler 1,17; Eph 6,14; 1Pet 1,13). Do mesmo modo, «ter as lâmpadas acesas» indica a atitude própria do que vigia e espera a vinda de alguém.

23.10.13 – Lc 12, 39-48

39Ficai sabendo isto: Se o dono da casa tivesse sabido a que hora viria o ladrão, não teria deixado arrom­bar a casa. 40Preparai-vos vós, também, porque na hora em que menos pensais é que vem o Filho do homem.

41Disse-Lhe Pedro: Senhor, é para nós que dizes essa parábola, ou para todos? Res­pondeu o Senhor: Quem será então o admi­nistrador fiel e prudente que o senhor porá à frente do seu pessoal, para dar, a seu tempo, a ração alimentar? 43Feliz daquele servo a quem o senhor, quando vier, assim achar fazendo. ‘”Digo-vos, na verdade, que o porá à frente de todos os seus bens. 45Mas, se aquele servo disser de si para consigo: «tarda em vir o meu senhor», e começar a bater em criados e criadas, a comer, a beber e a embriagar-se, 46o senhor daquele servo che­gará em dia que não espera e a hora que não sabe; então pô-lo-á de parte e fá-lo-á par­tilhar a sorte dos infiéis.47Aquele servo que, sabendo o que o senhor queria, o não tiver preparado ou não tiver cumprido a vontade dele, levará muitas vergastadas. 48Aquele, porém, que não tiver sabido, mas tiver feito coisas que mereçam vergastadas, levará algumas. A todo aquele a quem muito foi dado muito será exigido, e àquele a quem muito se entregou mais se pedirá.

Comentário

40. Deus quis ocultar o momento da morte de cada um e do fim do mundo. Imediatamente depois da morte, todo o homem comparece para o juízo particular: «Assim, está estabelecido que os homens morram uma só vez; e depois disto, o juízo» (Heb 9,27). Do mesmo modo, no fim do mundo terá lugar o juízo universal.

41-48. Depois da exortação do Senhor à vigilância, Pedro faz uma pergunta (v.41) cuja resposta é a chave para compreender esta parábola. Por um lado, Jesus insiste no imprevisível do momento em que Deus nos há-de chamar para dar contas; por outro, precisamente como resposta à pergunta de Pedro, Nosso Senhor explica que o seu ensina­mento se dirige a todos. Deus pedirá contas a cada um segundo as suas circunstâncias pessoais: todo o homem tem nesta vida uma missão para cumprir; dela teremos de responder diante do tribunal divino e seremos julgados segundo os frutos, abundantes ou escassos, que tenhamos dado.

«Mas, como não sabemos o dia nem a hora, é preciso que, segundo a recomendação do Senhor, vigiemos conti­nuamente, a fim de que no termo da nossa vida sobre a terra, que é só uma (cfr Heb 9,27), mereçamos entrar com Ele para o banquete de núpcias e ser contados entre os eleitos (cfr Mt 25,31-46), e não sejamos lançados, como servos maus e preguiçosos (cfr Mt 25,26), no fogo eterno (cfr Mt 25,41)» (Lumen gentium, n. 48).

24.10.13 – Lc 12, 49-53

49Eu vim lançar fogo sobre a Terra, e que quero Eu senão que ele já se tenha ateado? 50Tenho um baptismo para receber e que angústias não sinto até que ele se realize! 51Julgais que Eu vim estabelecer a paz na Terra? Não, vos digo Eu, foi antes a divisão. 52Haverá, efectivamente, a partir de agora, cinco divididos numa só casa: três contra dois, e dois contra três; 53dividir-se-ão o pai contra o filho e o filho contra o pai, a mãe contra a filha e a filha contra a mãe, a sogra contra a nora e a nora contra a sogra.

