Evangelho do dia: mês de março de 2012

Evangelho do dia: mês de março de 2012

Mês de março de 2012

01.03.2012 – Mt 7, 7-12.

7Pedi e dar-se-vos-á, buscai e encontrareis, batei e abrir-se-vos-á. 8Porque, todo o da oração que pede recebe, e o que busca encontra e ao que bate, abrir-se-á.

9Haverá entre vós alguém que dê uma pedra ao filho, se ele lhe pedir pão? 10E lhe dê uma serpente, se ele lhe pedir peixe? 11Se, pois, vós, que sois maus, sabeis dar boas dádivas a vossos filhos, quanto mais vosso Pai que está nos Céus dará coisas boas aos que Lhe pedirem?

12Tudo aquilo, pois, que quereis que os outros vos façam a vós, fazei-o também vós a eles, porque esta é a Lei e os Profetas.

Comentário

7-11. O Mestre ensina de diversas maneiras a eficácia da oração. A oração é uma elevação da mente para Deus para O adorar, dar-Lhe graças e pedir-Lhe o que necessitamos (cfr Catecismo Maior, n.° 255). Jesus insiste na oração de petição, que é o primeiro movimento espontâneo da alma que reconhece Deus como seu Criador e Pai. Como criatura de Deus e como Seu filho, o homem necessita pedir-Lhe humildemente todas as coisas.

Ao falar da eficácia da oração, Jesus não faz restrições: «Todo o que pede, recebe», porque Deus é nosso Pai. E São Jerônimo comenta: «Está escrito: a todo o que pede se dá; logo, se a ti não se te dá, não se te dá porque não pedes; portanto, pede e receberás» (Comm. in Matth., 7). Não obstante, apesar de a oração ser de si infalível, por vezes não obtemos o que queríamos. Santo Agostinho diz que a nossa oração não é escutada porque pedimos «aut mali, aut male, aut mala». «Mali»: porque somos maus, porque as nossas disposições pessoais não são boas; «male»: porque pedimos mal, sem fé, sem perseverança, sem humildade; «mala»: porque pedimos coisas más, quer dizer, o que não nos convém, o que pode causar-nos dano (cfr De civitate Dei, XX, 22 e 27; De Senti. Dom. in monte, H, 27,73). Em última análise, a oração não é eficaz quando não é verdadeira oração. Portanto: «Faz oração. Em que negócio humano te podem dar mais garantias de êxito?» (Caminho, n.° 96).

12. A sentença de Jesus, chamada «regra de ouro», oferece um critério prático para reconhecer o alcance das nossas obrigações e da nossa caridade para com os outros. Mas uma consideração superficial correria o risco de mudá-lo num móbil egoísta do nosso comportamento: não se trata, evidentemente, de um do ut des («dou-te para que me dês»), lhas de fazer o bem aos outros sem pôr condições, como em boa lógica as não pomos no amor a nós mesmos. Esta regra prática ficará completada com o «mandamento novo» de Jesus Cristo (Ioh 13, 34), onde nos ensina a amar os outros como Ele mesmo nos amou.

02.03.2012 – Mt 5, 20-26.

20Porque Eu vos digo que, se a vossa justiça não sobrepujar a dos Escribas e Fariseus, não entra reis no Reino dos Céus.

21Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás, e quem matar será réu perante o tribunal. 22Eu, porém, digo-vos: Todo aquele que se irar contra seu irmão, será réu perante o tribunal. E quem chamar a seu irmão «imbecil», será réu perante o Sinédrio. E quem lhe chamar «doido», será réu da Geena do fogo. 23Portanto, se ao apresentares a tua oferenda ao altar, aí te recordares que teu irmão tem algo contra ti, 24deixa aí a tua oferenda diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão, depois vem e apresenta a tua oferenda. 25Põe-te de acordo com o teu adversário, enquanto estás com ele no caminho. Não seja caso que o adver­sário te entregue ao juiz, e o juiz ao guarda, e sejas metido na prisão. 26Em verdade te digo: não sairás de lá, enquanto não pagares o último ceitil.

Comentário

20. «Justiça»: Veja-se nota a Mt 5, 6. O versículo vem esclarecer o sentido dos precedentes. Os escribas e os fariseus tinham chegado a deformar o espírito da Lei, ficando na observância externa e ritual da mesma. Entre eles o cumpri­mento exacto e minucioso, mas externo, dos preceitos tinha-se transformado numa garantia de salvação do homem diante de Deus: «se eu cumpro isto sou justo, sou santo e Deus tem de me salvar». Com este modo de conceber a justificação já não é Deus no fundo quem salva, mas é o homem quem se salva pelas obras externas. A falsidade de tal concepção fica patente com a afirmação de Cristo, que poderia exprimir-se com estes termos: para entrar no Reino dos Céus é necessário superar radicalmente a concepção da justiça ou santidade a que tinham chegado os escribas e os fariseus. Por outras palavras, a justificação ou santificação é uma graça de Deus, com a qual o homem só pode colaborar secundariamente pela sua fidelidade a essa graça. Noutros lugares estes ensinamentos ficarão ainda mais claramente explicados por Jesus (cfr Lc 18, 9-14, parábola do fariseu e do publicano). Também dará lugar a Uma das grandes batalhas doutrinais de São Paulo perante os «judaizantes» (veja-se Gal 3 e Rom 2-5).

21-26. Nestes versículos temos um exemplo concreto de como Jesus leva à sua plenitude a Lei de Moisés, explicando profundamente o sentido dos mandamentos desta.

22. Jesus ao falar em primeira pessoa («Eu, porém, digo-vos») expressa que a Sua autoridade está por cima da de Moisés e dos Profetas; quer dizer: Ele tem autoridade divina. Nenhum homem poderia falar com essa autoridade.

«Imbecil»: Muitíssimas versões deste passo mantiveram a transcrição da palavra original aramaica: «Raça», pronunciada por Cristo. Não é fácil de dar uma tradução exacta. O termo «raça» equivale ao que hoje entendemos por néscio, estúpido, imbecil. Era sinal entre os Judeus de um grande desprezo, que muitas vezes se manifestava não com palavras, mas com a acção de cuspir no chão.

«Doido», que outras versões traduzem por «fátuo», «louco», «renegado», etc., era um insulto ainda maior que «raça»: referia-se à perda do sentido moral e religioso, até ao ponto da apostasia.

Nosso Senhor indica neste texto três faltas que podemos cometer contra a caridade, nas quais se pode apreciar uma gradação, que vai desde a irritação interna até ao maior dos insultos. A propósito deste passo comenta Santo Agostinho que se devem observar três graus de faltas e de castigos. O primeiro, entrar em cólera por um movimento interno do coração, ao que corresponde o castigo do juízo; o segundo, dizer alguma palavra de desprezo, que leva consigo o castigo do Conselho; o terceiro, quando deixando-nos levar pela ira até à obcecação, injuriamos despiedadamente os nossos irmãos, que é castigado com o fogo do inferno (cfr De Semi. Dom. in monte II, 9).

«Geena do fogo», frase que na linguagem judaica daqueles tempos significava o castigo eterno, o fogo do inferno.

Daqui a gravidade dos pecados externos contra a caridade: murmuração, injúria, calúnia, etc. Não obstante, devemos dar-nos conta de que estes brotam do coração; o Senhor chama a atenção em primeiro lugar para os pecados internos: rancor, ódio, etc., para fazer ver que aí está a raiz, e quanto nos convém refrear os primeiros movimentos da ira.

23-24. O Senhor encontra-Se com umas práticas judaicas do Seu tempo, e em tal ocasião dará uma doutrina de valor moral altíssimo e perene. Naturalmente que no cristianismo estamos noutra situação diferente das práticas cultuais judaicas. Para nós o mandato do Senhor tem uns caminhos determinados por Ele mesmo. Em concreto, na Nova e definitiva Aliança, fundada por Cristo, reconciliar-nos é apro­ximar-nos do sacramento da Penitência. Neste os fiéis «obtêm da misericórdia de Deus o perdão da ofensa feita a Ele, e ao mesmo tempo reconciliam-se com a Igreja, à qual feriram pelo pecado» (Lumen gentium, n. 11).

Do mesmo modo, no Novo Testamento, a oferenda por excelência é a Eucaristia. Ainda que à Santa Missa se deva assistir sempre nos dias de preceito, é sabido que para a recepção da Sagrada Comunhão se requer como condição imprescindível estar em graça de Deus.

Nosso Senhor não quer dizer nestes versículos que se tenha de antepor o amor do próximo ao amor de Deus. A caridade tem uma ordem: amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças. Este é o maior e primeiro mandamento (cfr Mt 22, 37-38). O amor ao próximo, que é o segundo mandamento em importância (cfr Mt 22, 39), recebe o seu sentido do primeiro. Não é concebível fraternidade sem paternidade. A ofensa contra a caridade é, antes de mais, ofensa a Deus.

03.03.2012 – Mt 5, 43-48.

43Ouvistes que foi dito: Ama o teu próximo e odeia o teu inimigo. 44Eu, porém, digo-vos: Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; 45para serdes filhos de vosso Pai que está nos Céus, o qual faz nascer o sol sobre maus e bons, e chover sobre justos e injustos. 46Porque, se amais os que vos amam, que recompensa mereceis? Porventura não fazem o mesmo também os publicanos? 47E se saudais só os vossos irmãos, que fazeis nisso de extraordinário? Porventura não fazem o mesmo também os gentios? 48Sede, pois, vós perfeitos como é perfeito vosso Pai celeste.

Comentário

43. A primeira parte do versículo «ama o teu próxi­mo», está em Levítico 19,18. A segunda parte «odeia o teu inimigo», não vem na Lei de Moisés. As palavras de Jesus, contudo, aludem a uma interpretação generalizada entre os rabinos da Sua época, os quais entendiam por próximo só os Israelitas. O Senhor corrige esta falsa interpretação da Lei, entendendo por próximo todo o homem (cfr a parábola do bom samaritano em Lc 10, 25-37).

43-47. O passo recapitula os ensinamentos anteriores. O Senhor chega a estabelecer que o cristão não tem inimigos pessoais. O seu único inimigo é o mal em si, o pecado, mas não o pecador. Esta doutrina foi levada à prática pelo próprio Jesus Cristo com os que O crucificaram, e é a que segue todos os dias com os pecadores que se rebelam contra Ele e O desprezam. Por isso os santos seguiram o exemplo do Senhor, como o primeiro mártir Santo Estevão, que orava pelos que lhe estavam a dar a morte. Chegou-se ao cume da perfeição cristã: amar e rezar até pelos que nos persigam e caluniem.

Este é o distintivo dos filhos de Deus.

46. «Publicanos»: Eram os cobradores de impostos. O Império Romano não tinha funcionários próprios para este serviço, mas entregava-o a determinadas pessoas do país respectivo. Estas podiam ter empregados subalternos (daí que por vezes se fale de «chefe de publicanos», como é o caso dê Zaqueu; cfr Lc 19, 2). A quantidade genérica do imposto para cada região era determinada pela autoridade romana. Os publicanos cobravam uma sobretaxa, da qual viviam, e que se prestava a arbitrariedade; por isso normalmente eram Odiados pelo povo. Além disso, no caso dos Judeus, agregava-se a nota infamante de espoliar o povo eleito em favor dos gentios.

48. O versículo 48 resume, de algum modo, todos os ensinamentos do capítulo, incluídas as Bem-aventuranças. Em sentido estrito é impossível que a criatura tenha a perfeição de Deus. Portanto, o Senhor quer dizer aqui que a perfeição divina deve ser o modelo para o qual há-de tender o fiel cristão, sabendo que há uma distância infinita em relação ao seu Criador. Isto, porém, não rebaixa nada a força deste mandamento, mas, pelo contrário, ilumina-o. Juntamente com a exigência deste mandato de Jesus Cristo, há que considerar a magnitude da graça que promete, para que sejamos capazes de tender, nada menos, que à perfeição divina. De qualquer modo a perfeição que havemos de imitar não se refere ao poder e à sabedoria de Deus, que superam por completo as nossas possibilidades, mas nesta passagem, pelo contexto, parece referir-se sobretudo ao amor e à miseri­córdia. Neste sentido São Lucas refere-nos as seguintes palavras do Senhor: «Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso» (Lc 6, 36; cfr nota a Lc 6, 20-49,).

Como se vê, a «chamada universal à santidade» não é uma sugestão, mas um mandamento de Jesus Cristo:

«Tens obrigação de te santificar. — Tu, também. — Quem pensa que é tarefa exclusiva de sacerdotes e religiosos?

A todos, sem excepção, disse o Senhor: ‘Sede perfeitos, como Meu Pai Celestial é perfeito’» (Caminho, n.° 291). Doutrina que o Concilio Vaticano II sanciona no cap. 5 da Const. Lumen gentium, n. 40, donde tiramos estas palavras: «Jesus, mestre e modelo divino de toda a perfeição, pregou a santidade de vida, de que Ele é autor e consumador, a todos e a cada um dos Seus discípulos, de qualquer condição: ‘sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito’ (…). É, pois, claro a todos, que os cristãos de qualquer estado ou condição de Vida, são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade. Na própria sociedade terrena, esta santidade promove um modo de vida mais humano».

04.03.2012 – Mc 9, 2-10.

2Seis dias depois, tomou Jesus consigo a Pedro, Tiago e João e levou-os só a eles à parte a um monte alto e transfigurou-Se diante deles. 3Os vestidos tornaram-se resplan­decentes e alvíssimos, tanto que nenhuma lavadeira sobre a Terra os poderia assim branquear. 4E apareceu-lhes Elias com Moisés, que estavam a conversar com Jesus. 5Tomando Pedro a palavra, disse a Jesus: Rabi, bom é estarmos aqui. Façamos três guaridas, uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias; 6pois não sabia o que havia de dizer, visto estarem tomados de medo. 7Formou-se então uma nuvem que os envolveu, e da nuvem saiu uma voz: Este é o Meu Filho amado. Ouvi-O. 8E, de repente, olhando à volta de si, não viram a mais ninguém, senão só a Jesus com eles.

9Ao descerem do monte, ordenou-lhes que a ninguém contassem o que tinham visto, senão depois de o Filho do homem ter ressuscitado dos mortos. 10Eles guardaram o facto para si, mas perguntavam-se que seria aquilo de: «ressuscitar dos mortos».

 

Comentário

2-10. Contemplamos admirados esta manifestação da glória do Filho de Deus a três dos Seus discípulos. Desde a Encarnação, a Divindade de Nosso Senhor estava habitual­mente oculta por detrás da Humanidade. Mas Cristo quis manifestar precisamente a estes três discípulos predilectos, que iam ser colunas da Igreja, o esplendor da Sua glória divina com o fim de que se animassem a seguir o caminho difícil e áspero que lhes restava para percorrer, fixando o olhar na meta gozosa que os esperava no fim. Por esta razão, como comenta São Tomás (cfr Suma Teológica, III, q. 45, &. 1), foi conveniente que Cristo tenha manifestado a clareza da sua glória. As circunstâncias da Transfiguração imediata­mente depois do primeiro anúncio da Sua Paixão, e das palavras proféticas de que os Seus seguidores também teriam de tomar a Sua Cruz, fazem-nos compreender que «precisamos de passar por meio de muitas tribulações para entrar no Reino de Deus» (Act 14,22).

Em que consistiu a Transfiguração do Senhor? Para poder compreender de algum modo este facto miraculoso da vida de Cristo deve ter-se em conta que o Senhor, para nos redimir com a Sua Paixão e Morte, renunciou volunta­riamente à glória divina e encarnou com carne passível, não gloriosa, fazendo-se semelhante em tudo a nós menos no pecado (cfr Heb 4,15). Neste momento da Transfiguração, Jesus Cristo quer que a glória que Lhe correspondia por ser Deus, e que a Sua alma tinha desde o momento da Encarnação, apareça miraculosamente no Seu corpo. «Aprendamos desta atitude de Jesus: durante a Sua vida na Terra, não quis sequer a glória que Lhe pertencia, pois, tendo direito a ser tratado como Deus, assumiu a forma de servo, de escravo (cfr Phil II. 6)» (Cristo que. passa, n.° 62). Tendo em conta Quem encarna (a dignidade da pessoa e a glória da Sua alma), era conveniente a glória do corpo de Jesus. Mas tendo em conta para que encarna (a finalidade da Encarnação), não era conveniente, de modo habitual, tal glória. Cristo mostra a Sua glória na Transfiguração para nos mover ao desejo da glória divina que nos será dada, e assim, com esta esperança, compreendamos «que os padecimentos do tempo presente não são comparáveis com a glória futura que se há-de manifestar em nós» (Rom 8,18).

2. Segundo o Deuteronómio (19,15), para atestar um facto eram necessárias duas ou três testemunhas. Talvez por isso Jesus Cristo quis que estivessem presentes três Após­tolos. Deve notar-se que estes três Apóstolos foram os predilectos, que O acompanharam também na ressurreição da filha de Jairo (Mc 5,37), e estiveram mais perto d’Ele nos momentos tremendos de Getsémani (Mc 14,33). Cfr a nota a Mt 17,1-13.

7. Deste modo explica São Tomás o significado da Transfiguração: «Assim como no baptismo de Jesus, onde foi declarado o mistério da primeira regeneração, se mostrou a acção de toda a Trindade, já que ali esteve o Filho Encarnado, apareceu o Espírito Santo em forma de pomba, e ali se escutou a voz do Pai; assim também na Transfiguração, que é como que o sacramento da segunda regeneração (a ressurreição), apareceu toda a Trindade: o Pai na voz, o Filho no homem, e o Espírito Santo na claridade da nuvem; porque assim como Deus Trino dá a inocência no Baptismo, da mesma maneira dará aos Seus eleitos o fulgor da glória e o alívio de todo o mal na Ressurreição…» (Suma Teológica, III, q.45, a.4 ad 2). Porque, na verdade, a Transfiguração foi um certo sinal ou antecipação não só da glorificação de Cristo, mas também da nossa. Pois, como diz São Paulo: «O próprio Espírito dá testemunho juntamente com o nosso espírito de que somos filhos de Deus. E se somos filhos, também herdeiros: herdeiros de Deus, co-herdeiros de Cristo; desde que padeçamos com Ele, para sermos com Ele também glorificados» (Rom 8,16-17).

«O Amado»: Com esta expressão revela-se que Cristo é o Filho Unigênito do Pai, cumprindo as profecias do Antigo Testamento. Frei Luís de León comenta: «É Cristo O Amado, isto é, o que antes foi, e agora é e será para sempre a coisa mais amada de todas (…) porque nem uma criatura sozinha, nem as criaturas todas juntas, são de Deus tão amadas, e porque só Ele é o que tem verdadeiros adoradores de Si» (Os nomes de Cristo, livro 3, Amado).

10. A verdade da ressurreição dos mortos estava já revelada no Antigo Testamento (cfr Dan 12,2-3; 2 Mach 7,9; 12,43), e os judeus piedosos criam nela (cfr Ioh11,23-25). Não obstante, não eram capazes de compreender a verdade profunda da Morte e Ressurreição do Senhor, porque apenas consideravam o aspecto glorioso e triunfador do Messias, apesar de que também estavam profetizados os Seus sofrimentos e a Sua morte (cfr Is 53). Daí as disquisições dos Apóstolos que não se atrevem a perguntar directamente ao Senhor pela Sua Ressurreição.

05.03.2012 – Lc 6, 36-38.

36Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso. 37Não julgueis, e não sereis julgados. Não condeneis, e não sereis condenados. 38Absolvei, e sereis absolvidos. Dai, e dar-se-vos-á. Deitar-vos-ão no regaço uma boa medida, calcada, agitada, a transbordar, pois com a medida que empregardes vos será medido.

Comentário

36. O modelo de misericórdia que Cristo nos propõe é o próprio Deus. D’Ele diz São Paulo: «Bendito seja Deus Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai das misericórdias e Deus de toda a consolação, o qual nos consola em todas as nossas tribulações» (2 Cor 1,3-4). «A primeira excelência que tem esta virtude — explica Frei Luís de Granada — é tornar os homens semelhantes a Deus, e semelhantes na coisa mais gloriosa que há n’Ele, que é na misericórdia (Lc 6,36).

Porque é certo que a maior perfeição que pode ter uma criatura é ser semelhante ao seu Criador: e quanto mais tiver desta semelhança, tanto mais perfeita será. E é certo também que uma das coisas que mais propriamente convém a Deus é a misericórdia, como o significa a Igreja naquela oração que diz: Senhor Deus, de quem é próprio ter misericórdia e perdoar. E diz ser isto próprio de Deus, porque assim como à criatura, enquanto criatura, pertence ser pobre e necessitada (e por isto a ela pertence receber e não dar), assim pelo contrário, como Deus é infinitamente rico e poderoso, só a Ele por excelência pertence dar e não receber, e por isto d ‘Ele é próprio ter misericórdia e perdoar» (Livro da oração e meditação, terceira parte, tratado terceiro).

O comportamento do cristão há-de seguir esta norma: compadecer-se das misérias alheias como se fossem próprias e procurar remediá-las. Neste mesmo sentido a nossa Santa Mãe a Igreja concretizou-nos uma série de obras de misericórdia tanto corporais (visitar e cuidar os doentes, dar de comer ao faminto, dar de beber ao sequioso…), como espirituais (ensinar aquele que não sabe, corrigir o que erra, perdoar as injúrias…) (cfr Catecismo Maior, n.os 944-945). Também perante quem está no erro temos de ter com­preensão: «Este amor e benevolência de modo algum nos devem tornar indiferentes perante a verdade e o bem. Pelo contrário, é o próprio amor que incita os discípulos de Cristo a anunciar a todos a verdade salvadora. Mas deve distin­guir-se entre o erro, sempre de rejeitar, e aquele que erra, o qual conserva sempre a dignidade própria da pessoa, mesmo quando atingido por ideias religiosas falsas ou menos exactas. Só Deus é juiz e penetra os corações; por esse motivo, proibe-nos Ele de julgar da culpabilidade interna de qualquer pessoa» (Gaudium et spes, n. 28).

38. Lemos na Sagrada Escritura a generosidade da viúva de Sarepta, à qual Deus pediu que alimentasse o profeta Elias com o pouco que lhe restava; depois premiou a sua generosidade multiplicando-lhe a farinha e o azeite que tinha (1Reg 17,9 ss.). De maneira semelhante aquele menino que forneceu os cinco pães e os dois peixes, para que o Senhor os multiplicasse e alimentasse uma grande multidão (cfr Ioh 6,9), é um exemplo vivo do que o Senhor faz quando . entregamos o que temos, ainda que seja pouco.

Deus não Se deixa vencer em generosidade: «Vamos! Diz-Lhe com generosidade e como um menino: Que me irás dar quando me exiges ‘isso’?» (Caminho, n.° 153). «Por muito que demos a Deus nesta vida, mais nos dará o Senhor como prêmio na vida eterna. Mas a pessoa que tem no seu coração um tesouro de maldade faz exactamente o contrário: odeia os seus amigos, fala mal de quem o ama, e todas as outras coisas condenadas pelo Senhor» (In Lucae Evangelium expositio, II, 6).

