Evangelho do dia – mês de outubro de 2012

Outubro de 2012

 

01.10.2012 – Lc 9, 46-50

46Veio-lhes então este pensamento: qual deles seria o maior? 47Mas Jesus, que conhe­cia o íntimo pensar deles, tomou um menino, colocou-o junto de Si 48e disse-lhes: Quem acolher em Meu nome este menino é a Mim que acolhe; e quem Me acolher acolhe Aquele que Me enviou, pois quem for o mais pequeno entre vós todos, esse é que é grande!

49João tomou a palavra e disse: Mestre, nós vimos alguém a expulsar Demônios em Teu nome e impedimo-lo, porque não anda connosco. 50Respondeu-lhe Jesus: Não impeçais, pois quem não é contra vós é a vosso favor.

Comentário

46-48. Jesus toma uma criança nos Seus braços para a oferecer como exemplo aos Apóstolos e corrigir as ambições demasiado humanas que tinham então no seu coração. Nos Apóstolos ensinou-nos a todos nós, corrigindo a nossa inclinação para buscar o que nos torna importantes, adultos. «Não queiras ser grande. — Criança, criança sempre, ainda que morras de velho. — Quando um menino tropeça e cai, ninguém estranha…; seu pai apressa-se a levantá-lo.

«Quando quem tropeça e cai é adulto, o primeiro movi­mento é de riso. — Às vezes, passado esse primeiro ímpeto, o ridículo cede o lugar à piedade. — Mas os adultos têm de se levantar sozinhos.

«A tua triste experiência quotidiana está cheia de tro­peços e quedas. Que seria de ti se não fosses cada vez mais pequeno?

«Não queiras ser grande, mas menino. Para que, quando tropeçares, te levante a mão de teu Pai-Deus» (Caminho, n° 870).

49-50. O Senhor corrige a atitude exclusivista e intole­rante dos Apóstolos. São Paulo tinha aprendido esta lição e por isso pode exclamar quando está na sua prisão romana: «É verdade que há alguns que pregam Cristo por espírito de inveja e de rivalidade, enquanto outros o fazem com boa intenção. (…) Mas, que importa? Desde que, de qualquer modo, Cristo seja anunciado, quer seja por algum pretexto quer por um verdadeiro zelo, alegro-me e alegrar-me-ei sempre» (Phil 1,15.18). «Alegra-te quando vires que outros trabalham em bons campos de apostolado. — E pede, para eles, graça de Deus abundante e correspondência a essa graça.

«Depois, tu — segue o teu caminho; persuade-te de que não tens outro» (Caminho, n° 965).

02.10.2012 – Mt 18, 1-5.10

Naquela mesma hora, chegaram-se os discípulos a Jesus e disseram-Lhe: Quem é, pois, o maior no Reino dos Céus? 2Chamou Ele um menino, pô-lo no meio deles 3e disse: Em verdade vos digo que, se não voltardes a ser, como meninos, não entrareis no Reino dos Céus. 4Todo aquele, pois, que se fizer pequeno como este menino, esse é o maior no Reino dos Céus. 5E quem receber um menino como este em Meu nome, é a Mim que recebe.

10Vede lá não desprezeis um só destes : pequeninos, pois Eu vos digo que os seus Anjos, nos Céus, estão incessantemente a contemplar a face de Meu Pai que está nos Céus.

Comentário

1-6. É claro que os discípulos ainda abrigavam ambi­ções terrenas ao pedir o primeiro lugar para quando Cristo instaure na terra o Seu Reino (cfr Act 1, 6). Para corrigir o seu orgulho, o Senhor coloca diante deles um menino, exigindo-lhes que se querem entrar no Reino dos Céus, sejam por vontade o que as crianças são por idade. As crianças caracterizam-se pela sua incapacidade de ódio, e vê-se nelas uma total inocência no que diz respeito aos vícios, e principalmente ao orgulho, que é o maior de todos. São simples e abandonam-se confiadamente.

A humildade é um dos pilares mestres da vida cristã: «Se me perguntais — dizia Santo Agostinho — que é o mais essencial na religião e na disciplina de Jesus Cristo, responder-vos-ei: o primeiro a humildade, o segundo a humildade e o terceiro a humildade» (Epístola 118).

3-4. Aplicando estas palavras às virtudes de Nossa Senhora, Frei Luís de Granada sublinha que a humildade é mais excelente que a virgindade: «Se não podes imitar a virgindade da humilde, imita a humildade da virgem. Louvável é a virgindade, mas mais necessária é a humildade. Aquela nos aconselham, a esta nos obrigam; àquela nos convidam, a esta nos forçam (…). De maneira que aquela é galardoada como sacrifício voluntário, esta pedida como sacrifício obrigatório. Finalmente, podes salvar-te sem vir­gindade, mas não sem humildade» (Suma da vida cristã, livro 3, parte 2, cap. 10).

5. Acolher um menino em nome de Jesus é acolher o próprio Jesus. Porque as crianças são reflexo da inocência, da simplicidade, da pureza, da ternura do Senhor; «para uma alma enamorada, as crianças e os doentes são Ele» (Caminho, n°419).

10. Dar escândalo aos pequenos é coisa grave: Jesus adverte-o com energia. Pois estes pequenos têm os seus anjos que os guardam e defendem, e que acusarão diante de Deus aqueles que os tenham induzido ao pecado.

No contexto fala-se dos anjos da guarda dos pequenos, visto que é a estes que se está a referir o passo. Mas todos os homens, grandes ou pequenos, têm o seu anjo da guarda. «A Providência de Deus deu aos anjos a missão de guardar a linhagem humana, e de socorrer cada homem (…). O Nosso Pai deu-nos, a cada um de nós, anjos para que sejamos fortalecidos com o seu poder e auxílio» (Catecismo Romano, IV, 9,4).

Esta doutrina deve levar-nos a uma intimidade confiante com o nosso anjo da guarda. «Tem confiança com o teu Anjo da Guarda. — Trata-o como amigo íntimo — é-o efectivamente — e ele saberá prestar-te mil e um serviços nos assuntos correntes de cada dia» (Caminho, n° 562).

03.10.2012 – Lc 9, 57-62

57Indo eles no caminho, disse-Lhe alguém: Seguir-Te-ei para onde quer que fores. 58Retorquiu-lhe Jesus: As raposas têm tocas e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça. 59Disse a outro: Segue-Me. Este respondeu: Senhor, deixa-me ir primeiro sepultar meu pai. 60Mas Ele replicou-lhe: Deixa os mortos sepultar os seus mortos, e tu vai anunciar ó Reino de Deus. 61Disse outro ainda: Seguir-Te-ei, Senhor, mas antes deixa que vá despedir-me dos meus. 62Mas Jesus respon­deu-lhe: Quem, depois de deitar a mão ao arado, olha para trás, não é apto para o Reino de Deus.

Comentário

57-62. Nosso Senhor exprime claramente as exigências que comporta o segui-Lo. Ser cristão não é tarefa fácil nem cômoda; é necessária a abnegação e pôr o amor a Deus antes de tudo. (Vejam-se as notas a Mt 8,18-22 e Mt 8,22).

Aparece aqui o caso daquele homem que quis seguir Cristo mas com uma condição: despedir-se dos de sua casa. O Senhor vê nele pouca decisão, e dá-lhe uma resposta que nos alcança a todos, visto que todos recebemos a chamada a segui-Lo e devemos procurar não receber essa graça de Deus em vão: «Nós recebemos a graça de Deus em vão quando a recebemos à porta do coração sem lhe permitir a entrada.

Recebemo-la sem a recebermos; recebemo-la sem fruto, pois de nada serve sentir a inspiração se não se consente nela (…). Sucede por vezes que inspirados a fazer muito não acei­tamos toda a inspiração, mas apenas algo, como aqueles personagens do Evangelho que, aconselhados pelo Senhor a que O seguissem, um pediu-Lhe autorização para enterrar o pai, e o outro para se despedir dos parentes» (Tratado do amor de Deus, liv. 2, cap. 11).

A nossa lealdade e fidelidade à tarefa que Deus nos confia deve superar todo o obstáculo: «Nunca existe razão sufi­ciente para voltarmos atrás (cfr. Lc 9.62): o Senhor está ao nosso lado. Temos de ser fiéis, leais, encarar as nossas obrigações, encontrando em Jesus o amor e o estímulo para compreender os erros dos outros e superar os nossos próprios erros» (Cristo que passa, n° 160).

04.10.2012 – Lc 10, 1-12

Depois disto, designou o Senhor outros setenta e dois e mandou-os dois a dois, à Sua frente, a todas as cidades e lugares aonde Ele havia de ir. 2Dizia-lhes Ele: A messe é grande, mas os trabalha­dores são poucos. Pedi, portanto, ao dono da messe que mande trabalhadores para a sua messe. 3Ide e olhai que vos envio como cordeiros para o meio de lobos. 4Não leveis bolsa, nem saco, nem sandálias. Não cumpri­menteis ninguém pelo caminho. 5Em qual quer casa onde entrardes, dizei primeiro: «Paz a esta casa». 6E, se lá houver um homem de paz, sobre ele irá repousar a vossa paz. Senão, a vós há-de voltar. ‘Ficai nessa mesma casa, comendo e bebendo do que tiverem, pois o trabalhador merece o seu salário. Não andeis de casa em casa. 8Em qualquer cidade onde entrardes e vos receberem, comei o que vos servirem, 9curai os enfermos que nela houver e dizei-lhes: «Está perto de vós o Reino de Deus». 10Mas, se em qualquer cidade em que entrardes vos não receberem, saí às suas praças e dizei: “«Até o pó que, da vossa cidade, se pegou aos nossos pés, sacudimos sobre vós». No entanto, ficai sabendo isto: Está perto o Reino de Deus. l2Eu vos digo: Haverá mais tolerância, naquele dia, para Sodoma do que para aquela cidade.

Comentário

1-12. Entre os que seguiam o Senhor e tinham sido chamados por Ele (cfr Lc 9,57-62), além dos Doze, havia numerosos discípulos (cfr Mc 2,15). Os nomes da maioria são para nós desconhecidos; não obstante, entre eles contavam-se com, toda a segurança aqueles que estiveram com Jesus desde o baptismo de João até à Ascensão do Senhor: por exemplo, José chamado Barsabas e Matias (cfr Act 1,21-26). De modo semelhante podemos incluir Cléofas e o seu companheiro, aos quais Cristo ressuscitado apareceu no caminho de Emaús (cfr Lc 24,13-35).

De entre todos aqueles discípulos, o Senhor escolhe setenta e dois para uma missão concreta. Exige-lhes, tal como aos Apóstolos (cfr Lc 9,1-5). desprendimento total e abandono completo à Providência divina.

Desde o Baptismo cada cristão é chamada por Cristo a cumprir uma missão. Com efeito, a Igreja, em nome do Senhor «pede instantemente a todos os leigos que respondam com decisão de vontade, ânimo generoso e disponibilidade de coração à voz de Cristo, que nesta hora os convida com maior insistência, e ao impulso do Espírito Santo. Os mais. novos tomem como dirigido a si de modo particular este chamamento, e recebam-no com alegria e magnanimidade. Com efeito, é o próprio Senhor que, por meio deste sagrado Concilio, mais uma vez convida todos os leigos a que se unam a Ele cada vez mais intimamente, e sentindo como próprio o que é d’Ele (cfr Phil 2,5), se associem à Sua missão salvadora. É Ele quem de novo os envia a todas as cidades e lugares aonde há-de chegar (cfr Lc 10,1); para que, nas diversas formas e modalidades do apostolado único da Igreja, se tornem verdadeiros cooperadores de Cristo, traba­lhando sempre na obra do Senhor com plena consciência de que o seu trabalho não é vão no Senhor (cfr 1Cor 15, 28)» (Apostolicam actuositatem, n. 33).

3-4. Cristo quer inculcar nos Seus discípulos a audácia apostólica; por isso diz «Eu vos envio», que São João Crisóstomo comenta: «Isto basta para vos dar ânimo, isto basta para que tenhais confiança e não temais os que vos atacam» (Hom. sobre S. Mateus, 33). A audácia dos Apóstolos e dos discípulos vinha desta confiança segura de terem sido enviados pelo próprio Deus: actuavam, como explicou com firmeza o próprio Pedro ao Sinédrio, em nome de Jesus Cristo Nazareno, «pois não foi dado aos homens outro nome debaixo do céu pelo qual podemos salvar-nos» (Act 4,12).

«E continua o Senhor — acrescenta São Gregório Magno — ‘Não leveis bolsa nem saco nem sandálias, e não cumpri­menteis ninguém pelo caminho’. Tanta deve ser a confiança que há-de ter em Deus o pregador, que ainda que não se proveja das coisas necessárias para a vida, deve estar persuadido de que não lhe hão-de faltar, não seja que enquanto se ocupa em prover-se das coisas temporais, deixe de procurar para os outros as eternas» (In Evangelia homiliae, 17). O apostolado exige uma entrega generosa que leva ao desprendimento: por isso, Pedro, o primeiro a pôr em prática o mandamento do Senhor, quando o mendigo da Porta Formosa lhe pediu uma esmola (Act 3,2-3), disse1: « Não tenho ouro nem prata» (Ibid., 3,6), «não tanto para se gloriar da sua pobreza — assinala Santo Ambrósio — como da sua obediência ao mandamento do Senhor, como dizendo: vês em mim um discípulo de Cristo, e pedes-me ouro? Ele deu-nos algo muito mais valioso que o ouro, o poder de agir em Seu nome. Não tenho o que Cristo não me deu, mas tenho o que me deu: ‘Em nome de Jesus, levanta-te e anda’ (Act 3,6)» (Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc.). O apostolado exige, portanto, desprendimento dos bens materiais; e também exige estar sempre dispostos, porque a tarefa apostólica é urgente.

«Não cumprimenteis ninguém pelo caminho»: «Como pode ser — pergunta-se Santo Ambrósio — que o Senhor queira eliminar um costume tão cheio de humanidade? Considera, porém, que não diz apenas ‘não cumprimenteis ninguém’, mas que acrescenta ‘pelo caminho’. E isto não é supérfluo.

«Também Eliseu, quando enviou o seu servo a impor o seu bastão sobre o corpo do menino morto, lhe mandou que não cumprimentasse ninguém pelo caminho (2Reg 4,29): deu-lhe ordem de se apressar para cumprir com rapidez a tarefa e realizar a ressurreição, não acontecesse que, por se entreter a falar com algum transeunte, atrasasse o seu encargo. Aqui não se trata então de evitar a urbanidade de cumprimentar, mas de eliminar um possível obstáculo ao serviço; quando Deus manda, o humano deve ser deixado a um lado, pelo menos por algum tempo. Cumprimentar é uma coisa boa, mas melhor é executar quanto antes uma ordem divina que ficaria muitas vezes frustrada por um atraso» (Ibid.).

6. «Homem de paz » é todo o homem que está disposto a receber a doutrina do Evangelho, que traz a paz de Deus. A recomendação do Senhor aos discípulos de que anunciem a paz há-de ser uma constante em toda a acção apostólica dos cristãos: «O apostolado cristão não é um programa político, nem uma alternativa cultural; significa a difusão do bem, o contágio do desejo de amar, uma sementeira concreta de paz e de alegria» (Cristo que passa, n° 124).

O sentir a paz na nossa alma e à nossa volta é sinal inequívoco de que Deus vem a nós, e um fruto do Espírito Santo (cfr Gal 5,22): «Repele esses escrúpulos que te tiram a paz. — Não é de Deus o que rouba a paz da alma.

«Quando Deus te visitar, hás-de sentir a verdade daquelas saudações: dou-vos a paz…, deixo-vos a paz…, a paz seja convosco… E isto, no meio da tribulação» (Caminho, n° 258).

7. Está claro que o Senhor considera que a pobreza e o desprendimento dos bens materiais há-de ser uma das prin­cipais características do apóstolo (vv. 3-4). Não obstante, consciente das necessidades materiais dos Seus discípulos, deixa assente o princípio de que o ministério apostólico merece a sua retribuição. Por isso o Concilio Vaticano II recorda a obrigação que todos temos de contribuir para a sustentação dos que generosamente se entregam ao serviço da Igreja: «Entregues ao serviço de Deus, pelo desempenho do cargo que lhes foi confiado, os presbíteros são merecedores da justa recompensa, visto que o operário é digno do seu salário (Lc 10,7) e o Senhor ordenou àqueles que anunciam o Evangelho, que vivam do Evangelho (1Cor 9,14). Por isso, onde não se tiver providenciado de outra maneira à justa remuneração dos presbíteros, os mesmos fiéis, em cujo benefício eles trabalham, têm verdadeira obrigação de procurar os meios necessários para que levem uma vida digna e honesta» (Presbyterorum ordinis, n. 20).

05.10.2012 – Lc 10, 13-16

13Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Porque, se em Tiro e Sídon se tivessem efectuado os milagres que entre vós se efectuaram, de há muito haveriam feito penitência, prostrados no saco e na cinza. 14Aliás, haverá mais tolerância, na altura do Juízo, para Tiro e Sídon do que para vós.