Comentário

49-50. O fogo exprime frequentemente na Bíblia o amor ardente de Deus pelos homens (cfr Dt 4,24; Ex 13,22; etc.). No Filho de Deus feito homem alcança esse amor divino a sua máxima expressão: «De tal maneira amou Deus o mundo que lhe entregou o Seu Filho Unigênito» (Ioh 3,16). Jesus entrega voluntariamente a Sua vida por amor de nós, e «ninguém tem maior amor que o de dar a vida pelos seus amigos» (Ioh 15,13).

Com as palavras que nos transmite São Lucas, Jesus Cristo revela as ânsias irreprimíveis de dar a Sua vida por amor. Chama Baptismo à Sua morte, porque dela vai sair ressuscitado e vitorioso para nunca mais morrer. O nosso Baptismo é um submergir-nos nessa morte de Cristo, na qual morremos para o pecado e renascemos para a nova vida da graça: «Pois fomos sepultados juntamente com Ele por meio do Baptismo em ordem à morte, para que, assim como Cristo ressuscitou de entre os mortos pela glória do Pai, assim também nós caminhemos numa vida nova» (Rom 6,4).

Nós, os cristãos, devemos ser, com essa nova vida, fogo que acende como Jesus acendeu os Seus discípulos: «Com a maravilhosa normalidade do divino, a alma contemplativa derrama-se em afã apostólico: ardia-me o coração dentro do peito, ateava-se o fogo na minha meditação (Ps XXXVIII,4). Que fogo é esse senão aquele de que fala Cristo: Vim trazer fogo à Terra: e que quero eu, senão que se acenda? (Lc XII,49). Fogo de apostolado que se robustece na oração: não há meio melhor do que este para desenvolver através de todo o mundo essa batalha pacífica em que cada cristão está chamado a participar: cumprir o que falta padecer a Cristo (cfr Col 1,24)» (Cristo que passa, n° 120).

51-53. Deus veio ao mundo com uma mensagem de paz (cfr Lc 2,14), de reconciliação (cfr Rom 5,11). Mas, ao resis­tirmos pelo nosso pecado à obra redentora de Cristo, opomo-nos a Ele. A injustiça e o erro provocam a divisão e a guerra. «Na medida em que os homens são pecadores, o perigo da guerra ameaça-os e continuará a ameaçá-los até à vinda de Cristo; mas na medida em que, unidos em cari­dade, superam o pecado, superadas ficam também as lutas» (Gaudium et spes, n. 78).

Na Sua própria vida na terra, Cristo foi sinal de contra­dição (cfr Lc 2,34). O Senhor previne os discípulos das lutas e divisões que acompanharão a difusão do Evangelho (cfr Lc 6,20-23; Mt 10,34).

25.10.13 – Lc 12, 54-59

54Dizia também às multidões: Quando vedes uma nuvem levantar-se no Poente, dizeis logo: «vem lá chuva», e assim sucede. 55E quando é o vento Sul a soprar, dizeis: «vai haver muito calor», e há. 56Hipócritas! O cariz da terra e do céu sabeis vós interpre­tá-lo, e este tempo, como é que o não inter­pretais? “Porque não discernis também, por vós mesmos, o que é justo?

58Por isso, quando fores com o teu adver­sário ao magistrado, dá-te ao cuidado, no caminho, de te veres livre dele, não vá ele arrastar-te ao juiz, o juiz entregar-te ao oficial de justiça, e o oficial de justiça meter-te na prisão. 59Eu to digo: De lá não sairás enquanto não pagares até ao último tostão.

Comentário

56. Os que escutavam Jesus sabiam por experiência predizer o tempo. Todavia, conhecendo os sinais anuncia­dos pelos profetas sobre a vinda do Messias, escutando agora os Seus ensinamentos e vendo os Seus milagres, não querem reconhecê-los nem tirar as consequências; falta-lhes boa vontade e rectidão de intenção e fecham voluntaria­mente os olhos à luz do Evangelho (cfr Rom 1,18 ss.).

Essa posição não foi exclusiva de muitos dos contempo­râneos de Jesus Cristo, volta-se a produzir de modo muito especial nos nossos dias, revestindo algumas das formas do ateísmo reprovadas pelo Concilio Vaticano II: «Sem dúvida que não estão imunes de culpa todos aqueles que procuram voluntariamente expulsar Deus do seu coração e evitar os problemas religiosos, não seguindo o ditame da própria consciência» (Gaudium et spes, n. 19).

