In Evangelho do dia

Março de 2014

01.03.08 – Mc 10, 13-16

13Apresentaram-Lhe umas criancinhas para que as tocasse. Mas os discípulos ralhavam com elas. 14Quando Jesus advertiu, indignou-Se e disse-lhes: Deixai vir a Mim as crian­cinhas; não as estorveis, porque dos que são como elas é o Reino de Deus. 15Em verdade vos digo: quem não receber o Reino de Deus como uma criancinha, não entrará nele. 16E, estreitando-as nos braços, abençoava-as, im­pondo-lhes as mãos.

Comentário

13-16. O relato evangélico reflecte uma espontaneidade e uma vivacidade que enamora o leitor e que se pode relacionar com a figura de São Pedro, a quem Marcos o teria ouvido contar. É uma das poucas ocasiões em que se diz nos Santos Evangelhos que Cristo Se indignou. A causa foi a intolerância dos discípulos, que consideravam inoportuna a pretensão daqueles que apresentavam as crianças para que o Senhor as abençoasse, como uma perda de tempo e uma circunstância aborrecida para o Mestre: Cristo tem coisas mais graves em que pensar para Se ocupar destas crianças, talvez tenham podido pensar. O comportamento dos discí­pulos não é mal-intencionado; simplesmente deixam-se levar por critérios humanos, querendo evitar um aborre­cimento ao Senhor. Não penetraram no que lhes disse pouco antes: «Quem receber um destes meninos em Meu nome, é a Mim que recebe; e quem Me receber, não Me recebe a Mim, mas sim Aquele que Me enviou» (Mc 9,37).

Por outro lado, o Senhor põe em realce com toda a clareza a necessidade que tem o cristão de se tornar como uma criança para entrar no Reino dos Céus: «Para ser pequeno é preciso crer como os meninos creem, amar como os meninos amam, abandonar-se como os meninos se abandonam…, rezar como os meninos rezam» (Santo Rosário, Prólogo). Em última análise, as palavras do Senhor são outra maneira, simples e gráfica, de explicar a doutrina essencial da filiação divina: Deus é nosso Pai e nós Seus filhos; toda a religião se resume na relação de um bom filho com um bom Pai. Esse espírito de filiação divina tem com qualidades: o sentido da dependência do nosso Pai do Céu e o abandono confiante na Sua providência amorosa, do mesmo modo que uma criança confia no seu pai; a humildade de reconhecer que por nós nada podemos; a simplicidade e a| sinceridade, que nos levam a mostrar-nos tal como somos.

02.03.08 – Mt 6, 24-34

24Ninguém pode servir a dois senhores, porque, ou há-de aborrecer um e amar o outro, ou ser dedicado a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e à riqueza.

25Por isso vos digo: Não vos preocupeis pela vossa vida: que haveis de comer ou que haveis de beber; nem pelo vosso corpo: que haveis de vestir. Porventura não vale mais a vida do que o alimento, e o corpo mais do que o vestido? 26Vede as aves do céu, que não semeiam nem ceifam nem enceleiram, e, contudo, vosso Pai celeste as sustenta. Não sois vós, porventura, muito mais do que elas? 27E quem de vós, com todas as suas preocupações, poderá acrescentar um côvado à sua vida? 28E quanto ao vestido, porque vos preocupais? Reparai nos lírios do Campo: como crescem!… e não trabalham nem fiam. 29Ora Eu vos digo que nem Salo­mão, em toda a sua magnificência, se vestiu como um deles. 30Pois, se à erva do campo que hoje é e amanhã se lança no forno, Deus a. veste, quanto mais a vos, homens de pouca fé? 31Náo andeis, pois, preocupados, dizendo: que havemos de comer ou que havemos de beber ou que havemos de vestir? 32Os gentios é que se afanam por estas coisas; bem sabe vosso Pai celeste que vós precisais de todas elas.

33Buscai primeiramente o Reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas se vos darão por acréscimo. 34Por isso, não vos preocupeis com o dia de amanhã, pois que o dia de amanhã se preocupará de si mesmo. Basta a cada dia o seu afã.

Comentário

24. O fim último do homem é Deus. Por este fim o homem deve entregar todo o seu ser. De facto, porém, há quem não ponha em Deus o seu fim último, mas nas riquezas. Neste caso, as riquezas convertem-se no seu deus. O homem não pode dividir-se entre dois fins absolutos e contrários.

25-32. Nesta belíssima página Jesus põe em relevo o valor das realidades correntes da vida. Ao mesmo tempo ensina-nos a pôr a nossa confiança na providência paternal de Deus. Com exemplos e comparações simples, tomados da vida quotidiana, inculca o abandono sereno nas mãos de Deus.

27. Onde se diz «vida», pode dizer-se também «estatura», mas seria versão mais afastada do texto (cfr Lc 12,25). A palavra «côvado» significa uma medida de espaço aplicável também ao tempo metaforicamente.

33. Uma vez mais a justiça do Reino de Deus aparece como a vida de graça no homem; o que leva consigo todo um conjunto de atitudes espirituais e morais, e pode resumir-se no conceito de «santidade». A busca da santidade é a primeira coisa que se deve intentar nesta vida. De novo Jesus insiste na primazia das exigências espirituais. Afirma Sua Santidade o Papa Paulo VI, comentando este passo: «Porquê a pobreza? Para dar a Deus, ao Reino de Deus o primeiro lugar na escala de valores que são objecto das aspirações humanas. Diz Jesus: ‘Buscai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça’; e di-lo em comparação com todos os outros bens temporais, inclusive necessários e legítimos, que normalmente empenham os desejos humanos. A pobreza de Cristo torna possível este desprendimento afectivo das coisas terrenas para pôr à frente das aspirações humanas a relação com Deus» (Audiência geral Paulo VI, 5-1-1977).

34. O Senhor exorta-nos a viver com serenidade cada dia, eliminando preocupações inúteis pelo que aconteceu ontem ou pelo que possa acontecer amanhã. É a sabedoria que se apoia na providência paternal de Deus e na própria experiência quotidiana: «O que observa o vento não semeia; é O que examina as nuvens não cega» (Eccl 11,4).

O importante, o que está nas nossas mãos, é viver diante de Deus e com intensidade o momento presente: «Porta-te bem ‘agora’, sem te lembrares de ‘ontem’, que já passou, e sem te preocupares com o ‘amanhã’, que não sabes se chegará para ti» (Caminho, n.°253).

03.03.14 –Mc 10, 17-27

17Ao sair para Se pôr a caminho, correu a Ele um que, de joelhos, Lhe perguntou: Bom Mestre, que hei-de fazer para alcançar a vida eterna? 18Respondeu-lhe Jesus: Porque Me chamas bom? Ninguém é bom senão só Deus. 19Sabes os mandamentos: Não matar, não adulterar, não roubar, não levantar falsos testemunhos, não defraudar, honrar pai e mãe.

20Mas ele respondeu-Lhe: Mestre, tudo isso tenho eu observado desde a minha mocidade.21 Jesus fitou-o com amor e disse-lhe: Uma só coisa te falta. Vai, vende quanto tens e dá-o aos pobres e terás um tesouro no Céu. Depois vem e segue-Me, tomando a cruz. 22Ouvindo ele estas palavras, anuviou-se-lhe o rosto e afastou-se triste, porque tinha muitos haveres.

23Então Jesus, volvendo em torno o olhar, disse aos discípulos: Quão dificilmente entrarão no Reino de Deus os que tem riquezas! 24Ficaram os discípulos pasmados com as Suas palavras. Mas Jesus tornou a repetir: Meus filhos, como é difícil entrarem no Reino de Deus os que confiam nas riquezas! 25É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no Reino de Deus! 26Eles mais assombrados ficaram e diziam uns para os outros: Então quem se pode salvar?27Jesus olhou para eles e disse: Aos homens é impossível, mas a Deus não; pois a Deus tudo é possível.

Comentário

17-18. O jovem — assim o especifica Mt 19,16 — recorre a Jesus como a um mestre autorizado na vida espiritual, com a esperança de que o guie para a vida eterna. Não é que Jesus Cristo rejeite o louvor de que é objecto, mas explica a causa profunda dessas palavras do jovem: Ele é bom, não como o é um homem bom, mas por ser Deus, que é a própria bondade. Portanto, o moço disse uma verdade, mas uma verdade a meias. Aí está o enigmático da resposta de Jesus e a sua profundidade absoluta. Jesus trata, portanto, de fazer re­montar o jovem desde uma consideração honesta, mas humana, a uma visão inteiramente sobrenatural. Para que este homem consiga realmente a vida eterna tem de ver em Jesus Cristo, não só um bom mestre, mas o Salvador divino, o único Mestre, o único que, como Deus, é a própria Bondade. Vid. a nota a Mt 19,16-22.

19. O Senhor não veio abolir a Lei, mas dar-lhe pleni­tude (Mt 5,17). Os mandamentos são o núcleo fundamental da Lei. O cumprimento destes preceitos é necessário para alcançar a vida eterna. Cristo dá plenitude a estes manda­mentos num duplo sentido. Primeiro, porque nos ajuda a descobrir todas as exigências que estes têm na vida dos homens. A luz da revelação leva-nos ao conhecimento fácil e seguro dos preceitos do Decálogo, que a razão humana pelas suas próprias forças muito dificilmente conseguiria alcançar. Em segundo lugar, a sua graça põe em nós a fortaleza para fazer frente à inclinação má que é fruto do pecado original. Os mandamentos conservam, pois, na vida cristã toda a sua vigência e são como os marcos que assinalam o caminho que conduz ao Céu.

21-22. O Senhor sabe que no coração daquele jovem há um fundo de generosidade, de entrega. Por isso olha-o com amor, com um amor de predilecção que leva consigo o convite a viver numa maior intimidade com Deus. Isto exige uma renúncia que o Senhor concretiza: abandonar todas as suas riquezas, para entregar o coração todo inteiro a Jesus. Deus chama todos os homens à santidade. Mas são muitos os caminhos que a ela conduzem. A cada homem toca pôr os meios para descobrir qual é, segundo a vontade de Deus, o seu concreto. O Senhor, nos Seus desígnios, semeia na alma de cada pessoa a semente da vocação, que indica o caminho peculiar pelo qual há-de chegar à meta comum da santidade.

Com efeito, se o homem não põe obstáculos, se responde com generosidade a essa semente, sente um desejo de ser melhor, de se entregar de um modo mais generoso. Como fruto desse desejo, busca, pergunta a Deus na oração, às pessoas que o possam guiar. A essa busca sincera Deus responde sempre servindo-Se de instrumentos muito va­riados. Ao homem parece-lhe que vê claro o caminho que Deus lhe assinala, mas duvida na decisão, sente-se sem fortaleza para empreender este caminho que exige sempre renúncias. São momentos de oração, de mortificação, para que triunfe a luz, o convite divino, por cima dos cálculos humanos. Porque o homem, diante da chamada de Deus, permanece sempre livre. Por isso pode responder com generosidade, ou ser cobarde, como o jovem de que nos fala o Evangelho. A falta de generosidade para seguir a própria vocação produz sempre tristeza.

21. «Na sua concisa eloqüência — assinala João Paulo II comentando este passo—, este acontecimento profunda­mente penetrante exprime uma grande lição em poucas palavras: toca problemas substanciais e questões de fundo que não perderam, de modo algum, a sua importância. Em toda a parte os jovens se propõem problemas impor­tantes: problemas sobre o significado da vida, sobre o modo recto de viver, sobre a verdadeira escala de valores: ‘Que hei-de fazer? Que hei-de fazer para conseguir a vida eterna?’ (…) Por isto vos digo a cada um de vós: escutai o chamamento de Cristo quando sentis que vos diz: ‘Segue-Me’. Caminha sobre os Meus passos. Vem ao Meu lado! Permanece no Meu amor! É uma opção que se faz: a opção por Cristo e pelo Seu modelo de vida, pelo Seu mandamento de amor!

«A mensagem de amor que Cristo traz é sempre impor­tante, sempre interessante. Não é difícil de ver como o mundo de hoje, apesar da sua beleza e grandeza, apesar das conquistas da ciência e da tecnologia, apesar dos refinados e abundantes bens materiais que oferece, está ávido de mais verdade, de mais amor, de mais alegria. E tudo isto se encontra em Cristo e no Seu modelo de vida (…). Diante destes problemas e destas desilusões, muitos tratarão de fugir das próprias responsabilidades, refugiando-se no egoísmo, nos prazeres sexuais, na droga, na violência, no indiferentismo ou numa atitude de cinismo. Mas hoje eu pro­ponho-vos a opção do amor, que é o contrário da fuga. Se vós aceitais realmente este amor que vem de Cristo, este conduzir-vos-á a Deus. Talvez no sacerdócio ou na vida religiosa; talvez em algum serviço especial que presteis a vossos irmãos e irmãs, especialmente aos necessitados, aos pobres, a quem se sente só, aos marginalizados, àqueles cujos direitos foram conculcados, àqueles cujas exigências fundamentais não foram satisfeitas. Qualquer coisa que façais da vossa vida, fazei que seja um reflexo do amor de Cristo» (Homília Boston Common).

22. «A tristeza deste jovem leva-nos a reflectir. Pode­remos ter a tentação de pensar que possuir muitas coisas, muitos bens deste mundo, pode fazer-nos felizes. Pelo contrário, vemos no caso do jovem do Evangelho que as muitas riquezas se converteram em obstáculo para aceitar o chamamento de Jesus a segui-Lo. Não estava disposto a dizer sim a Jesus, e não a si mesmo, a dizer sim ao amor, e não à fuga! O amor verdadeiro é exigente. Não cumpriria a minha missão se não vo-lo tivesse dito com toda a clareza. Porque foi Jesus — o nosso próprio Jesus — quem disse: ‘Vós sois Meus amigos se fizerdes o que vos mando’ (Ioh 15,14). O amor exige esforço e compromisso pessoal para cumprir a vontade de Deus. Significa disciplina e sacrifício, mas significa também alegria e realização humana. Queridos jovens, não tenhais medo a um esforço honesto e a um trabalho honesto; não tenhais medo à verdade. Com a ajuda de Cristo e através da oração, vós podeis responder ao Seu chamamento, resistindo às tentações, aos entusiasmos pas­sageiros e a toda a forma de manipulação de massas. Abri os vossos corações a este Cristo do Evangelho, ao Seu amor, à Sua verdade, à Sua alegria. Não vos vades tristes! (…).

«Segui a Cristo! Vós, esposos, tornai-vos participantes reciprocamente, do vosso amor e das vossas cargas, respeitai a dignidade humana do vosso cônjuge; aceitai com alegria a vida que Deus vos confia; tornai estável e seguro o vosso matrimônio por amor aos vossos filhos.

«Segui a Cristo! Vós, ainda solteiros, ou que vos estais a preparar para o matrimônio, segui a Cristo! Vós, jovens ou velhos, segui a Cristo! Vós, doentes ou anciãos; vós, os que sofreis ou estais aflitos; os que notais a necessidade de cuidados, a necessidade de amor, a necessidade de um amigo: segui a Cristo!

«Em nome de Cristo estendo a todos vós o chamamento, o convite, a vocação: Vem e segue-Me!» (Homília Boston Common).

23-27. O comportamento do jovem rico dá ocasião a Nosso Senhor para expor uma vez mais a doutrina sobre o uso dos bens materiais. Não os condena por si mesmos; são meios que Deus pôs à disposição do homem para o seu desenvolvimento em sociedade com os outros. O apego indevido a eles é o que faz que se convertam em ocasião pecaminosa. O pecado consiste em «confiar» neles, como solução única da vida, voltando as costas à divina Provi­dência. Idolatria chama São Paulo à avareza (Col 3,5). Cristo exclui do Reino de Deus a quem cai nesse apego às riquezas, constituindo-as em centro da sua vida. Ou melhor dito, ele mesmo se exclui.

As riquezas podem seduzir tanto aqueles que já dispõem delas, como aqueles que desejam ardentemente dispor. Por isso há — paradoxalmente — pobres ricos e ricos pobres. Como a inclinação para o apego ou para a confiança nas riquezas é universal, os discípulos desconfiam da salvação: «Então, quem se pode salvar?». Com meios humanos, impossível. Com a graça de Deus, tudo é possível. Cfr a nota a Mt 6,11.

Por outro lado, não pôr a confiança nas riquezas supõe que o que tem bens neste mundo deve empregá-los a ajudar os mais necessitados. Isso exige «muita generosidade, inume­ráveis sacrifícios e um esforço sem descanso. A cada um toca examinar a sua consciência, que tem uma nova voz para a nossa época. Está disposto a sustentar com o seu dinheiro as obras e as empresas organizadas a favor dos mais pobres? A pagar mais impostos para que os poderes públicos inten­sifiquem o seu esforço para o desenvolvimento?» (Populorum progressio, n. 47).

04.03.14 – Mc 10, 28-31

28Começou Pedro a dizer-Lhe: Nós deixamos tudo e seguimos-Te. 29E Jesus: Em verdade vos digo que não há ninguém que tenha deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos ou campos por Minha causa e por causa do Evangelho, 30que não receba o cêntuplo já no tempo presente, em casas, irmãos, irmãs, mães, pais, filhos e campos, juntamente com perseguições, e no século futuro a vida eterna.31 Mui tos, porém, dos primeiros serão últimos, e os últimos primeiros.

Comentário

28-30. Jesus Cristo exige a virtude da pobreza a todo o cristão; também exige a austeridade real e efectiva na posse e uso dos bens materiais. Mas aos que receberam um chamamento específico para o apostolado — como é aqui o caso dos Doze—, exige um desprendimento absoluto de bens. riquezas, tempo, família, etc., em razão da sua disponibilidade para o serviço apostólico, à imitação de Jesus Cristo que, sendo o Senhor de todo o universo, Se fez pobre até não ter onde reclinar a cabeça (cfr Mt 8,20). A entrega de todos esses bens pelo Reino dos Céus, traz consigo a libertação do peso deles: é como o soldado que se despoja de um impedimento ao entrar em combate para estar mais ágil de movimentos. Isto produz um certo domínio sobre todas as coisas: já se não é escravo delas e experimenta-se aquela sensação a que aludia São Paulo: «como nada tendo, mas possuindo tudo» (2 Cor 6,10). O cristão que dessa maneira se despojou do egoísmo, adquiriu a caridade, e com ela todas as coisas são suas: «Tudo é vosso, vós sois de Cristo e Cristo de Deus» (1Cor 3,22-23).

Todavia, o prêmio de tudo pôr em Cristo, não será recebido plenamente só na vida eterna, mas já nesta vida. Jesus Cristo fala de uma maneira simples do cem por um, que já receberá aqui quem abandone generosamente as suas coisas.

O Senhor acrescenta «com perseguições» (v. 30), porque estas também são recompensa da fé com que abandonamos as coisas por amor de Jesus Cristo; pois a glória de um cristão é a de se conformar com a imagem do Filho de Deus, tomando parte na Sua Cruz para participar depois da Sua glória: «Desde que padeçamos com Ele, para sermos com Ele também glorificados» (Rom 8,17); «porque todos os que querem viver com piedadeem Cristo Jesusterão de sofrer perseguições» (2 Tim 3,12).

29. Estas palavras do Senhor cumprem-se especial­mente naqueles que por vocação divina abraçam o celibato, renunciando a constituir uma família na terra. Jesus, ao dizer «por Minha causa e por causa do Evangelho», está a indicar que o Seu exemplo e as exigências da Sua doutrina dão pleno sentido a este modo de vida: « É, pois, o mistério da novidade de Cristo, de tudo o que Ele é e significa; é a suma dos mais altos ideais do Evangelho e do Reino; é uma manifestação especial da graça que brota do mistério pascal do Redentor, que torna desejável e digna a escolha da virgindade por parte dos chamados pelo Senhor Jesus, com a intenção não só de participar do Seu ofício sacerdotal, mas também de compartilhar com Ele o Seu próprio estado de vida» (Sacerdotalis caelibatus, n. 23).

05.03.14 – Mt 6, 1-6.16-18

Guardai-vos de praticar a vossa justiça diante dos homens, para serdes vistos deles. De outra sorte, não tereis recompensa junto do vosso Pai que está nos Céus.

2Portanto, quando deres esmola, não toques trombeta diante de ti, como fazem os hipó­critas nas sinagogas e nas ruas, para serem louvados dos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. 3Mas, quando tu deres esmola, não saiba a tua esquerda o que faz a direita, 4para que a tua esmola fique secreta, e teu Pai, que vê em lugar secreto, te recompensará.

5E quando orardes, não sejais como os hipócritas que gostam de orar de pé nas sinagogas e nos cantos das praças, para serem vistos dos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. 6Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta à chave e ora a teu Pai que está em lugar secreto. E teu Pai que vê em lugar secreto, te recompensará.

«16E quando jejuais, não andeis tristes, como os hipócritas pois desfiguram o rosto, para mostrarem aos homens que jejuam. Em verdade vos digo que receberam já a sua recompensa. 17Tu, porém, quando jejuas, perfuma a cabeça e lava o rosto, 18para não mostrares aos homens que jejuas, mas sim a teu Pai, que está em lugar secreto, e teu Pai, que vê em lugar secreto, te recompensará.

Comentário

1-18 «Justiça»: Aqui quer dizer boas obras (cfr a nota a Mt 5,6). Nosso Senhor ensina com que espírito se hão-de fazer os actos de piedade pessoal. A esmola, o jejum e a oração constituíam os actos fundamentais da piedade individual no povo escolhido; daqui que se centre nesses três temas. Jesus Cristo, como quem tem a autoridade máxima, ensina que a verdadeira piedade deve viver-se com rectidão de intenção, em intimidade com Deus e fugindo da ostentação. Esta piedade, assim vivida, supõe um exercício da fé em Deus que os vê, e da esperança de que premiará os que vivem uma piedade sincera.

5-6. A Igreja, seguindo esta doutrina de Jesus, sempre nós ensinou a rezar desde crianças no nosso aposento. Esse «tu» do Senhor (v. 6) está a indicar inequivocamente a necessidade da oração pessoal; cada um, a sós com Deus, como um filho que fala com o Pai.

A oração pública em que participam todos os fiéis é santa e necessária; mas não pode nunca substituir este terminante preceito do Senhor; tu, no teu aposento, fechada a porta, ora a teu Pai.

O Concilio Vaticano II recolhe os ensinamentos e a prática da Igreja na sua Liturgia, que é «a meta para a qual se encaminha a acção da Igreja e a fonte donde promana toda a sua força (…). A participação na sagrada Liturgia não esgota, todavia, a vida espiritual. O cristão, chamado a rezar em comum, deve entrar também no seu quarto para rezar a sós ao Pai, e até, segundo ensina o Apóstolo, deve rezar sem cessar (lThes 5,17) (Sacrosanctum Concilium, nn. 10.12).

A alma que realmente vive a sua fé cristã sabe que necessita de se retirar freqüentemente para orar a sós com seu Pai Deus. Jesus, que nos dá este ensinamento acerca da oração, praticou-o na Sua vida terrena: o santo Evangelho refere-nos as muitas vezes que o Senhor Se retirava sozinho para orar: «Às vezes, passava a noite inteira ocupado em colóquio íntimo com o Pai. Como cativou os primeiros discípulos a figura de Cristo em oração!» (Cristo que passa n° 119)(cfr Mt 14, 23; Mc 1, 35; Lc 5, 16; etc.). Os Apóstolos seguiram o exemplo do Mestre, e assim vemos Pedro que sobe ao terraço da casa em que se aloja em Jope, para se retirar a orar a sós, e ali recebe uma revelação (cfr Act 10, 9-16). «A vida de oração tem de fundamentar-se, além disso, em pequenos espaços de tempo, dedicados exclusivamente a ‘estar com Deus. São momentos de colóquio sem ruído de palavras» (Cristo que passa, n° 119).

16-18. Partindo da prática tradicional do jejum, o Senhor inculca-nos o espírito com que devemos viver a necessária mortificação dos sentidos: temos de fazê-la sem ostentação, evitando o aplauso dos homens, discretamente; assim não poderão aplicar-se contra nós essas palavras de Jesus: «Já receberam a sua recompensa», pois seria um triste negócio. «O mundo só admira o sacrifício com espectáculo porque ignora o valor do sacrifício escondido e silencioso» (Caminho, nº185).