06.03.2012 – Mt 23, 1-12.

Então Jesus falou assim ao povo e aos Seus discípulos: 2Na cadeira de Moisés, sentaram-se os Escribas e Fariseus. 3Fazei, portanto, e guardai tudo quanto vos disserem, mas não imiteis as suas obras, porque dizem e não fazem. 4Atam cargas pesadas e incomportaveis e põem-nas às costas da gente, mas eles nem com o dedo as querem mover. 5Fazem todas as suas obras para serem vistos dos homens. Por isso alargam as filactérias e alongam as franjas. 6Cobiçam os primeiros lugares nos banquetes, as pri­meiras cadeiras nas sinagogas 7e as sauda­ções nas praças, e que os homens lhes chamem: «rabi». 8Vós, porém, não queirais que vos chamem « rabi», pois um só é o vosso Mestre, e todos vós sois irmãos. 9E não chameis a ninguém vosso «pai» sobre a terra, pois um só é o vosso Pai, o do Céu. 10Nem queirais que vos chamem «directores», porque um só é o vosso Director, Cristo. 11O maior entre vós seja vosso servidor, 12pois quem se exaltar a si mesmo, será humilhado, e quem a si mesmo se humilhar, será exaltado.

Comentário

1-39. Todo este capítulo é uma dura acusação contra os escribas e fariseus, ao mesmo tempo que mostra a dor e a compaixão de Jesus pelas gentes simples, mal conduzidas por aqueles, «mal tratadas e abatidas como ovelhas sem pastor» (Mt 9,36). No discurso podem distin­guir-se três partes: na primeira (vv. 1-12) denuncia os seus principais vícios e corrupções; na segunda (vv. 13-36) encara-se com eles e dirige-lhes os célebres «ais», que vêm a ser como o reverso das bem-aventuranças do capítulo quinto: impossível será entrar no Reino dos Céus — ou o seu contrário, escapar da condenação do fogo — a quem não mude radicalmente de atitude e de conduta; na terceira parte (vv. 37-39) está a queixa contra Jerusalém: Jesus sente intimamente dor pelos males que acarreta ao povo a cegueira orgulhosa e a dureza de coração dos escribas e fariseus.

2-3. Moisés entregou ao povo a Lei que tinha recebido de Deus. Os escribas, que pertenciam na sua maioria ao partido dos fariseus, tinham a seu cargo ensinar ao povo a Lei mosaica: por isso se dizia deles que estavam sentados na cátedra de Moisés. O Senhor reconhece a autoridade com que os escribas e fariseus ensinam, enquanto transmitem a Lei de Moisés; mas previne o povo e os Seus discípulos acerca deles, distinguindo entre a Lei que eles lêem e ensinam nas sinagogas, e as interpretações práticas que eles mostram com a sua vida. Anos mais tarde São Paulo — fariseu, filho de fariseu —, manifestará acerca dos seus antigos colegas um juízo idêntico ao de Jesus: «Tu, porém, que ensinas outros, como não te ensinas a ti mesmo? Tu, que pregas que não se deve roubar, roubas? Tu, que dizes que não se deve cometer adultério, cometê-lo? Tu, que abominas os ídolos, saqueias os templos? Tu, que te glorias na Lei, será que não desonras Deus ao transgredir a Lei? Pois, como diz a Escritura, por vossa culpa é blasfemado o nome de Deus entre os gentios» (Rom2,21-24).

5. As filactérias eram fitas ou bandas em que escreviam palavras da Sagrada Escritura. Os israelitas punham-nas sobre a fronte e atadas aos braços. Para se distinguirem dos outros e parecer mais religiosos e observantes os fariseus levavam-nas mais largas. As franjas eram orlas de cor jacinto, postas nos remates das suas capas. Os fariseus em sinal de ostentação levavam-nas mais longas.

8-10. Jesus Cristo vem ensinar a Verdade; mais ainda, Ele é a Verdade (Ioh 14, 6). Daí a singularidade e o caracter único da sua condição de Mestre. «Toda a vida de Cristo foi um ensino contínuo: o Seu silêncio, os Seus milagres, os Seus gestos, a Sua oração, o Seu amor ao homem, a Sua predilecção pelos pequenos e pelos pobres, a aceitação do sacrifício total na Cruz pela salvação do mundo, a Sua Ressurreição são a actuação da Sua palavra e o cumprimento da revelação. De sorte que para os cristãos o Crucifixo é uma das imagens mais sublimes e populares de Jesus que ensina.

«Estas considerações, que estão na linha das grandes tradições da Igreja, reafirmam em nós o fervor por Cristo, o Mestre que revela Deus aos homens e o homem a si mesmo; o Mestre que salva, santifica e guia, que está vivo, que fala, que exige, que comove, que orienta, julga, perdoa, caminha diariamente connosco na história; o Mestre que vem e virá na glória» (Catechesi tradendae, n. 9).

11. Perante a apetência de honras que mostravam os fariseus, o Senhor insiste em que toda a autoridade, e com mais razão se é religiosa, deve ser exercida como um serviço aos outros. E, como tal, não pode ser instrumentalizada para satisfazer a vaidade ou a avareza pessoais. O ensino de Cristo é absolutamente claro: «O maior entre vós seja vosso servidor».

12. O espírito de orgulho e de ambição é incompatível com a condição de discípulo de Cristo. Com estas palavras o Senhor insiste na exigência da verdadeira humildade, como condição imprescindível para O seguir. Os verbos em voz passiva «será humilhado» e «será exaltado» têm como sujeito agente a Deus: Ele mesmo humilhará os soberbos e exaltará os humildes. Neste sentido a Epístola de São Tiago ensina que «Deus resiste aos soberbos e dá a Sua graça aos humildes» (lac 4,6). E no cântico do Magnificat, a Virgem Santíssima exclama que o Senhor «derrubou os poderosos do seu trono e exaltou os humildes» (Lc 1,52).

07.03.2012 – Mt 20, 17-28.

17Ao subir para Jerusalém, tomou Jesus os doze discípulos à parte e disse-lhes no caminho: 18Olhai, subimos a Jerusalém, e o Filho do homem será entregue aos Príncipes dos sacerdotes e Escribas, e eles condená-Lo-ão à morte. 19E hão-de entregá-Lo aos gentios, para O escarnecerem e flagelarem e crucificarem; mas ao terceiro dia ressus­citará.

20Aproximou-se então d’Ele a mãe dos filhos de Zebedeu, com seus filhos, e prostrou-se por terra para Lhe pedir alguma coisa. 21Disse-lhe Ele: Que queres? E ela: Ordena que estes meus dois filhos se sentem um à Tua direita, outro à Tua esquerda no Teu Reino. 22Respondeu Jesus e disse: Não sabeis o que pedis. Podeis beber o cálice que Eu hei-de beber? Responderam-Lhe: Podemos. 21Diz-lhes Ele: O Meu cálice bebê-lo-eis; agora o sentar-se à Minha direita ou à Minha esquerda, não Me toca a Mim concedê-lo, mas é para quem Meu Pai o tem preparado.

24Ao ouvirem isto, os dez indignaram-se contra os dois irmãos. 25Jesus, porém, chamou-os e disse: Sabeis que os soberanos das nações as tratam como senhores, e os grandes lhes fazem sentir o seu poder. 26Entre vós não é assim. Pelo contrário, o que entre vós quiser ser grande, faça-se vosso servo. 27E quem quiser entre vós ser o primeiro, faça-se vosso escravo. 28Do mesmo modo que o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a Sua vida em redenção por muitos.

Comentário

18-19. O Senhor volta a profetizar aos Apóstolos a Sua morte e ressurreição. A perspectiva de julgar o mundo (cfr Mt 19, 28) podia deslumbrá-los até pensarem num reino mes­siânico temporal, num caminho fácil, em que estivesse ausente a ignomínia da Cruz.

Cristo, além disso, prepara o ânimo dos Apóstolos para que quando chegue esta prova recordem que Ele a tinha profetizado, e esta recordação os ajude a superar o escândalo que padeceriam, O anúncio da Paixão é descrito com pormenor.

«Tudo o que as diversas manifestações de piedade nos trazem à memória nestes dias — diz Monsenhor Escrivá de Balaguer referindo-se à Semana Santa — se encaminha decerto para a Ressurreição, que é o fundamento da nossa fé, como escreve S. Paulo (cfr 1Cor 15,14). Mas não percorramos este caminho demasiado depressa; não deixemos cair no esquecimento alguma coisa muito simples, que por vezes parece escapar-nos: não poderemos participar da Ressur­reição do Senhor se não nos unirmos à Sua Paixão e à Sua Morte (cfr Rom 8,17). Para acompanhar Cristo na Sua glória no final da Semana Santa, é necessário que penetremos antes no Seu holocausto e que nos sintamos uma só coisa com Ele, morto no Calvário» (Cristo que passa, n.°95).

20. Os filhos de Zebedeu são Tiago Maior e João. A sua mãe, Salomé, pensando na instauração iminente do reino temporal do Messias, solicita para os filhos os dois lugares mais influentes. Cristo repreende-os porque desconhecem a verdadeira natureza do Reino dos Céus, que é espiritual, e porque ignoram a verdadeira natureza do governo na Igreja que ia fundar, que é serviço e martírio. «Se pensas que, ao trabalhar por Cristo, os cargos são algo mais do que cargas, quantas amarguras te esperam!» (Caminho, n.° 950).

22. «Beber o cálice» significa sofrer perseguições e martírio pelo seguimento de Cristo. «Podemos»: Os filhos de Zebedeu responderam audazmente que sim; esta generosa expressão evoca aquela outra que escreveria anos mais tarde São Paulo: «Tudo posso n’Aquele que me conforta» (Phil 4,13).

23. «O Meu cálice bebê-lo-eis»: Tiago Maior morrerá mártir em Jerusalém pelo ano 44 (cfr Act 12,2); e João, depois de ter sofrido cárcere e açoites em Jerusalém (cfr Act 4, 3; 5, 40-41), padecerá longo desterro na ilha de Patmos (cfr Apc 1, 9).

Destas palavras do Senhor deduz-se que o acesso aos lugares de governo na Igreja não deve ser fruto da ambição e das intrigas humanas, mas consequência da vocação divina. Cristo, que tinha os olhos postos em cumprir a Vontade de Seu Pai Celeste, não ia distribuir os cargos levado por considerações humanas, mas segundo os desígnios do Pai.

26. O Concilio Vaticano II insiste de uma maneira notável neste aspecto de serviço que a Igreja oferece ao mundo, e que os cristãos hão-de apresentar como testemunho da sua identidade cristã: «Este sagrado Concilio, procla­mando a sublime vocação do homem, e afirmando que nele está depositado um germe divino, oferece ao gênero humano a sincera cooperação da Igreja, a fim de instaurar a frater­nidade universal que a esta vocação corresponde. Nenhuma ambição terrena move a Igreja, mas unicamente este objectivo: continuar, sob a direcção do Espírito Consolador, a obra de Cristo que veio ao mundo para dar testemunho da verdade, para salvar e não para julgar, para servir e não para ser servido» (Gaudium et spes, n. 3; cfr Lumen gentium, n. 32; Ad gentes, n. 12; Unitatis redintegratio, n. 7).

27-28. Jesus Cristo apresenta-Se a Si mesmo como exemplo que deve ser imitado por aqueles que exercem a autoridade na Igreja. Ele, que é Deus e Juiz que há-de vir a julgar o mundo (cfr Phil 2,5-11; Ioh 5,22-27; Act 10,42; Mt28, l 8), não Se impõe, mas serve-nos por amor até ao ponto de entregar a vida por nós (cfr Ioh15,1.3): esta é a Sua forma de ser o primeiro. Assim o entendeu São Pedro, que exorta os presbíteros a que apascentem o rebanho de Deus a eles confiado, não como dominadores sobre a herança, mas servindo de exemplo (cfr 1Pet 5, 1-3); e São Paulo, que não estando submetido a ninguém, se faz servo de todos para a todos ganhar (cfr 1Cor 9, 19 ss; 2 Cor 4, 5).

O «serviço» de Cristo à humanidade vai encaminhando para a salvação. Com efeito, a frase «dar a vida em redenção por muitos» não deve ser interpretada como uma restrição da vontade salvífica universal de Deus. «Muitos» aqui não se contrapõe a «todos» mas a «um»: Um é o que salva e a todos é oferecida a salvação.

08.03.2012 – Lc 16, 19-31.

19Havia um homem rico que se vestia de púrpura e linho fino e todos os dias se dava esplêndidas festas. 20Jazia ao seu portão, Lázaro coberto de chagas, um pobre chamado Lá­zaro, 21que bem desejava saciar-se do que caía da mesa do rico. E até os cães lhe vinham lamber as chagas. 22Ora o pobre morreu e foi levado pelos Anjos ao seio de Abraão. Morreu também o rico e foi sepultado. 23E, no outro mundo, achando-se em tormentos, ergueu os olhos e viu de longe a Abraão, e Lázaro em seu seio. 24Então ergueu a voz e disse: «Pai Abraão, tem dó de mim e envia Lázaro para que molhe em água a ponta do dedo e me refresque a língua, porque sou atormentado nestas chamas». 25«Filho — respondeu Abraão — lembra-te que recebeste os teus benefícios em vida, e Lázaro de igual modo os infortúnios. E agora, ele é aqui consolado, enquanto tu és ator­mentado. 26Além de tudo isso, entre nós e vós cava-se um grande abismo, de modo que não podem os que quiserem, passar daqui para junto de vós, nem atravessar daí para junto de nós». 27Ele retorquiu: «Peço-te então, ó pai, que o mandes à minha casa paterna, pois tenho cinco irmãos; 28que os previna, para não virem, eles também, para este lugar de tormento». 29Disse-lhe Abraão: «Têm Moisés é os Profetas; que os oiçam!». 30Ele, porém, replicou: «Não, pai Abraão, mas, se alguém do seio dos mortos for ter com eles, hão-de arrepender-se». 3lEste respondeu-lhe: «Uma vez que não ouvem Moisés e os Pro­fetas, tão-pouco se hão-de convencer, se res­suscitar alguém dentre os mortos».

Comentário

19-31. A parábola dissipa dois erros: o dos que negavam a sobrevivência da alma depois da morte e, portanto, a retribuição ultraterrena, e o dos que interpretavam a pros­peridade material nesta vida como prêmio da rectidão moral, e a adversidade, pelo contrário, como castigo. Perante este duplo erro a parábola deixa claros os seguintes ensinamentos: que imediatamente depois da morte a alma é julgada por Deus de todos os seus actos — juízo particular —, recebendo o prêmio ou o castigo merecidos; que a Revelação divina é, de per si, suficiente para que os homens creiam no mais além.

Noutra ordem de ideias, a parábola ensina também a dignidade de toda a pessoa humana pelo tacto de o ser, independentemente da sua posição social, econômica, cul­tural, religiosa, etc. E o respeito por essa dignidade leva consigo a ajuda ao desprotegido de bens materiais ou espiri­tuais: «Vindo a conclusões práticas e mais urgentes, o Con­cilio recomenda a reverência para com o homem, de ma­neira que cada um deve considerar o próximo, sem excepção, como um outro eu, tendo em conta, antes de mais, a sua vida e os meios necessários para a levar dignamente, não imitando aquele homem rico que não fez caso algum do pobre Lázaro» (Gaudium et spes, n. 27).

Outra consequência prática do respeito pelo homem é a correcta distribuição de bens materiais, buscando ao mesmo tempo os recursos suficientes para defender a vida do homem, inclusivamente a do que ainda não nasceu, como exortava Paulo VI diante da Assembleia Geral das Nações Unidas: «Na vossa assembleia, inclusive no que diz respeito ao problema da natalidade, é onde o respeito pela vida deve encontrar a sua mais alta profissão e a sua mais razoável defesa. A vossa tarefa é actuar de tal sorte que o pão seja suficientemente abundante na mesa da humanidade e não favorecer um controle artificial dos nascimentos, que seria irracional, tendo em vista diminuir o número de comensais no banquete da vida». (Discurso Nações Unidas, n.° 6).

21. A alusão aos cães não parece um pormenor de alívio para o pobre Lázaro, mas antes uma intensificação das suas dores, em contraste com os prazeres do rico avarento, porque os cães, entre os judeus, eram animais impuros e, portanto, ordinariamente não se domesticavam.

22-26. Os bens terrenos, como também os sofrimentos, são efêmeros: acabam-se com a morte, com a qual também termina o tempo de provação, a nossa possibilidade de pecar ou de merecer; e começa imediatamente o gozo do prêmio ou o sofrimento do castigo, ganhos durante a prova da vida. Segundo definiu o Magistério da Igreja, as almas de todos os que morrem em graça de Deus, imediatamente depois da sua morte, ou da purificação para os que dela precisarem, estarão no Céu: «Cremos na vida eterna. Cremos que as almas de todos aqueles que morrem na graça de Cristo — tanto as que ainda devem ser purificadas pelo fogo do Purgatório como as que imediatamente depois de se separarem do corpo, como o bom ladrão, são recebidas por Jesus no Paraíso — constituem o Povo de Deus depois da morte, a qual será destruída totalmente no dia da Ressurreição em que estas almas se unirão com os seus corpos» (Credo do Povo de Deus, n.° 28).

A expressão « seio de Abraão» indica o lugar ou estado em «que residiam as almas dos santos antes da vinda de Cristo Senhor Nosso, onde, sem sentir dor alguma, sustentados com a esperança ditosa da redenção, desfrutavam de pací­fica morada. A estas almas piedosas que estavam à espera do Salvador no seio de Abraão, libertou Cristo Nosso Senhor ao baixar aos infernos» (Catecismo Romano, l, 6,3).

22. «Morreram os dois, o rico e o mendigo, e foram levados diante de Abraão e fez-se o juízo do seu comporta mento. E a Escritura diz-nos que Lázaro recebeu consolação e, pelo contrário, ao rico foram dados tormentos. Será que o rico foi condenado porque tinha riquezas, porque abundava em bens da terra, porque ‘vestia de púrpura e linho e celebrava cada dia esplêndidos banquetes’? Não, quero dizer que não foi por esta razão. O rico foi condenado porque não ajudou o outro homem. Porque nem sequer se deu conta de Lázaro, da pessoa que se sentava ao seu portal e ansiava pelas migalhas da sua mesa. Em nenhum lugar condena Cristo a mera posse de bens terrenos enquanto tal. Pelo contrário, pronuncia palavras muito duras contra os que utilizam os bens egoisticamente, sem se fixarem nas necessidades dos outros (…).

«A parábola do rico avarento e do pobre Lázaro deve estar sempre presente na nossa memória; deve formar-nos a consciência. Cristo pede abertura para os irmãos e irmãs necessitados; abertura de parte do rico, do opulento, do que está abastado economicamente; abertura para o pobre, o subdesenvolvido, o desprotegido. Cristo pede uma abertura que é mais que atenção benigna, ou mostras de atenção ou meio-esforço, que deixam o pobre tão desprotegido como antes ou inclusivamente mais (…).

«Não podemos permanecer ociosos desfrutando as nossas riquezas e liberdade se nalgum lugar o Lázaro do século XX está à nossa porta. À luz da parábola de Cristo, as riquezas e a liberdade criam responsabilidades especiais. As riquezas e a liberdade criam uma obrigação especial. E, por isso, em nome da solidariedade que nos vincula a todos numa única humanidade, proclamo de novo a dignidade de toda a pessoa humana; o rico e Lázaro, os dois, são seres humanos, criados os dois à imagem e semelhança de Deus, redimidos os dois por Cristo por grande preço, pelo preço do ‘precioso Sangue de Cristo’. (1Pet 1,19)» (Homília Yankee Stadium).

24-31. O diálogo entre o rico avarento e Abraão é uma encenação didática para gravar nos ouvintes os ensina­mentos da parábola. Assim, em sentido estrito, no inferno não pode haver compaixão alguma em favor do próximo, já que ali só reina a lei do ódio contra tudo e contra todos. «Quando Abraão disse ao rico: ‘Entre vós e nós existe um abismo (…)’, manifestou que depois da morte e ressurreição não haverá lugar para penitência alguma. Nem os ímpios se arrependerão e entrarão no Reino, nem os justos pecarão e baixarão para o inferno. Este é um abismo intransponível» (A frates, Demonstratio, 20; De Sustentatione egenorum, 12). Por isso se compreendem as seguintes palavras de São João Crisóstomo: «Rogo-vos e peco-vos e, abraçado aos vossos pés, suplico-vos que, enquanto gozemos desta pequena res­piração da vida, nos arrependamos, nos convertamos, nos tornemos melhores, para que não nos lamentemos inutil­mente como aquele rico quando morrermos e o pranto não nos traga remédio algum. Porque ainda que tenhas um pai ou um filho ou um amigo ou qualquer outro que tenha influência diante de Deus, todavia, ninguém te livrará, sendo como são os teus próprios factos que te condenam» (Hom. sobre 1 Cor).

09.03.2012 – Mt 21, 33-43.45-46.

33Ouvi outra parábola: Havia um proprie­tário que plantou uma vinha, e rodeou-a com uma cerca, e cavou nela um lagar, e levantou uma torre; depois arrendou-a a uns lavradores e partiu para longe. 34Quando se homicidas aproximou a época das colheitas, mandou os seus servos aos lavradores para receber os frutos. 35Os lavradores, porém, pegaram nos servos e espancaram a um, mataram a outro e a outro apedrejaram. 36Tornou ele a mandar outros servos em maior número que os primeiros. E eles trataram-nos do mesmo modo. 37Por fim mandou-lhes o seu próprio filho, dizendo: «Hão-de respeitar o meu filho». 38Mas os lavradores, ao verem o filho, disseram entre si: «Este é o herdeiro, vamos matá-lo e ficaremos com a sua herança!»39E sem mais, pegaram nele, lançaram-no fora da vinha e mataram-no. 40Ora, quando vier o dono da vinha, que fará àqueles lavradores?

41Responderam-Lhe: Fará morrer de má morte os malvados e arrendará a vinha a outros lavradores que lhe paguem os frutos a seu tempo.42Disse-lhes Jesus: Nunca lestes nas Escrituras:

«A pedra que os construtores rejeitaram, essa veio a ser pedra angular?

Isto é obra do Senhor e é maravilha a nossos olhos?»

43Por isso vos digo que vos será tirado o Reino de Deus e dado a um povo que produza os seus frutos.

45Ouvindo as Suas parábolas, os Príncipes dos sacerdotes e os Fariseus compreenderam que falava deles 46e queriam prendê-Lo, mas tiveram medo do povo, que O tinha por profeta.

Comentário

33-46. Esta parábola, tão importante, completa a anterior. A parábola dos dois filhos limitava-se a mostrar o facto da indocilidade de Israel; a dos vinhateiros homicidas projecta a sua luz sobre o castigo consequente.

O Senhor compara Israel com uma vinha escolhida, provida segundo o uso oriental da sua cerca, do seu lagar, com a sua torre de vigilância algo elevada, onde se coloca o guardião encarregado de proteger a vinha contra os ladrões e os chacais. Deus não regateou nada para cultivar e embelezar a sua vinha. Os vinhateiros, na parábola, são colonos; o dono é Deus, e a vinha é Israel (Is 5,3-5; ler 2,21; Ioel 1, 7).