26.10.13 – Lc 13, 1-9

Nessa ocasião, apareceram alguns a Necessidade dar-Lhe a notícia dos Galileus, cujo da conversão sangue Pilatos havia misturado com o dos sacrifícios deles. 2Disse-lhes Ele, em resposta: Julgais que esses Galileus, por terem sofrido tal pena, eram mais pecadores que todos os outros Galileus? 3Não, digo- vos Eu; mas, se vos não arrependerdes, perecereis todos igualmente. 4E aqueles dezoito sobre os quais caiu a torre em Siloá e os matou! Julgais que eles eram mais culpados que todos os outros habitantes de Jerusalém? 5Não, digo- vos Eu; mas, se vos não arrependerdes, perecereis todos de maneira semelhante.

6Expôs-lhes então a seguinte parábola: Certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha e foi buscar a fruta que nela houvesse, mas não a encontrou. 7Disse então ao vinhateiro: «Há já três anos que venho buscar a fruta que haja nesta figueira e não a encontro. Corta-a. Para que está ela a tornar a terra inútil?» 8Mas este diz-lhe, em res­posta: «Senhor, deixa-a mais este ano, que eu, entretanto, vou cavar-lhe em volta e dei­tar-lhe estrume; 9talvez venha a dar fruto no futuro! Senão, mandá-la-ás cortar».

Comentário

1-5. O Senhor servia-Se dos acontecimentos com actualidade para dar doutrina às multidões. O caso dos galileus poderia ser o mesmo episódio a que alude o livro dos Actos (Act 5,37), e reflecte o ambiente do tempo de Jesus, em que Pilatos reprimia com dureza cruel qualquer tentativa de revolta política. A propósito do acidente de Siloé não temos mais notícias que as que nos dá aqui o Evangelho.

O facto de aquelas pessoas padecerem tais desgraças não se devia a que fossem piores que os outros, porque Deus nem sempre castiga nesta vida os pecadores (cfr Ioh 9,3). Todos somos pecadores e merecemos um castigo pior que o das desgraças terrenas: o castigo eterno; mas Cristo, veio reparar pelos nossos pecados e abriu-nos as portas do Céu. Nós temos de nos arrepender dos nossos pecados porque só assim Deus nos livrará do castigo merecido. «Quando vier o sofrimento, o desprezo…, a Cruz, considera: que é isto, para o que eu mereço?» (Caminho, n° 690).

3. «Ele diz-nos que, sem o santo Baptismo, ninguém entrará no Reino dos Céus (cfr Ioh 3,5); e noutro lugar, que se não fizermos penitência todos pereceremos (Lc 13,3). Tudo se compreende facilmente. Desde que o homem pecou, todos os seus sentidos se rebelaram contra a razão; por conseguinte, se quisermos que a carne esteja submetida ao espírito e à razão, é necessário mortificá-la; se quisermos que o corpo não faça a guerra à alma, é preciso castigá-lo a ele e a todos os sentidos; se quisermos ir a Deus, é neces­sário mortificar a alma com todas as suas potências» (Sermões escolhidos, Quarta Feira de Cinzas).

6-9. O Senhor insiste na necessidade de produzir frutos abundantes (cfr Lc 8,11-15) correspondendo às graças rece­bidas (cfr Lc 12,48). Junto a este imperativo profundo, Jesus Cristo põe em relevo a paciência de Deus na espera desses frutos. Ele não quer a morte do pecador, mas que se converta e viva (Ez 33,11) e, como ensina São Pedro, «usa de paciência convosco, não querendo que alguns pereçam mas que todos cheguem à conversão» (2Pet 3,9). Esta clemência divina, porém, não nos pode levar a descuidar os nossos deveres, adoptando uma posição de preguiça e de comodidade que tornaria estéril a própria vida. Deus ainda que seja misericordioso também é justo, e castigará as faltas de correspondência à Sua graça.