06.03.14 – Lc 9, 22-25

O Filho do homem tem de sofrer muito, ser rejeitado por parte dos Anciãos, dos Sumos Sacer­dotes e dos Escribas, ser morto e, ao terceiro dia, ressuscitar.

23Então pôs-Se a dizer para todos: Se alguém quer vir após Mim, renegue-se a si mesmo, tome a sua cruz todos os dias e siga-Me. 24Pois quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á, mas quem perder a sua vida por Minha causa, esse há-de salvá-la. 25De facto, que vantagem tem um homem em ganhar o mundo inteiro, se se perder a si mesmo ou causar a própria ruína?

Comentário

22. O Senhor profetizou a Sua Paixão e Morte para facilitar a fé dos discípulos. Ao mesmo tempo manifesta a voluntariedade com que aceita os sofrimentos. «Cristo não quis glorificar-Se, mas desejou vir sem glória para padecer o sofrimento; e tu, que nasceste sem glória, queres glorificar-te? Pelo caminho que Cristo percorreu é por onde tu deves caminhar. Isto é reconhecê-Lo, isto é imitá-Lo tanto na ignomínia como na boa fama, para que te glories na Cruz, como Ele próprio Se glorificou. Tal foi o comportamento de Paulo e por isso se gloria ao dizer: ‘Longe de mim gloriar-me a não ser na Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo’ (Gal 6,14)» (Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc).

23. «Cristo repete-o a cada um de nós, ao ouvido, inti­mamente: a Cruz de cada dia. Não só — escreve São Jerónimo — em tempo de perseguição ou quando se apresente a possibili­dade do martírio, mas em todas as situações, em todas as actividades, em todos os pensamentos, em todas as palavras, neguemos aquilo que antes éramos e confessemos o que agora somos, visto que renascemos em Cristo (Epístola 121,3) (…). Vedes? A cruz de cada dia. Nulla dies sine cruce, nenhum dia sem Cruz: nenhum dia que não carreguemos com a Cruz do Senhor, em que não aceitemos o Seu jugo» (Cristo que passa, nos 58 e 176). «E muito certo que aquele que ama os prazeres, que busca as suas comodidades, que foge das ocasiões de sofrer, que se inquieta, que murmura, que repreende e se impacienta porque a coisa mais insignificante não corre segundo a sua vontade e o seu desejo, tal pessoa, de cristão só tem o nome; somente serve para desonrar a sua religião, pois Jesus Cristo disse: aquele que queira vir após Mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz todos os dias da vida, e siga-Me» (Sermões escolhidos, Quarta Feira de Cinzas).

A Cruz não só deve estar presente na vida de cada cristão, mas também em todas as encruzilhadas do mundo: «Que formosas essas cruzes no cimo dos montes, no alto dos grandes monumentos, no pináculo das catedrais!… Mas também é preciso inserir a Cruz nas entranhas do mundo. «Jesus quer ser levantado ao alto, aí: no ruído das fábricas e das oficinas, no silêncio das bibliotecas, no fragor das ruas, na quietude dos campos, na intimidade das famí­lias, nas assembleias, nos estádios… Onde quer que um cristão gaste a sua vida honradamente, aí deve colocar, com o seu amor, a Cruz de Cristo, que atrai a Si todas as coisas» (Via Sacra, XI, n° 3).

25. Esta afirmação categórica de Jesus ensina-nos a necessidade de fazer tudo tendo em vista a vida eterna; para ganhar esta bem podemos gastar a vida terrena. «É certo que nos é lembrado que de nada serve ao homem ganhar o mundo inteiro, se a si mesmo se vem a perder. A expectativa da nova terra não deve, porém, enfraquecer, mas antes activar a solicitude em ordem a desenvolver esta terra, onde cresce o corpo da nova família humana, que já consegue apresentar uma certa prefiguração do mundo futuro. Por conseguinte, embora o progresso terreno se deva cuidadosa­mente distinguir do crescimento do reino de Cristo, todavia, na medida em que pode contribuir para a melhor organi­zação da sociedade humana, interessa muito ao reino de Deus» (Gaudium et spes, n. 39).

07.03.14 – Mt 9, 14-15

14Então acercam-se d’Ele os discípulos de João e perguntam: Porque é que nós e os Fariseus jejuamos com freqüência e os Teus discípulos não jejuam? 15Disse-lhes Jesus: Podem acaso os convidados das bodas entris­tecer-se enquanto está com eles o esposo? Dias virão em que o esposo lhes será tirado, e então jejuarão.

Comentário

14-17. O interesse da questão que levanta este passo radica, não em saber que jejuns praticavam os judeus contemporâneos de Jesus, e em especial os fariseus e os discípulos de João Baptista, mas em Saber qual é a razão pela qual Jesus não obriga os Seus discípulos a tais jejuns. A resposta que dá aqui o Senhor, é, ao.mesmo tempo, um ensinamento e uma profecia. O cristianismo não é um mero remendo no antigo traje do judaísmo. A redenção operada por Cristo implica uma total regeneração. O seu espírito é demasiado novo e pujante para ser amoldado às velhas ,formas penitenciais, cuja vigência caducava.

A história da Igreja primitiva ensina-nos até que ponto os costumes de alguns cristãos, procedentes do judaísmo, resistiam a entender a transformação operada por Jesus. É sabido que na época de Nosso Senhor dominava nas escolas judaicas uma complicadíssima casuística de jejuns, purificações etc., que afogavam a simplicidade da verda­deira piedade. As palavras de Jesus apontam para esta (Simplicidade de coração com que os Seus discípulos devem viver a oração, o jejum e a esmola (cfr Mt 6, 1-18 e notas correspondentes). Será a Igreja que, desde os tempos apostólicos, concretizará em cada época, com os poderes que Deus lhe deu, as formas de jejum, segundo este espírito do Senhor. 15. «Os convidados das bodas»: O texto original diz lite­ralmente «filhos da casa onde se celebram as bodas», que é uma expressão típica para designar os amigos mais íntimos do esposo. Deve sublinhar-se a marcada construção semítica da frase que o Evangelista conservou na sua fidelidade à expressão original de Jesus.

Por outro lado, esta «casa» a que alude Jesus Cristo tem um profundo sentido: há que pô-la em relação com a parábola dos convidados para as bodas (Mt 22, 1-14), e simboliza a Igreja como casa de Deus e Corpo de Cristo: «Moisés, na verdade, foi fiel em toda a casa de Deus, como servo, para dar testemunho de tudo o que se havia de anunciar. Cristo, porém, é fiel, como Filho, à frente da Sua própria casa, a qual somos nós, se conservarmos firmemente até ao fim a confiança e a esperança de que nos gloriamos» (Heb 3, 5-6).

A segunda parte do versículo alude à morte violenta do Senhor.

08.03.14 – Lc 5, 27-32

27Depois disto, saiu, viu um publicano Chamamento chamado Levi, sentado ao posto de cobrança, e disse-lhe: Segue-Me. 28E ele, deixando tudo, levantou-se e seguiu-O. 29Ofereceu-Lhe Levi, em sua casa, um grande banquete, e havia grande número de publicanos e de outros, que estavam com eles à mesa. 30Os Fariseus e os seus Escribas murmuravam, dizendo aos discípulos: Por que motivo comeis e bebeis com os publicanos e peca­dores? 31Jesus tomou a palavra e disse-lhes: Não são os que têm saúde que precisam de médico, senão os doentes. 32Não foram os justos, mas os pecadores, que Eu vim chamar ao arrependimento.

Comentário

27-29. Levi, mais conhecido pelo nome de Mateus, res­ponde com generosidade e prontidão ao chamamento de Jesus. Para celebrar e agradecer a sua vocação dá um grande banquete. Este passo do Evangelho reflecte com clareza que a vocação é um grande bem do qual há que alegrar-se. Se nos fixássemos só na renúncia, no que há que deixar, e não no dom de Deus, no bem que vai fazer em nós e através de nós, poderia sobrevir o abatimento, como ao jovem rico que não quis deixar as suas riquezas e se afastou triste (Lc 18,18). Muito diferente é o comportamento de Mateus, e o dos Magos, que «ao verem a estrela se encheram de imensa alegria» (Mt 2,10), porque apreciaram mais adorar a Deus recém-nascido do que todos os esforços e incomodidades da viagem. Ver também as notas a Mt 9,9;9,10-11; 9,12;9,13 e Mc 2,14; 2,17.

32. Este modo de actuar do Senhor significa que o único título que temos para sermos salvos é reconhecermo-nos com simplicidade pecadores diante de Deus. «Porque Jesus não sabe que fazer da astúcia calculista, da crueldade dos corações frios, da formosura vistosa mas vã.

« Nosso Senhor ama a alegria dum coração moço, o passo simples, a voz sem falseie, os olhos limpos, o ouvido atento à sua palavra de carinho. E é assim que reina na alma» (Cristo que passa, n° 181).

09.03.14 – Mt 4, 1-11

Jesus foi então conduzido pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo Demônio. 2E, tendo jejuado durante quarenta dias e quarenta noites, depois teve fome. 3Aproxi­mou-se o Tentador e disse-Lhe: Se és Filho de Deus, dize a estas pedras que se trans­formem em pães.

4Mas ele respondeu: Está escrito: «Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que procede da boca de Deus».

5Entáo levou-O o Demônio à Cidade Santa, colocou-O sobre o pináculo do templo 6e disse-lhe: Se és Filho de Deus, deita-Te abaixo,, pois está escrito que «ordenará aos seus anjos que olhem por ti, e eles tomar-te-ão nas mãos, para que não magoes o teu pé nalguma pedra».

7Disse-lhe Jesus: Também está escrito: «Não tentarás ao Senhor, teu Deus».

8 De novo O leva a um monte muito alto, mostra-Lhe todos os reinos do mundo e a sua magnificência 9e diz-Lhe: Tudo isto Te darei, se, prostrado, me adorares.

10Então diz-lhe Jesus: Vai-te, Satanás, pois está escrito: «Adorarás ao Senhor, teu Deus e a Ele só prestarás culto».

11Deixou-O então o Demônio, e eis que se aproximaram anjos e O serviam.

Comentário

1. Jesus, nosso Salvador, foi tentado porque Ele assim o quis; aquilo por amor a nós e para nossa instrução. Mas a perfeição absoluta de Jesus não permitia senão o que chamamos tentação externa. A doutrina cristã ensina-nos que existe um triplo grau de tentação: 1) a sugestão, que é tentação externa e se pode sofrer sem pecado; 2) tentação com deleite mais ou menos prolongado, ainda que sem con­sentimento claro (esta já é interna e nela há algo de pecado); e 3) tentação consentida (esta sempre é pecado; e, por afectar o profundo da alma, é certamente interna). Jesus quis ensinar-nos, ao permitir ser tentado, como devemos lutar e vencer nas nossas tentações: com a confiança em Deus e a oração, com a graça divina e com a fortaleza.

Por outro lado, estas tentações de Jesus no deserto têm uma significação muito profunda na História da Salvação. Todos os personagens mais importantes da História Sagrada são tentados: Adão e Eva, Abraão, Moisés, o próprio povo eleito; e assim também Jesus. Nosso Senhor, ao rejeitar as tentações diabólicas, repara as quedas dos homens antes e depois d’Ele; preludia as futuras tentações de cada um de nós e as lutas da Igreja contra as tentações do poder diabólico. Daí que Jesus nos tenha ensinado, no Pai-Nosso, a pedir a Deus que nos ajude com a Sua graça, para não cair, à hora da tentação.

2. Antes de começar a Sua obra messiânica e, portanto, de promulgar a Nova Lei ou Novo Testamento, Jesus, o Messias, prepara-Se com a oração e o jejum no deserto. Moisés tinha procedido de modo semelhante antes de pro­mulgar, em nome de Deus, a Antiga Lei do Sinai (Ex 34,28). Também Elias caminhou quarenta dias no deserto para levar a cabo a sua missão de fazer renovar o cumprimento da Lei (1Reg 9, 5-8).

A Igreja segue as pegadas de Jesus ao estabelecer anual­mente o tempo de jejum quaresmal. Com este espírito de piedade devemos viver cada ano o tempo de Quaresma. «Pode-se dizer que Cristo introduziu a tradição do jejum de quarenta dias no ano litúrgico da Igreja, porque Ele mesmo jejuou quarenta dias e quarenta noites’ antes de começar a ensinar. Com este jejum quaresmal a Igreja, em certo sentido, é chamada cada ano a seguir o seu Mestre e Senhor se quer pregar eficazmente o seu Evangelho» (Audiência geral João Paulo II, 28-11-1979). Do mesmo modo o retiro de Jesus no deserto convida-nos a prepararmo-nos com a oração e a penitência antes de empreendermos qualquer actividade ou decisão importante na nossa vida.

3. Jesus tinha jejuado durante quarenta dias e quarenta noites. Como é lógico, sente uma fome muito intensa, e o diabo aproveita a ocasião para O tentar. Perante a tentação, o Senhor reage rejeitando-a e emprega para isto uma frase do Deuteronômio (8, 3). Embora pudesse fazer esse milagre, prefere continuar a confiar no Pai e não o levar a cabo, porque não entra no Seu plano de salvação. Em recompensa por esta confiança os anjos vêm servi-Lo (Mt 4,11).

O milagre na Bíblia é um facto extraordinário e maravi­lhoso, que Deus realiza para fazer compreender a palavra ou acção divinas. Não se dá como uma manifestação isolada da força de Deus, mas como algo que faz parte da obra da Redenção. A proposta do demônio nesta tentação não tinha razão de ser dentro do plano de redenção, já que iria em benefício exclusivo de. Jesus. Com o seu intento o diabo parece querer certificar-se sobre se Jesus é verdadeiramente «Filho de Deus», pois, embora seja verdade que se mostra informado acerca da voz do céu no baptismo, vê um contrassenso em que seja Filho de Deus e, por outro lado, sinta fome. Com a Sua posição perante a tentação, Jesus vem ensinar-nos que as nossas petições a Deus não devem ser em primeiro lugar acerca das coisas que se podem conseguir com o esforço pessoal, nem que vão exclusivamente em benefício próprio; mas antes acerca das que vão encaminhadas para a santidade.

4. A resposta de Jesus é um acto de confiança na providência paternal de Deus. Quem O impeliu a ir para o deserto, como preparação da Sua obra messiânica, ocupar-Se-á de que Jesus não desfaleça. A ideia fica sublinhada pelo facto de a resposta de Jesus ser uma evocação de Dt 8,3, onde se recorda aos filhos de Israel como Yahwéh os alimentou miraculosamente com o maná no deserto. Assim, pois, Jesus, em contraste com o antigo Israel, que se impacientou perante a fome no deserto, entrega confiadamente o Seu cuidado à providência do Pai. As palavras de Dt 8,3 que Jesus pronuncia associam as imagens de pão e palavra como saídos ambos da boca de Deus: Deus fala e dá a Sua Lei; Deus fala e faz surgir o alimento do maná.

Por outro lado, o maná como imagem ou tipo da Eucaristia é normal no NT (cfr p. ex. Ioh 6, 32-58) e em toda a Tradição cristã.

Outro aspecto interessante das palavras de Jesus é o que o Concilio Vaticano II põe em realce ao propor ao cristão normas na promoção internacional da ordem econômica: «Em muitos casos, é urgente necessidade rever as estruturas econômicas e sociais. Mas evitem-se as soluções técnicas prematuramente propostas, sobretudo aquelas que, trazendo ao homem vantagens materiais, são opostas à sua natureza espiritual e ao seu progresso. Com efeito, ‘o homem não vive só de pão, mas também de toda a palavra que sai da boca de Deus’» (Gaudium et Spes, n. 86, d).

5. A tradição assinala como lugar desta tentação o ângulo sudeste da muralha do Templo. É aí que há uma maior altura, porque o terreno está abruptamente inclinado para a torrente Cedron. Quando nos assomamos a esse lugar podemos experimentar sensação de vertigem.

São Gregório Magno (In Evangelia homiliae, 16) comenta que quem considere como permitiu Nosso Senhor ser tratado na Sua Paixão, não estranhará que permitisse também ao demônio comportar-se com Ele dessa maneira.

6. «As heresias nasceram por se entenderem mal as Escrituras, que são boas» (In Ioann. Evang., 18,1). O cristão deve estar alerta perante falsas argumentações que pretendam basear-se na Sagrada Escritura. Como estamos a ver neste passo do Evangelho, o demônio apresenta-se algumas Vezes como «exegeta» da Escritura, interpretando-a como convém. Por isso qualquer interpretação que não esteja de acordo com a doutrina contida na Tradição da Igreja deve ser rejeitada.

Normalmente o erro da heresia consiste em fixar-se nuns passos da Escritura com exclusão de outros, interpretando-os a seu bel-prazer, perdendo de vista a unidade da Escritura e a totalidade da fé.

7. A resposta de Jesus perante esta segunda tentação é de novo uma rejeição radical, porque aceitá-la seria tentar a Deus. Para isso emprega uma frase do Deuteronômio (6, 16): «Não tentarás o Senhor teu Deus», aludindo com ela também ao passo do Êxodo, em que os Israelitas, ao faltar-lhes a água, exigem a Moisés um milagre e ele lhes responde: «Por que tentais a Yahwéh?» (Ex 17,2).

Tentar a Deus é completamente diverso de confiar n’Ele; é expor-se presunçosamente a um perigo desnecessário, con­tando sem motivo com uma ajuda extraordinária de Deus. Tentar a Deus é também pedir-Lhe provas por causa da incredulidade e arrogância humanas. O primeiro ensina­mento desta cena evangélica é que, se alguma vez ocorresse ao homem pedir ou quase exigir de Deus provas ou sinais extraordinários, isso seria uma clara tentação a Deus.

8-10. A terceira tentação pode considerar-se como a mais tipicamente pseudo-messiânica: consiste em induzir Jesus a que Se aproprie da função de rei messiânico terreno, segundo o sentir muito generalizado da época. A resposta enérgica do Senhor, «vai-te, Satanás», é uma repulsa sem contemplações do messianismo temporalista, isto é, da re­dução da Sua missão divina e transcendente a um nível meramente terreno, político. A atitude de Jesus surge como uma reparação e rectificação dos interesses terrenos do povo de Israel. Mas, pela mesma razão, é uma advertência para o verdadeiro Israel de Deus, a Igreja, a fim de que esta se mantenha firme na sua missão salvífica divina na terra. Os pastores da Igreja deverão estar vigilantes para não se deixarem seduzir por esta tentação diabólica.

«Aprendamos desta atitude de Jesus: durante a Sua vida na Terra, não quis sequer a glória que Lhe pertencia, pois, tendo direito a ser tratado como Deus, assumiu a forma de servo, de escravo (cfr Phil 1, 6-7). O cristão sabe, portanto, que toda a glória é para Deus e que não pode servir-se da sublimidade e grandeza do Evangelho como instrumento de interesses e de ambições humanas.

«Aprendamos de Jesus: a Sua atitude, ao opor-Se a toda a glória humana, está em perfeita correlação com a grandeza de uma única missão — a de Filho predilecto de Deus, que encarna para salvar os homens (…). O cristão que, seguindo Cristo, vive nessa atitude de completa adoração do Pai, recebe também do Senhor palavras de amoroso desvelo: Porque espera em Mim, Eu o livrarei; protegê-lo-ei, porque conhece o Meu nome (Ps XC, 14)» (Cristo que passa, nº62).

11. A vitória é consequência da constância na luta. Ninguém é coroado sem ter vencido: «Sé fiel até à morte e dar-te-ei a coroa da vida» (Apc 2, 10). Os anjos, que vêm e servem Jesus depois de ter resistido às sucessivas tentações, mostram-nos a alegria interior que Deus dá ao que se opõe com esforço à tentação diabólica. Contra esta Deus deu-nos também uns poderosos defensores que devemos invocar: os anjos da guarda.

10.03.14 – Mt 25, 31-46

31Quando vier o Filho do homem na sua majestade e todos os Anjos com Ele, então sentar-Se-á no Seu trono de glória, 32e com­parecerão perante Ele todas as gentes, e Ele separá-los-á uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos, 33e porá as ovelhas à Sua direita e os cabritos à Sua esquerda. 34Dirá então o Rei aos da Sua direita: «Vinde benditos de Meu Pai, entrai na herança do Reino que vos está preparado desde o princípio do mundo; 35pois tive fome e destes-Me de comer; tive sede e destes-Me de beber; era peregrino e agasalhastes-Me, 36andava nu e vestistes-Me, estava doente e visitastes-Me, estava no cárcere e fostes ver-Me. 37Então os justos responder-Lhe-ão: « Senhor, quando é que Te vimos com fome e Te demos de comer, ou com sede e Te demos de beber? 38Quando é que Te vimos peregrino e Te agasalhamos, ou nu e Te vestimos? 39Quando Te vimos doente ou no cárcere e Te fomos ver? 40E o rei responder-lhes-á: «Em verdade vos digo: Tudo o que fizestes a um destes Meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes.» 41Então dirá aos da Sua esquerda: «Apartai-vos de Mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o Demônio e seus Anjos, 42pois tive fome e não Me destes de comer, tive sede e não Me destes de beber; 43era peregrino e não Me agasalhastes, estava nu e não Me vestistes, doente e no cárcere e não Me visitastes.» 44Então responderão também eles: «Senhor, quando é que Te vimos com fome ou com sede, ou peregrino, ou nu, ou doente ou no cárcere e não Te assistimos?» 45E Ele responder-lhes-á: «Em verdade vos digo: Tudo o que não fizestes a um destes mais pequeninos, nem a Mim o fizestes.» 46E irão estes para o Suplício eterno; os justos, porém, para a Vida eterna.

Comentário

31-33. Nos testemunhos dos Profetas e no Apocalipse representa-se o Messias, como os juízes, num trono. Assim virá Jesus no fim dos tempos, para julgar os vivos e os mortos.

A verdade do Juízo Universal, que consta já nos primeiros símbolos da Igreja, é um dogma de fé definido solenemente por Bento XII na Constituição Benedictus Deus, de 29 de Janeiro de 1336.

35-46. Todas as facetas enumeradas no passo — dar de comer, dar de beber, vestir, visitar — são obras de amor cristão quando ao fazê-las a estes «pequeninos» se vê neles o próprio Cristo.

Daqui a importância do pecado de omissão. O não fazer uma coisa que se deve fazer supõe deixar Cristo desprovido de tais serviços.

«É preciso reconhecer Cristo que nos sai ao encontro nos nossos irmãos, os homens. Nenhuma vida humana é uma vida isolada; entrelaça-se com as outras. Nenhuma pessoa é um verso solto; todos fazemos parte de um mesmo poema divino, que Deus escreve com o concurso da nossa liberdade» (Cristo que passa, nº111).

Seremos julgados sobre o amor (cfr Avisos e sentenças espirituais, nº57). O Senhor pedir-nos-á contas não só do mal que tenhamos feito mas, além disso, do bem que tenhamos deixado de fazer. Desta forma, os pecados de omissão aparecem em toda a sua gravidade, e o amor ao próximo no seu fundamento último: Cristo está presente no mais pequeno dos nossos irmãos.

Escreve Santa Teresa de Jesus: «Cá, só estas duas coisas nos pede o Senhor: amor de Sua Majestade e do próximo; é no que devemos trabalhar. Guardando-as com perfeição é como fazemos a Sua vontade… O sinal mais certo que, segundo o meu parecer, há de que guardamos estas duas coisas, é guardando bem a do amor do próximo; porque se amamos a Deus, não se pode saber, ainda que haja indícios grandes para entender que O amamos; mas o amor do próximo, sim. E estai certas que quanto mais vos vejais aproveitadas neste, mais o estais no amor de Deus; porque é tão grande o que Sua Majestade nos tem, que em paga do que temos ao próximo, fará que cresça o que temos a Sua Majestade por mil maneiras: nisto eu não posso duvidar» (Moradas, V, 3).