Os vinhateiros a quem Deus tinha entregado o cuidado do Seu povo representam os sacerdotes, escribas e anciãos. A ausência do dono dá a entender que Deus confiou realmente Israel aos seus chefes; e daqui nasce a sua responsabilidade e contas exigidas pelo dono da vinha.

O dono envia os seus servos de vez em quando para receber os seus frutos. Esta foi a missão dos profetas. O segundo envio dos servos para reclamar o que deviam ao seu dono, e que corre a mesma sorte que o primeiro, é uma alusão aos maus tratos infligidos aos profetas de Deus pelos reis e sacerdotes de Israel (Mt 23, 37; Act 7, 42; Heb 11, 36-38). Finalmente enviou-lhes o Seu Filho, pensando que, sem dúvida, O respeitariam. Aqui é assinalada a diferença entre Jesus e os profetas, que eram servos, mas não «o Filho»: a parábola refere-se à filiação transcendente e única que expressa a divindade de Jesus Cristo.

A intenção perversa dos vinhateiros de assassinar o filho herdeiro, para ficarem eles com a herança, é o desatino com que os chefes da sinagoga esperam ficar como donos indiscutíveis de Israel ao matarem Cristo (Mt 12, 14: 26, 4). Não pensam no castigo: a ambição cega-os. Então «lançaram-no fora da vinha e mataram-no»: referência à crucifixão que teve lugar fora dos muros de Jerusalém.

Jesus Cristo profetiza o castigo que Deus imporá aos malvados: dar-lhes-á morte, e arrendará a vinha a outros. Estamos diante de uma profecia da máxima importância: São Pedro repetirá mais tarde diante do sinédrio: «a pedra que os construtores rejeitaram, esta veio a ser pedra angular» (Act 4, 11; 1Pet 2,4). A pedra é Jesus de Nazaré, mas os arquitectos de Israel, os que constroem e governam o povo, não quiseram usá-la na construção. Por isso, por causa da sua infidelidade, o Reino de Deus será transferido para outro povo, os gentios, que saberão dar a Deus os frutos que Ele espera da sua vinha (cfr Mt 3,8-10; Gal 6, 16).

É necessário assentar sobre esta pedra para estar solidamente edificado. E infeliz o que tropece nela (Mt 12,30; Lc2,34). Aqueles judeus primeiro e depois todos os inimigos de Cristo e da Igreja comprová-lo-ão com dura experiência (Is 8,14-15).

Os cristãos de todos os tempos deverão considerar esta parábola como uma exortação a construir com fidelidade sobre Cristo, para não reincidir no pecado daquela geração judaica. Ao mesmo tempo deve encher-nos de esperança e de segurança: ainda que o edifício, que é a Igreja, pareça fender-se em algum momento, a sua solidez está assegurada, porque tem Cristo como pedra angular.

10.03.2012 – Lc 15, 1-3.11-32.

Ora os publicanos e os pecadores aproximavam-se todos de Jesus para O ouvirem. 2E os Fariseus e os Escribas murmuravam entre si, dizendo: Este homem acolhe os pecadores e come com eles. 3Pro­pôs-lhes então a seguinte parábola: 11Certo homem tinha dois filhos. 12E o mais novo dentre eles disse ao pai: «Pai, dá-me a parte que me cabe da fortuna». E ele repartiu-lhes os bens. 13Alguns dias depois, o filho mais novo, reunindo tudo, ausentou-se para uma região longín­qua e por lá esbanjou os seus bens, vivendo dissipadamente. 14Depois de haver gastado tudo, houve uma grande fome por aquela região, e ele começou a passar privações. 15Foi então ligar-se a um dos habitantes daquela região, o qual o mandou para os seus campos guardar porcos. 16Bem desejava ele encher o ventre com as alfarrobas que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava. 17Então caiu em si e disse: «Quantos jornaleiros de meu pai têm pão com fartura, e eu morro aqui à fome! 18Vou ter com meu pai e digo-lhe: Pai, pequei contra o Céu e para contigo. 19Já não sou digno de cha­mar-me teu filho. Trata-me como um dos teus jornaleiros». 20Partiu, pois, e foi ter com o pai.

Estando ele ainda longe, viu-o o pai, e encheu-se de compaixão e correu a lançar-se-lhe ao pescoço, beijando-o. 21Disse-lhe o filho: «Pai, pequei contra o Céu e para contigo. Já não sou digno de chamar-me teu filho». 22Disse o pai aos seus criados: «Trazei depressa o fato melhor e vesti-lho; ponde-lhe um anel na mão, e calçado nos pés. “Trazei o vitelo gordo, matai-o; e comamos em festa, 24porque este meu filho estava morto e voltou à vida, estava perdido e encontrou-se». E começaram com a festa.

25Ora o filho mais velho estava no campo. Quando, à volta, se aproximou da casa, ouviu música e danças. 26Chamando um dos moços, pediu-lhe informações sobre o que era aquilo. 27«É que chegou teu irmão — lhe disse este — e teu pai matou o vitelo gordo, porque de regresso o encontrou com saúde.» 28Ele ficou irritado e não queria entrar. O pai veio cá fora instar com ele. 29Mas ele, em resposta, disse ao pai: «Há já tantos anos que te sirvo sem nunca transgredir uma ordem tua, e tu nunca me deste um cabrito, para eu fazer uma festa com os meus amigos! 30Mas, quando chegou esse teu filho, que te consumiu a fortuna com meretrizes, mataste-lhe o vitelo gordo». 31O pai respondeu-lhe: «Filho, tu sempre estás comigo e tudo o que é meu é teu. 32Mas nós tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e voltou à vida, estava perdido e encontrou-se».

 

Comentário

1-32. Com as Suas obras Jesus manifesta a misericórdia divina: aproxima-Se dos pecadores para os converter. Os escribas e os fariseus, que desprezam os pecadores, não compreendem esse comportamento de Jesus, e murmuram d’Ele; será ocasião para que Nosso Senhor pronuncie as parábolas da misericórdia. «O Evangelista que trata de modo particular estes temas do ensino de Cristo é São Lucas, cujo Evangelho mereceu ser chamado ‘o Evan­gelho da misericórdia’» (Dives in misericórdia, n. 3).

Neste capítulo São Lucas recolhe três destas parábolas, em que de modo gráfico Jesus descreve a infinita e paterna misericórdia de Deus, e a Sua alegria pela conversão do pecador.

O Evangelho ensina que ninguém está excluído do per dão, e que os pecadores podem chegar a ser filhos que­ridos de Deus mediante o arrependimento e a conversão. E é tal o desejo divino de que os pecadores se convertam que as três parábolas terminam repetindo, a modo de estribilho, a alegria grande no Céu por cada pecador arrependido.

1-2. Não é esta a primeira vez que publicanos e peca­dores se aproximam de Jesus (cfr Mt 9,10). A pregação do Senhor atraía pela sua simplicidade e pelas suas exigências de entrega e de amor. Os fariseus tinham-Lhe inveja porque a gente ia atrás d’Ele (cfr Mt 26,3-5; Ioh 11,47). Essa atitude farisaica pode repetir-se entre os cristãos: uma dureza de juízo tal que não aceite que um pecador, por maiores que tenham sido os seus pecados, possa converter-se e ser santo; uma cegueira de mente tal que impeça reconhecer o bem que fazem os outros e alegrar-se disso. Nosso Senhor já vai ao encontro desta atitude errada quando responde aos Seus discípulos que se queixam de que outros expulsem demônios em Seu nome: «Não lho proibais, pois não há ninguém que faça um milagre em Meu nome e possa a seguir falar mal de Mim» (Mc 9,39). Igualmente São Paulo alegrava-se de que outros anunciassem Cristo, e inclusivamente passava por alto que o fizessem por interesse, desde que Cristo fosse pregado (cfr Phil 1,17-18).

11. Estamos perante uma das parábolas mais belas de Jesus, em que nos é ensinado uma vez mais que Deus é um Pai bom e compreensivo (cfr Mt 6,8; Rom 8,15; 2 Cor 1,3). O filho que pede a parte da sua herança é figura do homem que se afasta de Deus por causa do pecado. Nesta parábola «a essência da misericórdia divina — embora no texto origi­nal não seja usada a palavra ‘misericórdia’ — aparece de modo particularmente límpido» (Dives in misericórdia, n. 5).

12-13. «Este filho, que recebe do pai a parte da herança que lhe toca e deixa a casa paterna para esbanjar essa herança numa terra longínqua ‘vivendo dissolutamente’, em certo sentido é o homem de todos os tempos, a começar por aquele que foi o primeiro a perder a herança da graça e da justiça original. Neste ponto a analogia é muito vasta. Indirectamente a parábola estende-se a todas as rupturas da aliança de amor: a toda a perda da graça, e todo o pecado» (Dives in misericórdia, n. 5).

14-15. Neste momento da parábola vemos as tristes consequências do pecado. Com essa fome fala-se-nos da ansiedade e do vazio que sente o coração do homem quando está longe de Deus. Com a servidão do filho pródigo é-nos descrita a escravidão a que fica submetido quem pecou (cfr Rom 1, 25;6,6; Gal 5,1). Assim, pelo pecado o homem perde a liberdade dos filhos de Deus (cfr Rom 8,21; Gal 4,31; 5,13) e submete-se ao poder de Satanás.

17-21. A recordação da casa paterna e a segurança no amor do pai fazem que o filho pródigo reflicta e decida pôr-se a caminho. «De certo modo, a vida humana é um constante regresso à casa do Pai, um regresso mediante a contrição, a conversão do coração que significa o desejo de mudar, a decisão firme de melhorar a nossa vida e que, portanto, se manifesta em obras de sacrifício e de doação; regresso a casa do Pai, por meio do sacramento do perdão, em que, ao confessar os nossos pecados, nos revestimos de Cristo e nos tornamos assim seus irmãos, membros da família de Deus» (Cristo que passa, n.° 64).

20-24. Deus espera sempre o regresso do pecador e quer que se arrependa. Quando chega O filho pródigo as palavras do pai não são de repreensão mas de imensa compaixão, que o leva a abraçar o filho e a cobri-lo de beijos.

20. «Não há dúvida de que, naquela simples, mas pene­trante comparação, a figura do pai revela-nos Deus como Pai» (…). O pai do filho pródigo é pela sua paternidade, fiel ao amor que desde sempre tinha dedicado ao seu filho. Tal fidelidade manifesta-se na parábola não apenas na prontidão em rece­bê-lo em casa, quando ele voltou depois de ter esbanjado a herança, mas sobretudo na alegria e no clima de festa tão generoso para com o esbanjador que regressa. Esta atitude provoca até a inveja do irmão mais velho, que nunca se tinha afastado do pai, nem abandonado a casa paterna.

«A fidelidade a si próprio por parte do pai — traço caracte­rístico já conhecido pelo termo do Antigo Testamento ‘hesed’ — exprime-se de modo particularmente denso de afecto. Lemos, com efeito, que, ao ver o filho pródigo regressar a casa, o pai, ‘movido de compaixão, correu ao seu encontro, abraçou-o efusivamente e beijou-o’. Procede deste modo levado certamente por profundo afecto; e assim se explica também a sua generosidade para com o filho, generosidade que causará tanta indignação no irmão mais velho» (Dives in misericórdia, n. 6).

«Perante um Deus que corre para nós, não podemos calar-nos e dir-Lhe-emos com São Paulo: Abba, Pater! (Rom 8, 15). Pai! Meu Pai! Pois, sendo Ele o Criador do universo, não dá importância a títulos altissonantes, nem sente falta da justa confissão do seu poderio. Quer que Lhe chamemos Pai, que saboreemos essa palavra, enchendo a alma de alegria (…).

«Deus espera-nos como o pai da parábola, estendendo para nós os braços, embora não o mereçamos. Não importa o que lhe devemos. Como no caso do filho pródigo, o que é preciso é que lhe abramos o coração, que tenhamos sau­dades do lar paterno, que nos maravilhemos e nos alegremos perante o dom que Deus nos fez de nos podermos chamar e sermos realmente, apesar de tanta falta de correspondência da nossa parte, seus filhos» (Cristo que passa, n.° 64).

25-30. A misericórdia de Deus é tão grande que escapa à compreensão do homem; e este é o caso do filho mais velho, que considera excessivo o amor do pai para com o filho mais novo; a sua inveja não o deixa compreender as manifestações de amor que o pai mostra ao recuperar o filho perdido, nem compartilhar a alegria da família. «É verdade que foi pecador. — Mas não faças dele esse juízo inabalável. — Abre o coração à piedade, e não te esqueças de que ainda pode vir a ser um Agostinho, enquanto tu não passas de um medíocre» (Caminho, n.° 675).

Por outro lado, devemos considerar que se Deus tem compaixão dos pecadores, quanto mais terá dos que se esforçam por permanecer fiéis. Bem o compreendia Santa Teresinha de Lisieux: «Que doce alegria a de pensar que o Senhor é justo, isto é, que conta com as nossas debilidades, que conhece perfeitamente a fragilidade da nossa natureza! Por quê, pois, temer? O bom Deus, infinitamente justo, que Se dignou perdoar com tanta misericórdia as culpas do filho pródigo, não será também justo comigo que estou sempre junto d’Ele?» (História de uma alma, cap. 8).

32. «A misericórdia apresentada por Cristo na parábola do filho pródigo tem a característica interior do amor, que no Novo Testamento é chamado ‘agape’. Este amor é capaz de debruçar-se sobre todos os filhos pródigos, sobre qualquer miséria humana e, especialmente, sobre toda a miséria moral, sobre o pecado. Quando isto acontece, aquele que é objecto da misericórdia não se sente humilhado, mas como que reencontrado e ‘revalorizado’. O pai manifesta-lhe alegria, antes de mais por ele ter sido ‘reencontrado’ e por ter ‘voltado à vida’. Esta alegria indica um bem que não foi destruído: o filho, embora pródigo, não deixa de ser real­mente filho de seu pai. Indica ainda um bem reencontrado: no caso do filho pródigo, o regresso à verdade sobre si próprio» (Dives in misericórdia, n. 6).

 

11.03.2012 – Jo 2, 13-25.

13Estava próxima a Páscoa dos Judeus, e Jesus subiu a Jerusalém. 14Encontrou no Templo os vendedores de bois, de ovelhas e de pombas, e os cambistas abancados. 15Fez um chicote de cordas e a todos expulsou do Templo, incluindo as ovelhas e os bois; des­pejou os trocos dos banqueiros, derribando-lhes as mesas, 16e disse aos que vendiam as pombas: Tirai isto daqui; não façais da casa de Meu Pai casa de comércio, 17lembra­ram-se os discípulos de que estava escrito: Devorar-Me-á o zelo pela Tua casa. 18Tomaram então os Judeus a palavra e perguntaram-Lhe: Que sinal nos apresentas para assim procederes? 19Respondeu-lhes Jesus: Desfazei este Santuário e Eu em três dias o levantarei. 20Disseram então os Judeus: Há quarenta e seis anos que se tem estado a construir este Santuário, e Tu em três dias o hás-de levantar? 21Ele, porém, dizia isto a respeito do Santuário do Seu corpo. 22Por isso, quando ressuscitou dos mortos, recor­daram-se os discípulos de que Ele o tinha dito e acreditaram na Escritura e na palavra que Jesus pronunciara.

23Enquanto Ele estava em Jerusalém, pela festa da Páscoa, muitos acreditaram no Seu nome, ao verem os milagres que fazia. 24Mas Jesus, pessoalmente, não se fiava neles, por­que os conhecia a todos 25e não precisava de que Lhe dessem informações de homem algum. É que Ele bem sabia o que há no homem!

Comentário

13. «Páscoa dos Judeus»: Era a festa religiosa mais importante do povo do Antigo Testamento, prefiguração da Páscoa cristã (cfr a nota a Mt 26,2). A Páscoa judaica cele­brava-se no dia 14 do mês de Nisan e a seguir vinha a semana festiva dos Ázimos (pão sem fermento). Segundo a Lei de Moisés, em tais dias todo o israelita devia «apresentar-se diante do Senhor» (Ex 34,23; Dt 16,16). Isto explica o pie­doso costume da peregrinação ao Templo de Jerusalém para estas festas, a grande aglomeração de gente e a afluência de vendedores, que abasteciam as necessidades dos peregrinos, mas que davam lugar a sérios abusos.

«Jesus subiu a Jerusalém»: Com isso faz manifestação pública da Sua observância da Lei de Deus. Mas, segundo mostram os factos que acontecem a seguir, vê-se que Jesus Cristo acorre ao Templo como quem é: o Filho Unigênito, que deve velar pelo decoro e pela honra devidos à Casa de Seu Pai. «E desde então Jesus, o Ungido de Deus, começa sempre por reformar os abusos e purificar do pecado; tanto quando visita a Sua Igreja, como quando visita a alma cristã» (Orígenes, Homílias sobre São João, 1).

14-15. Todo o israelita tinha de oferecer como sacrifício na festa da Páscoa um boi ou uma ovelha, se era rico; ou duas rolas ou dois pombos, se era pobre (Lev 5,7). Além disso, devia pagar cada ano meio siclo, se tinha feito os 20 anos. O meio siclo, que equivalia ao jornal de um operário, era uma moeda especial, chamada também moeda do Templo (Ex 30,13); as outras moedas em uso (denários, dracmas, etc.), por levarem impressas a efígie de autoridades pagãs, eram consideradas impuras. Por ocasião da Páscoa, quando o concurso de gente era maior, o átrio exterior do Templo ou pátio dos gentios enchia-se de vendedores, cambistas, etc., com as consequências imagináveis: ruído, vozearia, mugidos, estéreo… Já os profetas tinham fustigado tal abuso (cfr Zach 14,21) introduzido com a autorização tácita das autoridades do Templo, que obtinham assim boas receitas. Cfr as notas a Mt 21,12-13 e a Mc 11,15-18.

16-17. «Devorar-me-á o zelo pela Tua casa»: Trata-se de uma citação do Salmo 69,10. Jesus acaba de fazer uma afirmação transcendente: «Não façais da casa de Meu Pai casa de comércio». Ao chamar a Deus Seu Pai e ao actuar com grande fortaleza, proclama-Se diante de todos o Messias Filho de Deus. O zelo de Jesus pela glória de Seu Pai não passou despercebido aos discípulos, que viram na Sua con­duta cumpridas as palavras do Salmo 69.

18-22. O Templo de Jerusalém, que tinha substituído o antigo Santuário que os israelitas transportavam no deserto, era o lugar escolhido por Deus durante o Antigo Testa­mento para manifestar de uma maneira especial a Sua presença no meio do povo. Mas essa realidade antiga era apenas uma figura ou antecipação imperfeita da realidade plena da presença de Deus entre os homens, que é o Verbo de Deus feito carne. Jesus, em que «habita toda a plenitude da divindade corporalmente» (Col 2,9), é a plena presença de Deus aqui na terra e, portanto, o verdadeiro Templo de Deus. Jesus identifica o Templo de Jerusalém com o Seu próprio Corpo, e deste modo refere-Se a uma das verdades mais profundas sobre Si mesmo: a Encarnação. Depois da Ascen­são do Senhor aos Céus essa presença real e especialíssima de Deus no meio dos homens continua no sacramento da Santíssima Eucaristia.

O comportamento e as expressões de Cristo quando ex­pulsava os vendedores do Templo manifestam claramente que Ele é o Messias anunciado pelos profetas. Por isto se aproximam alguns judeus e Lhe pedem um sinal do Seu poder (cfr Mt 16,1; Mc 8,11; Lc 11,29). As autoridades judai­cas tentaram transformar a resposta de Jesus (v. 20), que ficou obscura até ao momento da Sua Ressurreição, numa invectiva contra o Templo, digna da pena de morte (Mt 26,61; Mc 14,58; cfr ler 26,4 ss.); utilizaram-na depois com sarcasmo contra o Senhor agonizante na Cruz (Mt 27,40; Mc 15,29) e, mais tarde, bastou-lhes ouvi-la repetir a Santo Estevão para o acusarem perante o Sinédrio (Act 6,14).

Nas palavras pronunciadas por Jesus não há nada depre­ciativo, como pretenderiam depois as falsas testemunhas. O milagre que lhes oferece, a que chama «o sinal de Jonas» (cfr Mt 16,4) será a Sua própria Ressurreição ao terceiro dia. Para indicar a grandiosidade do milagre da Sua Ressur­reição, Jesus recorre a uma metáfora: é como se dissesse: Vedes este Templo? Pois bem, imaginai-o destruído. Não seria um grande milagre reconstruí-lo em três dias? Isto farei Eu como sinal. Porque vós destruireis o Meu Corpo, que é o Templo verdadeiro, e Eu o voltarei a levantar ao terceiro dia.

A declaração de que Jesus é o Templo de Deus ficou encoberta para todos. Judeus e discípulos pensaram que o Senhor falava de voltar a edificar o Templo que Herodes o Grande tinha começado a construir no ano 19-20 a.C. Os discípulos entenderam depois o verdadeiro sentido da ex­pressão.

23-25. Os milagres de Jesus levaram muitos judeus a reconhecer que n’Ele havia uns poderes divinos e extraor­dinários. Mas isto não é ainda a perfeita fé teologal. Jesus conhecia a limitação daquela fé. Além disso, a adesão dos judeus mostrava-se geralmente superficial, ávida de mani­festações extraordinárias. Por isso Jesus desconfia deles (cfr Ioh6,15.26). «Muitos agora são iguais. Têm o nome de fiéis, mas são volúveis e inconstantes», comenta o Crisóstomo (Hom. sobre S. João, 23,1).

O conhecimento que Jesus tem do interior do homem é uma prova mais da Sua divindade. Assim, por exemplo, Natanael e a samaritana reconheceram-No como o Messias, rendidos diante da evidência do poder sobrenatural que Jesus Cristo mostrava ao conhecer a sua intimidade (cfr Ioh1,49:4,29).

12.03.2012 – Lc 4, 24-30.

24E continuou: Em verdade vos digo: Nenhum profeta é bem recebido na sua terra; 25mas, na realidade, vos digo Eu, muitas viúvas havia em Israel no tempo de Elias, quando o céu se fechou por três anos e seis meses e houve uma grande fome em toda a Terra, 26e a nenhuma delas foi mandado Elias, senão a uma viúva em Sarepta de Sidónia. 27E muitos leprosos havia em Israel, no tempo do Profeta Eliseu, mas nenhum deles foi limpo senão o sírio Naamã.

28Todos na sinagoga se encheram de furor, ao ouvirem estas coisas. 29Ergueram-se então, lançaram-No fora da cidade e levaram-No até a uma escarpa do outeiro em que estava construída a cidade, a fim de O precipitarem. 30Mas Jesus, passando pelo meio deles, seguiu o Seu caminho.