«Há um caso que nos deve doer sobremaneira: o daque­les cristãos que podiam dar mais e não se decidem; que podiam entregar-se totalmente vivendo todas as consequências da sua vocação de filhos de Deus, mas resistem a ser generosos. Deve-nos doer, porque a graça da Fé não se nos dá para ficar oculta, mas para brilhar diante dos homens (cfr Mt V, 15-16); porque, além disso, está em jogo a felicidade temporal e eterna dos que procedem assim. A vida cristã é uma maravilha divina, com promessa de imediata satisfação e serenidade, mas com a condição de sabermos apreciar o dom de Deus. (Cfr. Ioh 4, 10), sendo generosos sem medida» (Cristo que passa, n° 147).

27.10.13 – Lc 18, 9-14

9Disse também a seguinte parábola, para alguns, que estavam intimamente convencidos de que eram justos e desprezavam os demais: 10Subiram ao Templo dois homens para orar: um fariseu e o outro publicano. 11O fariseu, perfilado, fazia lá consigo esta oração: «Ó Deus, dou-Te graças por não ser como o resto dos homens, que são ladrões, injustos, adúlteros, ou ainda como este publi­cano. 12Jejuo duas vezes por semana; pago o dízimo de tudo quanto recebo». 13E o publi­cano, mantendo-se a distância, não ousava nem sequer erguer os olhos ao Céu, mas batia no peito, dizendo: «Ó Deus, sé clemente para comigo, que sou pecador!». 14Eu vos digo: Desceu este justificado para sua casa, ao contrário do outro, porque todo aquele que se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado.

Comentário

9-14. O Senhor completa o Seu ensinamento sobre a oração; além de ser perseverante e cheia de fé, a oração deve brotar de um coração humilde e arrependido dos seus pe­cados: Cor contritum et humiliatum, Deus, non despicies (Ps 51,19), o Senhor, que nunca despreza um coração contrito e humilhado, resiste aos soberbos e dá a Sua graça aos humildes (cfr 1Pet 5,5; lac 4,6).

A parábola apresenta dois tipos humanos contrapostos: o fariseu, meticuloso no cumprimento externo da Lei; e o publicano, pelo contrário, considerado pecador público (cfr Lc 19,7). A oração do fariseu não é agradável a Deus devido ao seu orgulho, que o leva a fixar-se em si mesmo e a desprezar os outros. Começa a dar graças a Deus, mas é óbvio que não se trata de verdadeira acção de graças, visto que se ufana do bem que fez, e não é capaz de reconhecer os seus pecados; como pensa que já é justo, não tem necessi­dade, segundo ele, de ser perdoado; é, efectivamente, per­manece nos seus pecados; a ele se aplica também o que disse o Senhor noutra ocasião a um grupo de fariseus: « Se fósseis cegos não teríeis pecado, mas agora dizeis: Vemos; por isso o vosso pecado permanece» (Ioh 9,41). O fariseu baixou do Templo, pois, com os seus próprios pecados.

Pelo contrário, o publicano reconhece a sua indignidade e arrepende-se sinceramente: estas são as disposições neces­sárias para ser perdoado por Deus. A jaculatória do publi­cano, que exprime tais sentimentos, alcança o perdão divino: «Com razão, explica São Francisco de Sales, alguns disseram que a oração justifica, porque a oração contrita ou a contrição orante eleva a alma a Deus, une-a à Sua bondade e obtém o Seu perdão em virtude do amor divino que lhe comunica este santo movimento. Por conseguinte, devemos sentir-nos fortes com tais jaculatórias, feitas com actos de dor amorosa e com desejos de divina reconciliação a fim de que, por meio delas, expressando diante do Salvador as nossas angústias (Ps 142,2), confiemos a alma ao Seu Coração misericordioso que a receberá com piedade» (Tratado do amor de Deus, liv. 2, cap. 20).