Pela parábola vemos com clareza que o cristianismo não pode ser reduzido a uma sociedade de mera beneficência. O que dá valor sobrenatural a toda a ajuda em favor do próximo é prestá-la por amor de Cristo, vendo-O a Ele no próprio necessitado. Por isso São Paulo afirma que «ainda que repartisse todos os meus bens…, se não tenho caridade, e nada me serve» (1Cor 13, 3). Errada será, portanto, qualquer interpretação deste ensinamento de Jesus sobre o Juízo Final que pretenda dar-lhe um sentido materialista, ou que confunda a mera filantropia com a autêntica caridade cristã.

40-45. O Concilio Vaticano II, ao explicar as exigências da caridade cristã, que dá sentido à chamada assistência social, diz: «Vindo a conclusões práticas e mais urgentes, o Concilio recomenda a reverência para com o homem, de maneira que cada um deve considerar o próximo, sem excepção, como um ‘outro eu’, tendo em conta, antes de mais, a sua vida e os meios necessários para a levar dignamente, não imitando aquele homem rico que não fez caso algum do pobre Lázaro (cfr Lc 16, 18-31). Sobretudo «m nossos dias, urge a obrigação de nos tornarmos o próximo de todo e qualquer homem, e de o servir efectivamente quando vem ao nosso encontro — quer seja o ancião, abandonado de todos, ou o operário estrangeiro injustamente desprezado, ou o exilado, ou o filho duma união ilegítima que sofre injusta­mente por causa dum pecado que não cometeu, ou o indigente que interpela a nossa consciência, recordando a palavra do Senhor: ‘todas as vezes que o fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes» (Gandium et spes, n. 27).

46. A existência de um castigo eterno para os réprobos e de um prêmio eterno para os eleitos é um dogma de fé definido solenemente pelo Magistério da Igreja no IV Concilio de Latrão do ano 1215: «Jesus Cristo (…) há-de vir no fim do mundo, para julgar os vivos e os mortos, e dar a cada um segundo as suas obras, tanto aos réprobos como aos eleitos: todos eles ressuscitarão com os seus próprios corpos que agora têm, para receberem segundo as suas obras — boas ou más —: aqueles, com o diabo, castigo eterno; e estes, com Cristo, glória sempiterna».

11.03.14 – Mt 6, 7-15

7E, na oração, não sejais palavrosos como os gentios, pois ima­ginam que hão-de ser ouvidos pela sua verbosidade. 8Não vos pareçais, pois, com eles, porque o vosso Pai sabe o que vos é necessário, antes de Lho pedirdes. 9Vós, pois, orai assim:

Pai nosso que estás nos Céus, santificado seja o Teu nome.

10Venha o Teu Reino. Seja feita a Tua vontade, assim na Terra como no Céu.

11O pão nosso de cada dia nos dá hoje.

12E perdoa-nos as nossas dívidas, como também nós perdoamos aos nossos devedores.

13E não nos metas em tentação, Mas livra-nos do mal.»

14Porque, se vós perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celeste vos perdoará a vós. 15Se, porém, não perdoardes aos homens, nem o Pai celeste perdoará as vossas ofensas.

7E, na oração, não sejais palavrosos como os gentios, pois ima­ginam que hão-de ser ouvidos pela sua verbosidade. 8Não vos pareçais, pois, com eles, porque o vosso Pai sabe o que vos é necessário, antes de Lho pedirdes. 9Vós, pois, orai assim:

Pai nosso que estás nos Céus, santificado seja o Teu nome.

10Venha o Teu Reino. Seja feita a Tua vontade, assim na Terra como no Céu.

11O pão nosso de cada dia nos dá hoje.

12E perdoa-nos as nossas dívidas, como também nós perdoamos aos nossos devedores.

13E não nos metas em tentação, Mas livra-nos do mal.»

14Porque, se vós perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celeste vos perdoará a vós. 15Se, porém, não perdoardes aos homens, nem o Pai celeste perdoará as vossas ofensas.

Comentário

7-8. Jesus corrige os exageros supersticiosos de crer que são necessárias longas orações para que Deus nos escute. A verdadeira piedade não consiste tanto na quantidade de palavras como na frequência e no amor com que o cristão se volta para Deus nos acontecimentos, grandes ou pequenos, de cada dia. A oração vocal é boa e necessária, mas as palavras só têm valor enquanto exprimem o sentir do Coração.

9-13. O «Pai-nosso» é, sem dúvida, a página mais comentada de toda a fé. Os grandes escritores da Igreja deixaram-nos explicações cheias de piedade e sabedoria. Já os primeiros cristãos, «fiéis à recomendação do Salvador e seguindo os Seus divinos ensinamentos», centraram a sua oração nesta fórmula sublime e simples de Jesus. E também os últimos cristãos elevarão o seu coração para dizer pela última vez o Pai-nosso quando estiverem prestes a ser levados para o Céu. Entretanto, desde criança até que deixa este mundo, o Pai-nosso é a oração que enche de consolação e de esperança o coração do homem. Bem sabia Jesus Cristo a eficácia que ia ter esta oração Sua. Graças sejam dadas a Nosso Senhor porque a compôs para nós, e também aos Apóstolos por no-la terem transmitido, e às nossas mães porque no-la ensinaram nas nossas primeiras balbuciadelas. É tão importante esta oração dominical, que desde os tempos apostólicos foi utilizada como base da catequese cristã, juntamente com o Credo ou Símbolo da fé, o Decálogo e os Sacramentos. A vida de oração era ensinada aos catecúmenos comentando o Pai-nosso. E. daí este costume passou para os nossos catecismos.

Santo Agostinho diz que esta oração do Senhor é tão perfeita, que em poucas palavras compendia tudo o que o homem possa pedir a Deus (cfr Sermo 56). Normalmente distinguem-se nela uma invocação e sete pedidos: três relativos à glória de Deus e quatro às necessidades dos homens.

9. E grande consolação poder chamar «Pai nosso» a Deus. Se Jesus, o Filho de Deus, ensina os homens a que invoquem Deus como Pai é porque neles se dá esta realidade consoladora, a de ser e sentir-se filhos de Deus.

«O Senhor (…) não é um dominador tirânico, nem um juiz rígido e implacável: é nosso Pai. Fala-nos dos nossos pecados, dos nossos erros, da nossa falta de generosidade, mas é para nos livrar deles e nos prometer a Sua amizade e o Seu amor (…). Um filho de Deus trata o Senhor como Pai. Não servilmente, nem com uma reverência formal, de mera cortesia, mas cheio de sinceridade e de confiança» (Cristo que passa, nº64).

«Santificado seja o Teu nome»: Na Bíblia o nome equivale à própria pessoa. Aqui nome de Deus é o próprio Deus. Que sentido tem pedir que Deus seja santificado? Não pode sê-lo à maneira humana: afastando-se progressivamente do mal e aproximando-se do bem, visto que Deus é a própria santidade. Pelo contrário, Deus é santificado quando a Sua Santidade é reconhecida e honrada pelas Suas criaturas. Este é o sentido que tem o primeiro pedido do «Pai-nosso» (cfr Catecismo Romano, IV, 10).

10. «Venha o Teu Reino»: Chegamos aqui outra vez à ideia central do evangelho de Jesus Cristo: a vinda do Reino. O Reino de Deus identifica-se tão plenamente com a obra de Jesus Cristo, que o Evangelho é chamado indiferentemente evangelho de Jesus Cristo ou evangelho do Reino (Mt 9, 35). Sobre o conceito de Reino de Deus veja-se o comentário a Mt 3, 2; 4, 17. O advento do Reino de Deus é a realização do desígnio salvador de Deus no mundo. O Reino de Deus esta­belece-se em primeiro lugar no mais íntimo do homem, elevando-o à participação da própria vida divina. Esta elevação tem como que duas etapas: a primeira na terra, que se realiza pela graça; e a segunda, definitiva, na vida eterna, que será a plenitude da elevação sobrenatural do homem. Tudo isso exige de nós uma submissão espontânea, amorosa e confiada a Deus.

«Seja feita a Tua vontade»: Este terceiro pedido exprime um desejo duplo. Primeiro, a identificação do homem com a vontade de Deus, de modo rendido e incondicional; é a expressão do abandono nas mãos de seu Pai Deus. Segundo, o cumprimento daquela vontade divina, que reclama a livre cooperação humana. Este é o caso, por exemplo, da lei divina no aspecto moral, pela qual Deus manifesta a Sua vontade, mas sem a impor à força. Uma das manifestações da vinda do Reino de Deus é o cumprimento amoroso da vontade divina por parte do homem. A segunda parte da frase «assim na Terra como no Céu » quer dizer: assim como no céu os anjos e os santos estão totalmente identificados com a vontade de Deus, de modo semelhante se deseja que isso aconteça já aqui na terra.

A luta por cumprir a vontade de Deus é o sinal de que somos sinceros quando pronunciamos as palavras: «venha o Teu Reino». Porque diz o Senhor: «Nem todo o que Me diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino dos Céus, mas o que faz a vontade de Meu Pai que está nos Céus» (Mt 7, 21). «Quem de veras tiver dito esta palavra: ‘Fiat voluntas tua’, tem de ter feito tudo, com a determinação pelos menos» (Caminho de perfeição, cap. 63, nº2).

11. Neste quarto pedido, o que ora tem em conta em primeiro lugar as necessidades da vida presente. A importância desta súplica consiste em que os bens mate­riais, necessários para viver, são declarados lícitos. Exprime-se um profundo sentido religioso da manutenção da vida: o que o discípulo de Cristo alcança com o seu próprio trabalho também o deve implorar de Deus e recebê-lo como um dom divino; Deus é quem mantém a vida. Ao pedir a Deus o próprio sustento e considerar que este vem das mãos divinas, o cristão afasta de si a angustiosa preocupação pelas neces­sidades materiais. Jesus quer que pecamos não a riqueza ou o gozo desses bens, mas a posse austera do necessário. Daí que, tanto em Mateus como em Lucas (Lc 11, 2), se fale do alimento suficiente para cada dia. O quarto pedido dirige-se, pois, a uma moderação do alimento e dos bens necessários, afastada dos extremos de opulência e miséria, como já tinha ensinado Deus no AT:

«Não me dês pobreza nem riqueza, concede-me o pão que me é necessário, para que, saciado, não te renegue, e não diga: ‘Quem é o Senhor’?

Ou, empobrecido, não roube e não profane o nome do meu Deus» (Prv 30,8-9)

Os Santos Padres interpretaram o pão que aqui se pede, não só como o alimento material, mas também viram significada a Santíssima Eucaristia, sem a qual não pode viver o nosso espírito.

Segundo o Catecismo Romano (cfr IV, 13, 21), as razões para que se chame à Eucaristia pão nosso quotidiano são: Que cada dia se oferece a Deus na Santa Missa, e que devemos recebê-lo dignamente, sendo possível todos os dias, segundo Aconselho de Santo Ambrósio: «Se o pão é diário, por que o recebes tu apenas uma vez por ano? Recebe todos os dias o que todos os dias te é proveitoso; vive de modo que diariamente sejas digno de o receber» (De Sacramentis, V, 4).

12. «Dívida» tem aqui claramente o sentido de pecado. Com efeito, no dialecto aramaico do tempo de Jesus utilizava-se a mesma palavra para designar ofensa ou dívida. No Quinto pedido reconhecemos, pois, a nossa situação de Devedores por termos ofendido a Deus. Na revelação do AT é frequente a recordação da condição pecadora do homem. Inclusive os «justos» são também pecadores. Reconhecer os nossos pecados é o princípio de toda a conversão a Deus. Não SC trata apenas de reconhecer antigos pecados nossos, mas de confessar a nossa actual condição de pecadores. Esta mesma condição faz-nos sentir a necessidade religiosa de recorrer ao único que pode remediá-la, Deus. Daqui a conveniência de rezar insistentemente, com a oração do Senhor, para alcançar da misericórdia divina uma e outra vez o perdão dos nossos pecados.

A segunda parte deste pedido é uma chamada séria a perdoar aos nossos semelhantes: como nos atrevemos a pedir perdão a Deus, se não estamos dispostos a perdoar aos outros! O cristão deve ser consciente das exigências desta oração, que há-de rezar com todas as suas consequências: não querer perdoar a outro é condenar-se a si mesmo (vide nota a Mt 5, 23-24 e 18,21-35).

13. «E não nos deixes cair na tentação»: «Não pedimos aqui para não sermos tentados, porque a vida do homem na terra é milícia (Iob 7, 1)… Que é, pois, o que aqui pedimos? Que, sem nos faltar o auxílio divino, não consintamos por erro nas tentações, nem cedamos a elas por desalento; que esteja pronta em nosso favor a graça de Deus, a qual nos console e fortaleça quando nos faltem as próprias forças» (Catecismo Romano, IV, 15,14).

Reconhecemos nesta súplica do Pai-nosso a nossa debi­lidade para lutar contra a tentação só com as forças humanas. Isto deve levar-nos a recorrer com humildade a Deus, para receber d’Ele a fortaleza necessária. Porque «muito forte é Deus para livrar-te de tudo, e pode fazer-te mais bem do que mal todos os demônios. Deus quer somente que te fies d’Ele, que te arrimes a Ele, que confies n’Ele e desconfies de ti mesmo, e desta maneira há-de ajudar-te e com a Sua ajuda vencerás todo o inferno que venha contra ti. Desta firme esperança não te deixes cair, porque Se irritará com isso, nem porque os demônios sejam muitos e muitas as tentações e bravas e de muitas maneiras. Está sempre arrimado a Ele, porque se este arrimo e força não tens com o Senhor, logo cairás e temerás qualquer coisa» (Sermones, 9, Domingo I de Quaresma).

«Mas livra-nos do mal»: Neste pedido, que de algum modo resume todos os anteriores, rogamos ao Senhor que nos livre de tudo aquilo que o nosso inimigo faz contra nós para perder-nos; e não nos poderemos livrar dele se o próprio Deus não nos livra, concedendo a Sua assistência aos nossos rogos.

Igualmente poderia traduzir-se por «mas livra-nos do Mau», quer dizer, do maligno, do demônio, que é a origem, em última instância, de todos os nossos males.

Ao fazermos este pedido podemos estar seguros de ser ouvidos, porque Jesus Cristo, estando para sair deste mundo, rogava ao Pai pela salvação dos homens com estas palavras: «Não peço que os tires do mundo, mas que os guardes do Maligno» (Ioh 17,15).

14-15. São Mateus conserva nos vv. 14 e 15 como um comentário de Nosso Senhor à quinta petição do Pai-nosso.

Que maravilha é Deus que perdoa! Mas se Deus, três vezes Santo, tem misericórdia do pecador, quanto mais nós, pecadores, que sabemos por experiência própria da miséria do pecado, devemos perdoar aos outros. Não há ninguém perfeito na terra. Assim como Deus nos ama, mesmo com os nossos defeitos, e nos perdoa, nós também devemos amar os outros, mesmo com os seus defeitos, e perdoar-lhes. Se esperamos amar os que não têm defeitos, nunca amaremos ninguém. Se esperamos que se corrijam ou se desculpem os outros primeiro, quase nunca perdoaremos. Mas então, também nós não seremos perdoados. «De acordo: aquela pessoa tem sido má contigo. — Mas não tens sido tu pior com Deus?» (Caminho. n.°686). Perdoando àqueles que nos têm ofendido tornamo-nos, pois, semelhantes ao nosso Pai Deus: «No facto de amar os inimigos, vê-se claramente certa semelhança com o nosso Pai Deus, que reconciliou consigo o gênero humano, que era muito inimigo e contrário Seu, redimindo-o da condenação eterna por meio da morte do Seu Filho» (Catecismo Romano, IV, 14,19).

12.03.14 – Lc 11, 29-32

29Como as multidões tivessem afluído em massa, começou a dizer: Esta geração é uma geração perversa: pede um sinal, mas não lhe será dado nenhum sinal, a não ser o sinal de Jonas. 30Pois, do mesmo modo que Jonas foi um sinal para os Ninivitas, assim o será também o Filho do homem para esta geração. 31A rainha do Sul há-de surgir na altura do Juízo com os homens desta geração e con­dená-los-á, porque veio dos confins da Terra para ouvir a sabedoria de Salomão, e está aqui algo mais do que Salomão. 32Os homens de Nínive hão-de ressuscitar na altura do Juízo com esta geração e hão-de condená-la, porque, à pregação de Jonas, fizeram peni­tência, e está aqui algo mais do que Jonas.

Comentário

29-32. Jonas foi o profeta que levou os ninivitas à penitência porque na sua pregação e nas suas obras, na sua pessoa e na sua vida, reconheceram o sinal de um enviado de Deus (cfr a nota a Mt 12,41-42).

13.03.14 – Mt 7, 7-12

7Pedi e dar-se-vos-a, buscai e encontrareis, batei e abrir-se-vos-á. 8Porque, todo o da oração que pede recebe, e o que busca encontra e ao que bate, abrir-se-á.

9Haverá entre vós alguém que dê uma pedra ao filho, se ele lhe pedir pão? 10E lhe dê uma serpente, se ele lhe pedir peixe? 11Se, pois, vós, que sois maus, sabeis dar boas dádivas a vossos filhos-, quanto mais vosso Pai que está nos Céus dará coisas boas aos que Lhe pedirem?

12Tudo aquilo, pois, que quereis que os A outros vos façam a vós, fazei-o também vós a eles, porque esta é a Lei e os Profetas.

Comentário

7-11. O Mestre ensina de diversas maneiras a eficácia da oração. A oração é uma elevação da mente para Deus para O adorar, dar-Lhe graças e pedir-Lhe o que necessitamos (cfr Catecismo Maior, nº255). Jesus insiste na oração de petição, que é o primeiro movimento espontâneo da alma que reconhece Deus como seu Criador e Pai. Como criatura de Deus e como Seu filho, o homem necessita pedir-Lhe humil­demente todas as coisas.

Ao falar da eficácia da oração, Jesus não faz restrições: «Todo o que pede, recebe», porque Deus é nosso Pai. E São Jerônimo comenta: «Está escrito: a todo o que pede se dá; logo, se a ti não se te dá, não se te dá porque não pedes; portanto, pede e receberás» (Comm. in Matth., 7). Não obstante, apesar de a oração ser de si infalível, por vezes não obtemos o que queríamos. Santo Agostinho diz que a nossa oração não é escutada porque pedimos «aut mali, aut male, aut mala». «Mali»: porque somos maus, porque as nossas disposições pessoais não são boas; «male»: porque pedimos mal, sem fé, sem perseverança, sem humildade; «mala»: porque pedimos coisas más, quer dizer, o que não nos convém, o que pode causar-nos dano (cfr De civitate Dei, XX, 22 e 27; De Senti. Dom. in monte, H, 27,73). Em última análise, a oração não é eficaz quando não é verdadeira oração. Portanto: «Faz oração. Em que negócio humano te podem dar mais garantias de êxito?» (Caminho, n° 96).

12. A sentença de Jesus, chamada «regra de ouro», oferece um critério prático para reconhecer o alcance das nossas obrigações e da nossa caridade para com os outros. Mas uma consideração superficial correria o risco de mudá-lo num móbil egoísta do nosso comportamento: não se trata, evidentemente, de um do ut dês («dou-te para que me dês»), hás de fazer o bem aos outros sem pôr condições, como em boa lógica as não pomos no amor a nós mesmos. Esta regra prática ficará completada com o «mandamento novo» de Jesus Cristo (Ioh 13, 34), onde nos ensina a amar os outros como Ele mesmo nos amou.

14.03.14 – Mt 5, 20-26

20Porque Eu vos digo que, se a vossa justiça não sobrepujar a dos Escribas e Fariseus, não entra reis no Reino dos Céus.

21Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás, e quem matar será réu perante o tribunal. 22Eu, porém, digo-vos: Todo aquele que se irar contra seu irmão, será réu perante o tribunal. E quem chamar a seu irmão «imbecil», será réu perante o Sinédrio. E quem lhe chamar «doido», será réu da Geena do fogo. 23Portanto, se ao apresentares a tua oferenda ao altar, aí te recordares que teu irmão tem algo contra ti, 24deixa aí a tua oferenda diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão, depois vem e apresenta a tua oferenda. 25Põe-te de acordo com o teu adversário, enquanto estás com ele no caminho. Não seja caso que o adver­sário te entregue ao juiz, e o juiz ao guarda, e sejas metido na prisão. 26Em verdade te digo: não sairás de lá, enquanto não pagares o último ceitil.

Comentário

20. «Justiça»: Veja-se nota a Mt 5, 6. O versículo vem esclarecer o sentido dos precedentes. Os escribas e os fariseus tinham chegado a deformar o espírito da Lei, ficando na observância externa e ritual da mesma. Entre eles o cumpri­mento exacto e minucioso, mas externo, dos preceitos tinha-se transformado numa garantia de salvação do homem diante de Deus: «se eu cumpro isto sou justo, sou santo e Deus tem de me salvar». Com este modo de conceber a justificação já não é Deus no fundo quem salva, mas é o homem quem se salva pelas obras externas. A falsidade de tal concepção fica patente com a afirmação de Cristo, que poderia exprimir-se com estes termos: para entrar no Reino dos Céus é necessário superar radicalmente a concepção da justiça ou santidade a que tinham chegado os escribas e os fariseus. Por outras palavras, a justificação ou santificação é uma graça de Deus, com a qual o homem só pode colaborar secundariamente pela sua fidelidade a essa graça. Noutros lugares estes ensinamentos ficarão ainda mais claramente explicados por Jesus (cfr Lc 18, 9-14, parábola do fariseu e do publicano). Também dará lugar a Uma das grandes batalhas doutrinais de São Paulo perante os «judaizantes» (veja-se Gal 3 e Rom 2-5).

21-26. Nestes versículos temos um exemplo concreto de como Jesus leva à sua plenitude a Lei de Moisés, explicando profundamente o sentido dos mandamentos desta.

22. Jesus ao falar em primeira pessoa («Eu, porém, digo-vos») expressa que a Sua autoridade está por cima da de Moisés e dos Profetas; quer dizer: Ele tem autoridade divina. Nenhum homem poderia falar com essa autoridade,

«Imbecil»: Muitíssimas versões deste passo mantiveram a transcrição da palavra original aramaica: «Raça», pronunciada por Cristo. Não é fácil de dar uma tradução exacta. O termo «raça» equivale ao que hoje entendemos por néscio, estúpido, imbecil. Era sinal entre os Judeus de um grande desprezo, que muitas vezes se manifestava não com palavras, mas com a acção de cuspir no chão.

«Doido», que outras versões traduzem por «fátuo», «louco», «renegado», etc., era um insulto ainda maior que «raça»: referia-se à perda do sentido moral e religioso, até ao ponto da apostasia.

Nosso Senhor indica neste texto três faltas que podemos cometer contra a caridade, nas quais se pode apreciar uma gradação, que vai desde a irritação interna até ao maior dos insultos. A propósito deste passo comenta Santo Agostinho que se devem observar três graus de faltas e de castigos. O primeiro, entrar em cólera por um movimento interno do coração, ao que corresponde o castigo do juízo; o segundo, dizer alguma palavra de desprezo, que leva consigo o castigo do Conselho; o terceiro, quando deixando-nos levar pela ira até à obcecação, injuriamos despiedadamente os nossos irmãos, que é castigado com o fogo do inferno (cfr De Semi. Dom. in monte II, 9).

«Geena do fogo», frase que na linguagem judaica daqueles tempos significava o castigo eterno, o fogo do inferno.

Daqui a gravidade dos pecados externos contra a caridade: murmuração, injúria, calúnia, etc. Não obstante, devemos dar-nos conta de que estes brotam do coração; o Senhor chama a atenção em primeiro lugar para os pecados internos: rancor, ódio, etc., para fazer ver que aí está a raiz, e quanto nos convém refrear os primeiros movimentos da ira.

23-24. O Senhor encontra-Se com umas práticas judaicas do Seu tempo, e em tal ocasião dará uma doutrina de valor moral altíssimo e perene. Naturalmente que no cristianismo estamos noutra situação diferente das práticas cultuais judaicas. Para nós o mandato do Senhor tem uns caminhos determinados por Ele mesmo. Em concreto, na Nova e definitiva Aliança, fundada por Cristo, reconciliar-nos é apro­ximar-nos do sacramento da Penitência. Neste os fiéis «obtêm da misericórdia de Deus o perdão da ofensa feita a Ele, e ao mesmo tempo reconciliam-se com a Igreja, à qual feriram pelo pecado» (Lumen gentium, n. 11).

