Evangelho do dia – mês de março de 2013

Março de 2013

01.03.2013 – Mt 21, 33-43.45-46

33Ouvi outra parábola: Havia um proprie­tário que plantou uma vinha, e rodeou-a com uma cerca, e cavou nela um lagar, e levantou uma torre; depois arrendou-a a uns lavradores e partiu para longe. 34Quando se homicidas aproximou a época das colheitas, mandou os seus servos aos lavradores para receber os frutos. 35Os lavradores, porém, pegaram nos servos e espancaram a um, mataram a outro e a outro apedrejaram. 36Tornou ele a mandar outros servos em maior número que os primeiros. E eles trataram-nos do mesmo modo. 37Por fim mandou-lhes o seu próprio filho, dizendo: «Hão-de respeitar o meu filho». 38Mas os lavradores, ao verem o filho, disseram entre si: «Este é o herdeiro, vamos matá-lo e ficaremos com a sua herança!»39E sem mais, pegaram nele, lançaram-no fora da vinha e mataram-no. 40Ora, quando vier o dono da vinha, que fará àqueles lavradores?

41Responderam-Lhe: Fará morrer de má morte os malvados e arrendará a vinha a outros lavradores que lhe paguem os frutos a seu tempo.42Disse-lhes Jesus: Nunca lestes nas Escrituras:

«A pedra que os construtores rejeitaram, essa veio a ser pedra angular? Isto é obra do Senhor e é maravilha a nossos olhos?»

43Por isso vos digo que vos será tirado o Reino de Deus e dado a um povo que produza os seus frutos.

45Ouvindo as Suas parábolas, os Príncipes dos sacerdotes e os Fariseus compreenderam que falava deles 46e queriam prendê-Lo, mas tiveram medo do povo, que O tinha por profeta.

Comentário

33-46. Esta parábola, tão importante, completa a anterior. A parábola dos dois filhos limitava-se a mostrar o facto da indocilidade de Israel; a dos vinhateiros homicidas projecta a sua luz sobre o castigo consequente.

O Senhor compara Israel com uma vinha escolhida, provida segundo o uso oriental da sua cerca, do seu lagar, com a sua torre de vigilância algo elevada, onde se coloca o guardião encarregado de proteger a vinha contra os ladrões e os chacais. Deus não regateou nada para cultivar e embelezar a sua vinha. Os vinhateiros, na parábola, são colonos; o dono é Deus, e a vinha é Israel (Is 5,3-5; ler 2,21; Ioel 1, 7).

Os vinhateiros a quem Deus tinha entregado o cuidado do Seu povo representam os sacerdotes, escribas e anciãos. A ausência do dono dá a entender que Deus confiou realmente Israel aos seus chefes; e daqui nasce a sua responsabilidade e contas exigidas pelo dono da vinha.

O dono envia os seus servos de vez em quando para receber os seus frutos. Esta foi a missão dos profetas. O segundo envio dos servos para reclamar o que deviam ao seu dono, e que corre a mesma sorte que o primeiro, é uma alusão aos maus tratos infligidos aos profetas de Deus pelos reis e sacerdotes de Israel (Mt 23, 37; Act 7, 42; Heb 11, 36-38). Finalmente enviou-lhes o Seu Filho, pensando que, sem dúvida, O respeitariam. Aqui é assinalada a diferença entre Jesus e os profetas, que eram servos, mas não «o Filho»: a parábola refere-se à filiação transcendente e única que expressa a divindade de Jesus Cristo.

A intenção perversa dos vinhateiros de assassinar o filho herdeiro, para ficarem eles com a herança, é o desatino com que os chefes da sinagoga esperam ficar como donos indiscutíveis de Israel ao matarem Cristo (Mt 12, 14: 26, 4). Não pensam no castigo: a ambição cega-os. Então «lançaram-no fora da vinha e mataram-no»: referência à crucifixão que teve lugar fora dos muros de Jerusalém.

Jesus Cristo profetiza o castigo que Deus imporá aos malvados: dar-lhes-á morte, e arrendará a vinha a outros. Estamos diante de uma profecia da máxima importância: São Pedro repetirá mais tarde diante do sinédrio: «a pedra que os construtores rejeitaram, esta veio a ser pedra angular» (Act 4, 11; 1Pet 2, 4). A pedra é Jesus de Nazaré, mas os arquitectos de Israel, os que constroem e governam o povo, não quiseram usá-la na construção. Por isso, por causa da sua infidelidade, o Reino de Deus será transferido para outro povo, os gentios, que saberão dar a Deus os frutos que Ele espera da sua vinha (cfr Mt 3,8-10; Gal 6, 16).

É necessário assentar sobre esta pedra para estar solidamente edificado. E infeliz o que tropece nela (Mt 12,30; Lc 2,34). Aqueles judeus primeiro e depois todos os inimigos de Cristo e da Igreja comprová-lo-ão com dura experiência (Is 8,14-15).

Os cristãos de todos os tempos deverão considerar esta parábola como uma exortação a construir com fidelidade sobre Cristo, para não reincidir no pecado daquela geração judaica. Ao mesmo tempo deve encher-nos de esperança e de segurança: ainda que o edifício, que é a Igreja, pareça fender-se em algum momento, a sua solidez está assegurada, porque tem Cristo como pedra angular.

02.03.2013 – Lc 15, 1-3.11-32

Ora os publicanos e os pecadores aproximavam-se todos de Jesus para O ouvirem. 2E os Fariseus e os Escribas murmuravam entre si, dizendo: Este homem acolhe os pecadores e come com eles. 3Pro­pôs-lhes então a seguinte parábola:

11Disse ainda: Certo homem tinha dois filhos. 12E o mais novo dentre eles disse ao pai: «Pai, dá-me a parte que me cabe da fortuna». E ele repartiu-lhes os bens. 13Alguns dias depois, o filho mais novo, reunindo tudo, ausentou-se para uma região longín­qua e por lá esbanjou os seus bens, vivendo dissipadamente. 14Depois de haver gastado tudo, houve uma grande fome por aquela região, e ele começou a passar privações. 15Foi então ligar-se a um dos habitantes daquela região, o qual o mandou para os seus campos guardar porcos. 16Bem desejava ele encher o ventre com as alfarrobas que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava. 17Então caiu em si e disse: «Quantos jornaleiros de meu pai têm pão com fartura, e eu morro aqui à fome! 18Vou ter com meu pai e digo-lhe: Pai, pequei contra o Céu e para contigo. 19Já não sou digno de cha­mar-me teu filho. Trata-me como um dos teus jornaleiros». 20Partiu, pois, e foi ter com o pai.

Estando ele ainda longe, viu-o o pai, e encheu-se de compaixão e correu a lançar-se lhe ao pescoço, beijando-o. 21Disse-lhe o filho: «Pai, pequei contra o Céu e para contigo. Já não sou digno de chamar-me teu filho». 22Disse o pai aos seus criados: «Trazei depressa o fato melhor e vesti-lho; ponde-lhe um anel na mão, e calçado nos pés. “Trazei o vitelo gordo, matai-o; e comamos em festa, 24porque este meu filho estava morto e voltou à vida, estava perdido e encontrou-se». E começaram com a festa.

25Ora o filho mais velho estava no campo. Quando, à volta, se aproximou da casa, ouviu música e danças. 26Chamando um dos moços, pediu-lhe informações sobre o que era aquilo. 27«É que chegou teu irmão — lhe disse este — e teu pai matou o vitelo gordo, porque de regresso o encontrou com saúde.» 28Ele ficou irritado e não queria entrar. O pai veio cá fora instar com ele. 29Mas ele, em resposta, disse ao pai: «Há já tantos anos que te sirvo sem nunca transgredir uma ordem tua, e tu nunca me deste um cabrito, para eu fazer uma festa com os meus amigos! 30Mas, quando chegou esse teu filho, que te consumiu a fortuna com meretrizes, mataste-lhe o vitelo gordo». 31O pai respondeu-lhe: «Filho, tu sempre estás comigo e tudo o que é meu é teu. 32Mas nós tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e voltou à vida, estava perdido e encontrou-se».

Comentário

1-32. Com as Suas obras Jesus manifesta a misericórdia divina: aproxima-Se dos pecadores para os converter. Os escribas e os fariseus, que desprezam os pecadores, não compreendem esse comportamento de Jesus, e murmuram d’Ele; será ocasião para que Nosso Senhor pronuncie as parábolas da misericórdia. «O Evangelista que trata de modo particular estes temas do ensino de Cristo é São Lucas, cujo Evangelho mereceu ser chamado ‘o Evangelho da misericórdia’» (Dives in misericórdia, n 3).

Neste capítulo São Lucas recolhe três destas parábolas, em que de modo gráfico Jesus descreve a infinita e paternal misericórdia de Deus, e a Sua alegria pela conversão do pecador.

O Evangelho ensina que ninguém está excluído do perdão, e que os pecadores podem chegar a ser filhos que­ridos de Deus mediante o arrependimento e a conversão. E é tal o desejo divino de que os pecadores se convertam que as três parábolas terminam repetindo, a modo de estribilho, a alegria grande no Céu por cada pecador arrependido.

1-2. Não é esta a primeira vez que publicanos e peca­dores se aproximam de Jesus (cfr Mt 9,10). A pregação do Senhor atraía pela sua simplicidade e pelas suas exigências de entrega e de amor. Os fariseus tinham-Lhe inveja porque a gente ia atrás d’Ele (cfr Mt 26,3-5; Ioh 11,47). Essa atitude farisaica pode repetir-se entre os cristãos: uma dureza de juízo tal que não aceite que um pecador, por maiores que tenham sido os seus pecados, possa converter-se e ser santo; uma cegueira de mente tal que impeça reconhecer o bem que fazem os outros e alegrar-se disso. Nosso Senhor já vai ao encontro desta atitude errada quando responde aos Seus discípulos que se queixam de que outros expulsem demônios em Seu nome: «Não lho proibais, pois não há ninguém que faça um milagre em Meu nome e possa a seguir falar mal de Mim» (Mc 9,39). Igualmente São Paulo alegrava-se de que os outros anunciassem Cristo, e inclusivamente passava por alto que o fizessem por interesse, desde que Cristo fosse pregado (cfr Phil 1,17-18).

11. Estamos perante uma das parábolas mais belas de Jesus, em que nos é ensinado uma vez mais que Deus é um Pai bom e compreensivo (cfr Mt 6,8; Rom 8,15; 2 Cor 1,3). O filho que pede a parte da sua herança é figura do homem que se afasta de Deus por causa do pecado. Nesta parábola «a essência da misericórdia divina — embora no texto origi­nal não seja usada a palavra ‘misericórdia’ — aparece de modo particularmente límpido» (Dives in misericórdia, n 5).

12-13. «Este filho, que recebe do pai a parte da herança que lhe toca e deixa a casa paterna para esbanjar essa herança numa terra longínqua ‘vivendo dissolutamente’, em certo sentido é o homem de todos os tempos, a começar por aquele que foi o primeiro a perder a herança da graça e da justiça original. Neste ponto a analogia é muito vasta. Indirectamente a parábola estende-se a todas as rupturas da aliança de amor: a toda a perda da graça, e todo o pecado» (Dives in misericórdia, n 5).

14-15. Neste momento da parábola vemos as tristes consequências do pecado. Com essa fome fala-se-nos da ansiedade e do vazio que sente o coração do homem quando está longe de Deus. Com a servidão do filho pródigo é-nos descrita a escravidão a que fica submetido quem pecou (cfr Rom 1,25:6.6; Gal 5,1). Assim, pelo pecado o homem perde a liberdade dos filhos de Deus (cfr Rom 8,21; Gal 4,31; 5,13) e submete-se ao poder de Satanás.

17-21. A recordação da casa paterna e a segurança no amor do pai fazem que o filho pródigo reflicta e decida pôr-se a caminho. «De certo modo, a vida humana é um constante regresso à casa do Pai, um regresso mediante a contrição, a conversão do coração que significa o desejo de mudar, a decisão firme de melhorar a nossa vida e que, portanto, se manifesta em obras de sacrifício e de doação; regresso a casa do Pai, por meio do sacramento do perdão, em que, ao confessar os nossos pecados, nos revestimos de Cristo e nos tornamos assim seus irmãos, membros da família de Deus» (Cristo que passa, n° 64).

20-24. Deus espera sempre o regresso do pecador e quer que se arrependa. Quando chega O filho pródigo as palavras do pai não são de repreensão mas de imensa compaixão, que o leva a abraçar o filho e a cobri-lo de beijos.

20. «Não há dúvida de que, naquela simples, mas pene­trante comparação, a figura do pai revela-nos Deus como Pai (…). O pai do filho pródigo é f tela sua paternidade, fiel ao amor que desde sempre tinha dedicado ao seu filho. Tal fidelidade manifesta-se na parábola não apenas na prontidão em rece­bê-lo em casa, quando ele voltou depois de ter esbanjado a herança, mas, sobretudo na alegria e no clima de festa tão generoso para com o esbanjador que regressa. Esta atitude provoca até a inveja do irmão mais velho, que nunca se tinha afastado do pai, nem abandonado a casa paterna.

«A fidelidade a si próprio por parte do pai — traço caracte­rístico já conhecido pelo termo do Antigo Testamento ‘hesed’ — exprime-se de modo particularmente denso de afecto. Lemos, com efeito, que, ao ver o filho pródigo regressar a casa, o pai, ‘movido de compaixão, correu ao seu encontro, abraçou-o efusivamente e beijou-o’. Procede deste modo levado certamente por profundo afecto; e assim se explica também a sua generosidade para com o filho, generosidade que causará tanta indignação no irmão mais velho» (Dives in misericórdia, n 6).

«Perante um Deus que corre para nós, não podemos calar-nos e dir-Lhe-emos com São Paulo: Abba, Pater! (Rom VIII, 15). Pai! Meu Pai! Pois, sendo Ele o Criador do universo, não dá importância a títulos altissonantes, nem sente falta da justa confissão do seu poderio. Quer que Lhe chamemos Pai, que saboreemos essa palavra, enchendo a alma de alegria (…).

«Deus espera-nos como o pai da parábola, estendendo para nós os braços, embora não o mereçamos. Não importa o que lhe devemos. Como no caso do filho pródigo, o que é preciso é que lhe abramos o coração, que tenhamos sau­dades do lar paterno, que nos maravilhemos e nos alegremos perante o dom que Deus nos fez de nos podermos chamar e sermos realmente, apesar de tanta falta de correspondência da nossa parte, seus filhos» (Cristo que passa, n° 64).

25-30. A misericórdia de Deus é tão grande que escapa à compreensão do homem; e este é o caso do filho mais velho, que considera excessivo o amor do pai para com o filho mais novo; a sua inveja não o deixa compreender as manifestações de amor que o pai mostra ao recuperar o filho perdido, nem compartilhar a alegria da família. «É verdade que foi pecador. — Mas não faças dele esse juízo inabalável. — Abre o coração à piedade, e não te esqueças de que ainda pode vir a ser um Agostinho, enquanto tu não passas de um medíocre» (Caminho, n° 675).

Por outro lado, devemos considerar que se Deus tem compaixão dos pecadores, quanto mais terá dos que se esforçam por permanecer fiéis. Bem o compreendia Santa Teresinha de Lisieux: «Que doce alegria a de pensar que o Senhor é justo, isto é, que conta com as nossas debilidades, que conhece perfeitamente a fragilidade da nossa natureza! Por quê, pois, temer? O bom Deus, infinitamente justo, que Se dignou perdoar com tanta misericórdia as culpas do filho pródigo, não será também justo comigo que estou sempre junto d’Ele?» (História de uma alma, cap. 8).

32. «A misericórdia apresentada por Cristo na parábola do filho pródigo tem a característica interior do amor, que no Novo Testamento é chamado ‘agape’. Este amor é capaz de debruçar-se sobre todos os filhos pródigos, sobre qualquer miséria humana e, especialmente, sobre toda a miséria moral, sobre o pecado. Quando isto acontece, aquele que é objecto da misericórdia não se sente humilhado, mas como que reencontrado e ‘revalorizado’. O pai manifesta-lhe alegria, antes de mais por ele ter sido ‘reencontrado’ e por ter ‘voltado à vida’. Esta alegria indica um bem que não foi destruído: o filho, embora pródigo, não deixa de ser real­mente filho de seu pai. Indica ainda um bem reencontrado: no caso do filho pródigo, o regresso à verdade sobre si próprio» (Dives in misericórdia, n 6).

03.03.2013 – Lc 13, 1-9

Nessa ocasião, apareceram alguns a Necessidade dar-Lhe a notícia dos Galileus, cujo da conversão sangue Pilatos havia misturado com o dos sacrifícios deles. 2Disse-lhes Ele, em resposta: Julgais que esses Galileus, por terem sofrido tal pena, eram mais pecadores que todos os outros Galileus? 3Não, digo- vos Eu; mas, se vos não arrependerdes, perecereis todos igualmente. 4E aqueles dezoito sobre os quais caiu a torre em Siloá e os matou! Julgais que eles eram mais culpados que todos os outros habitantes de Jerusalém? 5Não, digo- vos Eu; mas, se vos não arrependerdes, perecereis todos de maneira semelhante.

6Expôs-lhes então a seguinte parábola: Certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha e foi buscar a fruta que nela houvesse, mas não a encontrou. 7Disse então ao vinhateiro: «Há já três anos que venho buscar a fruta que haja nesta figueira e não a encontro. Corta-a. Para que está ela a tornar a terra inútil?» 8Mas este diz-lhe, em res­posta: «Senhor, deixa-a mais este ano, que eu, entretanto, vou cavar-lhe em volta e dei­tar-lhe estrume; 9talvez venha a dar fruto no futuro! Senão, mandá-la-ás cortar».

Comentário

1-5. O Senhor servia-Se dos acontecimentos com actualidade para dar doutrina às multidões. O caso dos galileus poderia ser o mesmo episódio a que alude o livro dos Actos (Act 5,37), e reflecte o ambiente do tempo de Jesus, em que Pilatos reprimia com dureza cruel qualquer tentativa de revolta política. A propósito do acidente de Siloé não temos mais notícias que as que nos dá aqui o Evangelho.

O facto de aquelas pessoas padecerem tais desgraças não se devia a que fossem piores que os outros, porque Deus nem sempre castiga nesta vida os pecadores (cfr Ioh 9,3). Todos somos pecadores e merecemos um castigo pior que o das desgraças terrenas: o castigo eterno; mas Cristo, veio reparar pelos nossos pecados e abriu-nos as portas do Céu. Nós temos de nos arrepender dos nossos pecados porque só assim Deus nos livrará do castigo merecido. «Quando vier o sofrimento, o desprezo…, a Cruz, considera: que é isto, para o que eu mereço?» (Caminho, n° 690).

3. «Ele diz-nos que, sem o santo Baptismo, ninguém entrará no Reino dos Céus (cfr Ioh 3,5); e noutro lugar, que se não fizermos penitência todos pereceremos (Lc 13,3). Tudo se compreende facilmente. Desde que o homem pecou, todos os seus sentidos se rebelaram contra a razão; por conseguinte, se quisermos que a carne esteja submetida ao espírito e à razão, é necessário mortificá-la; se quisermos que o corpo não faça a guerra à alma, é preciso castigá-lo a ele e a todos os sentidos; se quisermos ir a Deus, é neces­sário mortificar a alma com todas as suas potências» (Sermões escolhidos, Quarta Feira de Cinzas).

6-9. O Senhor insiste na necessidade de produzir frutos abundantes (cfr Lc 8,11-15) correspondendo às graças rece­bidas (cfr Lc 12,48). Junto a este imperativo profundo, Jesus Cristo põe em relevo a paciência de Deus na espera desses frutos. Ele não quer a morte do pecador, mas que se converta e viva (Ez 33,11) e, como ensina São Pedro, «usa de paciência convosco, não querendo que alguns pereçam mas que todos cheguem à conversão» (2 Pet 3,9). Esta clemência divina, porém, não nos pode levar a descuidar os nossos deveres, adoptando uma posição de preguiça e de comodidade que tornaria estéril a própria vida. Deus ainda que seja misericordioso também é justo, e castigará as faltas de correspondência à Sua graça.

«Há um caso que nos deve doer sobremaneira: o daque­les cristãos que podiam dar mais e não se decidem; que podiam entregar-se totalmente vivendo todas as consequências da sua vocação de filhos de Deus, mas resistem a ser generosos. Deve-nos doer, porque a graça da Fé não se nos dá para ficar oculta, mas para brilhar diante dos homens (cfr Mt V, 15-16); porque, além disso, está em jogo a felicidade temporal e eterna dos que procedem assim. A vida cristã é uma maravilha divina, com promessa de imediata satisfação e serenidade, mas com a condição de sabermos apreciar o dom de Deus. (Cfr.Ioh 4, 10), sendo generosos sem medida» (Cristo que passa, n° 147).

04.03.2013 – Lc 4, 24-30

24E continuou: Em verdade vos digo: Nenhum profeta é bem recebido na sua terra; 25mas, na realidade, vos digo Eu, muitas viúvas havia em Israel no tempo de Elias, quando o céu se fechou por três anos e seis meses e houve uma grande fome em toda a Terra, 26e a nenhuma delas foi mandado Elias, senão a uma viúva em Sarepta de Sidónia. 27E muitos leprosos havia em Israel, no tempo do Profeta Eliseu, mas nenhum deles foi limpo senão o sírio Naamã.

28Todos na sinagoga se encheram de furor, ao ouvirem estas coisas. 29Ergueram-se então, lançaram-No fora da cidade e levaram-No até a uma escarpa do outeiro em que estava construída a cidade, a fim de O precipitarem. 30Mas Jesus, passando pelo meio deles, seguiu o Seu caminho.

Comentário

22-29. Os habitantes de Nazaré escutam ao princípio com agrado as palavras cheias de sabedoria de Jesus. Mas a visão destes homens é muito superficial. Com um orgulho mesquinho sentem-se feridos pelo facto de Jesus, seu con­cidadão, não ter feito em Nazaré os prodígios que fez noutras cidades. Levados por uma confiança mal entendida, exigem-Lhe com insolência que faça ali milagres para agradar à sua vaidade, mas não para se converterem. Diante desta atitude Jesus não faz nenhum prodígio, seguindo o Seu modo habitual de proceder (veja-se, por exemplo, o encontro com Herodes em Lc 23, 7-11); inclusivamente censura a sua posi­ção, explicando-lhes com dois exemplos tomados do AT (cfr 1Reg 17,9 e 2Reg 5,14) a necessidade de uma boa disposição a fim de que os milagres possam dar origem à fé. A atitude de Cristo fere-os no seu orgulho até ao ponto de O quererem matar. Todo o episódio é uma boa lição para entender de veras a Jesus: só pode ser entendido na humildade e na séria resolução de nos pormos nas Suas mãos.

30. Jesus não foge precipitadamente, mas vai-Se reti­rando por entre a turba agitada com uma majestade que os deixou paralisados. Como noutras ocasiões, os homens não podem nada contra Jesus: o decreto divino era que o Senhor morresse crucificado (cfr Ioh 18,32) quando chegasse a Sua hora.

05.03.2013 – Mt 18, 21-35

21Então aproximou-se Pedro e disse-Lhe: Perdão Senhor, se meu irmão pecar contra mim, quantas vezes lhe devo perdoar? Ate sete vezes? 22Disse-lhe Jesus: Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete. 23Por isso, é semelhante o Reino dos Céus a um rei que quis ajustar contas com os seus servos. 24 Logo ao começar, foi-lhe apresentado um que devia dez mil talentos. 25E como não tivesse com que pagar, mandou o senhor que o vendessem a ele e à mulher e aos filhos e a tudo quanto tinha e que assim se pagasse a dívida. 26Lançou-se o servo por terra e, prostrando-se diante dele, disse-lhe: «Senhor, tem paciência comigo e pagar-te-ei tudo». 27E o senhor, compadecido daquele servo, mandou-o embora e perdoou-lhe a dívida. 28Ao sair, encontrou-se o servo com um dos seus companheiros que lhe devia cem dinheiros e, aferrando-o pelo pescoço afo­gava-o, dizendo: Paga o que deves. 29Lançou-se-lhe o companheiro aos pés e começou a suplicar-lhe: Tem paciência comigo e pagar-te-ei. 30Ele, porém, não quis, mas foi metê-lo na cadeia até que pagasse a dívida. 31Os outros servos, ao verem o que se passava, ficaram muito magoados e foram contar tudo ao senhor. 32Entào o senhor chamou-o e disse-lhe: Servo perverso, perdoei-te toda aquela dívida, porque mo pediste. 33Não devias tu compadecer-te do teu compa­nheiro, como eu me compadeci de ti? 34E, indignado, o senhor entregou-o aos algozes até que pagasse toda a dívida. 35Assim vos fará também o Meu Pai celeste, se não perdoardes, cada um a seu irmão, do íntimo dos vossos corações.