Comentário

22-29. Os habitantes de Nazaré escutam ao princípio com agrado as palavras cheias de sabedoria de Jesus. Mas a visão destes homens é muito superficial. Com um orgulho mesquinho sentem-se feridos pelo facto de Jesus, seu con­cidadão, não ter feito em Nazaré os prodígios que fez noutras cidades. Levados por uma confiança mal entendida, exigem-Lhe com insolência que faça ali milagres para agradar à sua vaidade, mas não para se converterem. Diante desta atitude Jesus não faz nenhum prodígio, seguindo o Seu modo habitual de proceder (veja-se, por exemplo, o encontro com Herodes em Lc 23,7-11); inclusivamente censura a sua posi­ção, explicando-lhes com dois exemplos tomados do AT (cfr 1 Reg 17,9 e 2 Reg 5,14) a necessidade de uma boa disposição a fim de que os milagres possam dar origem à fé. A atitude de Cristo fere-os no seu orgulho até ao ponto de O quererem matar. Todo o episódio é uma boa lição para entender de veras a Jesus: só pode ser entendido na humildade e na séria resolução de nos pormos nas Suas mãos.

30. Jesus não foge precipitadamente, mas vai-Se reti­rando por entre a turba agitada com uma majestade que os deixou paralisados. Como noutras ocasiões, os homens não podem nada contra Jesus: o decreto divino era que o Senhor morresse crucificado (cfr Ioh 18,32) quando chegasse a Sua hora.

13.03.2012 – Mt 18, 21-35.

21Então aproximou-se Pedro e disse-Lhe: Perdão Senhor, se meu irmão pecar contra mim, quantas vezes lhe devo perdoar? Ate sete vezes? 22Disse-lhe Jesus: Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete. 23Por isso, é semelhante o Reino dos Céus a um rei que quis ajustar contas com os seus servos. 24 Logo ao começar, foi-lhe apresentado um que devia dez mil talentos. 25E como não tivesse com que pagar, mandou o senhor que o vendessem a ele e à mulher e aos filhos e a tudo quanto tinha e que assim se pagasse a dívida. 26Lançou-se o servo por terra e, prostrando-se diante dele, disse-lhe: «Senhor, tem paciência comigo e pagar-te-ei tudo». 27E o senhor, compadecido daquele servo, mandou-o embora e perdoou-lhe a dívida. 28Ao sair, encontrou-se o servo com um dos seus companheiros que lhe devia cem dinheiros e, aferrando-o pelo pescoço afo­gava-o, dizendo: Paga o que deves. 29Lançou-se-lhe o companheiro aos pés e começou a suplicar-lhe: Tem paciência comigo e pagar-te-ei. 30Ele, porém, não quis, mas foi metê-lo na cadeia até que pagasse a dívida. 31Os outros servos, ao verem o que se passava, ficaram muito magoados e foram contar tudo ao senhor. 32Entào o senhor chamou-o e disse-lhe: Servo perverso, perdoei-te toda aquela dívida, porque mo pediste. 33Não devias tu compadecer-te do teu compa­nheiro, como eu me compadeci de ti? 34E, indignado, o senhor entregou-o aos algozes até que pagasse toda a dívida. 35Assim vos fará também o Meu Pai celeste, se não perdoardes, cada um a seu irmão, do íntimo dos vossos corações.

Comentário

21-35. A pergunta de Pedro e, sobretudo, a resposta de Jesus dão-nos a pauta do espírito de compreensão e miseri­córdia que deve presidir à actuação dos cristãos.

A cifra de setenta vezes sete na linguagem hebraica equivale ao advérbio «sempre» (cfr Gen 4,24): « De modo que não encerrou o Senhor o perdão num número determinado, mas deu a entender que se tem de perdoar continuamente e sempre» (Hom. sobre S. Mateus, 6). Também se pode observar aqui um contraste entre a atitude mesquinha dos homens em perdoar com cálculo e a misericórdia infinita de Deus. Por outro lado, a nossa situação de devedores relativamente a Deus fica muito bem reflectida na parábola. Um talento equivalia a seis mil denarios e um denário era o jornal diário de um trabalhador. A dívida de dez mil talentos é uma quantidade exorbitante que nos dá ideia do valor imenso que tem o perdão que recebemos de Deus. Contudo, o ensinamen­to final da parábola é o de perdoar sempre e do íntimo do coração aos nossos irmãos. «Esforça-te, se é preciso, por perdoar sempre aos que te ofenderem, desde o primeiro instante, já que, por maior que seja o prejuízo ou a ofensa que te façam, mais te tem perdoado Deus a ti» (Caminho, n.°452).

14.03.2012 – Mt 5, 17-19.

17Não julgueis que vim abolir a Lei ou os Profetas. Não vim abolir mas cumprir.

18Em verdade vos digo: até que passem os Céus e a Terra, nem um só jota ou um só til da Lei passará, sem que tudo se cumpra.

19Portanto, quem transgredir um só destes mandamentos mais pequenos e ensinar assim aos homens, será o mais pequeno no Reino dos Céus. Mas quem os observar e ensinar, esse será grande no Reino dos Céus.

Comentário

17-19. Jesus ensina neste passo o valor perene do Antigo Testamento, enquanto é palavra de Deus; goza, portanto, de autoridade divina e não pode desprezar-se o mínimo. Na Antiga Lei havia preceitos morais, judiciais e litúrgicos. Os preceitos morais do AT conservam no Novo o seu valor, porque são principalmente promulgações concretas, divino-positivas, da lei natural. Nosso Senhor dá-lhes, contudo, a sua significação e as suas exigências mais profundas. Os preceitos judiciais e cerimoniais, pelo contrário, foram dado por Deus para uma etapa concreta na História da Salvação, a saber, até à vinda de Cristo; a sua observância material em si não obriga os cristãos (cfr Suma Teológica, I-II, q.108, a. 3 ad 3).

A lei promulgada por meio de Moisés e explicada pelos Profetas constituía um dom de Deus para o povo, como antecipação da Lei definitiva que daria Cristo o Messias. Na verdade, como definiu o Concilio de Trento, Jesus não só «foi dado aos homens como Redentor em quem confiem, mas também como Legislador a quem obedeçam» (De justificatione, can. 21).

15.03.2012 – Lc 11, 14-23.

14Jesus estava a expulsar um Demônio e este era mudo. Saído o Demônio, o mudo falou, e as multidões ficaram admiradas, de Deus 15Disseram, porém, alguns dentre eles: É por Belzebu, Príncipe dos Demônios, que Ele expulsa os Demônios. 16Outros, para O expe­rimentarem, solicitavam da Sua parte um sinal do céu. 17Mas Ele, que conhecia os pensamentos deles, disse-lhes: Todo o reino que se dividiu contra si mesmo ficará devas­tado, caindo casa sobre casa. 18Então, se Satanás, também, se dividiu contra si mesmo, como há-de manter-se o seu reino? Pois vós dizeis que por Belzebu é que Eu expulso os Demônios!… 19Mas se Eu expulso os Demônios por Belzebu, por quem os expulsam os vossos filhos? Por isso é que eles mesmos serão vossos juizes! 20Mas, se Eu expulso os Demônios pelo dedo de Deus, é que chegou até vós o Reino de Deus.

21Quando um homem forte e bem armado guarda o seu palácio, estão em segurança os seus haveres. 22Mas, quando surge um mais forte do que ele e o vence, tira-lhe o equipa­mento em que estava confiado e distribui-lhe os despojos.

23Quem não está comigo é contra Mim, e quem não junta comigo dispersa.

Comentário

14-23. A obstinação dos inimigos de Jesus não cede nem diante da evidência do milagre. Uma vez que não podem negar o valor extraordinário do facto, atribuem-no a artes demoníacas, com o intento de negar que Jesus é o Messias. O Senhor replica-lhes com um raciocínio que não admite escapatória: as expulsões de demônios que faz são provas evidentes de que com Ele chegou o Reino de Deus. O Concilio Vaticano II recordou de novo esta verdade: «O Senhor Jesus deu início à Sua Igreja pregando a boa nova do advento do Reino de Deus prometido desde há séculos nas Escrituras (…). Também os milagres de Jesus comprovam que já chegou à terra o Reino: «Se lanço fora os demônios com o poder de Deus, é que chegou a vós o Reino de Deus (Lc 11,20; cfr Mt 12,28). Mas este Reino manifesta-se sobretudo na própria pessoa de Cristo, Filho de Deus e Filho do homem, que veio para servir e dar a Sua vida em redenção por muitos (Mc 10,45)» (Lumen gentium, n.° 5).

O forte e bem armado é o demônio (v. 21), que com o seu poder tinha escravizado o homem; mas Jesus Cristo, mais forte que ele, veio, venceu-o e está a desalojá-lo de onde se tinha assenhoreado. São Paulo dirá que Cristo «despojou os principados e às potestades, triunfando publicamente sobre eles» (Col 2,15).

Depois da vitória de Cristo, o « mais forte », as palavras do V. 23 são uma séria advertência aos que O escutavam, e a toda a humanidade: ainda que o não queiram reconhecer Jesus Cristo venceu, e doravante não é admissível a neutralidade diante da Sua causa: quem não estiver com Ele, está contra Ele.

18. O argumento de Cristo é claro. Um dos maiores males que podem sobrevir à Igreja é precisamente a divisão entre os cristãos, a desunião dos crentes. Temos de fazer nossa a oração de Jesus: «Que todos sejam um; como Tu, Pai, em Mim e Eu em Ti, que assim eles estejam em Nós, para que o mundo creia que Tu Me enviaste» (Ioh 17,21).

16.03.2012 – Mt 12, 28b-34.

28Mas, se Eu expulso os Demônios pelo Espírito de Deus, é que chegou realmente a vós o Reino de Deus. 29Ou como pode alguém entrarem casa dum valente e saquear-lhe as alfaias, sem primeiro o prender? Então lhe saqueará a casa. 30Quem não é comigo é contra Mim, e quem não ajunta comigo espalha.

31 Por isso, vos digo: Todo o pecado e blasfêmia serão perdoados aos homens, mas a blasfêmia contra o Espírito não será per­doada, 32e àquele que falar contra o Filho do homem ser-lhe-á perdoado; mas, a quem falar contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado, nem neste século nem no futuro.

33Ou dizei que a árvore é boa e o seu fruto bom, ou dizei que a árvore é ruim e o seu fruto ruim, porque pelo fruto se conhece a árvore. 34Raça de víboras! Como podeis falar bem, sendo maus? Pois da abundância do coração fala a boca.

 

Comentário

30. Jesus Cristo com estas palavras resume toda a Sua argumentação contra os fariseus: ou se está com Ele ou se está com o demônio. Já tinha indicado a mesma coisa no Sermão da Montanha: «Ninguém pode servir a dois senhores» (Mt 6, 24). Os que não estão unidos com Jesus Cristo pela fé, pela esperança e pela caridade, estão contra Ele, e por conseguinte da parte do demônio, seu contrário. E isto é Verdadeiramente espalhar.

O Senhor é incisivo ao exigir uma posição perante a Sua Pessoa e o Seu Reino. O cristão não pode contemporizar e, querendo ser cristão, admitir idéias ou proposições que não estão de acordo com o depósito da Revelação e com o que o Magistério da Igreja nos ensina. Por conseguinte não se pode transigir em matéria de fé, tratar de adaptar a doutrina de Jesus à nossa própria conveniência por oportunismo, por comodidade ou por um falso respeito pelos outros. Do mesmo modo que o Senhor nos exige tomar uma posição clara relativamente à Sua Pessoa, com a mesma força pede que tomemos igualmente posição clara relativamente à Sua doutrina. .

31-32. Deus quer que todos os homens se salvem (1Tim 2,4) e chama todos à penitência (2 Pet 3,9). A Redenção de Cristo é superabundante: satisfaz por todo o pecado e atinge todo o homem (Rom 5,12-21). Cristo entregou à Sua Igreja o poder de perdoar os pecados por meio dos sacramentos do Baptismo e da Penitência. O poder é ilimitado, quer dizer, pode perdoar todo o pecado a todos os baptizados, tantas vezes quantas se confessam com as devidas disposições. Esta doutrina é dogma de fé (cfr De Paenitentia, can. l.).

O pecado de que aqui fala Jesus chama-se pecado contra o Espírito Santo, porque é à terceira Pessoa da Santíssima Trindade que são especialmente atribuídas as manifes­tações exteriores da bondade divina. Por outro lado, diz-se que o pecado contra o Espírito Santo é imperdoável, não tanto pela sua gravidade e malícia, mas pela disposição subjectiva da vontade, própria deste pecado, que fecha as portas ao arrependimento: consiste em atribuir malicio­samente ao demônio os milagres e sinais realizados por Cristo. Deste modo, pela natureza própria deste pecado, fecha-se o caminho para Cristo, que é o único que tira o pecado do mundo (Ioh 1, 29), e o pecador situa-se fora do perdão divino. Neste sentido se chama irremissível o pecado contra o Espírito Santo.

17.03.2012 – Lc 18, 9-14.

9Disse também a seguinte parábola, para alguns, que estavam intimamente convencidos de que eram justos e desprezavam os demais: 10Subiram ao Templo dois homens para orar: um fariseu e o outro publicano. 11O fariseu, perfilado, fazia lá consigo esta oração: «Ó Deus, dou-Te graças por não ser como o resto dos homens, que são ladrões, injustos, adúlteros, ou ainda como este publi­cano. 12Jejuo duas vezes por semana; pago o dízimo de tudo quanto recebo». 13E o publi­cano, mantendo-se a distância, não ousava nem sequer erguer os olhos ao Céu, mas batia no peito, dizendo: «Ó Deus, sé clemente para comigo, que sou pecador!». 14Eu vos digo: Desceu este justificado para sua casa, ao contrário do outro, porque todo aquele que se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado.

Comentário

9-14. O Senhor completa o Seu ensinamento sobre a oração; além de ser perseverante e cheia de fé, a oração deve brotar de um coração humilde e arrependido dos seus pe­cados: Cor contritum et humiliatum, Deus, non despicies (Ps 51,19), o Senhor, que nunca despreza um coração contrito e humilhado, resiste aos soberbos e dá a Sua graça aos humildes (cfr 1 Pet 5,5; lac 4,6).

A parábola apresenta dois tipos humanos contrapostos: o fariseu, meticuloso no cumprimento externo da Lei; e o publicano, pelo contrário, considerado pecador público (cfr Lc 19,7). A oração do fariseu não é agradável a Deus devido ao seu orgulho, que o leva a fixar-se em si mesmo e a desprezar os outros. Começa a dar graças a Deus, mas é óbvio que não se trata de verdadeira acção de graças, visto que se ufana do bem que fez, e não é capaz de reconhecer os seus pecados; como pensa que já é justo, não tem necessi­dade, segundo ele, de ser perdoado; é, efectivamente, per­manece nos seus pecados; a ele se aplica também o que disse o Senhor noutra ocasião a um grupo de fariseus: «Se fósseis cegos não teríeis pecado, mas agora dizeis: Vemos; por isso o vosso pecado permanece» (Ioh 9,41). O fariseu baixou do Templo, pois, com os seus próprios pecados.

Pelo contrário, o publicano reconhece a sua indignidade e arrepende-se sinceramente: estas são as disposições neces­sárias para ser perdoado por Deus. A jaculatória do publi­cano, que exprime tais sentimentos, alcança o perdão divino: «Com razão, explica São Francisco de Sales, alguns disseram que a oração justifica, porque a oração contrita ou a contrição orante eleva a alma a Deus, une-a à Sua bondade e obtém o Seu perdão em virtude do amor divino que lhe comunica este santo movimento. Por conseguinte, devemos sentir-nos fortes com tais jaculatórias, feitas com actos de dor amorosa e com desejos de divina reconciliação a fim de que, por meio delas, expressando diante do Salvador as nossas angústias (Ps 142,2), confiemos a alma ao Seu Coração misericordioso que a receberá com piedade» (Tratado do amor de Deus, liv. 2, cap. 20).

18.03.2012 – Jo 3, 14-21.

14Do mesmo modo que Moisés elevou a serpente no deserto, assim tem de ser elevado o Filho do homem, 15para que todo aquele que acredita tenha, por Ele, a vida eterna.

16De facto, Deus amou de tal maneira o mundo que deu o Seu Filho único, para que todo o que n’Ele acredita náo pereça, mas tenha a vida eterna. 17É que Deus não enviou o Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para o mundo ser salvo por Seu inter­médio. 18Quem n’Ele acredita não é condenado; mas quem não acredita já está conde­nado, porque não acreditou no nome do Filho único de Deus. 19É esta a causa da con­denação: veio a Luz ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a Luz, pois eram más as suas obras. 20E que todo aquele que pratica más acções odeia a Luz e não se aproxima da Luz, para não serem postas a descoberto as suas obras. 21Quem pratica a verdade aproxima-se da Luz, para se tornar bem claro que as suas obras estão realizadas em Deus.

Comentário

14-15. A serpente de bronze, alçada por Moisés num mastro, era o remédio indicado por Deus para curar aqueles que eram mordidos pelas serpentes venenosas do deserto (cfr Num 21,8-9). Jesus Cristo compara este facto com a Sua Crucifixão, para explicar assim o valor da Sua exaltação na Cruz, que é salvação para todos os que O fixem com fé. Neste sentido podemos dizer que no bom ladrão se cumpre já o poder salvífico de Cristo na Cruz: esse homem descobriu no Crucificado o Rei de Israel, o Messias, que imediatamente lhe promete o Paraíso para aquele mesmo dia (cfr Lc 23,39-43).

O Filho de Deus tomou a nossa natureza humana para dar a conhecer os mistérios ocultos da vida divina (cfr Mc 4,11; Ioh 1,18; 3,1-13; Eph 3,9) e para livrar do pecado e da morte aqueles que O fixem com fé e amor (cfr Ioh 19,37; Gal 3,1) e aceitem a cruz de cada dia.

A fé de que nos fala o Senhor não se reduz simplesmente à aceitação intelectual das verdades que Ele nos ensinou, mas inclui reconhecê-Lo como Filho de Deus (cfr l Ioh5,1), parti­cipar da Sua própria Vida (cfr Ioh1,12), e entregarmo-nos por amor, tornando-nos assim semelhantes a Ele (cfr Ioh10,27; 1 Ioh3,2). Mas esta fé constitui um dom de Deus (cfr Ioh3,3.5-8), a quem devemos pedir que a fortaleça e acres­cente, como fizeram os Apóstolos: Senhor, «aumenta-nos a fé» (Lc 17,5). Sendo a fé um dom divino, sobrenatural e gratuito, é, ao mesmo tempo, uma virtude, um hábito bom, susceptível de ser exercitado pessoalmente e, portanto, robustecido através desse exercício. Daí que o cristão, que já possui o dom divino da fé, ajudado pela graça deva fazer actos explícitos de fé para que esta virtude cresça nele.

16-21. Com estas palavras carregadas de sentido sinte­tiza-se como a Morte de Jesus Cristo é a manifestação suprema do amor de Deus pelos homens (cfr Introdução ao Evangelho segundo São João, parágrafo sobre A caridade, pp 1101-1105). «De tal maneira Deus amou o mundo que lhe entregou Seu Filho Unigênito para a sua salvação. Toda a nossa religião é uma revelação da bondade, da misericórdia, do amor de Deus por nós. ‘Deus é amor’ (cfr l Ioh4,16), isto é, amor que se difunde e se prodigaliza; e tudo se resume nesta grande verdade que tudo explica e tudo ilumina. É neces­sário ver a história de Jesus a esta luz. ‘Ele amou-me’, escreve São Paulo, e cada um de nós pode e deve repeti-lo a si mesmo: Ele amou-me, e sacrificou-Se por mim (Gal 2,20)» (Homília do Corpus Christi).

A entrega de Cristo constitui o chamamento mais pre­mente a corresponder ao Seu grande amor: «Se Deus nos criou, se nos redimiu, se nos ama ao ponto de entregar por nós o Seu Filho Unigênito (Ioh III, 16), se nos espera — todos os dias! — como aquele pai da parábola esperava o filho pródigo (cfr Lc XV, 11-32). como não há-de desejar que O tratemos com amor? O que seria estranho era não falar com Deus, afastar-se d’Ele, esquecê-Lo, dedicar-se a actividades estranhas a esses toques ininterruptos da graça» (Amigos de Deus, n.° 251).

«O homem não pode viver sem amor. Ele permanece para si próprio um ser incompreensível e a sua vida é destituída de sentido, se não lhe for revelado o amor, se ele não se encontra com o amor, se o não experimenta e se o não torna algo seu próprio, se nele não participa vivamente. E por isto precisamente Cristo Redentor (…) revela plena­mente o homem ao próprio homem. Esta é — se assim é lícito exprimir-se — a dimensão humana do mistério da Redenção. Nesta dimensão o homem reencontra a grandeza, a dignidade e o valor próprios da sua humanidade (…). O homem que quiser compreender-se a si mesmo profun­damente (…) deve, com a sua inquietude, incerteza e também fraqueza e pecaminosidade, com a sua vida e com a sua morte, aproximar-se de Cristo. Ele deve, por assim dizer, entrar n’Ele com tudo o que é em si mesmo, deve ‘apro­priar-se’ e assimilar toda a realidade da Encarnação e da Redenção, para se encontrar a si mesmo. Se no homem se actuar este processo profundo, então ele produz frutos, não somente de adoração de Deus, mas também de profunda maravilha perante si próprio. Que grande valor deve ter o homem aos olhos do Criador, se ‘mereceu ter um tal e tão grande Redentor’ (Missal Romano, Hino Exultet da Vigília Pascal), se ‘Deus deu o Seu Filho’, para que ele, o homem, ‘não pereça, mas tenha a vida eterna’.

«(…) A Igreja, que não cessa de contemplar o conjunto do mistério de Cristo, sabe com toda a certeza da fé, que a Redenção que se verificou por meio da Cruz, restituiu defini­tivamente ao homem a dignidade e o sentido da sua existência no mundo, sentido que ele havia perdido em consi­derável medida por causa do pecado. E por isso a Redenção realizou-se no mistério pascal, que, através da cruz e da morte, conduz à ressurreição» (Redemptor hominis, n. 10). Jesus Cristo exige como primeiro requisito para parti­cipar do Seu amor a fé n’Ele. Com ela passamos das trevas para a luz e entramos em caminho de salvação. «Quem não acredita já está condenado» (v. 18). «As palavras de Cristo são, ao mesmo tempo, palavras de juízo e de graça, de morte e de vida. É que só infligindo a morte ao que é velho podemos ter acesso à novidade de vida: e isto, que vale, em primeiro lugar, das pessoas, vale também dos diversos bens deste mundo que estão marcados tanto pelo pecado do homem como pela bênção de Deus (…). Por si mesmo e pelas próprias forças não há ninguém que se liberte do pecado e se eleve acima de si mesmo, ninguém absolutamente que se liberte a si mesmo da sua enfermidade, da sua solidão ou da sua escravidão, mas todos precisam de Cristo como modelo, mestre, libertador, salvador, vivificador. De facto, na história humana, mesmo sob o ponto de vista temporal, o Evangelho foi um fermento de liberdade e de progresso e apresenta-se sempre como fermento de fraternidade, de unidade e de paz» (Ad gentes, n. 8).

19.03.2012 – Mt 1, 16.18-21.24ª.

16Jacob gerou a José, o esposo de Maria da qual nasceu Jesus, que se chama Cristo.