15E tu, Cafarnaum, porventura serás exal­tada até ao Céu? Até ao Inferno é que serás precipitada!

16Quem vos ouve é a Mim que ouve, e quem vos rejeita é a Mim que rejeita; mas quem Me rejeita rejeita Aquele que Me enviou.

Comentário

16. Na tarde do dia da Ressurreição o Senhor transmite aos Apóstolos a missão própria que tinha recebido do Pai, outorgando-lhes poderes semelhantes aos Seus (Ioh 20,21).

Dias mais tarde confere a Pedro o primado que antes lhe tinha prometido (Ioh 21,15-17). A Pedro sucedeu o Romano Pontífice e aos Apóstolos os Bispos (cfr Lumen gentium, n. 20). Por isso: «Os Bispos, quando ensinam em comunhão com o Romano Pontífice, devem por todos ser venerados como testemunhas da verdade divina e católica (…). Esta religiosa submissão da vontade e do entendimento é por especial razão devida ao magistério autêntico do Romano Pontífice, mesmo quando não fala ‘ex cathedra’» (Lumen gentium, n. 25).

06.10.2012 – Lc 10, 17-24

17Ora os setenta e dois voltaram cheios de alegria. Senhor — diziam eles — até os Demônios se nos sujeitam em Teu Nome! 18Disse-lhes Ele: Eu via Satanás cair do céu como um raio!… 19Olhai que vos dei o poder não só de andar em cima de serpentes e de escorpiões, mas também sobre toda a força do inimigo; e nada vos causará dano. 20Entretanto, não vos alegreis com o facto de se vos sujeitarem os espíritos, alegrai-vos antes por estarem inscritos nos Céus os vossos nomes.

21Na mesma ocasião, estremeceu de alegria no Espírito Santo e disse: Bendigo-Te, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos hábeis, e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque isso foi do Teu agrado. 22Tudo Me foi entregue por Meu Pai. E ninguém conhece quem é o Filho senão o Pai, nem quem é o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar. 23E, voltando-Se em particular para os discípulos, disse: Felizes os olhos que vêem o que estais a ver; 24pois vos digo que muitos profetas e reis quiseram ver o que estais a ver e não viram, e ouvir o que estais a ouvir e não ouviram.

Comentário

20. O Senhor corrige a atitude dos discípulos, fazendo-lhes ver que os verdadeiros motivos de alegria estão na esperança do Céu, e não no poder de fazer milagres que lhes tinha dado para essa missão. Jesus tinha dado noutra ocasião um ensinamento parecido: «Muitos hão-de dizer-Me naquele dia: ‘Senhor, Senhor, não profetizamos nós em Teu nome e em Teu nome expulsamos demônios e em Teu nome fizemos muitos milagres?’ Então lhes direi abertamente: ‘Nunca vos conheci: apartai-vos de Mim, obreiros da iniquidade!’» (Mt 7,22-23). Com efeito, mais importante aos olhos de Deus do que fazer milagres é cumprir em cada momento a Sua Vontade santíssima.

21. A este passo do Evangelho se costuma chamar «o hino de júbilo» do Senhor. Também se encontra em São Mateus (11,25-27). É um dos momentos em que Jesus manifesta a Sua alegria ao ver como os humildes entendem e aceitam a palavra de Deus.

Nosso Senhor mostra, além disso, uma consequência da humildade: a infância espiritual. Assim, diz noutro lugar: «Em verdade vos digo que, se não voltardes a ser como meninos, não entrareis no Reino dos Céus» (Mt 18,3). Mas a infância espiritual não comporta debilidade, frouxidão ou ignorância: «Tenho meditado com frequência na vida de Infância espiritual, que não se contrapõe à fortaleza, porque requer uma vontade rija, uma maturidade bem temperada, tom caracter firme e aberto (…). Tornar-nos meninos… Renunciar à soberba, à autossuficiência; reconhecer que, sozinhos, nada podemos, porque necessitamos da graça, do poder do nosso Pai, Deus, para aprender a caminhar e para perseverar no caminho. Ser pequeno exige abandonar-se como se abandonam as crianças, crer como creem as crianças, pedir como pedem as crianças» (Cristo que passa, nos 10 e 143).

22. «Esta é uma expressão maravilhosa para a nossa fé —- comenta Santo Ambrósio — porque quando lês ‘tudo’ compreendes que Cristo é todo-poderoso, que não é inferior ao Pai, nem menos perfeito; quando lês ‘foi-me entregue’, confessas que Cristo é o Filho, ao qual tudo pertence de direito pela consubstancialidade de natureza e não por graça de doação» (Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc.).

Cristo aparece aqui Onipotente, Senhor e Deus, consubs­tancial com o Pai, e o único que pode revelar quem é o Pai. Ao mesmo tempo só podemos conhecer a natureza divina de Jesus, se o Pai — como fez com São Pedro (cfr Mt 16,17) — nos dá a graça da fé.

23-24. Sem dúvida que o ter visto Jesus pessoalmente foi uma sorte maravilhosa para aqueles que creram n’Ele. Não obstante, o Senhor dirá a Tome: «Bem-aventurados os que sem terem visto creram» (Ioh 20,29). São Pedro, por sua parte, diz-nos: «Amai-Lo sem O terdes visto; credes n’Ele igualmente agora, ainda que não O vejais; mas porque credes, regozijar-vos-eis com júbilo indizível e cheio de glória quando alcançardes o fim da nossa fé, a salvação das almas» (1Pet 1.8-9).

07.10.2012 – Mc 10, 2-16

2Aproximaram-se uns Fariseus e perguntaram-Lhe, para O tentarem: É lícito ao marido repudiar a mulher? 3Respondeu-lhes Ele: Que vos ordenou Moisés? 4Disseram: Moisés permitiu escrever um libelo de repúdio e desquitá-la. 5Disse-lhes Jesus: Por causa da dureza do vosso coração vos escreveu ele essa lei. 6Mas, desde o princípio da criação, fê-los Deus homem e mulher. 7Por isso deixará o homem pai e mãe e unir-se-á com sua mulher e 8formarão os dois uma só carne. Portanto, já não são dois, mas uma só carne. 9Não separe, pois, o homem o que Deus juntou. 10Depois, em casa, interrogaram-No os discípulos sobre este assunto, 11e Ele disse-lhes: Todo o que se desquitar de sua mulher e casar com outra, comete adultério contra ela. 12E, se a mulher se desquitar de seu marido e casar com outro, comete adultério.

13Apresentaram-Lhe umas criancinhas para que as tocasse. Mas os discípulos ralhavam com elas. 14Quando Jesus advertiu, indignou-Se e disse-lhes: Deixai vir a Mim as crian­cinhas; não as estorveis, porque dos que são como elas é o Reino de Deus. 15Em verdade vos digo: quem não receber o Reino de Deus como uma criancinha, não entrará nele. 16E, estreitando-as nos braços, abençoava-as, im­pondo-lhes as mãos.

Comentário

1-12. O enquadramento em que se situa a cena é frequente no Evangelho. A atitude mal-intencionada 1-12. O enquadramento em que se situa a cena é frequente no Evangelho. A atitude mal-intencionada dos fariseus contrasta com a simplicidade da multidão que escuta com atenção os ensinamentos de Jesus. A pergunta dos fariseus pretendia armar-Lhe uma cilada, enfrentando Jesus com a Lei de Moisés. Mas Jesus Cristo, Messias e Filho de Deus, é o que conhece perfeitamente o sentido de tal Lei. Moisés tinha permitido o divórcio condescendendo com a dureza daquele antigo povo: a condição da mulher era ignominiosa naquelas tribos bárbaras — era considerada quase um animal ou um escravo — e por isso Moisés protege contra estes abusos a dignidade da mulher, conseguindo o avanço social de um documento que a tutelava (o libelo de repúdio). Era este um escrito pelo qual o marido declarava a rejeição e, portanto, a liberdade da mulher repudiada. Jesus devolve à sua pureza original a dignidade do homem e da mulher no matrimônio, segundo o instituirá Deus no prin­cípio da criação: «Deixará o homem seu pai e sua mãe e unir-se-á à sua mulher e serão uma só carne» (Gen 2,24). Por isso Deus estabeleceu no princípio a unidade e a indissolubilidade do matrimônio. O Magistério da Igreja, único intérprete autorizado do Evangelho e da lei natural, guar­dou e defendeu constantemente esta doutrina (pense-se, por exemplo, nos casos da história, quando se negou a admitir o divórcio de Henrique VIII de Inglaterra), e ensinou-a solene­mente em inumeráveis documentos (Pró Armeniis; De Sacram. matr.; Casti connubii; Gaudium et spes, n. 48).

Um bom resumo desta doutrina são as seguintes pala­vras: «A indissolubilidade do matrimônio não é um capricho da Igreja e nem sequer uma mera lei positiva eclesiástica. É de lei natural, de direito divino, e responde perfeitamente à nossa natureza e à ordem sobrenatural da graça» (Temas Actuais do Cristianismo, n° 97). Cfr a nota a Mt 5,31-32.

5-9. O cristão não se deve deixar impressionar, no momento de recordar o valor perene e universal desta doutrina, pelas dificuldades ou inclusive as mofas que possa encontrar no ambiente. «É dever fundamental da Igreja reafirmar vigorosamente (…) a doutrina da indissolubilidade do matrimônio. A quantos, nos nossos dias, consideram difícil ou mesmo impossível ligar-se a uma pessoa por toda a vida, a quantos, subvertidos por uma cultura que rejeita a indissolubilidade matrimonial e que ridiculariza aberta­mente o compromisso de fidelidade dos esposos, é neces­sário reafirmar o alegre anúncio do caracter definitivo do amor conjugai, que encontraem Jesus Cristo o seu funda­mento e a sua força (cfr Eph 5,25).

«Enraizada na doação pessoal e total dos esposos e exigida pelo bem dos filhos, a indissolubilidade do matrimônio encontra a sua verdade definitiva no desígnio que Deus manifestou na Revelação. É Ele que quer e concede a indissolubilidade matrimonial como fruto, sinal e exigência do amor absolutamente fiel que Deus Pai tem pelo homem e que Cristo manifesta para com a Igreja.

«Cristo renova o desígnio primitivo que o Criador ins­creveu no coração do homem e da mulher, e, na celebração do sacramento do matrimônio, oferece-lhes um ‘coração novo’. Assim os esposos podem não só superar a ‘dureza do coração’ (cfr Mt 19,8), mas também e sobretudo podem partilhar o amor pleno e definitivo de Cristo, nova e eterna Aliança feita carne. Assim como o Senhor Jesus é a ‘teste­munha fiel’ (Apc 3,14), é o ‘sim’ das promessas de Deus (cfr 2Cor 1,20) e, portanto, a realização suprema da fidelidade incondicional com que Deus ama o Seu povo, da mesma forma os esposos cristãos são chamados a uma participação real na indissolubilidade irrevogável, que liga Cristo à Igreja, Sua esposa, por Ele amada até ao fim (cfr Ioh13,1) (…). «Testemunhar o valor inestimável da indissolubilidade e da fidelidade matrimonial é uma das tarefas mais pre­ciosas e mais urgentes dos casais cristãos do nosso tempo» (Familiaris consortio, n. 20).

13-16. O relato evangélico reflecte uma espontaneidade e uma vivacidade que enamora o leitor e que se pode relacionar com a figura de São Pedro, a quem Marcos o teria ouvido contar. É uma das poucas ocasiões em que se diz nos Santos Evangelhos que Cristo Se indignou. A causa foi a intolerância dos discípulos, que consideravam inoportuna a pretensão daqueles que apresentavam as crianças para que o Senhor as abençoasse, como uma perda de tempo e uma circunstância aborrecida para o Mestre: Cristo tem coisas mais graves em que pensar para Se ocupar destas crianças, talvez tenham podido pensar. O comportamento dos discí­pulos não é mal-intencionado; simplesmente deixam-se levar por critérios humanos, querendo evitar um aborre­cimento ao Senhor. Não penetraram no que lhes disse pouco antes: «Quem receber um destes meninos em Meu nome, é a Mim que recebe; e quem Me receber, não Me recebe a Mim, mas sim Aquele que Me enviou» (Mc 9,37).

Por outro lado, o Senhor põe em realce com toda a clareza a necessidade que tem o cristão de se tornar como uma criança para entrar no Reino dos Céus: «Para ser pequeno é preciso crer como os meninos creem, amar como os meninos amam, abandonar-se como os meninos se abandonam…, rezar como os meninos rezam» (Santo Rosário, Prólogo). Em última análise, as palavras do Senhor são outra maneira, simples e gráfica, de explicar a doutrina essencial da filiação divina: Deus é nosso Pai e nós Seus filhos; toda a religião se resume na relação de um bom filho com um bom Pai. Esse espírito de filiação divina tem com qualidades: o sentido da dependência do nosso Pai do Céu e o abandono confiante na Sua providência amorosa, do mesmo modo que uma criança confia no seu pai; a humildade de reconhecer que por nós nada podemos; a simplicidade e a| sinceridade, que nos levam a mostrar-nos tal como somos.

08.10.2012 – Lc 10, 25-37

25Nisto, levantou-se um legista com esta pergunta, para O experimentar: Mestre, que hei-de fazer para herdar a vida eterna? :26Disse-lhe Jesus: Que está escrito na Lei? Como é que lês? 27Ele disse-Lhe, em resposta: Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças e com toda a tua mente, e ao teu próximo, como a ti mesmo. 28Disse-lhe Jesus: Respondeste bem: faz isso e vi verás. 29Mas ele, querendo justificar-se, disse a Jesus: E quem é o meu próximo?

30Jesus, tomando-lhe a palavra, respon­deu: Certo homem descia de Jerusalém para Jerico e caiu em poder dos salteadores, os quais, depois de o despojarem e espancarem, se foram, deixando-o meio morto. 31Ora, por coincidência, descia por aquele caminho um sacerdote, que, ao vê-lo, passou do lado oposto. 32Do mesmo modo, também um le­vita, que veio por aquele lugar, ao vê-lo, passou do lado oposto. 33Mas um samaritano, que ia de viagem, veio por junto dele e, quando o viu, encheu-se de compaixão. 34Aproximou-se, ligou-lhe as feridas, dei­tando azeite e vinho, e, depois de o erguer para cima da própria montada, levou-o para uma estalagem e prestou-lhe assistência. 35No dia seguinte, tirando dois denarios, deu-os ao estalajadeiro e disse: «Presta-lhe assistência, e o que dispenderes a mais eu to pagarei, quando voltar». 36Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele que caiu em poder dos salteadores? 37Ele res­pondeu: O que usou de compaixão para com ele. Disse-lhe Jesus: Vai e faz tu também do mesmo modo.

Comentário

25-28. O Senhor ensina que o caminho para conseguir a vida eterna consiste no cumprimento fiel da Lei de Deus. Os Dez Mandamentos, que Deus entregou a Moisés no monte Sinai (Ex 20,1-17), são a expressão concreta e clara da Lei natural. Faz parte da doutrina cristã a existência da Lei natural, que é a participação da Lei eterna na criatura racional, e que foi impressa na consciência de cada homem ao ser criado por Deus (cfr Libertas praestantissimum). É evidente, portanto, que a Lei natural, expressada nos Dez Mandamentos, não pode mudar, nem passar de moda, já que não depende da vontade do homem nem das circunstâncias mutáveis dos tempos.

Neste passo Jesus louva e aceita o resumo da Lei que faz o escriba judeu. A resposta é tirada do Deuteronómio (6,4 ss.) e era uma oração que os judeus repetiam com frequência. Esta mesma resposta dá o Senhor quando Lhe perguntam qual é o mandamento principal da Lei, para terminar dizendo: «Destes dois mandamentos depende toda a Lei e os «Profetas» (Mt 22,40), (cfr também Rom 13,8-9; Gal 5,14

Há uma hierarquia e uma ordem nestes dois mandamentos que constituem o duplo preceito da caridade: antes de mais e sobretudo amar a Deus por Si mesmo; em segundo lugar, e como consequência do anterior, amar o próximo porque essa é a vontade explícita de Deus (1Ioh 4,21 (vejam-se as notas a Mt 22,34-40 e 22,37-38).

Neste passo do Evangelho encerra-se também outro ensinamento fundamental: a Lei de Deus não é algo negativo «não fazer», mas algo claramente positivo, é amor; a santidade, a que todos os baptizados estão chamados, não consiste tanto em não pecar, mas em amar, em fazer coisas positivas, em dar frutos de amor de Deus. Quando o Senhor nos descreve o Juízo Final realça esse aspecto positivo da Lei de Deus (Mt 25,31-46). O prêmio da vida eterna será concedido aos que fizeram o bem.