Do mesmo modo, no Novo Testamento, a oferenda por excelência é a Eucaristia. Ainda que à Santa Missa se deva assistir sempre nos dias de preceito, é sabido que para a recepção da Sagrada Comunhão se requer como condição imprescindível estar em graça de Deus.

Nosso Senhor não quer dizer nestes versículos que se tenha de antepor o amor do próximo ao amor de Deus. A caridade tem uma ordem: amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças. Este é o maior e primeiro mandamento (cfr Mt 22, 37-38). O amor ao próximo, que é o segundo mandamento em importância (cfr Mt 22, 39), recebe o seu sentido do primeiro. Não é concebível fraternidade sem paternidade. A ofensa contra a caridade é, antes de mais, ofensa a Deus.

15.03.14 – Mt 5, 43-48

43Ouvistes que foi dito: Ama o teu próximo e odeia o teu inimigo. 44Eu, porém, digo-vos: Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; 45para serdes filhos de vosso Pai que está nos Céus, o qual faz nascer o sol sobre maus e bons, e chover sobre justos e injustos. 46Porque, se amais os que vos amam, que recompensa mereceis? Porventura não fazem o mesmo também os publicanos? 47E se saudais só os vossos irmãos, que fazeis nisso de extraordinário? Porventura não fazem o mesmo também os gentios? 48Sede, pois, vós perfeitos como é perfeito vosso Pai celeste.

Comentário

43. A primeira parte do versículo «ama p teu próxi­mo», está em Levítico 19,18. A segunda parte «odeia o teu inimigo», não vem na Lei de Moisés. As palavras de Jesus, contudo, aludem a uma interpretação generalizada entre os rabinos da Sua época, os quais entendiam por próximo só os Israelitas. O Senhor corrige esta falsa interpretação da Lei, entendendo por próximo todo o homem (cfr a parábola do bom samaritano em Lc 10,25-37). 43-47. O passo recapitula os ensinamentos anteriores. O Senhor chega a estabelecer que o cristão não tem inimigos pessoais. O seu único inimigo é o mal em si, o pecado, mas não o pecador. Esta doutrina foi levada à prática pelo próprio Jesus Cristo com os que O crucificaram, e é a que segue todos os dias com os pecadores que se rebelam contra Ele e O desprezam. Por isso os santos seguiram o exemplo do Senhor, como o primeiro mártir Santo Estêvão, que orava pelos que lhe estavam a dar a morte. Chegou-se ao cume da perfeição cristã: amar e rezar até pelos que nos persigam e caluniem.

Este é o distintivo dos filhos de Deus.

46. «Publicanos»: Eram os cobradores de impostos. O Império Romano não tinha funcionários próprios para este serviço, mas entregava-o a determinadas pessoas do país respectivo. Estas podiam ter empregados subalternos (daí que por vezes se fale de «chefe de publicanos», como é o caso dê Zaqueu; cfr Lc 19, 2). A quantidade genérica do imposto para cada região era determinada pela autoridade romana. Os publicanos cobravam uma sobretaxa, da qual viviam, e que se prestava a arbitrariedade; por isso normalmente eram Odiados pelo povo. Além disso, no caso dos Judeus, agregava-se a nota infamante de espoliar o povo eleito em favor dos gentios. 48. O versículo 48 resume, de algum modo, todos os ensinamentos do capítulo, incluídas as Bem-aventuranças. Em sentido estrito é impossível que a criatura tenha a perfeição de Deus. Portanto, o Senhor quer dizer aqui que a perfeição divina deve ser o modelo para o qual há-de tender o fiel cristão, sabendo que há uma distância infinita em relação ao seu Criador. Isto, porém, não rebaixa nada a força deste mandamento, mas, pelo contrário, ilumina-o. Juntamente com a exigência deste mandato de Jesus Cristo, há que considerar a magnitude da graça que promete, para que sejamos capazes de tender, nada menos, que à perfeição divina. De qualquer modo a perfeição que havemos de imitar não se refere ao poder e à sabedoria de Deus, que superam por completo as nossas possibilidades, mas nesta passagem, pelo contexto, parece referir-se sobretudo ao amor e à miseri­córdia. Neste sentido São Lucas refere-nos as seguintes palavras do Senhor: «Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso» (Lc 6, 36; cfr nota a Lc 6, 20-49,).

Como se vê, a «chamada universal à santidade» não é uma sugestão, mas um mandamento de Jesus Cristo: «Tens obrigação de te santificar. — Tu, também. — Quem pensa que é tarefa exclusiva de sacerdotes e religiosos?

A todos, sem excepção, disse o Senhor: ‘Sede perfeitos, como Meu Pai Celestial é perfeito’» (Caminho, nº291). Doutrina que o Concilio Vaticano II sanciona no cap. 5 da Const. Lumen gentium, n. 40, donde tiramos estas palavras: «Jesus, mestre e modelo divino de toda a perfeição, pregou a santidade de vida, de que Ele é autor e consumador, a todos e a cada um dos Seus discípulos, de qualquer condição: ‘sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito’ (…). É, pois, claro a todos, que os cristãos de qualquer estado ou condição de Vida, são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade. Na própria sociedade terrena, esta santidade promove um modo de vida mais humano».

16.03.14 – Mt 17, 1-9

Seis dias depois, tomou Jesus a Pedro, a Tiago e a João, irmão deste, levou-os sós a um monte alto 2e transfigurou-Se diante deles. O Seu rosto brilhou como o Sol, e os vestidos tornaram-se brancos como a luz. 3Senão quando, apareceram-lhes Moisés e Elias a conversar com Ele. 4E Pedro, tomando a palavra, disse a Jesus: Senhor, é bom estarmos nós aqui. Se queres, faço aqui três tendas: uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias. 5Falava ainda, quando uma nuvem luminosa os envolveu, e uma voz, saída da nuvem, disse: Este é o Meu Filho amado, no qual pus as Minhas complacências. Ouvi-O!

6Os discípulos, ao ouvirem a voz, caíram de rosto por terra e ficaram transidos de medo. 7Mas Jesus aproximou-Se e, tocando-os, disse: Erguei-vos e não temais. 8E eles, levantando os olhos, não viram ninguém, senão a Jesus só. 9Ao descerem do monte, ordenou-lhes Jesus: Não conteis a ninguém esta visão, até que o Filho do homem ressus­cite dos mortos.

Comentário

1-13. Sabendo o escândalo que a Sua morte havia de produzir nos Seus discípulos, Jesus previne-os e con­forta-os na sua fé. Não se contentou com anunciar-lhes que havia de morrer e ressuscitar ao terceiro dia, mas quis que dois dos três que seriam colunas da Igreja (cfr Gal 2,9) vissem no acontecimento da Sua Transfiguração um fulgor da glória e da majestade que no Céu tem a Sua Humanidade santíssima. O testemunho do Pai (v. 5), expressado com as mesmas palavras que no dia do Baptismo (cfr Mt 3,17), revela aos três Apóstolos que Jesus Cristo é o Filho de Deus, o Filho muito amado, o próprio Deus. Às palavras já ditas no Baptismo, acrescenta: «Ouvi-O», como para indicar que Jesus é também o profeta supremo anunciado por Moisés (cfr Dt 18,15-18).

3. Moisés e Elias são os dois representantes máximos do Antigo Testamento: da Lei e dos Profetas. A posição central de Cristo indica a sua preeminência sobre eles e a do Novo Testamento sobre o Antigo.

Esta cintilação fulgurante da glória divina bastou para transportar os Apóstolos a uma imensa felicidade, que em Pedro produz um desejo irreprimível de alongar aquela situação.

5. Em Cristo Deus fala a todos os homens; a Sua voz ressoa através dos tempos por meio da Igreja: «A Igreja não cessa de ouvir as Suas palavras, volta a lê-las continuamente, reconstrói com a máxima devoção todo o pormenor particular da Sua vida. Estas palavras são ouvidas também pelos não cristãos. A vida de Cristo fala ao mesmo tempo a tantos homens que não estão ainda em condições de repetir com Pedro: ‘Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo’ (Mt 16,16). Ele, Filho de Deus vivo, fala aos homens também como homem: é a Sua própria vida a que fala, a Sua humanidade, a sua fidelidade à verdade, o Seu amor que abarca a todos. Fala, além disso, a Sua morte na cruz, isto é, a insondável profundidade do Seu sofrimento e do Seu abandono. A Igreja não cessa jamais de reviver a Sua morte na cruz e a Sua Ressurreição, que constituem o conteúdo da vida quotidiana da Igreja (..). A Igreja vive o Seu mistério, alcança-o sem nunca se cansar e busca continuamente os caminhos para aproximar este mistério do Seu Mestre e Senhor do gênero humano: dos povos, das nações, das gerações que se vão sucedendo, de todo o homem em particular» (Redemptor hóminis, n. 7).

17.03.14 – Lc 6, 36-38

36Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso. 37Não julgueis, e não sereis julgados. Não condeneis, e não sereis condenados. 38Absolvei, e sereis absolvidos. Dai, e dar-se-vos-á. Deitar-vos-ão no regaço uma boa medida, calcada, agitada, a transbordar, pois com a medida que empregardes vos será medido.

Comentário

36. O modelo de misericórdia que Cristo nos propõe é o próprio Deus. D’Ele diz São Paulo: «Bendito seja Deus Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai das misericórdias e Deus de toda a consolação, o qual nos consola em todas as nossas tribulações» (2Cor 1,3-4). «A primeira excelência que tem esta virtude — explica Frei Luís de Granada — é tornar os homens semelhantes a Deus, e semelhantes na coisa mais gloriosa que há n’Ele, que é na misericórdia (Lc 6,36).

Porque é certo que a maior perfeição que pode ter uma criatura é ser semelhante ao seu Criador: e quanto mais tiver desta semelhança, tanto mais perfeita será. E é certo também que uma das coisas que mais propriamente convém a Deus é a misericórdia, como o significa a Igreja naquela oração que diz: Senhor Deus, de quem é próprio ter misericórdia e perdoar. E diz ser isto próprio de Deus, porque assim como à criatura, enquanto criatura, pertence ser pobre e necessitada (e por isto a ela pertence receber e não dar), assim pelo contrário, como Deus é infinitamente rico e poderoso, só a Ele por excelência pertence dar e não receber, e por isto d ‘Ele é próprio ter misericórdia e perdoar» (Livro da oração e meditação, terceira parte, tratado terceiro).

O comportamento do cristão há-de seguir esta norma: compadecer-se das misérias alheias como se fossem próprias e procurar remediá-las. Neste mesmo sentido a nossa Santa Mãe a Igreja concretizou-nos uma série de obras de miseri­córdia tanto corporais (visitar e cuidar os doentes, dar de comer ao faminto, dar de beber ao sequioso…), como espirituais (ensinar aquele que não sabe, corrigir o que erra, perdoar as injúrias…) (cfr Catecismo Maior, nos 944-945). Também perante quem está no erro temos de ter com­preensão: «Este amor e benevolência de modo algum nos devem tornar indiferentes perante a verdade e o bem. Pelo contrário, é o próprio amor que incita os discípulos de Cristo a anunciar a todos a verdade salvadora. Mas deve distin­guir-se entre o erro, sempre de rejeitar, e aquele que erra, o qual conserva sempre a dignidade própria da pessoa, mesmo quando atingido por ideias religiosas falsas ou menos exactas. Só Deus é juiz e penetra os corações; por esse motivo, proibe-nos Ele de julgar da culpabilidade interna de qualquer pessoa» (Gaudium et spes, n. 28).

38. Lemos na Sagrada Escritura a generosidade da viúva de Sarepta, à qual Deus pediu que alimentasse o profeta Elias com o pouco que lhe restava; depois premiou a sua generosidade multiplicando-lhe a farinha e o azeite que tinha (1Reg 17,9 ss.). De maneira semelhante aquele menino que forneceu os cinco pães e os dois peixes, para que o Senhor os multiplicasse e alimentasse uma grande multidão (cfr Ioh 6,9), é um exemplo vivo do que o Senhor faz quando . entregamos o que temos, ainda que seja pouco.

Deus não Se deixa vencer em generosidade: «Vamos! Diz-Lhe com generosidade e como um menino: Que me irás dar quando me exiges ‘isso’?» (Caminho, n° 153). Por muito que demos a Deus nesta vida, mais nos dará o Senhor como prêmio na vida eterna. paciência e com carinho os que erram. Mas a pessoa que tem no seu coração um tesouro de maldade faz exactamente o contrário: odeia os seus amigos, fala mal de quem o ama, e todas as outras coisas condenadas pelo Senhor» (In Lucae Evangelium expositio, II, 6).

18.03.14 – Mt 23, 1-12

Então Jesus falou assim ao povo e aos Seus discípulos: 2Na cadeira de Moisés, sentaram-se os Escribas e Fariseus. 3Fazei, portanto, e guardai tudo quanto vos disserem, mas não imiteis as suas obras, porque dizem e não fazem. 4Atam cargas pesadas e incomportaveis e põem-nas às costas da gente, mas eles nem com o dedo as querem mover. 5Fazem todas as suas obras para serem vistos dos homens. Por isso alargam as filactérias e alongam as franjas. 6Cobiçam os primeiros lugares nos banquetes, as pri­meiras cadeiras nas sinagogas 7e as sauda­ções nas praças, e que os homens lhes chamem: «rabi». 8Vós, porém, não queirais que vos chamem « rabi», pois um só é o vosso Mestre, e todos vós sois irmãos. 9E não chameis a ninguém vosso «pai» sobre a terra, pois um só é o vosso Pai, o do Céu. 10Nem queirais que vos chamem «directores», porque um só é o vosso Director, Cristo. 11O maior entre vós seja vosso servidor, 12pois quem se exaltar a si mesmo, será humilhado, e quem a si mesmo se humilhar, será exaltado.

Comentário

1-39. Todo este capítulo é uma dura acusação contra os escribas e fariseus, ao mesmo tempo que mostra a dor e a compaixão de Jesus pelas gentes simples, mal conduzidas por aqueles, «mal tratadas e abatidas como ovelhas sem pastor» (Mt 9,36). No discurso podem distin­guir-se três partes: na primeira (vv. 1-12) denuncia os seus principais vícios e corrupções; na segunda (vv. 13-36) encara-se com eles e dirige-lhes os célebres «ais», que vêm a ser como o reverso das bem-aventuranças do capítulo quinto: impossível será entrar no Reino dos Céus — ou o seu contrário, escapar da condenação do fogo — a quem não mude radicalmente de atitude e de conduta; na terceira parte (vv. 37-39) está a queixa contra Jerusalém: Jesus sente intimamente dor pelos males que acarreta ao povo a cegueira orgulhosa e a dureza de coração dos escribas e fariseus.

2-3. Moisés entregou ao povo a Lei que tinha recebido de Deus. Os escribas, que pertenciam na sua maioria ao partido dos fariseus, tinham a seu cargo ensinar ao povo a Lei mosaica: por isso se dizia deles que estavam sentados na cátedra de Moisés. O Senhor reconhece a autoridade com que os escribas e fariseus ensinam, enquanto transmitem a Lei de Moisés; mas previne o povo e os Seus discípulos acerca deles, distinguindo entre a Lei que eles leem e ensinam nas sinagogas, e as interpretações práticas que eles mostram com a sua vida. Anos mais tarde São Paulo — fariseu, filho de fariseu —, manifestará acerca dos seus antigos colegas um juízo idêntico ao de Jesus: «Tu, porém, que ensinas outros, como não te ensinas a ti mesmo? Tu, que pregas que não se deve roubar, roubas? Tu, que dizes que não se deve cometer adultério, comete-lo? Tu, que abominas os ídolos, saqueias os templos? Tu, que te glorias na Lei, será que não desonras Deus ao transgredir a Lei? Pois, como diz a Escritura, por vossa culpa é blasfemado o nome de Deus entre os gentios» (Rom2,21-24).

5. As filactérias eram fitas ou bandas em que escreviam palavras da Sagrada Escritura. Os israelitas punham-nas sobre a fronte e atadas aos braços. Para se distinguirem dos outros e parecer mais religiosos e observantes os fariseus levavam-nas mais largas. As franjas eram orlas de cor jacinto, postas nos remates das suas capas. Os fariseus em sinal de ostentação levavam-nas mais longas.

8-10. Jesus Cristo vem ensinar a Verdade; mais ainda, Ele é a Verdade (Ioh 14, 6). Daí a singularidade e o caracter único da sua condição de Mestre. «Toda a vida de Cristo foi um ensino contínuo: o Seu silêncio, os Seus milagres, os Seus gestos, a Sua oração, o Seu amor ao homem, a Sua predilecção pelos pequenos e pelos pobres, a aceitação do sacrifício total na Cruz pela salvação do mundo, a Sua Ressurreição são a actuação da Sua palavra e o cumprimento da revelação. De sorte que para os cristãos o Crucifixo é uma das imagens mais sublimes e populares de Jesus que ensina.

«Estas considerações, que estão na linha das grandes tradições da Igreja, reafirmam em nós o fervor por Cristo, o Mestre que revela Deus aos homens e o homem a si mesmo; o Mestre que salva, santifica e guia, que está vivo, que fala, que exige, que comove, que orienta, julga, perdoa, caminha diariamente connosco na história; o Mestre que vem e virá na glória» (Catechesi tradendae, n. 9).

11. Perante a apetência de honras que mostravam os fariseus, o Senhor insiste em que toda a autoridade, e com mais razão se é religiosa, deve ser exercida como um serviço aos outros. E, como tal, não pode ser instrumentalizada para satisfazer a vaidade ou a avareza pessoais. O ensino de Cristo é absolutamente claro: «O maior entre vós seja vosso servidor».

12. O espírito de orgulho e de ambição é incompatível com a condição de discípulo de Cristo. Com estas palavras o Senhor insiste na exigência da verdadeira humildade, como condição imprescindível para O seguir. Os verbos em voz passiva «será humilhado» e «será exaltado» têm como sujeito agente a Deus: Ele mesmo humilhará os soberbos e exaltará os humildes. Neste sentido a Epístola de São Tiago ensina que «Deus resiste aos soberbos e dá a Sua graça aos humildes» (lac 4, 6). E no cântico do Magnificat, a Virgem Santíssima exclama que o Senhor «derrubou os poderosos do seu trono e exaltou os humildes» (Lc 1,52).

19.03.14 – Mt 1, 16.18-21.24

16Jacob gerou a José, o esposo de Maria da qual nasceu Jesus, que se chama Cristo.

18Ora o nascimento de Jesus foi assim: Estando Maria, sua Mãe, desposada com José, antes de morarem juntos, notou-se que tinha concebido por virtude do Espírito Santo. 19José, seu esposo, como era justo e não a queria infamar, resolveu deixá-la secretamente. 20Mas, andando ele com este pensamento, apareceu-lhe, em sonhos, um anjo do Senhor, que lhe disse:

— José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou, é obra do Espírito Santo. 2lEla dará à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus, porque Ele salvará o seu povo dos seus pecados.

24E José, despertando do sono, fez como lhe ordenara o anjo do Senhor e recebeu a sua esposa; 25a qual, sem ele a conhecer, deu à luz um filho, e ele pôs-Lhe o nome de Jesus.

Comentário

16. Entre os Hebreus as genealogias faziam-se por via masculina. José, como esposo de Maria, era o pai legal de Jesus. A figura do pai legal é equivalente quanto a direitos e obrigações à do verdadeiro pai. Neste facto se fundamenta solidamente a doutrina e a devoção ao Santo Patriarca como padroeiro universal da Igreja, visto que foi escolhido para desempenhar uma função muito singular no plano divino da nossa salvação: pela paternidade legal de São José é Jesus Cristo Messias descendente de David.

Do costume ordinário de celebrar os desposórios entre os membros de uma mesma estirpe, deduz-se que Maria pertencia à casa de David. Neste sentido falam também antigos Padres da Igreja. Assim Santo Inácio de Antioquia, Santo Ireneu, São Justino e Tertuliano, os quais fundamentam o seu testemunho numa tradição oral constante.

É de assinalar que São Mateus, para indicar o nascimento de Jesus, usa uma fórmula completamente diversa da aplicada aos demais personagens da genealogia. Com estas palavras o texto ensina positivamente a conceição virginal de Jesus, sem intervenção de varão.

18. São Mateus narra aqui como foi a conceição de Cristo (cfr Lc 1, 25-38): «(…) verdadeiramente celebramos e veneramos por Mãe de Deus (Maria), por ter dado à luz uma pessoa que é juntamente Deus e homem (…)» (Catecismo Romano, l, 4, 7).

Segundo as disposições da Lei de Moisés, aproxima­damente um ano antes do casamento realizavam-se os desposórios. Estes tinham praticamente já o valor jurídico do matrimônio. O casamento propriamente dito consistia, entre outras cerimônias, na condução solene e festiva da esposa para casa do esposo (cfr Dt 20,7).

Já desde os desposórios era preciso o libelo de repúdio, no caso de ruptura das relações.

Todo o relato do nascimento de Jesus ensina através do cumprimento da profecia de Isaías 7, 14 (que citará expres­samente nos versículos 22-23): 1.° Jesus é descendente de David pela via legal de José; 2.° Maria é a Virgem que dá à luz segundo a profecia; 3.° o caracter miraculoso da con­ceição do Menino sem intervenção de varão.

19. «José era efectivamente um homem corrente, em quem Deus confiou para operar coisas grandes. Soube viver, tal como o Senhor queria, todos e cada um dos aconteci­mentos que compuseram a sua vida. Por isso, a Escritura Santa louva José, afirmando que era justo. E, na linguagem hebraica, justo quer dizer piedoso, servidor irrepreensível de Deus, cumpridor da Vontade divina (cfr Gen 7,1; 23-32; Ez 18,5 ss; Prv 12, 10); outras vezes significa bom e caritativo com o próximo (cfr Tob 7,6; 9,6). Numa palavra, o justo é o que ama a Deus e demonstra esse amor, cumprindo os Seus mandamentos e orientando toda a sua vida ao serviço dos irmãos, os outros homens» (Cristo que passa, nº40).

José considerava santa a sua esposa não obstante os sinais da sua maternidade. Por isso se encontrava perante uma situação inexplicável para ele. Procurando precisamente actuar de acordo com a vontade de Deus sentia-se obrigado a repudiá-la, mas, com o fim de evitar a infâmia pública de Maria, decide deixá-la privadamente.

É admirável o silêncio de Maria. A sua entrega perfeita a Deus leva-a inclusivamente a não defender a sua honra e a sua inocência. Prefere que caia sobre Ela a suspeita e a infâmia, a manifestar o profundo mistério da Graça. Perante um facto inexplicável por razões humanas, abandona-se confiadamente no amor e providência de Deus.

Devemos contemplar a magnitude da prova a que Deus submeteu estas duas almas santas: José e Maria. Não nos pode causar estranheza que também nós sejamos submetidos por vezes, ao longo da vida, a provas duras; nelas temos de confiar em Deus e permanecer-Lhe fiéis, a exemplo de José e Maria.

20. Deus ilumina oportunamente o homem que actua com rectidão e confia no poder e sabedoria divina, perante situações que superam a compreensão da razão humana. O anjo recorda neste momento a José, ao chamar-lhe filho de David, que é o elo providencial que une Jesus com a estirpe de David, segundo a profecia messiânica de Natan (cfr 2 Sam 7, 12). Corno diz São João Crisóstomo: «Antes de mais recorda-lhe David, de quem tinha de vir Cristo, e não lhe consente estar perturbado desde o momento que, pelo nome do mais glorioso dos seus antepassados, lhe traz à memória a promessa feita a toda a sua linhagem » (Hom. sobre S. Mateus, 4).