18Ora o nascimento de Jesus foi assim: Estando Maria, sua Mãe, desposada com José, antes de morarem juntos, notou-se que tinha concebido por virtude do Espírito Santo. 19José, seu esposo, como era justo e não a queria infamar, resolveu deixá-la secretamente. 20Mas, andando ele com este pensamento, apareceu-lhe, em sonhos, um anjo do Senhor, que lhe disse:

— José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou, é obra do Espírito Santo. 2lEla dará à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus, porque Ele salvará o seu povo dos seus pecados.

24E José, despertando do sono, fez como lhe ordenara o anjo do Senhor e recebeu a sua esposa.

Comentário

16. Entre os Hebreus as genealogias faziam-se por via masculina. José, como esposo de Maria, era o pai legal de Jesus. A figura do pai legal é equivalente quanto a direitos e obrigações à do verdadeiro pai. Neste facto se fundamenta solidamente a doutrina e a devoção ao Santo Patriarca como padroeiro universal da Igreja, visto que foi escolhido para desempenhar uma função muito singular no plano divino da nossa salvação: pela paternidade legal de São José é Jesus Cristo Messias descendente de David.

Do costume ordinário de celebrar os desposórios entre os membros de uma mesma estirpe, deduz-se que Maria pertencia à casa de David. Neste sentido falam também antigos Padres da Igreja. Assim Santo Inácio de Antioquia, Santo Ireneu, São Justino e Tertuliano, os quais fundamentam o seu testemunho numa tradição oral constante.

É de assinalar que São Mateus, para indicar o nascimento de Jesus, usa uma fórmula completamente diversa da aplicada aos demais personagens da genealogia. Com estas palavras o texto ensina positivamente a conceição virginal de Jesus, sem intervenção de varão.

18. São Mateus narra aqui como foi a conceição de Cristo (cfr Lc 1, 25-38): «(…) verdadeiramente celebramos e veneramos por Mãe de Deus (Maria), por ter dado à luz uma pessoa que é juntamente Deus e homem (…)» (Catecismo Romano, l, 4, 7).

Segundo as disposições da Lei de Moisés, aproxima­damente um ano antes do casamento realizavam-se os desposórios. Estes tinham praticamente já o valor jurídico do matrimônio. O casamento propriamente dito consistia, entre outras cerimônias, na condução solene e festiva da esposa para casa do esposo (cfr Dt 20,7).

Já desde os desposórios era preciso o libelo de repúdio, no caso de ruptura das relações.

Todo o relato do nascimento de Jesus ensina através do cumprimento da profecia de Isaías 7, 14 (que citará expres­samente nos versículos 22-23): 1.° Jesus é descendente de David pela via legal de José; 2.° Maria é a Virgem que dá à luz segundo a profecia; 3.° o caracter miraculoso da con­ceição do Menino sem intervenção de varão.

19. «José era efectivamente um homem corrente, em quem Deus confiou para operar coisas grandes. Soube viver, tal como o Senhor queria, todos e cada um dos aconteci­mentos que compuseram a sua vida. Por isso, a Escritura Santa louva José, afirmando que era justo. E, na linguagem hebraica, justo quer dizer piedoso, servidor irrepreensível de Deus, cumpridor da Vontade divina (cfr Gen 7,1; 23-32; Ez 18,5 ss; Pry 12, 10); outras vezes significa bom e caritativo com o próximo (cfr Tob 7,6; 9,6). Numa palavra, o justo é o que ama a Deus e demonstra esse amor, cumprindo os Seus mandamentos e orientando toda a sua vida ao serviço dos irmãos, os outros homens» (Cristo que passa, n.° 40).

José considerava santa a sua esposa não obstante os sinais da sua maternidade. Por isso se encontrava perante uma situação inexplicável para ele. Procurando precisamente actuar de acordo com a vontade de Deus sentia-se obrigado a repudiá-la, mas, com o fim de evitar a infâmia pública de Maria, decide deixá-la privadamente.

É admirável o silêncio de Maria. A sua entrega perfeita a Deus leva-a inclusivamente a não defender a sua honra e a sua inocência. Prefere que caia sobre Ela a suspeita e a infâmia, a manifestar o profundo mistério da Graça. Perante um facto inexplicável por razões humanas, abandona-se confiadamente no amor e providência de Deus.

Devemos contemplar a magnitude da prova a que Deus submeteu estas duas almas santas: José e Maria. Não nos pode causar estranheza que também nós sejamos submetidos por vezes, ao longo da vida, a provas duras; nelas temos de confiar em Deus e permanecer-Lhe fiéis, a exemplo de José e Maria.

20. Deus ilumina oportunamente o homem que actua com rectidão e confia no poder e sabedoria divina, perante situações que superam a compreensão da razão humana. O anjo recorda neste momento a José, ao chamar-lhe filho de David, que é o elo providencial que une Jesus com a estirpe de David, segundo a profecia messiânica de Natan (cfr 2 Sam 7, 12). Corno diz São João Crisóstomo: «Antes de mais recorda-lhe David, de quem tinha de vir Cristo, e não lhe consente estar perturbado desde o momento que, pelo nome do mais glorioso dos seus antepassados, lhe traz à memória a promessa feita a toda a sua linhagem » (Hom. sobre S. Mateus, 4).

«Jesus Cristo, único Senhor, nosso, Filho de Deus, quando tomou por nós carne humana no ventre da Virgem, foi con­cebido não por obra de varão, como os outros homens, mas, sobre toda a ordem natural, por virtude do Espírito Santo; de tal maneira que a mesma pessoa (do Verbo), permanecendo Deus, como o era desde a eternidade, se fizesse homem, o qual não era antes» (Catecismo Romano, 1,4,1).

21. Segundo a raiz hebraica, o nome de Jesus significa «salvador». Depois da Virgem Santa Maria, José é o primeiro homem que recebe esta declaração divina do facto da salvação, que já se estava a realizar.

«Jesus é o nome exclusivo do que é Deus e homem, o qual significa salvador, imposto a Cristo não casualmente nem por ditame ou disposição humana, mas por conselho e mandato de Deus.

(…) Os nomes profetizados (… o Admirável, o Conselheiro, Deus, o Forte, o Pai do século vindouro, o Príncipe da paz, cfr Is 9, 6), que se deviam dar por disposição divina ao Filho de Deus, resumem-se no nome de Jesus, porque, enquanto os outros se referem apenas sob algum aspecto à salvação que nos devia dar, este compendiou em si mesmo a realidade e a causa da salvação de todos os homens» (Catecismo Romano I, 3, 5 e 6).

20.03.2012 – Jo 5, 1-16.

Depois disto, houve uma festa dos Judeus, e Jesus subiu a Jerusalém. 2Ora existe em Jerusalém, junto à Piscina das Ovelhas, uma que, em hebraico, se chama Bezatá, que tem cinco pórticos. 3Nestes jazia grande número de enfermos, cegos, coxos, entrevados, que esperavam o movimento da água. 4É que o Anjo do Senhor, de tempos a tempos, descia à piscina e agitava a água. E assim, o primeiro que mergulhava, depois da agitação da água, ficava curado de qual­quer mal de que estivesse atingido.

5Estava ali um homem, enfermo havia trinta e oito anos. 6Jesus, ao vê-lo estendido e sabendo que já estava assim havia muito tempo, diz-lhe: Queres ficar são? 7Senhor — responde-Lhe o enfermo — não tenho nin­guém que me lance na piscina, quando a água se agitar; e enquanto eu vou, outro desce antes de mim. 8Diz-lhe Jesus: Levanta-te, toma o teu catre e anda. 9E logo o homem ficou são, tomou o catre e pôs-se a caminhar.

Ora aquele dia era um sábado. 10Diziam, por isso, os Judeus ao miraculado: É sábado e não podes levar esse catre. 11Mas ele res­pondeu-lhes: Quem me curou é que me disse: «Toma o teu catre e anda». 12Perguntaram-lhe então: Quem é o homem que te disse: «Toma o teu catre e anda »? 13Mas o que tinha sido curado não sabia quem era, pois Jesus havia-Se afastado, por haver muita gente no local.

14Em seguida, encontrou-o Jesus no Templo e disse-lhe: Ficaste curado. Não tornes a pecar, para não te suceder coisa pior. 15O homem foi dizer aos Judeus que tinha sido Jesus que o curara. 16Por isso os Judeus perseguiam Jesus, visto Ele fazer tais coisas ao sábado.

 

Comentário

1. Não é possível determinar com certeza de que festa se trata; provavelmente refere-se à Páscoa, conhecida inclusivamente no mundo greco-romano como a festa nacional do povo judaico. Mas também poderia referir-se a outras festas, como a de Pentecostes. (Sobre esta questão veja-se Cronologia da vida de Nosso Senhor Jesus Cristo, parágrafo 3, Duração do Ministério Público, pp. 88-89).

2. A esta piscinachama-se também «probática» por estar situada, nos Subúrbios de Jerusalém, junto à porta probática ou das Ovelhas (cfr Neh 3,1-32; 12,39), pela qual entrava o gado que\se destinava aos sacrifícios do Templo. Em fins do século XIX encontraram-se vestígios da piscina: escavada em rocha\ era de forma rectangular e estava rodeada de quatro galerias ou alpendres, e um quinto alpendre dividia o tanque em duas metades quase quadra­das.

3-4. Os Santos Padres ensinam que essa piscina prefigura o Baptismo cristão. Mas assinalam que enquanto na piscina de Bezatá se curavam as doenças do corpo, no Baptismo curam-se as da alma; ali era de vez em quando e para um só doente; no Baptismo é sempre e para todos; em ambos os casos manifesta-se o poder de Deus por meio da água (cfr Hom. sobre S. João, 36,1).

A edição Sixto-Clementina da Vulgata recolhe, como segunda parte do v. 3 e constituindo todo o v. 4, o seguinte passo: 3bexspectantium aquae motum. 4Angelus autem Domini descendebat secundum tempus in piscinam et movebatur aqua. Et qui prior descendisset in piscinam post motionem aquae sanus fiebat a quacumque detinebatur infirmitate» (3b«que aguardavam o movimento da água. 4 Pois um anjo do Senhor descia de vez em quando à piscina e movia a água. O primeiro que se metesse na piscina depois do movimento da água ficava são de qualquer enfermidade que tivesse»). A Neo-vulgata, pelo contrário, omite no seu texto todo este passo, consignando-o apenas em nota de rodapé. Tal omissão funda-se em que não vem em impor­tantes códices e papiros gregos, nem em muitas versões antigas.

14. Possivelmente o paralítico tinha acorrido ao Templo para dar graças a Deus pela sua cura. Jesus vem ao seu encontro e recorda-lhe que mais importante que a saúde do corpo é a saúde da alma.

O Senhor recorre ao santo temor de Deus como incentivo na luta contra o pecado: «Não tornes a pecar para não te suceder coisa pior». Este bom temor que nasce do respeito por nosso Pai Deus compagina-se perfeitamente com o amor. Assim como os filhos amam e respeitam os pais, e procuram evitar-lhes desgostos também por temor ao castigo, de modo semelhante nós temos de lutar contra o pecado em primeiro lugar porque é uma ofensa a Deus, mas também porque podemos ser castigados nesta vida e, sobretudo, na outra.

21.03.2012 – Jo 5, 17-30.

17Mas Jesus respondeu-lhes: Meu Pai trabalha continuamente e Eu também trabalho. 18Daqui resultou que os Judeus mais se esforçavam por Lhe dar a morte, não só por violar o sábado, mas também por chamar a Deus Seu próprio Pai, fazendo-Se igual a Deus.

19Entáo Jesus tomou a palavra e pôs-Se a dizer-lhes: Em verdade, em verdade vos digo: Não pode o Filho fazer nada por Si mesmo, se não vir o Pai fazer alguma coisa; pois aquilo que Este faz, também o Filho o faz igualmente. 20De facto, o Pai ama o Filho e mostra-Lhe tudo o que Ele mesmo faz; e há-de mostrar-Lhe obras maiores do que estas, de modo que ficareis admirados. 21Pois, assim como o Pai ressuscita os mortos e lhes dá vida, assim também o Filho dá vida àqueles que quer. 22O Pai, de facto, não julga ninguém, mas entregou ao Filho todo o julgamento, 23para todos honrarem o Filho como honram o Pai. Quem não honra o Filho não honra o Pai, que O enviou.

24Em verdade, em verdade vos digo: Quem ouve a Minha palavra e acredita n’Aquele que Me enviou tem a vida eterna e não incorre em condenação, mas já transitou da morte para a vida. 25Em verdade, em ver­dade vos digo: Vai chegar a hora — e é já — em que os mortos hão-de ouvir a voz do Filho de Deus; e os que ouvirem viverão! 26Pois, assim como o Pai tem a vida em Si mesmo, assim também concedeu ao Filho o ter a vida em Si mesmo; 27e deu-Lhe o poder de julgar, por ser Filho de homem. 28Não vos admireis com isto, porque vai chegar a hora em que todos os que estão nos túmulos hão-de ouvir a Sua voz; 29os que tiverem feito boas obras ressuscitarão para a vida, e os que tiverem praticado más acções hão-de ressuscitar para a condenação. 30Eu nada posso fazer por Mim mesmo. Conforme oiço é que julgo, e é justo o Meu juízo, porque não busco a Minha vontade, mas a vontade d’Aquele que Me enviou.

Comentário

16-18. A Lei de Moisés assinalava o sábado como o dia de descanso semanal. Desta forma os Judeus pensavam imitar a maneira de agir de Deus na Criação. Observa São Tomás de Aquino que Jesus rejeita a estreita interpretação que davam os Judeus: «Estes, querendo imitar a Deus, não faziam nada ao sábado, como se Deus neste dia tivesse deixado absolutamente de actuar. É verdade que ao sábado descansou da criação de novas criaturas, mas sempre e de forma contínua actua, conservando-as no ser… Deus é causa de todas as coisas no sentido de que também as faz subsistir; porque se num momento dado se interrompesse o Seu poder, imediatamente deixariam de existir todas as coisas que a natureza contém» (Comentário sobre S. João, ad loc.). «Meu Pai trabalha continuamente e Eu também tra­balho»: Já dissemos que Deus não deixa de actuar depois da Criação. Como o Filho actua junto com o Pai, que com o Espí­rito Santo são um só Deus, por esta razão Nosso Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus, pode dizer que não deixa de trabalhar. Estas palavras.de Jesus fazem referência implí­cita à Sua natureza divina, e assim o entenderam os Judeus, os quais, considerando-as uma blasfêmia, quiseram dar-Lhe a morte. Todos — comenta Santo Agostinho — chamamos a Deus «Pai Nosso que estais nos Céus» (Is 63,16; 64,8). Não se enfureciam, portanto, porque dissesse que Deus era Seu Pai, mas porque Lhe chamava Pai de maneira muito diferente de como Lhe chamam os homens. Vede como os Judeus veem; os arianos, pelo contrário, não querem ver. Estes dizem que o Filho não é igual ao Pai, e daqui surge uma heresia que aflige a Igreja. Vede como até os próprios cegos e os mesmos que mataram Cristo entenderam o sentido das palavras do Senhor (In Ioann. Evang., 17,l). Nós chamamos a Deus nosso Pai porque somos filhos adoptivos pela graça; Jesus Cristo chama a Deus Seu Pai porque é o Filho por natureza. Por isso diz depois de ressuscitar: Subo para Meu Pai e vosso Pai (Ioh 20,17), distinguindo assim com clareza essas duas maneiras diferentes de ser filhos de Deus.

19. Jesus fala da igualdade e ao mesmo tempo da distinção entre o Pai e o Filho. Os dois são iguais: todo o poder do Filho é o poder do Pai, as obras do Filho são as obras do Pai. Ao mesmo tempo são duas Pessoas distintas: por isso o Filho faz o que viu fazer ao Pai.

Não se devem entender estas palavras do Senhor no sentido de que o Filho veja o que o Pai faz e que depois repita o que viu, como um discípulo que imita o professor; mas com esta frase indica-se a comunicação de poderes do Pai para o Filho por geração. Emprega-se o verbo «ver» porque o homem conhece através dos sentidos, especialmente da vista; dizer que o Filho vê o que faz o Pai é um modo de falar dos poderes que desde toda a eternidade recebe d’Ele (cfr Comentário sobre S. João, ad loc.).

20-21. Quando se diz que o Pai mostra ao Filho «tudo o que Ele mesmo faz » indica-se que Cristo pode fazer o mesmo que o Pai. Assim, quando Jesus Cristo realiza obras que são próprias de Deus, está a testemunhar com elas a Sua Divindade (cfr Ioh 5,36).

«Obras maiores»: Pode referir-se aos milagres que Jesus realizará na Sua vida e ao poder de julgar. Mas o milagre por excelência de Jesus é a Sua própria Ressurreição, causa e primícia da nossa (cfr l Cor 15,20 ss.) e da aquisição para nós da vida sobrenatural. O poder vivificador de Cristo é total, tal como o do Pai. Este ensinamento desenvolve-se ao longo dos versículos seguintes até ao 29.

22-30. O poder de julgar também foi dado pelo Pai ao Verbo Encarnado. O juízo será condenatório para quem não crer em Cristo e na Sua palavra (cfr 3,18). É necessário reconhecer o senhorio de Jesus Cristo, sabendo que só ao aceitar o Filho feito homem honramos o Pai; aquele que não honra Jesus, também não honra o Pai (v. 23). Por esta acei­tação de Cristo, da Sua palavra, possuímos a vida eterna e somos libertados da condenação. Ele, assumida já de modo inseparável a Sua Humanidade, é constituído juiz, e o Seu juízo é justo porque busca cumprir a Vontade do Pai que O enviou, e não faz nada por conta própria; isto é, a Sua vontade humana está perfeitamente identificada com a Sua vontade divina: por isso pode afirmar Jesus que não faz a Sua vontade mas a Vontade do que O enviou.

22. Deus, por ser o Criador do mundo, é o Juiz supremo de todas as criaturas. Só Ele pode saber com toda a profundidade se estas criaturas cumprem o fim que Ele lhes marcou. Jesus Cristo, Verbo Encarnado, recebe os poderes divinos (cfr Mt 11,27;28,18; Dan7,14), entre eles o de julgar os homens. Ora bem, a Vontade de Deus é que estes se salvem: Cristo não veio para um juízo de condenação, mas de salvação (cfr Ioh12,47). Unicamente o que não aceitar esta missão divina do Filho se coloca a si mesmo fora do âmbito da salvação. Como ensina o Magistério: «Que o poder judi­cial Lhe tenha sido dado por Seu Pai, o próprio Jesus Cristo o proclama diante dos Judeus que Lhe atiram à cara ó ter violado o descanso do sábado ao curar o paralítico (…). Este poder supõe o direito de impor prêmios e castigos aos homens, mesmo nesta vida» (Quas primas, Dz-Sch 3677). Jesus Cristo, portanto, é Juiz de vivos e de mortos, e retri­buirá a cada um segundo as suas obras (cfr 1 Pet 1,17).

«É certo que de todas as nossas culpas temos de prestar estreitas contas ao eterno Juiz; mas, quem será este nosso Juiz? O Pai (…) deu todo o juízo ao Filho. Consolemo-nos, pois, já que o Eterno Pai pôs a nossa causa nas mãos do nosso próprio Redentor. São Paulo anima-nos com estas palavras: Quem será o que condene? Cristo, Jesus, o que morreu (…) é Quem (…) intercede por nós (Rom 8,34). Quem é o juiz que nos há-de condenar? O próprio Salvador que, para não nos condenar à morte eterna, quis condenar-Se a Si mesmo e,por conseguinte, morreu e, não contente com isso, agora no Céu prossegue junto do Pai sendo mediador da nossa sal­vação» (Prática de amor a Jesus Cristo, cap. 3).

24. Escutar a palavra de Cristo e crer n’Aquele que O enviou, isto é, no Pai, são duas expressões intimamente rela­cionadas. O que diz Jesus Cristo é revelação divina; por isso, aceitar as palavras de Jesus equivale a crer em Deus Pai: «Aquele que crê em Mim, não crê em Mim, mas n’Aquele que Me enviou (…). Porque Eu não falei por Mim Mesmo, mas o Pai que Me enviou, ordenou-Me o que hei-de dizer e falar» (Ioh12,44.49).

Aquele que tem fé está no caminho da vida eterna, porque participa, já nesta vida terrena, da vida divina que é eterna; mas não a conseguiu definitivamente — porque pode perdê-la —, nem em plenitude: «Queridos, agora somos filhos de Deus mas ainda não se manifestou o que seremos (…), quando se manifestar seremos semelhantes a Ele» (l Ioh3,2). Para aquele que se mantém firme na fé, e vive de acordo com as suas exigências, o juízo divino não será condenatório mas salvador.

Portanto, vale a pena esforçar-se, apoiados na graça, por viver uma vida coerente com a fé: «Se se procurar com tanto empenho, com tanto trabalho e com tanto esforço viver aqui um pouco mais, quanto não deverá fazer-se para viver eternamente?» (De verb. Dom. semi., 64).

25-30. Com estes vv encerra-se a primeira parte do dis­curso do Senhor, que abarca de5,19 a 5,47, e cujo núcleo essencial é a revelação acerca da Sua relação com o Pai. Para compreender as afirmações que o Senhor faz aqui há que ter presente que Ele, por ser uma única Pessoa (divina), um só sujeito de operações, um único Eu, exprime em palavras humanas não só os sentimentos que tem como homem, mas também a realidade mais profunda do Seu ser: é o Filho de Deus, tanto na Sua geração eterna pelo Pai, como na Sua geração no tempo ao assumir a natureza humana. Daqui que Jesus Cristo tenha uma consciência tão viva e profunda — inimaginável para nós — da Sua filiação, que O leva a tratar o Pai com uma intimidade singularíssima, com amor e, ao mesmo tempo, com respeito; está consciente ao mesmo tempo da Sua igualdade com o Pai; por isso, quando fala de que o Pai Lhe deu a vida (v. 26), ou Lhe deu o poder (v. 27), não é que tenha recebido uma parte, mas a totalidade da própria vida — «em si mesmo» — ou do próprio poder, sem que o Pai os perca.

«Vês como mostra a igualdade e como a única diferença consiste em que um é o Pai e outro o Filho. Porque a expressão ‘deu’ introduz esta única diferença e demonstra que tudo o resto é igual. Daí se segue que Ele (Cristo) faz todas as coisas com a mesma potestade e com o mesmo poder que o Pai e que não toma a Sua força senão d’Ele» (Hom. sobre S. João, 39,3).

Maravilha-nos neste passo do Evangelho como na estreiteza da linguagem humana Jesus Cristo exprimiu os sentimentos do Seu único Eu: a Segunda Pessoa da Santís­sima Trindade que assumiu no tempo (e a partir desse momento para sempre) a natureza humana. É um mistério que o cristão deve contemplar, ainda que não o possa com­preender; só pode sentir-se inundado por uma luz tão potente que supera a sua capacidade de compreensão, mas enche a sua alma de fé e de desejos de adoração.

22.03.2012 – Jo 5, 31-47.