27. «Sem dúvida, a nossa única ocupação aqui na terra é a de amar a Deus: ou seja, começar a praticar o que faremos durante toda a eternidade. Por que temos de amar a Deus? Porque a nossa felicidade consiste, e não pode consistir noutra coisa, no amor de Deus. De maneira que se não amamos a Deus, seremos constantemente infelizes; e se queremos desfrutar de alguma consolação e de alguma suavidade nas nossas penas, somente o conseguiremos recorrendo ao amor de Deus. Se quereis convencer-vos disso ide buscar o homem mais feliz segundo o mundo; se não ama a Deus, vereis como na realidade não deixa de ser um grande desgraçado. E, pelo contrário, se vos encontrais com o homem mais infeliz aos olhos do mundo, vereis como, amando a Deus, é ditoso em todos os conceitos. Meu Deus! Abri-nos os olhos da alma, e assim buscaremos a nossa felicidade onde realmente podemos achá-la!»(Sermões esco­lhidos, Décimo segundo Domingo depois do Pentecostes).

29-37. Nesta comovente parábola, que apenas São Lucas recolhe, o Senhor dá uma explicação concreta de quem é o próximo e de como há que viver a caridade com ele, ainda que seja nosso inimigo.

Santo Agostinho, seguindo outros Santos Padres (De verb. Dom. serm., 37), identifica o Senhor com o bom samaritano, e o homem assaltado pelos ladrões com Adão, origem e figura de toda a humanidade caída. Levado por essa com­paixão e misericórdia, desce à terra para curar as chagas do homem, fazendo-as suas próprias (Is 53,4; Mt 8,17; 1Pet 2,24; 1Ioh 3,5). Assim, em mais de uma ocasião, vemos como Jesus Se compadece e Se comove diante do sofrimento do homem (cfr Mt 9,36; Mc 1,41; Lc 7,13). Com efeito, diz São João: «Nisto se demonstrou o amor de Deus para connosco, em que enviou o Seu Filho Unigênito ao mundo para que por Ele tenhamos a vida. E nisto consiste o Seu amor, que não é porque nós tenhamos amado a Deus, mas porque Ele nos amou primeiro a nós, e enviou o Seu Filho para ser vítima de propiciação pelos nossos pecados. Queridos, se Deus nos amou assim, também nós devemos amar-nos uns aos outros» (1Ioh 4,9-11).

Esta parábola deixa claro quem é o nosso próximo: quem quer que esteja perto de nós — sem distinção alguma de raça, de amizade, etc. — e necessite da nossa ajuda. De igual modo fica claro como há que amar o próximo: tendo misericórdia com ele, compadecendo-nos da sua necessi­dade espiritual ou corporal; e esta disposição tem de ser eficaz, concreta, deve manifestar-se em obras de entrega e de serviço, não pode ficar apenas em sentimento.

Essa mesma compaixão e amor de Jesus Cristo temos de sentir nós, os cristãos, que devemos ser discípulos Seus, para não passar nunca do lado oposto perante as necessidades alheias. Uma concretização do amor ao próximo está plasmada nas Obras de Misericórdia, que se chamam assim porque não são devidas por justiça. São catorze, sete espirituais e sete corporais. As espirituais abarcam: ensinar a quem não sabe, dar bom conselho a quem dele tenha necessidade, corrigir a quem erra, perdoar as injúrias, consolar o triste, sofrer com paciência as adversidades e as fraquezas do próximo, e rogar a Deus pelos vivos e pelos mortos. As corporais são: visitar os doentes, dar de comer ao faminto, dar de beber ao que tem sede, redimir o cativo, vestir o nu, dar pousada ao peregrino, e enterrar os mortos.

31-32. É muito provável que Nosso Senhor tenha corri­gido também com esta parábola uma das deformações e exageros a que tinha chegado a falsa piedade judaica entre os Seus contemporâneos. Segundo a Lei de Moisés, o contacto com os cadáveres fazia contrair a impureza legal, que se reparava com diversas abluções ou lavagens (cfr Num 19, 11-22; Lev 21,1-4,11-12). Essas disposições não estavam dadas para impedir o auxílio aos feridos ou doentes, mas para outros fins secundários higiênicos e de respeito aos cadáveres. A aberração no caso do sacerdote e do levita da parábola consistiu em que, diante da dúvida de se p homem assaltado pelos ladrões estava morto ou não, antepuseram uma má interpretação de um preceito secundário e ritual da Lei, perante o mandamento mais importante: o amor ao próximo e a ajuda que lhe deve ser prestada.

09.10.2012 – Lc 10, 38-42

38Quando iam no caminho, entrou Jesus em certa povoação. E uma mulher, por nome Marta, recebeu-O em sua casa. 39Tinha esta Jesus uma irmã, chamada Maria, a qual, depois de se sentar aos pés do Senhor, se pôs a ouvir a Sua palavra. 40Quanto a Marta, andava atarefada com muito serviço. Estacou então e disse: Senhor, não se Te dá que minha irmã me tenha deixado só a servir? Diz-lhe, pois, que me venha ajudar. 41Volveu-lhe o Senhor, em resposta: Marta, Marta, andas inquieta e agitada com muita coisa, 42quando uma só é necessária. Maria escolheu, de facto, a me­lhor parte, que lhe não será tirada.

Comentário

38-42. O Senhor ia para Jerusalém (Lc 9,51), e uns três quilômetros antes passou por Betânia, a aldeia de Lázaro, Marta e Maria, três irmãos aos quais o Senhor amava entranhavelmente, como se vê noutros lugares do Evangelho (cfr Ioh 11,1-45; 12,1-9). O diálogo de Jesus com Marta tem um tom familiar cheio de confiança, que nos faz pensar na grande amizade do Senhor com os três irmãos.

Santo Agostinho comenta esta cena da seguinte maneira: «Marta ocupava-se em muitas coisas, dispondo e preparando a refeição do Senhor. Pelo contrário, Maria preferiu alimen­tar-se do que dizia o Senhor. Não reparou de certo modo na agitação contínua de sua irmã e sentou-se aos pés de Jesus, sem fazer outra coisa senão escutar as Suas palavras. Tinha compreendido de forma fidelíssima o que diz o Salmo: ‘Descansai e vede que Eu sou o Senhor’ (Ps 46,11). Marta consumia-se, Maria alimentava-se; aquela abarcava muitas coisas, esta só atendia a uma. Ambas as coisas são boas» (Sermo 103).

Marta veio a ser como o símbolo da vida activa, enquanto Maria o é da vida contemplativa. Não obstante, para a maioria dos cristãos, chamados a santificar-se no meio do mundo, não se podem considerar como dois modos contrapostos de viver o cristianismo: uma vida activa que se esqueça da união com Deus é algo inútil e estéril; mas uma suposta vida de oração que prescinda da preocupação apos­tólica e da santificação das realidades ordinárias também não pode agradar a Deus. A chave está, pois, em saber unir essas duas vidas, sem prejuízo nem de uma nem da outra. Esta união profunda entre acção e contemplação pode viver-se de modos muito diversos, segundo a vocação concreta que cada um recebe de Deus.

O trabalho, longe de ser obstáculo, há-de ser meio e ocasião de uma intimidade afectuosa com Nosso Senhor, que é o mais importante.

O cristão corrente, seguindo este ensinamento do Senhor, deve esforçar-se por conseguir a unidade de vida: vida de piedade intensa e actividade exterior orientada para Deus, feita por amor a Ele e com rectidão de intenção, que se manifestará no apostolado, na tarefa profissional, nos deveres de estado. «Deveis compreender agora — com uma nova clareza — que Deus vos chama a servi-Lo em e a partir das ocupações civis, materiais, seculares, da vida humana. Deus espera-vos: no laboratório, na sala de operações, no quartel, na cátedra universitária, na fábrica, na oficina, no campo, no lar, e em todo o imenso panorama do trabalho. Ficai a sabê-lo: escondido nas situações mais comuns, há algo de santo, de divino, que vos toca a cada um de vós descobrir (…). Não há outro caminho, meus filhos: ou sabemos encontrar o Senhor na nossa vida corrente, ou nunca O encontraremos. Por isso vos posso dizer que a nossa época precisa de restituir à matéria e às situações que parecem mais vulgares o seu nobre e original sentido, colocá-las ao serviço do Reino de Deus, espiritualizá-las fazendo delas o meio e a ocasião do nosso encontro contínuo com Jesus Cristo» (Temas Actuais do Cristianismo, n° 114).

10.10.2012 – Lc 11, 1-4

Estando Ele algures a orar, disse-Lhe, quando acabou, um dos discípulos: Senhor, ensina-nos a orar, como João também ensinou os seus discípulos. 2Ele respondeu-lhes: Quando orardes, dizei:

Pai, santificado seja o Teu nome; Venha o Teu Reino.

3Dá-nos em cada dia o pão da nossa subsistência.

4Perdoa-nos os nossos pecados, pois também nós perdoamos a todo aquele que nos deve. E não nos sujeites à tentação.

Comentário

1.4. O texto que nos apresenta São Lucas da oração dominical ou Pai-Nosso é algo mais breve que o que se contém em São Mateus (6,9-13). Ali especificavam-se sete petições; em São Lucas só quatro. Por outro lado, o contexto de São Mateus é o do Sermão da Montanha e, mais concretamente, a explicação sobre o modo de orar; o de São Lucas é um dos momentos em que Jesus esteve a orar. Os dois contextos diferem. Não é de estranhar que Nosso Senhor ensinasse o mesmo em diversas ocasiões e com palavras não literalmente idênticas nem com a mesma extensão, insistin­do, porém, nos pontos fundamentais. Como é lógico, a Igreja recolheu a oração dominical na sua forma mais completa, que é a de São Mateus.

«Quando os discípulos pediram ao Senhor Jesus: ‘Ensi­na-nos a orar’, Ele respondeu pronunciando as palavras da oração do Pai-Nosso, criando assim um modelo concreto e ao mesmo tempo universal. De facto, tudo o que se pode e se deve dizer ao Pai está encerrado nas sete petições que todos sabemos de cor. Há nelas uma simplicidade tal, que até uma criança as aprende, e ao mesmo tempo uma profundidade tal, que Se pode consumir uma vida inteira a meditar o sentido de cada uma delas. Porventura não é assim? Não nos fala cada uma delas, uma depois da outra, do que é essencial para a nossa existência, dirigida totalmente a Deus, ao Pai? Não nos fala do ‘pão de cada dia’, do ‘perdão das nossas ofensas, visto que também nós perdoamos’, e ao mesmo tempo de preservar-nos da ‘tentação’ e de ‘livrar-nos do mal?» (Audiência geral João Paulo II, 14-111-1979).

O primeiro que o Senhor nos ensina a pedir é a glorificação de Deus e a vinda do/Seu Reino. Isto é o que realmente importa, o Reino de Deus e a sua Justiça (cfr Mt 6, 33). O Senhor também quer que peçamos, confiados em que o nosso Pai Deus atenderá as nossas necessidades materiais, pois «bem sabe o vosso Pai Celeste que de tudo isso estais necessitados» (Mt 6,32). De todos os modos, o Pai-Nosso faz- -nos aspirar especialmente aos bens do espírito e convida-nos a pedir perdão com a exigência de perdoar, e a afastarmo-nos do perigo de pecar. Finalmente, o Pai-Nosso põe em realce a importância da oração vocal: «’Domine, doce nos orare’ — Senhor, ensina-nos a orar: — E o Senhor respondeu: Quando orardes, dizei: ‘Pater noster, qui es in coelis…’.— Pai nosso, que estais no Céu…

«Como não havemos de ter em muito apreço a oração vocal!» (Caminho, n° 84).

1. Jesus retirava-Se com frequência para fazer oração (cfr Lc 6,12; 22,39 ss.). Esta prática do Mestre suscita nos discípulos o desejo de aprender a orar. Jesus ensina-lhes o que Ele próprio faz. Com efeito, quando o Senhor faz oração, começa com a palavra «Pai!»: «Pai, nas Tuas mãos enco­mendo o Meu espírito» (Lc 23,46; vejam-se também Mt 11,25; 26,42.53; Lc 23,34; Ioh 11,41; etc.). Não constitui realmente uma excepção desta norma a oração « Meu Deus, Meu Deus…» (Mt 27,46), que o Senhor recita na Cruz, suposto que se trata do Salmo vinte e dois, que é a oração final do justo perse­guido.

Pode, portanto, dizer-se que o primeiro que deve ter a oração é a simplicidade do filho que fala com seu Pai. «Escreveste-me: ‘Orar é falar com Deus. Mas de quê? De quê?! D’Ele e de ti; alegrias, tristezas, êxitos e fracassos, ambições nobres, preocupações diárias…, fraquezas; e acções de graças e pedidos; e Amor e desagravo.

«Em duas palavras: conhecê-Lo e conhecer-te — ganhar intimidade!» (Caminho, n° 91).

2. «Santificado seja o Teu Nome»; Nesta primeira petição do Pai-Nosso «pedimos que Deus seja conhecido, amado, honrado e servido por todo o mundo e por nós em particular». Isto quer dizer que «os infiéis cheguem ao conhecimento do verdadeiro Deus, os hereges reconheçam os seus erros, os cismáticos voltem à unidade da Igreja, os pecadores se convertam e os justos perseverem no bem». Com esta primeira petição, o Senhor ensina-nos que «de­vemos desejar mais a glória de Deus que todos os nossos interesses e proveitos». Esta glória de Deus que pedimos procura-se «com orações e bom exemplo, e orientando para Ele todos os nossos pensamentos, afectos e acções» (cfr Catecismo Maior, nos 290-293).

«Venha o Teu Reino»: «Por Reino de Deus entendemos um triplo reino espiritual: o Reino de Deus em nós, que é a graça; o Reino de Deus na terra, que é a Igreja Católica, e o Reino de Deus no Céu, que é a bem-aventurança… Em ordem à graça, pedimos que Deus reine em nós com á Sua graça santificante, pela qual Se compraz em morar em nós como rei na sua corte, e que nos conserve unidos a Ele com as virtudes da fé, esperança e caridade, pelas quais reina no nosso entendimento, no nosso coração e na nossa vontade (…). Em ordem à Igreja, pedimos que se dilate e propague por todo o mundo para salvação dos homens (…). Em ordem à glória, pedimos ser um dia admitidos na bem-aventurança para a qual fomos criados, onde seremos completamente felizes» (Catecismo Maior, nos 294-297).

3. É interpretação comum da Tradição da Igreja que o pão a que se alude aqui não é meramente o pão material, já que «não só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que procede da boca de Deus» (Mt 4,4; Dt 8,3). Jesus quer aqui que pecamos «a Deus o que nos é necessário cada dia para a alma e para o corpo (…). Para a nossa alma pedimos a Deus o mantimento da vida espiritual, isto é, rogamos ao Senhor nos dê a Sua graça, de que continuamente temos necessi­dade (…). A vida da nossa alma mantém-se sobretudo com a palavra divina e com o Santíssimo Sacramento do altar (…). Para o nosso corpo pedimos o necessário para o mantimento da vida temporal» (Catecismo Maior, nos 302-305).

A doutrina cristã sublinha duas ideias nesta petição do Pai-Nosso: a primeira é a confiança na Providência divina, que nos livra da preocupação excessiva por amontoar bens e dinheiro para o dia de amanhã (cfr Lc 12,16-21); a outra ideia é que temos de nos interessar fraternalmente pelas necessidades dos outros, superando deste modo a nossa inclinação para o egoísmo.

4. «De tal maneira exige Deus de nós o esquecimento das injúrias e o afecto e amor mútuo entre os homens, que rejeita e despreza as oferendas e os sacrifícios dos que não se tenham reconciliado amistosamente» (Catecismo Romano, IV, 14,16).

«Irmãs, esta coisa é para que olhemos muito para ela; que uma coisa tão grande e de tanta importância como que nos perdoe o Senhor as nossas culpas, que mereciam fogo eterno, nos seja perdoado com coisa tão baixa como é que perdoemos; e mesmo desta baixeza tenho tão poucas que oferecer, que em balde me tendes, Senhor, de perdoar. Aqui tem muito lugar a Vossa misericórdia. Bendito sejais Vós, que tão pobre me sofreis» (Caminho de perfeição, cap. 36).

«E não nos sujeites à tentação»: «Não é pecado sentir a tentação, mas consentir nela. Também é pecado pôr-se voluntariamente em ocasião próxima de pecar. Deus permite que sejamos tentados para provar a nossa fidelidade, para nos exercitarmos nas virtudes e acrescentar, com a ajuda da graça, os nossos merecimentos. Nesta petição rogamos ao Senhor que nos dê a Sua graça para não sermos vencidos na prova, ou que nos livre desta se não formos capazes de superá-la.

11.10.2012 – Lc 11, 5-13

5Disse-lhes ainda: Se algum de vós tiver um amigo, e for ter com ele à meia-noite e lhe disser: «amigo, empresta-me três pães, 6pois me chegou de viagem um amigo meu e não tenho que lhe dar», 7e se ele disser, em resposta, lá de dentro: «não me incomodes, a porta já está fechada e os meus filhos estão comigo na cama; não posso levantar-me para tos dar». 8Eu vos digo: Ainda que se não levante para lhos dar por ser seu amigo, ao menos levantar-se-á, devido à impertinência dele, e dar-lhe-á quanto precisa.