Comentário

21-35. A pergunta de Pedro e, sobretudo, a resposta de Jesus dão-nos a pauta do espírito de compreensão e miseri­córdia que deve presidir à actuação dos cristãos.

A cifra de setenta vezes sete na linguagem hebraica equivale ao advérbio «sempre» (cfr Gen 4,24): «De modo que não encerrou o Senhor o perdão num número determinado, mas deu a entender que se tem de perdoar continuamente e sempre» (Hom. sobre S. Mateus, 6). Também se pode observar aqui um contraste entre a atitude mesquinha dos homens em perdoar com cálculo e a misericórdia infinita de Deus. Por outro lado, a nossa situação de devedores relativamente a Deus fica muito bem reflectida na parábola. Um talento equivalia a seis mil denarios e um denário era o jornal diário de um trabalhador. A dívida de dez mil talentos é uma quantidade exorbitante que nos dá ideia do valor imenso que tem o perdão que recebemos de Deus. Contudo, o ensinamen­to final da parábola é o de perdoar sempre e do íntimo do coração aos nossos irmãos. «Esforça-te, se é preciso, por perdoar sempre aos que te ofenderem, desde o primeiro instante, já que, por maior que seja o prejuízo ou a ofensa que te façam, mais te tem perdoado Deus a ti» (Caminho, n.°452).

06.03.2013 – Mt 5, 17-19

17Não julgueis que vim abolir a Lei ou os Profetas. Não vim abolir, mas cumprir.

18Ern verdade vos digo: até que passem os Céus e a Terra, nem um só jota ou um só til da Lei passará, sem que tudo se cumpra.

19Portanto, quem transgredir um só destes mandamentos mais pequenos e ensinar assim aos homens, será o mais pequeno no Reino dos Céus. Mas quem os observar e ensinar, esse será grande no Reino dos Céus.

Comentário

17-19. Jesus ensina neste passo o valor perene do Antigo Testamento, enquanto é palavra de Deus; goza, portanto, de autoridade divina e não pode desprezar-se o mínimo. Na Antiga Lei havia preceitos morais, judiciais e litúrgicos. Os preceitos morais do AT conservam no Novo o seu valor, porque são principalmente promulgações concretas, divino-positivas, da lei natural. Nosso Senhor dá-lhes, contudo, a sua significação e as suas exigências mais profundas. Os preceitos judiciais e cerimoniais, pelo contrário, foram dados por Deus para uma etapa concreta na História da Salvação, a saber, até à vinda de Cristo; a sua observância material em si não obriga os cristãos (cfr Suma Teológica, I-II, q. 108, a. 3 ad 3).

A lei promulgada por meio de Moisés e explicada pelos Profetas constituía um dom de Deus para o povo, como antecipação da Lei definitiva que daria Cristo o Messias. Na verdade, como definiu o Concilio de Trento, Jesus não só « foi dado aos homens como Redentor em quem confiem, mas também como Legislador a quem obedeçam» (De justificatione, can. 21).

07.03.2013 – Lc 11, 14-23

14 Jesus estava a expulsar um Demônio e este era mudo. Saído o Demônio, o mudo falou, e as multidões ficaram admiradas, de Deus 15Disseram, porém, alguns dentre eles: É por Belzebu, Príncipe dos Demônios, que Ele expulsa os Demônios. 16Outros, para O expe­rimentarem, solicitavam da Sua parte um sinal do céu. 17Mas Ele, que conhecia os pensamentos deles, disse-lhes: Todo o reino que se dividiu contra si mesmo ficará devas­tado, caindo casa sobre casa. l8Então, se Satanás, também, se dividiu contra si mesmo, como há-de manter-se o seu reino? Pois vós dizeis que por Belzebu é que Eu expulso os Demônios!… 19Mas se Eu expulso os Demônios por Belzebu, por quem os expulsam os vossos filhos? Por isso é que eles mesmos serão vossos juízes! 20Mas, se Eu expulso os Demônios pelo dedo de Deus, é que chegou até vós o Reino de Deus.

21Quando um homem forte e bem armado guarda o seu palácio, estão em segurança os seus haveres. 22Mas, quando surge um mais forte do que ele e o vence, tira-lhe o equipa­mento em que estava confiado e distribui-lhe os despojos.

23Quem não está comigo é contra Mim, e quem não junta comigo dispersa.

Comentário

14-23. A obstinação dos inimigos de Jesus não cede nem diante da evidência do milagre. Uma vez que não podem negar o valor extraordinário do facto, atribuem-no a artes demoníacas, com o intento de negar que Jesus é o Messias. O Senhor replica-lhes com um raciocínio que não admite escapatória: as expulsões de demônios que faz são provas evidentes de que com Ele chegou o Reino de Deus. O Concilio Vaticano II recordou de novo esta verdade: «O Senhor Jesus deu início à Sua Igreja pregando a boa nova do advento do Reino de Deus prometido desde há séculos nas Escrituras (…). Também os milagres de Jesus comprovam que já chegou à terra o Reino: «Se lanço fora os demônios com o poder de Deus, é que chegou a vós o Reino de Deus (Lc 11,20; cfr Mt 12,28). Mas este Reino manifesta-se, sobretudo na própria pessoa de Cristo, Filho de Deus e Filho do homem, que veio para servir e dar a Sua vida em redenção por muitos (Mc 10,45)» (Lumen gentium, n° 5).

O forte e bem armado é o demônio (v. 21), que com o seu poder tinha escravizado o homem; mas Jesus Cristo, mais forte que ele, veio, venceu-o e está a desalojá-lo de onde se tinha assenhoreado. São Paulo dirá que Cristo «despojou os principados e às potestades, triunfando publicamente sobre eles» (Col 2,15).

Depois da vitória de Cristo, o «mais forte», as palavras do v. 23 são uma séria advertência aos que O escutavam, e a toda a humanidade: ainda que o não queiram reconhecer Jesus Cristo venceu, e doravante não é admissível a neutralidade diante da Sua causa: quem não estiver com Ele, está contra Ele.

18. O argumento de Cristo é claro. Um dos maiores males que podem sobrevir à Igreja é precisamente a divisão entre os cristãos, a desunião dos crentes. Temos de fazer nossa a oração de Jesus: «Que todos sejam um; como Tu, Pai, em Mim e Eu em Ti, que assim eles estejam em Nós, para que o mundo creia que Tu Me enviaste» (Ioh 17,21).

08.03.2013 – Mc 12, 28b-34

28Um escriba, que os tinha ouvido disputar e visto quão bem lhes respondera, aproxi­mou-se e perguntou-Lhe: Qual é o primeiro de todos os mandamentos? 29O primeiro — respondeu Jesus — é: Ouve Israel: O Senhor nosso Deus é o único Senhor30e ama o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e de todas as tuas forças. 31O segundo é: Ama o teu próximo como a ti mesmo. Não há nenhum mandamento maior que estes. 32Disse-Lhe o escriba: Mestre, disseste verdadeiramente bem que é único e não há outro fora d’Ele, 33e que amá-Lo de todo o coração, e de toda a inteligência, e de todas as forças, e amar o próximo como a si mesmo vale mais que todos os holocaustos e sacrifícios.34Jesus, ao ver que tinha respondido atinadamente, disse-lhe: Não estás longe do Reino de Deus. E ninguém mais ousava interrogá-Lo.

Comentário

28-34. O doutor da lei que faz a pergunta mostra uma atitude leal diante de Jesus Cristo porque busca sinceramente a verdade. Ficou impressionado diante da resposta precedente de Jesus (vv. 18-27), e aproxima-se com desejos de conhecer melhor os ensinamentos do Mestre. A sua pergunta é acertada e Jesus entretém-se a instruir este homem, pertencente a um grupo, os escribas, sobre o qual vai lançar as acusações mais fortes (cfr Mc 12, 38 ss.).

Mas Jesus não vê no personagem que d’Ele se aproxima apenas um escriba, mas uma alma que busca a verdade. E os ensinamentos de Jesus penetram no seu coração: aquele homem repete-os saboreando-os, e o Senhor terá para ele uma palavra carinhosa que incita à conversão definitiva: «Não estás longe do Reino de Deus». Este encontro faz-nos recordar o que teve com Nicodemos (cfr Ioh 3, 1 ss.). Sobre o conteúdo doutrinai destes dois mandamentos cfr a nota a Mt 22,34-40.

30. Este mandamento da Antiga Lei, ratificado por Jesus, manifesta, antes de mais, o amor de Deus que quer estabelecer uma comunicação íntima com o homem:« Verda­deiramente Deus mostra-Se desejoso do nosso amor! Não Lhe bastou conceder-nos a graça de consentir que O amássemos'(…); vai mais adiante em declarar-nos a Sua paixão amorosa; ordena-nos que O amemos com todas as forças, a fim de que nem a consideração da Sua Majestade e da nossa miséria, coisas tão infinitamente díspares, nem qualquer outro pretexto nos afastem do Seu amor. Nisso mostra bem que não colocou inutilmente em nós a inclinação para O amarmos, pois para que não ficasse frustrada, impele-nos a exercitá-la mediante um mandamento geral; e para que se possa cumprir este mandamento, a nenhum homem regateia os meios indispensáveis» (Tratado do amor de Deus, livro 2, cap. 8).

09.03.2013 – Lc 18, 9-14

9Disse também a seguinte parábola, para alguns, que estavam intimamente convencidos de que eram justos e desprezavam os demais: 10Subiram ao Templo dois homens para orar: um fariseu e o outro publicano. 11O fariseu, perfilado, fazia lá consigo esta oração: «Ó Deus, dou-Te graças por não ser como o resto dos homens, que são ladrões, injustos, adúlteros, ou ainda como este publi­cano. 12Jejuo duas vezes por semana; pago o dízimo de tudo quanto recebo». 13E o publi­cano, mantendo-se a distância, não ousava nem sequer erguer os olhos ao Céu, mas batia no peito, dizendo: «Ó Deus, sé clemente para comigo, que sou pecador!». 14Eu vos digo: Desceu este justificado para sua casa, ao contrário do outro, porque todo aquele que se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado.

Comentário

9-14. O Senhor completa o Seu ensinamento sobre a oração; além de ser perseverante e cheia de fé, a oração deve brotar de um coração humilde e arrependido dos seus pe­cados: Cor contritum et humiliatum, Deus, non despicies (Ps 51,19), o Senhor, que nunca despreza um coração contrito e humilhado, resiste aos soberbos e dá a Sua graça aos humildes (cfr 1Pet 5,5; lac 4,6).

A parábola apresenta dois tipos humanos contrapostos: o fariseu, meticuloso no cumprimento externo da Lei; e o publicano, pelo contrário, considerado pecador público (cfr Lc 19,7). A oração do fariseu não é agradável a Deus devido ao seu orgulho, que o leva a fixar-se em si mesmo e a desprezar os outros. Começa a dar graças a Deus, mas é óbvio que não se trata de verdadeira acção de graças, visto que se ufana do bem que fez, e não é capaz de reconhecer os seus pecados; como pensa que já é justo, não tem necessi­dade, segundo ele, de ser perdoado; é, efectivamente, per­manece nos seus pecados; a ele se aplica também o que disse o Senhor noutra ocasião a um grupo de fariseus: « Se fósseis cegos não teríeis pecado, mas agora dizeis: Vemos; por isso o vosso pecado permanece» (Ioh 9,41). O fariseu baixou do Templo, pois, com os seus próprios pecados.

Pelo contrário, o publicano reconhece a sua indignidade e arrepende-se sinceramente: estas são as disposições neces­sárias para ser perdoado por Deus. A jaculatória do publi­cano, que exprime tais sentimentos, alcança o perdão divino: «Com razão, explica São Francisco de Sales, alguns disseram que a oração justifica, porque a oração contrita ou a contrição orante eleva a alma a Deus, une-a à Sua bondade e obtém o Seu perdão em virtude do amor divino que lhe comunica este santo movimento. Por conseguinte, devemos sentir-nos fortes com tais jaculatórias, feitas com actos de dor amorosa e com desejos de divina reconciliação a fim de que, por meio delas, expressando diante do Salvador as nossas angústias (Ps 142,2), confiemos a alma ao Seu Coração misericordioso que a receberá com piedade» (Tratado do amor de Deus, liv. 2, cap. 20).

10.03.2013 – Lc 15, 1-3.11-32

Ora os publicanos e os pecadores aproximavam-se todos de Jesus para O ouvirem. 2E os Fariseus e os Escribas murmuravam entre si, dizendo: Este homem acolhe os pecadores e come com eles. 3Pro­pôs-lhes então a seguinte parábola:

11Disse ainda: Certo homem tinha dois filhos. 12E o mais novo dentre eles disse ao pai: «Pai, dá-me a parte que me cabe da fortuna». E ele repartiu-lhes os bens. 13Alguns dias depois, o filho mais novo, reunindo tudo, ausentou-se para uma região longín­qua e por lá esbanjou os seus bens, vivendo dissipadamente. 14Depois de haver gastado tudo, houve uma grande fome por aquela região, e ele começou a passar privações. 15Foi então ligar-se a um dos habitantes daquela região, o qual o mandou para os seus campos guardar porcos. 16Bem desejava ele encher o ventre com as alfarrobas que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava. 17Então caiu em si e disse: «Quantos jornaleiros de meu pai têm pão com fartura, e eu morro aqui à fome! 18Vou ter com meu pai e digo-lhe: Pai, pequei contra o Céu e para contigo. 19Já não sou digno de cha­mar-me teu filho. Trata-me como um dos teus jornaleiros». 20Partiu, pois, e foi ter com o pai.

Estando ele ainda longe, viu-o o pai, e encheu-se de compaixão e correu a lançar-se lhe ao pescoço, beijando-o. 21Disse-lhe o filho: «Pai, pequei contra o Céu e para contigo. Já não sou digno de chamar-me teu filho». 22Disse o pai aos seus criados: «Trazei depressa o fato melhor e vesti-lho; ponde-lhe um anel na mão, e calçado nos pés. “Trazei o vitelo gordo, matai-o; e comamos em festa, 24porque este meu filho estava morto e voltou à vida, estava perdido e encontrou-se». E começaram com a festa.

25Ora o filho mais velho estava no campo. Quando, à volta, se aproximou da casa, ouviu música e danças. 26Chamando um dos moços, pediu-lhe informações sobre o que era aquilo. 27«É que chegou teu irmão — lhe disse este — e teu pai matou o vitelo gordo, porque de regresso o encontrou com saúde.» 28Ele ficou irritado e não queria entrar. O pai veio cá fora instar com ele. 29Mas ele, em resposta, disse ao pai: «Há já tantos anos que te sirvo sem nunca transgredir uma ordem tua, e tu nunca me deste um cabrito, para eu fazer uma festa com os meus amigos! 30Mas, quando chegou esse teu filho, que te consumiu a fortuna com meretrizes, mataste-lhe o vitelo gordo». 31O pai respondeu-lhe: «Filho, tu sempre estás comigo e tudo o que é meu é teu. 32Mas nós tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e voltou à vida, estava perdido e encontrou-se».

Comentário

1-32. Com as Suas obras Jesus manifesta a misericórdia divina: aproxima-Se dos pecadores para os converter. Os escribas e os fariseus, que desprezam os pecadores, não compreendem esse comportamento de Jesus, e murmuram d’Ele; será ocasião para que Nosso Senhor pronuncie as parábolas da misericórdia. «O Evangelista que trata de modo particular estes temas do ensino de Cristo é São Lucas, cujo Evangelho mereceu ser chamado ‘o Evangelho da misericórdia’» (Dives in misericórdia, n 3).

Neste capítulo São Lucas recolhe três destas parábolas, em que de modo gráfico Jesus descreve a infinita e paternal misericórdia de Deus, e a Sua alegria pela conversão do pecador.

O Evangelho ensina que ninguém está excluído do per dão, e que os pecadores podem chegar a ser filhos que­ridos de Deus mediante o arrependimento e a conversão. E é tal o desejo divino de que os pecadores se convertam que as três parábolas terminam repetindo, a modo de estribilho, a alegria grande no Céu por cada pecador arrependido.

1-2. Não é esta a primeira vez que publicanos e peca­dores se aproximam de Jesus (cfr Mt 9,10). A pregação do Senhor atraía pela sua simplicidade e pelas suas exigências de entrega e de amor. Os fariseus tinham-Lhe inveja porque a gente ia atrás d’Ele (cfr Mt 26,3-5; Ioh 11,47). Essa atitude farisaica pode repetir-se entre os cristãos: uma dureza de juízo tal que não aceite que um pecador, por maiores que tenham sido os seus pecados, possa converter-se e ser santo; uma cegueira de mente tal que impeça reconhecer o bem que fazem os outros e alegrar-se disso. Nosso Senhor já vai ao encontro desta atitude errada quando responde aos Seus discípulos que se queixam de que outros expulsem demônios em Seu nome: «Não lho proibais, pois não há ninguém que faça um milagre em Meu nome e possa a seguir falar mal de Mim» (Mc 9,39). Igualmente São Paulo alegrava-se de que outros anunciassem Cristo, e inclusivamente passava por alto que o fizessem por interesse, desde que Cristo fosse pregado (cfr Phil 1,17-18).

11. Estamos perante uma das parábolas mais belas de Jesus, em que nos é ensinado uma vez mais que Deus é um Pai bom e compreensivo (cfr Mt 6,8; Rom 8,15; 2 Cor 1,3). O filho que pede a parte da sua herança é figura do homem que se afasta de Deus por causa do pecado. Nesta parábola «a essência da misericórdia divina — embora no texto origi­nal não seja usada a palavra ‘misericórdia’ — aparece de modo particularmente límpido» (Dives in misericórdia, n 5).

12-13. «Este filho, que recebe do pai a parte da herança que lhe toca e deixa a casa paterna para esbanjar essa herança numa terra longínqua ‘vivendo dissolutamente’, em certo sentido é o homem de todos os tempos, a começar por aquele que foi o primeiro a perder a herança da graça e da justiça original. Neste ponto a analogia é muito vasta. Indirectamente a parábola estende-se a todas as rupturas da aliança de amor: a toda a perda da graça, e todo o pecado» (Dives in misericórdia, n 5).

14-15. Neste momento da parábola vemos as tristes consequências do pecado. Com essa fome fala-se-nos da ansiedade e do vazio que sente o coração do homem quando está longe de Deus. Com a servidão do filho pródigo é-nos descrita a escravidão a que fica submetido quem pecou (cfr Rom 1,25:6.6; Gal 5,1). Assim, pelo pecado o homem perde a liberdade dos filhos de Deus (cfr Rom 8,21; Gal 4,31; 5,13) e submete-se ao poder de Satanás.

17-21. A recordação da casa paterna e a segurança no amor do pai fazem que o filho pródigo reflicta e decida pôr-se a caminho. «De certo modo, a vida humana é um constante regresso à casa do Pai, um regresso mediante a contrição, a conversão do coração que significa o desejo de mudar, a decisão firme de melhorar a nossa vida e que, portanto, se manifesta em obras de sacrifício e de doação; regresso a casa do Pai, por meio do sacramento do perdão, em que, ao confessar os nossos pecados, nos revestimos de Cristo e nos tornamos assim seus irmãos, membros da família de Deus» (Cristo que passa, n° 64).

20-24. Deus espera sempre o regresso do pecador e quer que se arrependa. Quando chega O filho pródigo as palavras do pai não são de repreensão mas de imensa compaixão, que o leva a abraçar o filho e a cobri-lo de beijos.

20. «Não há dúvida de que, naquela simples, mas pene­trante comparação, a figura do pai revela-nos Deus como Pai (…). O pai do filho pródigo é f tela sua paternidade, fiel ao amor que desde sempre tinha dedicado ao seu filho. Tal fidelidade manifesta-se na parábola não apenas na prontidão em rece­bê-lo em casa, quando ele voltou depois de ter esbanjado a herança, mas sobretudo na alegria e no clima de festa tão generoso para com o esbanjador que regressa. Esta atitude provoca até a inveja do irmão mais velho, que nunca se tinha afastado do pai, nem abandonado a casa paterna.

«A fidelidade a si próprio por parte do pai — traço caracte­rístico já conhecido pelo termo do Antigo Testamento ‘hesed’ — exprime-se de modo particularmente denso de afecto. Lemos, com efeito, que, ao ver o filho pródigo regressar a casa, o pai, ‘movido de compaixão, correu ao seu encontro, abraçou-o efusivamente e beijou-o’. Procede deste modo levado certamente por profundo afecto; e assim se explica também a sua generosidade para com o filho, generosidade que causará tanta indignação no irmão mais velho» (Dives in misericórdia, n 6).

«Perante um Deus que corre para nós, não podemos calar-nos e dir-Lhe-emos com São Paulo: Abba, Pater! (Rom VIII, 15). Pai! Meu Pai! Pois, sendo Ele o Criador do universo, não dá importância a títulos altissonantes, nem sente falta da justa confissão do seu poderio. Quer que Lhe chamemos Pai, que saboreemos essa palavra, enchendo a alma de alegria (…).

«Deus espera-nos como o pai da parábola, estendendo para nós os braços, embora não o mereçamos. Não importa o que lhe devemos. Como no caso do filho pródigo, o que é preciso é que lhe abramos o coração, que tenhamos sau­dades do lar paterno, que nos maravilhemos e nos alegremos perante o dom que Deus nos fez de nos podermos chamar e sermos realmente, apesar de tanta falta de correspondência da nossa parte, seus filhos» (Cristo que passa, n° 64).

25-30. A misericórdia de Deus é tão grande que escapa à compreensão do homem; e este é o caso do filho mais velho, que considera excessivo o amor do pai para com o filho mais novo; a sua inveja não o deixa compreender as manifestações de amor que o pai mostra ao recuperar o filho perdido, nem compartilhar a alegria da família. «É verdade que foi pecador. — Mas não faças dele esse juízo inabalável. — Abre o coração à piedade, e não te esqueças de que ainda pode vir a ser um Agostinho, enquanto tu não passas de um medíocre» (Caminho, n° 675).

Por outro lado, devemos considerar que se Deus tem compaixão dos pecadores, quanto mais terá dos que se esforçam por permanecer fiéis. Bem o compreendia Santa Teresinha de Lisieux: «Que doce alegria a de pensar que o Senhor é justo, isto é, que conta com as nossas debilidades, que conhece perfeitamente a fragilidade da nossa natureza! Por quê, pois, temer? O bom Deus, infinitamente justo, que Se dignou perdoar com tanta misericórdia as culpas do filho pródigo, não será também justo comigo que estou sempre junto d’Ele?» (História de uma alma, cap. 8).

32. «A misericórdia apresentada por Cristo na parábola do filho pródigo tem a característica interior do amor, que no Novo Testamento é chamado ‘agape’. Este amor é capaz de debruçar-se sobre todos os filhos pródigos, sobre qualquer miséria humana e, especialmente, sobre toda a miséria moral, sobre o pecado. Quando isto acontece, aquele que é objecto da misericórdia não se sente humilhado, mas como que reencontrado e ‘revalorizado’. O pai manifesta-lhe alegria, antes de mais por ele ter sido ‘reencontrado’ e por ter ‘voltado à vida’. Esta alegria indica um bem que não foi destruído: o filho, embora pródigo, não deixa de ser real­mente filho de seu pai. Indica ainda um bem reencontrado: no caso do filho pródigo, o regresso à verdade sobre si próprio» (Dives in misericórdia, n 6).

11.03.2013 – Jo 4, 43-54

43Passados os dois dias, partiu dali para a Galileia. 44O próprio Jesus tinha efectivamente declarado que um profeta, na sua terra, não é tido em apreço. 45Quando chegou à Galileia, receberam-No os Galileus, que tinham visto quanto Ele fizera em Jeru­salém, pela festa, pois eles também tinham ido à festa.

46Veio então novamente a Cana da Galileia, onde tinha convertido a água em vinho. Ora, em Cafarnaum, havia um funcionário real, cujo filho se encontrava doente. 47Ao ouvir dizer que Jesus chegara da Judeia à Galileia, veio ter com Ele e pôs-se a pedir que fosse lá abaixo curar-lhe o filho, que estava a morrer. 48Disse-lhe então Jesus: Se não virdes milagres e prodígios, não haveis de acreditar! 49Senhor — diz-Lhe o funcio­nário real — vem cá abaixo antes que o meu filhinho morra. 50Jesus responde-lhe: Vai, teu filho está vivo! O homem acreditou na palavra que Jesus lhe tinha dito e pôs-se a caminho.