«Jesus Cristo, único Senhor, nosso, Filho de Deus, quando tomou por nós carne humana no ventre da Virgem, foi con­cebido não por obra de varão, como os outros homens, mas, sobre toda a ordem natural, por virtude do Espírito Santo; de tal maneira que a mesma pessoa (do Verbo), permanecendo Deus, como o era desde a eternidade, se fizesse homem, o qual não era antes» (Catecismo Romano, 1,4,1).

21. Segundo a raiz hebraica, o nome de Jesus significa «salvador». Depois da Virgem Santa Maria, José é o primeiro homem que recebe esta declaração divina do facto da salvação, que já se estava a realizar.

«Jesus é o nome exclusivo do que é Deus e homem, o qual significa salvador, imposto a Cristo não casualmente nem por ditame ou disposição humana, mas por conselho e mandato de Deus.

(…) Os nomes profetizados (… o Admirável, o Conselheiro, Deus, o Forte, o Pai do século vindouro, o Príncipe da paz, cfr Is 9, 6), que se deviam dar por disposição divina ao Filho de Deus, resumem-se no nome de Jesus, porque, enquanto os outros se referem apenas sob algum aspecto à salvação que nos devia dar, este compendiou em si mesmo a realidade e a causa da salvação de todos os homens» (Catecismo Romano I, 3, 5 e 6).

20.03.14 – Lc 16, 19-31

19Havia um homem rico que se vestia de púrpura e linho fino e todos os dias se dava esplêndidas festas. 20Jazia ao seu portão, Lázaro coberto de chagas, um pobre chamado Lá­zaro, 21que bem desejava saciar-se do que caía da mesa do rico. E até os cães lhe vinham lamber as chagas. 22Ora o pobre morreu e foi levado pelos Anjos ao seio de Abraão. Morreu também o rico e foi sepultado. 23E, no outro mundo, achando-se em tormentos, ergueu os olhos e viu de longe a Abraão, e Lázaro em seu seio. 24Então ergueu a voz e disse: «Pai Abraão, tem dó de mim e envia Lázaro para que molhe em água a ponta do dedo e me refresque a língua, porque sou atormentado nestas chamas». 25« Filho — respondeu Abraão — lembra-te que recebeste os teus benefícios em vida, e Lázaro de igual modo os infortúnios. E agora, ele é aqui consolado, enquanto tu és ator­mentado. 26Além de tudo isso, entre nós e vós cava-se um grande abismo, de modo que não podem os que quiserem, passar daqui para junto de vós, nem atravessar daí para junto de nós». 27Ele retorquiu: «Peço-te então, ó pai, que o mandes à minha casa paterna, pois tenho cinco irmãos; 28que os previna, para não virem, eles também, para este lugar de tormento». 29Disse-lhe Abraão: «Têm Moisés é os Profetas; que os oiçam!». 30Ele, porém, replicou: «Não, pai Abraão, mas, se alguém do seio dos mortos for ter com eles, hão-de arrepender-se». 31Este respondeu-lhe: «Uma vez que não ouvem Moisés e os Pro­fetas, tão-pouco se hão-de convencer, se res­suscitar alguém dentre os mortos».

Comentário

19-31. A parábola dissipa dois erros: o dos que negavam a sobrevivência da alma depois da morte e, portanto, a retribuição ultraterrena, e o dos que interpretavam a pros­peridade material nesta vida como prêmio da rectidão moral, e a adversidade, pelo contrário, como castigo. Perante este duplo erro a parábola deixa claros os seguintes ensinamentos: que imediatamente depois da morte a alma é julgada por Deus de todos os seus actos — juízo particular —, recebendo o prêmio ou o castigo merecidos; que a Revelação divina é, de per si, suficiente para que os homens creiam no mais além.

Noutra ordem de ideias, a parábola ensina também a dignidade de toda a pessoa humana pelo tacto de o ser, independentemente da sua posição social, econômica, cul­tural, religiosa, etc. E o respeito por essa dignidade leva consigo a ajuda ao desprotegido de. bens materiais ou espiri­tuais: «Vindo a conclusões práticas e mais urgentes, o Con­cilio recomenda a reverência para com o homem, de ma­neira que cada um deve considerar o próximo, sem excepção, como um outro eu, tendo em conta, antes de mais, a sua vida e os meios necessários para a levar dignamente, não imitando aquele homem rico que não fez caso algum do pobre Lázaro» (Gaudium et spes, n 27).

Outra consequência prática do respeito pelo homem é a correcta distribuição de bens materiais, buscando ao mesmo tempo os recursos suficientes para defender a vida do homem, inclusivamente a do que ainda não nasceu, como exortava Paulo VI diante da Assembleia Geral das Nações Unidas: «Na vossa assembleia, inclusive no que diz respeito ao problema da natalidade, é onde o respeito pela vida deve encontrar a sua mais alta profissão e a sua mais razoável defesa. A vossa tarefa é actuar de tal sorte que o pão seja suficientemente abundante na mesa da humanidade e não favorecer um controle artificial dos nascimentos, que seria irracional, tendo em vista diminuir o número de comensais no banquete da vida» (Discurso Nações Unidas, n° 6).

21. A alusão aos cães não parece um pormenor de alívio para o pobre Lázaro, mas antes uma intensificação das suas dores, em contraste com os prazeres do rico avarento, porque os cães, entre os judeus, eram animais impuros e, portanto, ordinariamente não se domesticavam.

22-26. Os bens terrenos, como também os sofrimentos, são efêmeros: acabam-se com a morte, com a qual também termina o tempo de provação, a nossa possibilidade de pecar ou de merecer; e começa imediatamente o gozo do prêmio ou o sofrimento do castigo, ganhos durante a prova da vida. Segundo definiu o Magistério da Igreja, as almas de todos os que morrem em graça de Deus, imediatamente depois da sua morte, ou da purificação para os que dela precisarem, estarão no Céu: «Cremos na vida eterna. Cremos que as almas de todos aqueles que morrem na graça de Cristo — tanto as que ainda devem ser purificadas pelo fogo do Purgatório como as que imediatamente depois de se separarem do corpo, como o bom ladrão, são recebidas por Jesus no Paraíso — constituem o Povo de Deus depois da morte, a qual será destruída totalmente no dia da Ressurreição em que estas almas se unirão com os seus corpos» (Credo do Povo de Deus, n° 28).

A expressão « seio de Abraão» indica o lugar ou estado em «que residiam as almas dos santos antes da vinda de Cristo Senhor Nosso, onde, sem sentir dor alguma, sustentados com a esperança ditosa da redenção, desfrutavam de pací­fica morada. A estas almas piedosas que estavam à espera do Salvador no seio de Abraão, libertou Cristo Nosso Senhor ao baixar aos infernos» (Catecismo Romano, l, 6,3).

22. «Morreram os dois, o rico e o mendigo, e foram levados diante de Abraão e fez-se o juízo do seu comporta mento. E a Escritura diz-nos que Lázaro recebeu consolação e, pelo contrário, ao rico foram dados tormentos. Será que o rico foi condenado porque tinha riquezas, porque abundava em bens da terra, porque ‘vestia de púrpura e linho e celebrava cada dia esplêndidos banquetes’? Não, quero dizer que não foi por esta razão. O rico foi condenado porque não ajudou o outro homem. Porque nem sequer se deu conta de Lázaro, da pessoa que se sentava ao seu portal e ansiava pelas migalhas da sua mesa. Em nenhum lugar condena Cristo a mera posse de bens terrenos enquanto tal. Pelo contrário, pronuncia palavras muito duras contra os que utilizam os bens egoisticamente, sem se fixarem nas necessi­dades dos outros (…).

«A parábola do rico avarento e do pobre Lázaro deve estar sempre presente na nossa memória; deve formar-nos a consciência. Cristo pede abertura para os irmãos e irmãs necessitados; abertura de parte do rico, do opulento, do que está abastado economicamente; abertura para o pobre, o subdesenvolvido, o desprotegido. Cristo pede uma abertura que é mais que atenção benigna, ou mostras de atenção ou meio-esforço, que deixam o pobre tão desprotegido como antes ou inclusivamente mais (…).

«Não podemos permanecer ociosos desfrutando as nossas riquezas e liberdade se nalgum lugar o Lázaro do século XX está à nossa porta. À luz da parábola de Cristo, as riquezas e a liberdade criam responsabilidades especiais. As riquezas e a liberdade criam uma obrigação especial. E, por isso, em nome da solidariedade que nos vincula a todos numa única humanidade, proclamo de novo a dignidade de toda a pessoa humana; o rico e Lázaro, os dois, são seres humanos, criados os dois à imagem e semelhança de Deus, redimidos os dois por Cristo por grande preço, pelo preço do ‘precioso Sangue de Cristo’ .(1Pet 1,19)» (Homília Yankee Stadium).

24-31. O diálogo entre o rico avarento e Abraão é uma encenação didática para gravar nos ouvintes os ensina­mentos da parábola. Assim, em sentido estrito, no inferno não pode haver compaixão alguma em favor do próximo, já que ali só reina a lei do ódio contra tudo e contra todos. «Quando Abraão disse ao rico: ‘Entre vós e nós existe um abismo (…)’, manifestou que depois da morte e ressurreição não haverá lugar para penitência alguma. Nem os ímpios se arrependerão e entrarão no Reino, nem os justos pecarão e baixarão para o inferno. Este é um abismo intransponível» (A frates, Demonstratio, 20; De Sustentatione egenorum, 12). Por isso se compreendem as seguintes palavras de São João Crisóstomo: «Rogo-vos e peco-vos e, abraçado aos vossos pés, suplico-vos que, enquanto gozemos desta pequena res­piração da vida, nos arrependamos, nos convertamos, nos tornemos melhores, para que não nos lamentemos inutil­mente como aquele rico quando morrermos e o pranto não nos traga remédio algum. Porque ainda que tenhas um pai ou um filho ou um amigo ou qualquer outro que tenha influência diante de Deus, todavia, ninguém te livrará, sendo como são os teus próprios factos que te condenam» (Hom. sobre 1Cor).

21.03.14 – Mt 21, 33-43.45-46

33Ouvi outra parábola: Havia um proprie­tário que plantou uma vinha, e rodeou-a com uma cerca, e cavou nela um lagar, e levantou uma torre; depois arrendou-a a uns lavradores e partiu para longe. 34Quando se homicidas aproximou a época das colheitas, mandou os seus servos aos lavradores para receber os frutos. 35Os lavradores, porém, pegaram nos servos e espancaram a um, mataram a outro e a outro apedrejaram. 36Tornou ele a mandar outros servos em maior número que os primeiros. E eles trataram-nos do mesmo modo. 37Por fim mandou-lhes o seu próprio filho, dizendo: «Hão-de respeitar o meu filho». 38Mas os lavradores, ao verem o filho, disseram entre si: «Este é o herdeiro, vamos matá-lo e ficaremos com a sua herança!»39E sem mais, pegaram nele, lançaram-no fora da vinha e mataram-no. 40Ora, quando vier o dono da vinha, que fará àqueles lavradores?

41Responderam-Lhe: Fará morrer de má morte os malvados e arrendará a vinha a outros lavradores que lhe paguem os frutos a seu tempo.42Disse-lhes Jesus: Nunca lestes nas Escrituras:

«A pedra que os construtores rejeitaram, essa veio a ser pedra angular?

Isto é obra do Senhor e é maravilha a nossos olhos?»

43Por isso vos digo que vos será tirado o Reino de Deus e dado a um povo que produza os seus frutos.

45Ouvindo as Suas parábolas, os Príncipes dos sacerdotes e os Fariseus compreenderam que falava deles 46e queriam prendê-Lo, mas tiveram medo do povo, que O tinha por profeta.

Comentário

33-46. Esta parábola, tão importante, completa a anterior. A parábola dos dois filhos limitava-se a mostrar o facto da indocilidade de Israel; a dos vinhateiros homicidas projecta a sua luz sobre o castigo consequente.

O Senhor compara Israel com uma vinha escolhida, provida segundo o uso oriental da sua cerca, do seu lagar, com a sua torre de vigilância algo elevada, onde se coloca o guardião encarregado de proteger a vinha contra os ladrões e os chacais. Deus não regateou nada para cultivar e embelezar a sua vinha. Os vinhateiros, na parábola, são colonos; o dono é Deus, e a vinha é Israel (Is 5,3-5; ler 2,21; Ioel 1, 7).

Os vinhateiros a quem Deus tinha entregado o cuidado do Seu povo representam os sacerdotes, escribas e anciãos. A ausência do dono dá a entender que Deus confiou realmente Israel aos seus chefes; e daqui nasce a sua responsabilidade e contas exigidas pelo dono da vinha.

O dono envia os seus servos de vez em quando para receber os seus frutos. Esta foi a missão dos profetas. O segundo envio dos servos para reclamar o que deviam ao seu dono, e que corre a mesma sorte que o primeiro, é uma alusão aos maus tratos infligidos aos profetas de Deus pelos reis e sacerdotes de Israel (Mt 23, 37; Act 7, 42; Heb 11, 36-38). Finalmente enviou-lhes o Seu Filho, pensando que, sem dúvida, O respeitariam. Aqui é assinalada a diferença entre Jesus e os profetas, que eram servos, mas não «o Filho»: a parábola refere-se à filiação transcendente e única que expressa a divindade de Jesus Cristo.

A intenção perversa dos vinhateiros de assassinar o filho herdeiro, para ficarem eles com a herança, é o desatino com que os chefes da sinagoga esperam ficar como donos indiscutíveis de Israel ao matarem Cristo (Mt 12, 14: 26, 4). Não pensam no castigo: a ambição cega-os. Então «lançaram-no fora da vinha e mataram-no»: referência à crucifixão que teve lugar fora dos muros de Jerusalém.

Jesus Cristo profetiza o castigo que Deus imporá aos malvados: dar-lhes-á morte, e arrendará a vinha a outros. Estamos diante de uma profecia da máxima importância: São Pedro repetirá mais tarde diante do sinédrio: «a pedra que os construtores rejeitaram, esta veio a ser pedra angular» (Act 4, 11; 1Pet 2, 4). A pedra é Jesus de Nazaré, mas os arquitectos de Israel, os que constroem e governam o povo, não quiseram usá-la na construção. Por isso, por causa da sua infidelidade, o Reino de Deus será transferido para outro povo, os gentios, que saberão dar a Deus os frutos que Ele espera da sua vinha (cfr Mt 3,8-10; Gal 6, 16).

É necessário assentar sobre esta pedra para estar solidamente edificado. E infeliz o que tropece nela (Mt 12,30; Lc 2,34). Aqueles judeus primeiro e depois todos os inimigos de Cristo e da Igreja comprová-lo-ão com dura experiência (Is 8,14-15).

Os cristãos de todos os tempos deverão considerar esta parábola como uma exortação a construir com fidelidade sobre Cristo, para não reincidir no pecado daquela geração judaica. Ao mesmo tempo deve encher-nos de esperança e de segurança: ainda que o edifício, que é a Igreja, pareça fender-se em algum momento, a sua solidez está assegurada, porque tem Cristo como pedra angular.

22.03.14 – Lc 15, 1-3.11-32

Ora os publicanos e os pecadores aproximavam-se todos de Jesus para O ouvirem. 2E os Fariseus e os Escribas murmuravam entre si, dizendo: Este homem acolhe os pecadores e come com eles.

11Disse ainda: Certo homem tinha dois filhos. 12E o mais novo dentre eles disse ao pai: «Pai, dá-me a parte que me cabe da fortuna». E ele repartiu-lhes os bens. 13Alguns dias depois, o filho mais novo, reunindo tudo, ausentou-se para uma região longín­qua e por lá esbanjou os seus bens, vivendo dissipadamente. 14Depois de haver gastado tudo, houve uma grande fome por aquela região, e ele começou a passar privações. 15Foi então ligar-se a um dos habitantes daquela região, o qual o mandou para os seus campos guardar porcos. 16Bem desejava ele encher o ventre com as alfarrobas que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava. 17Então caiu em si e disse: «Quantos jornaleiros de meu pai têm pão com fartura, e eu morro aqui à fome! 18Vou ter com meu pai e digo-lhe: Pai, pequei contra o Céu e para contigo. 19Já não sou digno de cha­mar-me teu filho. Trata-me como um dos teus jornaleiros». 20Partiu, pois, e foi ter com o pai.

Estando ele ainda longe, viu-o o pai, e encheu-se de compaixão e correu a lançar-se-lhe ao pescoço, beijando-o. 21Disse-lhe o filho: «Pai, pequei contra o Céu e para contigo. Já não sou digno de chamar-me teu filho». 22Disse o pai aos seus criados: «Trazei depressa o fato melhor e vesti-lho; ponde-lhe um anel na mão, e calçado nos pés. “Trazei o vitelo gordo, matai-o; e comamos em festa, 24porque este meu filho estava morto e voltou à vida, estava perdido e encontrou-se». E começaram com a festa.

25Ora o filho mais velho estava no campo. Quando, à volta, se aproximou da casa, ouviu música e danças. 26Chamando um dos moços, pediu-lhe informações sobre o que era aquilo. 27«É que chegou teu irmão — lhe disse este — e teu pai matou o vitelo gordo, porque de regresso o encontrou com saúde.» 28Ele ficou irritado e não queria entrar. O pai veio cá fora instar com ele. 29Mas ele, em resposta, disse ao pai: «Há já tantos anos que te sirvo sem nunca transgredir uma ordem tua, e tu nunca me deste um cabrito, para eu fazer uma festa com os meus amigos! 30Mas, quando chegou esse teu filho, que te consumiu a fortuna com meretrizes, mataste-lhe o vitelo gordo». 31O pai respondeu-lhe: «Filho, tu sempre estás comigo e tudo o que é meu é teu. 32Mas nós tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e voltou à vida, estava perdido e encontrou-se».

Comentário

1-32. Com as Suas obras Jesus manifesta a misericórdia divina: aproxima-Se dos pecadores para os converter. Os escribas e os fariseus, que desprezam os pecadores, não compreendem esse comportamento de Jesus, e murmuram d’Ele; será ocasião para que Nosso Senhor pronuncie as parábolas da misericórdia. «O Evangelista que trata de modo particular estes temas do ensino de Cristo é São Lucas, cujo Evangelho mereceu ser chamado ‘o Evan­gelho da misericórdia’» (Dives in misericórdia, n 3).

Neste capítulo São Lucas recolhe três destas parábolas, em que de modo gráfico Jesus descreve a infinita e paterna! misericórdia de Deus, e a Sua alegria pela conversão do pecador.

O Evangelho ensina que ninguém está excluído do per dão, e que os pecadores podem chegar a ser filhos que­ridos de Deus mediante o arrependimento e a conversão. E é tal o desejo divino de que os pecadores se convertam que as três parábolas terminam repetindo, a modo de estribilho, a alegria grande no Céu por cada pecador arrependido.

1-2. Não é esta a primeira vez que publicanos e peca­dores se aproximam de Jesus (cfr Mt 9,10). A pregação do Senhor atraía pela sua simplicidade e pelas suas exigências de entrega e de amor. Os fariseus tinham-Lhe inveja porque a gente ia atrás d’Ele (cfr Mt 26,3-5; Ioh 11,47). Essa atitude farisaica pode repetir-se entre os cristãos: uma dureza de juízo tal que não aceite que um pecador, por maiores que tenham sido os seus pecados, possa converter-se e ser santo; uma cegueira de mente tal que impeça reconhecer o bem que fazem os outros e alegrar-se disso. Nosso Senhor já vai ao encontro desta atitude errada quando responde aos Seus discípulos que se queixam de que outros expulsem demônios em Seu nome: «Não lho proibais, pois não há ninguém que faça um milagre em Meu nome e possa a seguir falar mal de Mim» (Mc 9,39). Igualmente São Paulo alegrava-se de que i. outros anunciassem Cristo, e inclusivamente passava por alto que o fizessem por interesse, desde que Cristo fosse pregado (cfr Phil 1,17-18).

11. Estamos perante uma das parábolas mais belas de Jesus, em que nos é ensinado uma vez mais que Deus é um Pai bom e compreensivo (cfr Mt 6,8; Rom 8,15; 2 Cor 1,3). O filho que pede a parte da sua herança é figura do homem que se afasta de Deus por causa do pecado. Nesta parábola «a essência da misericórdia divina — embora no texto origi­nal não seja usada a palavra ‘misericórdia’ — aparece de modo particularmente límpido» (Dives in misericórdia, n 5).

12-13. «Este filho, que recebe do pai a parte da herança que lhe toca e deixa a casa paterna para esbanjar essa herança numa terra longínqua ‘vivendo dissolutamente’, em certo sentido é o homem de todos os tempos, a começar por aquele que foi o primeiro a perder a herança da graça e da justiça original. Neste ponto a analogia é muito vasta. Indirectamente a parábola estende-se a todas as rupturas da aliança de amor: a toda a perda da graça, e todo o pecado» (Dives in misericórdia, n 5).

14-15. Neste momento da parábola vemos as tristes consequências do pecado. Com essa fome fala-se-nos da ansiedade e do vazio que sente o coração do homem quando está longe de Deus. Com a servidão do filho pródigo é-nos descrita a escravidão a que fica submetido quem pecou (cfr Rom 1,25:6.6; Gal 5,1). Assim, pelo pecado o homem perde a liberdade dos filhos de Deus (cfr Rom 8,21; Gal 4,31; 5,13) e submete-se ao poder de Satanás.

17-21. A recordação da casa paterna e a segurança no amor do pai fazem que o filho pródigo reflicta e decida pôr-se a caminho. «De certo modo, a vida humana é um constante regresso à casa do Pai, um regresso mediante a contrição, a conversão do coração que significa o desejo de mudar, a decisão firme de melhorar a nossa vida e que, portanto, se manifesta em obras de sacrifício e de doação; regresso a casa do Pai, por meio do sacramento do perdão, em que, ao confessar os nossos pecados, nos revestimos de Cristo e nos tornamos assim seus irmãos, membros da família de Deus» (Cristo que passa, n° 64).

20-24. Deus espera sempre o regresso do pecador e quer que se arrependa. Quando chega O filho pródigo as palavras do pai não são de repreensão mas de imensa compaixão, que o leva a abraçar o filho e a cobri-lo de beijos.

20. «Não há dúvida de que, naquela simples mas pene­trante comparação, a figura do pai revela-nos Deus como Pai (…). O pai do filho pródigo é f tela sua paternidade, fiel ao amor que desde sempre tinha dedicado ao seu filho. Tal fidelidade manifesta-se na parábola não apenas na prontidão em rece­bê-lo em casa, quando ele voltou depois de ter esbanjado a herança, mas sobretudo na alegria e no clima de festa tão generoso para com o esbanjador que regressa. Esta atitude provoca até a inveja do irmão mais velho, que nunca se tinha afastado do pai, nem abandonado a casa paterna.

«A fidelidade a si próprio por parte do pai — traço caracte­rístico já conhecido pelo termo do Antigo Testamento ‘hesed’ — exprime-se de modo particularmente denso de afecto. Lemos, com efeito, que, ao ver o filho pródigo regressar a casa, o pai, ‘movido de compaixão, correu ao seu encontro, abraçou-o efusivamente e beijou-o’. Procede deste modo levado certamente por profundo afecto; e assim se explica também a sua generosidade para com o filho, generosidade que causará tanta indignação no irmão mais velho» (Dives in misericórdia, n 6).

«Perante um Deus que corre para nós, não podemos calar-nos e dir-Lhe-emos com São Paulo: Abba, Pater! (Rom VIII, 15). Pai! Meu Pai! Pois, sendo Ele o Criador do universo, não dá importância a títulos altissonantes, nem sente falta da justa confissão do seu poderio. Quer que Lhe chamemos Pai, que saboreemos essa palavra, enchendo a alma de alegria (…).

«Deus espera-nos como o pai da parábola, estendendo para nós os braços, embora não o mereçamos. Não importa o que lhe devemos. Como no caso do filho pródigo, o que é preciso é que lhe abramos o coração, que tenhamos sau­dades do lar paterno, que nos maravilhemos e nos alegremos perante o dom que Deus nos fez de nos podermos chamar e sermos realmente, apesar de tanta falta de correspondência da nossa parte, seus filhos» (Cristo que passa, n° 64).