28.10.13 –Lc 6, 12-19

12Nesses dias, saiu Ele em direcção ao monte, para fazer oração, e passou a noite a orar a Deus. 13Ao amanhecer, chamou os discípulos e escolheu doze entre eles, aos quais deu precisamente o nome de Após­tolos: 14Simão, a quem deu também o nome de Pedro, e André, irmão deste; Tiago e João; Filipe e Bartolomeu; 15Mateus e Tome; Tiago, filho de Alfeu, e Simão, que era chamado Zeloso; 16Judas, irmão de Tiago, e Judas Iscariotes, que veio a ser o traidor.

17Descendo com eles, ficou num sítio plano, Ele, um numeroso grupo de discípulos Seus e grande multidão dos do povo, prove­nientes de toda a Judeia, de Jerusalém e do litoral de Tiro e de Sídon, I8que tinham vindo para O ouvirem e se curarem de suas doenças. E os que eram molestados por espíritos impuros ficavam curados. 19Toda a multidão procurava tocar-Lhe, porque saía d’Ele uma força que a todos curava.

Comentário

12-13. Com certa solenidade o Evangelista relata a trans­cendência deste momento em que Jesus constitui os Doze em Colégio Apostólico: «O Senhor Jesus, depois de ter orado ao Pai, chamando a Si os que Ele quis, elegeu doze para estarem com Ele e para os enviar a pregar o Reino de Deus (cfr Mc3,13-19; Mt 10,1-42): e a estes Apóstolos constituiu-os em colégio ou grupo estável e deu-lhes como chefe a Pedro, escolhido de entre eles (cfr Ioh 21,17). Enviou-os primeiro aos filhos de Israel e, depois, a todos os povos, para que, participando do Seu poder, fizessem de todas as gentes discípulos seus e as santificassem e governassem (cfr Mt 28,16-20 e par J e deste modo propagassem e apascentassem a Igreja, servindo-a, sob a direcção do Senhor, todos os dias até ao fim dos tempos (cfr Mt 28,20). No dia de Pentecostes, foram plenamente confirmados nesta missão (cfr Act 2,1-36) (…). Os Apóstolos, pois, pregando por toda a parte o Evangelho (cfr Mc 16,20), recebido pelos ouvintes graças à acção do Espírito Santo, reúnem a Igreja universal que o Senhor fundou sobre os Apóstolos e levantou sobre o bem-aventurado Pedro seu chefe, sendo Jesus Cristo a suma pedra angular (cfr Apc 21,14; Mt 16,18; Eph 2,20). A missão divina confiada por Cristo aos Apóstolos durará até ao fim dos tempos (cfr Mt 28,20), uma vez que o Evangelho que eles devem anunciar é em todo o tempo o princípio de toda a vida na Igreja; pelo que os Apóstolos trataram de estabelecer sucessores, nesta sociedade hierarquicamente constituída» (Lumen gentium, nn. 19-20).

Jesus Cristo, antes de instituir o Colégio Apostólico, passou toda a noite em oração. É uma oração que Cristo faz pela Sua Igreja como tantas outras vezes (Lc 9,18; Ioh 17,1 ss.). Deste modo, o Senhor prepara os Seus Apóstolos, colunas da Igreja (cfr Gal 2,9). Próximo da Paixão, rogará ao Pai por Simão Pedro como cabeça da Igreja, e assim lho manifestará de um modo solene: «Mas Eu roguei por ti para que não desfaleça a tua fé» (Lc 22,32). A Igreja, seguindo o exemplo de Cristo, dispõe que na oração litúrgica se elevem preces em muitas ocasiões pelos pastores da Igreja: Romano Pontífice, Bispos e sacerdotes; pedindo a graça de Deus para que possam cumprir fielmente o seu ministério.

São contínuos os ensinamentos de Cristo de que temos de orar sempre (Lc 18,1). Nesta ocasião mostra-nos com o Seu exemplo que ,nos momentos importantes da nossa vida de­vemos orar com especial intensidade. «’Pernoctans in oratione Dei’» — passou a noite em oração. — É o que São Lucas nos diz do Senhor.