51Já ele vinha na descida, quando lhe vie­ram os criados ao encontro, dizendo que o menino estava vivo. 52Perguntou-lhes a que horas tinha ele melhorado. Responderam-lhe: Foi ontem, à hora sétima, que a febre o deixou. 53O pai reconheceu então que tinha sido àquela hora que Jesus lhe havia dito: «Teu filho está vivo!». E acreditou, ele e todos os de sua casa. 54Foi este o segundo milagre que Jesus fez, ao voltar da Judeia para a Galileia.

Comentário

46. São João fala de um funcionário real, provavel­mente ao serviço de Herodes Antipas que, ainda que fosse somente tetrarca ou governador da Galileia (cfr Lc 3,1), podia receber também o título de rei (cfr Mc 6,14). Trata-se, portanto de uma pessoa de alta categoria social (v. 51) que residia em Cafarnaum, cidade alfandegária. Por isto supõe São Jerónimo que devia ser um palatinus, um cortesão de palácio, como sugere o termo grego correspondente.

48. Jesus parece dirigir-Se não tanto ao funcionário real como à gente da Galileia que acorria a Ele só para pedir milagres e ver prodígios. Noutra ocasião o Senhor censu­raria as cidades de Corozaim. Betsaida e Cafarnaum pela sua incredulidade (Mt 11,21 -23), porque os milagres que fez ali teriam movido à penitência as cidades fenícias de Tiro e de Sidónia e inclusivamente a própria Sodoma. Os Galileus em geral estavam mais dispostos para ver manifestações extraordinárias do que para escutar a Sua palavra. Mais adiante, depois do milagre da multiplicação dos pães, buscarão o Senhor para O fazerem rei, mas nem todos acreditarão no anúncio da Eucaristia (Ioh 6,15.53.62). Jesus pede uma fé firme e pura, que, ainda que se apoie em milagres, não os exige. Não obstante, Deus continua em todos os tempos a fazer milagres, que servem para reafirmar a fé. «Não sou ‘milagreiro’. — Disse-te já que me sobejam milagres no Santo Evangelho para firmar fortemente a minha fé. — Mas dão-me pena esses cristãos — até piedosos, ‘apostólicos’ — que sorriem quando ouvem falar de cami­nhos extraordinários, de factos sobrenaturais. — Sinto desejos de lhes dizer: sim, também agora há milagres; nós próprios os faríamos se tivéssemos fé!» (Caminho, n° 583).

49-50. Apesar da atitude aparentemente fria de Jesus, o «nobre» insiste a manifestar o seu sofrimento interior: «Senhor, vem cá abaixo antes que o meu filhinho morra». Ainda que imperfeita, a sua fé tinha sido suficiente para percorrer os 33 quilômetros que separam Cafarnaum de Cana; e, não obstante a sua elevada posição, tinha-se apro­ximado do Senhor pedindo ajuda. Jesus gosta da perse­verança e da humildade deste homem. O pedido feito com fé alcança o seu objectivo:

«‘Si habueritiis fidem, sicut granum sinapis!’ — Se tivesses uma fé do tamanho de um grãozito de mostarda!…

«— Que promessas não encerra esta exclamação do Mestre!» (Caminho n.0 585).

Os Santos Padres comparam este milagre ao servo do Centurião (Mt 8,5-12; Lc 7,1-10), pondo em realce a fé surpreendente que desde o primeiro momento manifesta o oficial romano, em contraste com’ a imperfeita fé inicial do personagem de Cafarnaum. São João Crisóstomo comenta: «Ali (no caso do centurião romano), a fé era robusta, por isso Jesus prometeu ir para que nós aprendamos a devoção daquele; aqui a fé era ainda imperfeita, e não sabia com clareza que Jesus podia curar estando longe: assim que o Senhor, negando-Se a descer, quis com isto ensinar a ter fé» (Hom. sobre S. João, 35).

53. O milagre da cura é força convincente que atrai à fé aquele homem e com ele toda a sua família- Todo o bom pai de família deve aproveitar os episódios domésticos para procurar que os seus acedam à fé. Assim diz São Paulo: «Se alguém não cuida dos seus e principalmente de sua casa, negou a fé e é pior que um infiel» (1Tim 5,8). Cfr Act 16,14, onde se narra que Lídia cuidou de que com ela fosse baptizada toda a sua família; em Act 18,8, refere-se a mesma atitude do chefe da sinagoga Crispo, e em Act 16,33 a do guarda da prisão.

12.03.2013 – Jo 5, 1-3ª.5-16

Depois disto, houve uma festa dos Judeus, e Jesus subiu a Jerusalém. 2Ora existe em Jerusalém, junto à Piscina das Ovelhas, uma que, em hebraico, se chama Bezatá, que tem cinco pórticos. 3Nestes jazia grande número de enfermos, cegos, coxos, entrevados.

5Estava ali um homem, enfermo havia trinta e oito anos. 6Jesus, ao vê-lo estendido e sabendo que já estava assim havia muito tempo, diz-lhe: Queres ficar são? 7Senhor — responde-Lhe o enfermo — não tenho nin­guém que me lance na piscina, quando a água se agitar; e enquanto eu vou, outro desce antes de mim. 8Diz-lhe Jesus: Levanta-te, toma o teu catre e anda. 9E logo o homem ficou são, tomou o catre e pôs-se a caminhar.

Ora aquele dia era um sábado. 10Diziam, por isso, os Judeus ao miraculado: É sábado e não podes levar esse catre. 11Mas ele res­pondeu-lhes: Quem me curou é que me disse: «Toma o teu catre e anda». 12Perguntaram-lhe então: Quem é o homem que te disse: «Toma o teu catre e anda »? 13Mas o que tinha sido curado não sabia quem era, pois Jesus havia-Se afastado, por haver muita gente no local.

14Em seguida, encontrou-o Jesus no Templo e disse-lhe: Ficaste curado. Não tornes a pecar, para não te suceder coisa pior. 15O homem foi dizer aos Judeus que tinha sido Jesus que o curara. 16Por isso os Judeus perseguiam Jesus, visto Ele fazer tais coisas ao sábado.

Comentário

1. Não é possível determinar com certeza de que festa se trata; provavelmente refere-se à Páscoa, conhecida inclusivamente no mundo greco-romano como a festa nacional do povo judaico. Mas também poderia referir-se a outras festas, como a de Pentecostes. (Sobre esta questão veja-se Cronologia da vida de Nosso Senhor Jesus Cristo, parágrafo 3, Duração do Ministério Público, pp. 88-89).

2. A esta piscinachama-se também «probática» por estar situada, nos Subúrbios de Jerusalém, junto à porta probática ou das Ovelhas (cfr Neh 3, 1-32; 12,39), pela qual entrava o gado que\se destinava aos sacrifícios do Templo. Em fins do século XIX encontraram-se vestígios da piscina: escavada em rocha\ era de forma rectangular e estava rodeada de quatro galerias ou alpendres, e um quinto alpendre dividia o tanque em duas metades quase quadra­das.

14. Possivelmente o paralítico tinha acorrido ao Templo para dar graças a Deus pela sua cura. Jesus vem ao seu encontro e recorda-lhe que mais importante que a saúde do corpo é a saúde da alma.

O Senhor recorre ao santo temor de Deus como incentivo na luta contra o pecado: «Não tornes a pecar para não te suceder coisa pior». Este bom temor que nasce do respeito por nosso Pai Deus compagina-se perfeitamente com o amor. Assim como os filhos amam e respeitam os pais, e procuram evitar-lhes desgostos também por temor ao castigo, de modo semelhante nós temos de lutar contra o pecado em primeiro lugar porque é uma ofensa a Deus, mas também porque podemos ser castigados nesta vida e, sobretudo, na outra.

13.03.2013 – Jo 5, 17-30

17Mas Jesus respondeu-lhes: Meu Pai trabalha continuamente e Eu também trabalho. 18Daqui resultou que os Judeus mais se esforçavam por Lhe dar a morte, não só por violar o sábado, mas também por chamar a Deus Seu próprio Pai, fazendo-Se igual a Deus.

19Entáo Jesus tomou a palavra e pôs-Se a dizer-lhes: Em verdade, em verdade vos digo: Não pode o Filho fazer nada por Si mesmo, se não vir o Pai fazer alguma coisa; pois aquilo que Este faz, também o Filho o faz igualmente. 20De facto, o Pai ama o Filho e mostra-Lhe tudo o que Ele mesmo faz; e há-de mostrar-Lhe obras maiores do que estas, de modo que ficareis admirados. 21Pois, assim como o Pai ressuscita os mortos e lhes dá vida, assim também o Filho dá vida àqueles que quer. 22O Pai, de facto, não julga ninguém, mas entregou ao Filho todo o julgamento, 23para todos honrarem o Filho como honram o Pai. Quem não honra o Filho não honra o Pai, que O enviou.

24Em verdade, em verdade vos digo: Quem ouve a Minha palavra e acredita n’Aquele que Me enviou tem a vida eterna e não incorre em condenação, mas já transitou da morte para a vida. 25Em verdade, em ver­dade vos digo: Vai chegar a hora — e é já — em que os mortos hão-de ouvir a voz do Filho de Deus; e os que ouvirem viverão! 26Pois, assim como o Pai tem a vida em Si mesmo, assim também concedeu ao Filho o ter a vida em Si mesmo; 27e deu-Lhe o poder de julgar, por ser Filho de homem. 28Não vos admireis com isto, porque vai chegar a hora em que todos os que estão nos túmulos hão-de ouvir a Sua voz; 29os que tiverem feito boas obras ressuscitarão para a vida, e os que tiverem praticado más acções hão-de ressuscitar para a condenação. 30Eu nada posso fazer por Mim mesmo. Conforme oiço é que julgo, e é justo o Meu juízo, porque não busco a Minha vontade, mas a vontade d’Aquele que Me enviou.

Comentário

16-18. A Lei de Moisés assinalava o sábado como o dia de descanso semanal. Desta forma os Judeus pensavam imitar a maneira de agir de Deus na Criação. Observa São Tomás de Aquino que Jesus rejeita a estreita interpretação que davam os Judeus: «Estes, querendo imitar a Deus, não faziam nada ao sábado, como se Deus neste dia tivesse deixado absolutamente de actuar. É verdade que ao sábado descansou da criação de novas criaturas, mas sempre e de forma contínua actua, conservando-as no ser… Deus é causa de todas as coisas no sentido de que também as faz subsistir; porque se num momento dado se interrompesse o Seu poder, imediatamente deixariam de existir todas as coisas que a natureza contém» (Comentário sobre S. João, ad loc.). «Meu Pai trabalha continuamente e Eu também tra­balho»: Já dissemos que Deus não deixa de actuar depois da Criação. Como o Filho actua junto com o Pai, que com o Espí­rito Santo são um só Deus, por esta razão Nosso Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus, pode dizer que não deixa de trabalhar. Estas palavras de Jesus fazem referência implí­cita à Sua natureza divina, e assim o entenderam os Judeus, os quais, considerando-as uma blasfêmia, quiseram dar-Lhe a morte. «Todos — comenta Santo Agostinho — chamamos a Deus «Pai Nosso que estais nos Céus’ (Is 63,16; 64,8). Não se enfureciam, portanto, porque dissesse que Deus era Seu Pai, mas porque Lhe chamava Pai de maneira muito diferente de como Lhe chamam os homens. Vede como os Judeus veem; os arianos, pelo contrário, não querem ver. Estes dizem que o Filho não é igual ao Pai, e daqui surge uma heresia que aflige a Igreja. Vede como até os próprios cegos e os mesmos que mataram Cristo entenderam o sentido das palavras do Senhor» (In Ioann. Evang., 17,1). Nós chamamos a Deus nosso Pai porque somos filhos adoptivos pela graça; Jesus Cristo chama a Deus Seu Pai porque é o Filho por natureza. Por isso diz depois de ressuscitar: Subo para Meu Pai e vosso Pai (Ioh 20,17), distinguindo assim com clareza essas duas maneiras diferentes de ser filhos de Deus.

19. Jesus fala da igualdade e ao mesmo tempo da distinção entre o Pai e o Filho. Os dois são iguais: todo o poder do Filho é o poder do Pai, as obras do Filho são as obras do Pai. Ao mesmo tempo são duas Pessoas distintas: por isso o Filho faz o que viu fazer ao Pai.

Não se devem entender estas palavras do Senhor no sentido de que o Filho veja o que o Pai faz e que depois repita o que viu, como um discípulo que imita o professor; mas com esta frase indica-se a comunicação de poderes do Pai para o Filho por geração. Emprega-se o verbo «ver» porque o homem conhece através dos sentidos, especialmente da vista; dizer que o Filho vê o que faz o Pai é um modo de falar dos poderes que desde toda a eternidade recebe d’Ele (cfr Comentário sobre S. João, ad loc.).

20-21. Quando se diz que o Pai mostra ao Filho «tudo o que Ele mesmo faz» indica-se que Cristo pode fazer o mesmo que o Pai. Assim, quando Jesus Cristo realiza obras que são próprias de Deus, está a testemunhar com elas a Sua Divindade (cfr Ioh 5,36).

«Obras maiores»: Pode referir-se aos milagres que Jesus realizará na Sua vida e ao poder de julgar. Mas o milagre por excelência de Jesus é a Sua própria Ressurreição, causa e primícia da nossa (cfr 1Cor 15,20 ss.) e da aquisição para nós da vida sobrenatural. O poder vivificador de Cristo é total, tal como o do Pai. Este ensinamento desenvolve-se ao longo dos versículos seguintes até ao 29.

22-30. O poder de julgar também foi dado pelo Pai ao Verbo Encarnado. O juízo será condenatório para quem não crer em Cristo e na Sua palavra (cfr 3,18). É necessário reconhecer o senhorio de Jesus Cristo, sabendo que só ao aceitar o Filho feito homem honramos o Pai; aquele que não honra Jesus, também não honra o Pai (v. 23). Por esta acei­tação de Cristo, da Sua palavra, possuímos a vida eterna e somos libertados da condenação. Ele, assumida já de modo inseparável a Sua Humanidade, é constituído juiz, e o Seu juízo é justo porque busca cumprir a Vontade do Pai que O enviou, e não faz nada por conta própria; isto é, a Sua vontade humana está perfeitamente identificada com a Sua vontade divina: por isso pode afirmar Jesus que não faz a Sua vontade mas a Vontade do que O enviou.

22. Deus, por ser o Criador do mundo, é o Juiz supremo de todas as criaturas. Só Ele pode saber com toda a profundidade se estas criaturas cumprem o fim que Ele lhes marcou. Jesus Cristo, Verbo Encarnado, recebe os poderes divinos (cfr Mt 11,27;28,18; Dan7,14), entre eles o de julgar os homens. Ora bem, a Vontade de Deus é que estes se salvem: Cristo não veio para um juízo de condenação, mas de salvação (cfr Ioh 12,47). Unicamente o que não aceitar esta missão divina do Filho se coloca a si mesmo fora do âmbito da salvação. Como ensina o Magistério: «Que o poder judi­cial Lhe tenha sido dado por Seu Pai, o próprio Jesus Cristo o proclama diante dos Judeus que Lhe atiram à cara ó ter violado o descanso do sábado ao curar o paralítico (…). Este poder supõe o direito de impor prêmios e castigos aos homens, mesmo nesta vida» (Quas primas, Dz-Sch 3677). Jesus Cristo, portanto, é Juiz de vivos e de mortos, e retri­buirá a cada um segundo as suas obras (cfr 1Pet 1,17).

«É certo que de todas as nossas culpas temos de prestar estreitas contas ao eterno Juiz; mas, quem será este nosso Juiz? O Pai (…) deu todo o juízo ao Filho. Consolemo-nos, pois, já que o Eterno Pai pôs a nossa causa nas mãos do nosso próprio Redentor. São Paulo anima-nos com estas palavras: Quem será o que condene? Cristo, Jesus, o que morreu (…)-é Quem (…) intercede por nós (Rom 8,34). Quem é o juiz que nos há-de condenar? O próprio Salvador que, para não nos condenar à morte eterna, quis condenar-Se a Si mesmo e,por conseguinte, morreu e, não contente com isso, agora no Céu prossegue junto do Pai sendo mediador da nossa sal­vação» (Prática de amor a Jesus Cristo, cap. 3).

24. Escutar a palavra de Cristo e crer n’Aquele que O enviou, isto é, no Pai, são duas expressões intimamente rela­cionadas. O que diz Jesus Cristo é revelação divina; por isso, aceitar as palavras de Jesus equivale a crer em Deus Pai: «Aquele que crê em Mim, não crê em Mim, mas n’Aquele que Me enviou (…). Porque Eu não falei por Mim Mesmo, mas o Pai que Me enviou, ordenou-Me o que hei-de dizer e falar» (Ioh12,44.49).

Aquele que tem fé está no caminho da vida eterna, porque participa, já nesta vida terrena, da vida divina que é eterna; mas não a conseguiu definitivamente — porque pode perdê-la —, nem em plenitude: «Queridos, agora somos filhos de Deus mas ainda não se manifestou o que seremos (…), quando se manifestar seremos semelhantes a Ele» (1Ioh 3,2). Para aquele que se mantém firme na fé, e vive de acordo com as suas exigências, o juízo divino não será condenatório, mas salvador.

Portanto, vale a pena esforçar-se, apoiados na graça, por viver uma vida coerente com a fé: «Se se procurar com tanto empenho, com tanto trabalho e com tanto esforço viver aqui um pouco mais, quanto não deverá fazer-se para viver eter­namente?» (De verb. Dom. semi. 64).

25-30. Com estes vv encerra-se a primeira parte do dis­curso do Senhor, que abarca de 5,19 a 5,47, e cujo núcleo essencial é a revelação acerca da Sua relação com o Pai. Para compreender as afirmações que o Senhor faz aqui há que ter presente que Ele, por ser uma única Pessoa (divina), um só sujeito de operações, um único Eu, exprime em palavras humanas não só os sentimentos que tem como homem, mas também a realidade mais profunda do Seu ser: é o Filho de Deus, tanto na Sua geração eterna pelo Pai, como na Sua geração no tempo ao assumir a natureza humana. Daqui que Jesus Cristo tenha uma consciência tão viva e profunda — inimaginável para nós — da Sua filiação, que O leva a tratar o Pai com uma intimidade singularíssima, com amor e, ao mesmo tempo, com respeito; está consciente ao mesmo tempo da Sua igualdade com o Pai; por isso, quando fala de que o Pai Lhe deu a vida (v. 26), ou Lhe deu o poder (v. 27), não é que tenha recebido uma parte, mas a totalidade da própria vida — «em si mesmo» — ou do próprio poder, sem que o Pai os perca.

«Vês como mostra a igualdade e como a única diferença consiste em que um é o Pai e outro o Filho. Porque a expressão ‘deu’ introduz esta única diferença e demonstra que tudo o resto é igual. Daí se segue que Ele (Cristo) faz todas as coisas com a mesma potestade e com o mesmo poder que o Pai e que não toma a Sua força senão d’Ele» (Hom. sobre S. João, 39,3).

Maravilha-nos neste passo do Evangelho como na estreiteza da linguagem humana Jesus Cristo exprimiu os sentimentos do Seu único Eu: a Segunda Pessoa da Santís­sima Trindade que assumiu no tempo (e a partir desse momento para sempre) a natureza humana. É um mistério que o cristão deve contemplar, ainda que não o possa com­preender; só pode sentir-se inundado por uma luz tão potente que supera a sua capacidade de compreensão, mas enche a sua alma de fé e de desejos de adoração.

14.03.2013 – Jo 5, 31-47

31Se Eu der testemunho de Mim mesmo, o Meu testemunho não passa por verídico. 32É outro que dá testemunho de Mim, e Eu sei que é verídico o testemunho que Ele dá de Mim. 33Vós mandastes enviados a João e ele deu testemunho da verdade. 34Não é dum homem que Eu recebo testemunho, mas digo-vos isto para que vos salveis. 35Ele era uma lâmpada que ardia e brilhava, e vós, por um momento, deixastes-vos tomar de alegria com a sua luz. 36Mas Eu tenho um testemunho maior que o de João, pois as obras que o Pai Me deu para consumar, essas mesmas obras que faço, atestam, a Meu respeito, que o Pai Me enviou. 37E o Pai que Me enviou deu Ele mesmo testemunho de Mim. Nunca Lhe ouvistes a voz, nem Lhe vistes a figura, 38e não tendes, permanecendo em vós, a Sua palavra, porque não acredi­tais No que Ele enviou. 39Esquadrinhais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna; e são elas que dão testemunho de Mim! 40Vós, porém, não quereis vir a Mim, para terdes a vida.

41Não é dos homens que Eu tiro glória; 42aliás, bem vos conheço: não tendes em vós o amor de Deus. 43Eu vim em nome de Meu Pai e vós não Me recebeis. Se outro vier em seu próprio nome, recebê-lo-eis. 44Como po­deis acreditar, vós que tirais glória uns dos outros e não buscais a glória só da parte de Deus? 45Não penseis que Eu vou acusar-vos ao Pai. Há quem vos acuse, Moisés, em quem pusestes a vossa esperança; 46porquanto, se acreditásseis em Moisés, acreditaríeis em Mim, visto ele ter escrito a Meu respeito! 47Mas, se não acreditais nos seus escritos, como haveis de acreditar nas Minhas palavras?

Comentário

31-40. A Jesus, por ser o Filho de Deus, bastava-Lhe a Sua própria autoridade para dar validade às Suas palavras (cfr 8,18); mas, como outras vezes, acomoda-Se aos usos dos homens e condescende com a forma de pensar dos Seus ouvintes. Assim, antecipando-Se à possível objecçâo dos Judeus de que o testemunho de uma pessoa na sua própria causa não é suficiente (cfr Dt 19,15), explica que as Suas palavras são avalizadas por quatro testemunhos: o de São João Baptista, o dos milagres, o do Pai, e o das Sagradas Escrituras do Antigo Testamento.

João Baptista tinha dado testemunho de que Jesus era o Filho de Deus (1,34). Ainda que Jesus não tivesse necessidade de recorrer ao testemunho de um homem, nem sequer ao de um grande profeta, aquele testemunho foi dado em atenção aos Judeus, para que reconhecessem o Messias. Jesus pode mostrar-lhes, além disso, um testemunho melhor que o do Baptista: os milagres que realiza, e que são, para quem os queira reconhecer com olhar limpo, sinais inequívocos do Seu poder divino, de que procede do Pai; os milagres de Jesus são, pois, testemunhos do Pai acerca do Seu Filho, que enviou ao mundo. Noutras ocasiões o Pai manifesta a divin­dade de Jesus: no Baptismo (cfr 1,31-34), na Transfiguração (cfr Mt 17,1-8) e, mais tarde, diante de toda a multidão (cfr Ioh12,28-30).

Jesus apela também para outro testemunho divino: o que se encontra nas Sagradas Escrituras. Estas falam d’Ele, mas os Judeus não são capazes de penetrar ó seu verdadeiro sentido, porque as lêem sem se deixarem iluminar por Aquele a Quem Deus enviou e em Quem se cumprem todas as profecias. «A ‘economia’ do Antigo Testamento destina­va-se sobretudo a preparar, a anunciar profeticamente (cfr Lc 24,44; Ioh 5,39; 1Pet 1,10) e a simbolizar com várias figuras (cfr 1Cor 10,11) o advento de Cristo, redentor universal, e o do reino messiânico (…). Por isso, os fiéis devem receber com devoção estes livros que exprimem o vivo sentido de Deus, nos quais se encontram sublimes doutrinas a respeito de Deus, uma sabedoria salutar a respeito da vida humana, bem como admiráveis tesouros de preces, nos quais, finalmente, está latente o mistério da nossa salvação» (Dei Verbum, n. 15).

41-47. Jesus lança à cara dos Seus ouvintes três impedi­mentos que têm para O reconhecerem como o Messias e Filho de Deus: a falta de amor a Deus, a busca da glória humana e a interpretação interessada dos textos sagrados. A defesa que Jesus fez da Sua própria actuação e das relações com o Pai poderia fazer pensar aos Seus adversários que pretendia glória humana. Porém, os testemunhos aduzidos por Jesus (o Baptista, os milagres, o Pai e as Escrituras) põem em evidência que não é Ele quem busca a Sua glória, e que os Judeus O perseguem não por amor a Deus nem por defesa da honra divina, mas por motivos que não são rectos, ou por uma visão meramente humana.