31Se Eu der testemunho de Mim mesmo, o Meu testemunho não passa por verídico. 32É outro que dá testemunho de Mim, e Eu sei que é verídico o testemunho que Ele dá de Mim. 33Vós mandastes enviados a João e ele deu testemunho da verdade. 34Não é dum homem que Eu recebo testemunho, mas digo-vos isto para que vos salveis. 35Ele era uma lâmpada que ardia e brilhava, e vós, por um momento, deixastes-vos tomar de alegria com a sua luz. 36Mas Eu tenho um testemunho maior que o de João, pois as obras que o Pai Me deu para consumar, essas mesmas obras que faço, atestam, a Meu respeito, que o Pai Me enviou. 37E o Pai que Me enviou deu Ele mesmo testemunho de Mim. Nunca Lhe ouvistes a voz, nem Lhe vistes a figura, 38e não tendes, permanecendo em vós, a Sua palavra, porque não acredi­tais No que Ele enviou. 39Esquadrinhais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna; e são elas que dão testemunho de Mim! 40Vós, porém, não quereis vir a Mim, para terdes a vida.

41Não é dos homens que Eu tiro glória; 42aliás, bem vos conheço: não tendes em vós o amor de Deus. 43Eu vim em nome de Meu Pai e vós não Me recebeis. Se outro vier em seu próprio nome, recebê-lo-eis. 44Como po­deis acreditar, vós que tirais glória uns dos outros e não buscais a glória só da parte de Deus? 45Não penseis que Eu vou acusar-vos ao Pai. Há quem vos acuse, Moisés, em quem pusestes a vossa esperança; 46porquanto, se acreditásseis em Moisés, acreditaríeis em Mim, visto ele ter escrito a Meu respeito! 47Mas, se não acreditais nos seus escritos, como haveis de acreditar nas Minhas pala­vras?

Comentário

31-40. A Jesus, por ser o Filho de Deus, bastava-Lhe a Sua própria autoridade para dar validade às Suas palavras (cfr 8,18); mas, como outras vezes, acomoda-Se aos usos dos homens e condescende com a forma de pensar dos Seus ouvintes. Assim, antecipando-Se à possível objecção dos Judeus de que o testemunho de uma pessoa na sua própria causa não é suficiente (cfr Dt 19,15), explica que as Suas palavras são avalizadas por quatro testemunhos: o de São João Baptista, o dos milagres, o do Pai, e o das Sagradas Escrituras do Antigo Testamento.

João Baptista tinha dado testemunho de que Jesus era o Filho de Deus (1,34). Ainda que Jesus não tivesse necessidade de recorrer ao testemunho de um homem, nem sequer ao de um grande profeta, aquele testemunho foi dado em atenção aos Judeus, para que reconhecessem o Messias. Jesus pode mostrar-lhes, além disso, um testemunho melhor que o do Baptista: os milagres que realiza, e que são, para quem os queira reconhecer com olhar limpo, sinais inequívocos do Seu poder divino, de que procede do Pai; os milagres de Jesus são, pois, testemunhos do Pai acerca do Seu Filho, que enviou ao mundo. Noutras ocasiões o Pai manifesta a divin­dade de Jesus: no Baptismo (cfr 1,31-34), na Transfiguração (cfr Mt 17,1-8) e, mais tarde, diante de toda a multidão (cfr Ioh12,28-30).

Jesus apela também para outro testemunho divino: o que se encontra nas Sagradas Escrituras. Estas falam d’Ele, mas os Judeus não são capazes de penetrar ó seu verdadeiro sentido, porque as leem sem se deixarem iluminar por Aquele a Quem Deus enviou e em Quem se cumprem todas as profecias. «A ‘economia’ do Antigo Testamento destina­va-se sobretudo a preparar, a anunciar profeticamente (cfr Lc 24,44; Ioh5,39; 1Pet 1,10) e a simbolizar com várias figuras (cfr 1Cor 10,11) o advento de Cristo, redentor universal, e o do reino messiânico (…). Por isso, os fiéis devem receber com devoção estes livros que exprimem o vivo sentido de Deus, nos quais se encontram sublimes doutrinas a respeito de Deus, uma sabedoria salutar a respeito da vida humana, bem como admiráveis tesouros de preces, nos quais, finalmente, está latente o mistério da nossa salvação» (Dei Verbum, n. 15).

41-47. Jesus lança à cara dos Seus ouvintes três impedi­mentos que têm para O reconhecerem como o Messias e Filho de Deus: a falta de amor a Deus, a busca da glória humana e a interpretação interessada dos textos sagrados. A defesa que Jesus fez da Sua própria actuação e das relações com o Pai poderia fazer pensar aos Seus adversários que pretendia glória humana. Porém, os testemunhos aduzidos por Jesus (o Baptista, os milagres, o Pai e as Escrituras) põem em evidência que não é Ele quem busca a Sua glória, e que os Judeus O perseguem não por amor a Deus nem por defesa da honra divina, mas por motivos que não são rectos, ou por uma visão meramente humana.

Na verdade, o Antigo Testamento leva ao conhecimento de Jesus Cristo (cfr Ioh1,45; 2,17.22; 5,39.46; 12,16.41); não obstante, os Judeus permanecem na incredulidade pelas suas disposições interiores, pois reduzem as promessas messiânicas dos livros sagrados a uma esperança naciona­lista. Tais concepções, nada sobrenaturais, fecham-lhes a alma para as palavras e para as acções de Jesus, e impedem-nos de ver que n’Ele se estão a cumprir as antigas profecias (cfr 3,14-16).

23.03.2012 – Jo 7, 1-2.10.25-30.

Depois disto, andava Jesus pela Galileia, pois não queria andar pela Judeia, porque os Judeus procuravam dar-Lhe a morte.

2Estava próxima a festa judaica dos Tabernáculos.

10Mas, depois de os Seus irmãos terem subido para irem à festa, subiu então Ele também, não publicamente, mas em segredo.

25Diziam então alguns dos de Jerusalém: Não é a Este que procuram dar a morte? 26Aí está Ele a falar abertamente, e nada Lhe dizem! Teriam, na verdade, os chefes reco­nhecido que Ele é o Messias? 27Mas Este sabemos donde é; o Messias, quando vier, ninguém sabe donde é. 28Entretanto Jesus, estando a ensinar no Templo, disse em voz alta: Não só Me conheceis, mas sabeis tam­bém donde Eu sou, se bem que Eu não tenha vindo de Mim mesmo; mas Aquele que Me enviou é verdadeiro. Esse que vós não conheceis. 29Eu é que O conheço, porque venho de junto d’Ele e foi Ele que Me enviou. 30Procuravam então prendê-Lo, mas ninguém Lhe deitou a mão, porque ainda não chegara a Sua hora.

Comentário

1-3. Os parentes mais próximos costumavam cha­mar-se entre os Judeus com o nome de «irmãos» (cfr as notas a Mt 12,46-47 e a Mc 6,1-3). Estes parentes de Jesus continuavam sem compreender a Sua doutrina e a Sua missão (cfr Mc 3,31); não obstante, como os milagres realizados na Galileia eram patentes (cfr Mt 15,32-39; Mc 8,1-10.22-26), sugerem-Lhe que Se manifeste publicamente em Jerusalém e em toda a Judéia. Com isso quiçá buscassem o triunfo temporal de Jesus, que podia afagar a vaidade familiar.

2. O nome desta festa evoca o tempo que os Hebreus passaram no deserto, habitando em tendas de campanha (cfr Lev 23,34-36). Durante os oito dias que durava a festa (cfr Neh 8,13-18), no começo do Outono, comemorava-se a protecção que os israelitas tinham recebido de Deus ao longo daqueles quarenta anos do Êxodo. Por coincidir com o termo das colheitas, estas festas chamavam-se também das Colheitas (cfr Ex 23,16).

10. Uma vez que não subia com a antecipação costu­mada, as primeiras caravanas que chegassem da Galileia anunciariam que Jesus não estaria presente naquela festi­vidade e, por conseguinte, os membros do Sinédrio desis­tiriam de tomar medidas contra Ele (cfr 7,1). Ao subir mais tarde, as autoridades judaicas não se atreveriam a causar-Lhe dano por temor a uma revolta popular (cfr Mt 26,5). Jesus, possivelmente em companhia dos Seus discípulos, chega a Jerusalém passando despercebido para o povo, «em segredo». Estando a festa já a meio, no quarto ou no quinto dia, começou a pregar no Templo (cfr 7,14).

27. Ao longo deste capítulo aparecem frequentemente as dúvidas e o desconcerto dos Judeus. Discutem entre eles se Jesus é o Messias, ou um profeta, ou um impostor (v. 12); não sabem donde Lhe vem a Sua sabedoria (v. 15), respondem-Lhe irritados (vv 19-20) e admiram-se da atitude do Sinédrio (v. 26). Não obstante, apesar dos sinais que viram (milagres, doutrina), resistem a crer que Jesus é o Messias. Possivelmente uns pensavam que era de Nazaré, filho de José e de Maria, o que não se acomodava com a ideia comum derivada do vaticínio de Isaías (Is 53,1-8), de que se desco­nheceria a origem do Messias, excepto a Sua estirpe davídica e o Seu lugar de nascimento, Belém (cfr Mt 2,5 que cita Mich 5,2; cfr Ioh 7,42). Jesus, na realidade, cumpria estas predições proféticas ainda que a maioria dos Judeus não estivessem bem informados, pois desconheciam o Seu nasci­mento virginal em Belém e a Sua ascendência davídica. Outros, pelo contrário, deviam conhecer melhor a estirpe davídica de Jesus, o Seu nascimento em Belém, etc., mas não queriam aceitar as Suas palavras, porque elas levavam con­sigo as exigências de uma conversão moral e mental a que se fechavam culpavelmente.

28-29. Jesus refere-Se com certa ironia ao conhecimento superficial que d’Ele têm aqueles judeus, baseado nas apa­rências: Ele afirma, não obstante, que procede do Pai que O enviou, a Quem só Ele conhece, precisamente por ser o Filho de Deus (cfr Ioh 1,18).

30. Os judeus entenderam que Jesus Se fazia igual a Deus e isto era considerado uma blasfêmia, que segundo a Lei devia ser castigada com a morte por lapidação (cfr Lev 24,15-16.23).

Não é a primeira vez que São João refere a hostilidade dos judeus (cfr Ioh 5,10) nem será a última (cfr Ioh 8,59; 10,3 1-33). Sublinha esta hostilidade porque assim se deu de facto e quiçá também para pôr em realce a liberdade de Jesus que, cumprindo a Vontade do Pai, Se entregará nas mãos dos Seus inimigos quando chegar a Sua «hora» (cfr Ioh 1 8,4-8). «O Senhor não faz referência à hora em que seria obrigado a morrer, mas à hora em que Se deixaria matar. Esperava o tempo em que tinha de morrer, como esperou também o tempo em que tinha de nascer» (In Ioann. Evang., 31,5).

24.03.2012 – Jo 7, 40-53.

40Diziam então alguns dentre a multidão, que tinham ouvido estas palavras: Ele é na verdade o Profeta! 41Outros afirmavam: É o Messias! Outros, porém, diziam: Mas é da Galileia que vem o Messias? 42Não disse a Escritura que é da descendência de David e da povoação de Belém, de onde era David, que vem o Messias? 43Estabeleceu-se, pois, desa­cordo entre a multidão, por causa d’Ele. 44Alguns queriam prendê-Lo, mas ninguém Lhe deitou as mãos.

45Então, os guardas vieram ter com os Sumos Sacerdotes e os Fariseus, que lhes perguntaram: Porque não O trouxestes? 46Res­ponderam os guardas: Nunca ninguém falou como esse homem fala! 47Retorquiram-lhes os Fariseus: Também vós estais seduzidos? 48Porventura creu n’Ele algum dentre os chefes ou dentre os Fariseus? 49Mas essa multidão, que não conhece a Lei, são uns malditos!

50Disse-lhes Nicodemos, aquele fc}ue tinha ido anteriormente ter com Jesus e que era um deles: 5IAcaso julga a nossa Lei um homem, sem primeiro o ouvir e saber o que ele faz? 52Eles retorquiram-lhe: Também tu és da Galileia? Trata de indagar e hás-de ver que da Galileia não sai nenhum profeta. 53E foi cada qual para sua casa.

Comentário

40-43. O título «o Profeta» alude a Dt 18,18, que prediz a vinda nos últimos tempos de um profeta que todos deveriam escutar (cfr Ioh 1,21; 6,14); por sua vez, «o Cristo» («o Messias») era o título mais corrente no Antigo Testamento para designar o futuro Salvador enviado por Deus. O passo mostra uma vez mais a diversidade de opiniões acerca de Jesus. Muitos judeus ignoravam — sem se preocuparem de forma alguma por averiguar a verdade — que tinha nascido em Belém, a cidade de David, onde, segundo Miqueias (5,2) devia nascer o Messias. Tal ignorância culpável constituía neles uma desculpa para não O aceitar como o Cristo. Outros, porém, diante dos milagres de Jesus, compreendem que Ele deve ser o Messias. Também ao longo da história há diversas opiniões acerca de Jesus Cristo: alguns consideram-No exclusivamente como um homem extraordinário, sem que­rerem compreender que a Sua grandeza Lhe vem precisa­mente de ser o Filho de Deus.

46. Á verdade abriu caminho nos ânimos simples dos servidores do Sinédrio e, pelo contrário, chocou contra a obstinação dos fariseus. «Eis que os fariseus e os escribas não tiraram proveito nem ao contemplarem os milagres nem ao lerem as Escrituras; pelo contrário, os servidores, sem estas ajudas, foram captados por um só discurso, e os que foram prender Jesus voltaram presos pelo Seu poder. E não disseram: não pudemos por causa da gente; mas apregoaram a sabedoria de Cristo. Não é de admirar somente a sua prudência, porque não necessitaram de sinais, mas foram conquistados só pela doutrina; não disseram, com efeito: ‘Jamais homem algum fez tais milagres’, mas: ‘Jamais falou assim homem algum’, É de admirar também a sua con­vicção: vão aos fariseus, que se opunham a Cristo, e falam-lhes desta maneira» (Hom. sobre S. João, 9).

25.03.2012 – Jo 12, 20-33.

20Havia alguns gregos entre os que tinham subido para fazerem a sua adoração por ocasião da festa. 21Foram eles ter com Filipe, que era de Betsaida da Galileia, e fízeram-lhe este pedido: Senhor, nós queríamos ver Jesus. 22Filipe vai dize-lo a André, e Filipe e André vão, por sua vez, dizê-lo a Jesus. 23 Então, Jesus toma a palavra e diz-lhes: Chegou a hora de ser glorificado o Filho do homem. 24Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo, caído na terra, não morrer, fica ele só. Mas, se morrer, dá muito fruto. 25Quem tem amor à sua vida perde-a; e quem odeia a sua vida neste mundo conser­vá-la-á para a vida eterna. 26Se alguém está ao Meu serviço, que Me siga; e onde Eu estou, lá estará também o Meu servidor. Se alguém está ao Meu serviço, o Pai há-de honrá-lo.

27Agora a Minha alma está perturbada. E que hei-de dizer: Pai, salva-Me desta hora? Mas por causa disto é que Eu cheguei a esta hora! 28Pai, glorifica o Teu nome. Veio então do Céu uma voz: Glorifiquei-O e tornarei a glorificá-Lo.

29Ora a multidão, que estava presente e ouvira, dizia que tinha havido um trovão. Outros diziam: Foi um Anjo que Lhe falou. 30Jesus tomou a palavra e disse: Não foi por Minha causa que esta voz se fez ouvir, foi por vossa causa. 3IAgora é que é o julgamento deste mundo. Agora é que o Príncipe deste mundo vai ser lançado fora. 32E Eu, uma vez elevado da terra, hei-de atrair todos a Mim. 33Isto dizia Ele para indicar de que morte ia morrer.

 

Comentário

20-23. Esses «gregos» recorrem precisamente a Filipe, pois, segundo parece, este, que tem nome grego, devia en­tender a sua língua e podia-lhes servir de intérprete. Se isto é assim, estamos diante de um dos momentos transcendentes em que homens de uma cultura não judaica acorrem em busca de Cristo: são como as primícias da expansão da fé cristã no mundo helênico. Assim se compreende melhor a exclamação do Senhor no v. 23, acerca da Sua própria glorificação, que não só consiste em ser exaltado à direita do Pai (cfr Phil 2,6-11), mas também em atrair todos os homens a Si (cfr Ioh 12,32).

Também noutras ocasiões Jesus fala da «hora». Umas vezes refere-Se ao fim dos tempos (cfr Mc 13,32; Ioh 5,25); outras, como aqui, ao momento da Redenção através da Sua Morte e da Sua Glorificação (cfr Mc 14,41; Ioh 2,4; 4,23; 7,30; 8,20; 12,27; 13,1; 17,1).

24-25. Lemos aqui o aparente paradoxo entre a humi­lhação de Cristo e a Sua exaltação. Assim «foi conveniente que se manifestasse a exaltação da Sua glória de tal maneira, que estivesse unida à humildade da Sua paixão» (In Ioann. Evang., 51,8).

É a mesma ideia que ensina São Paulo ao dizer que Cristo Se humilhou e Se fez obediente até à morte e morte de Cruz, e que por isso Deus Pai O exaltou sobre toda a criatura (cfr Phil 2,8-9). Constitui uma lição e um estímulo para o cristão, que há-de ver em todo o sofrimento e contrariedade uma participação na Cruz de Cristo que nos redime e nos exalta. Para ser sobrenaturalmente eficaz, deve cada um morrer para si mesmo, esquecendo-se por completo da sua como­didade e do seu egoísmo. «Se o grão de trigo não morre, permanece infecundo. — Não queres ser grão de trigo, morrer pela mortificação e dar espigas bem gradas? — Que Jesus abençoe o teu trigal!» (Caminho, n.° 199).

26. O Senhor falou do Seu sacrifício como condição para entrar na glória. E o que vale para o Mestre, também se aplica aos Seus discípulos (cfr Mt 10,24; Lc 6,40). Jesus Cristo quer que cada um de nós O sirva. É um mistério dos desígnios divinos que Ele — que é tudo, que tem tudo e não necessita de nada nem de ninguém — queira necessitar do nosso serviço para que a Sua doutrina e a salvação operada por Ele cheguem a todos os homens.

«Seguir Cristo: este é o segredo. Acompanhá-Lo tão de perto, que vivamos com Ele, como os primeiros Doze; tão de perto, que com Ele nos identifiquemos: Se não levantarmos obstáculos à graça, não tardaremos a afirmar que nos reves­timos de Nosso Senhor Jesus Cristo (cfr Rom XIII, 14) (…).

«Neste esforço por nos identificarmos com Cristo, costumo falar de quatro degraus: procurá-Lo, encontrá-Lo, conhecê-Lo, amá-Lo. Talvez vos pareça que estais na pri­meira etapa… Procurai-O com fome, procurai-O em vós mesmos com todas as vossas forças! Se o fazeis com este empenho, atrevo-me a garantir que já O encontrastes e que já começastes a conhecê-Lo e a amá-Lo e a ter a vossa conversa nos céus (cfr Phil III, 20)» (Amigos de Deus, n.os 299-300).

27. Diante da evocação da morte que O espera, Jesus Cristo perturba-Se e dirige-Se ao Pai com uma oração muito parecida à de Getsemani (cfr Mt 26,39; Mc 14,36; Lc 22,42). Deste modo o Senhor, enquanto homem, busca filialmente apoio no amor e no poder de Seu Pai Deus, para Se fortalecer e ser fiel à Sua missão. É uma consolação para nós, tantas vezes débeis no momento difícil da provação; então, como Jesus, devemos apoiar-nos na força de Deus, «porque Tu és a minha fortaleza e o meu refúgio» (Ps 31,4).

28. A «glória» na Sagrada Escritura indica a santidade e o poder de Deus: a «glória de Deus» habitava no santuário do deserto e no Templo de Jerusalém (cfr Ex 40,35; 1Reg 8,11). A voz do Pai que diz «glorifiquei-O e tornarei a glorificá-Lo» é uma ratificação solene de que em Jesus Cristo habita a plenitude da divindade (cfr Cor 2,9; Ioh l,14)e que, através da Sua Paixão, Morte e Ressurreição, se tornará patente na Sua própria Humanidade santíssima que Jesus é o Filho de Deus (cfr Mc 15,39).

O episódio evoca outras manifestações divinas: o Baptismo de Cristo (cfr Mt 3,13-17 e par.) e a Sua Transfiguração (Mt 17,1-5 e par.), onde Deus Pai também dá testemunho da Divindade de Jesus.

31-33. Jesus indica as consequências que se vão seguir da Sua Paixão e Morte. «É o julgamento deste mundo», isto é, dos que permanecerem servindo a Satanás, «príncipe deste mundo». Ainda que «mundo» seja o conjunto de homens que Cristo vem salvar (cfr Ioh 3,16-17), também significa com frequência tudo o que se opõe a Deus (veja-se a nota a Ioh 1, 10), e neste sentido se toma aqui. Ao ser pregado na Cruz, Jesus é o sinal supremo de contradição para todos os homens: os que O reconhecem como Filho de Deus sal­vam-se (cfr Lc 23,39-43); os que O rejeitam condenam-se. Cristo crucificado é a manifestação máxima do amor do Pai (cfr Ioh 3,14-16; Rom 8,32), o sinal posto no alto, prefigurado pela serpente de bronze levantada por Moisés no deserto (cfr Ioh 3,14; Num 21,9).

Assim pois, o Senhor desde a Cruz é o Juiz universal que condenará o mundo (cfr Ioh 3,17) e o demônio (cfr Ioh 16,11); na realidade eles mesmos provocam a sua condenação ao não aceitarem nem crerem no amor divino. O Senhor desde a Cruz atrai todos os homens, pois todos podem contemplá-Lo crucificado.

«Cristo, Senhor Nosso, foi crucificado e, do alto da Cruz, redimiu o mundo, restabelecendo a paz entre Deus e os homens. Jesus Cristo lembra a todos: et ego, si exaltatus fuero a terra, omnia traham ad meipsum (Ioh XII, 32), se vós Me puserdes no cume de todas as actividades da Terra, cum­prindo o dever de cada momento, sendo Meu testemunho naquilo que parece grande e naquilo que parece pequeno, omnia traham ad meipsum, tudo atrairei a Mim. O Meu reino entre vós será uma realidade!» (Cristo que passa, n.° 183). Cada cristão seguindo Cristo, há-de ser uma bandeira has­teada, uma luz colocada no candeeiro: bem unido pela oração e mortificação à Cruz, em cada momento e circuns­tância da vida, há-de manifestar aos homens o amor salvador de Deus Pai.

«Cristo, com a Sua Encarnação, com a Sua vida de trabalho em Nazaré, com a Sua pregação e os Seus milagres por terras da Judéia e da Galileia, com a Sua morte na Cruz, com a Sua Ressurreição, é o centro da Criação. Primogênito e Senhor de toda a criatura.