9Também Eu vos digo a vós: Pedi e dar-se-vos-á; procurai e achareis; batei e abrir-se-vos-á. 10Pois todo aquele que pede recebe, quem procura encontra e ao que bate abrir-se-á. 11E, se a algum de vós que seja pai, o filho pedir pão, dar-lhe-á uma pedra? Ou, se lhe pedir um peixe, em vez dum peixe, dar-lhe-á uma serpente? 12Ou ainda, se pedir um ovo, dar-lhe-á um escorpião? 13Se vós, portanto, maus como sois, sabeis oferecer boas dádivas a vossos filhos, quanto mais o Pai do Céu dará o Espírito Santo àqueles que Lho pedirem!

Comentário

5-10. Uma das notas essenciais da oração há-de ser a constância confiada no pedir. Através deste simples exemplo e de outros parecidos (cfr Lc 18,1-7) o Senhor anima-nos a não decair na nossa petição constante a Deus. «Persevera na oração. — Persevera, ainda que o teu esforço pareça estéril. — A oração é sempre fecunda» (Caminho, n° 101).

9-10. «Vedes a eficácia da oração quando se faz nas devidas condições? Não estareis de acordo comigo em que, se não alcançamos o que pedimos a Deus, é porque não oramos com fé, com o coração bastante puro, com uma confiança bastante grande, ou porque não perseveramos na oração como deveríamos? Deus nunca negou nem negará nada aos que Lhe pedem as Suas graças devidamente. A oração é o grande recurso que nos resta para sair do pecado, perseverar na graça, mover o coração de Deus e atrair sobre nós toda a sorte de bênçãos do céu, quer para a alma, quer pelo que respeita às nossas necessidades tem­porais» (Sermões escolhidos, Quinto Domingo depois de Páscoa).

11-13. A paternidade humana que o homem tem diante dos olhos serve ao Senhor como ponto de comparação para voltar a ensinar-nos a realidade gozosa de que Deus é nosso Pai, porque a verdade é que a paternidade de Deus é a fonte de toda a paternidade nos Céus e na terra (cfr Eph 3,15). « O Deus da nossa fé não é um ser longínquo, que contempla com indiferença a sorte dos homens, os seus afãs, as suas lutas, as suas angústias. É um pai que ama os Seus filhos até ao ponto de enviar o Verbo, Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, a fim de, com a sua encarnação, morrer por nós e nos redimir. É ele ainda o mesmo Pai amoroso que agora nos atrai suavemente para Si, mediante a acção do Espírito Santo que habita nos nossos corações» (Cristo que passa, n° 84).

13. O Espírito Santo é o dom supremo de Deus, a grande promessa que Cristo faz aos discípulos (cfr Ioh 15,26), o fogo divino que desce sobre os Apóstolos no Pentecostes e os enche de fortaleza e liberdade para pro­clamar a mensagem de Cristo (cfr Act 2). «Eu rogarei ao Pai — anunciou o Senhor aos Seus discípulos — e Ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco eternamente (Ioh XIV.16). Jesus cumpriu as Suas promessas: ressuscitou, subiu aos Céus e, em união com o Eterno Pai, envia-nos o Espírito Santo para nos santificar e nos dar a vida» (Cristo que passa, n° 128).

12.10.2012 – Jo 2, 1-11

No terceiro dia, houve um casamento em Cana da Galileia, e estava lá a mãe de Jesus. 2Ora Jesus e os discípulos foram também convidados para o casamento. 3Como viesse a faltar o vinho, diz a mãe de Jesus para Este: Não têm vinho… 4Responde-lhe Jesus: Que Me desejas, Senhora? Ainda não chegou a Minha hora. 5Diz Sua mãe aos serventes: Fazei o que Ele vos disser.

6Havia ali seis talhas de pedra, dispostas para a purificação dos Judeus, cada uma das quais levava duas ou três medidas. 7Diz-lhes Jesus: Enchei essas talhas de água. E eles encheram-nas até acima. 8Depois diz-lhes: Tirai agora e levai ao chefe de mesa. E eles levaram. 9O chefe de mesa, depois de provar a água convertida em vinho — ele não sabia donde era, sabiam-no os serventes que ti­nham tirado a água — chama o noivo 10e diz-lhe: Toda a gente serve primeiro o vinho bom e, quando tiverem bebido bem, serve então o inferior. Tu guardaste o vinho bom até agora!

11Foi assim que, em Cana da Galileia, Jesus deu início aos Seus milagres. Mani­festou a Sua glória, e acreditaram n’Ele os discípulos.

Comentário

1. Caná da Galileia parece que deve identificar-se com a actual Kef Kenna, situada a7 quilômetros a Noroeste de Nazaré.

Entre os convidados menciona-se em primeiro lugar Maria Santíssima. Não se cita São José, coisa que não se pode atribuir a um esquecimento de São João: este silêncio — e outros muitos no Evangelho — faz supor que o Santo Patriarca já tinha morrido.

As festas de casamento tinham longa duração no Oriente (Gen 29,27; Ide 14,10.12.17; Tob 9,12; 10,1). Durante elas, parentes e amigos iam acorrendo a felicitar os esposos; nos banquetes podiam participar até os transeuntes. O vinho era considerado elemento indispensável nas refeições e servia, além disso, para criar um ambiente festivo. As mulheres intervinham nas tarefas da casa; a Santíssima Virgem prestaria também a sua ajuda: por isso pôde dar-se conta de que ia faltar vinho.

2. «Para demonstrar a bondade de todos os estados de vida (…) Jesus dignou-Se nascer das entranhas puríssimas da Virgem Maria; recém-nascido recebeu o louvor que saiu dos lábios proféticos da viúva Ana e, convidado na Sua juventude pelos noivos, honrou as bodas com a presença do Seu poder» (São Beda, Hom. 13, para o 2.° Domingo depois da Epif.). Esta presença de Cristo nas bodas de Caná é sinal de que Jesus abençoa o amor entre homem e mulher, selado com o matrimônio. Deus, com efeito, instituiu p matrimônio no princípio da Criação (cfr Gen 1,27-28), e Jesus Cristo confirmou-o e elevou-o à dignidade de Sacramento (cfr Mt 19,6).

3. No quarto Evangelho a Mãe de Jesus — este é o título que lhe dá São João — aparece somente duas vezes. Uma neste episódio, a outra no Calvário (Ioh 19,25). Com isso vem insinuar-se a missão da Santíssima Virgem Maria na Reden­ção. Entre os dois acontecimentos, Caná e o Calvário, há várias analogias. Situam-se um no começo e o outro no fim da vida pública, como para indicar que toda a obra de Jesus está acompanhada pela presença de Maria Santíssima. O seu título de Mãe adquire ressonância especialíssima: Maria actua como verdadeira Mãe de Jesus nesses dois momentos em que o Senhor manifesta a Sua divindade. Ao mesmo tempo, ambos os episódios assinalam a especial solicitude de Maria Santíssima pelos homens: num caso intercede quando ainda não chegou « a hora »; no outro oferece ao Pai a morte redentora de seu Filho, e aceita a missão que Jesus lhe confere de ser Mãe de todos os crentes, representados no Calvário pelo discípulo amado.

«Na vida pública de Jesus, Sua mãe aparece duma maneira bem marcada logo no princípio, quando, nas bodas de Caná, movida de compaixão, levou Jesus Messias a dar início aos Seus milagres (cfr Ioh 2,1-11). Durante a pregação de Seu Filho, acolheu as palavras com que Ele, pondo o reino acima de todas as relações de parentesco, proclamou bem-aventurados todos os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática (cfr Mc 3,35 e par.; Lc 11,27-28); coisa que ela fazia fielmente (cfr Lc 2,19.51). Assim avançou a Virgem pelo caminho da fé, mantendo fielmente a união com seu Filho até à cruz. Junto desta esteve, não sem desígnio de Deus (cfr Ioh19,25), padecendo acerbamente com o seu Filho único, e associando-se com coração de mãe ao Seu sacrifício, consentindo com amor na imolação da vítima que d’Ela nascera; finalmente, Jesus Cristo, agonizante na cruz, deu-a por mãe ao discípulo, com estas palavras: ‘Mulher, eis aí o teu filho'(cfr Ioh19,26-27)» (Lúmen gentium, n. 58).

4. Para o significado das palavras deste versículo veja-se o dito na epígrafe dedicada a Maria Santíssima na Introdução ao Evangelho segundo São João (pp 1109-1113). Além disso, o relato evangélico do diálogo entre Jesus e Sua Mãe não nos revela todos os gestos, as inflexões da voz, etc., que deram o tom exacto às palavras. Ao nosso ouvido, por exemplo, a resposta de Jesus soa dura, como se dissesse «este é um assunto que não nos diz respeito». Na realidade não é assim.

«Mulier» que alguns traduzem para português por «Mu­lher»: é um título respeitoso, que era equivalente a «senhora», uma maneira de falar em tom solene. Este nome voltou a empregá-lo Jesus na Cruz, com grande afecto e veneração (Ioh 19,26).

A frase «que Me desejas?» corresponde a uma maneira proverbial de falar no Oriente, que pode ser empregada com diversos matizes. A resposta de Jesus parece indicar que embora, em princípio, não pertencesse ao plano divino que Jesus interviesse com poder para resolver as dificuldades surgidas naquelas bodas, o pedido de Maria Santíssima O move a atender a essa necessidade. Também se pode pensar que nesse plano divino estava previsto que Jesus fizesse o milagre por intercessão de Sua Mãe. Em qualquer caso, foi Vontade de Deus que a Revelação do Novo Testamento nos deixasse este ensinamento capital: a Virgem Santíssima é tão poderosa na sua intercessão que Deus atenderá todos os pedidos por mediação de Maria. Por isso a piedade cristã, com precisão teológica, chamou a Nossa Senhora «omnipotência suplicante».

«Ainda não chegou a Minha hora»: O termo «hora» é utilizado por Jesus Cristo algumas vezes para designar o momento da Sua vinda gloriosa (cfr Ioh 5,28), ainda que geralmente se refira ao tempo da Sua Paixão, Morte e Glorificação (cfr Ioh 7,30; 12,23; 13,1; 17,1).

5. A Virgem Maria, como boa mãe, conhece perfeita­mente o valor da resposta de seu Filho, que para nós poderia resultar ambígua («que Me desejas»), e não duvida que Jesus fará algo para resolver o apuro daquela família. Por isso indica de modo tão directo aos serventes que façam o que Jesus lhes disser. Podemos considerar as palavras da Virgem como um convite permanente para cada um de nós: «Nisso consiste toda a santidade cristã: pois a perfeita santidade é obedecer a Cristo em todas as coisas» (Comentário sobre S. João, ad loc.).

Com esta mesma atitude rezava o Papa João Paulo II no santuário mariano de Knock, ao consagrar à Virgem o povo irlandês: «Neste momento solene escutamos com atenção particular as tuas palavras: ‘Fazei o que vos disser o meu Filho . E desejamos responder às tuas palavras com todo o coração. Queremos fazer o que nos diz o teu Filho e o que nos manda; pois tem palavras de vida eterna. Queremos cumprir e pôr em prática tudo o que vem d’Ele, tudo o que está contido na Boa Nova, como o fizeram os nossos antepassados durante séculos (…). Por isso hoje (…) confiamos e consa­gramos a Ti, Mãe de Cristo e Mãe da Igreja, o nosso coração, consciência e obras, a fim de que estejam em consonância com a fé que professamos. Confiamos e consagramos a Ti todos e cada um dos que constituem o povo irlandês e a comunidade do Povo de Deus que habita nestas terras» Homília Santuário de Knock).

6. A ‘medida’ ou ‘metreta’ correspondia a uns40 litros. A capacidade de cada uma destas talhas era, portanto, de80 a120 litros; no total 480-720 litros de vinho da melhor quali­dade. São João sublinha a abundância do dom concedido pelo milagre, como fará também a quando da multiplicação dos pães (Ioh 6,12-13). Um dos sinais da chegada do Messias era a abundância; por isso nela vê o Evangelista o cumprimento das antigas profecias: «O próprio Yahwéh dará a felicidade e a terra dará os seus frutos», anunciava o Salmo 85,13: «as eiras encher-se-ão de bom trigo, os lagares transbordarão de mosto e de azeite puro» (Ioel 2,24; cfr Am 9,13-15). Essa abundância de bens materiais é um símbolo dos dons sobre­naturais que Cristo nos obtém com a Redenção: mais adiante, São João porá em realce aquelas palavras do Senhor: « Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância» (Ioh 10,10; cfr Rom 5,20).

7. «Até acima»: O Evangelista volta a sublinhar com este pormenor a superabundância dos bens da Redenção e, ao mesmo tempo, indica com quanta exactidão obedeceram os serventes, como insinuando a importância da docilidade no cumprimento da Vontade de Deus, mesmo nos pequenos por menores.

9-10. Jesus faz os milagres sem tacanhez, com magnani­midade; por exemplo, na multiplicação dos pães e dos peixes (cfr Ioh 6,10-13) sacia uns cinco mil homens e ainda sobram doze canastras. Neste milagre de Cana não converteu a água em qualquer vinho, mas num de excelente qualidade.

Os Santos Padres viram no Vinho de qualidade, reservado para o fim das bodas, e na sua abundância, uma figura do coroamento da História da Salvação: Deus tinha enviado os patriarcas e profetas, mas, ao chegar a plenitude dos tempos, enviou o Seu próprio Filho, cuja doutrina leva a Revelação antiga à perfeição, e cuja graça excede as esperanças dos justos do A. Testamento. Também viram neste vinho bom do fim das bodas o prêmio e a alegria da vida eterna, que Deus concede àqueles que, querendo seguir Cristo, sofreram as amarguras e contrariedades desta vida (cfr Comentário sobre S. João, ad loc.).

11. Antes do milagre os discípulos já criam que Jesus era o Messias; mas ainda tinham um conceito excessiva­mente terreno da Sua missão salvífica. São João testemunha aqui que este milagre foi o começo de uma nova dimensão da sua fé, que tornava mais profunda a que já tinham. O milagre de Cana constitui um passo decisivo na formação da fé dos discípulos. «Maria aparece como Virgem orante em Cana, onde, manifestando ao Filho com delicada súplica uma necessidade temporal, obtém também um efeito de graça: que Jesus, realizando o primeiro dos Seus ‘sinais’, confirme os discípulos na fé n’Ele» (Marialis cultus, n. 18).

«Por que terão tanta eficácia os pedidos de Maria diante de Deus? As orações dos santos são orações de servos, enquanto as de Maria são orações de Mãe, donde procede a sua eficácia e caracter de autoridade; e como Jesus ama imensa­mente Sua Mãe, não pode rogar sem ser atendida (…).

«Para conhecer bem a grande bondade de Maria recor­demos o que refere o Evangelho (…). Faltava o vinho, com o consequente apuro dos esposos. Ninguém pede à Santíssima Virgem que interceda diante do seu Filho em favor dos consternados esposos. Contudo, o coração de Maria, que não pode deixar de se compadecer dos infelizes (…), impeliu-a a encarregar-se por si mesma do ofício de intercessora e a pedir ao Filho o milagre, apesar de ninguém lho ter pedido (…). Se a Senhora agiu assim sem que lho tivessem pedido, que teria sido se lho tivessem pedido?» (Sermões abreviados, 48).

13.10.2102 – Lc 11, 27-28

27Enquanto Ele estava a dizer estas coisas, ergueu a voz uma mulher, do meio da multidão, e disse-Lhe: Felizes as entranhas que Te trouxeram e os peitos a que foste amamentado. 28Ele, porém, retorquiu: Felizes antes os que ouvem a palavra de Deus e a guardam.

Comentário

27-28. Estas palavras são a proclamação da atitude fundamental da alma da Virgem Maria. Assim o expõe o Concilio Vaticano II: «Durante a pregação de Seu Filho, (Maria) acolheu as palavras com que Ele, pondo o reino acima de todas as relações de parentesco, proclamou bem-aventurados todos os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática (cfr Mc 3,35; Lc 11,27-28); coisa que ela fazia fielmente (cfr Lc 2, 19.51)» (Lumen gentium, n. 58). Portanto, com esta resposta Jesus não rejeita o inflamado galanteio que essa boa mulher dedica a Sua Mãe, mas aceita-o e vai mais além, explicando que Maria Santíssima é bem-aventu­rada sobretudo por ter sido boa e fiel no cumprimento da palavra de Deus. «Era o elogio de Sua Mãe, do seu fiat Lc 1,38), do faça-se, sincero, entregue, cumprido até às últimas consequências, que não se manifestou em acções aparatosas, mas no sacrifício escondido e silencioso de cada dia» (Cristo que passa, n° 172). Cfr a nota a Lc 1,34-38).

14.10.2012 – Mc 10, 17-30

17Ao sair para Se pôr a caminho, correu a Ele um que, de joelhos, Lhe perguntou: Bom Mestre, que hei-de fazer para alcançar a vida eterna? 18Respondeu-lhe Jesus: Porque Me chamas bom? Ninguém é bom senão só Deus. 19Sabes os mandamentos: Não matar, não adulterar, não roubar, não levantar falsos testemunhos, não defraudar, honrar pai e mãe.