Na verdade, o Antigo Testamento leva ao conhecimento de Jesus Cristo (cfr Ioh 1,45; 2, 17.22; 5, 39.46; 12, 16.41); não obstante, os Judeus permanecem na incredulidade pelas suas disposições interiores, pois reduzem as promessas messiânicas dos livros sagrados a uma esperança nacionalista. Tais concepções, nada sobrenaturais, fecham-lhes a alma para as palavras e para as acções de Jesus, e impedem-nos de ver que n’Ele se estão a cumprir as antigas profecias (cfr 3,14-16).

15.03.2013 – Jo 7, 1-2.10.25-30

Depois disto, andava Jesus pela Galileia, pois não queria andar pela Judeia, porque os Judeus procuravam dar-Lhe a morte.

2Estava próxima a festa judaica dos Tabernáculos.

10Mas, depois de os Seus irmãos terem subido para irem à festa, subiu então Ele também, não publicamente, mas em segredo.

25Diziam então alguns dos de Jerusalém: Não é a Este que procuram dar a morte? 26Aí está Ele a falar abertamente, e nada Lhe dizem! Teriam, na verdade, os chefes reco­nhecido que Ele é o Messias? 27Mas Este sabemos donde é; o Messias, quando vier, ninguém sabe donde é. 28Entretanto Jesus, estando a ensinar no Templo, disse em voz alta: Não só Me conheceis, mas sabeis tam­bém donde Eu sou, se bem que Eu não tenha vindo de Mim mesmo; mas Aquele que Me enviou é verdadeiro. Esse que vós não conheceis. 29Eu é que O conheço, porque venho de junto d’Ele e foi Ele que Me enviou. 30Procuravam então prendê-Lo, mas ninguém Lhe deitou a mão, porque ainda não chegara a Sua hora.

Comentário

1-3. Os parentes mais próximos costumavam cha­mar-se entre os Judeus com o nome de «irmãos» (cfr as notas a Mt 12,46-47 e a Mc 6,1-3). Estes parentes de Jesus continuavam sem compreender a Sua doutrina e a Sua missão (cfr Mc 3,31); não obstante, como os milagres realizados na Galileia eram patentes (cfr Mt 15,32-39; Mc 8,1-10.22-26), sugerem-Lhe que Se manifeste publicamente em Jerusalém e em toda a Judeia. Com isso quiçá buscassem o triunfo temporal de Jesus, que podia afagar a vaidade familiar.

2. O nome desta festa evoca o tempo que os Hebreus passaram no deserto, habitando em tendas de campanha (cfr Lev 23,34-36). Durante os oito dias que durava a festa (cfr Neh 8,13-18), no começo do Outono, comemorava-se a protecção que os israelitas tinham recebido de Deus ao longo daqueles quarenta anos do Êxodo. Por coincidir com o termo das colheitas, estas festas chamavam-se também das Colheitas (cfr Ex 23,16).

10. Uma vez que não subia com a antecipação costu­mada, as primeiras caravanas que chegassem da Galileia anunciariam que Jesus não estaria presente naquela festi­vidade e, por conseguinte, os membros do Sinédrio desis­tiriam de tomar medidas contra Ele (cfr 7,1). Ao subir mais tarde, as autoridades judaicas não se atreveriam a causar-Lhe dano por temor a uma revolta popular (cfr Mt 26,5). Jesus, possivelmente em companhia dos Seus discípulos, chega a Jerusalém passando despercebido para o povo, «em se­gredo». Estando a festa já a meio, no quarto ou no quinto dia, começou a pregar no Templo (cfr 7,14).

27. Ao longo deste capítulo aparecem frequentemente as dúvidas e o desconcerto dos Judeus. Discutem entre eles se Jesus é o Messias, ou um profeta, ou um impostor (v. 12); não sabem donde Lhe vem a Sua sabedoria (v. 15), respondem-Lhe irritados (vv 19-20) e admiram-se da atitude do Sinédrio (v. 26). Não obstante, apesar dos sinais que viram (milagres, doutrina), resistem a crer que Jesus é o Messias. Possivelmente uns pensavam que era de Nazaré, filho de José e de Maria, o que não se acomodava com a ideia comum derivada do vaticínio de Isaías (Is 53,1-8), de que se desco­nheceria a origem do Messias, excepto a Sua estirpe davídica e o Seu lugar de nascimento, Belém (cfr Mt 2,5 que cita Mich 5,2; cfr Ioh 7,42). Jesus, na realidade, cumpria estas predições proféticas ainda que a maioria dos Judeus não estivessem bem informados, pois desconheciam o Seu nasci­mento virginal em Belém e a Sua ascendência davídica. Outros, pelo contrário, deviam conhecer melhor a estirpe davídica de Jesus, o Seu nascimento em Belém, etc., mas não queriam aceitar as Suas palavras, porque elas levavam con­sigo as exigências de uma conversão moral e mental a que se fechavam culpavelmente.

28-29. Jesus refere-Se com certa ironia ao conhecimento superficial que d’Ele têm aqueles judeus, baseado nas apa­rências: Ele afirma, não obstante, que procede do Pai que O enviou, a Quem só Ele conhece, precisamente por ser o Filho de Deus (cfr Ioh 1,18).

30. Os judeus entenderam que Jesus Se fazia igual a Deus e isto era considerado uma blasfêmia, que segundo a Lei devia ser castigada com a morte por lapidação (cfr Lev 24,15-16.23).

Não é a primeira vez que São João refere a hostilidade dos judeus (cfr Ioh 5,10) nem será a última (cfr Ioh 8,59; 10,3 1-33). Sublinha esta hostilidade porque assim se deu de facto e quiçá também para pôr em realce a liberdade de Jesus que, cumprindo a Vontade do Pai, Se entregará nas mãos dos Seus inimigos quando chegar a Sua «hora» (cfr Ioh 1 8,4-8). «O Senhor não faz referência à hora em que seria obrigado a morrer, mas à hora em que Se deixaria matar. Esperava o tempo em que tinha de morrer, como esperou também o tempo em que tinha de nascer» (In Ioann. Evang., 31,5).

16.03.2013 – Jo 7, 40-53

40Diziam então alguns dentre a multidão, que tinham ouvido estas palavras: Ele é na verdade o Profeta! 41Outros afirmavam: É o Messias! Outros, porém, diziam: Mas é da Galileia que vem o Messias? 42Não disse a Escritura que é da descendência de David e da povoação de Belém, de onde era David, que vem o Messias? 43Estabeleceu-se, pois, desa­cordo entre a multidão, por causa d’Ele. 44Alguns queriam prendê-Lo, mas ninguém Lhe deitou as mãos.

45Então, os guardas vieram ter com os Sumos Sacerdotes e os Fariseus, que lhes perguntaram: Porque não O trouxestes? 46Res­ponderam os guardas: Nunca ninguém falou como esse homem fala! 47Retorquiram-lhes os Fariseus: Também vós estais seduzidos? 48Porventura creu n’Ele algum dentre os chefes ou dentre os Fariseus? 49Mas essa multidão, que não conhece a Lei, são uns malditos!

50Disse-lhes Nicodemos, aquele fc}ue tinha ido anteriormente ter com Jesus e que era um deles: 5IAcaso julga a nossa Lei um homem, sem primeiro o ouvir e saber o que ele faz? 52Eles retorquiram-lhe: Também tu és da Galileia? Trata de indagar e hás-de ver que da Galileia não sai nenhum profeta. 53E foi cada qual para sua casa.

Comentário

40-43. O título «o Profeta» alude a Dt 18,18, que prediz a vinda nos últimos tempos de um profeta que todos deveriam escutar (cfr Ioh 1,21; 6,14); por sua vez, «o Cristo» («o Messias») era o título mais corrente no Antigo Testamento para designar o futuro Salvador enviado por Deus. O passo mostra uma vez mais a diversidade de opiniões acerca de Jesus. Muitos judeus ignoravam — sem se preocuparem de forma alguma por averiguar a verdade — que tinha nascido em Belém, a cidade de David, onde, segundo Miqueias (5,2) devia nascer o Messias. Tal ignorância culpável constituía neles uma desculpa para não O aceitar como o Cristo. Outros, porém, diante dos milagres de Jesus, compreendem que Ele deve ser o Messias. Também ao longo da história há diversas opiniões acerca de Jesus Cristo: alguns consideram-No exclusivamente como um homem extraordinário, sem que­rerem compreender que a Sua grandeza Lhe vem precisa­mente de ser o Filho de Deus.

46. Á verdade abriu caminho nos ânimos simples dos servidores do Sinédrio e, pelo contrário, chocou contra a obstinação dos fariseus. «Eis que os fariseus e os escribas não tiraram proveito nem ao contemplarem os milagres nem ao lerem as Escrituras; pelo contrário, os servidores, sem estas ajudas, foram captados por um só discurso, e os que foram prender Jesus voltaram presos pelo Seu poder. E não disseram: não pudemos por causa da gente; mas apregoaram a sabedoria de Cristo. Não é de admirar somente a sua prudência, porque não necessitaram de sinais, mas foram conquistados só pela doutrina; não disseram, com efeito: ‘Jamais homem algum fez tais milagres’, mas: ‘Jamais falou assim homem algum’, É de admirar também a sua con­vicção: vão aos fariseus, que se opunham a Cristo, e falam-lhes desta maneira» (Hom. sobre S. João, 9).

17.03.2013 – Jo 8, 1-11

Jesus foi para o monte das Oliveiras. 2De madrugada, apareceu outra vez no Templo, e todo o povo ia ter com Ele; sentou-Se então e pôs-Se a instruí-los.

3Entretanto, os Escribas e os Fariseus trazem-Lhe uma mulher apanhada em adul­tério e, depois de a colocarem no meio, 4dizem-Lhe: Mestre, esta mulher foi apanhada em flagrante a cometer adultério. 5Ora Moisés, na Lei, mandou-nos apedrejar tais mulheres. E Tu que dizes? 6Isto diziam eles para Lhe armarem uma cilada, a fim de terem de que O acusar. Mas Jesus, inclinando-Se, pôs-Se a escrever no chão com o dedo.

7Como persistissem em interrogá-Lo, ergueu-Se e disse-lhes: Aquele de vós que estiver sem pecado seja o primeiro a lançar-lhe uma pedra! 8E, inclinando-Se novamente, recomeçou a escrever no chão. 9Eles, porém, ao ouvirem isto, foram saindo um a um, a começar pelos mais velhos, e ficou só Jesus com a mulher, que continuava ali no meio. 10Jesus ergueu-Se e disse-lhe: Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou? 11Ela respondeu: Ninguém, Senhor. Nem Eu te condeno — volveu-lhe Jesus. — Vai e dora­vante não tornes a pecar.

Comentário

1-11. Este episódio falta em bastantes códices antigos, mas conservava-o a Vulgata quando o Magistério da Igreja definiu o Canon dos livros sagrados no Concilio de Trento. Portanto, a canonicidade e a inspiração deste texto estão fora de toda a dúvida. A Igreja utilizou-o e continua a utilizá-lo na liturgia. A recente edição da Neo-vulgata inclui-o neste mesmo lugar.

Santo Agostinho explicava já as dúvidas acerca deste passo dizendo que a grande misericórdia de Jesus manifes­tada com esta mulher parecia a alguns espíritos, exageradamente rigoristas, quê poderia dar azo a uma relaxação das exigências morais. Daqui que muitos copistas o suprimissem dos seus manuscritos (cfr De coniugiis adulterínis, 2,6).

Ao comentar o episódio da mulher adúltera, Frei Luís de Granada escreve, entre outras, esta consideração geral acerca da misericórdia de Jesus: «Tais, pois, convém que sejam, meu irmão, as tuas entranhas, tais as tuas obras e as tuas palavras, se queres ser uma formosíssima reprodução deste Senhor. E por isto não se contenta o Apóstolo com mandar-nos que sejamos misericordiosos, mas, diz, que nos vistamos, como filhos de Deus, de entranhas de misericórdia (cfr Col 3,12). Vê, pois, como estaria o mundo se todos os homens trouxessem este vestido.

«Tudo isto se disse para que, por estas obras tão assina­ladas, se conheça algo daquele grande abismo de bondade e de misericórdia do nosso Salvador, a qual nestas obras tão claramente resplandece, pois (…) não podemos nesta vida conhecer Deus por Si, mas pelas Suas obras (…). Mas aqui também convém avisar que nunca de tal maneira nos transportemos em contemplar a divina misericórdia, que não nos recordemos da justiça; nem de tal maneira contem­plemos a justiça, que não nos recordemos da misericórdia; para que nem a esperança careça de temor, nem o temor da esperança» (Vida de Jesus Cristo, 13, 4°).

1. Sabemos que Nosso Senhor Se retirou várias vezes durante a noite a orar no monte das Oliveiras (cfr Ioh 18,2; Lc 22,39), situado a Este de Jerusalém. O vale da torrente Cédron (Ioh 18,1) separa-o da colina onde estava edificado o Templo. Era desde tempos antigos lugar de oração: ali foi David adorar a Deus no duro transe da revolta de Absalão (2Sam 15,32) e ali o profeta Ezequiel contemplou a glória de Yahwéh que entrava no novo Templo (Ez 43,1-4). Ao pé do monte encontrava-se um horto, cujo nome era Getsêmani, ou «lugar de azeite», uma quinta fechada com plantação de oliveiras. A tradição cristã rodeou o lugar de respeito e conservou-o como sítio de oração. Em fins do século IV construiu-se uma igreja, sobre cujos restos se edificou a actual. Perduram ainda algumas poucas oliveiras milenárias que podem muito bem ser rebentos dos tempos do Senhor.

6. A pergunta dos escribas e fariseus esconde uma insídia: como o Senhor Se tinha manifestado repetidas vezes compreensivo com os que eram considerados pecadores, recorrem agora a Ele com este caso para ver se também Se mostra indulgente, e assim poderem acusá-Lo de não respei­tar um dos preceitos terminantes da Lei (cfr Lev 20,10).

7. A resposta de Jesus alude ao modo de praticar a lapidação entre os Judeus: as testemunhas do delito tinham que atirar as primeiras pedras, depois seguia-se a comuni­dade, como para apagar colectivamente o opróbrio que recaía sobre o povo (cfr Dt 17,7). A questão, que lhe propõem de um ponto de vista legal, Jesus eleva-a ao plano moral — que sustenta e justifica o legal — interpelando a cons­ciência de cada um. Não viola a Lei, diz Santo Agostinho, e ao mesmo tempo não quer que se perca o que Ele estava a buscar, porque tinha vindo para salvar o que estava perdido: «Vede que resposta tão cheia de justiça, de mansidão e de verdade. Oh verdadeira resposta da Sabedoria! Ouviste-o: Cumpra-se a Lei, que seja apedrejada a adúltera. Mas, como podem cumprir a Lei e castigar aquela mulher uns peca­dores? Veja-se cada um a si mesmo, entre no seu interior e ponha-se em presença do tribunal do seu coração e da sua consciência, e ver-se-á obrigado a confessar-se pecador. Sofra o castigo aquela pecadora, porém não por mão de pecadores; execute-se a Lei, mas não pelos seus transgres­sores» (In Ioann. Evang., 33,5).

11. «Apenas dois ficam ali: a miserável e a Misericórdia. E o Senhor, depois de ter cravado o dardo da Sua justiça no coração dos judeus, nem Se digna olhar sequer como vão desaparecendo, mas afasta deles a Sua vista e volta outra vez a escrever com o dedo na terra. Quando se afastaram todos e ficou só a mulher, levantou os olhos e fixou-os nela. Já ouvimos a voz da justiça; ouçamos agora também a voz da mansidão. Que aterrada deve ter ficado aquela mulher quando ouviu dizer ao Senhor: ‘Aquele de vós que estiver sem pecado, que atire primeiro a pedra’, porque temia ser castigada por Aquele em que não podia achar-se pecado algum. Mas Aquele que tinha afastado de Si os Seus inimigos com as palavras da justiça, olhando-a com olhos de miseri­córdia, pergunta-lhe: Ninguém te condenou? Responde ela: Ninguém, Senhor. E Ele: Nem Eu te condeno; Eu próprio, de quem talvez tenhas temido ser castigada, porque em Mim não achaste pecado algum. ‘Também Eu não te condeno’. Senhor, que é isto? Favoreces Tu os pecadores? Claro que não. Vê o que se segue: Vai e desde agora não peques mais. Portanto, o Senhor deu sentença de condenação contra o pecado, mas não contra a mulher» (In Ioann. Evang., 33,5-6). Jesus, que é o Justo, não condena; ao contrário, aqueles, que são pecadores, ditam sentença de morte. A misericórdia infinita de Deus há-de mover-nos a ter sempre compaixão daqueles que cometem pecado, porque também nós somos pecadores e necessitamos do perdão de Deus.

18.03.2013 – Jo 8, 12-20

12Jesus falou-lhes novamente, nestes termos: Eu sou a Luz do mundo. Quem Me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida. 13Disseram-Lhe então os Fariseus: Tu dás testemunho de Ti mesmo: o Teu testemunho não é verídico! 14Respondeu-lhes Jesus: Ainda que Eu dê testemunho de Mim mesmo, é verídico o Meu testemunho, porque sei donde vim e para onde vou! Vós, porém, não sabeis donde venho nem para onde vou. 15Vós julgais segundo a carne, Eu não julgo nin­guém. 16E, ainda que Eu julgue, é verdadeiro o Meu juízo, porque não sou Eu só, sou Eu e o Pai, que Me enviou. 17Ora, na vossa Lei, está escrito que é verídico o testemunho de duas pessoas. 18Sou Eu a dar testemunho de Mim mesmo, e dá testemunho de Mim o Pai, que Me enviou. 19Perguntaram-Lhe então: Onde está Teu Pai? Jesus respondeu: Nem a Mim Me conheceis, nem a Meu Pai. Se Me conhecêsseis, também conheceríeis a Meu Pai.

20Jesus disse estas palavras no tesouro, quando estava a ensinar no Templo. E nin­guém O prendeu, porque ainda não chegara a Sua hora.

Comentário

12. Começa agora outra disputa entre Jesus e os fari­seus. O cenário é o recinto do Templo, mais exactamente o pátio chamado «átrio das mulheres», que precedia o dos israelitas e o dos sacerdotes, onde estava o altar dos holocaustos (cfr a nota a Lc 1.21).

A ocasião é a mesma festa dos Tabernáculos (cfr Ioh 7,2), na qual, durante a primeira noite, se iluminava intensamente o átrio das mulheres com quatro enormes lâmpadas que davam certa claridade por toda Jerusalém. Com isso recordava-se a nuvem luminosa, sinal da presença de Deus, que guiou os Israelitas pelo deserto à sua saída do Egipto. Foi provavelmente nesta festa que Jesus falou de Si mesmo como «a Luz». Por outro lado, a imagem da luz é frequente no Antigo Testamento para designar o Messias: o profeta Isaías predisse que uma grande luz iluminaria os povos que estavam mergulhados em trevas, começando pelas tribos do Norte (Is 9,1-6; cfr Mt 4,15-16); que o Messias havia de ser não só o Rei de Israel, mas luz das gentes (Is 42,6; 49,6); e David falava de Deus como luz que ilumina a alma do justo e lhe dá fortaleza (Ps 27,1). Esta imagem era, pois, muito conhecida no tempo de Jesus Cristo: empregam-na Zacarias (Lc 1,78) e o velho Simeão (Lc 2,30-32) para manifestar a sua alegria ao ver que se estavam a cumprir as profecias antigas.

O Senhor aplica a Si mesmo esta imagem sob um duplo aspecto: é luz que ilumina a inteligência por ser a plenitude da Revelação divina (cfr Ioh 1,9.18); e é também luz que ilumina o interior do homem para que possa aceitar essa Revelação e fazê-la vida sua (cfr Ioh 1,4-5). Jesus pede, portanto, que O sigam para chegarem a ser filhos da luz (cfr Ioh 12,36), embora saiba que muitos O rejeitarão para que não sejam descobertas as suas obras más (cfr Ioh 3,20).

«Vede, pois, a conformidade perfeita entre as palavras do Senhor e o que diz o Salmo: ‘Em ti está a fonte da vida, e com a tua luz veremos a luz’ (Ps 36,10). O salmista une a luz com a fonte da vida, e o Senhor fala de uma ‘luz de vida’. Quando temos sede, buscamos uma fonte, quando estamos às escuras, buscamos uma luz (…). Com Deus é diferente: é a luz e é a fonte. Aquele que te ilumina para que vejas, esse mesmo é o manancial para que bebas» (In Ioann. Evang., 34,6).

13-18. Os fariseus procuram desvirtuar a força dos argumentos de Jesus: segundo eles apoia-Se apenas sobre a Sua própria palavra, e ninguém dá testemunho válido em seu próprio favor; portanto, o Seu testemunho não tem força alguma, pensam eles.

Numa circunstância parecida (cfr Ioh 5,31 ss.), Jesus tinha aduzido um quádruplo testemunho em Seu favor: a pregação de João Baptista, os milagres que Ele mesmo realizava, as palavras do Pai no momento do Baptismo no Jordão, e a Sagrada Escritura. Aqui Jesus afirma o valor do Seu teste­munho (v. 14) porque está unido ao do Pai. Isto equivale a dizer que o Seu testemunho é mais que um testemunho humano. «Fala para dizer que vem de Deus, que é Deus, e que é Filho de Deus, mas não o diz abertamente, porque une sempre a humildade com a profundidade. Deus merece que se tenha fé n’Ele» (Hom. sobre S. João, 51).

19. Os fariseus, que resistiam a admitir a origem divina de Jesus, pedem agora uma prova que confirme a veracidade das Suas palavras. A pergunta que fazem a Jesus é insidiosa e mal-intencionada, pois eles pensam que não lhes pode mostrar o Pai.

Conhecer Jesus, ou seja, crer n’Ele e aceitar o mistério da Sua divindade, é conhecer também o Pai. Ioh 12,44-45 repete o mesmo ensinamento com outras palavras. Neste mesmo sentido dirá o Senhor a Filipe em tom de censura: «Há tanto tempo que estou convosco e não me conhecestes? Aquele que Me viu a Mim viu o Pai» (Ioh 14,9). Jesus é a manifestação visível de Deus invisível, a revelação máxima e definitiva de Deus aos homens (cfr Heb 1,1-3). Jesus Cristo «com toda a Sua presença e manifestação da Sua pessoa, com palavras e obras, sinais e milagres, e, sobretudo com a Sua morte e gloriosa ressurreição, enfim, com o envio do Espírito de verdade, completa totalmente e confirma com o testemunho divino a revelação, a saber, que Deus está connosco para nos libertar das trevas do pecado e da morte e para nos ressuscitar para a vida eterna» (Dei Verbum, n. 4).

20. «Tesouro» ou «gazofilácio»: Era como a caixa das esmolas das nossas igrejas, e achava-se situado no átrio das mulheres. Para mais pormenores veja-se a nota a Lc 21,1-4.

19.03.2013 – Mt 1, 16.18-21.24

16Jacob gerou a José, o esposo de Maria da qual nasceu Jesus, que se chama Cristo..

18Ora o nascimento de Jesus foi assim: Estando Maria, sua Mãe, desposada com José, antes de morarem juntos, notou-se que tinha concebido por virtude do Espírito Santo. 19José, seu esposo, como era justo e não a queria infamar, resolveu deixá-la secretamente. 20Mas, andando ele com este pensamento, apareceu-lhe, em sonhos, um anjo do Senhor, que lhe disse:

— José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou, é obra do Espírito Santo. 2lEla dará à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus, porque Ele salvará o seu povo dos seus pecados.

24E José, despertando do sono, fez como lhe ordenara o anjo do Senhor.

Comentário

16. Entre os Hebreus as genealogias faziam-se por via masculina. José, como esposo de Maria, era o pai legal de Jesus. A figura do pai legal é equivalente quanto a direitos e obrigações à do verdadeiro pai. Neste facto se fundamenta solidamente a doutrina e a devoção ao Santo Patriarca como padroeiro universal da Igreja, visto que foi escolhido para desempenhar uma função muito singular no plano divino da nossa salvação: pela paternidade legal de São José é Jesus Cristo Messias descendente de David.

Do costume ordinário de celebrar os desposórios entre os membros de uma mesma estirpe, deduz-se que Maria pertencia à casa de David. Neste sentido falam também antigos Padres da Igreja. Assim Santo Inácio de Antioquia, Santo Ireneu, São Justino e Tertuliano, os quais fundamentam o seu testemunho numa tradição oral constante.

É de assinalar que São Mateus, para indicar o nascimento de Jesus, usa uma fórmula completamente diversa da aplicada aos demais personagens da genealogia. Com estas palavras o texto ensina positivamente a conceição virginal de Jesus, sem intervenção de varão.