25-30. A misericórdia de Deus é tão grande que escapa à compreensão do homem; e este é o caso do filho mais velho, que considera excessivo o amor do pai para com o filho mais novo; a sua inveja não o deixa compreender as manifestações de amor que o pai mostra ao recuperar o filho perdido, nem compartilhar a alegria da família. «É verdade que foi pecador. — Mas não faças dele esse juízo inabalável. — Abre o coração à piedade, e não te esqueças de que ainda pode vir a ser um Agostinho, enquanto tu não passas de um medíocre» (Caminho, n° 675).

Por outro lado, devemos considerar que se Deus tem compaixão dos pecadores, quanto mais terá dos que se esforçam por permanecer fiéis. Bem o compreendia Santa Teresinha de Lisieux: «Que doce alegria a de pensar que o Senhor é justo, isto é, que conta com as nossas debilidades, que conhece perfeitamente a fragilidade da nossa natureza! Por quê, pois, temer? O bom Deus, infinitamente justo, que Se dignou perdoar com tanta misericórdia as culpas do filho pródigo, não será também justo comigo que estou sempre junto d’Ele?» (História de uma alma, cap. 8).

32. «A misericórdia apresentada por Cristo na parábola do filho pródigo tem a característica interior do amor, que no Novo Testamento é chamado ‘agape’. Este amor é capaz de debruçar-se sobre todos os filhos pródigos, sobre qualquer miséria humana e, especialmente, sobre toda a miséria moral, sobre o pecado. Quando isto acontece, aquele que é objecto da misericórdia não se sente humilhado, mas como que reencontrado e ‘revalorizado’. O pai manifesta-lhe alegria, antes de mais por ele ter sido ‘reencontrado’ e por ter ‘voltado à vida’. Esta alegria indica um bem que não foi destruído: o filho, embora pródigo, não deixa de ser real­mente filho de seu pai. Indica ainda um bem reencontrado: no caso do filho pródigo, o regresso à verdade sobre si próprio» (Dives in misericórdia, n 6).

23.03.14 – Jo 4, 5-42

5Chega, pois, a uma cidade da Samaria chamada Sicar, perto da fazenda 6que Jacob havia dado ao seu filho José. 9Era ali a Fonte de Jacob. E Jesus, cansado da caminhada, senta-Se sem mais junto da fonte. Era por volta da hora sexta. 7Chega uma mulher da Samaria, para tirar água. Diz-lhe Jesus: Dá-me de beber. 8É que os discípulos tinham ido à cidade comprar mantimentos. 9Responde-Lhe então a samaritana: Como é que Tu, que és judeu, me pedes de beber, sendo eu samaritana? É que os Judeus não se dão com os Samaritanos. 10Responde-lhe Jesus: Se conhecesses o dom de Deus e quem é Aquele que te diz: « dá-me de beber», tu é que Lhe terias pedido, e Ele ter-te-ia dado uma água viva. 11Senhor — diz-Lhe a mulher — nem sequer tens um balde, e o poço é fundo; donde Te vem então a água viva? 12Serás Tu maior que o nosso pai Jacob, que nos deu o poço, do qual ele mesmo bebeu, assim como os seus filhos e os seus animais? 13Responde-lhe Jesus: Todo aquele que bebe desta água de novo terá sede! 14Aquele, porém, que beber da água que Eu lhe der nunca mais terá sede, mas a água que Eu lhe der tornar-se-á nele uma nascente de água a jorrar para a vida eterna. 15Senhor — responde-Lhe a mulher — dá-me dessa água, para eu não ter sede nem vir aqui tirá-la. 16Ele diz-lhe: Vai chamar o teu marido e volta cá. 17Responde-Lhe a mulher: Não tenho marido. Jesus retorquiu-lhe: Disseste bem: «não tenho marido», 18pois tiveste cinco maridos e aquele que tens agora não é teu; quanto a isso, falaste verdade.

19Senhor — diz-Lhe a mulher — vejo que és profeta. 20Os nossos pais adoraram neste monte; e vós dizeis que em Jerusalém é que está o sítio onde se deve adorar. 21Mulher — replica-lhe Jesus — podes acreditar-Me: vai chegar a hora em que, nem neste monte, nem em Jerusalém, haveis de adorar o Pai. 22Vós adorais o que não conheceis, nós ado­ramos o que conhecemos, porque a salvação vem dos Judeus. 23Mas vai chegar a hora — e é já — em que os verdadeiros adoradores hão-de adorar o Pai em espírito e em ver­dade, pois o Pai pretende que tais sejam os Seus adoradores. 24Deus é espírito, e os Seus adoradores em espírito e em verdade é que O devem adorar. 25Diz-Lhe a mulher: Eu sei que há-de vir o Messias — que quer dizer Ungido. Quando Ele vier, tudo nos há-de manifestar. 26Diz-lhe Jesus: Sou Eu, que estou a falar contigo.

27Nisto, vieram os discípulos, que ficaram admirados por Ele estar a falar com uma mulher; nenhum, porém, perguntou: «que pretendes?» ou: «porque estás a falar com ela?». 28A mulher, então, deixando a bilha, foi à cidade e disse aos homens: 29Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Não será Ele o Messias? 30Eles saíram da cidade e vieram ter com Jesus.

31Entretanto, os discípulos instavam com Ele, dizendo: Come, Rabi. 32Mas Ele res­pondeu-lhes: Eu tenho um alimento para comer que vós não conheceis! 33Diziam então os discípulos entre si: Acaso Lhe trouxe alguém de comer? 34Diz-lhes Jesus: O Meu alimento é fazer a vontade d’Aquele que Me enviou e realizar a Sua obra. 35Não dizeis vós: « Ainda há quatro meses até vir a ceifa» ? Pois bem, Eu digo-vos: Erguei os olhos e vede: os campos estão brancos para a ceifa. 36Já o ceifeiro recebe o salário e colhe fruto para a vida eterna, de modo que o semeador se alegra juntamente com o ceifeiro. 37Pois nisto se verifica o ditado: «Um é o que semeia e outro o que ceifa». 38Eu mandei-vos a ceifar o que vós não trabalhastes. Outros trabalharam, e vós viestes encontrar o seu trabalho.

39Daquela cidade, muitos dos Samaritanos acreditaram n’Ele, por causa da palavra da mulher, que atestava: Ele disse-me tudo o que eu fiz! 40Por isso, quando os Samaritanos vieram ao Seu encontro, pediram-Lhe que ficasse com eles. E ficou lá dois dias. 41Muitos mais acreditaram por causa da Sua palavra 42e diziam à mulher: Já não é por causa da tua fala que nós acreditamos; nós próprios ouvimos e sabemos que Ele é realmente o Salvador do mundo!

Comentário

4-5. Havia dois caminhos usuais para ir da Judeia para a Galileia. O mais curto passava pela cidade de Samaria. O outro, junto ao Jordão, era mais longo. Jesus percorre o de Samaria, talvez não só por ser o mais curto e frequentado, mas também para ter ocasião de pregar aos samaritanos. Ao aproximar-Se de Samaria, próximo de Sicar, a actual Askar, ao pé do monte Ebal, tem lugar o encontro de Jesus com a samaritana.

6. Os Evangelhos, e em especial o de São João, narram por vezes pormenores que podem parecer irrelevantes, mas não o são. Jesus, como nós, cansa-Se realmente, precisa de repor forças, sente fome e sede; mas mesmo no meio do cansaço não despreza a ocasião para fazer o bem às almas.

«Procurai recolher-vos e reviver devagar a cena: Jesus Cristo, perfectus Deus, perfectus homo, (Símbolo Atanasiano) está fatigado do caminho e do trabalho apostólico, tal como algumas vezes deve ter sucedido convosco, que vos sentis arrasados por já não poderdes mais. É comovedor observar o Mestre esgotado. Além disso, tem fome: os discípulos tinham ido ao povoado vizinho para buscar alimentos. E tem sede (…).

«Sempre que nos cansemos — no trabalho, no estudo, na tarefa apostólica — sempre que no horizonte haja trevas, então é preciso olhar Cristo: Jesus bom, Jesus cansado, Jesus faminto e sedento. Como te fazes compreender bem, Senhor! Como te fazes amar! Mostras-te igual a nós em tudo, excepto no pecado, para que sintamos que contigo poderemos vencer as nossas más inclinações e as nossas culpas. Efectivamente, não têm importância o cansaço, a fome, a sede, as lágrimas… Cristo cansou-Se, passou fome, teve sede, chorou. O que importa é a luta — uma luta amável, porque o Senhor permanece sempre a nosso lado — para cumprir a vontade do Pai que está nos céus» (Amigo de Deus, nos 176 e 201).

7. Jesus veio salvar o que estava perdido. Não poupará nenhum esforço para o conseguir. Eram proverbiais os ódios entre Judeus e Samaritanos; contudo, Jesus Cristo não exclui ninguém, mas o Seu amor estende-se a todas as almas, e por todas e cada uma vai derramar o Seu sangue. Inicia o diálogo com esta mulher mediante um pedido, que indica a grande delicadeza de Deus com os homens: Deus Omnipotente pede um favor à pobre criatura humana. «Dá-Me de beber»: Jesus pede de beber não só pela sede física mas porque tinha sede da salvação dos homens, por amor a eles. Estando cravado na Cruz voltou a dizer: «Tenho sede» (Ioh 19,28).

9. A resposta da samaritana torna possível o diálogo e mostra o acolhimento que na sua alma vai tendo a acção da graça: a própria aceitação de falar com Cristo, que era judeu, não deixa de ser o primeiro passo na transformação que começa a operar-se. Depois (v. 11), ao não tomar por banais as palavras de Jesus, dá outro passo na sua abertura à intervenção divina. Afloram os seus sentimentos religiosos, que agora se reavivam («o nosso pai Jacob», v. 12). Apertada por Jesus responde com verdade: «Não tenho marido» (v. 17); e descoberta a intimidade da sua consciência pelo Senhor, faz um acto de fé: «Vejo que és profeta» (v. 19).

10. Como no diálogo com Nicodemos, Jesus aproveita a ocasião de expressões usuais, ditas em sentido material e imediato, para apresentar a doutrina sobre realidades mais profundas. A experiência confirma a absoluta necessidade da água para a vida humana; de modo semelhante, a graça de Jesus Cristo é absolutamente necessária para a vida sobrenatural. A água que verdadeiramente pode saciar a sede do homem não é a daquele poço nem nenhuma outra, é a graça de Cristo, a água viva que satisfaz completamente a vida espiritual.

Uma vez mais, valendo-Se das preocupações e tarefas humanas, Jesus suscita o afã pelas realidades e necessidades sobrenaturais: como levou São Pedro e outros apóstolos das suas fainas de pesca para os trabalhos apostólicos de pesca­dores de homem, conduz a samaritana da sua tarefa de ir buscar água até ao desejo de encontrar essa água superior, «a jorrar para a vida eterna» (v. 14).

13-14. A resposta do Senhor é surpreendente e de grande interesse para aquela mulher. Tem diante alguém maior que Jacob; oferece-lhe uma água capaz de saciar a sede de uma vez para sempre. Cristo está a referir-Se à transformação que realiza em cada homem a participação da vida divina, a graça santificante, a presença do Espírito Santo, o dom mais excelente que haveriam de receber todos os que cressem n’Ele.

São muitas as ansiedades que se agitam no nosso inte­rior, intensos os desejos de felicidade e de paz; quem recebe o Senhor e se une a Ele como os sarmentos à videira (cfr Ioh 15,4-5), não só sacia a sua sede, mas, além disso, transforma-se em fonte de água viva (cfr Ioh 7,37-39).

16-19. Ainda que a mulher não pudesse ainda captar o sentido profundo daquelas palavras, Jesus aproveita o interesse crescente da samaritana para lhe ir manifestando a Sua condição divina: conhece a sua vida, os segredos do seu coração, lê na sua consciência. Presta-lhe assim o motivo imediato para a sua confissão inicial de fé: «Vejo que és profeta». Aqui está já o começo da sua conversão.

20. A origem do povo samaritano remonta à época da conquista da Samaria por parte da Assíria, século VIII a.C. (cfr 2Reg 13,24-31). Estava constituído por estrangeiros que muito depressa chegaram a fundir-se com os israelitas da região. No fim do exílio de Babilônia procuraram associar-se aos Judeus por razões de caracter político, e contribuir para a restauração do Templo de Jerusalém, mas não foram aceites. Desde então a hostilidade entre Judeus e Samari­tanos foi permanente (cfr Esd 4,1 ss.; Ioh 4,9).

Nesta ocasião, a samaritana, convencida de estar diante de quem tem autoridade, propõe ao Senhor uma das questões mais vitais que afectavam a vida religiosa de ambos os povos: a legitimidade do lugar onde devia dar-se culto a Deus; os Judeus defendiam que só o Templo de Jerusalém devia considerar-se legítimo; pelo contrário, os Samaritanos reclamavam esta legitimidade também para o santuário levantado no monte Garizim, apoiando-se na interpretação de alguns passos do Pentateuco (cfr Gen 12,7; 33,20; 22,2).

21-24. Jesus não Se limita a responder à pergunta, mas aproveita a ocasião para confirmar o valor dos ensinamentos ministrados pelos profetas e reafirmar assim a verdade revelada: os Samaritanos ignoram grande parte dos de­sígnios divinos porque prescindem de toda a revelação que não se ache nos cinco primeiros livros das Sagradas Escrituras, na Lei de Moisés; os Judeus, pelo contrário, estão mais próximos da verdade ao aceitarem todo o Antigo Testamento. Mas uns e outros devem abrir-se à nova Revelação de Jesus Cristo. Com a chegada do Messias, que ambos os povos esperavam, e que é a verdadeira morada de Deus no meio dos homens (cfr Ioh 2,19), inicia-se a Nova Aliança, que é definitiva, eem que Garizim ou Jerusalém ficam superados; o que agrada ao Pai é que todos aceitem o Messias, Seu Filho, o novo Templo de Deus, com um culto que brota do coração do homem (cfr Ioh 12,1; 2Tim 2,22) e que o próprio Espírito de Deus suscita (cfr Rom 8,15).

Por esta razão, a Igreja ensina de modo solene que me­diante o Baptismo nos tornamos verdadeiros adoradores de Deus: «Pelo Baptismo são os homens enxertados no mistério pascal de Cristo; mortos com Ele, sepultados com Ele, com Ele ressuscitados; recebem o espírito de adopção filial que ‘nos faz clamar: Abba, Pai’ (Rom 8,15), transformando-se assim nos verdadeiros adoradores que o Pai procura» (Sacrosanctum Concilium, n. 6).

25-26. A samaritana chegou à última etapa da sua con­versão: do reconhecimento dos seus pecados passou a aceitar a doutrina verdadeira: adorar o Pai em espírito e em verdade. Mas ainda lhe falta reconhecer Jesus como o Messias; ela confessa com simplicidade a sua ignorância neste ponto. Diante desta disposição favorável, Jesus revela-Se com clareza como o Messias: «Sou Eu que estou a falar contigo».

As palavras do Senhor são particularmente significativas: declara que é o Messias, e fá-lo dizendo «Eu sou», expressão que evoca a que Yahwéh tinha empregado para Se revelar a Moisés (cfr Ex 3,14), e que na boca de Jesus aponta para uma revelação não só do Seu messianismo mas também da Sua divindade (cfr Ioh 8,24.28.58; 18,6).

27. «Jesus Cristo, Nosso Senhor, foi, ao longo da Sua vida sobre a terra, coberto de impropérios e maltratado de todas as maneiras possíveis. Lembrais-vos? Diziam que Se comportava como um revoltoso e afirmaram que estava endemoninhado (cfr Mt 11, 18). Noutra altura, interpre­taram mal as manifestações do Seu Amor infinito e classi­ficaram-No como amigo de pecadores (cfr Mt 9, 11).

«Mais tarde, a Ele, que é a própria penitência e a própria temperança, lançam-Lhe à cara que freqüentava a mesa dos ricos (cfr Lc 19, 7). Também Lhe chamam depreciati­vamente fabrí filius (Mt 13, 55), filho do trabalhador, do carpinteiro, como se isso fosse uma injúria. Permite que O rotulem de bebedor e comilão… Deixa que O acusem de tudo, excepto de que não é casto. Não os deixou dizer isso, porque quer que nós conservemos com toda a nitidez esse exemplo: um modelo maravilhoso de pureza, de limpeza, de luz, de amor que sabe queimar todo o mundo para o puri­ficar.

«Gosto de me referir à santa pureza, contemplando sempre a conduta de Nosso Senhor, porque Ele a viveu com grande delicadeza. Reparai no que relata São João quando, Jesus, fatigatus ex itinere, sedebat sic supra fontem (Ioh 4, 6), cansado do caminho Se sentou à borda do poço (…).

«Mas, mais do que a fadiga do corpo, consome-O a sede de almas. Por isso, ao chegar a samaritana, aquela mulher pecadora, o coração sacerdotal de Cristo derrama-se, dili­gente, para recuperar a ovelha perdida, esquecendo o cansaço, a fome e a sede.

«Ocupava-Se o Senhor com aquela grande obra de cari­dade, quando os apóstolos voltaram da cidade e mirabantur quia cum muliere loquebatur (Ioh 4, 27), ficaram surpreen­didos por estar a falar a sós com uma mulher. Como era cuidadoso! Que amor à virtude encantadora da santa pureza, que nos ajuda a ser mais fortes, mais rijos, mais fecundos, mais capazes de trabalhar por Deus, mais capazes de tudo o que é grande!» (Amigos de Deus, n° 176).

28-30. A transformação que a graça opera nessa mulher é maravilhosa. O pensamento da samaritana centra-se agora somente em Jesus e, esquecendo-se do motivo que a tinha levado ao poço, deixa o seu cântaro e dirige-se à aldeia, desejando comunicar a sua descoberta.« Os Apóstolos, quando foram chamados, deixaram as redes, esta deixa o seu cântaro e anuncia o Evangelho, e não chama somente um, mas põe em alvoroço toda a cidade» (Hom. sobre S. João, 33). Toda a conversão autêntica projecta-se necessariamente para os outros, num desejo de os tornar participantes da alegria de se ter encontrado com Jesus.

32-38. O Senhor aproveita a ocasião para falar de um alimento espiritual: cumprir a vontade de Deus. Acaba de realizar a conversão de uma mulher pecadora, e isto sacia as ânsias do Seu espírito. A conversão das almas há-de servir de alimento aos Apóstolos e também a todos os que pela orde­nação sacerdotal são associados sacramentalmente ao ministério de Cristo (cfr 1Cor 4,9-15; 2Cor 4,7-12; 11,27-29). A missão apostólica umas vezes é sementeira, sem frutos iminentes, e outras colheita do que outros semearam. Os Apóstolos colherão o que Patriarcas e Profetas e sobretudo Cristo semearam com generosidade. E, por sua vez, terão de preparar o terreno, com a mesma entrega, para que outros possam colher.

Contudo, não só os ministros, mas todos os fiéis são chamados a tomar parte na tarefa apostólica: «Os fiéis, em virtude de possuírem dons diferentes, devem colaborar no Evangelho, cada um segundo as suas possibilidades, aptidões, carismas e ministérios; é ainda necessário que todos, os que semeiam e os que segam, sejam um só, a fim de que, ‘conspirando livre e ordenadamente para o mesmo fim’, empre­guem unanimemente as suas forças na edificação da Igreja» (Ad gentes, n. 28).

39-42. O episódio apresenta todo um processo de evangelização que se inicia com o entusiasmo da samaritana. «Tal como acontece hoje aos que estão fora e não são cristãos: começam os seus amigos cristãos por dar-lhes notícias de Cristo, como fez aquela mulher, tal como faz a Igreja; depois vêm a Cristo, isto é, creem em Cristo por esta notícia e, finalmente, Jesus fica com eles dois dias, e com isto creem muito mais e com mais firmeza que Ele é na verdade o Salvador do mundo» (In Ioann. Evang. 15,33).

24.03.14 – Lc 4, 24-30

24E continuou: Em verdade vos digo: Nenhum profeta é bem recebido na sua terra; 25mas, na realidade, vos digo Eu, muitas viúvas havia em Israel no tempo de Elias, quando o céu se fechou por três anos e seis meses e houve uma grande fome em toda a Terra, 26e a nenhuma delas foi mandado Elias, senão a uma viúva em Sarepta de Sidónia. 27E muitos leprosos havia em Israel, no tempo do Profeta Eliseu, mas nenhum deles foi limpo senão o sírio Naamã.

28Todos na sinagoga se encheram de furor, ao ouvirem estas coisas. 29Ergueram-se então, lançaram-No fora da cidade e levaram-No até a uma escarpa do outeiro em que estava construída a cidade, a fim de O precipitarem. 30Mas Jesus, passando pelo meio deles, seguiu o Seu caminho.

Comentário

22-29. Os habitantes de Nazaré escutam ao princípio com agrado as palavras cheias de sabedoria de Jesus. Mas a visão destes homens é muito superficial. Com um orgulho mesquinho sentem-se feridos pelo facto de Jesus, seu con­cidadão, não ter feito em Nazaré os prodígios que fez noutras cidades. Levados por uma confiança mal entendida, exigem-Lhe com insolência que faça ali milagres para agradar à sua vaidade, mas não para se converterem. Diante desta atitude Jesus não faz nenhum prodígio, seguindo o Seu modo habitual de proceder (veja-se, por exemplo, o encontro com Herodes em Lc 23,7-11); inclusivamente censura a sua posi­ção, explicando-lhes com dois exemplos tomados do AT (cfr 1Reg 17,9 e 2Reg 5,14) a necessidade de uma boa disposição a fim de que os milagres possam dar origem à fé. A atitude de Cristo fere-os no seu orgulho até ao ponto de O quererem matar. Todo o episódio é uma boa lição para entender de veras a Jesus: só pode ser entendido na humildade e na séria resolução de nos pormos nas Suas mãos.

30. Jesus não foge precipitadamente, mas vai-Se reti­rando por entre a turba agitada com uma majestade que os deixou paralisados. Como noutras ocasiões, os homens não podem nada contra Jesus: o decreto divino era que o Senhor morresse crucificado (cfr Ioh 18,32) quando chegasse a Sua hora.

25.03.14 – Lc 1, 26-38

26Ao sexto mês, foi o Anjo Gabriel enviado, Anunciação da parte de Deus, a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, 27a uma virgem que era noiva dum homem da casa de David, cha­mado José, e o nome da virgem era Maria. 28Ao entrar para junto dela, disse o Anjo: Salve, ó cheia de graça, o Senhor está contigo. 29A estas palavras, ela perturbou-se ficou a pensar que saudação seria aquela. 30Disse-lhe o Anjo: Não tenhas receio, Maria, pois achaste graça diante de Deus. 3lHás-de conceber e dar à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus. 32Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo; dar-Lhe-á o Senhor Deus o trono de Seu pai David, 33reinará eternamente na casa de Jacob e o Seu Reinado não terá fim.

34Disse Maria ao Anjo: Como será isso, se eu não conheço homem? 35Disse-lhe o Anjo, em resposta: Virá sobre ti o Espírito Santo, e a força do Altíssimo estenderá sobre ti a Sua sombra. Por isso mesmo é que o Santo que vai nascer há-de chamar-Se Filho de Deus. 36E também Isabel, tua parenta, concebeu um filho, na sua velhice, e é este o sexto mês dessa que chamavam estéril, 37porque, da parte de Deus, nada é impossível. 38Maria disse então: Eis a escrava do Senhor: seja-me feito segundo a tua palavra. E retirou-se o Anjo de junto dela.

Comentário

26-38. Aqui contemplamos Nossa Senhora que, «enri­quecida, desde o primeiro instante da sua conceição, com os esplendores duma santidade singular, a Virgem de Nazaré é saudada pelo Anjo, da parte de Deus, como cheia de graça (cfr Lc 1,28); e responde ao mensageiro celeste: Eis a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra (Lc 1,38). Deste modo, Maria, filha de Adão, dando o seu consentimento à palavra divina, tornou-se Mãe de Jesus e, não retida por .qualquer pecado, abraçou de todo o coração o desígnio r salvador de Deus, consagrou-se totalmente, como escrava do j Senhor, à pessoa e à obra de seu Filho, subordinada a Ele e juntamente com Ele, servindo pela graça de Deus omnipotente o mistério da Redenção. Por isso, consideram com razão os santos Padres que Maria não foi utilizada por Deus como instrumento meramente passivo, mas que cooperou livremente, pela sua fé e obediência, na salvação dos homens» (Lumen gentium, n. 56).