«Tu, quantas vezes perseveraste assim? — Então…?» (Ca­minho, n° 104).

Sobre a conveniência e as qualidades da oração do cristão, vejam-se as notas a Mt 6,5-6; 7,7-11; 14,22-23; Mc 1,35; Lc 5,16; 11,1-4; 18,1; 22,41-42.

12. Como é que Jesus Cristo, sendo Deus, faz oração?: Em Cristo há duas vontades, uma divina e outra humana (cfr Catecismo Maior, n° 91), e ainda que pela Sua vontade divina era omnipotente, não assim pela Sua vontade humana. O que fazemos na oração de petição é manifestar a nossa vontade diante de Deus, e por isso Cristo, semelhante em tudo a nós menos no pecado (Heb 4,15), devia orar também como homem (cfr Suma Teológica, III, q. 21, a. 1). Ao con­templar Jesus em oração. Santo Ambrósio comenta: «O Se­nhor ora não para pedir por Ele, mas para interceder em meu favor; pois ainda que o Pai tenha posto todas as coisas à disposição do Filho, contudo o Filho, para realizar plena­mente a Sua condição de homem, julga oportuno implorar ao Pai por nós, pois Ele é o nosso Advogado (…). Mestre de obediência, instrui-nos com o Seu exemplo nos preceitos da virtude: ‘Temos um Advogado diante do Pai’ (1Ioh 2,1)» (Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc.).

14-16. Jesus Cristo escolheu para Seus Apóstolos uns homens correntes, quase todos pobres e ignorantes; parece que só Mateus e os irmãos João e Tiago gozavam de certa! posição social e econômica. Mas todos deixaram o muito ou pouco que tinham e também todos, menos Judas, tiveram no Senhor e, vencendo as suas próprias debilidades, souberam finalmente ser fiéis à graça e ser santos, colunas da ‘ Igreja. Não nos inquietemos se, como os Apóstolos, nos vemos faltos de qualidades humanas, porque o importante é ser fiéis, corresponder pessoalmente à graça de Deus.

19. Deus encarnou para nos salvar. Através da natureza humana que assumiu, actua a Pessoa divina do Verbo. As curas e as expulsões de demônios que Cristo realizou enquanto vivia na terra são também uma prova de que a Redenção operada por Cristo é uma realidade, não uma mera esperança. As multidões da Judeia e das outras regiões de Israel, que se aproximam até tocar o Mestre, são, de alguma maneira, uma antecipação da devoção dos cristãos à Santíssima Humanidade de Cristo.

29.10.13 – Lc 13, 18-21

18Dizia então: A que é semelhante o Reino de Deus e a que hei-de compará-lo? 19É semelhante a um grão de mostarda, que um homem tomou e semeou no seu quintal. Cresceu, veio a ser uma grande árvore, e as aves do céu vieram alojar-se nos seus ramos.

20Disse ainda: A que hei-de comparar o Reino de Deus? 2!E semelhante ao fermento que uma mulher tomou e meteu em três medidas de farinha, até ficar tudo fermen­tado.

Comentário

18-21. O grão de mostarda e o fermento simbolizam a Igreja que, reduzida no princípio a um grupo de discípulos, se foi estendendo com a força do Espírito Santo até acolher nela todos os povos da terra. Já no século II Tertuliano afirmava: «Somos de ontem e enchemos tudo» (Apologeticum, XXXVII). O Senhor «com a parábola do grão de mostarda incita-os à fé e fá-los ver que a pregação do Evangelho se propagará apesar de tudo. Os mais débeis, os mais pequenos entre os homens, eram os discípulos do Senhor, mas como havia neles uma torça grande, esta desen­volveu-se por todo o mundo» (Hom. sobre S. Mateus, 46). Por isso, o cristão não deve desanimar perante a pequenez e debilidade com que aparecem as obras do seu apostolado. Com á graça de Deus e a fidelidade irão crescendo como o grão de mostarda apesar das dificuldades: «Nas horas de luta e contradição, quando talvez ‘os bons’ encham de obstá­culos o teu caminho, levanta o teu coração de apóstolo; ouve a Jesus que fala do grão de mostarda e do fermento. — E diz-Lhe: ‘e dissere nobis parabolam’ — explica-me a parábola.