20Mas ele respondeu-Lhe: Mestre, tudo isso tenho eu observado desde a minha mocidade.21 Jesus fitou-o com amor e disse-lhe: Uma só coisa te falta. Vai, vende quanto tens e dá-o aos pobres e terás um tesouro no Céu. Depois vem e segue-Me, tomando a cruz. 22Ouvindo ele estas palavras, anuviou-se-lhe o rosto e afastou-se triste, porque tinha muitos haveres.

23Então Jesus, volvendo em torno o olhar, disse aos discípulos: Quão dificilmente entrarão no Reino de Deus os que tem riquezas! 24Ficaram os discípulos pasmados com as Suas palavras. Mas Jesus tornou a repetir: Meus filhos, como é difícil entrarem no Reino de Deus os que confiam nas riquezas! 25É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no Reino de Deus! 26Eles mais assombrados ficaram e diziam uns para os outros: Então quem se pode salvar?27Jesus olhou para eles e disse: Aos homens é impossível, mas a Deus não; pois a Deus tudo é possível. 28Começou Pedro a dizer-Lhe: Nós deixamos tudo e seguimos-Te. 29E Jesus: Em verdade vos digo que não há ninguém que tenha deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos ou campos por Minha causa e por causa do Evangelho.

Comentário

17-18. O jovem — assim o especifica Mt 19,16 — recorre a Jesus como a um mestre autorizado na vida espiritual, com a esperança de que o guie para a vida eterna. Não é que Jesus Cristo rejeite o louvor de que é objecto, mas explica a causa profunda dessas palavras do jovem: Ele é bom, não como o é um homem bom, mas por ser Deus, que é a própria bondade. Portanto, o moço disse uma verdade, mas uma verdade a meias. Aí está o enigmático da resposta de Jesus e a sua profundidade absoluta. Jesus trata, portanto, de fazer re­montar o jovem desde uma consideração honesta, mas humana, a uma visão inteiramente sobrenatural. Para que este homem consiga realmente a vida eterna tem de ver em Jesus Cristo, não só um bom mestre, mas o Salvador divino, o único Mestre, o único que, como Deus, é a própria Bondade. Vid. a nota a Mt 19,16-22.

19. O Senhor não veio abolir a Lei, mas dar-lhe pleni­tude (Mt 5,17). Os mandamentos são o núcleo fundamental da Lei. O cumprimento destes preceitos é necessário para alcançar a vida eterna. Cristo dá plenitude a estes manda­mentos num duplo sentido. Primeiro, porque nos ajuda a descobrir todas as exigências que estes têm na vida dos homens. A luz da revelação leva-nos ao conhecimento fácil e seguro dos preceitos do Decálogo, que a razão humana pelas suas próprias forças muito dificilmente conseguiria alcançar. Em segundo lugar, a sua graça põe em nós a fortaleza para fazer frente à inclinação má que é fruto do pecado original. Os mandamentos conservam, pois, na vida cristã toda a sua vigência e são como os marcos que assinalam o caminho que conduz ao Céu.

21-22. O Senhor sabe que no coração daquele jovem há um fundo de generosidade, de entrega. Por isso olha-o com amor, com um amor de predilecção que leva consigo o convite a viver numa maior intimidade com Deus. Isto exige uma renúncia que o Senhor concretiza: abandonar todas as suas riquezas, para entregar o coração todo inteiro a Jesus. Deus chama todos os homens à santidade. Mas são muitos os caminhos que a ela conduzem. A cada homem toca pôr os meios para descobrir qual é, segundo a vontade de Deus, o seu concreto. O Senhor, nos Seus desígnios, semeia na alma de cada pessoa a semente da vocação, que indica o caminho peculiar pelo qual há-de chegar à meta comum da santidade.

Com efeito, se o homem não põe obstáculos, se responde com generosidade a essa semente, sente um desejo de ser melhor, de se entregar de um modo mais generoso. Como fruto desse desejo, busca, pergunta a Deus na oração, às pessoas que o possam guiar. A essa busca sincera Deus responde sempre servindo-Se de instrumentos muito va­riados. Ao homem parece-lhe que vê claro o caminho que Deus lhe assinala, mas duvida na decisão, sente-se sem fortaleza para empreender este caminho que exige sempre renúncias. São momentos de oração, de mortificação, para que triunfe a luz, o convite divino, por cima dos cálculos humanos. Porque o homem, diante da chamada de Deus, permanece sempre livre. Por isso pode responder com generosidade, ou ser cobarde, como o jovem de que nos fala o Evangelho. A falta de generosidade para seguir a própria vocação produz sempre tristeza.

21. «Na sua concisa eloquência — assinala João Paulo II comentando este passo—, este acontecimento profunda­mente penetrante exprime uma grande lição em poucas palavras: toca problemas substanciais e questões de fundo que não perderam, de modo algum, a sua importância. Em toda a parte os jovens se propõem problemas impor­tantes: problemas sobre o significado da vida, sobre o modo recto de viver, sobre a verdadeira escala de valores: ‘Que hei-de fazer? Que hei-de fazer para conseguir a vida eterna?’ (…) Por isto vos digo a cada um de vós: escutai o chamamento de Cristo quando sentis que vos diz: ‘Segue-Me’. Caminha sobre os Meus passos. Vem ao Meu lado! Permanece no Meu amor! É uma opção que se faz: a opção por Cristo e pelo Seu modelo de vida, pelo Seu mandamento de amor!

«A mensagem de amor que Cristo traz é sempre impor­tante, sempre interessante. Não é difícil de ver como o mundo de hoje, apesar da sua beleza e grandeza, apesar das conquistas da ciência e da tecnologia, apesar dos refinados e abundantes bens materiais que oferece, está ávido de mais verdade, de mais amor, de mais alegria. E tudo isto se encontra em Cristo e no Seu modelo de vida (…). Diante destes problemas e destas desilusões, muitos tratarão de fugir das próprias responsabilidades, refugiando-se no egoísmo, nos prazeres sexuais, na droga, na violência, no indiferentismo ou numa atitude de cinismo. Mas hoje eu pro­ponho-vos a opção do amor, que é o contrário da fuga. Se vós aceitais realmente este amor que vem de Cristo, este conduzir-vos-á a Deus. Talvez no sacerdócio ou na vida religiosa; talvez em algum serviço especial que presteis a vossos irmãos e irmãs, especialmente aos necessitados, aos pobres, a quem se sente só, aos marginalizados, àqueles cujos direitos foram conculcados, àqueles cujas exigências fundamentais não foram satisfeitas. Qualquer coisa que façais da vossa vida, fazei que seja um reflexo do amor de Cristo» (Homília Boston Common).

22. «A tristeza deste jovem leva-nos a reflectir. Pode­remos ter a tentação de pensar que possuir muitas coisas, muitos bens deste mundo, pode fazer-nos felizes. Pelo contrário, vemos no caso do jovem do Evangelho que as muitas riquezas se converteram em obstáculo para aceitar o chamamento de Jesus a segui-Lo. Não estava disposto a dizer sim a Jesus, e não a si mesmo, a dizer sim ao amor, e não à fuga! O amor verdadeiro é exigente. Não cumpriria a minha missão se não vo-lo tivesse dito com toda a clareza. Porque foi Jesus — o nosso próprio Jesus — quem disse: ‘Vós sois Meus amigos se fizerdes o que vos mando’ (Ioh 15,14). O amor exige esforço e compromisso pessoal para cumprir a vontade de Deus. Significa disciplina e sacrifício, mas significa também alegria e realização humana. Queridos jovens, não tenhais medo a um esforço honesto e a um trabalho honesto; não tenhais medo à verdade. Com a ajuda de Cristo e através da oração, vós podeis responder ao Seu chamamento, resistindo às tentações, aos entusiasmos pas­sageiros e a toda a forma de manipulação de massas. Abri os vossos corações a este Cristo do Evangelho, ao Seu amor, à Sua verdade, à Sua alegria. Não vos vades tristes! (…).

«Segui a Cristo! Vós, esposos, tornai-vos participantes reciprocamente, do vosso amor e das vossas cargas, respeitai a dignidade humana do vosso cônjuge; aceitai com alegria a vida que Deus vos confia; tornai estável e seguro o vosso matrimônio por amor aos vossos filhos.

«Segui a Cristo! Vós, ainda solteiros, ou que vos estais a preparar para o matrimônio, segui a Cristo! Vós, jovens ou velhos, segui a Cristo! Vós, doentes ou anciãos; vós, os que sofreis ou estais aflitos; os que notais a necessidade de cuidados, a necessidade de amor, a necessidade de um amigo: segui a Cristo!

«Em nome de Cristo estendo a todos vós o chamamento, o convite, a vocação: Vem e segue-Me!» (Homília Boston Common).

23-27. O comportamento do jovem rico dá ocasião a Nosso Senhor para expor uma vez mais a doutrina sobre o uso dos bens materiais. Não os condena por si mesmos; são meios que Deus pôs à disposição do homem para o seu desenvolvimento em sociedade com os outros. O apego indevido a eles é o que faz que se convertam em ocasião pecaminosa. O pecado consiste em «confiar» neles, como solução única da vida, voltando as costas à divina Provi­dência. Idolatria chama São Paulo à avareza (Col 3,5). Cristo exclui do Reino de Deus a quem cai nesse apego às riquezas, constituindo-as em centro da sua vida. Ou melhor dito, ele mesmo se exclui.

As riquezas podem seduzir tanto aqueles que já dispõem delas, como aqueles que desejam ardentemente dispor. Por isso há — paradoxalmente — pobres ricos e ricos pobres. Como a inclinação para o apego ou para a confiança nas riquezas é universal, os discípulos desconfiam da salvação: «Então, quem se pode salvar?». Com meios humanos, impossível. Com a graça de Deus, tudo é possível. Cfr a nota a Mt 6,11.

Por outro lado, não pôr a confiança nas riquezas supõe que o que tem bens neste mundo deve empregá-los a ajudar os mais necessitados. Isso exige «muita generosidade, inume­ráveis sacrifícios e um esforço sem descanso. A cada um toca examinar a sua consciência, que tem uma nova voz para a nossa época. Está disposto a sustentar com o seu dinheiro as obras e as empresas organizadas a favor dos mais pobres? A pagar mais impostos para que os poderes públicos inten­sifiquem o seu esforço para o desenvolvimento?» (Populorum progressio, n. 47).

28-30. Jesus Cristo exige a virtude da pobreza a todo o cristão; também exige a austeridade real e efectiva na posse e uso dos bens materiais. Mas aos que receberam um chamamento específico para o apostolado — como é aqui o caso dos Doze—, exige um desprendimento absoluto de bens. riquezas, tempo, família, etc., em razão da sua disponibilidade para o serviço apostólico, à imitação de Jesus Cristo que, sendo o Senhor de todo o universo, Se fez pobre até não ter onde reclinar a cabeça (cfr Mt 8,20). A entrega de todos esses bens pelo Reino dos Céus, traz consigo a libertação do peso deles: é como o soldado que se despoja de um impedimento ao entrar em combate para estar mais ágil de movimentos. Isto produz um certo domínio sobre todas as coisas: já se não é escravo delas e experimenta-se aquela sensação a que aludia São Paulo: «como nada tendo, mas possuindo tudo» (2 Cor 6,10). O cristão que dessa maneira se despojou do egoísmo, adquiriu a caridade, e com ela todas as coisas são suas: «Tudo é vosso, vós sois de Cristo e Cristo de Deus» (1Cor 3,22-23).

Todavia, o prêmio de tudo pôr em Cristo, não será recebido plenamente só na vida eterna, mas já nesta vida. Jesus Cristo fala de uma maneira simples do cem por um, que já receberá aqui quem abandone generosamente as suas coisas.

O Senhor acrescenta «com perseguições» (v. 30), porque estas também são recompensa da fé com que abandonamos as coisas por amor de Jesus Cristo; pois a glória de um cristão é a de se conformar com a imagem do Filho de Deus, tomando parte na Sua Cruz para participar depois da Sua glória: «Desde que padeçamos com Ele, para sermos com Ele também glorificados» (Rom 8,17); «porque todos os que querem viver com piedadeem Cristo Jesusterão de sofrer perseguições» (2 Tim 3,12).

29. Estas palavras do Senhor cumprem-se especial­mente naqueles que por vocação divina abraçam o celibato, renunciando a constituir uma família na terra. Jesus, ao dizer «por Minha causa e por causa do Evangelho», está a indicar que o Seu exemplo e as exigências da Sua doutrina dão pleno sentido a este modo de vida: « É, pois, o mistério da novidade de Cristo, de tudo o que Ele é e significa; é a suma dos mais altos ideais do Evangelho e do Reino; é uma manifestação especial da graça que brota do mistério pascal do Redentor, que torna desejável e digna a escolha da virgindade por parte dos chamados pelo Senhor Jesus, com a intenção não só de participar do Seu ofício sacerdotal, mas também de compartilhar com Ele o Seu próprio estado de vida» (Sacerdotalis caelibatus, n. 23).

15.10.2012 – Lc 11, 29-32

29Como as multidões tivessem afluído em massa, começou a dizer: Esta geração é uma geração perversa: pede um sinal, mas não lhe será dado nenhum sinal, a não ser o sinal de Jonas. 30Pois, do mesmo modo que Jonas foi um sinal para os Ninivitas, assim o será também o Filho do homem para esta geração. 31A rainha do Sul há-de surgir na altura do Juízo com os homens desta geração e con­dená-los-á, porque veio dos confins da Terra para ouvir a sabedoria de Salomão, e está aqui algo mais do que Salomão. 32Os homens de Nínive hão-de ressuscitar na altura do Juízo com esta geração e hão-de condená-la, porque, à pregação de Jonas, fizeram peni­tência, e está aqui algo mais do que Jonas.

Comentário

29-32. Jonas foi o profeta que levou os ninivitas à penitência porque na sua pregação e nas suas obras, na sua pessoa e na sua vida, reconheceram o sinal de um enviado de Deus (cfr a nota a Mt 12,41-42).

16.10.2012 – Lc 11, 37-41

37Enquanto falava, convidou-O um fariseu para almoçar consigo. 38Ele entrou e pôs-Se à mesa. O fariseu viu e admirou-se de que não Se tivesse lavado primeiro, antes do almoço. 39Disse-lhe o Senhor: Vós então, os Fariseus!… Vós limpais o exterior do copo e do prato, mas o vosso interior está cheio de rapina e malvadez. 40Insensatos! Não fez o interior Aquele que fez o exterior? 4lDai antes de esmola o que está dentro, e tudo para vós ficará limpo.

Comentário

39-52. Neste passo — um dos mais duros do Evangelho — Jesus Cristo desmascara de modo veemente o vício com que o judaísmo oficial mais se opôs à aceitação da Sua doutrina: a hipocrisia revestida de legalismo. Há pessoas que, sob a capa de bem, cumprindo a mera letra dos preceitos, não cumprem o seu espírito; não se abrem ao amor de Deus e do próximo; endurecem-se no seu coração e com aparência de honorabilidade afastam os homens do caminho de entrega fervorosa a Deus, tornando intolerável a virtude. Jesus Cristo desmascara-os com tanta veemência porque são piores que os inimigos manifestos; destes qualquer se pode defender; daqueles é pouco menos que impossível. De facto, os escribas e os fariseus estavam a impedir a passagem ao povo que queria seguir Jesus, constituindo-se no obstáculo mais malicioso ao Evangelho. As invectivas contra os escri­bas e os fariseus que São Lucas recolhe aqui encontram-se também no capítulo vinte e três de São Mateus, inclusivamente com maior amplitude. Cfr a nota a Mt 23,1-39.

40-41. O sentido deste texto não é fácil de captar. Provavelmente Nosso Senhor aproveita o jogo de palavras «o de fora» e «o de dentro», por ocasião da limpeza de copos e pratos, para dar um ensinamento acerca da importância primordial do interior do homem sobre as meras aparências, contra o erro comum dos fariseus e a tendência frequente de tantas pessoas. Assim, com estas palavras Jesus admoesta-nos dizendo que em vez de andar tão preocupados pelas coisas «de fora» nos devem preocupar sobretudo as «de dentro». Aplicado ao caso da esmola, o que importa é dar generosamente dos bens que guardamos de forma egoísta: isto é, não basta dar umas moedas, que é algo que pode ficar apenas na exterioridade, mas há que dar aos outros o amor, a compreensão, o convívio delicado, o respeito pela sua liberdade, a preocupação profunda pelo seu bem espiritual e material…, que são irrealizáveis sem disposições interiores de amor ao próximo.

O Papa João Paulo II explicava assim, numa alocução aos jovens, o significado genuíno da esmola: «Esmola, palavra grega, significa etimologicamente compaixão e misericórdia. Circunstâncias diversas e influxos de uma mentalidade restritiva alteraram e profanaram de certo modo o seu significado primigênio, reduzindo-o talvez a um acto sem espírito e sem amor. Mas a esmola, em si mesma, entende-se essencialmente como atitude do homem que adverte a necessidade dos outros, que quer tornar partici­pantes os outros do próprio bem. Quem diria que não haverá sempre outro que tenha necessidade de ajuda, antes de mais espiritual, de apoio, de consolação, de fraternidade, de amor? O mundo está sempre muito pobre de amor» (Alocução aos jovens, 28-111-1979).