A Anunciação a Maria e a Encarnação do Verbo é o facto mais maravilhoso, o mistério mais entranhável das relações de Deus com os homens e o acontecimento mais transcendente da História da humanidade. Que Deus Se faça Homem e para sempre! Até onde chegou a bondade, a misericórdia e o amor de Deus por nós, por todos nós! E, não obstante, no dia em que a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade assu­miu a débil natureza humana das entranhas puríssimas de Maria Santíssima, nada extraordinário acontecia, aparentemente, sobre a face da terra.

Com grande simplicidade narra São Lucas o magno acontecimento. Com quanta atenção, reverência e amor temos de ler estas palavras do Evangelho, rezar piedosamente o Angelus cada dia, seguindo a divulgada devoção cristã, e contemplar o primeiro mistério gozoso do santo Rosário.

27. Deus quis nascer de uma mãe virgem. Assim o tinha anunciado séculos antes por meio do profeta Isaías (cfr Is 14; Mt 1,22-23). Deus, «desde toda a eternidade, esco­lheu-A e indicou-A como Mãe para que o Seu Unigênito Filho tomasse carne e nascesse d’Ela na plenitude ditosa dos tempos; e em tal grau A amou por cima de todas as criaturas, que só n’Ela se comprazeu com assinaladíssima complacência» (Ineffabilis Deus). Este privilégio de ser virgem e mãe ao mesmo tempo, concedido a Nossa Senhora, é um dom divino, admirável e singular. Deus «engrandeceu tanto a Mãe na concepção e no nascimento do Filho, que Lhe deu fecundidade e A conservou em perpétua virgindade» (Catecismo Romano, 1,4,8). Paulo VI recordava-nos novamente esta verdade de fé: «Cremos que a bem-aventurada Maria, que permaneceu sempre Virgem, foi a Mãe do Verbo encar­nado, Deus e Salvador nosso Jesus Cristo» (Credo do Povo de Deus, n° 14).

Ainda que se tenham proposto muitos significados do nome de Maria, os autores de maior relevância parecem estar de acordo em que Maria significa Senhora. Não obstante, a riqueza que contém o nome de Maria não se esgota com um só significado.

28. «Salve!»: Literalmente o texto grego diz: alegra-te! É claro que se trata de uma alegria totalmente singular pela notícia que Lhe vai comunicar a seguir.

«Cheia de graça»: O Arcanjo manifesta a dignidade e a honra de Maria com esta saudação desusada. Os Padres e Doutores da Igreja «ensinaram que com esta singular e solene saudação, jamais ouvida, se manifestava que a Mãe de Deus era assento de todas as graças divinas e que estava adornada de todos os carismas do Espírito Santo», pelo que «jamais esteve sujeita a maldição», isto é, esteve imune de todo o pecado. Estas palavras do arcanjo constituem um dos textos em que se revela o dogma da Imaculada Conceição de Maria (cfr Ineffabilis Deus; Credo do Povo de Deus, n° 14).

«O Senhor está contigo»: Estas palavras não têm um mero sentido deprecatório (o Senhor esteja contigo), mas afirmativo (o Senhor está contigo), e em relação muito (estreita com a Encarnação. Santo Agostinho glosa a frase «o Senhor está contigo» pondo na boca do arcanjo estas palavras: «Mais que comigo, Ele está no teu coração, forma-Se no eu ventre, enche a tua alma, está no teu seio» (Sermo de Nativitate Domini, 4).

Alguns importantes manuscritos gregos e versões antigas acrescentam no fim: «Bendita tu entre as mulheres»: Deus exaltá-La-ia assim sobre todas as mulheres. Mais excelente que Sara, Ana, Débora, Raquel, Judit, etc., pelo facto de que só Ela tem a suprema dignidade de ter sido escolhida para ser Mãe de Deus.

29-30. Perturbou-se Nossa Senhora pela presença do Arcanjo e pela confusão que produzem nas pessoas verdadeiramente humildes os louvores dirigidos a elas.

30. A Anunciação é o momento em que Nossa Senhora conhece com clareza a vocação a que Deus A tinha destinado desde sempre. Quando o Arcanjo A tranquiliza e Lhe diz «não temas, Maria», está a ajudá-La a superar esse temor inicial que, ordinariamente, se apresenta em toda a vocação. O facto de que isto tenha acontecido à Santíssima Virgem indica-nos que não há nisso nem sequer imperfeição: é uma reacção natural diante da grandeza do sobrenatural. Imperfeição seria não o superar, ou não nos deixarmos aconselhar por aqueles que, como São Gabriel e Nossa Senhora, podem ajudar-nos.

31-33. O arcanjo Gabriel comunica à Santíssima Virgem a sua maternidade divina, recordando as palavras de Isaias que anunciavam o nascimento virginal do Messias e que agora se cumprem em Maria Santíssima (cfr Mt 1,22-23; Is 7,14).

Revela-se que o Menino será «grande»: a grandeza vem-Lhe da Sua natureza divina, porque é Deus, e depois da Encarnação não deixa de sê-lo, mas assume a pequenez da humanidade. Revela-se também que Jesus será o Rei da dinastia de David, enviado por Deus segundo as promessas de Salvação; que o Seu Reino «não terá fim»; porque a Sua humanidade permanecerá para sempre indissoluvelmente unida à Sua divindade; que «chamar-se-á Filho do Altís­simo»: indica ser realmente Filho do Altíssimo e ser reconhe­cido publicamente como tal, isto é, o Menino será o Filho de Deus.

No anúncio do Arcanjo evocam-se, pois, as antigas pro­fecias que anunciavam estas prerrogativas. Maria, que conhecia as Escrituras Santas, entendeu claramente que ia ser Mãe de Deus.

34-38. O Papa João Paulo II comentava assim este passo: «Virgo fidelis, Virgem fiel. Que significa esta fidelidade de Maria? Quais são as dimensões dessa fidelidade? A primeira dimensão chama-se busca. Maria foi fiel, antes de mais, quando com amor se pôs a buscar o sentido profundo do desígnio de Deus n’Ela e para o mundo. ‘Quomodo fiet? Como acontecerá isto?’, perguntava Ela ao anjo da Anun­ciação (…). Não haverá fidelidade se não houver na raiz esta ardente, paciente e generosa busca (…).

«A segunda dimensão da fidelidade chama-se acolhimento, aceitação. O quomodo fiet transforma-se, nos lábios de Maria, em um fiat. Que se faça, estou pronta, aceito: este é o momento crucial da fidelidade, momento em que o homem percebe que jamais compreenderá totalmente o como; que no desígnio de Deus mais zonas de mistério que de evidência; que, por mais que faça, jamais conseguirá captar tudo (…).

«Coerência é a terceira dimensão da fidelidade. Viver de acordo com o que se crê. Ajustar a própria vida ao objecto da própria adesão. Aceitar incompreensões, perseguições antes de permitir rupturas entre o que se vive e o que se crê: esta é a coerência (…).

«Mas toda a fidelidade deve passar pela prova mais exigente: a da duração. Por isso a quarta dimensão da fidelidade é a constância. É fácil de ser coerente por um dia ou por alguns dias. Difícil e importante é ser coerente toda a vida. É fácil de ser coerente na hora da exaltação, difícil sê-lo na hora da tribulação. E só pode chamar-se fidelidade uma coerência que dura ao longo de toda a vida. O fiat de Maria na Anunciação encontra a sua plenitude no fiat silencioso que repete aos pés da cruz» (Homilia Catedral México).

34. A fé de Maria nas palavras do Arcanjo foi absoluta; não duvida como duvidou Zacarias (cfr 1,18). A pergunta da Santíssima Virgem «como será isso» exprime a sua prontidão para cumprir a Vontade divina diante de uma situação que parece à primeira vista contraditória: por um lado Ela tinha a certeza de que Deus lhe pedia para con­servar a virgindade; por outro lado, também da parte de Deus, é-lhe anunciado que vai ser mãe. As palavras imediatas do arcanjo declaram o mistério do desígnio divino e o que parecia impossível, segundo as leis da natureza, explica-se por uma singularíssima intervenção de Deus.

O propósito de Maria de permanecer virgem foi certa­mente algo singular, que interrompia o modo ordinário de proceder dos justos do Antigo Testamento, no qual, como expõe Santo Agostinho, «atendendo de modo particularíssimo à propagação e ao crescimento do Povo de Deus, que era o que tinha de profetizar e donde havia de nascer o Prín­cipe e Salvador do mundo, os santos tiveram de usar do bem do matrimônio» (De bono matrimonii, 9,9). Houve, porém, no Antigo Testamento alguns homens que por desígnio de Deus permaneceram célibes, como Jeremias, Elias, Eliseu e João Baptista. A Virgem Santíssima, inspirada ‘de modo muito particular pelo Espírito Santo para viver plenamente a virgindade, é já uma primícia do Novo Testamento, no qual a excelência da virgindade sobre o matrimônio adqui­rirá todo o seu valor, sem diminuir a santidade da união conjugal, que é elevada à dignidade de sacramento (cfr Gaudium et spes, n. 48).

35. A «sombra» é um símbolo da presença de Deus. Quando Israel caminhava pelo deserto, a glória de Deus enchia o Tabernáculo e uma nuvem cobria a Arca da Aliança (Ex 40,34-36). De modo semelhante quando Deus entregou a Moisés as tábuas da Lei uma nuvem cobria a montanha do Sinai (Ex 24,15-16), e também na Transfiguração de Jesus se ouve a voz de Deus Pai no meio de uma nuvem (Lc 9,35). No momento da Encarnação o poder de Deus enroupa com a Sua sombra Nossa Senhora. É a expressão da acção omnipotente de Deus. O Espírito de Deus — que, segundo o relato do Gênesis (1 ,2), pairava sobre as águas dando vida às coisas — desce agora sobre Maria. E o fruto do seu ventre será obra do Espírito Santo. A Virgem Maria, que foi concebida sem mancha de pecado (cfr Ineffabilis Deus), fica depois da Encarnação constituída em novo Tabernáculo de Deus. Este é o Mistério que recordamos todos os dias na recitação do Ángelus.

38. Uma vez conhecido o desígnio divino, Nossa Senhora entrega-se à Vontade de Deus com obediência pronta e sem reservas. Dá-se conta da desproporção entre o que vai ser — Mãe de Deus — e o que é — uma mulher —. Não obstante, Deus o quer e nada é impossível para Ele, e por isto ninguém é capaz de pôr dificuldades ao desígnio divino. Daí que, juntando-se em Maria a humildade e a obediência, pronun­ciará o sim ao chamamento de Deus com essa resposta perfeita: «Eis a escrava do Senhor, seja-me feito segundo a tua palavra».

«Ao encanto destas palavras virginais, o Verbo se fez carne» (Santo Rosário, primeiro mistério gozoso). Das purís­simas entranhas da Santíssima Virgem, Deus formou um corpo, criou do nada uma alma, e a este corpo e alma uniu-Se o Filho de Deus; desta sorte o que antes era apenas Deus, sem deixar de o ser, ficou feito homem. Maria já é Mãe de Deus. Esta verdade é um dogma da nossa santa fé definido no Concilio de Éfeso (ano 431). Nesse mesmo instante começa a ser também Mãe espiritual de todos os homens. O que um dia ouvirá de lábios de seu Filho moribundo, «eis aí o teu filho (…), eis aí a tua mãe» (Ioh 19,26-27), não será senão a proclamação do que silenciosamente tinha acontecido em Nazaré. Assim, «com o seu fiat generoso converteu-se, por obra do Espírito, em Mãe de Deus e também em verdadeira Mãe dos vivos, e converteu-se também, ao acolher no seu seio o único Mediador, em verdadeira Arca da Aliança e verdadeiro Templo de Deus» (Marialis cultus, n. 6).

O Evangelho faz-nos contemplar a Virgem Santíssima como exemplo perfeito de pureza («não conheço homem»); de humildade («eis a escrava do Senhor»); de candura e simplicidade («como será isso»); de obediência e de fé viva («seja-me feito segundo a tua palavra»). «Procuremos apren­der, seguindo também o seu exemplo de obediência a Deus, numa delicada combinação de submissão e de fidalguia. Em Maria, nada existe da atitude das virgens néscias, que obe­decem, sim, mas como insensatas. Nossa Senhora ouve com atenção o que Deus quer, pondera aquilo que não entende, pergunta o que não sabe. Imediatamente a seguir, entrega-se sem reservas ao cumprimento da vontade divina: eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a Vossa palavra (Lc I, 38). Vedes esta maravilha? Santa Maria, mestra de toda a nossa conduta, ensina-nos agora que a obediência a Deus não é servilismo, não subjuga a consciência, pois nos move interiormente a descobrir a liberdade dos filhos de Deus (cfr Rom VIII, 21)» (Cristo que passa, n° 173).

26.03.14 – Mt 5, 17-19

17Não julgueis que vim abolir a Lei ou os Profetas. Não vim abolir mas cumprir.

18Ern verdade vos digo: até que passem os Céus e a Terra, nem um só jota ou um só til da Lei passará, sem que tudo se cumpra.

19Portanto, quem transgredir um só destes mandamentos mais pequenos e ensinar assim aos homens, será o mais pequeno no Reino dos Céus. Mas quem os observar e ensinar, esse será grande no Reino dos Céus.

Comentário

17-19. Jesus ensina neste passo o valor perene do Antigo Testamento, enquanto é palavra de Deus; goza, portanto, de autoridade divina e não pode desprezar-se o mínimo. Na Antiga Lei havia preceitos morais, judiciais e litúrgicos. Os preceitos morais do AT conservam no Novo o seu valor, porque são principalmente promulgações concretas, divino-positivas, da lei natural. Nosso Senhor dá-lhes, contudo, a sua significação e as suas exigências mais profundas. Os preceitos judiciais e cerimoniais, pelo contrário, foram dado por Deus para uma etapa concreta na História da Salvação, a saber, até à vinda de Cristo; a sua observância material em si não obriga os cristãos (cfr Suma Teológica, I-II, q.108, a. 3 ad 3).

A lei promulgada por meio de Moisés e explicada pelos Profetas constituía um dom de Deus para o povo, como antecipação da Lei definitiva que daria Cristo o Messias. Na verdade, como definiu o Concilio de Trento, Jesus não só « foi dado aos homens como Redentor em quem confiem, mas também como Legislador a quem obedeçam» (De justificatione, can. 21).

27.03.14 – Lc 11, 14-23

14Jesus estava a expulsar um Demônio e este era mudo. Saído o Demônio, o mudo falou, e as multidões ficaram admiradas, de Deus 15Disseram, porém, alguns dentre eles: É por Belzebu, Príncipe dos Demônios, que Ele expulsa os Demônios. 16Outros, para O expe­rimentarem, solicitavam da Sua parte um sinal do céu. 17Mas Ele, que conhecia os pensamentos deles, disse-lhes: Todo o reino que se dividiu contra si mesmo ficará devas­tado, caindo casa sobre casa. l8Então, se Satanás, também, se dividiu contra si mesmo, como há-de manter-se o seu reino? Pois vós dizeis que por Belzebu é que Eu expulso os Demônios!… 19Mas se Eu expulso os Demônios por Belzebu, por quem os expulsam os vossos filhos? Por isso é que eles mesmos serão vossos juizes! 20Mas, se Eu expulso os Demônios pelo dedo de Deus, é que chegou até vós o Reino de Deus.

21Quando um homem forte e bem armado guarda o seu palácio, estão em segurança os seus haveres. 22Mas, quando surge um mais forte do que ele e o vence, tira-lhe o equipa­mento em que estava confiado e distribui-lhe os despojos.

23Quem não está comigo é contra Mim, e quem não junta comigo dispersa.

Comentário

14-23. A obstinação dos inimigos de Jesus não cede nem diante da evidência do milagre. Uma vez que não podem negar o valor extraordinário do facto, atribuem-no a artes demoníacas, com o intento de negar que Jesus é o Messias. O Senhor replica-lhes com um raciocínio que não admite escapatória: as expulsões de demônios que faz são provas evidentes de que com Ele chegou o Reino de Deus. O Concilio Vaticano II recordou de novo esta verdade: «O Senhor Jesus deu início à Sua Igreja pregando a boa nova do advento do Reino de Deus prometido desde há séculos nas Escrituras (…). Também os milagres de Jesus comprovam que já chegou à terra o Reino: «Se lanço fora os demônios com o poder de Deus, é que chegou a vós o Reino de Deus (Lc 11,20; cfr Mt 12,28). Mas este Reino manifesta-se sobretudo na própria pessoa de Cristo, Filho de Deus e Filho do homem, que veio para servir e dar a Sua vida em redenção por muitos (Mc 10,45)» (Lumen gentium, n.° 5).

O forte e bem armado é o demônio (v. 21), que com o seu poder tinha escravizado o homem; mas Jesus Cristo, mais forte que ele, veio, venceu-o e está a desalojá-lo de onde se tinha assenhoreado. São Paulo dirá que Cristo «despojou os principados e às potestades, triunfando publicamente sobre eles»(Col 2,15).

Depois da vitória de Cristo, o « mais forte », as palavras do V. 23 são uma séria advertência aos que O escutavam, e a toda a humanidade: ainda que o não queiram reconhecer Jesus Cristo venceu, e doravante não é admissível a neutralidade diante da Sua causa: quem não estiver com Ele, está contra Ele.

18. O argumento de Cristo é claro. Um dos maiores males que podem sobrevir à Igreja é precisamente a divisão entre os cristãos, a desunião dos crentes. Temos de fazer nossa a oração de Jesus:« Que todos sejam um; como Tu, Pai, em Mim e Eu em Ti, que assim eles estejam em Nós, para que o mundo creia que Tu Me enviaste» (Ioh 17,21).

28.03.14 – Mc 12, 28b-34

28Um escriba, que os tinha ouvido disputar e visto quão bem lhes respondera, aproxi­mou-se e perguntou-Lhe: Qual é o primeiro de todos os mandamentos? 29O primeiro — respondeu Jesus — é: Ouve Israel: O Senhor nosso Deus é o único Senhor30e ama o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e de todas as tuas forças. 31O segundo é: Ama o teu próximo como a ti mesmo. Não há nenhum mandamento maior que estes. 32Disse-Lhe o escriba: Mestre, disseste verdadeiramente bem que é único e não há outro fora d’Ele, 33e que amá-Lo de todo o coração, e de toda a inteligência, e de todas as forças, e amar o próximo como a si mesmo vale mais que todos os holocaustos e sacrifícios.34Jesus, ao ver que tinha respondido atinadamente, disse-lhe: Não estás longe,do Reino de Deus. E ninguém mais ousava interrogá-Lo.

Comentário

28-34. O doutor da lei que faz a pergunta mostra uma atitude leal diante de Jesus Cristo porque busca sinceramente a verdade. Ficou impressionado diante da resposta precedente de Jesus (vv. 18-27), e aproxima-se com desejos de conhecer melhor os ensinamentos do Mestre. A sua pergunta é acertada e Jesus entretém-se a instruir este homem, pertencente a um grupo, os escribas, sobre o qual vai lançar as acusações mais fortes (cfr Mc 12,38 ss.).

Mas Jesus não vê no personagem que d’Ele se aproxima apenas um escriba mas uma alma que busca a verdade. E os ensinamentos de Jesus penetram no seu coração: aquele homem repete-os saboreando-os, e o Senhor terá para ele uma palavra carinhosa que incita à conversão definitiva: «Não estás longe do Reino de Deus». Este encontro faz-nos recordar o que teve com Nicodemos (cfr Ioh3, 1 ss.). Sobre o conteúdo doutrinai destes dois mandamentos cfr a nota a Mt 22,34-40.

30. Este mandamento da Antiga Lei, ratificado por Jesus, manifesta, antes de mais, o amor de Deus que quer estabelecer uma comunicação íntima com o homem:« Verda­deiramente Deus mostra-Se desejoso do nosso amor! Não Lhe bastou conceder-nos a graça de consentir que O amássemos'(…); vai mais adiante em declarar-nos a Sua paixão amorosa; ordena-nos que O amemos com todas as forças, a fim de que nem a consideração da Sua Majestade e da nossa miséria, coisas tão infinitamente díspares, nem qualquer outro pretexto nos afastem do Seu amor. Nisso mostra bem que não colocou inutilmente em nós a inclinação para O amarmos, pois para que não ficasse frustrada, impele-nos a exercitá-la mediante um mandamento geral; e para que se possa cumprir este mandamento, a nenhum homem regateia os meios indispensáveis» (Tratado do amor de Deus, livro 2, cap. 8).

29.03.14 – Lc 18, 9-14

9Disse também a seguinte parábola, para alguns, que estavam intimamente convencidos de que eram justos e desprezavam os demais: 10Subiram ao Templo dois homens para orar: um fariseu e o outro publicano. 11O fariseu, perfilado, fazia lá consigo esta oração: «Ó Deus, dou-Te graças por não ser como o resto dos homens, que são ladrões, injustos, adúlteros, ou ainda como este publi­cano. 12Jejuo duas vezes por semana; pago o dízimo de tudo quanto recebo». 13E o publi­cano, mantendo-se a distância, não ousava nem sequer erguer os olhos ao Céu, mas batia no peito, dizendo: «Ó Deus, sé clemente para comigo, que sou pecador!». 14Eu vos digo: Desceu este justificado para sua casa, ao contrário do outro, porque todo aquele que se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado.

Comentário

9-14. O Senhor completa o Seu ensinamento sobre a oração; além de ser perseverante e cheia de fé, a oração deve brotar de um coração humilde e arrependido dos seus pe­cados: Cor contritum et humiliatum, Deus, non despicies (Ps 51,19), o Senhor, que nunca despreza um coração contrito e humilhado, resiste aos soberbos e dá a Sua graça aos humildes (cfr 1Pet 5,5; lac 4,6).

A parábola apresenta dois tipos humanos contrapostos: o fariseu, meticuloso no cumprimento externo da Lei; e o publicano, pelo contrário, considerado pecador público (cfr Lc 19,7). A oração do fariseu não é agradável a Deus devido ao seu orgulho, que o leva a fixar-se em si mesmo e a desprezar os outros. Começa a dar graças a Deus, mas é óbvio que não se trata de verdadeira acção de graças, visto que se ufana do bem que fez, e não é capaz de reconhecer os seus pecados; como pensa que já é justo, não tem necessi­dade, segundo ele, de ser perdoado; é, efectivamente, per­manece nos seus pecados; a ele se aplica também o que disse o Senhor noutra ocasião a um grupo de fariseus: « Se fósseis cegos não teríeis pecado, mas agora dizeis: Vemos; por isso o vosso pecado permanece» (Ioh 9,41). O fariseu baixou do Templo, pois, com os seus próprios pecados.

Pelo contrário, o publicano reconhece a sua indignidade e arrepende-se sinceramente: estas são as disposições neces­sárias para ser perdoado por Deus. A jaculatória do publi­cano, que exprime tais sentimentos, alcança o perdão divino: «Com razão, explica São Francisco de Sales, alguns disseram que a oração justifica, porque a oração contrita ou a contrição orante eleva a alma a Deus, une-a à Sua bondade e obtém o Seu perdão em virtude do amor divino que lhe comunica este santo movimento. Por conseguinte, devemos sentir-nos fortes com tais jaculatórias, feitas com actos de dor amorosa e com desejos de divina reconciliação a fim de que, por meio delas, expressando diante do Salvador as nossas angústias (Ps 142,2), confiemos a alma ao Seu Coração misericordioso que a receberá com piedade» (Tratado do amor de Deus, liv. 2, cap. 20).