18. São Mateus narra aqui como foi a conceição de Cristo (cfr Lc 1, 25-38): «(…) verdadeiramente celebramos e veneramos por Mãe de Deus (Maria), por ter dado à luz uma pessoa que é juntamente Deus e homem (…)» (Catecismo Romano, l, 4, 7).

Segundo as disposições da Lei de Moisés, aproxima­damente um ano antes do casamento realizavam-se os desposórios. Estes tinham praticamente já o valor jurídico do matrimônio. O casamento propriamente dito consistia, entre outras cerimônias, na condução solene e festiva da esposa para casa do esposo (cfr Dt 20,7).

Já desde os desposórios era preciso o libelo de repúdio, no caso de ruptura das relações.

Todo o relato do nascimento de Jesus ensina através do cumprimento da profecia de Isaías 7, 14 (que citará expres­samente nos versículos 22-23): 1.° Jesus é descendente de David pela via legal de José; 2.° Maria é a Virgem que dá à luz segundo a profecia; 3.° o caracter miraculoso da con­ceição do Menino sem intervenção de varão.

19. «José era efectivamente um homem corrente, em quem Deus confiou para operar coisas grandes. Soube viver, tal como o Senhor queria, todos e cada um dos aconteci­mentos que compuseram a sua vida. Por isso, a Escritura Santa louva José, afirmando que era justo. E, na linguagem hebraica, justo quer dizer piedoso, servidor irrepreensível de Deus, cumpridor da Vontade divina (cfr Gen 7,1; 23-32; Ez 18,5 ss; Prv 12, 10); outras vezes significa bom e caritativo com o próximo (cfr Tob 7,6; 9,6). Numa palavra, o justo é o que ama a Deus e demonstra esse amor, cumprindo os Seus mandamentos e orientando toda a sua vida ao serviço dos irmãos, os outros homens» (Cristo que passa, n° 40).

José considerava santa a sua esposa não obstante os sinais da sua maternidade. Por isso se encontrava perante uma situação inexplicável para ele. Procurando precisamente actuar de acordo com a vontade de Deus sentia-se obrigado a repudiá-la, mas, com o fim de evitar a infâmia pública de Maria, decide deixá-la privadamente.

É admirável o silêncio de Maria. A sua entrega perfeita a Deus leva-a inclusivamente a não defender a sua honra e a sua inocência. Prefere que caia sobre Ela a suspeita e a infâmia, a manifestar o profundo mistério da Graça. Perante um facto inexplicável por razões humanas, abandona-se confiadamente no amor e providência de Deus.

Devemos contemplar a magnitude da prova a que Deus submeteu estas duas almas santas: José e Maria. Não nos pode causar estranheza que também nós sejamos submetidos por vezes, ao longo da vida, a provas duras; nelas temos de confiar em Deus e permanecer-Lhe fiéis, a exemplo de José e Maria.

20. Deus ilumina oportunamente o homem que actua com rectidão e confia no poder e sabedoria divina, perante situações que superam a compreensão da razão humana. O anjo recorda neste momento a José, ao chamar-lhe filho de David, que é o elo providencial que une Jesus com a estirpe de David, segundo a profecia messiânica de Natan (cfr 2 Sam 7, 12). Corno diz São João Crisóstomo: «Antes de mais recorda-lhe David, de quem tinha de vir Cristo, e não lhe consente estar perturbado desde o momento que, pelo nome do mais glorioso dos seus antepassados, lhe traz à memória a promessa feita a toda a sua linhagem » (Hom. sobre S. Mateus, 4).

«Jesus Cristo, único Senhor, nosso, Filho de Deus, quando tomou por nós carne humana no ventre da Virgem, foi con­cebido não por obra de varão, como os outros homens, mas, sobre toda a ordem natural, por virtude do Espírito Santo; de tal maneira que a mesma pessoa (do Verbo), permanecendo Deus, como o era desde a eternidade, se fizesse homem, o qual não era antes» (Catecismo Romano, 1,4,1).

21. Segundo a raiz hebraica, o nome de Jesus significa «salvador». Depois da Virgem Santa Maria, José é o primeiro homem que recebe esta declaração divina do facto da salvação, que já se estava a realizar.

«Jesus é o nome exclusivo do que é Deus e homem, o qual significa salvador, imposto a Cristo não casualmente nem por ditame ou disposição humana, mas por conselho e mandato de Deus.

(…) Os nomes profetizados (… o Admirável, o Conselheiro, Deus, o Forte, o Pai do século vindouro, o Príncipe da paz, cfr Is 9, 6), que se deviam dar por disposição divina ao Filho de Deus, resumem-se no nome de Jesus, porque, enquanto os outros se referem apenas sob algum aspecto à salvação que nos devia dar, este compendiou em si mesmo a realidade e a causa da salvação de todos os homens» (Catecismo Romano I, 3, 5 e 6).

20.03.2013 – Jo 8, 31-42

31Dizia então Jesus aos Judeus que n’Ele tinham acreditado: Se permanecerdes na Minha palavra, sereis verdadeiramente Meus discípulos, 32conhecereis a verdade, e a ver­dade libertar-vos-á. 33Eles responderam-Lhe: Nós somos a descendência de Abraão e nunca fomos escravos de ninguém; como é que Tu dizes: «ficareis livres»? 34Retorquiu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: Todo aquele que comete o pecado é escravo do pecado. 35Ora o escravo não fica na casa para sempre; o filho é que fica para sempre. 36Portanto, se o Filho vos libertar, sereis realmente livres. 37Eu sei que sois a descendência de Abraão, mas vós procurais matar-Me, porque a Minha palavra não tem cabimento em vós.

38Eu digo o que vi junto do Pai, e vós fazeis o que ouvistes ao vosso pai. 39Retorquiram-Lhe eles: O nosso pai é Abraão! Se fósseis filhos de Abraão—disse-lhes Jesus—faríeis as obras de Abraão. 40Mas vós procurais matar-Me, a Mim que vos disse a verdade que ouvi a Deus! Isso não fez Abraão! 41Vós fazeis as obras do vosso pai. Disseram-Lhe eles: Nós não nascemos da prostituição; só temos um Pai, que é Deus! 42Disse-lhes Jesus: Se fosse Deus o vosso Pai, vós amar-Me-íeis, pois de Deus é que Eu saí e venho. É que Eu não vim de Mim próprio, mas foi Ele que Me enviou.

Comentário

30-32. Aos judeus que então creem em Jesus pede-lhes muito mais que a fé momentânea produzida por um entu­siasmo superficial; trata-se de ser verdadeiros discípulos, de modo que as palavras de Jesus informem as suas vidas para sempre. O fruto dessa fé profunda será o conhecimento da verdade e uma vida autenticamente livre.

O conhecimento da verdade de que fala Cristo não é só intelectual, mas antes o amadurecimento na alma da semente da Revelação divina. Esta culmina nas palavras de Cristo, e é uma verdadeira comunicação de vida sobrenatural (cfr Ioh 5,24): aquele que crê em Jesus, e através d’Ele no Pai, recebe o maravilhoso dom da vida eterna. Conhecer a verdade, em última análise, é conhecer o próprio Cristo, Deus encarnado para a nossa salvação, sentir que o Deus inacessível Se fez homem, nosso Amigo, nossa vida.

Esse conhecimento é o único que realmente nos torna livres, porque nos tira do estado de afastamento de Deus, do pecado, e, portanto, da escravidão do demônio e de todas as ataduras da nossa natureza caída, e nos introduz na senda da amizade divina, da graça, do Reino de Deus. Por isso esta liberdade não só é luz que nos marca o caminho, mas graça, força que nos dá a possibilidade de o percorrer apesar das nossas limitações.

«Jesus Cristo vai ao encontro do homem de todas as épocas, também do da nossa época, com as mesmas palavras que disse alguma vez: ‘conhecereis a verdade, e a verdade tornar-vos-á livres’ (Ioh 8,32). Estas palavras encerram em si uma exigência fundamental e, ao mesmo tempo, uma adver­tência: a exigência de uma relação honesta para com a verdade, como condição de uma autêntica liberdade; e a advertência, ademais, para que seja evitada qualquer ver­dade aparente, toda a liberdade superficial e unilateral, toda a liberdade que não compreenda cabalmente a verdade sobre o homem e sobre o mundo. Ainda hoje, depois de dois mil anos, Cristo continua a aparecer-nos como Aquele que traz ao homem a liberdade baseada na verdade, como Aquele que liberta o homem daquilo que limita, diminui e como que despedaça essa liberdade nas próprias raízes, na alma do homem, no seu coração e na sua consciência. Que confirmação estupenda disto mesmo deram e não cessam de dar aqueles que, graças a Cristo e em Cristo, alcançaram a verdadeira liberdade e a manifestaram até em condições de constrangimento exterior!» (Redemptor hominis, n. 12).

«O próprio Cristo une, de modo particular, a libertação com o conhecimento da verdade: ‘Conhecereis a verdade, e a verdade tornar-vos-á livres’ (Ioh 8,32). Esta frase atesta sobretudo o íntimo significado da liberdade com que Cristo nos liberta. Libertação significa transformação interior do homem, consequência do conhecimento da verdade. A transformação é, portanto, um processo espiritual no qual o homem progride ‘na justiça e na santidade verdadeiras’ (Eph 4,24) (…). A verdade tem importância não só para o crescimento da consciência humana, tornando mais pro­funda deste modo a vida interior do homem; a verdade tem também um significado e uma força profética; ela constitui o conteúdo do testemunho e exige um testemunho. Encon­tramos esta força profética da verdade nos ensinamentos de Cristo: Como Profeta, como testemunha da verdade, Cristo opõe-Se repetidamente à não-verdade; fá-lo com grande força e decisão, e a miúde não duvida em censurar o falso» (João Paulo II, Audiência geral de 21-11-1979).

São Tomás de Aquino explica o profundo conteúdo destas palavras do Senhor do seguinte modo: «Libertar neste passo não se refere a tirar qualquer angústia (…), mas propriamente significa tornar livre, e isto de três modos: primeiro, a verdade da doutrina tornar-nos-á livres do erro da falsidade (…); segundo, a verdade da graça livrará da escravidão do pecado: ‘A lei do espírito de vida que está em Cristo Jesus libertou-me da lei do pecado e da morte’ (Rom 8,2); terceiro, a verdade da eternidade em Cristo Jesus livrar-nos-á da corrupção (cfr Rom 8,21)» (Comentário sobre S. João, ad loc.)

«A verdade libertar-vos-á»: «Oue verdade é esta que inicia e consuma o caminho da liberdade em toda a nossa vida? Resumi-la-ei com a alegria e com a certeza que nascem da relação de Deus com as Suas criaturas: saber que saímos das mãos de Deus, que somos objecto da predilecção da Santíssima Trindade, que somos filhos de tão grande Pai. Eu peço ao meu Senhor que nos decidamos a ter isso sempre em consideração, a saboreá-lo dia-a-dia; assim actuaremos como pessoas livres. Não o esqueçais: quem não sabe que é filho de Deus desconhece a sua verdade mais íntima e carece, na sua actuação, do domínio e do senhorio próprios dos que amam o Senhor acima de todas as coisas» (Amigos de Deus, n° 26).

33-34. Durante séculos o povo de Israel tinha estado sujeito a outras nações (Egipto, Babilônia, Pérsia…), e naquele momento encontrava-se sob a dominação de Roma. Por isso estes judeus entenderam que Jesus Se referia a uma escravidão ou domínio político, ao qual tinham estado submetidos de facto, embora nunca o tivessem aceitado. Além disso, por pertencer ao povo escolhido por Deus, consideravam-se livres dos erros e aberrações morais dos povos pagãos.

Eles pensavam que a verdadeira liberdade estava baseada no facto de pertencer ao povo eleito. O Senhor responde que ser da linhagem de Abraão não basta, mas que a verdadeira liberdade consiste em não ser escravos do pecado. Tanto judeus como pagãos estavam submetidos à escravidão do pecado original e dos pecados pessoais (cfr Rom 5,12; 6,20 e 8,2). Só Cristo, o Filho de Deus, podia libertar desta triste situação (cfr Gal 4,21-51); mas os judeus que O escutavam não entenderam a obra redentora que Cristo estava a realizar e que culminaria com a Sua Morte e Ressurreição.

«O Salvador — comenta Santo Agostinho — manifestou com estas palavras, não que ficaríamos livres dos povos dominadores, mas do demônio; não do cativeiro do corpo, mas da malícia da alma» (Sermo 48).

35-36. As palavras escravo e filho evocam os dois filhos de Abraão: Ismael, nascido da escrava (Agar), que não terá parte na herança; e Isaac, nascido da livre (Sara), que será herdeiro das promessas de Deus (cfr Gen 21,10-12; Gal 4,28-31). Não basta a descendência carnal de Abraão para herdar as promessas de Deus e salvar-se, mas é preciso identificar-se, pela fé e pela caridade, com Jesus Cristo, o verdadeiro e próprio Filho do Pai, o único que pode tornar-nos filhos de Deus e deste modo trazer-nos a verdadeira liberdade (cfr Rom 8,21; Gal 4,31). Cristo dá «poder para ser filhos de Deus, aos que creem no Seu nome, que não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem do querer do homem, mas de Deus» (Ioh 1,12-13). Assim, o homem que se identifica com Cristo torna-se filho de Deus e obtém a liberdade própria dos filhos.

«A liberdade adquire o seu sentido autêntico quando se exerce ao serviço da verdade que resgata, quando se gasta a procurar o amor infinito de Deus, que nos desata de todas as escravidões. Aumentam cada dia mais os meus desejos de anunciar em altos brados esta insondável riqueza do cristão: a liberdade da glória dos filhos de Deus (Rom 8, 21) (…). Donde nos vem esta liberdade? De Cristo, Nosso Senhor. Esta é a liberdade com que Ele nos redimiu (cfr Gal 4,31). Por isso ensina: se o Filho vos libertar, sereis verdadeiramente livres (Ioh 8,36). Nós, os cristãos, não temos de pedir emprestado a ninguém o verdadeiro sentido deste dom, porque a única liberdade que salva o homem é a cristã (Amigos de Deus, nos 27 e 35).

37-41. O Senhor responde à objecção dos judeus: efectivamente são filhos de Abraão, mas só em sentido natural, segundo a carne, circunstância carecida já de valor, pois o que agora conta é a aceitação de Jesus como Enviado do Pai. Espiritualmente os interlocutores de Jesus estão muito longe de terem a verdadeira filiação de Abraão: este alegrou-se ao ver o Messias (cfr Ioh 8,56); pela sua fé foi justificado (cfr Rom 4,1 ss.), e a sua fé moveu-o a levar uma conduta consequente (cfr Iac 2,21-24); por isto chegou a alcançar o gozo da eterna bem-aventurança (cfr Mt 8,11; Lc 16,24). Pelo contrário, aqueles judeus «eram seus descen­dentes carnais, mas tinham degenerado não imitando a fé daquele de quem eram filhos» (In Ioann. Evang., 42,1). Os que vivem da fé — diz São Paulo — são os verdadeiros filhos de Abraão e junto com ele serão abençoados por Deus (cfr Gal 3,7-9). Mais ainda, os que agora discutem com o Senhor não só rejeitam a Sua doutrina, mas as suas obras denunciam outra filiação radicalmente diferente: «Vós fazeis as obras de vosso pai», expressão que contém de forma velada a acusação de serem filhos do diabo (cfr v. 44).

A falsa segurança que sentiam os judeus por descen­derem de Abraão pode ter o seu paralelismo num cristão que se contentasse com ser baptizado e com fazer algumas práticas religiosas, abandonando as exigências que traz consigo a fé em Jesus Cristo.

21.03.2013 – Jo 8, 51-59

51Em verdade, em verdade vos digo: Se alguém guardar a Minha palavra, nunca mais experimentará a morte. 52Disseram-Lhe os Judeus: Agora sabemos nós que estás possesso do Demônio. Abraão morreu, os profetas também, e Tu dizes: «Se alguém guardar a Minha palavra, nunca mais experi­mentará a morte». 53Serás Tu maior que o nosso pai Abraão, que morreu? E os profetas morreram também! Quem pretendes ser? 54Jesus replicou: Se Eu Me glorificar a Mim mesmo, nada será a Minha glória. É Meu Pai que Me glorifica, Ele de quem dizeis: «É o nosso Deus». 55Vós, porém, não O conheceis; Eu é que O conheço. E se dissesse que O não conhecia, seria, como vós, mentiroso. Mas Eu conheço-O e guardo a Sua palavra. 56O vosso pai Abraão exultou com a idéia de ver o Meu dia; viu-o e rejubilou. 57Disseram-Lhe então os Judeus: Ainda não tens cin­qüenta anos e viste Abraão? 58Retorquiu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: Antes de Abraão existir, Eu sou! 59Então apanharam pedras para Lhas atirarem. Mas Jesus ocultou-Se e saiu do Templo.

Comentário

51-53. «Nunca mais experimentará a morte»: O Senhor promete a vida eterna àqueles que acolherem o Seu ensina­mento e permanecerem fiéis a ele.

O pecado, como ensina o quarto Evangelho, é morte da alma; e a graça santificante, vida (cfr Ioh 1,4.13; 3,15.16.36; etc.). Pela graça temos o começo da vida eterna, o penhor da Glória que alcançaremos para além desta vida terrena e que é a Vida verdadeira. Os judeus, obcecados na sua hostilidade, não querem escutar as palavras do Senhor e por isso não O entendem.

55. O conhecimento de que fala o Senhor implica algo mais que um mero saber ou compreender. Deste conhecimento já se fala no Antigo Testamento, onde o verbo «conhe­cer» denota amor, fidelidade, entrega generosa. O amor a Deus é consequência do conhecimento certo que d’Ele tenhamos e, ao mesmo tempo, conhecemos melhor a Deus à medida que O amamos mais.

Jesus, cuja Humanidade Santíssima estava unida inti­mamente — ainda que sem confusão — com a Sua Divin­dade na única Pessoa do Verbo, não podia deixar de afirmar o Seu conhecimento singular e inefável do Pai. Mas esta linguagem verdadeira de Jesus tornava-se absolutamente incompreensível para aqueles que se fechavam à fé, até ao ponto de O considerarem como blasfemo (cfr v. 59).

56. Jesus apresenta-Se como o cumprimento das espe­ranças dos patriarcas do Antigo Testamento. Eles mantiveram-se fiéis anelando ver o dia da Redenção. Referindo-se à fé dos patriarcas exclama São Paulo: «Todos eles morreram na fé, sem terem recebido os bens que lhes tinham sido prometidos, mas contemplando-os de longe e saudando-os, e confessando ao mesmo tempo ser peregrinos e hóspedes na terra» (Heb 11,1-2.13). Entre eles sobressai Abraão, nosso pai na fé (cfr Gal 3,7), que recebe a promessa de ser pai de um povo numeroso, o povo escolhido, de que nascerá o Messias.

O futuro cumprimento das promessas messiânicas foi já para Abraão causa de imensa alegria: «Abraão, nosso pai, tendo a certeza de que se cumpriria a antiga promessa e esperando contra toda a esperança, recebeu no nascimento do seu filho Isaac as primícias proféticas da alegria messiâ­nica. Tal alegria encontra-se como que transfigurada através de uma prova de morte, quando o seu filho único lhe é devolvido vivo, prefigurando a Ressurreição do Filho Único de Deus que havia de vir, prometido para um sacrifício em que se realizaria a Redenção. Abraão exultou ao pensar que veria o dia de Jesus Cristo, o dia da Salvação: ‘viu-o e alegrou-se’ (Gaudete in Domino, II).

Jesus move-Se num plano superior ao dos patriarcas, pois estes só viram profeticamente, «de longe», o dia de Cristo, isto é, o acontecimento da Redenção, enquanto Ele é que leva a cabo.

58. A resposta de Jesus à observação céptica dos judeus encerra uma revelação da Sua divindade. Ao dizer «antes de Abraão existir. Eu sou», o Senhor está a referir-Se à Sua eternidade, própria da natureza divina. Por isso exclama Santo Agostinho: «Reconhecei o Criador, distingui a cria­tura. Quem falava era descendente de Abraão, mas para que Abraão fosse feito, antes de Abraão Ele era» (In Ioann. Evang., 43,17).

Os Santos Padres evocam, em relação com as palavras de Cristo, a solene teofania do Sinai: «Eu sou o que sou» (Ex 3,14), e também a distinção que São João faz no prólogo do seu Evangelho entre um mundo que «foi feito» e o Verbo que «era» desde toda a eternidade (cfr Ioh 1,1-3). A expressão «Eu sou», empregada por Jesus de maneira absoluta, equivale, pois, a afirmar a Sua eternidade e a Sua divindade. Cfr a nota a Ioh 8, 21-24.

22.03.2013 – Jo 10, 31-42

31De novo os Judeus trouxeram pedras para O apedrejarem. 32Jesus dirigiu-lhes a palavra: Tenho-vos apresentado muitas boas obras devidas ao Pai. Por qual dessas obras Me quereis apedrejar? 33Replicaram-Lhe os Judeus: Não é por uma boa obra que Te queremos apedrejar, é por blasfêmia; e porque Tu, sendo homem, Te fazes Deus. 34Jesus respondeu-lhes: Não está escrito na vossa Lei: Eu disse: Vós sois deuses? 35Se ela chamou deuses àqueles a quem se dirigiu a palavra de Deus — e a Escritura não pode abolir-se — 36de Mim, a quem o Pai consagrou e enviou ao mundo, vós dizeis: «estás a blasfemar!» por Eu ter dito: «sou Filho de Deus»? 37Se não faço as obras de Meu Pai, não acrediteis em Mim. 38Mas, se as faço, embora não queirais acreditar em Mim, dai crédito às obras, para que reconheçais e fiqueis a saber que o Pai está em Mim e Eu estou no Pai.

39Procuravam então novamente prendê-Lo, mas Ele escapou-Se-lhes das mãos.

40Depois retirou-Se novamente para o outro lado do Jordão, para o lugar onde João tinha estado primeiro a baptizar, e por lá Se conservou. 41Muitos foram ter com Ele e diziam: João, é certo, não fez qualquer milagre, mas tudo quanto disse acerca d’Este era verdade. 42E muitos, ali, acreditaram n’Ele.

Comentário

31-33. Os judeus compreendem que Jesus afirma ser Deus, mas interpretam as Suas palavras como uma blas­fêmia. Chamaram-Lhe blasfemo quando perdoou os pecados do paralítico (Mt 9,1-8) e acusando-O de. blasfemo condená-Lo-ão também quando confessar solenemente a Sua di­vindade diante do Sinédrio (Mt 26,63-65). Nosso Senhor manifestou, pois, a Sua natureza divina; mas aqueles ouvin­tes rejeitaram esta revelação do mistério de Deus Encar­nado, fechando-se diante das provas que Jesus lhes oferecia. Por isso O acusam de que, sendo homem, Se faz Deus. A fé apoia-se em argumentos razoáveis — milagres e profe­cias — para crer que Jesus é verdadeiro homem e verdadeiro Deus, ainda que o nosso entendimento limitado nos impeça de compreender como isto pode ser. Na verdade, o Senhor, para reafirmar a Sua divindade, recorre a dois argumentos que os Seus adversários não poderão rebater: o testemunho da Sagrada Escritura — profecias — e o das Suas próprias obras — milagres —.

34-36. O Evangelho mostrou-nos já várias respostas do Senhor a objecções dos judeus. Agora Jesus recorre com paciência a uma argumentação que para eles tinha forca decisiva: a autoridade da Sagrada Escritura. Cita o Salmo 82 em que Deus censura uns juízes pela sua actuacão injusta, apesar de lhes ter recordado: «Sois deuses, todos vós, filhos do Altíssimo» (Ps 82,6). Se, segundo este Salmo, os filhos de Israel são chamados deuses e filhos de Deus, com quanta maior razão há-de ser chamado Deus Aquele que foi santificado e enviado por Deus. Com efeito, a natureza humana de Cristo ao ser assumida pelo Verbo fica santificada plenamente e vem ao mundo para santificar os homens. «Os Santos Padres constantemente proclamam nada estar remido que não tivesse sido primeiro assumido por Cristo. Ora Ele assumiu por inteiro a natureza humana tal qual ela existe em nós, pobres e miseráveis, rejeitando dela apenas o pecado. De Si mesmo disse Cristo que era Aquele a quem o Pai santificou e enviou ao mundo» (Ad gentes, n. 3).