17.10.2012 – Lc 11, 42-46

42Mas ai de vós, Fari­seus, porque pagais o dízimo da hortelã, da arruda e de todas as plantas hortenses, e descurais a justiça e o amor de Deus. Estas são as coisas que devíeis praticar, sem omitir aquelas. 43Ai de vós, Fariseus, porque gostais do primeiro lugar nas sinagogas e dos cum­primentos nas praças. 44Ai de vós, porque sois como os túmulos dissimulados: os homens que lhes passam por cima não o sabem. 45Ora um dos Legislas tomou a palavra e disse-Lhe: Mestre, dizendo isso, também a nós nos insultas! 46Mas Ele respondeu: Ai de vós também, Legislas, porque carregais os homens com fardos difíceis de levar, e vós nem com um dedo lhes locais.

Comentário

42. Segundo a Lei de Moisés havia que pagar o dízimo das colheitas (cfr Lev 27, 30-33; Dt 12,22 ss.; etc.) para contribuir para a sustentação do culto no Templo. Os produtos insignificantes não estavam sujeitos a esta Lei. A arruda é uma planta amarga e medicinal que se usava antigamente entre os judeus. Discutia-se entre eles se a arruda devia entrar ou não no pagamento dos dízimos. Os fariseus, levados por uma extrema meticulosidade, ensi­navam que devia pagar-se.

44. Segundo a Antiga Lei quem tocasse uma sepultura ficava impuro durante sete dias (Num 19,16); não obstante, podia acontecer que com o decorrer do tempo, por causa da terra acumulada e da erva que a cobria, a sepultura ficasse imperceptível para quem passasse por cima. O Senhor toma esta comparação para desmascarar a hipocrisia dos Seus interlocutores: são cumpridores dos mais pequenos pormenores mas esquecem os deveres fundamentais, a justiça e o amor a Deus (v. 42). Limpos por fora e ao mesmo tempo com um coração cheio de malícia e podridão (v. 39), dissimulam para parecer justos e, como vivem das aparên­cias, preocupam-se por cultivá-las; sabem que a virtude é motivo de honra, e interessam-se por simulá-la (v. 43). Isto é, a sua vida caracteriza-se pela dissimulação e pelo dolo.

18.10.2012 – Lc 10, 1-9

Depois disto, designou o Senhor outros setenta e dois e mandou-os dois a dois, à Sua frente, a todas as cidades e lugares aonde Ele havia de ir. 2Dizia-lhes Ele: A messe é grande, mas os trabalha­dores são poucos. Pedi, portanto, ao dono da messe que mande trabalhadores para a sua messe. 3Ide e olhai que vos envio como cordeiros para o meio de lobos. 4Não leveis bolsa, nem saco, nem sandálias. Não cumpri­menteis ninguém pelo caminho. 5Em qual quer casa onde entrardes, dizei primeiro: «Paz a esta casa». 6E, se lá houver um homem de paz, sobre ele irá repousar a vossa paz. Senão, a vós há-de voltar. ‘Ficai nessa mesma casa, comendo e bebendo do que tiverem, pois o trabalhador merece o seu salário. Não andeis de casa em casa. 8Em qualquer cidade onde entrardes e vos receberem, comei o que vos servirem, 9curai os enfermos que nela houver e dizei-lhes: «Está perto de vós o Reino de Deus».

Comentário

1-12. Entre os que seguiam o Senhor e tinham sido chamados por Ele (cfr Lc 9,57-62), além dos Doze, havia numerosos discípulos (cfr Mc 2,15). Os nomes da maioria são para nós desconhecidos; não obstante, entre eles contavam-se com, toda a segurança aqueles que estiveram com Jesus desde o baptismo de João até à Ascensão do Senhor: por exemplo, José chamado Barsabas e Matias (cfr Act 1,21-26). De modo semelhante podemos incluir Cléofas e o seu companheiro, aos quais Cristo ressuscitado apareceu no caminho de Emaús (cfr Lc 24,13-35).

De entre todos aqueles discípulos, o Senhor escolhe setenta e dois para uma missão concreta. Exige-lhes, tal como aos Apóstolos (cfr Lc 9,1-5). desprendimento total e abandono completo à Providência divina.

Desde o Baptismo cada cristão é chamada por Cristo a cumprir uma missão. Com efeito, a Igreja, em nome do Senhor «pede instantemente a todos os leigos que respondam com decisão de vontade, ânimo generoso e disponibilidade de coração à voz de Cristo, que nesta hora os convida com maior insistência, e ao impulso do Espírito Santo. Os mais. novos tomem como dirigido a si de modo particular este chamamento, e recebam-no com alegria e magnanimidade. Com efeito, é o próprio Senhor que, por meio deste sagrado Concilio, mais uma vez convida todos os leigos a que se unam a Ele cada vez mais intimamente, e sentindo como próprio o que é d’Ele (cfr Phil 2,5), se associem à Sua missão salvadora. É Ele quem de novo os envia a todas as cidades e lugares aonde há-de chegar (cfr Lc 10,1); para que, nas diversas formas e modalidades do apostolado único da Igreja, se tornem verdadeiros cooperadores de Cristo, traba­lhando sempre na obra do Senhor com plena consciência de que o seu trabalho não é vão no Senhor (cfr 1Cor 15, 28)» (Apostolicam actuositatem, n. 33).

3-4. Cristo quer inculcar nos Seus discípulos a audácia apostólica; por isso diz «Eu vos envio», que São João Crisóstomo comenta: «Isto basta para vos dar ânimo, isto basta para que tenhais confiança e não temais os que vos atacam» (Hom. sobre S. Mateus, 33). A audácia dos Apóstolos e dos discípulos vinha desta confiança segura de terem sido enviados pelo próprio Deus: actuavam, como explicou com firmeza o próprio Pedro ao Sinédrio, em nome de Jesus Cristo Nazareno, «pois não foi dado aos homens outro nome debaixo do céu pelo qual podemos salvar-nos» (Act 4,12).

«E continua o Senhor — acrescenta São Gregório Magno — ‘Não leveis bolsa nem saco nem sandálias, e não cumpri­menteis ninguém pelo caminho’. Tanta deve ser a confiança que há-de ter em Deus o pregador, que ainda que não se proveja das coisas necessárias para a vida, deve estar persuadido de que não lhe hão-de faltar, não seja que enquanto se ocupa em prover-se das coisas temporais, deixe de procurar para os outros as eternas» (In Evangelia homiliae, 17). O apostolado exige uma entrega generosa que leva ao desprendimento: por isso, Pedro, o primeiro a pôr em prática o mandamento do Senhor, quando o mendigo da Porta Formosa lhe pediu uma esmola (Act 3,2-3), disse1: « Não tenho ouro nem prata» (Ibid., 3,6), «não tanto para se gloriar da sua pobreza — assinala Santo Ambrósio — como da sua obediência ao mandamento do Senhor, como dizendo: vês em mim um discípulo de Cristo, e pedes-me ouro? Ele deu-nos algo muito mais valioso que o ouro, o poder de agir em Seu nome. Não tenho o que Cristo não me deu, mas tenho o que me deu: ‘Em nome de Jesus, levanta-te e anda’ (Act 3,6)» (Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc.). O apostolado exige, portanto, desprendimento dos bens materiais; e também exige estar sempre dispostos, porque a tarefa apostólica é urgente.

«Não cumprimenteis ninguém pelo caminho»: «Como pode ser — pergunta-se Santo Ambrósio — que o Senhor queira eliminar um costume tão cheio de humanidade? Considera, porém, que não diz apenas ‘não cumprimenteis ninguém’, mas que acrescenta ‘pelo caminho’. E isto não é supérfluo.

«Também Eliseu, quando enviou o seu servo a impor o seu bastão sobre o corpo do menino morto, lhe mandou que não cumprimentasse ninguém pelo caminho (2Reg 4,29): deu-lhe ordem de se apressar para cumprir com rapidez a tarefa e realizar a ressurreição, não acontecesse que, por se entreter a falar com algum transeunte, atrasasse o seu encargo. Aqui não se trata então de evitar a urbanidade de cumprimentar, mas de eliminar um possível obstáculo ao serviço; quando Deus manda, o humano deve ser deixado a um lado, pelo menos por algum tempo. Cumprimentar é uma coisa boa, mas melhor é executar quanto antes uma ordem divina que ficaria muitas vezes frustrada por um atraso» (Ibid.).

6. «Homem de paz » é todo o homem que está disposto a receber a doutrina do Evangelho, que traz a paz de Deus. A recomendação do Senhor aos discípulos de que anunciem a paz há-de ser uma constante em toda a acção apostólica dos cristãos: «O apostolado cristão não é um programa político, nem uma alternativa cultural; significa a difusão do bem, o contágio do desejo de amar, uma sementeira concreta de paz e de alegria» (Cristo que passa, n° 124).

O sentir a paz na nossa alma e à nossa volta é sinal inequívoco de que Deus vem a nós, e um fruto do Espírito Santo (cfr Gal 5,22): «Repele esses escrúpulos que te tiram a paz. — Não é de Deus o que rouba a paz da alma.

«Quando Deus te visitar, hás-de sentir a verdade daquelas saudações: dou-vos a paz…, deixo-vos a paz…, a paz seja convosco… E isto, no meio da tribulação» (Caminho, n° 258).

7. Está claro que o Senhor considera que a pobreza e o desprendimento dos bens materiais há-de ser uma das prin­cipais características do apóstolo (vv. 3-4). Não obstante, consciente das necessidades materiais dos Seus discípulos, deixa assente o princípio de que o ministério apostólico merece a sua retribuição. Por isso o Concilio Vaticano II recorda a obrigação que todos temos de contribuir para a sustentação dos que generosamente se entregam ao serviço da Igreja: «Entregues ao serviço de Deus, pelo desempenho do cargo que lhes foi confiado, os presbíteros são merecedores da justa recompensa, visto que o operário é digno do seu salário (Lc 10,7) e o Senhor ordenou àqueles que anunciam o Evangelho, que vivam do Evangelho (1Cor 9,14). Por isso, onde não se tiver providenciado de outra maneira à justa remuneração dos presbíteros, os mesmos fiéis, em cujo benefício eles trabalham, têm verdadeira obrigação de procurar os meios necessários para que levem uma vida digna e honesta» (Presbyterorum ordinis, n. 20).

19.10.2012 – Lc 12, 1-7

Entretanto, acumulando-se a multidão por muitos milhares, a ponto de se pisarem uns aos outros, começou Jesus a dizer, em primeiro lugar para os discípulos: Acautelai-vos do fermento dos Fariseus, que é a hipocrisia. 2Nada há encoberto que não venha a descobrir-se, nem oculto que não venha a conhecer-se. 3Por isso mesmo, tudo o que tiverdes proferido às escuras ouvir-se-á em plena luz, e o que tiverdes dito ao ouvido, nos recintos interiores, apregoar-se-á em cima dos terraços.

4Digo-vos a vós, meus amigos: Não temais os que matam o corpo e, depois disso, nada mais têm que fazer. 5Mostrar-vos-ei a quem deveis temer: Temei Aquele que, depois de matar, tem poder para lançar na Geena. Sim, vos digo Eu, temei Esse. 6Não se ven­dem cinco passarinhos por dois asses? E nem um deles está esquecido diante de Deus. 7Mas até os cabelos da cabeça vos estão todos contados. Não temais: tendes mais valor que muitos passarinhos.

Comentário

3- O tecto das casas da Palestina era ordinariamente um terraço. Ali se reuniam a conversar, passadas as horas do calor. Jesus adverte os Seus discípulos que assim como nessas tertúlias se comentavam as coisas ditas em privado, também, por muito que os fariseus ocultassem os seus vícios e defeitos com o véu da hipocrisia, estes chegariam a ser conhecidos e comentados por todos.

6-7. Nada — nem mesmo as coisas mais insignifican­tes — escapa aos olhos de Deus, à Sua Providência e ao Seu juízo. Muito menos escaparão as acções dos homens, que serão premiados ou castigados pelo justo e inapelável juízo de Deus. Por isso mesmo, não se deve temer que fique sem recompensa eterna nenhum sofrimento ou perseguição padecidos por seguir a Cristo.

Por outra parte, o ensinamento do v. 5 sobre o temor é completado nos vv. 6 e 7 ao dizer-nos que Deus é o Pai bom que vela por todos nós, muito mais que por esses passari­nhos dos quais também não se esquece. Assim, pois, o nosso temor a Deus não há-de ser servil — fundado no medo ao castigo —, mas um temor filial — o de quem não quer desgostar seu pai —, e que se alimenta da confiança na divina Providência.

20.10.2012 – Lc 12, 8-12

8Eu vos digo: Todo aquele que se tiver declarado por Mim diante dos homens, também o Filho do homem Se há-de declarar por ele diante dos Anjos de Deus. 9Mas quem Me tiver negado diante dos homens será negado diante dos Anjos de Deus.

10E a todo aquele que disser uma palavra contra o Filho do homem perdoar-se-á; mas não se perdoará a quem tiver blasfemado contra o Espírito Santo.

11Quando vos levarem às sinagogas, aos magistrados e às autoridades, não vos dê preocupação como ou com que haveis de defender-vos, ou o que haveis de dizer, 12pois o Espírito Santo vos ensinará nessa hora o que deveis dizer.

Comentário

8-9. Conclusão lógica do ensinamento anterior de Cristo: O pior que os males corporais, incluída a morte, são os males da alma — isto é, o pecado —. Aqueles que por medo aos sofrimentos temporais negam o Senhor e não são fiéis às exigências da fé cairão noutro mal muito pior: serão negados pelo próprio Cristo no dia do juízo. Pelo contrário, aqueles que sofram por fidelidade a Cristo penas nesta vida rece­berão o prêmio eterno de ser reconhecidos por Ele, e serão participantes da Sua glória.

10. A blasfêmia contra o Espírito Santo consiste em atribuir maliciosamente ao demônio as acções sobrena­turais. O homem que adopta tal disposição impede que lhe chegue o perdão de Deus e, por isto, não pode ser perdoado (cfr Mt 12,31; Mc 3,28-30). Jesus compreende e desculpa a fraqueza do homem que erra, mas, pelo contrário, não tem essa atitude indulgente com aquele que fecha os olhos e o coração às obras admiráveis do Espírito; assim agiam os fariseus que acusavam Jesus de expulsar os demônios em nome de Beelzebu; assim actua o incrédulo que nega a manifestação da bondade divina na obra de Cristo; ao negá-la, rejeita o convite que Deus lhe faz e situa-se fora da Salvação (cfr Heb 6,4-6; 10,26-31). Veja-se a nota a Mc 3,28-30.

21.10.2012 – Mc 10, 35-45

35Nisto acercam-se d’Ele Tiago e João e dizem-Lhe: Mestre, queremos que nos faças tudo o que Te pedirmos. 36Disse-lhes Ele: Que quereis que vos faça? 37Responderam-Lhe: Concede-nos que nos assentemos um à Tua direita e outro à Tua esquerda, na Tua glória. 38Mas Jesus disse-lhes: Não sabeis o que pedis. Podeis beber o cálice que Eu bebo? Ou ser baptizados com o baptismo com que estou para ser baptizado? 39Podemos — responderam eles. E Jesus: O cálice que Eu bebo, bebê-lo-eis, e no baptismo com que Eu sou baptizado, sereis baptizados também vós. 40Mas o sentar-se à Minha direita ou à Minha esquerda, não Me toca a Mim concedê-lo: é para aqueles para quem está preparado.

41Ao ouvirem isto, os dez começaram a indignar-se com Tiago e João. 42Jesus, porém, chamou-os e disse-lhes: Sabeis que os que são reconhecidos por soberanos das nações as tratam como senhores, e os seus grandes lhes fazem sentir o seu poder. 43Mas entre vós não é assim; pelo contrário, o que entre vós quiser ser grande faça-se vosso servo; 44e quem quiser entre vós ser o primeiro faça-se escravo de todos: 45porque o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a Sua vida em redenção por muitos.

Comentário

35-44. É admirável a humildade dos Apóstolos que não dissimularam os seus momentos anteriores de fraqueza e de miséria, mas as contaram com sinceridade aos primeiros cristãos. Deus quis também que no Santo Evangelho ficasse notícia histórica daquelas primeiras debilidades dos que iam ser colunas inamovíveis da Igreja. São as maravilhas que opera nas almas a graça de Deus. Nunca deveremos ser pessimistas ao considerar as nossas próprias misérias: «Tudo posso n’Aquele que me conforta» (Phil 4,13).

38. Quando pedimos algo na oração devemos estar dispostos a aceitar, por cima de tudo, a vontade de Deus, ainda que não coincida com os nossos desejos: «Sua Majes­tade sabe melhor o que nos convém; não temos que aconselhá-Lo sobre o que nos há-de dar, pois pode com razão dizer-nos que não sabemos o que pedimos» (Moradas, II, 8).