30.03.14 – Jo 9, 1-41

Ao passar, viu um cego de nascença. 2Interrogaram-No então os discípulos, nestes termos: Rabi, quem pecou, ele ou os pais, para ter nascido cego? 3Jesus respondeu: Nem ele pecou, nem os pais; foi para nele se manifestarem as obras de Deus. 4Devemos trabalhar nas obras d’Aquele que Me enviou, enquanto é dia. Vai chegar a noite, em que ninguém pode trabalhar. 5Enquanto Eu estou no mundo, sou a luz do mundo.

6Dito isto, cuspiu na terra, fez lodo com a saliva e aplicou-lho aos olhos. 7Depois disse-lhe: Vai lavar-te à piscina de Siloá — que quer dizer Enviado. Ele foi, lavou-se e voltou com vista. 8Ora os vizinhos e os que antes o viam — pois era um mendigo — pergun­tavam: Não é este o que estava por aí sentado a mendigar? 9Uns diziam: É ele! Outros replicavam: Não! É parecido com ele. O próprio afirmava: Sou eu!

10Observavam-lhe, pois: Como foi então que se te abriram os olhos? 11Ele respondeu: Esse homem que se chama Jesus fez lodo, aplicou-mo aos olhos e disse-me: «Vai lavar-te a Siloá». Eu então fui e, depois de me lavar, comecei a ver. 12Perguntaram-lhe: Onde está Ele? Não sei — respondeu.

13 Lê varam aos Fariseus o que fora cego. 14Era um sábado o dia em que Jesus tinha feito lodo e lhe abrira os olhos. 15Perguntaram-lhe também por sua vez os Fariseus como tinha começado a ver. Ele declarou-lhes: Pôs-me lodo nos olhos; depois lavei-me e cá estou a ver. 16Diziam então alguns dos Fariseus: Esse homem não vem de Deus, porque não guarda o sábado. Outros obser­vavam: Como pode um pecador fazer tais milagres? E havia desacordo entre eles. 17Perguntaram então novamente ao cego: Que dizes tu, a respeito d’Ele, quanto a ter-te aberto os olhos? 18É um profeta! — respondeu. Ora os Judeus não quiseram acreditar que ele fora cego e adquirira a vista, antes de chamarem os pais do mesmo que alcançara a vista. 19Interogaram-nos, pois, nestes termos: É este o vosso filho que dizeis ter nascido cego? Como é então que ele agora já vê? 20Responderam os pais, dizendo: Sabemos que este é o nosso filho e que nasceu cego. 21Mas como é que ele agora já vê, não o sabemos, como não sabemos quem lhe abriu os olhos. Perguntai-lho vós. Tem idade; ele próprio falará a seu respeito. 22Isto disseram os pais dele, porque tinham medo dos Judeus. É que os Judeus já haviam combinado que, se alguém reconhecesse a Jesus como o Messias, seria excluído da sinagoga. 23Por isso é que os pais dele dis­seram: «Tem idade; interrogai-o vós».

24Chamaram então, pela segunda vez, o homem que fora cego e disseram-lhe: Dá glória a Deus! Nós sabemos que esse homem é pecador. 25Ele respondeu: Se é pecador, não sei. O que sei é que eu era cego e agora vejo. 26Perguntaram-lhe então: Que te fez Ele? Como te abriu os olhos? 27Já vo-lo disse — retorquiu-lhes — e vós não destes ouvidos! Porque desejais ouvi-lo novamente? Também vós quereis fazer-vos Seus discípulos? 28Então eles descompuseram-no e acrescentaram: Tu é que és Seu discípulo; nós somos discí­pulos de Moisés. 29Nós sabemos que Deus falou a Moisés, mas Esse, não sabemos donde é. 30Respondeu-lhes o homem: O que é de facto assombroso é que vós não saibais donde é, tendo-me Ele aberto os olhos. 31Nós sabemos que Deus não atende os pecadores, mas, se alguém for piedoso e cumprir a Sua vontade, Ele atende-o. 32Nunca se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos dum cego de nascença. 33Responderam-lhe eles: Tu nasceste todo inteiro no pecado, e estás a ensinar-nos? 34E expulsaram-no.

35Ouviu Jesus dizer que o tinham expulsado e, tendo-o encontrado, perguntou-lhe: Tu acreditas no Filho do homem? 36Ele res­pondeu: E quem é, Senhor, para eu acreditar n’Ele? 37Disse-lhe Jesus: Tu já O viste; é Ele que está a falar contigo! 38Então exclamou: Creio, Senhor! E prostrou-se diante d’Ele. 39Depois. Jesus disse-lhe: Para uma discri­minação é que Eu vim a este mundo: para que os que não vêem passem a ver e os que vêem fiquem cegos.

40Ouviram isto alguns dos Fariseus, que estavam com Ele, e perguntaram-Lhe: Nós também somos cegos? 41Respondeu-lhes Jesus: Se fósseis cegos, não teríeis pecado. Mas, de facto, vós dizeis: «nós vemos!», e o vosso pecado permanece.

Comentário

2-3. A pergunta dos discípulos faz-se eco das opiniões dos judeus sobre a causa da doença e das desgraças em geral: consideravam-se castigo dos pecados pessoais (cfr Ioh 4,7-8; 2 Mach 7,18), ou das faltas dos pais, que recaíam sobre os filhos (cfr Tob 3,3).

Sabemos pela Revelação (cfr Gen 3,16-19; Rom 5,12; etc.) que a origem de todas as desgraças que afligem a humani­dade é o pecado: o pecado original e os sucessivos pecados pessoais. Não obstante, isto não quer dizer que cada des­graça ou doença tenha a sua causa imediata num pecado pessoal, como se Deus enviasse ou permitisse os males em relação directa com cada pecado cometido. A dor, que acom­panha tantas vezes a vida do justo, pode ser um meio que Deus lhe envia para se purificar das suas imperfeições, para exercitar e robustecer as suas virtudes e para se unir aos padecimentos de Cristo Redentor que, sendo inocente, levou sobre Si o castigo que mereciam os nossos pecados (cfr Is 53, 4; 1Pet 2,24; 1Ioh 3,5). Neste sentido, a Santíssima Virgem, São José e todos os santos experimentaram intensamente a dor como participação no sofrimento redentor de Cristo.

4-5. O «dia» refere-se à vida terrena de Jesus. Daqui a urgência que a Si mesmo se impõe de realizar a Vontade do Pai antes que chegue a Sua morte, que compara com a noite. Também se pode entender que a noite se refere ao fim deste mundo; neste sentido o passo significa que a Redenção dos homens realizada por Cristo deve ser continuada pela Igreja ao longo dos tempos, e que também os cristãos devem esforçar-se por estender o Reino de Deus.

«O tempo é precioso, o tempo passa, o tempo é uma fase experimental da nossa sorte decisiva e definitiva. Das provas que demos de fidelidade aos próprios deveres depende a nossa sorte futura e eterna.

«O tempo é um dom de Deus: é uma interpelação do amor de Deus à nossa livre e — pode dizer-se — decisiva resposta. Devemos ser avaros do tempo, para o empregar bem, com a intensidade no agir, amar e sofrer. Que não exista jamais para o cristão o ócio, o aborrecimento. O descanso sim, quando for necessário (cfr Mc 6,31), mas sempre tendo em vista uma vigilância que só no último dia se abrirá a uma luz sem ocaso» (Paulo VI, Homília, 1-1-1976. IX Dia mundial da paz).

Jesus proclama-Se a Luz do mundo porque a Sua vida entre os homens nos deu o sentido último do mundo, da vida de cada homem e da humanidade inteira. Sem Jesus toda a criatura está às escuras, não encontra o sentido do seu ser, nem sabe aonde vai. «O mistério do homem só se esclarece realmente no mistério do Verbo Encarnado (…). Por Cristo e em Cristo ilumina-se o enigma da dor e da morte, que fora do Seu Evangelho nos envolve em absoluta obscuridade» (Gaudium et spes, n. 22). Jesus adverte-nos — e isto di-lo-á mais claramente em Ioh 12,35-36 — da necessidade de nos dei­xarmos iluminar por essa luz que é Ele mesmo (cfr Ioh 1,9-12).

6-7. A cura realiza-se em duas etapas: a acção de Jesus sobre os olhos do cego e o mandato de se lavar na piscina de Siloá. Nosso Senhor tinha utilizado também a saliva para curar um surdo-mudo (cfr Mc 7,33) e um cego (cfr Mc 8,23). A piscina de Siloá era um tanque construído pelo rei Ezequias no século VII a.C. para o abastecimento de água a Jerusalém (cfr 2 Reg 20,20; 2 Chr 32,30); os profetas consi­deravam estas águas como uma mostra do favor divino (cfr Is 8,6; 22,11). São João apoiando-se no sentido amplo da etimologia de Siloá, aplica-o a Jesus, que é o «Enviado» do Pai. O Senhor actua por meio da matéria para produzir efeitos que superam a natureza dessa mesma matéria. Algo semelhante fará com os Sacramentos: a uns meios materiais conferirá pela Sua palavra o poder da regeneração sobrena­tural do homem.

O mandato que o Senhor dá ao cego evoca o milagre de Naamão, general sírio que foi curado da sua lepra quando, por indicação do profeta Eliseu, se lavou sete vezes nas águas do Jordão (cfr 2 Reg 5,1 ss.). Aquele tinha titubeado antes de obedecer; o cego, pelo contrário, obedece com prontidão e sem replicar.

«Que belo exemplo de firmeza na fé nos dá este cego! Uma fé viva, operativa. É assim que te comportas com os mandatos de Deus, quando muitas vezes estás cego, quando nas preocupações da tua alma se oculta a luz? Que poder continha a água, para que os olhos ficassem curados ao serem humedecidos? Teria sido mais adequado um colírio desconhecido, um medicamento precioso preparado no laboratório dum sábio alquimista. Mas aquele homem crê, põe em prática o que Deus lhe ordena e volta com os olhos cheios de claridade» (Amigos de Deus, n.° 193).

8-34. Depois de narrar o milagre, o Evangelho refere as dúvidas dos vizinhos e conhecidos do cego (vv 8-12) e a investigação que fazem os fariseus: interrogatório ao cego curado(vv. 13-17),aos seus pais(vv. 18-23) e de novo ao cego, a quem terminam condenando e expulsando-o da sua presença (vv 24-34). O passo contém tal precisão de pormenores que manifesta claramente a espontaneidade de uma testemunha que presenciou e viveu o acontecimento.

Os Santos Padres e Doutores da Igreja viram simbolizado neste milagre o sacramento do Baptismo, no qual, por meio da água, a alma fica limpa e recebe a luz da fé: «Envia-o à piscina, que se chama de Siloá, para que se lave e para que seja iluminado, isto é, para que seja baptizado e receba no baptismo a iluminação plena» (Comentário sobre S. João, ad loc.).

O episódio reflecte, por outro lado, as diversas posições diante do Senhor e dos Seus milagres. O cego, de coração simples, crê em Jesus como enviado, profeta (vv. 17.33) e Filho de Deus (vv. 17.33.38). Os fariseus, pelo contrário, obstinam-se em não querer ver nem crer, inclusivamente perante a evidência dos factos (vv. 24-34).

Neste milagre Jesus revela-Se de novo como luz do mundo. Comprova-se a afirmação do Prólogo: «Era a luz verdadeira que ilumina todo o homem, que vem a este mundo» (1,9). Não só dá a luz aos olhos do cego, mas ilu­mina-o interiormente levando-o a um acto de fé na Sua divindade (v. 38). Ao mesmo tempo fica patente o drama profundo daqueles que se obcecam na sua cegueira, tal como o tinha anunciado no diálogo com Nicodemos: «Veio a luz ao mundo e os homens amaram mais as trevas que a luz, já que as suas obras eram más» (Ioh 3,19).

14-16. Os fariseus aduzem a mesma acusação que na cura do paralítico da piscina (Ioh 5,10) e que noutras ocasiões: Jesus é um transgressor da Lei porque não guarda o sábado ao curar os doentes (cfr Lc 13,16; 14,5…). Cristo tinha ensinado muitas vezes que a observância do descanso sabático (cfr Ex 20,8.11; 21,13; Dt 5,14) não se opõe à obrigação de fazer o bem (cfr Mt 12,3-8; Mc 2,28; Lc 6,5). Por cima de todos os preceitos está a caridade, o bem dos homens (cfr a nota a Mt 12,3-8). Pelo contrário, quando a norma se antepõe de maneira cega as obrigações evidentes de justiça e de caridade, cai-se no fanatismo, que sempre se opõe ao Evangelho, e mesmo à recta razão. E o que acontece com os fariseus neste caso: fecham-se nas suas ideias até ao ponto de não quererem ver a mão de Deus num facto que mostra de modo razoável que só pode ser realizado pelo poder divino. O dilema que se lhes põe sobre Jesus — se é um homem de Deus pelos milagres que faz, ou um pecador por não observar o sábado (cfr Mc 3,23-30) — só é possível dentro de uma mentalidade completamente dominada pelo fanatismo religioso. A interpretação errada do cumprimento de alguns preceitos tinha-os levado a não compreender o essencial da Lei: o amor a Deus e o amor ao próximo.

Os fariseus, para não aceitarem a divindade de Jesus, rejeitam a única interpretação correcta do milagre. O cego, pelo contrário — como as almas abertas sem preconceito à verdade —, encontra no milagre um apoio firme para confessar que Cristo opera com poder divino (Ioh 9,33): «Certamente Cristo apoiou e confirmou a Sua pregação com milagres para excitar e robustecer a fé dos ouvintes, mas não para exercer coaccão sobre eles» (Dignitatis humanae, n. 11).

24. «Dá glória a Deus»: Solene declaração, a modo de juramento, com que se exortava a dizer a verdade. Não obstante, os fariseus não buscavam a verdade, mas inti­midar o cego para que se desdissesse do confessado. Agora forçam a sua consciência advertindo-o: «Nós sabemos que esse homem é pecador». Ao explicar este passo, escreve Santo Agostinho: «Que pretendem ao dizer: Dá glória a Deus? Que negue o benefício recebido. Isto não é certamente dar glória a Deus, mas antes blasfemar contra Deus» (In Ioann. Evang. 44,11).

25-34. Todo o interrogatório mostra que o milagre foi tão patente que nem sequer os adversários puderam negá-lo. Nosso Senhor durante o Seu ministério público fez muitos milagres, manifestando assim a Sua omnipotência sobre todas as coisas ou, o que é o mesmo, a Sua divindade.

Perante a atitude racionalista que não aceita, por um falso princípio filosófico, a intervenção sobrenatural de Deus neste mundo e, portanto, a possibilidade do milagre, o Magistério da Igreja ensinou sempre a existência e o valor dos milagres: «Quis Deus que aos auxílios internos do Espírito Santo se juntassem argumentos externos da Sua Revelação, a saber, factos divinos e, antes de mais, os milagres e as profecias que, mostrando luminosamente a omnipotência e a ciência infinita de Deus, são sinais certís­simos da Revelação divina e acomodados à inteligência de todos». «Se alguém disser que não se pode dar nenhum milagre e que portanto todas as narrações sobre eles, mesmo as contidas na Sagrada Escritura, há que relegá-las entre as fábulas ou os mitos, ou que os milagres não podem nunca ser conhecidos com certeza e que com eles não se prova legiti­mamente a origem divina da religião cristã, Seja anátema» (Dei Filius, cap. 3 e can. 4).

29. O facto miraculoso é igualmente válido para todos, mas a contumácia daqueles fariseus não se rende diante da significação do facto, nem sequer depois das averiguações realizadas com os pais e o próprio cego. «O pecado dos fariseus não consistia em não verem Deus em Cristo, mas em encerrarem-se voluntariamente em si mesmos, em não tolerarem que Jesus, que é luz, lhes abrisse os olhos» (Cristo que passa, n.° 71).

Em todo este episódio assim como há um processo de aprofundamento na fé por parte do cego, que começa a reconhecer Jesus como Profeta (v. 17) e culmina na confissão da Sua divindade (v. 35), há também um processo contrário de obstinação naqueles judeus: desde a dúvida (v. 16), passando pela afirmação blasfema de que Jesus é um pecador (v. 24), até terminar por expulsarem o mendigo (v. 34). E preciso que os homens estejamos atentos a esse grande inimigo, a soberba, que cega os olhos e impede de ver até o mais evidente.

34. Depois do exílio de Babilônia (século VI a.C.) existia entre os judeus o costume de expulsar da sinagoga aqueles que cometiam certos delitos. Fazia-se de duas formas: a exclusão temporária durante 30 dias como medida disciplinar, e a exclusão definitiva, que se poria em prática com frequência contra os judeus que se convertessem ao cristia­nismo. Aqui parece que se refere a esta expulsão definitiva, tal como o tinham combinado (v. 22), e pode comprovar-se por outros dados do Evangelho (cfr 12,42; 16,2; Lc 6,22).

35-38. Não parece casual este encontro com Jesus. Os fariseus expulsaram da sinagoga o cego curado; mas o Senhor, além de o acolher, ajuda-o a fazer um acto de fé na Sua divindade. «Lavada finalmente a face do coração e purificada a consciência, reconhece-o não só filho de homem, mas Filho de Deus» (In Ioann. Evang., 44,15). Este diálogo recorda-nos o que Jesus tinha mantido com a samaritana (cfr Ioh 4,26).

39. Perante o contraste entre a fé do cego e a obstinação dos fariseus, o Senhor pronuncia esta sentença. Ele não foi enviado para condenar o mundo, mas para o salvar (cfr Ioh 3,17); mas a Sua presença entre nós comporta já um juízo, porque cada homem há-de tomar diante d’Ele uma destas duas atitudes: de aceitação ou de rejeição. Cristo foi posto para ruína de uns e salvação de outros (cfr Lc 2,34). Deste modo, estabelece-se uma diferenciação entre os homens (cfr Ioh 3,18-21; 12,47-48). Por um lado, os humildes de coração (cfr Mt 11,25) que, reconhecendo as suas misérias, acorrem a Jesus em busca do perdão: estes gozarão daquela luz. Por outro lado, os que, satisfeitos de si mesmos, pensam que não necessitam de Cristo nem da Sua palavra; estes que dizem ver são na realidade cegos. Desta maneira somos nós os homens que com a fé ou a rejeição de Jesus preparamos a nossa sorte última.

40-41. As palavras de Jesus produziram uma forte impressão entre os fariseus, desejosos de encontrar nos Seus ensinamentos algum motivo de condenação. Dando-se conta de que Se referia a eles, voltam a interrogá-Lo. A resposta do Senhor é clara: eles podem ver mas não querem; daí a sua culpabilidade. «Se conhecêsseis a vossa cegueira e vos considerásseis cegos e recorresseis ao médico, não teríeis pecado, porque Eu vim tirar o pecado; mas porque dizeis vemos, por isso permanece o vosso pecado. Por quê? Porque dizendo vemos não recorreis ao médico e assim ficareis na vossa cegueira» (In Ioann. Evang., 45,17).

31.03.14 – Jo 4, 43-54

43Passados os dois dias, partiu dali para a Galileia. 44O próprio Jesus tinha efectivamente declarado que um profeta, na sua terra, não é tido em apreço. 45Quando chegou à Galileia, receberam-No os Galileus, que tinham visto quanto Ele fizera em Jeru­salém, pela festa, pois eles também tinham ido à festa.

46Veio então novamente a Cana da Galileia, onde tinha convertido a água em vinho. Ora, em Cafarnaum, havia um funcionário real, cujo filho se encontrava doente. 47Ao ouvir dizer que Jesus chegara da Judeia à Galileia, veio ter com Ele e pôs-se a pedir que fosse lá abaixo curar-lhe o filho, que estava a morrer. 48Disse-lhe então Jesus: Se não virdes milagres e prodígios, não haveis de acreditar! 49Senhor — diz-Lhe o funcio­nário real — vem cá abaixo antes que o meu filhinho morra. 50Jesus responde-lhe: Vai, teu filho está vivo! O homem acreditou na palavra que Jesus lhe tinha dito e pôs-se a caminho.

51Já ele vinha na descida, quando lhe vie­ram os criados ao encontro, dizendo que o menino estava vivo. 52Perguntou-lhes a que horas tinha ele melhorado. Responderam-lhe: Foi ontem, à hora sétima, que a febre o deixou. 53O pai reconheceu então que tinha sido àquela hora que Jesus lhe havia dito: «Teu filho está vivo!». E acreditou, ele e todos os de sua casa. 54Foi este o segundo milagre que Jesus fez, ao voltar da Judeia para a Galileia.

Comentário

46. São João fala de um funcionário real, provavel­mente ao serviço de Herodes Antipas que, ainda que fosse somente tetrarca ou governador da Galileia (cfr Lc 3,1), podia receber também o título de rei (cfr Mc 6,14). Trata-se portanto de uma pessoa de alta categoria social (v. 51). que residia em Cafarnaum, cidade alfandegária. Por isto supõe São Jerónimo que devia ser um palatinus, um cortesão de palácio, como sugere o termo grego correspondente.

48. Jesus parece dirigir-Se não tanto ao funcionário real como à gente da Galileia que acorria a Ele só para pedir milagres e ver prodígios. Noutra ocasião o Senhor censu­raria as cidades de Corozaim. Betsaida e Cafarnaum pela sua incredulidade (Mt 11,21 -23), porque os milagres que fez ali teriam movido à penitência as cidades fenícias de Tiro e de Sidónia e inclusivamente a própria Sodoma. Os Galileus em geral estavam mais dispostos para ver manifestações extraordinárias do que para escutar a Sua palavra. Mais adiante, depois do milagre da multiplicação dos pães, buscarão o Senhor para O fazerem rei, mas nem todos acreditarão no anúncio da Eucaristia (Ioh 6,15.53.62). Jesus pede uma fé firme e pura, que, ainda que se apoie em milagres, não os exige. Não obstante, Deus continua em todos os tempos a fazer milagres, que servem para reafirmar a fé. «Não sou ‘milagreiro’. — Disse-te já que me sobejam milagres no Santo Evangelho para firmar fortemente a minha fé. — Mas dão-me pena esses cristãos — até piedosos, ‘apostólicos’ — que sorriem quando ouvem falar de cami­nhos extraordinários, de factos sobrenaturais. — Sinto desejos de lhes dizer: sim, também agora há milagres; nós próprios os faríamos se tivéssemos fé!» (Caminho, n.° 583).

49-50. Apesar da atitude aparentemente fria de Jesus, o «nobre» insiste a manifestar o seu sofrimento interior: «Senhor, vem cá abaixo antes que o meu filhinho morra». Ainda que imperfeita, a sua fé tinha sido suficiente para percorrer os 33 quilômetros que separam Cafarnaum de Cana; e, não obstante a sua elevada posição, tinha-se apro­ximado do Senhor pedindo ajuda. Jesus gosta da perse­verança e da humildade deste homem. O pedido feito com fé alcança o seu objectívo:

«‘Si habueritiis fidem, sicut granum sinapis!’ — Se tivesses uma fé do tamanho de um grãozito de mostarda!…

«— Que promessas não encerra esta exclamação do Mestre!» (Caminho n.0 585).

Os Santos Padres comparam este milagre ao servo do Centurião (Mt 8,5-12; Lc 7,1-10), pondo em realce a fé surpreendente que desde o primeiro momento manifesta o oficial romano, em contraste com’ a imperfeita fé inicial do personagem de Cafarnaum. São João Crisóstomo comenta: «Ali (no caso do centurião romano), a fé era robusta, por isso Jesus prometeu ir para que nós aprendamos a devoção daquele; aqui a fé era ainda imperfeita, e não sabia com clareza que Jesus podia curar estando longe: assim que o Senhor, negando-Se a descer, quis com isto ensinar a ter fé» (Hom. sobre S. João, 35).

53. O milagre da cura é força convincente que atrai à fé aquele homem e com ele toda a sua família- Todo o bom pai de família deve aproveitar os episódios domésticos para procurar que os seus acedam à fé. Assim diz São Paulo: «Se alguém não cuida dos seus e principalmente de sua casa, negou a fé e é pior que um infiel» (1Tim 5,8). Cfr Act 16,14, onde se narra que Lídia cuidou de que com ela fosse baptizada toda a sua família; em Act 18,8, refere-se a mesma atitude do chefe da sinagoga Crispo, e em Act16,33 a do guarda da prisão.

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