« E sentirás a alegria de contemplar a vitória futura: aves do céu à sombra do teu apostolado, agora incipiente; e toda a massa fermentada» (Caminho, n° 695).

30.10.13 – Lc 13, 22-30

22E passava por cidades e aldeias a ensinar, seguindo a caminho de Jerusalém. “Disse-Lhe alguém: Senhor, são poucos os que se salvam? Disse-lhes Ele: 24Esforcai-vos por entrar através da porta estreita, porque muitos, vo-lo digo, tentarão entrar sem o conseguir. 25Uma vez que o dono da casa se levante e feche a porta, e vós comeceis, lá fora, a bater e a dizer: «abre-nos, senhor», ele vos dirá, em resposta: «Não sei donde vós sois». 26Então começareis a dizer: «Comemos e bebemos na Tua presença e Tu ensinaste em nossas praças». 27Mas Ele responderá: «Di­go-vos que não sei donde sois! Afastai-vos de Mim, todos os que obrais a iniquidade». 28Lá haverá pranto e ranger de dentes, quando virdes Abraão, Isaac, Jacob e todos os pro­fetas no Reino de Deus, e vós a serdes postos fora! 29Hão-de vir do Oriente, do Ocidente, do Norte e do Sul; sentar-se-ão à mesa no Reino de Deus. 30E há últimos que serão dos primeiros e há primeiros que serão dos últimos.

Comentário

23-24. Todos os homens estamos chamados a fazer parte do Reino de Deus, porque «Deus quer que todos os homens se salvem» (l Tim 2,4). «Com efeito, aqueles que, ignorando sem culpa o Evangelho de Cristo e a Sua Igreja, procuram, contudo, a Deus com coração sincero, e se esforçam, sob o influxo da graça, por cumprir a Sua vontade, manifestada pelo ditame da consciência, também eles podem alcançar a salvação eterna. Nem a divina Providencia nega os auxílios necessários à salvação àqueles que, sem culpa, não chegaram ainda ao conhecimento explícito de Deus e se esforçam, não sem o auxílio da graça, por levar uma vida recta. Tudo o que de bom e verdadeiro neles há, é conside­rado pela Igreja como preparação para receberem o Evan­gelho, dado por Aquele que ilumina todos os homens, para que possuam finalmente a vida» (Lumen gentium, n° 16).

Em qualquer caso só podem alcançar esta meta da Salvação aqueles que lutam seriamente (cfr Lc 16,16; Mt 11,12). O Senhor exprime esta realidade da nossa vida com a imagem da porta estreita. «A guerra do cristão é incessante, porque na vida interior dá-se um perpétuo começar e reco­meçar, que impede que, com orgulho, nos pensemos já perfeitos. É inevitável que haja muitas dificuldades no nosso caminho; se não encontrássemos obstáculos, não seríamos criaturas de carne e osso. Havemos de ter sempre paixões que nos puxem para baixo e sempre precisaremos de nos defender desses delírios mais ou menos veementes» (Cristo que passa, n° 75).

25-28. Como noutras ocasiões, Jesus alude à vida eterna com a imagem de um banquete (cfr, p. ex., Lc 12,35 ss.; 14,15). Ter conhecido o Senhor e ter escutado a sua palavra não é suficiente para alcançar o Céu; só os frutos da corres­pondência à graça terão valor no juízo divino: «fiem todo o que Me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos Céus; mas o que faz a vontade de Meu Pai que está nos Céus» (Mt7,21).