43-45. O exemplo e as palavras do Senhor são como um impulso para que todos sintamos a obrigação de viver o autêntico espírito de serviço cristão. Só o Filho de Deus que desceu do Céu e Se submeteu voluntariamente às humi­lhações (Belém, Nazaré, o Calvário, a Hóstia Santíssima), pode pedir ao homem que se faça o último, se quer ser o primeiro.

A Igreja ao longo da história continua a missão de Cristo ao serviço dos homens: «Com a experiência que tem da humanidade, a Igreja, sem pretender de maneira alguma misturar-se na política dos Estados, ‘só deseja uma coisa: continuar, sob a direcção do Espírito Consolador, a obra de Cristo que veio ao mundo para dar testemunho da verdade, para salvar e não para julgar, para servir e não para ser servido’ «(…) (Gaudium et spes, n. 3). Tomando parte nas melhores aspirações dos homens e sofrendo ao não os ver satisfeitos, deseja ajudá-los a conseguir o seu pleno desenvolvimento, e isto precisamente porque ela lhes propõe o que ela possui como próprio: uma visão global do homem e da humanidade» (Populorum progressio, n. 13).

A nossa atitude há-de ser a do Senhor: servir a Deus e aos outros com visão nitidamente sobrenatural, sem esperar nada em troca do nosso serviço; servir inclusivamente ao que não agradece o serviço que lhe é prestado. Esta atitude cristã chocará sem dúvida com os critérios humanos. Não obstante, o «orgulho» do cristão, identificado com Cristo, consistirá precisamente em servir. Aoservir os outros, o cristão participa da missão de Cristo e alcança assim a sua verdadeira dignidade: « Esta dignidade exprime-se na disponibilidade para servir, segundo o exemplo de Cristo, o qual ‘não veio para ser servido, mas para servir’. Se, portanto, à luz da atitude de Cristo, se pode verdadeiramente ‘reinar’ somente ‘servindo’, ao mesmo tempo este ‘servir’ exige uma tal maturidade espiritual, que se tem de defini-la preci­samente como ‘reinar’. Para se poder servir os outros digna e eficazmente, é necessário saber dominar-se a si mesmo, é preciso possuir as virtudes que tornam possível um tal domínio» (Redemptor hominis, n. 21). Cfr a nota a Mt 20,27-28.

22.10.2012 – Lc 12, 13-21

13Disse-Lhe alguém do meio da multidão: Mestre, diz a meu irmão que reparta comigo a herança. 14Mas Ele respondeu-lhe: Homem, quem Me constituiu juiz ou repartidor entre vós? 15Depois, disse-lhes: Olhai bem e guardai-vos de toda a cobiça, pois não é por alguém ter em abundância que a vida lhe depende dos seus bens. 16E referiu-lhes esta parábola: Teve bom rendimento a fazenda de certo rico. 17Ele pôs-se a discorrer, dizendo consigo: «Que hei-de fazer, pois não tenho onde guardar a minha colheita?» 18Disse então: «Eis o que hei-de fazer: vou deitar abaixo os meus celeiros, para construir uns maiores, e lá guardarei todo o meu trigo e os meus bens. l9Depois, direi à minha alma: O alma, tens muitos bens em depósito para largos anos; descansa, come, bebe, regala-te». 20Deus, porém, disse-lhe: «Insensato! Esta noite, hão-de reclamar-te a tua alma; e o que preparaste para quem será?» 21Assim é o que entesoira para si e não é rico em relação a Deus.

Comentário

13-14. Aquele homem só está interessado nos seus próprios problemas; só vê em Jesus um mestre de reconhe­cida autoridade e prestígio para resolver o seu caso (cfr Dt 21,17). O personagem pode muito bem representar aqueles que recorrem à autoridade religiosa não para pedir uma orientação na sua vida espiritual mas para resolver os assuntos materiais. Jesus, decididamente, desinteressa-Se de semelhante petição. E não é por insensibilidade diante de uma situação de possível injustiça familiar, mas porque intervir em tais assuntos não é próprio da Sua missão reden­tora. O Mestre ensina-nos, com a Sua actuação e com as Suas palavras, que a Sua obra salvífica não se dirige a resolver os muitos conflitos familiares e sociais que se dão entre os homens; Jesus veio dar os princípios e os critérios morais que deverão informar a justa acção dos homens nos assuntos temporais, mas não resolvê-los tecnicamente; para isto dotou-nos de inteligência e de liberdade.

15-21. Depois da sentença do v.15 Jesus expõe a parábola do rico insensato: que loucura é pôr a confiança na acumulação de bens materiais para assegurar a vida cá de baixo, enquanto se esquecem os bens do espírito, que são os que nos asseguram, de verdade e para sempre, pela misericórdia divina, a vida eterna!

Assim explicava Santo Atanásio estas palavras do Senhor: «Quem vive como se tivesse de morrer cada dia — visto que é incerta a nossa vida por natureza — não pecará, já que o bom temor extingue grande parte da desordem dos apetites; pelo contrário, quem julga que vai ter uma vida longa, facilmente se deixa dominar pelos prazeres» (Contra Antígono).

19. A insensatez deste homem consiste em que consi­derou a posse de bens materiais como o único fim da sua existência e a garantia da sua segurança. É legítima a aspiração do homem a possuir o necessário para a sua vida e o seu desenvolvimento, mas ter como bem absoluto a posse de bens materiais acaba por destruir o homem e a sociedade. «Tanto para os povos como para as pessoas, possuir mais não é o fim último. Qualquer crescimento é ambivalente. Embora necessário para permitir ao homem ser mais homem, torna-o contudo prisioneiro no momento em que se transforma no bem supremo que impede de ver mais além. Então os corações endurecem e os espíritos fecham-se, os homens já não se reúnem pela amizade, mas pelo interesse, que bem depressa os opõe e os desune. A busca exclusiva do ‘ter’ forma, então, um obstáculo ao crescimento do ‘ser’ e opõe-se à sua verdadeira grandeza: tanto para as nações como para as pessoas, a avareza é a forma mais evidente do subdesenvolvimento moral» (Populorum progressio, n. 19).

23.10.2012 – Lc 12, 35-38

35Estejam cingidos os vossos rins e a arder as vossas lâmpadas. 36E vós, sede como os homens que esperam o seu senhor, ao voltar do noivado, para, quando vier e bater, lhe abrirem logo a porta. “Felizes daqueles servos que o senhor, quando vier, encontrar vigi­lantes. Em verdade vos digo que se há-de cingir e mandar que se ponham à mesa e, passando diante deles, servi-los-á. 38E felizes deles, se, vindo na segunda ou na terceira vigília, assim os encontrar.

Comentário

35-39. A exortação a estar vigilantes repete-se com frequência na pregação de Cristo e na dos Apóstolos (cfr Mt 24,42; 25,13; Mc 14,34). Por um lado, porque o inimigo está sempre à espreita (cfr 1Pet 5,8), e, por outro, porque quem ama nunca dorme (cfr Cant 5,2). Manifestações concretas dessa vigilância são o espírito de oração (cfr Lc 21,36; 1Pet 4,7) e a fortaleza na fé (cfr 1Cor 16,13). Cfr. a nota a Mt. 25, 1-13).

35. As vestes amplas que usavam os judeus cingiam-se à cinta para poder realizar determinados trabalhos. «Ter as roupas cingidas» é uma imagem clara para indicar que alguém se prepara para o trabalho, a luta, as viagens, etc. (cfr ler 1,17; Eph 6,14; 1Pet 1,13). Do mesmo modo, «ter as lâmpadas acesas» indica a atitude própria do que vigia e espera a vinda de alguém.

24.10.2012 – Lc 12, 39-48

39Ficai sabendo isto: Se o dono da casa tivesse sabido a que hora viria o ladrão, não teria deixado arrom­bar a casa. 40Preparai-vos vós, também, porque na hora em que menos pensais é que vem o Filho do homem.

41Disse-Lhe Pedro: Senhor, é para nós que dizes essa parábola, ou para todos? Res­pondeu o Senhor: Quem será então o admi­nistrador fiel e prudente que o senhor porá à frente do seu pessoal, para dar, a seu tempo, a ração alimentar? 43Feliz daquele servo a quem o senhor, quando vier, assim achar fazendo. ‘”Digo-vos, na verdade, que o porá à frente de todos os seus bens. 45Mas, se aquele servo disser de si para consigo: «tarda em vir o meu senhor», e começar a bater em criados e criadas, a comer, a beber e a embriagar-se, 46o senhor daquele servo che­gará em dia que não espera e a hora que não sabe; então pô-lo-á de parte e fá-lo-á par­tilhar a sorte dos infiéis.47Aquele servo que, sabendo o que o senhor queria, o não tiver preparado ou não tiver cumprido a vontade dele, levará muitas vergastadas. 48Aquele, porém, que não tiver sabido, mas tiver feito coisas que mereçam vergastadas, levará algumas. A todo aquele a quem muito foi dado muito será exigido, e àquele a quem muito se entregou mais se pedirá.

Comentário

40. Deus quis ocultar o momento da morte de cada um e do fim do mundo. Imediatamente depois da morte, todo o homem comparece para o juízo particular: «Assim, está estabelecido que os homens morram uma só vez; e depois disto, o juízo» (Heb 9,27). Do mesmo modo, no fim do mundo terá lugar o juízo universal.

41-48. Depois da exortação do Senhor à vigilância, Pedro faz uma pergunta (v.41) cuja resposta é a chave para compreender esta parábola. Por um lado, Jesus insiste no imprevisível do momento em que Deus nos há-de chamar para dar contas; por outro, precisamente como resposta à pergunta de Pedro, Nosso Senhor explica que o seu ensina­mento se dirige a todos. Deus pedirá contas a cada um segundo as suas circunstâncias pessoais: todo o homem tem nesta vida uma missão para cumprir; dela teremos de responder diante do tribunal divino e seremos julgados segundo os frutos, abundantes ou escassos, que tenhamos dado.

«Mas, como não sabemos o dia nem a hora, é preciso que, segundo a recomendação do Senhor, vigiemos conti­nuamente, a fim de que no termo da nossa vida sobre a terra, que é só uma (cfr Heb 9,27), mereçamos entrar com Ele para o banquete de núpcias e ser contados entre os eleitos (cfr Mt 25,31-46), e não sejamos lançados, como servos maus e preguiçosos (cfr Mt 25,26), no fogo eterno (cfr Mt 25,41)» (Lumen gentium, n. 48).

25.10.2012 – Lc 12, 49-53

49Eu vim lançar fogo sobre a Terra, e que quero Eu senão que ele já se tenha ateado? 50Tenho um baptismo para receber e que angústias não sinto até que ele se realize! 51Julgais que Eu vim estabelecer a paz na Terra? Não, vos digo Eu, foi antes a divisão. 52Haverá, efectivamente, a partir de agora, cinco divididos numa só casa: três contra dois, e dois contra três; 53dividir-se-ão o pai contra o filho e o filho contra o pai, a mãe contra a filha e a filha contra a mãe, a sogra contra a nora e a nora contra a sogra.

Comentário

49-50. O fogo exprime frequentemente na Bíblia o amor ardente de Deus pelos homens (cfr Dt 4,24; Ex 13,22; etc.). No Filho de Deus feito homem alcança esse amor divino a sua máxima expressão: «De tal maneira amou Deus o mundo que lhe entregou o Seu Filho Unigênito» (Ioh 3,16). Jesus entrega voluntariamente a Sua vida por amor de nós, e «ninguém tem maior amor que o de dar a vida pelos seus amigos» (Ioh 15,13).

Com as palavras que nos transmite São Lucas, Jesus Cristo revela as ânsias irreprimíveis de dar a Sua vida por amor. Chama Baptismo à Sua morte, porque dela vai sair ressuscitado e vitorioso para nunca mais morrer. O nosso Baptismo é um submergir-nos nessa morte de Cristo, na qual morremos para o pecado e renascemos para a nova vida da graça: «Pois fomos sepultados juntamente com Ele por meio do Baptismo em ordem à morte, para que, assim como Cristo ressuscitou de entre os mortos pela glória do Pai, assim também nós caminhemos numa vida nova» (Rom 6,4).

Nós, os cristãos, devemos ser, com essa nova vida, fogo que acende como Jesus acendeu os Seus discípulos: «Com a maravilhosa normalidade do divino, a alma contemplativa derrama-se em afã apostólico: ardia-me o coração dentro do peito, ateava-se o fogo na minha meditação (Ps XXXVIII,4). Que fogo é esse senão aquele de que fala Cristo: Vim trazer fogo à Terra: e que quero eu, senão que se acenda? (Lc XII,49). Fogo de apostolado que se robustece na oração: não há meio melhor do que este para desenvolver através de todo o mundo essa batalha pacífica em que cada cristão está chamado a participar: cumprir o que falta padecer a Cristo (cfr Col 1,24)» (Cristo que passa, n° 120).

51-53. Deus veio ao mundo com uma mensagem de paz (cfr Lc 2,14), de reconciliação (cfr Rom 5,11). Mas, ao resis­tirmos pelo nosso pecado à obra redentora de Cristo, opomo-nos a Ele. A injustiça e o erro provocam a divisão e a guerra. «Na medida em que os homens são pecadores, o perigo da guerra ameaça-os e continuará a ameaçá-los até à vinda de Cristo; mas na medida em que, unidos em cari­dade, superam o pecado, superadas ficam também as lutas» (Gaudium et spes, n. 78).

Na Sua própria vida na terra, Cristo foi sinal de contra­dição (cfr Lc 2,34). O Senhor previne os discípulos das lutas e divisões que acompanharão a difusão do Evangelho (cfr Lc 6,20-23; Mt 10,34).

26.10.2012 – Lc 12, 54-59

54Dizia também às multidões: Quando vedes uma nuvem levantar-se no Poente, dizeis logo: «vem lá chuva», e assim sucede. 55E quando é o vento sul a soprar, dizeis: «vai haver muito calor», e há. 56Hipócritas! O cariz da terra e do céu sabeis vós interpre­tá-lo, e este tempo, como é que o não inter­pretais? 57Porque não discernis também, por vós mesmos, o que é justo?

58Por isso, quando fores com o teu adver­sário ao magistrado, dá-te ao cuidado, no caminho, de te veres livre dele, não vá ele arrastar-te ao juiz, o juiz entregar-te ao oficial de justiça, e o oficial de justiça meter-te na prisão. 59Eu to digo: De lá não sairás enquanto não pagares até ao último tostão.

Comentário

56. Os que escutavam Jesus sabiam por experiência predizer o tempo. Todavia, conhecendo os sinais anuncia­dos pelos profetas sobre a vinda do Messias, escutando agora os Seus ensinamentos e vendo os Seus milagres, não querem reconhecê-los nem tirar as consequências; falta-lhes boa vontade e rectidão de intenção e fecham voluntaria­mente os olhos à luz do Evangelho (cfr Rom 1,18 ss.).

Essa posição não foi exclusiva de muitos dos contempo­râneos de Jesus Cristo, volta-se a produzir de modo muito especial nos nossos dias, revestindo algumas das formas do ateísmo reprovadas pelo Concilio Vaticano II: «Sem dúvida que não estão imunes de culpa todos aqueles que procuram voluntariamente expulsar Deus do seu coração e evitar os problemas religiosos, não seguindo o ditame da própria consciência» (Gaudium et spes, n. 19).

 

27.10.2012 – Lc 13, 1-9

Nessa ocasião, apareceram alguns a Necessidade dar-Lhe a notícia dos Galileus, cujo da conversão sangue Pilatos havia misturado com o dos sacrifícios deles. 2Disse-lhes Ele, em resposta: Julgais que esses Galileus, por terem sofrido tal pena, eram mais pecadores que todos os outros Galileus? 3Não, digo-vos Eu; mas, se vos não arrependerdes, perecereis todos igualmente. 4E aqueles dezoito sobre os quais caiu a torre em Siloá e os matou! Julgais que eles eram mais culpados que todos os outros habitantes de Jerusalém? 5Não, digo- vos Eu; mas, se vos não arrependerdes, perecereis todos de maneira semelhante.

6Expôs-lhes então a seguinte parábola: Certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha e foi buscar a fruta que nela houvesse, mas não a encontrou. 7Disse então ao vinhateiro: «Há já três anos que venho buscar a fruta que haja nesta figueira e não a encontro. Corta-a. Para que está ela a tornar a terra inútil?» 8Mas este diz-lhe, em res­posta: «Senhor, deixa-a mais este ano, que eu, entretanto, vou cavar-lhe em volta e dei­tar-lhe estrume; 9talvez venha a dar fruto no futuro! Se não, mandá-la-ás cortar».

Comentário

1-5. O Senhor servia-Se dos acontecimentos com actualidade para dar doutrina às multidões. O caso dos galileus poderia ser o mesmo episódio a que alude o livro dos Actos (Act 5,37), e reflecte o ambiente do tempo de Jesus, em que Pilatos reprimia com dureza cruel qualquer tentativa de revolta política. A propósito do acidente de Siloé não temos mais notícias que as que nos dá aqui o Evangelho.