«A nossa missão de cristãos é proclamar essa Realeza de Cristo; anunciá-la com a nossa palavra e com as nossas obras. O Senhor quer os Seus em todas as encruzilhadas da Terra. A alguns, chama-os ao deserto, desentendidos das inquietações da sociedade humana, para recordarem aos outros homens, com o seu testemunho, que Deus existe. Encomenda a outros o ministério sacerdotal. A grande maioria, o Senhor quere-a no mundo, no meio das ocupações terrenas. Estes cristãos, portanto, devem levar Cristo a todos os ambientes em que se desenvolve o trabalho humano: à fábrica, ao laboratório, ao trabalho do campo, à oficina do artesão, às ruas das grandes cidades e às veredas da monta­nha» (Cristo que passa, n.° 105).

32. «Hei-de atrair todos a Mim»: A Vulgata Latina, se­guindo importantes manuscritos gregos, traduz omnia, «tudo», «todas as coisas». A Neo-vulgata, apoiando-se noutros manus­critos também importantes e mais numerosos que os ante­riores, optou por omnes, «todos». As razões para escolher uma ou outra variante não são definitivas; mais ainda, teologicamente ambas são certas e não se excluem, pois Cristo atrai para Si toda a criação, mas especialmente o homem (cfr Rom 8,18-23).

26.03.2012 – Lc 1, 26-38.

26Ao sexto mês, foi o Anjo Gabriel enviado, Anunciação da parte de Deus, a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, 27a uma virgem que era noiva dum homem da casa de David, cha­mado José, e o nome da virgem era Maria. 28Ao entrar para junto dela, disse o Anjo: Salve, ó cheia de graça, o Senhor está contigo. 29A estas palavras, ela perturbou-se ficou a pensar que saudação seria aquela. 30Disse-lhe o Anjo: Não tenhas receio, Maria, pois achaste graça diante de Deus. 3lHás-de conceber e dar à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus. 32Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo; dar-Lhe-á o Senhor Deus o trono de Seu pai David, 33reinará eternamente na casa de Jacob e o Seu Reinado não terá fim.

34Disse Maria ao Anjo: Como será isso, se eu não conheço homem? 35Disse-lhe o Anjo, em resposta: Virá sobre ti o Espírito Santo, e a força do Altíssimo estenderá sobre ti a Sua sombra. Por isso mesmo é que o Santo que vai nascer há-de chamar-Se Filho de Deus. 36E também Isabel, tua parenta, concebeu um filho, na sua velhice, e é este o sexto mês dessa que chamavam estéril, 37porque, da parte de Deus, nada é impossível. 38Maria disse então: Eis a escrava do Senhor: seja-me feito segundo a tua palavra. E retirou-se o Anjo de junto dela.

Comentário

26-38. Aqui contemplamos Nossa Senhora que, «enri­quecida, desde o primeiro instante da sua conceição, com os esplendores duma santidade singular, a Virgem de Nazaré é saudada pelo Anjo, da parte de Deus, como cheia de graça (cfr Lc 1,28); e responde ao mensageiro celeste: Eis a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra (Lc 1 ,38). Deste modo, Maria, filha de Adão, dando o seu consentimento à palavra divina, tornou-se Mãe de Jesus e, não retida por qualquer pecado, abraçou de todo o coração o desígnio salvador de Deus, consagrou-se totalmente, como escrava do Senhor, à pessoa e à obra de seu Filho, subordinada a Ele e juntamente com Ele, servindo pela graça de Deus omnipotente o mistério da Redenção. Por isso, consideram com razão os santos Padres que Maria não foi utilizada por Deus como instrumento meramente passivo, mas que cooperou livremente, pela sua fé e obediência, na salvação dos homens» (Lumen gentium, n. 56).

A Anunciação a Maria e a Encarnação do Verbo é o facto mais maravilhoso, o mistério mais entranhável das relações de Deus com os homens e o acontecimento mais transcendente da História da humanidade. Que Deus Se faça Homem e para sempre! Até onde chegou a bondade, a misericórdia e o amor de Deus por nós, por todos nós! E, não obstante, no dia em que a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade assu­miu a débil natureza humana das entranhas puríssimas de Maria Santíssima, nada extraordinário acontecia, aparentemente, sobre a face da terra.

Com grande simplicidade narra São Lucas o magno acontecimento. Com quanta atenção, reverência e amor temos de ler estas palavras do Evangelho, rezar piedosamente o Angelus cada dia, seguindo a divulgada devoção cristã, e contemplar o primeiro mistério gozoso do santo Rosário.

27. Deus quis nascer de uma mãe virgem. Assim o tinha anunciado séculos antes por meio do profeta Isaías (cfr Is 14; Mt 1,22-23). Deus, «desde toda a eternidade, esco­lheu-A e indicou-A como Mãe para que o Seu Unigênito Filho tomasse carne e nascesse d’Ela na plenitude ditosa dos tempos; e em tal grau A amou por cima de todas as criaturas, que só n’Ela se comprazeu com assinaladíssima complacência» (Ineffabilis Deus). Este privilégio de ser virgem e mãe ao mesmo tempo, concedido a Nossa Senhora, é um dom divino, admirável e singular. Deus «engrandeceu tanto a Mãe na concepção e no nascimento do Filho, que Lhe deu fecundidade e A conservou em perpétua virgindade» (Catecismo Romano, 1,4,8). Paulo VI recordava-nos novamente esta verdade de fé: «Cremos que a bem-aventurada Maria, que permaneceu sempre Virgem, foi a Mãe do Verbo encar­nado, Deus e Salvador nosso Jesus Cristo» (Credo do Povo de Deus, n.° 14).

Ainda que se tenham proposto muitos significados do nome de Maria, os autores de maior relevância parecem estar de acordo em que Maria significa Senhora. Não obstante, a riqueza que contém o nome de Maria não se esgota com um só significado.

28. «Salve!»: Literalmente o texto grego diz: alegra-te! É claro que se trata de uma alegria totalmente singular pela notícia que Lhe vai comunicar a seguir.

«Cheia de graça»: O Arcanjo manifesta a dignidade e a honra de Maria com esta saudação desusada. Os Padres e Doutores da Igreja «ensinaram que com esta singular e solene saudação, jamais ouvida, se manifestava que a Mãe de Deus era assento de todas as graças divinas e que estava adornada de todos os carismas do Espírito Santo», pelo que «jamais esteve sujeita a maldição», isto é, esteve imune de todo o pecado. Estas palavras do arcanjo constituem um dos textos em que se revela o dogma da Imaculada Conceição de Maria (cfr Ineffabilis Deus; Credo do Povo de Deus, n.° 14).

«O Senhor está contigo»: Estas palavras não têm um mero sentido deprecatório (o Senhor esteja contigo), mas afirmativo (o Senhor está contigo), e em relação muito (estreita com a Encarnação. Santo Agostinho glosa a frase «o Senhor está contigo» pondo na boca do arcanjo estas palavras: «Mais que comigo, Ele está no teu coração, forma-Se no eu ventre, enche a tua alma, está no teu seio» (Sermo de Nativitate Domini, 4).

Alguns importantes manuscritos gregos e versões antigas acrescentam no fim: «Bendita tu entre as mulheres»: Deus exaltá-La-ia assim sobre todas as mulheres. Mais excelente que Sara, Ana, Débora, Raquel, Judit, etc., pelo facto de que só Ela tem a suprema dignidade de ter sido escolhida para ser Mãe de Deus.

29-30. Perturbou-se Nossa Senhora pela presença do Arcanjo e pela confusão que produzem nas pessoas verdadeiramente humildes os louvores dirigidos a elas.

30. A Anunciação é o momento em que Nossa Senhora conhece com clareza a vocação a que Deus A tinha destinado desde sempre. Quando o Arcanjo A tranquiliza e Lhe diz «não temas, Maria», está a ajudá-La a superar esse temor inicial que, ordinariamente, se apresenta em toda a vocação. O facto de que isto tenha acontecido à Santíssima Virgem indica-nos que não há nisso nem sequer imperfeição: é uma reacção natural diante da grandeza do sobrenatural. Imperfeição seria não o superar, ou não nos deixarmos aconselhar por aqueles que, como São Gabriel e Nossa Senhora, podem ajudar-nos.

31-33. O arcanjo Gabriel comunica à Santíssima Virgem a sua maternidade divina, recordando as palavras de Isaias que anunciavam o nascimento virginal do Messias e que agora se cumprem em Maria Santíssima (cfr Mt 1 ,22-23; Is 7,14).

Revela-se que o Menino será «grande»: a grandeza vem-Lhe da Sua natureza divina, porque é Deus, e depois da Encarnação não deixa de sê-lo, mas assume a pequenez da humanidade. Revela-se também que Jesus será o Rei da dinastia de David, enviado por Deus segundo as promessas de Salvação; que o Seu Reino «não terá fim»; porque a Sua humanidade permanecerá para sempre indissoluvelmente unida à Sua divindade; que «chamar-se-á Filho do Altís­simo»: indica ser realmente Filho do Altíssimo e ser reconhe­cido publicamente como tal, isto é, o Menino será o Filho de Deus.

No anúncio do Arcanjo evocam-se, pois, as antigas pro­fecias que anunciavam estas prerrogativas. Maria, que conhecia as Escrituras Santas, entendeu claramente que ia ser Mãe de Deus.

34-38. O Papa João Paulo II comentava assim este passo: «Virgo fidelis, Virgem fiel. Que significa esta fidelidade de Maria? Quais são as dimensões dessa fidelidade? A primeira dimensão chama-se busca. Maria foi fiel, antes de mais, quando com amor se pôs a buscar o sentido profundo do desígnio de Deus n’Ela e para o mundo. ‘Quomodo fiet? Como acontecerá isto?’, perguntava Ela ao anjo da Anun­ciação (…). Não haverá fidelidade se não houver na raiz esta ardente, paciente e generosa busca (…).

«A segunda dimensão da fidelidade chama-se acolhimento, aceitação. O quomodo fiet transforma-se, nos lábios de Maria, em um fiat. Que se faça, estou pronta, aceito: este é o momento crucial da fidelidade, momento em que o homem percebe que jamais compreenderá totalmente o como; que no desígnio de Deus mais zonas de mistério que de evidência; que, por mais que faça, jamais conseguirá captar tudo (…).

«Coerência é a terceira dimensão da fidelidade. Viver de acordo com o que se crê. Ajustar a própria vida ao objecto da própria adesão. Aceitar incompreensões, perseguições antes de permitir rupturas entre o que se vive e o que se crê: esta é a coerência (…).

«Mas toda a fidelidade deve passar pela prova mais exigente: a da duração. Por isso a quarta dimensão da fidelidade é a constância. É fácil de ser coerente por um dia ou por alguns dias. Difícil e importante é ser coerente toda a vida. É fácil de ser coerente na hora da exaltação, difícil sê-lo na hora da tribulação. E só pode chamar-se fidelidade uma coerência que dura ao longo de toda a vida. O fiat de Maria na Anunciação encontra a sua plenitude no fiat silencioso que repete aos pés da cruz» (Homilia Catedral México).

34. A fé de Maria nas palavras do Arcanjo foi absoluta; não duvida como duvidou Zacarias (cfr 1,18). A pergunta da Santíssima Virgem «como será isso» exprime a sua prontidão para cumprir a Vontade divina diante de uma situação que parece à primeira vista contraditória: por um lado Ela tinha a certeza de que Deus lhe pedia para con­servar a virgindade; por outro lado, também da parte de Deus, é-lhe anunciado que vai ser mãe. As palavras imediatas do arcanjo declaram o mistério do desígnio divino e o que parecia impossível, segundo as leis da natureza, explica-se por uma singularíssima intervenção de Deus.

O propósito de Maria de permanecer virgem foi certa­mente algo singular, que interrompia o modo ordinário de proceder dos justos do Antigo Testamento, no qual, como expõe Santo Agostinho, «atendendo de modo particularíssimo à propagação e ao crescimento do Povo de Deus, que era o que tinha de profetizar e donde havia de nascer o Prín­cipe e Salvador do mundo, os santos tiveram de usar do bem do matrimônio» (De bono matrimonii, 9,9). Houve, porém, no Antigo Testamento alguns homens que por desígnio de Deus permaneceram célibes, como Jeremias, Elias, Eliseu e João Baptista. A Virgem Santíssima, inspirada ‘de modo muito particular pelo Espírito Santo para viver plenamente a virgindade, é já uma primícia do Novo Testamento, no qual a excelência da virgindade sobre o matrimônio adqui­rirá todo o seu valor, sem diminuir a santidade da união conjugal, que é elevada à dignidade de sacramento (cfr Gaudium et spes, n. 48).

35. A «sombra» é um símbolo da presença de Deus. Quando Israel caminhava pelo deserto, a glória de Deus enchia o Tabernáculo e uma nuvem cobria a Arca da Aliança (Ex 40,34-36). De modo semelhante quando Deus entregou a Moisés as tábuas da Lei uma nuvem cobria a montanha do Sinai (Ex 24,15-16), e também na Transfiguração de Jesus se ouve a voz de Deus Pai no meio de uma nuvem (Lc 9,35). No momento da Encarnação o poder de Deus enroupa com a Sua sombra Nossa Senhora. É a expressão da acção omnipotente de Deus. O Espírito de Deus — que, segundo o relato do Gênesis (1 ,2), pairava sobre as águas dando vida às coisas — desce agora sobre Maria. E o fruto do seu ventre será obra do Espírito Santo. A Virgem Maria, que foi concebida sem mancha de pecado (cfr Ineffabilis Deus), fica depois da Encarnação constituída em novo Tabernáculo de Deus. Este é o Mistério que recordamos todos os dias na recitação do Ángelus.

38. Uma vez conhecido o desígnio divino, Nossa Senhora entrega-se à Vontade de Deus com obediência pronta e sem reservas. Dá-se conta da desproporção entre o que vai ser — Mãe de Deus — e o que é — uma mulher —. Não obstante, Deus o quer e nada é impossível para Ele, e por isto ninguém é capaz de pôr dificuldades ao desígnio divino. Daí que, juntando-se em Maria a humildade e a obediência, pronun­ciará o sim ao chamamento de Deus com essa resposta perfeita: «Eis a escrava do Senhor, seja-me feito segundo a tua palavra».

«Ao encanto destas palavras virginais, o Verbo se fez carne» (Santo Rosário, primeiro mistério gozoso). Das purís­simas entranhas da Santíssima Virgem, Deus formou um corpo, criou do nada uma alma, e a este corpo e alma uniu-Se o Filho de Deus; desta sorte o que antes era apenas Deus, sem deixar de o ser, ficou feito homem. Maria já é Mãe de Deus. Esta verdade é um dogma da nossa santa fé definido no Concilio de Éfeso (ano 431). Nesse mesmo instante começa a ser também Mãe espiritual de todos os homens. O que um dia ouvirá de lábios de seu Filho moribundo, «eis aí o teu filho (…), eis aí a tua mãe» (Ioh 19,26-27), não será senão a proclamação do que silenciosamente tinha acontecido em Nazaré. Assim, «com o seu fiat generoso converteu-se, por obra do Espírito, em Mãe de Deus e também em verdadeira Mãe dos vivos, e converteu-se também, ao acolher no seu seio o único Mediador, em verdadeira Arca da Aliança e verdadeiro Templo de Deus» (Marialis cultus, n. 6).

O Evangelho faz-nos contemplar a Virgem Santíssima como exemplo perfeito de pureza («não conheço homem»); de humildade («eis a escrava do Senhor»); de candura e simplicidade («como será isso»); de obediência e de fé viva («seja-me feito segundo a tua palavra»). «Procuremos apren­der, seguindo também o seu exemplo de obediência a Deus, numa delicada combinação de submissão e de fidalguia. Em Maria, nada existe da atitude das virgens néscias, que obe­decem, sim, mas como insensatas. Nossa Senhora ouve com atenção o que Deus quer, pondera aquilo que não entende, pergunta o que não sabe. Imediatamente a seguir, entrega-se sem reservas ao cumprimento da vontade divina: eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a Vossa palavra (Lc 1, 38). Vedes esta maravilha? Santa Maria, mestra de toda a nossa conduta, ensina-nos agora que a obediência a Deus não é servilismo, não subjuga a consciência, pois nos move interiormente a descobrir a liberdade dos filhos de Deus (cfr Rom VIII, 21)» (Cristo que passa, n.° 173).

27.03.2012 – Jo 6, 21-30.

21Quiseram então recebê-Lo no barco, e logo o barco chegou à terra para onde iam.

22No dia seguinte, a multidão que se encontrava. do outro lado do mar verificou que ali não estivera outra embarcação além duma só e que Jesus não entrara no barco com os discípulos, mas só estes se haviam retirado. 23Todavia, tinham vindo outras embarcações de Tiberíade para junto do local em que haviam comido o pão, depois de o Senhor ter dado graças. 24Quando a multidão viu que Jesus não estava lá, nem os discípulos, subiram todos para as embarca­ções e vieram para Cafarnaum, em busca de Jesus. 25E quando O encontraram do outro lado do mar, disseram-Lhe: Rabi, quando chegaste aqui?

26Respondeu-lhes Jesus, dizendo: Em verdade, em verdade vos digo: Vós procurais-Me, não porque vistes milagres, mas por haverdes comido dos pães e vos terdes saciado. 27Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela comida que se conserva até à vida eterna e que o Filho do homem vos dará; pois a Este é que o Pai, o próprio Deus, marcou com o Seu selo. 28Disseram-Lhe en­tão: Que havemos de fazer para trabalhar nas obras de Deus? 29Respondeu-lhes Jesus: É esta a obra de Deus: que acrediteis No que Ele enviou.

Comentário

26. O Senhor começa por corrigir a falta de rectidão de intenção que os movia a segui-Lo, preparando-os assim para compreender a doutrina do discurso eucarístico. «Procurais-Me, comenta Santo Agostinho, por motivos da carne, não do espírito. Quantos há que buscam Jesus, guiados apenas por interesses temporais! (…). Quase não se busca Jesus por Jesus» (In Ioann. Evang., 25,10).

Começa neste versículo o chamado Discurso do Pão da Vida, que se prolonga até ao versículo 59. Inicia-se com uma introdução a modo de diálogo entre Jesus e os Judeus (vv. 26-34), onde o Senhor Se revela como Aquele que vem trazer os dons messiânicos. Segue-se a primeira parte do discurso (vv. 35-47), em que Jesus Se apresenta como o Pão da Vida, enquanto a fé n’Ele é alimento para a vida eterna. Na segunda parte (vv. 48-59) Cristo revela o mistério da Eucaristia: Ele é o Pão da Vida que Se dá sacramentalmente como verdadeira comida.

27. O alimento corporal serve para a vida neste mundo, o espiritual sustenta e desenvolve a vida sobrenatural, que continua para sempre no Céu. Este alimento, que só Deus nos pode dar, consiste principalmente no dom da fé e na graça santificante. Inclusive, por infinito amor divino, na Santíssima Eucaristia é-nos dado como alimento da alma o próprio autor desses dons: Jesus Cristo.

«A Este é que o Pai marcou com o Seu selo»: Com esta frase o Senhor alude à autoridade, pela qual só Ele pode dar aos homens os dons mencionados: porque sendo Deus e homem, a natureza humana de Jesus é o instrumento pelo qual actua a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. São Tomás de Aquino comenta assim esta frase: «O que o Filho do Homem dará, possui-o enquanto supera todos os outros homens pela sua singular e eminente plenitude de graça (…). Quando um selo se imprime na cera, esta recebe toda a forma do selo. Assim o Filho recebeu toda a forma do Pai. E isto de dois modos: um eterno (geração eterna), do qual não se fala aqui porque o selo e o selado são de natureza diferente. O outro, que é o que se deve entender aqui, é o mistério da Encarnação, pela qual Deus Pai imprimiu na natureza humana o Verbo, que é resplendor e selo da Sua substância, como diz Hebreus 1,3» (Comentário sobre S. João, ad loc.).

28.03.2012 – Jo 8, 31-42.

31Dizia então Jesus aos Judeus que n’Ele tinham acreditado: Se permanecerdes na Minha palavra, sereis verdadeiramente Meus discípulos, 32conhecereis a verdade, e a ver­dade libertar-vos-á. 33Eles responderam-Lhe: Nós somos a descendência de Abraão e nunca fomos escravos de ninguém; como é que Tu dizes: «ficareis livres»? 34Retorquiu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: Todo aquele que comete o pecado é escravo do pecado. 35Ora o escravo não fica na casa para sempre; o filho é que fica para sempre. 36Portanto, se o Filho vos libertar, sereis realmente livres. 37Eu sei que sois a descendência de Abraão, mas vós procurais matar-Me, porque a Minha palavra não tem cabimento em vós.

38Eu digo o que vi junto do Pai, e vós fazeis o que ouvistes ao vosso pai. 39Retorquiram-Lhe eles: O nosso pai é Abraão! Se fósseis filhos de Abraão —disse-lhes Jesus — faríeis as obras de Abraão. 40Mas vós procurais matar-Me, a Mim que vos disse a verdade que ouvi a Deus! Isso não fez Abraão! 41Vós fazeis as obras do vosso pai. Disseram-Lhe eles: Nós não nascemos da prostituição; só temos um Pai, que é Deus! 42Disse-lhes Jesus: Se fosse Deus o vosso Pai, vós amar-Me-íeis, pois de Deus é que Eu saí e venho. É que Eu não vim de Mim próprio, mas foi Ele que Me enviou.

 

Comentário

30-32. Aos judeus que então creem em Jesus pede-lhes muito mais que a fé momentânea produzida por um entu­siasmo superficial; trata-se de ser verdadeiros discípulos, de modo que as palavras de Jesus informem as suas vidas para sempre. O fruto dessa fé profunda será o conhecimento da verdade e uma vida autenticamente livre.

O conhecimento da verdade de que fala Cristo não é só intelectual, mas antes o amadurecimento na alma da semente da Revelação divina. Esta culmina nas palavras de Cristo, e é uma verdadeira comunicação de vida sobrenatural (cfr Ioh 5,24): aquele que crê em Jesus, e através d’Ele no Pai, recebe o maravilhoso dom da vida eterna. Conhecer a verdade, em última análise, é conhecer o próprio Cristo, Deus encarnado para a nossa salvação, sentir que o Deus inacessível Se fez homem, nosso Amigo, nossa vida.

Esse conhecimento é o único que realmente nos torna livres, porque nos tira do estado de afastamento de Deus, do pecado, e, portanto, da escravidão do demônio e de todas as ataduras da nossa natureza caída, e nos introduz na senda da amizade divina, da graça, do Reino de Deus. Por isso esta liberdade não só é luz que nos marca o caminho, mas graça, força que nos dá a possibilidade de o percorrer apesar das nossas limitações.

«Jesus Cristo vai ao encontro do homem de todas as épocas, também do da nossa época, com as mesmas palavras que disse alguma vez: ‘conhecereis a verdade, e a verdade tornar-vos-á livres’ (Ioh 8,32). Estas palavras encerram em si uma exigência fundamental e, ao mesmo tempo, uma adver­tência: a exigência de uma relação honesta para com a verdade, como condição de uma autêntica liberdade; e a advertência, ademais, para que seja evitada qualquer ver­dade aparente, toda a liberdade superficial e unilateral, toda a liberdade que não compreenda cabalmente a verdade sobre o homem e sobre o mundo. Ainda hoje, depois de dois mil anos, Cristo continua a aparecer-nos como Aquele que traz ao homem a liberdade baseada na verdade, como Aquele que liberta o homem daquilo que limita, diminui e como que despedaça essa liberdade nas próprias raízes, na alma do homem, no seu coração e na sua consciência. Que confirmação estupenda disto mesmo deram e não cessam de dar aqueles que, graças a Cristo e em Cristo, alcançaram a verdadeira liberdade e a manifestaram até em condições de constrangimento exterior!» (Redemptor hominis, n. 12).