Com o uso que faz Jesus da Sagrada Escritura (cfr Mt 4,4.7.10; Lc 4,1.17, etc.) ensina-nos o caracter divino desta. Por isto a Igreja crê e afirma que «as coisas reveladas por Deus, contidas e manifestadas na Sagrada Escritura, foram escritas por inspiração do Espírito Santo. Com efeito, a santa Madre Igreja, segundo a fé apostólica, considera como santos e canónicos os livros inteiros do Antigo e do Novo Testamento com todas as suas partes, porque, escritos por inspiração do Espírito Santo (Ioh 20,31; 2Tim 3,16; 2Pet 1,19-21; 3,15-16), têm Deus por autor, e como tais foram confiados à própria Igreja (…). E assim, como tudo quanto afirmam os autores inspirados ou hagiógrafos deve ser tido como afirmado pelo Espírito Santo, por isso mesmo se deve acreditar que os livros da Escritura ensinam com certeza, fielmente e sem erro a verdade que Deus, para nossa salva­ção, quis que fosse consignada nas sagradas Letras» (Dei Verbum, n. 11).

37-38. As obras a que Se refere o Senhor são os Seus milagres, em que se manifesta o poder de Deus. Jesus apresenta as Suas palavras e as Suas obras como uma unidade, em que os milagres confirmam as Suas palavras e estas explicam o sentido dos milagres. Por isso, quando afirma que é o Filho de Deus, confirma esta revelação com os milagres que realiza. Assim, pois, se ninguém pode negar o facto dos milagres, justo é reconhecer a veracidade das Suas palavras.

41-42. Em contraste com a oposição de uns (cfr Ioh 10, 20.31.39), está a adesão de outros, que O vão buscar ao lugar para onde Se retirou. A actividade preparatória de São João Baptista continua a dar os seus frutos: aqueles que tinham aceitado a pregação do Baptista agora buscam Cristo, e creem ao verem que n’Ele se cumprem as palavras do Precursor quando anunciava que Jesus era o Messias, o Filho de Deus (Ioh 1,34).

O labor que se faz em nome do Senhor nunca é inútil. «Assim, meus queridos irmãos, mantei-vos firmes, inamovíveis, progredindo sempre na obra do Senhor, sabendo que o nosso trabalho não é vão no Senhor» (l Cor 15,58). Assim como a palavra e o exemplo do Baptista serviram para que mais tarde muitos cressem em Jesus, o exemplo apostólico dos cristãos nunca será de balde, ainda que às vezes não se veja imediatamente o resultado. «Semear. — Saiu o semea­dor… — Semeia aos punhados, alma de apóstolo. — O vento da graça arrastará a tua semente, se o sulco onde caiu não for digno… Semeia, e está certo de que a semente vingará e dará o seu fruto» (Caminho, n° 794).

23.03.2013 – Jo 11, 45-56

45Então, muitos dos Judeus que tinham vindo ter com Maria, ao verem o que Ele fizera, acreditaram n’Ele.

46Alguns deles, porém, foram ter com os Fariseus e disseram-lhes o que Jesus havia feito. 47Os Sumos Sacerdotes e os Fariseus reuniram conselho. Que havemos de fazer— diziam eles — uma vez que este homem realiza tantos milagres? 48Se O deixarmos assim, todos acreditarão n’Ele, e os Romanos virão destruir-nos o Lugar e a Nação.

49Mas um deles, Caifás, sendo Sumo Sacer­dote nesse ano, disse-lhes: Vós não sabeis nada 50nem discorras que vos interessa que morra um só homem pelo povo e não pereça a Nação inteira! 51Isto, porém, não o disse por si próprio, mas sendo Sumo Sacerdote nesse ano, profetizou que Jesus ia morrer pela Nação, 52e não só pela Nação, mas também para trazer à unidade os filhos de Deus que andavam dispersos. 53A partir, pois, desse dia, ficaram decididos a dar-Lhe a morte. 54Jesus, por isso, já não andava abertamente entre os Judeus, mas retirou-Se dali para uma região junto do deserto, para uma cidade chamada Efraim, e por lá Se conservou com os discípulos.

55Estava próxima a Páscoa dos Judeus, e muitos subiram da província a Jerusalém, antes da Páscoa, para se purificarem. 56Procuravam eles a Jesus e diziam entre si, estacionando no Templo: Que vos parece? Que Ele não virá à festa? 57Ora os Sumos Sacerdotes e os Fariseus tinham dado ordem para que, se alguém soubesse onde Ele estava, O denunciasse, a fim de O prenderem.

Comentário

45-48. Uma vez mais Jesus, tal como o velho Simeão tinha predito, aparece como sinal de contradição (cfr Lc 2,34; Ioh 7,12.31.40; 9,16; etc.): diante do milagre da ressur­reição de Lázaro uns creem n’Ele (v. 45) e outros denun­ciam-No aos Seus inimigos (vv 46-47). Estas atitudes di­versas confirmam o dito na parábola do rico avarento: «Também não se convencerão mesmo que um dos mortos ressuscite» (Lc 16,31).

«O Lugar»: Com esta expressão, ou outras semelhantes («o lugar», «este lugar»), designava-se o Templo, lugar sagrado por excelência e, por extensão, toda a Cidade Santa, Jerusalém (cfr 2 Mach 5,19; Act 6,14).

49-53. Caifás exerceu o sumo pontificado do ano 18 ao 36 d. C. (cfr Começo do Ministério Público, p. 80). Caifás é o instrumento de Deus para profetizar a Morte redentora do Salvador, pois uma das funções do sumo sacerdote era consultar Deus para guiar o povo (cfr Ex 28,30; Num 27,21; 1Sam 23,9; 30,7-8). Neste caso as palavras de Caifás têm um duplo sentido: um, pretendido por ele mesmo, é a sua intenção de dar morte a Cristo com o pretexto de garantir a tranquilidade e sobrevivência política de Israel; outro, que­rido pelo Espírito Santo, é o anúncio da fundação do novo Israel, a Igreja, mediante a Morte de Cristo na Cruz; Caifás não captou este sentido. Desta maneira o último pontífice da Antiga Aliança profetiza a investidura do Sumo Sacerdote da Nova, selada com o Seu próprio Sangue.

Quando o Evangelista afirma que Cristo ia morrer «para reunir os filhos de Deus que estavam dispersos» (v. 52), refere-se ao que o Senhor tinha dito acerca dos efeitos salvíficos da Sua morte (cfr Ioh 10,14-15). Já os profetas tinham anunciado a futura congregação dos Israelitas fiéis a Deus para formar o novo povo de Israel (cfr Is 43,5; ler 23,3-5; Ez 34,23; 37,21-24). Estes vaticínios cumpriram-se com a Morte de Cristo, que, ao ser exaltado na Cruz, atrai e reúne o verdadeiro Povo de Deus, formado por todos os crentes, sejam ou não Israelitas. O Concilio Vaticano II apoia-se neste passo ao falar da universalidade da Igreja: «Ao novo Povo de Deus todos os homens são chamados. Por isso, este Povo, permanecendo uno e único, deve estender-se a todo o mundo e por todos os séculos/para se cumprir o desígnio da vontade de Deus, que, no princípio, criou uma só natureza humana e resolveu juntar em unidade todos os Seus filhos que estavam dispersos (cfr Ioh 11,52). Foi para isto que Deus enviou o Seu Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas; (cfr Heb 1,2), para ser mestre, rei e sacerdote universal, cabeça do novo e universal Povo dos filhos de Deus» (Lumen gentium, n. 13).

No século IV, São João Crisóstomo explicava aos seus fiéis a catolicidade da Igreja com estas palavras: «Que quer dizer ‘para reunir os que estavam próximo’ e ‘os que esta­vam dispersos’? Que os fez um só corpo. Quem reside em Roma sabe que os cristãos da índia são seus membros» (Hom. sobre S. João, 65,1).

54. Ainda não tinha chegado a hora da Sua morte; por isso Jesus actua com prudência, pondo os meios humanos para não precipitar os acontecimentos.

55. Sendo a Páscoa a festa mais solene dos Judeus, os fiéis chegavam uns dias antes a Jerusalém para se prepararem para a sua celebração por meio de abluções, jejuns e oferendas: práticas que não eram tanto exigidas pela lei moisaica como pela piedade do povo. Os próprios ritos da Páscoa, com a imolação do cordeiro, serviam de purificação e de expiação pelos pecados. A Páscoa dos Judeus era figura da Páscoa cristã, pois, como nos ensina o Apóstolo São Paulo, o nosso cordeiro pascal é Cristo (cfr 1Cor 5,7), o qual Se ofereceu de uma vez para sempre ao eterno Pai na Cruz para expiar pelos nossos pecados. Paulo VI recordava esta verdade gozosa da nossa fé: «Sacrificou-Se? Mas, será que existe ainda uma religião que se exprima em sacrifícios? Não, os sacrifícios da antiga lei e das religiões pagas já não têm razão de ser; mas de um sacrifício, um sacrifício válido, único e perene, sem dúvida que tem sempre necessidade o mundo para a redenção do pecado humano; (…) e é o sacrifício de Cristo sobre a cruz, o que apaga o pecado do mundo; sacrifício que a Eucaristia actualiza no tempo, dando aos homens desta terra a possibilidade de participar nele» (Alocução de 17-VI-1976).

Se os Judeus se preparavam com tantos ritos e abluções para celebrar a Páscoa, que não devemos fazer nós para celebrar ou participar na Santa Missa e receber Cristo — nossa Páscoa — na Eucaristia! «Quando na Terra se recebem pessoas muito importantes, há luzes, música, trajes de gala. Para albergar Cristo na nossa alma, como devemos pre­parar-nos? Já teremos por acaso pensado como nos compor­taríamos se só se pudesse comungar uma vez na vida?» (Cristo que passa n° 91).

24.03.2013 – Lc 22, 14-23.56

14Quando chegou a hora, pôs-Se à mesa; e com Ele os Apóstolos. 15Disse-lhes então: Eu Tenho ardentemente desejado comer convosco esta páscoa, antes de padecer, 16pois vos digo que já não a comerei até ela ter pleno cumprimento no Reino de Deus. 17o­mando uma taça, deu graças e disse: Tomai e reparti entre vós, 18pois vos digo que não beberei doravante do produto da videira até que venha o Reino de Deus. 19Tomou então um pão e, depois de dar graças, partiu-o e deu-lho, dizendo: Isto é o Meu corpo, que vai ser dado por vós; fazei isto em Minha memó­ria. 20Depois de jantar, fez o mesmo com o cálice, dizendo: Este cálice é a nova Aliança no Meu sangue, que por vós se vai derramar.

21Entretanto, a mão de quem Me vai entregar está à mesa comigo. 22Parte o Filho do homem, como está determinado; contudo, ai daquele por meio de quem vai ser entre­gue! 23Eles começaram a discutir entre si qual deles seria então o que iria fazer isso.

56Ora uma criada, ao vê-lo sentado ao lume, fitou nele o olhar e disse: Esse também estava com Ele!

 

Comentário

14. Começa a Última Ceia, em que o Senhor vai instituir a Santíssima Eucaristia, mistério de fé e de amor: «É, pois, necessário que nos aproximemos deste mistério com humilde reverência, não buscando razões humanas que devem estar caladas, mas aderindo firmemente à Revelação divina» (Mysterium fidei).

15. São João, o discípulo amado, sintetiza com uma frase os sentimentos que dominavam a alma de Jesus no momento da Ultima Ceia: «Sabendo Jesus que tinha chegado a Sua hora de passar deste mundo para o Pai, como amava os Seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim» (Ioh 13,1). O Senhor exprime o desejo ardente de passar as horas que precedam a Sua morte com as pessoas que mais ama na terra e, como sucede aos que vão partir, profere no momento de Se despedir as palavras mais carinhosas (cfr Enarratio in Evangelium Ioannis, ad loc.). O Seu amor não se limita aos Apóstolos, mas pensa em todos os homens. Sabe que aquela Ceia pascal é o começo da Sua Paixão. Vai celebrar antecipadamente o Sacrifício do Novo Testamento que tanto bene­fício havia de trazer à humanidade.

O cumprimento da Vontade do Pai obriga Jesus a separar-Se dos Seus, mas o Seu amor, que O impele a permanecer com eles, move-O a instituir a Eucaristia, na qual fica realmente presente. «Lembremo-nos — escreve Mons. Escrivá de Balaguer — da experiência tão humana da despedida de duas pessoas muito amigas. Desejariam ficar sempre juntas, mas o dever — ou seja o que for — obriga-as a afastarem-se uma da outra. Não podem, portanto, conti­nuar uma junto da outra, como seria do seu gosto. Nestas ocasiões, o amor humano, que por maior que seja, é sempre limitado, costuma recorrer aos símbolos. As pessoas que se despedem trocam lembranças entre si, talvez uma foto­grafia onde se escreve uma dedicatória tão calorosa, que até admira que não arda o papel. Mas não podem ir além disso, porque o poder das criaturas não vai tão longe como o seu querer.

«Ora, o que não está na nossa mão, consegue-o o Senhor. Jesus Cristo, perfeito Deus e perfeito Homem, não deixa um símbolo, mas uma realidade. Fica Ele mesmo. Embora vá para o Pai, permanece entre os homens. Não nos deixará um simples presente que nos faça evocar ‘a Sua memória, alguma imagem que tenda a apagar-se com o tempo, como uma fotografia que a pouco e pouco se vai esvaindo e amarelecendo até perder o sentido para quem não interveio naquele momento amoroso. Sob as espécies do pão e do vinho está Ele, realmente presente, com o Seu Corpo, o Seu Sangue, a Sua Alma e a Sua Divindade» (Cristo que passa, n° 83).

16-20. Este texto contém as verdades fundamentais da fé acerca do sublime mistério da Eucaristia: 1) Instituição deste Sacramento e presença real de Jesus Cristo. 2) Insti­tuição do sacerdócio cristão. 3) A Eucaristia, Sacrifício do Novo Testamento ou Santa Missa (cfr a nota a Mt 26,26-29). O relato de São Lucas coincide substancialmente com o do primeiro Evangelho, mas enriquece-o com a descrição de alguns pormenores concretos da Última Ceia (vid. a nota ao v. 17).

Acerca da presença real, a Encíclica Mysterium fidei de Paulo VI afirma: «Apoiado nesta fé da Igreja, o Concilio de Trento confessa ‘aberta e simplesmente que no fortalecedor sacramento da Eucaristia, depois da consagração do pão e do vinho, se contém verdadeira, real e substancialmente, Nosso Senhor Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, sob a aparência daquelas coisas sensíveis’ (De SS. Eucharistia, cap. 1). Portanto, o nosso Salvador está presente segundo a Sua humanidade, não só à direita do Pai, conforme ao modo natural de existir, mas ao mesmo tempo também no Sacramento da Eucaristia segundo um modo de existir que, ainda que mal possamos exprimir com palavras, podemos, contudo, alcançar com a razão ilustrada pela fé e devemos crer firmissimamente que é possível para Deus». As almas cristãs, contemplando este inefável mistério, sempre perceberam a grandeza deste Sacramento, que deriva da realidade da presença de Cristo. O Sacramento da Eucaristia não é somente sinal eficaz de uma presença amorosa de Cristo e da Sua íntima união com os fiéis, mas nele Cristo está presente de modo corporal e substancial, como Deus e como homem. Indubitavelmente, para penetrar neste mistério faz falta a fé, porque «não oferece dificuldade alguma que Cristo esteja no Sacramento como sinal: mas que esteja verdadeiramente no Sacramento como no Céu, eis aí a grandíssima dificuldade; crer isto, pois, é muito meritório» (In IV Sent., d. 10, q. l, a. 1). Este mistério não se pode perceber com os sentidos, mas só com a fé, a qual se apoia nas palavras do Salvador, que, sendo a Verdade (cfr Ioh 14,6), não pode nem enganar-Se nem enganar-nos. Por isso, num hino que a tradição atribui a São Tomás, o Adoro te, devote, o povo cristão canta: «A vista, o tacto e o gosto, em Ti se enganam; mas só ouvindo se crê com segurança. Creio o que disse o Filho de Deus, pois nada há mais verdadeiro que esta Palavra de verdade».

«Mas para que ninguém entenda erroneamente este modo de presença, que supera as leis da natureza e constitui no seu gênero o maior dos milagres, é necessário seguir com docilidade a voz da Igreja docente e orante. Ora bem, esta voz, que é um eco perene da voz de Cristo, assegura-nos que Cristo se torna presente neste Sacramento pela conversão de toda a substância do pão no Seu Corpo, e de toda á substância do vinho no Seu Sangue; conversão admirável e singular a que a Igreja justamente e com propriedade chamatransubstanciação» (Mysterium fidei).

O Senhor, depois de instituir a Eucaristia, manda aos Apóstolos que perpetuem o que Ele fez, e a Igreja entendeu sempre que com as palavras «fazei isto em Minha memória» Cristo constituiu os Apóstolos e os seus sucessores em sacerdotes da Nova Aliança (cfr De SS. Missae sacrifício, cap. 1; Lumen gentium, n 26; Mysterium fidei), para que renovassem o Sacrifício do Calvário de maneira incruenta na celebração da Santa Missa.

Com efeito, o que está no centro de toda a actuação de Jesus é o Sacrifício cruento que ofereceu na Cruz: Sacrifício da Nova Aliança, figurado nos sacrifícios da Antiga Lei, na oferenda de Abel (Gen 4,4), de Abraão (Gen 15,10; 22,13), de Melquisedec (Gen 14,18-19; Heb 7,1-28). A Última Ceia é o mesmo Sacrifício do Calvário realizado antecipadamente por meio das palavras da Consagração. Igualmente a Santa Missa renova esse Sacrifício que foi oferecido uma só vez no altar da Cruz: uma só é a vítima e um só o sacerdote, Cristo. Diferem unicamente pelo modo de se oferecer. «Nós cremos que a Missa que é celebrada pelo sacerdote in persona Chrísti, em virtude do poder recebido pelo sacramento da Ordem, e que é oferecida por ele em nome de Cristo e dos membros do Seu Corpo Místico, é realmente o Sacrifício do Calvário que se torna sacramentalmente presente nos nossos altares» (Credo do Povo de Deus, n° 24).

16. As palavras «já não a comerei (esta páscoa) até ela ter pleno cumprimento no Reino de Deus», assim como as do v. 18 «não beberei doravante do produto da videira até que venha o Reino de Deus» não querem indicar que Jesus Cristo volte a comer o Cordeiro pascal uma vez instaurado o Seu Reino, mas simplesmente indicam que aquela era a última vez que o Senhor celebrava a páscoa judaica. Enquanto anuncia a Nova Páscoa, já iminente e que durará até à Sua segunda vinda, Jesus substitui de uma vez para sempre o antigo rito com o Seu Sacrifício Redentor, que assinala o começo do Reino.

17. A ceia pascal desenvolvia-se segundo um rito minu­cioso. Antes de comer o cordeiro, a pessoa de mais autoridade explicava, a instância do mais jovem dos assistentes, o sentido religioso do acto que estavam a realizar. A seguir tomavam-se os alimentos, intercalando hinos e Salmos. Finalmente terminava-se com uma solene oração de acção de graças. Ao longo da ceia, em correspondência das fases principais, os comensais tomavam quatro taças de vinho misturado com água. São Lucas menciona duas destas taças, a segunda das quais foi a que o Senhor consagrou.

19. Note-se o rotundo da frase do Senhor: não diz aqui está o Meu corpo, nem isto é o símbolo do Meu corpo, mas isto é o Meu corpo; isto é, este pão já não é pão mas o Meu corpo. «Alguns, não dando suficiente importância a estas palavras — afirma São Tomás —, julgaram que p corpo e o sangue de Cristo não estavam neste Sacramento mais do que como num símbolo. Isto deve ser rejeitado como herético, já que é contrário às palavras de Cristo» (Suma Teológica, III, q. 75. a. 1). Reforçam também o sentido realista destas palavras de Jesus as pronunciadas na promessa da Euca­ristia: «Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Se alguém comer deste pão viverá eternamente; e o pão que Eu darei é a Minha carne para a vida do mundo (…). Quem comer a Minha carne e beber o Meu sangue tem vida eterna e Eu o ressuscitarei no último dia» (Ioh 6,51.54).

«Fazei isto em Minha memória»: O Magistério solene da Igreja ensina-nos o sentido e o alcance preciso destas palavras: «Se alguém disser que com as palavras: Fazei isto em Minha memória, Cristo não instituiu sacerdotes os Seus Apóstolos, ou que não lhes ordenou que eles e os outros sacerdotes oferecessem o Seu corpo e o Seu sangue, seja anátema» (De SS. Missae sacrifício, can 2).

25.03.2013 – Jo 12, 1-11

Seis dias antes da Páscoa, veio Jesus a Betânia, onde se encontrava Lázaro, que Jesus havia ressuscitado dos mortos.

2Ofereceram-Lhe lá um jantar. Marta andava a servir, e Lázaro era um dos que estavam com Ele à mesa. 3Então Maria, tomando uma libra de perfume de nardo genuíno, de alto preço, ungiu os pés de Jesus e enxugou-Lhos com os seus cabelos. E a casa encheu-se com o cheiro do perfume. 4Disse Judas Iscariotes, um dos discípulos, aquele que O ia entregar: 5Por que motivo se não vendeu este perfume por trezentos denários, para se dar aos pobres? 6Disse isto, não por se importar com os pobres, mas porque era ladrão e porque, andando com a bolsa, tirava o que nela se metia. 7Respondeu Jesus: Deixa-a lá; foi para reservar o perfume para o dia da Minha sepultura; 8pois que pobres, sempre os haveis de ter convosco, mas a Mim nem sempre Me tereis.

9Soube então um grande número de Judeus que Ele ali Se encontrava e vieram, não só por causa de Jesus, mas também para verem Lázaro, que Ele tinha ressuscitado dos mortos, 10Ora os Sumos Sacerdotes haviam deliberado dar a morte a Lázaro também, 11porque muitos dos Judeus, por causa dele, se afastavam e acreditavam em Jesus.

Comentário

1. Jesus visita de novo os Seus amigos de Betânia. Comove ver como o Senhor tem esta amizade, tão divina e tão humana, que se manifesta num convívio frequente.

«E verdade que chamo sempre Betânia ao nosso Sacrário… — Faz-te amigo dos amigos do Mestre: Lázaro, Marta, Maria. — E depois já me não perguntarás por que chamo Betânia ao nosso Sacrário» (Caminho, n° 322).

2-3. Parece que houve duas unções do Senhor em ocasiões diferentes e por motivos diversos: a primeira, no princípio do Seu ministério público, na Galileia, relatada por São Lucas (7,36-50); a segunda, no fim da Sua vida, em Betânia, narrada aqui por São João, e que sem dúvida é a mesma que relatam São Mateus (26,6-13) e São Marcos (14,3-9). Tanto pelo tempo em que sucederam, como pelas circunstâncias par­ticulares, ambas as unções se distinguem com clareza: no primeiro caso tratou-se de uma manifestação de arrepen­dimento a que se seguiu o perdão; no segundo caso foi uma mostra delicada de amor, que Jesus interpretou, além disso, como antecipação da Sua unção para a sepultura (v. 7).

Ainda que as unções de que foi objecto Jesus tenham tido uma relevância muito especial, devem ser consideradas dentro dos usos da hospitalidade entre os orientais (veja-se a nota a Mc 14,3-9).

A libra era uma medida de peso equivalente a uns tre­zentos gramas: o denário, como indicámos noutras ocasiões, era a paga diária de um operário agrícola; portanto, o valor do frasco de perfume equivaleria ao salário de um ano completo.

«Que prova tão clara de magnanimidade o excesso de Maria! Judas lamenta que se tenha desperdiçado um perfume que valia — com a sua avareza fez muito bem as contas — pelo menos trezentos dinheiros.

«O verdadeiro desprendimento leva-nos a ser muito gene­rosos com Deus e com os nossos irmãos (…). Não sejais mesquinhos nem tacanhos com quem tão generosamente Se excedeu connosco, até Se entregar totalmente, sem medida. Pensai quanto vos custa — também no domínio econômico — ser cristão! Mas, sobretudo, não esqueçais que Deus ama quem dá com alegria (2 Cor 3, 7-8)» (Amigos de Deus, n° 126).

4-6. Por este passo e por Ioh 13,29 sabemos que Judas era o que administrava o dinheiro. Com pequenos roubos — não daria para mais a exígua bolsa de Jesus e dos Doze — tinham-se ido preparando em Judas as disposições que contribuíram para a traição final; esta queixa em relação à generosidade da mulher é uma hipocrisia. «Com frequência os servidores de Satanás se disfarçam de servidores da justiça (cfr 2Cor 11,14-15). Por isso (Judas) ocultou a sua malícia sob capa de piedade» (Comentário sobre S. João, ad loc.).