29-30. O povo judeu, de modo geral, considerava-se o único destinatário das promessas messiânicas feitas aos Profetas, mas Jesus declara a universalidade da salvação. A única condição que exige é a resposta livre do homem ao chamamento misericordioso de Deus. Ao morrer Cristo na Cruz o véu do Templo rasgou-se pelo meio (Lc 23,45 e par.), em sinal de que acabava a divisão que separava judeus e gentios. São Paulo ensina: «Ele (Cristo) é a nossa paz, Ele que fez de uns e outros um só e derrubou a barreira separatória (…) a fim de, em Si próprio, criar dos dois um só homem novo, estabelecendo a paz, e reconciliar com Deus, pela Cruz, uns e outros num só Corpo, levando, em Si próprio, a morte à inimizade» (Eph 2,14-16). Com efeito, «Ao novo Povo de Deus todos os homens são chamados. Por isso, este Povo, permanecendo uno e único, deve estender-se a todo o mundo e por todos os séculos, para se cumprir o desígnio da vontade de Deus que, no princípio, criou uma só natureza humana e resolver juntar em unidade todos os seus filhos que estavam dispersos» (Lumen gentium, n. 13).

31.10.13 – Lc 13, 31-35

31Na mesma altura, acercaram-se alguns Fariseus, que Lhe disseram: Sai, vai-Te daqui, porque Herodes quer matar-Te. 32Ele res­pondeu-lhes: Ide dizer a essa raposa: «Eu estou a expulsar Demônios e a realizar curas hoje e amanhã; ao terceiro dia atinjo o Meu termo. 33Contudo, hoje, amanhã e depois, devo seguir o Meu caminho, porque não se admite que um profeta pereça fora de Jerusalém ».

34Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas aqueles que te são enviados, 35quantas vezes Eu quis agrupar os teus «filhos, como a galinha a sua ninhada de­baixo das asas!… Mas vós não quisestes! 36Pois bem, vai-vos ser abandonada a vossa Casa. Eu vos digo: Não Me vereis até chegar O momento em que digais: Bendito seja Aquele que vem em nome do Senhor.

Comentário

31-33. A cena parece ter tido lugar na região da Pereia, que tal como a Galileia estava sob jurisdição de Herodes Antipas (cfr Lc 3,1), filho de Herodes o Grande (cfr a nota a Mt 2,1). Noutras ocasiões São Lucas assinala que Herodes tinha desejos de conhecer Jesus e de presenciar algum dos Seus milagres (cfr Lc 9,9; 23,8). A advertência que estes fariseus fazem ao Senhor poderia ser um estratagema para O afastar dali. Jesus chama «raposa» a Herodes — e indirectamente aos seus cúmplices —, manifestando uma vez mais a Sua repulsa pelo fingimento e pela hipocrisia.

Na resposta Jesus faz-lhes ver que tem perfeito domínio sobre á Sua vida e a Sua morte porque é o Filho de Deus, e que apenas Se guia pela Vontade de Seu Pai (cfr Ioh 10,18).

34. Jesus exprime o Seu amor infinito por meio dessa comparação. Santo Agostinho soube descrever o sentido tão entranhavel da imagem: «Vós, meus irmãos, sabeis bem como adoece a galinha ao ter os pintainhos. Nenhuma ave manifesta a sua maternidade como ela. Com efeito, cada dia vemos como fazem os seus ninhos os pássaros, as ando­rinhas, as cegonhas e as pombas; mas só sabemos que são mães quando as vemos chocar nos seus ninhos. A galinha, porém, adoece de tal maneira ao ter os seus pintainhos que, ainda que não vão atrás dela, ainda que não a sigam os seus filhos, dás-te conta de que é mãe. Assim o indicam as suas asas caídas, e as suas penas encrespadas, e o seu peculiar cacarejo, e todos os seus membros lassos e abatidos; tudo isso, como digo, indica que é mãe, ainda que não se vejam os seus pintainhos. É assim como está doente Jesus…» (In Ioann. Evang., 15,7).

35. O Senhor deixa ver a profunda dor da Sua alma diante da resistência de Jerusalém ao amor de Deus, tantas vezes manifestado. Mais adiante São Lucas fará notar que Jesus chorou diante de Jerusalém (cfr Lc 19,41). Veja-se também o que se diz na nota a Mt 23,37-39.