O facto de aquelas pessoas padecerem tais desgraças não se devia a que fossem piores que os outros, porque Deus nem sempre castiga nesta vida os pecadores (cfr Ioh 9,3). Todos somos pecadores e merecemos um castigo pior que o das desgraças terrenas: o castigo eterno; mas Cristo, veio reparar pelos nossos pecados e abriu-nos as portas do Céu. Nós temos de nos arrepender dos nossos pecados porque só assim Deus nos livrará do castigo merecido. «Quando vier o sofrimento, o desprezo…, a Cruz, considera: que é isto, para o que eu mereço?» (Caminho, n° 690).

3. «Ele diz-nos que, sem o santo Baptismo, ninguém entrará no Reino dos Céus (cfr Ioh 3,5); e noutro lugar, que se não fizermos penitência todos pereceremos (Lc 13,3). Tudo se compreende facilmente. Desde que o homem pecou, todos os seus sentidos se rebelaram contra a razão; por conseguinte, se quisermos que a carne esteja submetida ao espírito e à razão, é necessário mortificá-la; se quisermos que o corpo não faça a guerra à alma, é preciso castigá-lo a ele e a todos os sentidos; se quisermos ir a Deus, é neces­sário mortificar a alma com todas as suas potências» (Sermões escolhidos, Quarta Feira de Cinzas).

6-9. O Senhor insiste na necessidade de produzir frutos abundantes (cfr Lc 8,11-15) correspondendo às graças rece­bidas (cfr Lc 12,48). Junto a este imperativo profundo, Jesus Cristo põe em relevo a paciência de Deus na espera desses frutos. Ele não quer a morte do pecador, mas que se converta e viva (Ez 33,11) e, como ensina São Pedro, «usa de paciência convosco, não querendo que alguns pereçam mas que todos cheguem à conversão» (2Pet 3,9). Esta clemência divina, porém, não nos pode levar a descuidar os nossos deveres, adoptando uma posição de preguiça e de comodidade que tornaria estéril a própria vida. Deus ainda que seja misericordioso também é justo, e castigará as faltas de correspondência à Sua graça.

«Há um caso que nos deve doer sobremaneira: o daque­les cristãos que podiam dar mais e não se decidem; que podiam entregar-se totalmente vivendo todas as consequências da sua vocação de filhos de Deus, mas resistem a ser generosos. Deve-nos doer, porque a graça da Fé não se nos dá para ficar oculta, mas para brilhar diante dos homens (cfr Mt V, 15-16); porque, além disso, está em jogo a felicidade temporal e eterna dos que procedem assim. A vida cristã é uma maravilha divina, com promessa de imediata satisfação e serenidade, mas com a condição de sabermos apreciar o dom de Deus. (Cfr. Ioh 4, 10), sendo generosos sem medida» (Cristo que passa, n° 147).

28.10.2012 – Mc 10, 46-52

46Chegam a Jerico. E, ao partirem de Jerico Ele e os discípulos e uma grande multidão, estava Bartimeu, filho de Timeu, cego e men­digo, sentado à beira da estrada. 47Ouvindo que era Jesus de Nazaré, começou a gritar: Filho de David, Jesus, tem compaixão de mim. 48Muitos increpavam-no para que se calasse. Mas ele gritava muito mais: Filho de David, tem compaixão de mim. 49Parou Jesus e disse-lhe: Chamai-o. Chamam o cego e dizem-lhe: Ânimo! Levanta-te, que te chama. 50Ele, lançando para o lado o manto, levantou-se; de um salto e veio ter com Jesus. 51E Jesus perguntou-lhe: Que queres que te faça? Res­pondeu-Lhe o cego: Raboni, que eu veja. 52E Jesus: Vai! A tua fé te salvou. E logo recuperou a vista e O seguia na viagem.

Comentário

46-52. «Ouvindo aquele grande vozear das pessoas, o cego perguntou: o que é isto? Responderam-lhe: é Jesus de Nazaré. Então inflamou-se-lhe tanto a alma na fé em Cristo, que gritou: Jesus, Filho de David, tem piedade de mim.

«Não te dá vontade de gritar, a ti que também estás parado na beira do caminho, desse caminho da vida que é tão curta; a ti, a quem faltam luzes; a ti, que necessitas de mais graça para te decidires a procurar a santidade? Não sentes urgência em clamar: Jesus, Filho de David, tem piedade de mim? Que bela jaculatória para repetires com frequência! (…).

«Muitos repreendiam-no para o fazer calar. Tal como a ti quando suspeitaste de que Jesus passava a teu lado. Acelerou-se o bater do teu coração e começaste também a clamar movido por uma íntima inquietação. E amigos, costumes comodidade, ambiente, todos te aconselharam: cala-te, não grites! Porque é que hás-de chamar por Jesus? Não C incomodes!

« Mas o pobre Bartimeu não os ouvia e continuava ainda com mais força: Filho de David, tem piedade de mim O Senhor, que o ouviu desde o começo, deixou-o persevera na sua oração. Contigo, procede da mesma maneira. Jesus apercebe-Se do primeiro apelo da nossa alma, mas espera. Quer que nos convençamos de que precisamos d ‘Ele: quer que Lhe roguemos, que sejamos teimosos, como aquele cego que estava à beira do caminho, à saída de Jerico. Imite­mo-lo. Ainda que Deus não nos conceda imediatamente o que Lhe pedimos e, apesar de muitos procurarem afastar-nos da oração, não cessemos de Lhe implorar (Hom. sobre S. Mateus, 66).

«Jesus, parando, mandou chamá-lo. E alguns dos melhores que O rodeiam, dirigem-se ao cego: Tem confiança; levan­ta-te; Ele chama-te. E a vocação cristã! Mas, na vida de cada um de nós, não há apenas um chamamento de Deus. O Senhor procura-nos a todo o instante: levanta-te — diz-nos — e sai da tua preguiça, do teu comodismo, dos teus pequenos egoísmos, dos teus problemazinhos sem impor­tância. Desapega-te da terra; estás aí rasteiro, achatado e informe. Ganha altura, peso, volume e visão sobrenatural.

«Aquele homem, deitando fora a capa, levantou-se de um salto e foi ter com Jesus. Atirou a capa! Não sei se estiveste alguma vez na guerra. Há já muitos anos, tive ocasião de andar por um campo de batalha, algumas horas depois de ter acabado a luta. Lá havia, abandonados pelo chão, mantas, cantis e mochilas cheias de recordações de família: cartas, fotografias de pessoas queridas… E não pertenciam aos derrotados, mas aos vitoriosos! Tudo aquilo lhes sobrava para correrem mais depressa e saltarem as trincheiras do inimigo. Tal como acontecia com Bartimeu, para correr atrás de Cristo.

«Não te esqueças de que, para chegar até Cristo, é preciso o sacrifício. Deitar fora tudo o que estorva: manta, mochila, cantil. Tens de proceder da mesma maneira nesta luta pela glória de Deus, nesta luta de amor e paz, com que procuramos difundir o reinado de Cristo. Para servires a Igreja, o Romano Pontífice e as almas, deves estar disposto a renun­ciar a tudo o que sobeja (…).

«E imediatamente começa um diálogo divino, um diá­logo maravilhoso, que abrasa, porque tu e eu somos agora Bartimeu. Da boca divina de Cristo sai uma pergunta: quid tibi vis fadam? Que queres que te faça? E o cego: Mestre, faz que eu veja. Que coisa mais lógica! E tu, vês? Não te aconteceu já, alguma vez, o mesmo que a esse cego de Jerico? Não posso agora deixar de recordar que, ao meditar neste passo há já muitos anos e ao compreender então que Jesus esperava alguma coisa de mim — algo que eu não sabia o que era! — compus para mim, umas jaculatórias: Senhor, que queres? Que me pedes? Pressentia que me procurava para uma realidade nova e o Rabboni, ut videam — Mestre, que eu veja — levou-me a suplicar a Cristo, numa oração contínua: Senhor, que se faça isso que Tu queres.

«Rezai comigo ao Senhor: doce me facere voluntatem tuam, quia Deus meus es tu, ensina-me a cumprir a Tua vontade, porque Tu és o meu Deus. Por outras palavras: que brote dos nossos lábios o afã sincero por corresponder, com um desejo eficaz, aos convites do nosso Criador, procurando seguir os Seus desígnios com uma fé inquebrantável, com a convicção de que Ele não pode falhar (…).

«Mas voltemos à cena que se desenrola à saída de Jerico. Agora é contigo que Cristo fala. Diz-te: que queres de Mim? Que eu veja, Senhor, que eu veja! E Jesus: Vai, a tua fé te salvou. Nesse mesmo instante, começou a ver e seguia-O pelo caminho. Segui-Lo pelo caminho. Tu tomaste conhecimento do que o Senhor te propunha e decidiste acompanhá-lo pelo caminho. Tu procuras seguir os Seus passos, vestir-te com as vestes de Cristo, ser o próprio Cristo: portanto, a tua fé — fé nessa luz que o Senhor te vai dando — deverá ser operativa e sacrificada. Não te iludas, não penses em descobrir novas formas. É assim a fé que Ele nos pede: temos de andar ao Seu ritmo com obras cheias de generosidade, arrancando e abandonando tudo o que seja estorvo» (Amigos de Deus, n.195-198).

29.10.2012 – Lc 13, 10-17

10Estava Jesus um sábado a ensinar em uma das sinagogas. 11Encontrava-se Ia uma mulher com um espírito, que a tornava enferma havia dezoito anos: andava recurvada e não podia de todo endireitar-se. 12Ao vê-la, Jesus chamou-a e disse-lhe: Mulher, estás livre da tua enfermidade, 13E impôs-lhe as mãos. Ela endireitou-se imediata­mente e começou a dar glória a Deus.

14Mas o chefe da sinagoga, tomando a palavra, indignado por Jesus ter curado ao sábado, pôs-se a dizer à multidão: Seis dias há em que se deve trabalhar. Vinde, pois, curar-vos nesses dias e não em dia de sábado. 15Respondeu-lhe o Senhor, dizendo: Hipó­critas! Não solta cada um de vós, ao sábado, o seu boi, o seu jumento, da manjedoira, para o levar a beber? 16E esta, que é filha de Abraão, e Satanás prendera há já dezoito anos, não devia libertar-se desse jugo em dia de sábado? 17Enquanto assim falava, iam ficando envergonhados todos os Seus adver­sários, e a multidão inteira alegrava-se com todas as maravilhas que Ele realizava.

Comentário

14-17. Como de costume o Senhor foi à sinagoga em dia de Sábado. Ao observar a presença daquela mulher, doente há tantos anos, Jesus exerce o Seu poder e a Sua misericórdia com ela e cura-a. A reacção da gente simples é de entusiasmo e de agradecimento. Mas o chefe da sinagoga, zeloso em aparência pela observância do sábado prescrita na Lei (cfr Ex 20,8; 31,14; Lev 19,3-30), reprova publica­mente o Salvador. Jesus censura com energia a interpre­tação torcida da Lei que faz o chefe da sinagoga e põe em relevo a necessidade da misericórdia e da compreensão, que é o que agrada a Deus (cfr Os 6,6; lac 2,13).

30.10.2012 – Lc 13, 18-21

18Dizia então: A que é semelhante o Reino de Deus e a que hei-de compará-lo? 19É semelhante a um grão de mostarda, que um homem tomou e semeou no seu quintal. Cresceu, veio a ser uma grande árvore, e as aves do céu vieram alojar-se nos seus ramos.

20Disse ainda: A que hei-de comparar o Reino de Deus? 2!E semelhante ao fermento que uma mulher tomou e meteu em três medidas de farinha, até ficar tudo fermen­tado.

Comentário

18-21. O grão de mostarda e o fermento simbolizam a Igreja que, reduzida no princípio a um grupo de discípulos, se foi estendendo com a força do Espírito Santo até acolher nela todos os povos da terra. Já no século II Tertuliano afirmava: «Somos de ontem e enchemos tudo» (Apologeticum, XXXVII). O Senhor «com a parábola do grão de mostarda incita-os à fé e fá-los ver que a pregação do Evangelho se propagará apesar de tudo. Os mais débeis, os mais pequenos entre os homens, eram os discípulos do Senhor, mas como havia neles uma torça grande, esta desen­volveu-se por todo o mundo» (Hom. sobre S. Mateus, 46). Por isso, o cristão não deve desanimar perante a pequenez e debilidade com que aparecem as obras do seu apostolado. Com á graça de Deus e a fidelidade irão crescendo como o grão de mostarda apesar das dificuldades: «Nas horas de luta e contradição, quando talvez ‘os bons’ encham de obstá­culos o teu caminho, levanta o teu coração de apóstolo; ouve a Jesus que fala do grão de mostarda e do fermento. — E diz-Lhe: ‘e dissere nobis parabolam’ — explica-me a parábola.

« E sentirás a alegria de contemplar a vitória futura: aves do céu à sombra do teu apostolado, agora incipiente; e toda a massa fermentada» (Caminho, n° 695).

31.10.2012 – Lc 13, 22-30

22E passava por cidades e aldeias a ensinar, seguindo a caminho de Jerusalém. “Disse-Lhe alguém: Senhor, são poucos os que se salvam? Disse-lhes Ele: 24Esforcai-vos por entrar através da porta estreita, porque muitos, vo-lo digo, tentarão entrar sem o conseguir. 25Uma vez que o dono da casa se levante e feche a porta, e vós comeceis, lá fora, a bater e a dizer: «abre-nos, senhor», ele vos dirá, em resposta: «Não sei donde vós sois». 26Então começareis a dizer: «Comemos e bebemos na Tua presença e Tu ensinaste em nossas praças». 27Mas Ele responderá: «Di­go-vos que não sei donde sois! Afastai-vos de Mim, todos os que obrais a iniquidade». 28Lá haverá pranto e ranger de dentes, quando virdes Abraão, Isaac, Jacob e todos os pro­fetas no Reino de Deus, e vós a serdes postos fora! 29Hão-de vir do Oriente, do Ocidente, do Norte e do Sul; sentar-se-ão à mesa no Reino de Deus. 30E há últimos que serão dos primeiros e há primeiros que serão dos últimos.

Comentário

23-24. Todos os homens estamos chamados a fazer parte do Reino de Deus, porque «Deus quer que todos os homens se salvem» (1Tim 2,4). «Com efeito, aqueles que, ignorando sem culpa o Evangelho de Cristo e a Sua Igreja, procuram, contudo, a Deus com coração sincero, e se esforçam, sob o influxo da graça, por cumprir a Sua vontade, manifestada pelo ditame da consciência, também eles podem alcançar a salvação eterna. Nem a divina Providencia nega os auxílios necessários à salvação àqueles que, sem culpa, não chegaram ainda ao conhecimento explícito de Deus e se esforçam, não sem o auxílio da graça, por levar uma vida recta. Tudo o que de bom e verdadeiro neles há, é conside­rado pela Igreja como preparação para receberem o Evan­gelho, dado por Aquele que ilumina todos os homens, para que possuam finalmente a vida» (Lumen gentium, n° 16).

Em qualquer caso só podem alcançar esta meta da Salvação aqueles que lutam seriamente (cfr Lc 16,16; Mt 11,12). O Senhor exprime esta realidade da nossa vida com a imagem da porta estreita. «A guerra do cristão é incessante, porque na vida interior dá-se um perpétuo começar e reco­meçar, que impede que, com orgulho, nos pensemos já perfeitos. É inevitável que haja muitas dificuldades no nosso caminho; se não encontrássemos obstáculos, não seríamos criaturas de carne e osso. Havemos de ter sempre paixões que nos puxem para baixo e sempre precisaremos de nos defender desses delírios mais ou menos veementes» (Cristo que passa, n° 75).

25-28. Como noutras ocasiões, Jesus alude à vida eterna com a imagem de um banquete (cfr, p. ex., Lc 12,35 ss.; 14,15). Ter conhecido o Senhor e ter escutado a sua palavra não é suficiente para alcançar o Céu; só os frutos da corres­pondência à graça terão valor no juízo divino: «fiem todo o que Me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos Céus; mas o que faz a vontade de Meu Pai que está nos Céus» (Mt 7,21).

29-30. O povo judeu, de modo geral, considerava-se o único destinatário das promessas messiânicas feitas aos Profetas, mas Jesus declara a universalidade da salvação. A única condição que exige é a resposta livre do homem ao chamamento misericordioso de Deus. Ao morrer Cristo na Cruz o véu do Templo rasgou-se pelo meio (Lc 23,45 e par.), em sinal de que acabava a divisão que separava judeus e gentios. São Paulo ensina: «Ele (Cristo) é a nossa paz, Ele que fez de uns e outros um só e derrubou a barreira separatória (…) a fim de, em Si próprio, criar dos dois um só homem novo, estabelecendo a paz, e reconciliar com Deus, pela Cruz, uns e outros num só Corpo, levando, em Si próprio, a morte à inimizade» (Eph 2,14-16). Com efeito, «Ao novo Povo de Deus todos os homens são chamados. Por isso, este Povo, permanecendo uno e único, deve estender-se a todo o mundo e por todos os séculos, para se cumprir o desígnio da vontade de Deus que, no princípio, criou uma só natureza humana e resolver juntar em unidade todos os seus filhos que estavam dispersos» (Lumen gentium, n. 13).