7-8. Além de louvar o gesto magnânimo de Maria, o Senhor anuncia veladamente a proximidade da Sua morte, e até se vislumbra que será tão inesperada que mal haverá tempo para embalsamar o Seu corpo tal como costumavam fazê-lo os Judeus (Lc 23,56). Jesus não nega o valor da esmola que tantas vezes recomendou (cfr Lc 11,41; 12,33), nem a preocupação pelos pobres (cfr Mt 25,40), mas descobre a hipocrisia daqueles que, como Judas, aduzem falsamente motivos nobres para não dar a Deus a honra devida (ver também as notas a Mt 26,8-11; Mc 14,3-9).

9-11. A notícia da ressurreição de Lázaro teve grande eco entre a gente da Judeia e os que subiam a Jerusalém pela Páscoa; muitos creram em Jesus (Ioh 11,45), outros procura­vam-No (Ioh 11,56) quiçá mais por curiosidade (Ioh 12,9) que por fé. Seguir a Cristo exige de cada um de nós muito mais que um entusiasmo superficial e passageiro. Recordemo-nos daqueles «que, quando ouvem a palavra, naquele momento a recebem com alegria, contudo não têm raiz em si mesmos, mas são inconstantes; e depois, ao vir uma tribulação ou perseguição por causa da palavra, escandalizam-se logo» (Mc 4,16-17).

26.03.2013 – Jo 13, 21-33.36-38

21Dito isto, perturbou-Se Jesus interiormente e asseverou : Em verdade, em verdade vos digo: Um de vós há-de entregar-Me. 22Os discípulos olhavam uns para os outros, sem saberem a quem Se referia. 23Ora um dos discípulos, aquele que Jesus amava, estava à mesa junto do seio de Jesus. 24Então Simão Pedro faz-lhe sinal e diz-lhe: Pergunta lá de quem é que fala. 25Ele, inclinando-se sem mais sobre o peito de Jesus, pergunta-Lhe: Quem é, Senhor? 26Jesus responde: É aquele a quem Eu der o pedaço de pão que vou ensopar. E, depois de ensopar o pedaço de pão, toma-o e entrega-o a Judas, filho de Simão Iscariotes. 27Nessa altura, depois do pedaço de pão, entrou nele Satanás. Diz-lhe então Jesus: O que tens a fazer, fá-lo sem demora. 28Isto, porém, não soube nenhum dos convivas por que lho disse, 29pois alguns, por Judas andar com a bolsa, pensavam que Jesus lhe dizia: Vai comprar aquilo de que precisamos para a festa; ou então que desse alguma coisa aos pobres. 30Tendo, pois, tomado o pedaço de pão, saiu imediatamente. E era noite…

31Depois de ele sair, diz Jesus: Agora é que foi glorificado o Filho do homem e Deus foi n’Ele glorificado. 32Uma vez que Deus foi n’Ele glorificado, também Deus O há-de glorificar em Si mesmo e glorificá-Lo-á sem demora.

33«Filhinhos, ainda estou um pouco convosco. Haveis de procurar-Me e, assim como disse aos Judeus: «Vós não podeis vir para onde Eu vou», também vo-lo digo agora.

36Diz-Lhe Simão Pedro: Para onde vais, Senhor? Para onde Eu vou — respondeu-lhe Jesus — não podes tu seguir-Me por agora; seguir-Me-ás depois. 37Diz-Lhe Pedro: Senhor, por que motivo não posso agora seguir-Te? Eu darei a minha vida por Ti! 38Darás a tua vida por Mim? Responde Jesus. — Em ver­dade, em verdade te digo: Não cantará o galo sem tu Me haveres negado por três vezes!

Comentário

21. A dor de Cristo é proporcionada à gravidade da ofensa. Judas era um dos escolhidos por Jesus para ser Apóstolo: durante três anos tinha tido uma convivência familiar e íntima com Ele, tinha-O seguido para toda a parte, tinha visto os Seus milagres, ouvido a Sua doutrina divina e experimentado a ternura do Seu coração… E depois de tudo isto, no momento decisivo, Judas não só abandona o Mestre mas atraiçoa-O e vende-O. A traição de um íntimo é muito mais dolorosa e cruel que a de um estranho, porque supõe uma falta de lealdade. Também a vida espiritual do cristão é verdadeira amizade com Cristo; por isso assenta sobre a lealdade, à honradez e a fidelidade à palavra dada.

Judas tinha decidido entregar Jesus e pôs-se de acordo cornos príncipes dos sacerdotes (cfr Mt 26,14; Mc 14,10-11; Lc 22,3-6). A tentação, consumada já no coração de Judas, vinha-se preparando desde há tempos, como vemos na unção de Betânia quando protestou contra o gesto de amor de Maria; São João comenta então que o fez não por amor aos pobres mas porque era ladrão (cfr Ioh 12,6).

23. Naquele tempo, nas ocasiões solenes costumavam comer recostados sobre uma espécie de divão, chamado triclínio. Apoiavam-se sobre o lado esquerdo para comer com a mão direita. Deste modo era fácil reclinar-se naquele que estava à esquerda e falar de forma confidencial. O que lemos neste versículo é um pormenor que indica a intimidade e confiança que o Mestre e o discípulo amado tinham entre si (cfr Ioh 19,27; 20,2; 21,23), modelo do amor de Jesus por todos os Seus verdadeiros discípulos, e destes pelo Mestre.

26-27. O bocado que lhe oferece Jesus é mostra de amizade e, portanto, convite a emendar as suas perversas maquinações. Judas, porém, desperdiça esta oportunidade. «Bom é o que recebeu — comenta Santo Agostinho —, mas recebeu-o para a sua perdição, porque aquele que era mau recebeu com má disposição o que era bom» (In Joann. Evang., 61,6). A entrada de Satanás indica que desde esse momento Judas se abandona completamente à tentação diabólica.

29. «Todos estes pormenores foram conservados para nos dizer: se alguém vos ultraja, não vos indigneis. Pensai no culpável e chorai a sua violência natural. Aquele que lesa o bem de outro, o caluniador, que interesses fere primeiro? Os seus próprios, sem dúvida (…). Jesus Cristo enche dos Seus benefícios Judas o traidor, lava os seus pés, repreende-o sem acrimónia, censura-o com discrição, procura ganhar o seu coração, honra-o até comer com ele, até o abraçar; e inclusivamente quando Judas não recapacita, Jesus Cristo não cessa no Seu bom empenho» (Hom. sobre S. João, 71,4).

30. A indicação de que « era noite » não é só uma simples referência cronológica, mas alude às trevas como imagem do pecado, do poder tenebroso que naquele instante iniciava a Sua hora (cfr Lc 22,53). O contraste entre luz e trevas, oposição do mal ao bem, é muito frequente na Bíblia, especialmente no quarto Evangelho, onde, já desde o Prólogo, nos é dito que Cristo é a Luz verdadeira que as trevas não receberam (cfr Ioh 1,5).

31-32. Esta glorificação refere-se, sobretudo à glória que Cristo receberá a partir da Sua exaltação na Cruz (Ioh 3,14; 12,32). São João sublinha que a morte de Cristo é o começo do Seu triunfo; tanto é assim que a própria crucifixão poderia considerar-se como o primeiro passo da subida para o Pai. Ao mesmo tempo é glorificação do Pai, pois Cristo, aceitando voluntariamente a morte por amor, como acto supremo de obediência à Vontade divina, realiza o maior sacrifício com que o homem pode dar glória a Deus. O Pai corresponderá a esta glorificação que Cristo Lhe tributa glorificando-O a Ele, como Filho do Homem, isto é, na Sua Santíssima Humanidade, através da Ressurreição e exalta­ção à Sua direita. Desta forma a glória que o Filho dá ao Pai é ao mesmo tempo glória para o Filho.

Assim também o discípulo de Cristo encontrará o seu maior motivo de glória na identificação com a atitude obe­diente do Mestre. São Paulo indica-o claramente ao dizer: «Longe de mim gloriar-me a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo» (Gal 6,14).

33. A partir deste versículo o Evangelista relata o que costuma chamar-se o discurso da Ceia. Nele podem distinguir-se três partes. Na primeira, o Senhor começa por pro­clamar o Mandamento Novo (vv 33-35) e anuncia as negações de Pedro (w, 36-38). Explica-lhes depois que a Sua Morte vai ser o trânsito para o Pai (cap. 14), com Quem é um por ser Deus (vv 1-14). Também lhes anuncia que depois da Sua Ressurreição lhes enviará o Espírito Santo, que os guiará ensinando-lhes e recordando-lhes tudo o que lhes tinha dito (vv 15-31).

A segunda parte do discurso está contida nos capítulos 15 e 16. Jesus Cristo promete que aqueles que crerem terão uma nova vida de união com Ele, tão íntima como a que têm as varas com a videira (15,1-8). Para conseguir essa união é necessário praticar o Mandamento Novo do Senhor (vv 9-18). Previne-os das contradições que terão de sofrer, e anima-os com a promessa do Espírito Santo, que os defenderá e conso­lará (vv 18-27). A acção do Paráclito ou Consolador con­duzi-los-á eficazmente ao cumprimento da missão que Jesus lhes confiou (16,1-15). Fruto da presença do Espírito Santo será a plenitude do gozo (vv 16-33).

A terceira parte (cap. 17) recolhe a oração sacerdotal de Jesus, em que roga ao Pai pela Sua glorificação através da Cruz (vv 1-5). Pede também pelos Seus discípulos (vv. 6-19) e por todos os que por meio deles crerão n’Ele, para que, permanecendo no mundo sem serem do mundo, esteja neles o amor de Deus e deem testemunho de que Cristo é o enviado do Pai (vv. 20-26).

36-38. Uma vez mais Pedro fala ao seu Mestre com simplicidade e sincera disposição de O seguir até à morte. Mas ainda não estava preparado. O Senhor, comenta Santo Agostinho, «estabelece aqui uma dilação; não destrói a esperança, mas confirma-a dizendo ‘seguir-Me-ás mais tarde’. Para que te apressas, Pedro? Ainda não te tinha fortalecido a pedra com a dureza da sua entranha: não te desequilibres agora com a tua presunção. Agora não podes seguir-Me, mas não desesperes, depois fá-lo-ás» (In Ioann. Evang., 66,1). Com efeito, nesses momentos o entusiasmo de Pedro é ar­dente, mas pouco firme. Mais tarde adquirirá a fortaleza que se apoia na humildade. Então, quando não se considerar digno de morrer como o Mestre, morrerá numa cruz, de cabeça para baixo, cravando na terra de Roma essa pedra sólida que continua a viver nos que lhe sucedem e que é o fundamento sobre o qual se edifica, indefectível, a Igreja. As negações de Pedro, sinal da sua debilidade, foram amplamente compensadas pelo seu profundo arrependi­mento. «Que cada um tome exemplo de contrição e se caiu não desespere, mas confie sempre em que pode tornar-se digno do perdão» (S. Beda, In Ioann. Evang. expositio, ad loc.).

27.03.2013 – Mt 26, 14-25

14Então um dos doze, chamado Judas Iscariotes, foi ter com os Príncipes dos sacer­dotes 15e disse-lhes: Que me quereis dar para eu vo-Lo entregar? E eles deram-lhe em paga trinta moedas de prata. 16E desde então buscava uma ocasião oportuna para O en­tregar.

17No primeiro dia dos ázimos, aproximaram-se de Jesus os discípulos e disseram-Lhe: Onde queres que Te façamos os prepa­rativos para comer a Páscoa? 18E Ele disse: Ide à cidade, a casa de um tal e dizei-lhe: «O Mestre manda dizer: O Meu tempo está próximo: quero celebrar a Páscoa com os Meus discípulos em tua casa». 19Fizeram os discípulos como o Senhor lhes ordenara e prepararam a Páscoa.

20Ao anoitecer, estava Jesus à mesa com os doze; 21e durante a ceia disse: Em verdade vos digo que um de vós Me há-de entregar. 22 Entristeceram-se eles profundamente e ca­da um começou a perguntar-Lhe: Porventu­ra sou eu, Senhor? 23Ele respondeu: O que mete comigo a mão no prato, esse Me há-de entregar. 24O Filho do homem vai, conforme está escrito d’Ele; mas ai daquele por quem o Filho do homem vai ser entregue. Melhor lhe fora a esse homem não ter nascido. 25Tomou aqui a palavra Judas, o que O traíra, e disse: Porventura sou eu, Rabi? E Ele respondeu: Tu o disseste.

Comentário

15. Desconcerta e põe de sobreaviso pensar como Judas Iscariotes chegou a vender quem ele tinha considerado como Messias e de quem tinha recebido o chamamento para o ministério apostólico. Trinta ciclos ou moedas de prata era o preço de um escravo (cfr Ex 21, 32), a mesma quantia pela qual Judas vendeu o Mestre.

17. Ázimos são os pães sem fermento que deviam comer-se durante sete dias, em recordação do pão sem fermentar que os Israelitas tiveram de tomar apressadamente ao sair do Egipto (cfr Ex 12, 34). No tempo de Jesus a ceia de Páscoa celebrava-se no primeiro dia da semana de Ázimos.

18. Embora a expressão indique uma pessoa, cujo nome não se diz, é de supor que o Senhor o tenha designado concretamente. Em qualquer caso, sabemos pelos outros evangelistas (Mc 14, 13 Lc 22, 10) que Jesus deu indicações suficientes para que os discípulos pudessem encontrar a casa.

22. Embora não tivessem sucedido ainda os aconteci­mentos gloriosos da Páscoa, que dariam aos Apóstolos um conhecimento superior sobre Jesus, contudo, no seu convívio com o Senhor e pela graça divina, que já tinham vindo a receber (cfr Mt 16, 17), os Apóstolos, ao longo do ministério público, tinham robustecido e aprofundado a sua fé em Jesus (cfr Ioh 2,11; 6, 68-69). Neste momento estão persuadidos de que o Senhor conhece as próprias disposições interiores deles e o que vão fazer. Por isso, cada um faz-Lhe a inquietante pergunta acerca da sua própria fidelidade futura.

24. Jesus alude a que Ele próprio Se entregará volunta­riamente à Paixão e à Morte. Com isso, também cumpria a Vontade divina, anunciada desde tempos antigos (cfr Ps 41, 10; Is 53, 7). Ainda que Nosso Senhor vá para a morte por própria vontade, não por isso diminui o pecado do traidor.

25. O anúncio da traição de Judas passou despercebido aos outros apóstolos (cfr Ioh 13,26-29).

28.03.2013 – Jo 13, 1-15

Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a Sua hora de passar deste mundo para o Pai, Ele que amara os Seus, que estavam no mundo, levou até ao extremo o Seu amor por eles. 2E, no decorrer da ceia, como o Diabo já tivesse metido na cabeça a Judas Iscariotes, filho de Simão, que O entregasse, 3sabendo Ele que o Pai tudo Lhe pusera nas mãos, e ainda que de Deus saíra e para Deus voltava, 4levanta-Se da mesa, depõe as vestes e, tomando uma toalha, põe-na à cintura. 5A seguir, deita água numa bacia e começa a lavar os pés aos discípulos e a enxugá-los com a toalha que pusera à cintura.

6Chega então a Simão Pedro. Senhor — Lhe diz ele — Tu vai lavar-me os pés?!

7Respondeu-lhe Jesus: O que Eu estou a fazer, não o podes entender por agora, hás-de compreendê-lo depois. 8Não — diz-lhe Pedro — nunca me lavarás os pés! Respon­deu-lhe Jesus: Se não te lavar, não terás parte comigo. 9Senhor — Lhe diz Simão Pedro — então não só os pés, mas também as mãos e a cabeça! 10Jesus respondeu-lhe: Quem tomou banho não precisa de se lavar; está todo limpo. Também vós estais limpos, mas não todos! … 11É que Ele bem sabia quem O ia entregar; por isso é que disse: «Nem todos estais limpos». 12Depois de lhes lavar os pés, de retomar as vestes e de Se pôr de novo à mesa, disse-Ihes: 13Compreendeis o que vos fiz? Vós chamais-Me Mestre e Senhor, e dizeis bem, visto que o sou. 14Ora, se Eu vos lavei os pés, sendo Senhor e Mestre, também vós deveis lavar os pés uns aos outros. 15É que Eu dei-vos o exemplo para que, assim como Eu vos fiz, vós façais também.

Comentário

1-38. São João dedica uma grande parte do seu Evangelho (caps. 13-17) a narrar os ensinamentos de Jesus aos Apóstolos durante a Última Ceia. Nesta secção relata, além disso, alguns factos que não aparecem nos Sinópticos, como o lava-pés; e omite a instituição da Eucaristia, já transmitida pelos outros Evangelhos e por São Paulo (cfr Mt 26,26-28 e par.; 1Cor 11,23-27), e de que o próprio São João falou no cap. 6. Nos capítulos 13 a 17 o Evangelista recorda extensamente as palavras do Senhor em ocasião tão solene.

O cap. 13 começa com uma descrição da importância do momento (vv. 1-3). A seguir narra-se o lava-pés (vv 4-11), e a explicação de Jesus deste facto (vv. 12-17). Relata depois a denúncia do que O ia entregar (vv. 18-32), e termina com o ensinamento do mandamento novo (vv. 33-35) e o anúncio da negação de Pedro (vv. 36-38).

1. As famílias hebreias imolavam um cordeiro na vés­pera da Páscoa, segundo o mandato divino recebido à saída do Egipto, quando Deus os livrou da escravidão do Faraó (Ex 12,3-14; Dt 16,1-8). Esta libertação prefigurava a que Jesus Cristo viria realizar: redimir os homens da escravidão do pecado, mediante o Seu sacrifício na Cruz (cfr 1,29). Por­tanto, a celebração da Páscoa hebraica era o enquadra­mento mais adequado para instituir a nova Páscoa cristã.

Jesus sabia tudo o que ia acontecer e que a Sua Morte e Ressurreição estavam iminentes (cfr 18,4); por isso as Suas palavras adquirem um tom especial de confidencia e amor por aqueles que deixava neste mundo. Chegado este mo­mento, rodeado dos que escolheu e creram n’Ele, deixa-lhes os Seus últimos ensinamentos e institui a Eucaristia, fonte e centro da vida da Igreja. «O próprio Senhor quis dar àquela reunião tal plenitude de significado, tal riqueza de recor­dações, tal comoção de palavras e de sentimentos, tal novi­dade de actos e de preceitos, que nunca acabaremos de meditá-los e de explorá-los. É uma cena testamentária; é uma cena afectuosa e imensamente triste, ao mesmo tempo que misteriosamente reveladora de promessas divinas, de visões supremas. Lança-se por cima a morte, com inauditos presságios de traição, de abandono, de imolação; a conversa apaga-se a seguir, enquanto a palavra de Jesus flui contínua, nova, extremamente doce, tensa em confidencias supremas, movendo-se assim entre a vida e a morte» (Paulo VI, Homília de Quinta Feira Santa).

O que Cristo fez pelos Seus pode resumir-se na frase «amou-os até ao fim». Isto indica a intensidade do amor de Cristo, que vai até dar a Sua vida (cfr Ioh 15,13); mas esse amor não termina com a Sua morte, porque Ele vive, e desde a Sua ressurreição gloriosa continua a amar-nos infinita­mente: «Não nos amou só até aqui quem nos ama sempre e sem fim. Não se pode pensar que a morte tenha posto fim ao amor d’Aquele que não Se extinguiu com a morte» (In Ioann. Evang., 55,2).

2. Os Evangelhos relatam que a presença e a acção do diabo aparecem ao longo da activídade de Jesus (cfr Mt 4,1-11; Lc 22,3; Ioh 8,44; 12,31; etc.). Satanás é o inimigo (Mt 13,39), o Maligno (1Ioh 2,Í3). São Tomás de Aquino (cfr Comentário sobre S. João, ad loc.) faz-nos notar como, neste passo, por um lado, se põe em realce a malícia de Judas, que não se rende diante de tanta prova de amor, e, por outro, sublinha-se a bondade de Cristo, que supera essa maldade diabólica ao lavar também os pés de Judas, a quem tratará como amigo até no momento supremo da traição (Lc 22,48).

3-6. Jesus, consciente de ser o Filho de Deus, humilha-Se voluntariamente até realizar a tarefa própria dos servos da casa. Este passo recorda o hino cristológico da carta de São Paulo aos Filipenses: «Cristo Jesus, sendo de condição divina, não considerou apetecível tesouro o ser igual a Deus, mas aniquilou-Se a Si mesmo, tomando a forma de servo…» (Phil 2,6-7).

Cristo tinha dito que viera ao mundo para servir e não para ser servido (Mc 10,45). Nesta cena ensina-nos o mesmo com um facto concreto, exortando-nos assim a servirmo-nos uns aos outros com toda a humildade e simplicidade (cfr Gal 6,2; Phil 2,3). «Diante dos discípulos, que discutiam por motivos de soberba e de vangloria, Jesus inclina-se e cumpre gostosamente o trabalho próprio de um servo (…). A mim comove-me esta delicadeza do nosso Cristo, porque não afirma: se Eu faço isto, quanto mais deveis fazer vós! Coloca-Se ao mesmo nível, não coage: fustiga amorosamente a falta de generosidade daqueles homens.

«Como aos primeiros Doze, o Senhor também nos pode insinuar a nós, como de facto nos insinua continuamente: exemplum dedi vobis (Ioh 13, 15), dei-vos exemplo de humil­dade. Converti-Me em servo, para que vós saibais, com coração manso e humilde, servir todos os homens» (Amigos de Deus, n° 103).

Pedro compreende de maneira particular o profundo da humilhação do Senhor, e rebela-se, como já o fez noutras circunstâncias, opondo-se à ideia do sofrimento de Cristo (cfr Mc 8,32 e par.). Comenta Santo Agostinho: «Quem não se enche de assombro ao ver os seus pés lavados pelo Filho de Deus? (…). Tu? A mim? Mais que explicadas merecem ser meditadas estas palavras, não aconteça que a língua não seja capaz de exprimir o pouco que a nossa mente pode compreender do seu verdadeiro sentido» (In Ioann. Evang., 56,1).

7-14. Aquele gesto do Senhor tinha um profundo signi­ficado que São Pedro não podia compreender então, como também não tinha suspeitado antes dos planos salvíficos de Deus através da imolação de Cristo (ctr Mt 16,22 ss.). Depois da Ressurreição, os Apóstolos compreenderão esse mistério do serviço do Redentor; Jesus, mediante o lava-pés, exprimia de modo simples e simbólico que não tinha «vindo para ser servido, mas para servir». O Seu serviço, como já lhes tinha dito noutra ocasião, consiste sobretudo em «dar a Sua vida em redenção por muitos» (Mt 20,28; Mc 10,45).

Diz o Senhor aos Apóstolos que já estão limpos, porque aceitaram as Suas palavras e O seguiram (cfr 15,3), excepto Judas que tinha decidido atraiçoá-Lo. Assim comenta este passo São João Crisóstomo: «Estais limpos porque recebestes a Minha palavra, recebestes a luz, estais livres dos erros judaicos. Diz o Profeta: ‘Lavai-vos, purificai-vos, arremessai das vossas almas a perversidade’ (Is 1,16) (…). Jesus Cristo chama puros aos Apóstolos, segundo o que disse o Profeta, porque já arremessaram de si toda a malícia dos seus cora­ções e viveram com o seu Mestre em pureza de espírito e de coração» (Hom. sobre S. João, 70,3).

Por outro lado, quando o Senhor fala da limpeza dos Apóstolos, neste momento imediatamente anterior à insti­tuição da Santíssima Eucaristia, está a aludir à necessidade de ter a alma limpa de pecado para O receber. São Paulo repete este ensinamento quando diz: «Quem comer ou beber o cálice do Senhor indignamente será réu do Corpo e do Sangue do Senhor» (1Cor 11,27). A Igreja, fundamentada nestes ensinamentos de Jesus e dos Apóstolos, estabelece que para comungar é preciso confessar-se previamente, se há consciência, ou dúvida positiva, de pecado grave.

29.03.2013 – Jo 18, 1-19

Dito isto, saiu Jesus com os discípulos para o outro lado da torrente do Cedron, onde havia um jardim, em que Ele entrou com os discípulos. 2Ora Judas, o que O ia entregar, conhecia também aquele sítio, por Jesus Se ter lá reunido muitas vezes com os discípulos. 3Judas, portanto, depois de tomar a coorte e alguns dos guardas dos Sumos Sacerdotes e dos Fari­seus, vem ali ter, com archotes, lanternas e armas.

4Então Jesus, que sabia tudo o que Lhe ia acontecer, adiantou-Se e disse-lhes: A quem buscais? 5Responderam-Lhe: A Jesus de Nazaré! Sou Eu! — retorquiu-lhes Jesus. Judas, o que O ia entregar, também se encontrava com eles. 6Mas quando lhes disse: «sou Eu», recuaram e caíram por terra. 7Perguntou-lhes então novamente: A quem buscais? A Jesus de Nazaré! 8Já vos disse que sou Eu, replicou-lhes Jesus; se é, pois, a Mim que buscais, deixai que estes se retirem. 9Isto, para se cumprir a palavra que havia proferido: «Daqueles que Me deste, não perdi nenhum!»

10Então Simão Pedro, que tinha uma espada, puxou dela e feriu o criado do Sumo Sacerdote, cortando-lhe a orelha direita. O criado chamava-se Malco. 11Jesus, porém, disse a Pedro: Mete a espada na bainha. Não havia de beber o cálice que o Pai Me deu?

12 Então a coorte, o tribuno e os guardas dos Judeus apoderaram-se de Jesus, e liga­ram-No.

13E levaram-No a Anás em primeiro lugar, por ser o sogro de Caifás, que era o Sumo Sacerdote desse ano. 14Tinha sido Caifás que havia dado este conselho aos Judeus: «Interessa que morra um só homem pelo povo!» 15Entretanto, Simão Pedro ia seguindo a Jesus com outro discípulo. Esse discípulo era conhecido do Sumo Sacerdote e entrou juntamente com Jesus no pátio do Sumo Sacerdote, 16enquanto Pedro ficava à porta, do lado de fora. Saiu então o outro discí­pulo, conhecido do Sumo Sacerdote, falou à porteira e levou Pedro para dentro. 17Diz a Pedro a criada que servia de porteira: Tu não és também dos discípulos desse homem? Ele responde: Não sou! 18Achavam-se ali presentes os criados e os guardas, que, por estar frio, tinham feito um brasido e esta­vam a aquecer-se. Pedro encontrava-se igualmente ali com eles a aquecer-se.

19O Sumo Sacerdote interrogou Jesus sobre os Seus discípulos e a Sua doutrina.

Comentário

1. O capítulo anterior, em que se fala da glória do Filho de Deus (cfr Ioh 17,1.4.10.22.24), é um pórtico esplêndido com que São João apresenta a Paixão e Morte do Senhor como uma glorificação: sublinha a liberdade de Jesus ao aceitar a Sua Morte (14,31) e permitir que os Seus inimigos O prendam (18,4.11). O relato mostra a superio­ridade do Senhor sobre os que O julgam (18,20-21) ou O condenam (19,8.12); e a serenidade majestosa perante a dor física, que faz pensar, mais que nos tormentos que Jesus padece, na Redenção e no triunfo da Cruz.

Os capítulos 18 e 19 narram a Paixão e Morte de Nosso Senhor. São acontecimentos tão importantes e decisivos que todos os escritos do Novo Testamento, de uma forma ou de outra, tratam deles. Assim, os Evangelhos sinópticos rela­tam-nos extensamente. No livro dos Actos, juntamente com a Ressurreição, constituem o núcleo dos discursos dos Apóstolos. São Paulo explica o valor redentor do sacrifício de Jesus Cristo, e as epístolas católicas falam da Sua Morte salvadora. O mesmo acontece no Apocalipse, onde o grande Triunfador, o que está no trono celeste, é o Cordeiro sacrifi­cado, Cristo Jesus. Há que dizer, além disso, que os escri­tores sagrados sempre que falam da Morte do Senhor se referem a seguir à Sua gloriosa Ressurreição.

No Evangelho de São João citam-se cinco lugares ou cenários dos factos passados. O primeiro (18,1-12) é Getsêmani, onde prendem Jesus. Depois (18,13-27) o Senhor é levado a casa de Anás, onde começa o processo religioso, e Pedro O nega diante dos criados do Pontífice. O terceiro lugar é o Pretório (18,28-19,16), onde se desenvolve o processo diante do procurador romano, que São João narra com amplitude, pondo em realce o verdadeiro caracter da realeza de Cristo, assim como a rejeição dos judeus que pedem a crucifixão do Senhor. A seguir (19,17-37) narram-se os factos passados depois da sentença injusta do procura­dor, centrando-se nos episódios do Calvário. Por último (19,31-42), como fazem os outros Evangelhos, São João relata a sepultura do Senhor no sepulcro sem estrear, que José de Arimateia tinha próximo do Calvário.

Todos estes acontecimentos culminam com a glorifi­cação de Jesus a que Ele próprio Se tinha referido (cfr Ioh 17,1-5): a Ressurreição e a exaltação junto do Pai (caps. 20-21).

Eis os conselhos que dá Frei Luís de Granada para meditar a história da Paixão de Nosso Senhor: «Há outras cinco coisas a que podemos ter respeito quando pensamos na sagrada Paixão (…). O primeiro, aqui podemos inclinar o nosso coração para a dor e o arrependimento dos nossos pecados, para o que nos é dado um grande motivo na Paixão do Salvador, pois é certo que tudo o que padeceu pelos pecados padeceu-o, de tal maneira que, se não houvesse pecados no mundo, não seria necessário tão custoso remédio. De maneira que os pecados, tanto os teus como os meus, como os de todo o mundo, foram os verdugos que O ataram, e O açoitaram, e O coroaram de espinhos, e O puseram na Cruz. Por isto verás quanta razão tens aqui para sentir a grandeza e a malícia dos teus pecados, pois realmente eles foram a causa de tantas dores, não porque eles levassem necessariamente o Filho de Deus a padecer, mas porque deles tomou ocasião a justiça divina para pedir tão grande satisfação.

«E não só para aborrecer o pecado, mas também para o amor das virtudes, temos aqui grandes motivos nos exemplos das virtudes deste Senhor, que assinaladamente resplan­decem na Sua sagrada Paixão, nas quais também devemos pôr os olhos para nos provocarmos à imitação delas, e particularmente na grandeza da Sua humildade, obediência, mansidão e silêncio, com todas as outras, porque esta é uma das mais altas e proveitosas maneiras que há de meditar a sagrada Paixão, que é por via de imitação.

«Outras vezes devemos pôr os olhos na grandeza do benefício que o Senhor aqui nos fez, considerando o muito que nos amou, e o muito que nos deu, e o muito que Lhe custou o que nos deu (…). Outras vezes convém levantar por aqui os olhos para o conhecimento de Deus, isto é, para considerar a grandeza da Sua bondade, da Sua misericórdia, da Sua justiça e da Sua benignidade, e assinaladamente da Sua ardentíssima caridade, a qual em nenhuma outra obra resplandece mais que na Sua sagrada Paixão. Porque como é maior argumento de amor padecer males pelo amigo do que fazer-lhe bens, e Deus podia uma coisa e outra (…), aprouve à Sua divina bondade vestir-Se de natureza em que pudesse padecer males, e tão grandes males, para que ficasse o homem de todo certificado deste amor, e assim se movesse a amar quem tanto o amou.

«Outras vezes, finalmente, pode considerar por aqui a alteza do conselho divino e a conveniência deste meio, que a sabedoria de Deus escolheu, para remédio do gênero humano; isto é, para satisfazer pelas nossas culpas, para inflamar a nossa caridade, para fortalecer a nossa paciência, para confirmar a nossa esperança, para curar a nossa soberba, a nossa avareza e os nossos regalos, e para inclinar as nossas almas para a virtude da humildade (…), para o aborrecimento do pecado e para o amor da Cruz» (Vida de Jesus Cristo, 15).

1-2. «Dito isto» é uma fórmula frequente no quarto Evangelho para indicar que começa um novo episódio relacionado com o que se acaba de narrar (cfr Ioh 2,12; 3,22; 5,1:6.1; 13,21…).

O Cédron (etimologicamente turvo, negro) é o fundo de um vale que só leva água na época das chuvas; separava Jeru­salém do monte das Oliveiras, em cuja falda se encontrava o horto de Getsêmani (cfr Mt 26,32; Lc 21,37; 22,39). A distância do Cenáculo ao horto de Getsêmani era de uns mil e duzentos metros.

3. Como a Judeia estava sob o domínio dos Romanos, havia em Jerusalém uma guarnição, composta de uma coorte (600 soldados) aquartelada na torre Antônia, ao mando de um tribuno. O Evangelista, ao dizer que Judas tomou «a coorte», exprime-se de um modo popular, que toma o todo pela parte; não quer dizer, portanto, que os 600 soldados foram em busca do Senhor. É de supor que os judeus, que tinham a sua própria guarda do Templo — os chamados «servidores dos pontífices» —, tinham solicitado algum apoio da coorte. Judas interveio para indicar ao chefe da guarda o lugar e a pessoa que iam prender.

4-9. Só o quarto Evangelho recolhe este episódio acontecido antes da prisão, e que nos recorda aquelas palavras do Salmo: «Retrocederão os meus inimigos no dia em que eu clame» (Ps 56,10). Resplandece a majestade do Senhor que Se entrega voluntária e livremente. Isto, porém, não quer dizer que aqueles judeus fiquem isentos de culpa. Santo Agostinho comenta assim este passo: «Os perseguidores, que vinham com o traidor para prender Jesus, encon­traram O que buscavam e ouviram-No dizer Eu sou. Por que não O prenderam, mas retrocederam e caíram? Porque assim o quis quem podia fazer o que queria. Se não o tivesse permitido, nunca teriam realizado o intento de O pren­derem, mas também Ele não teria cumprido a Sua missão. Eles buscavam com ódio O que queriam matar; Jesus, pelo contrário, buscava-nos com amor querendo morrer. E assim, depois de manifestar o Seu poder àqueles que sem poderem fazê-lo queriam prendê-Lo, prendê-lo-ão e deste modo cum­prirá o Seu desejo por meio daqueles que o ignoravam» (In Ioann. Evang., 112,3).

Por outro lado, emociona contemplar Jesus com cuida­dos pelos Seus discípulos, quando era Ele quem corria perigo. Tinha prometido que nenhum dos Seus se perderia, excepto Judas Iscariotes (cfr Ioh 17,12; 6,39): ainda que aquela promessa se referisse antes a preservá-los da conde­nação eterna, o Senhor preocupa-Se aqui também da sorte imediata dos Seus discípulos, que ainda não estavam prepa­rados para enfrentar o martírio.

10-11. Uma vez mais se manifesta o temperamento impetuoso e a lealdade de Pedro que, com o risco da própria vida, defende o Mestre. Pedro, porém, não tinha compreen­dido ainda os planos salvíficos de Deus; continua a resistir à ideia do sacrifício de Cristo, como já o tinha feito no momento do primeiro anúncio da Paixão (Mt 16,21-22). Cristo não aceitou aquela defesa violenta. As Suas palavras aludem à oração no horto (cfr Mt 26,39), em que tinha aceitado livremente a Vontade do Pai, entregando-Se sem resistência para levar a cabo a Redenção pela Cruz.

Devemos acatar a Vontade de Deus com a docilidade e prontidão com que Jesus enfrenta a Paixão. «Gradação: resignar-se com a Vontade de Deus; conformar-se com a Vontade de Deus; querer á Vontade de Deus; amar a Vontade de Deus» (Caminho, n° 774).

13-18. Jesus é levado a casa de Anás, que, embora já não fosse Sumo Pontífice, conservava uma grande influência religiosa e política no povo (cfr a nota a Lc 3,2). Os dois discípulos, Simão Pedro e outro, provavelmente o próprio João, estão desconcertados; não sabem que fazer e seguem-No de longe. A sua adesão e afecto a Jesus não eram ainda suficientemente sobrenaturais; à coragem e lealdade de antes sucede agora o desânimo. Esta situação desembocará na tripla negação de Pedro. O cristão, por mais nobres que sejam os seus sentimentos, também não terá a fortaleza para ser fiel às exigências da fé se não fundamentar a sua vida numa piedade profunda.

30.03.2013 – Lc 24, 1-12

Mas no primeiro dia da semana, alta madrugada, foram ao sepulcro, levando os perfumes que haviam preparado. 2Encontraram a pedra removida do túmulo 3e, entrando, não acharam o corpo do Senhor Jesus. 4Estando elas perplexas com o caso, surgiram-lhes dois homens em traje resplandecente. 5Como ficassem amedrontadas e inclinassem os rostos até ao chão, eles disse­ram-lhes: Porque buscais entre os mortos Aquele que vive? 6Não está aqui; ressuscitou! Lembrai-vos de como vos falou, quando ainda estava na Galileia: 7«O Filho do homem — dizia Ele — tem de ser entregue às mãos dos pecadores, tem de ser crucificado e res­suscitar ao terceiro dia». 8Lembraram-se então das Suas palavras. 9Depois voltaram do túmulo e foram contar tudo isto aos onze e a todos os restantes. 10Eram elas Maria de Magdala, Joana e Maria, mãe de Tiago; e as outras que estavam com elas diziam isto mesmo aos Apóstolos. 11Tais palavras, po­rém, pareceram-lhes um desvairo e eles não acreditaram nelas. 12Mas Pedro pôs-se a ca­minho e correu ao túmulo. Debruçando-se, apenas viu as ligaduras e voltou para casa admirado com o sucedido.

Comentário

1-4. O carinho das santas mulheres ao preparar todas as coisas para embalsamar o Corpo de Jesus com toda a veneração foi talvez uma intuição profunda da fé, que a doutrina da Igreja expressaria mais tarde com precisão ao dizer: «Cremos e confessamos firmemente que, separada a alma de Cristo do Seu corpo, a divindade esteve sempre unida tanto ao corpo no sepulcro, como à alma quando desceu aos infernos» (Catecismo Romano, I, 5,6).

5-8. A verdade de fé sobre a Ressurreição de Jesus Cristo ensina que tendo realmente morrido ao separar-se a Sua Alma do Seu Corpo, e tendo sido sepultado, aos três dias, pelo Seu próprio poder voltou a unir-se novamente a Sua Alma ao Seu Corpo, de modo que não se separarão jamais (cfr Catecismo Romano, I, 6,7).

Sendo um mistério estritamente sobrenatural, tem, con­tudo, uns aspectos exteriores que caem sob a experiência sensível: morte, sepultura, sepulcro vazio, aparições, etc. E neste aspecto é um facto demonstrado e demonstrável (cfr Lamentabili, nn 36-37).

A Ressurreição de Jesus Cristo completa a obra da nossa Redenção: «Porque assim como pela Morte carregou com os males para nos livrar do mal, de modo semelhante, pela Ressurreição foi glorificado para nos levar ao bem; segundo as palavras da Epístola aos Romanos (4,25); foi entregue à morte pelos nossos pecados e ressuscitou para a nossa justificação» (Suma Teológica, III, q. 53, a. l, c.).

«Cristo vive. Esta é a grande verdade que enche de con­teúdo a nossa fé. Jesus, que morreu na cruz, ressuscitou; triunfou da morte, do poder das trevas, da dor e da angústia. Não temais — foi com esta invocação que um anjo saudou as mulheres que iam ao sepulcro. Não temais. Procurais Jesus de Nazaré, que foi crucificado. Ressuscitou; não está aqui (Mc XVI, 6). Haec est dies quam fecit Dominus, exultemus et laetemur in ea — este é o dia que o Senhor fez, alegremo-nos (Ps 117,24).

«O tempo pascal é tempo de alegria, de uma alegria que não se limita a esta época do ano Litúrgico, mas mora sempre no coração dos cristãos. Porque Cristo vive. Cristo não é uma figura que passou, que existiu em certo tempo e que se foi embora, deixando-nos uma recordação e um exemplo maravilhosos.

«Não. Cristo vive. Jesus é Emanuel: Deus connosco. A Sua Ressurreição revela-nos que Deus não abandona os Seus. Pode a mulher esquecer o fruto do seu seio e não se compadecer do filho das suas entranhas? Pois ainda que ela se esquecesse, eu não me esquecerei de ti (Is 42, 14-15), havia-nos Ele prometido. E cumpriu a promessa. Deus continua a ter as Suas delícias entre os filhos dos homens (cfr Prv 8, 31)» (Cristo que passa, n° 102).

Pelo Baptismo e pelos outros sacramentos, o cristão fica incorporado ao mistério redentor de Cristo, que compreende a Sua Morte e a Sua Ressurreição: «Fostes sepultados com Ele pelo Baptismo, e com Ele ressuscitastes pela fé que tendes no poder de Deus que O ressuscitou da morte» (Col 2,12). «Se ressuscitastes com Cristo buscai as coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus; saboreai as coisas do Céu, não as da terra. Porque estais mortos já e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus» (Col 3,1-3).

9-12. Os primeiros a quem um anjo anuncia o Nasci­mento de Cristo são os pastores de Belém. As primeiras a receber o testemunho divino da Ressurreição de Jesus são estas piedosas mulheres. É uma mostra mais da predilecção de Deus pelas almas simples e sinceras, às quais concede uma honra que o mundo não sabe apreciar (cfr Mt 11.25). Mas não é apenas simplicidade e bondade, não é apenas sinceridade; é que os pobres — os pastores — e as mulheres eram desprezados naquele tempo: e Jesus ama aquilo que é humilhado pela soberba dos homens; por isso distingue os pastores e as mulheres. E precisamente porque aquelas mulheres eram simples e boas, recorrem imediatamente a Pedro e aos Apóstolos a comunicar-lhes tudo o que tinham visto e ouvido. Pedro, a quem Jesus tinha prometido que seria o Seu Vigário na terra (cfr Mt 16,18), sente-se movido a tomar a responsabilidade de comprovar os factos.

31.03.2013 – Jo 20, 1-9

No primeiro dia da semana, vem Maria de Magdala, de manhãzinha, ainda escuro, ao túmulo e vê a pedra retirada do túmulo. 2Corre então e vai ter com Simão Pedro e com o outro discípulo aquele que Jesus amava. Tiraram o Senhor do Túmulo, lhes diz ela, e não sabemos onde O puseram. 3Pedro saiu com o outro discípulo e vieram ambos ao túmulo.

4Corriam os dois juntamente, mas o outro discípulo antecipou-se, correndo mais depressa do que Pedro, e chegou primeiro ao túmulo. 5Debruçando-se, viu as ligaduras no chão, mas não entrou. 6Entretanto, chega também Simão Pedro, que o vinha seguindo, e entrando no túmulo, põe-se a observar as ligaduras que estavam no chão, 7e o lençol que estivera sobre a cabeça de Jesus, não colocado no chão com as liga­duras, mas à parte, enrolado para outro sítio. 8Nessa altura, entrou também o outro discípulo, que chegara primeiro ao túmulo: então viu e acreditou. 9De facto, ainda não tinham entendido a Escritura, segundo a qual Ele deve ressuscitar dos mortos.

Comentário

1-2. Os quatro Evangelhos narram os primeiros tes­temunhos das santas mulheres e dos discípulos acerca da Ressurreição gloriosa de Cristo. Tais testemunhos refe­rem-se, num primeiro momento, à realidade do sepulcro vazio (cfr Mt 28,1-15; Mc 16,1 ss.; Lc 24,1-12). Depois rela­tarão diversas aparições de Jesus Ressuscitado.

Maria Madalena é uma das que assistiam o Senhor nas Suas viagens (Lc 8,1-3); junto com a Virgem Maria seguiu-O corajosamente até à Cruz (Ioh 19,25), e viu onde tinham depositado o Seu Corpo (Lc 23,55). Agora, uma vez passado o repouso obrigatório do Sábado, vai visitar o túmulo. No­temos o pormenor evangélico: «De manhãzinha, ainda es­curo»: o amor e a veneração fazem-na ir sem demora junto ao Corpo do Senhor.

4. O quarto Evangelho põe em realce que, ainda que fossem as mulheres, e em concreto Maria Madalena, as primeiras a chegar ao sepulcro, são os Apóstolos os pri­meiros a entrar e a perceber os pormenores externos que mostram que Cristo ressuscitou (o sepulcro vazio, os tecidos «caídos», o sudário à parte). Dar testemunho deste facto será ponto essencial da missão que lhes confiará Cristo: «Sereis Minhas testemunhas em Jerusalém… e até aos confins da terra» (Act 1,8; cfr Act 2,32).

5-7. João, que chegou antes — quiçá porque era mais jovem —, não entrou, por deferência para com Pedro. Isto insinua que já então Pedro era considerado como cabeça dos Apóstolos.

As palavras que emprega o Evangelista para descrever o que Pedro e ele viram no sepulcro vazio exprimem com vivo realismo a impressão que lhes causou o que ali encontraram, e como ficaram gravados na sua memória alguns porme­nores à primeira vista irrelevantes. As características que apresentava o sepulcro vazio foram até tal ponto significativas que os fizeram intuir de algum modo a Ressurreição do Senhor. Alguns termos que aparecem no relato necessitam de ser explicados; a simples tradução dificilmente pode exprimir todo o conteúdo.

«As ligaduras no chão»: O particípio grego que traduzimos por «caídas» ou «no chão» parece indicar que as ligaduras tinham ficado aplanadas, como vazias ao ressuscitar e desa­parecer dali o corpo de Jesus, como se Este tivesse saído dos tecidos e das ligaduras sem ser desenroladas, passando através delas (tal como entrou mais tarde no Cenáculo «estando fechadas as portas»). Por isso, os tecidos estavam «caídos», «planos», «jacentes» segundo a tradução literal do grego, ao sair deles o Corpo de Jesus que os tinha mantido antes em forma avultada. Assim se compreende a admiração e a recordação indelével da testemunha. «O lençol à parte, ainda enrolado para outro sítio»: A primeira observação é que o sudário, que tinha envolvido a cabeça, não estava em cima dos tecidos, mas ao lado. A se­gunda, mais surpreendente, é que, como os tecidos, conser­vava ainda a sua forma de envoltura, mas, de modo diferente daqueles, mantinha certa consistência de volume, à maneira de casquete, provavelmente devido ao endurecimento pro­duzido pelos unguentos. Tudo isso é o que parece indicar o correspondente particípio grego, que traduzimos por «en­rolado».

Destes pormenores na descrição do sepulcro vazio de­preende-se que o corpo de Jesus ressuscitou de maneira gloriosa, isto é, transcendendo as leis físicas. Não se tra­tava apenas da reanimação do corpo, como por exemplo, no caso de Lázaro, que necessitou de ser desligado das ligaduras e outros tecidos da mortalha para poder andar (cfr Ioh 11,44).

8-10. Como lhes tinha dito Maria Madalena, o Senhor não estava no sepulcro; mas os dois Apóstolos deram-se conta de que não podia tratar-se de um roubo, como ela supunha, pois viram que os tecidos e o sudário se encon­travam colocados de um modo especial (cfr a nota a Ioh 20,5-7); ao vê-los assim começaram a compreender o que tantas vezes lhes tinha explicado o Mestre acerca da Sua Morte e Ressurreição (cfr Mt 16,21; Mc 8,31; Lc 9,22; etc.; cfr, além disso, as notas a Mt 12,39-40 e Lc 18,31-40).

O sepulcro vazio e os outros dados que o acompanham são sinais perceptíveis pelos sentidos; a Ressurreição, pelo contrário, ainda que possa ter efeitos comprováveis pela experiência, requer a fé para ser aceite. A Ressurreição de Cristo é um facto real e histórico: nova união do corpo e da alma de Jesus. Mas, sendo uma Ressurreição gloriosa — não como a de Lázaro —, que está muito acima do que pode­mos apreciar nesta vida, e supera, portanto, os limites da experiência sensível, requer-se uma ajuda especial de Deus — o dom da fé — para conhecer e aceitar com certeza este facto que, ao mesmo tempo que é histórico, é sobre­natural. Portanto, pode dizer-se com São Tomás de Aquino que «cada um dos argumentos de per si não bastaria para demonstrar a Ressurreição, mas, tomados em conjunto, manifestam-na suficientemente; sobretudo pelo testemunho da Sagrada Escritura (cfr especialmente Lc 24,25-27), pelo anúncio dos Anjos (cfr Lc 24,4-7) e pela palavra de Cristo confirmada com milagres» (cfr Ioh 3,13; Mt 16,21; 17,22; 20,18) (Suma Teológica, III, q. 55, a. 6 ad 1).

Além das predições de Cristo acerca da Sua Paixão, Morte e Ressurreição (cfr Ioh 2,19; Mt 16,21; Mc 9,31; Lc 9,22), já no Antigo Testamento estava anunciado o triunfo glorioso do Messias e, de certo modo, a Sua Ressurreição (cfr Ps 16,9; Is 52,13; Os 6,2). Os Apóstolos começam a compreender o verdadeiro sentido da Sagrada Escritura depois da Ressurreição do Senhor, e mais especialmente quando recebem o Espírito Santo, que ilumina plenamente as suas inteligências para compreender o conteúdo da Palavra de Deus. É de supor a surpresa e o alvoroço de todos os discí­pulos ao ouvir contar a Pedro e a João o que tinham visto no sepulcro.