«O próprio Cristo une, de modo particular, a libertação com o conhecimento da verdade: ‘Conhecereis a verdade, e a verdade tornar-vos-á livres’ (Ioh 8,32). Esta frase atesta sobretudo o íntimo significado da liberdade com que Cristo nos liberta. Libertação significa transformação interior do homem, consequência do conhecimento da verdade. A transformação é, portanto, um processo espiritual no qual o homem progride ‘na justiça e na santidade verdadeiras’ (Eph 4,24) (…). A verdade tem importância não só para o crescimento da consciência humana, tornando mais pro­funda deste modo a vida interior do homem; a verdade tem também um significado e uma força profética; ela constitui o conteúdo do testemunho e exige um testemunho. Encon­tramos esta força profética da verdade nos ensinamentos de Cristo: Como Profeta, como testemunha da verdade, Cristo opõe-Se repetidamente à não-verdade; fá-lo com grande força e decisão, e a miúde não duvida em censurar o falso» (João Paulo II, Audiência geral de 21-11-1979).

São Tomás de Aquino explica o profundo conteúdo destas palavras do Senhor do seguinte modo: «Libertar neste passo não se refere a tirar qualquer angústia (…), mas propriamente significa tornar livre, e isto de três modos: primeiro, a verdade da doutrina tornar-nos-á livres do erro da falsidade (…); segundo, a verdade da graça livrará da escravidão do pecado: ‘A lei do espírito de vida que está em Cristo Jesus libertou-me da lei do pecado e da morte’ (Rom 8,2); terceiro, a verdade da eternidade em Cristo Jesus livrar-nos-á da corrupção (cfr Rom 8,21)» (Comentário sobre S. João, ad loc.)

«A verdade libertar-vos-á»: «Que verdade é esta que inicia e consuma o caminho da liberdade em toda a nossa vida? Resumi-la-ei com a alegria e com a certeza que nascem da relação de Deus com as Suas criaturas: saber que saímos das mãos de Deus, que somos objecto da predilecção da Santíssima Trindade, que somos filhos de tão grande Pai. Eu peço ao meu Senhor que nos decidamos a ter isso sempre em consideração, a saboreá-lo dia-a-dia; assim actuaremos como pessoas livres. Não o esqueçais: quem não sabe que é filho de Deus desconhece a sua verdade mais íntima e carece, na sua actuação, do domínio e do senhorio próprios dos que amam o Senhor acima de todas as coisas» (Amigos de Deus, n.° 26).

33-34. Durante séculos o povo de Israel tinha estado sujeito a outras nações (Egipto, Babilônia, Pérsia…), e naquele momento encontrava-se sob a dominação de Roma. Por isso estes judeus entenderam que Jesus Se referia a uma escravidão ou domínio político, ao qual tinham estado submetidos de facto, embora nunca o tivessem aceitado. Além disso, por pertencer ao povo escolhido por Deus, consideravam-se livres dos erros e aberrações morais dos povos pagãos.

Eles pensavam que a verdadeira liberdade estava baseada no facto de pertencer ao povo eleito. O Senhor responde que ser da linhagem de Abraão não basta, mas que a verdadeira liberdade consiste em não ser escravos do pecado. Tanto judeus como pagãos estavam submetidos à escravidão do pecado original e dos pecados pessoais (cfr Rom 5,12; 6,20 e 8,2). Só Cristo, o Filho de Deus, podia libertar desta triste situação (cfr Gal 4,21-51); mas os judeus que O escutavam não entenderam a obra redentora que Cristo estava a realizar e que culminaria com a Sua Morte e Ressurreição.

«O Salvador — comenta Santo Agostinho — manifestou com estas palavras, não que ficaríamos livres dos povos dominadores, mas do demônio; não do cativeiro do corpo, mas da malícia da alma» (Sermo 48).

35-36. As palavras escravo e filho evocam os dois filhos de Abraão: Ismael, nascido da escrava (Agar), que não terá parte na herança; e Isaac, nascido da livre (Sara), que será herdeiro das promessas de Deus (cfr Gen 21,10-12; Gal 4,28-31). Não basta a descendência carnal de Abraão para herdar as promessas de Deus e salvar-se, mas é preciso identificar-se, pela fé e pela caridade, com Jesus Cristo, o verdadeiro e próprio Filho do Pai, o único que pode tornar-nos filhos de Deus e deste modo trazer-nos a verdadeira liberdade (cfr Rom 8,21; Gal 4,31). Cristo dá «poder para ser filhos de Deus, aos que crêem no Seu nome, que não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem do querer do homem, mas de Deus» (Ioh 1,12-13). Assim, o homem que se identifica com Cristo torna-se filho de Deus e obtém a liberdade própria dos filhos.

«A liberdade adquire o seu sentido autêntico quando se exerce ao serviço da verdade que resgata, quando se gasta a procurar o amor infinito de Deus, que nos desata de todas as escravidões. Aumentam cada dia mais os meus desejos de anunciar em altos brados esta insondável riqueza do cristão: a liberdade da glória dos filhos de Deus (Rom VIII,21) (…). Donde nos vem esta liberdade? De Cristo, Nosso Senhor. Esta é a liberdade com que Ele nos redimiu (cfr Gal IV,31). Por isso ensina: se o Filho vos libertar, sereis verdadeiramente livres (Ioh VIII,36). Nós, os cristãos, não temos de pedir emprestado a ninguém o verdadeiro sentido deste dom, porque a única liberdade que salva o homem é a cristã (Amigos de Deus, n.os 27 e 35).

37-41. O Senhor responde à objecção dos judeus: efectivamente são filhos de Abraão, mas só em sentido natural, segundo a carne, circunstância carecida já de valor, pois o que agora conta é a aceitação de Jesus como Enviado do Pai. Espiritualmente os interlocutores de Jesus estão muito longe de terem a verdadeira filiação de Abraão: este alegrou-se ao ver o Messias (cfr Ioh 8,56); pela sua fé foi justificado (cfr Rom 4,1 ss.), e a sua fé moveu-o a levar uma conduta consequente (cfr Iac 2,21-24); por isto chegou a alcançar o gozo da eterna bem-aventurança (cfr Mt 8,11; Lc 16,24). Pelo contrário, aqueles judeus «eram seus descen­dentes carnais, mas tinham degenerado não imitando a fé daquele de quem eram filhos» (In Ioann. Evang., 42,1). Os que vivem da fé — diz São Paulo — são os verdadeiros filhos de Abraão e junto com ele serão abençoados por Deus (cfr Gal 3,7-9). Mais ainda, os que agora discutem com o Senhor não só rejeitam a Sua doutrina, mas as suas obras denunciam outra filiação radicalmente diferente: «Vós fazeis as obras de vosso pai», expressão que contém de forma velada a acusação de serem filhos do diabo (cfr v. 44).

A falsa segurança que sentiam os judeus por descen­derem de Abraão pode ter o seu paralelismo num cristão que se contentasse com ser baptizado e com fazer algumas práticas religiosas, abandonando as exigências que traz consigo a fé em Jesus Cristo.

29.03.2012 – Jo 8, 51-59.

51Em verdade, em verdade vos digo: Se alguém guardar a Minha palavra, nunca mais experimentará a morte. 52Disseram-Lhe os Judeus: Agora sabemos nós que estás possesso do Demônio. Abraão morreu, os profetas também, e Tu dizes: «Se alguém guardar a Minha palavra, nunca mais experi­mentará a morte». 53Serás Tu maior que o nosso pai Abraão, que morreu? E os profetas morreram também! Quem pretendes ser? 54Jesus replicou: Se Eu Me glorificar a Mim mesmo, nada será a Minha glória. É Meu Pai que Me glorifica, Ele de quem dizeis: «É o nosso Deus». 55Vós, porém, não O conheceis; Eu é que O conheço. E se dissesse que O não conhecia, seria, como vós, mentiroso. Mas Eu conheço-O e guardo a Sua palavra. 56O vosso pai Abraão exultou com a idéia de ver o Meu dia; viu-o e rejubilou. 57Disseram-Lhe então os Judeus: Ainda não tens cin­qüenta anos e viste Abraão? 58Retorquiu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: Antes de Abraão existir, Eu sou! 59Então apanharam pedras para Lhas atirarem. Mas Jesus ocultou-Se e saiu do Templo.

Comentário

51-53. «Nunca mais experimentará a morte»: O Senhor promete a vida eterna àqueles que acolherem o Seu ensina­mento e permanecerem fiéis a ele.

O pecado, como ensina o quarto Evangelho, é morte da alma; e a graça santificante, vida (cfr Ioh 1,4.13; 3,15.16.36; etc.). Pela graça temos o começo da vida eterna, o penhor da Glória que alcançaremos para além desta vida terrena e que é a Vida verdadeira. Os judeus, obcecados na sua hostilidade, não querem escutar as palavras do Senhor e por isso não O entendem.

55. O conhecimento de que fala o Senhor implica algo mais que um mero saber ou compreender. Deste conhecimento já se fala no Antigo Testamento, onde o verbo «conhe­cer» denota amor, fidelidade, entrega generosa. O amor a Deus é consequência do conhecimento certo que d’Ele tenhamos e, ao mesmo tempo, conhecemos melhor a Deus à medida que O amamos mais.

Jesus, cuja Humanidade Santíssima estava unida inti­mamente — ainda que sem confusão — com a Sua Divin­dade na única Pessoa do Verbo, não podia deixar de afirmar o Seu conhecimento singular e inefável do Pai. Mas esta linguagem verdadeira de Jesus tornava-se absolutamente incompreensível para aqueles que se fechavam à fé, até ao ponto de O considerarem como blasfemo (cfr v. 59).

56. Jesus apresenta-Se como o cumprimento das espe­ranças dos patriarcas do Antigo Testamento. Eles mantiveram-se fiéis anelando ver o dia da Redenção. Referindo-se à fé dos patriarcas exclama São Paulo: «Todos eles morreram na fé, sem terem recebido os bens que lhes tinham sido prometidos, mas contemplando-os de longe e saudando-os, e confessando ao mesmo tempo ser peregrinos e hóspedes na terra» (Heb 11,1-2.13). Entre eles sobressai Abraão, nosso pai na fé (cfr Gal 3,7), que recebe a promessa de ser pai de um povo numeroso, o povo escolhido, de que nascerá o Messias.

O futuro cumprimento das promessas messiânicas foi já para Abraão causa de imensa alegria: «Abraão, nosso pai, tendo a certeza de que se cumpriria a antiga promessa e esperando contra toda a esperança, recebeu no nascimento do seu filho Isaac as primícias proféticas da alegria messiâ­nica. Tal alegria encontra-se como que transfigurada através de uma prova de morte, quando o seu filho único lhe é devolvido vivo, prefigurando a Ressurreição do Filho Único de Deus que havia de vir, prometido para um sacrifício em que se realizaria a Redenção. Abraão exultou ao pensar que veria o dia de Jesus Cristo, o dia da Salvação: ‘viu-o e alegrou-se’ (Gaudete in Domino, II).

-Jesus move-Se num plano superior ao dos patriarcas, pois estes só viram profeticamente, «de longe», o dia de Cristo, isto é, o acontecimento da Redenção, enquanto EÍe é que leva a cabo.

58. A resposta de Jesus à observação céptica dos judeus encerra uma revelação da Sua divindade. Ao dizer «antes de Abraão existir. Eu sou», o Senhor está a referir-Se à Sua eternidade, própria da natureza divina. Por isso exclama Santo Agostinho: «Reconhecei o Criador, distingui a cria­tura. Quem falava era descendente de Abraão, mas para que Abraão fosse feito, antes de Abraão Ele era» (In Ioann. Evang., 43,17).

Os Santos Padres evocam, em relação com as palavras de Cristo, a solene teofania do Sinai: «Eu sou o que sou» (Ex 3,14), e também a distinção que São João faz no prólogo do seu Evangelho entre um mundo que «foi feito» e o Verbo que «era» desde toda a eternidade (cfr Ioh 1,1-3). A expressão «Eu sou», empregada por Jesus de maneira absoluta, equivale, pois, a afirmar a Sua eternidade e a Sua divindade. Cfr a nota a Ioh 8, 21-24.

30.03.2012 – Jo 10, 31-42.

31De novo os Judeus trouxeram pedras para O apedrejarem. 32Jesus dirigiu-lhes a palavra: Tenho-vos apresentado muitas boas obras devidas ao Pai. Por qual dessas obras Me quereis apedrejar? 33Replicaram-Lhe os Judeus: Não é por uma boa obra que Te queremos apedrejar, é por blasfêmia; e porque Tu, sendo homem, Te fazes Deus. 34Jesus respondeu-lhes: Não está escrito na vossa Lei: Eu disse: Vós sois deuses? 35Se ela chamou deuses àqueles a quem se dirigiu a palavra de Deus — e a Escritura não pode abolir-se — 36de Mim, a quem o Pai consagrou e enviou ao mundo, vós dizeis: «estás a blasfemar!» por Eu ter dito: «sou Filho de Deus»? 37Se não faço as obras de Meu Pai, não acrediteis em Mim. 38Mas, se as faço, embora não queirais acreditar em Mim, dai crédito às obras, para que reconheçais e fiqueis a saber que o Pai está em Mim e Eu estou no Pai.

39Procuravam então novamente prendê-Lo, mas Ele escapou-Se-lhes das mãos.

40Depois retirou-Se novamente para o outro lado do Jordão, para o lugar onde João tinha estado primeiro a baptizar, e por lá Se conservou. 41Muitos foram ter com Ele e diziam: João, é certo, não fez qualquer milagre, mas tudo quanto disse acerca d’Este era verdade. 42E muitos, ali, acreditaram n’Ele.

Comentário

31-33. Os judeus compreendem que Jesus afirma ser Deus, mas interpretam as Suas palavras como uma blas­fêmia. Chamaram-Lhe blasfemo quando perdoou os pecados do paralítico (Mt 9,1-8) e acusando-O de. blasfemo condená-Lo-ão também quando confessar solenemente a Sua di­vindade diante do Sinédrio (Mt 26,63-65). Nosso Senhor manifestou, pois, a Sua natureza divina; mas aqueles ouvin­tes rejeitaram esta revelação do mistério de Deus Encar­nado, fechando-se diante das provas que Jesus lhes oferecia. Por isso O acusam de que, sendo homem, Se faz Deus. A fé apoia-se em argumentos razoáveis — milagres e profe­cias — para crer que Jesus é verdadeiro homem e verdadeiro Deus, ainda que o nosso entendimento limitado nos impeça de compreender como isto pode ser. Na verdade, o Senhor, para reafirmar a Sua divindade, recorre a dois argumentos que os Seus adversários não poderão rebater: o testemunho da Sagrada Escritura — profecias — e o das Suas próprias obras — milagres —.

34-36. O Evangelho mostrou-nos já várias respostas do Senhor a objecções dos judeus. Agora Jesus recorre com paciência a uma argumentação que para eles tinha forca decisiva: a autoridade da Sagrada Escritura. Cita o Salmo 82 em que Deus censura uns juízes pela sua actuacão injusta, apesar de lhes ter recordado: «Sois deuses, todos vós, filhos do Altíssimo» (Ps 82,6). Se, segundo este Salmo, os filhos de Israel são chamados deuses e filhos de Deus, com quanta maior razão há-de ser chamado Deus Aquele que foi santificado e enviado por Deus. Com efeito, a natureza humana de Cristo ao ser assumida pelo Verbo fica santificada plena­mente e vem ao mundo para santificar os homens. «Os Santos Padres constantemente proclamam nada estar re­mido que não tivesse sido primeiro assumido por Cristo. Ora Ele assumiu por inteiro a natureza humana tal qual ela existe em nós, pobres e miseráveis, rejeitando dela apenas o pecado. De Si mesmo disse Cristo que era Aquele a quem o Pai santificou e enviou ao mundo» (Ad gentes, n. 3).

Com o uso que faz Jesus da Sagrada Escritura (cfr Mt 4,4.7.10; Lc 4,1.17, etc.) ensina-nos o caracter divino desta. Por isto a Igreja crê e afirma que «as coisas reveladas por Deus, contidas e manifestadas na Sagrada Escritura, foram escritas por inspiração do Espírito Santo. Com efeito, a santa Madre Igreja, segundo a fé apostólica, considera como santos e canônicos os livros inteiros do Antigo e do Novo Testamento com todas as suas partes, porque, escritos por inspiração do Espírito Santo (Ioh 20,31; 2 Tim 3,16; 2 Pet 1,19-21; 3,15-16), têm Deus por autor, e como tais foram confiados à própria Igreja (…). E assim, como tudo quanto afirmam os autores inspirados ou hagiógrafos deve ser tido como afirmado pelo Espírito Santo, por isso mesmo se deve acreditar que os livros da Escritura ensinam com certeza, fielmente e sem erro a verdade que Deus, para nossa salva­ção, quis que fosse consignada nas sagradas Letras» (Dei Verbum, n. 11).

37-38. As obras a que Se refere o Senhor são os Seus milagres, em que se manifesta o poder de Deus. Jesus apresenta as Suas palavras e as Suas obras como uma unidade, em que os milagres confirmam as Suas palavras e estas explicam o sentido dos milagres. Por isso, quando afirma que é o Filho de Deus, confirma esta revelação com os milagres que realiza. Assim pois, se ninguém pode negar o facto dos milagres, justo é reconhecer a veracidade das Suas palavras.

41-42. Em contraste com a oposição de uns (cfr Ioh 10,20.31.39), está a adesão de outros, que O vão buscar ao lugar para onde Se retirou. A actividade preparatória de São João Baptista continua a dar os seus frutos: aqueles que tinham aceitado a pregação do Baptista agora buscam Cristo, e creem ao verem que n’Ele se cumprem as palavras do Precursor quando anunciava que Jesus era o Messias, o Filho de Deus (Ioh 1,34).

O labor que se faz em nome do Senhor nunca é inútil. «Assim, meus queridos irmãos, mantei-vos firmes, inamovíveis, progredindo sempre na obra do Senhor, sabendo que o nosso trabalho não é vão no Senhor» (l Cor 15,58). Assim como a palavra e o exemplo do Baptista serviram para que mais tarde muitos cressem em Jesus, o exemplo apostólico dos cristãos nunca será de balde, ainda que às vezes não se veja imediatamente o resultado. «Semear. — Saiu o semea­dor… — Semeia aos punhados, alma de apóstolo. — O vento da graça arrastará a tua semente, se o sulco onde caiu não for digno… Semeia, e está certo de que a semente vingará e dará o seu fruto» (Caminho, n.° 794).

31.03.2012 – Jo 11, 45-56.

45Então, muitos dos Judeus que tinham vindo ter com Maria, ao verem o que Ele fizera, acreditaram n’Ele.

46Alguns deles, porém, foram ter com os Fariseus e disseram-lhes o que Jesus havia feito. 47Os Sumos Sacerdotes e os Fariseus reuniram conselho. Que havemos de fazer— diziam eles — uma vez que este homem realiza tantos milagres? 48Se O deixarmos assim, todos acreditarão n’Ele, e os Romanos virão destruir-nos o Lugar e a Nação.

49Mas um deles, Caifás, sendo Sumo Sacer­dote nesse ano, disse-lhes: Vós não sabeis nada 50nem discorras que vos interessa que morra um só homem pelo povo e não pereça a Nação inteira! 51Isto, porém, não o disse por si próprio, mas sendo Sumo Sacerdote nesse ano, profetizou que Jesus ia morrer pela Nação, 52e não só pela Nação, mas também para trazer à unidade os filhos de Deus que andavam dispersos. 53A partir, pois, desse dia, ficaram decididos a dar-Lhe a morte. 54Jesus, por isso, já não andava abertamente entre os Judeus, mas retirou-Se dali para uma região junto do deserto, para uma cidade chamada Efraim, e por lá Se conservou com os discípulos.

55Estava próxima a Páscoa dos Judeus, e muitos subiram da província a Jerusalém, antes da Páscoa, para se purificarem. 56Pro-curavam eles a Jesus e diziam entre si, estacionando no Templo: Que vos parece? Que Ele não virá à festa?

 

Comentário

45-48. Uma vez mais Jesus, tal como o velho Simeão tinha predito, aparece como sinal de contradição (cfr Lc 2,34; Ioh 7,12.31.40; 9,16; etc.): diante do milagre da ressur­reição de Lázaro uns creem n’Ele (v. 45) e outros denun­ciam-No aos Seus inimigos (vv 46-47). Estas atitudes di­versas confirmam o dito na parábola do rico avarento: «Também não se convencerão mesmo que um dos mortos ressuscite» (Lc 16,31).

«O Lugar»: Com esta expressão, ou outras semelhantes («o lugar», «este lugar»), designava-se o Templo, lugar sagrado por excelência e, por extensão, toda a Cidade Santa, Jerusalém (cfr 2 Mach 5,19; Act 6,14).

49-53. Caifás exerceu o sumo pontificado do ano 18 ao 36 d. C. (cfr Começo do Ministério Público, p. 80). Caifás é o instrumento de Deus para profetizar a Morte redentora do Salvador, pois uma das funções do sumo sacerdote era consultar Deus para guiar o povo (cfr Ex 28,30; Num 27,21; l Sam 23,9; 30,7-8). Neste caso as palavras de Caifás têm um duplo sentido: um, pretendido por ele mesmo, é a sua intenção de dar morte a Cristo com o pretexto de garantir a tranquilidade e sobrevivência política de Israel; outro, que­rido pelo Espírito Santo, é o anúncio da fundação do novo Israel, a Igreja, mediante a Morte de Cristo na Cruz; Caifás não captou este sentido. Desta maneira o último pontífice da Antiga Aliança profetiza a investidura do Sumo Sacerdote da Nova, selada com o Seu próprio Sangue.

Quando o Evangelista afirma que Cristo ia morrer «para reunir os filhos de Deus que estavam dispersos» (v. 52), refere-se ao que o Senhor tinha dito acerca dos efeitos salvíficos da Sua morte (cfr Ioh 10,14-15). Já os profetas tinham anunciado a futura congregação dos Israelitas fiéis a Deus para formar o novo povo de Israel (cfr Is 43,5; ler 23,3-5; Ez 34,23; 37,21-24). Estes vaticínios cumpriram-se com a Morte de Cristo, que, ao ser exaltado na Cruz, atrai e reúne o verdadeiro Povo de Deus, formado por todos os crentes, sejam ou não Israelitas. O Concilio Vaticano II apoia-se neste passo ao falar da universalidade da Igreja: «Ao novo Povo de Deus todos os homens são chamados. Por isso, este Povo, permanecendo uno e único, deve estender-se a todo o mundo e por todos os séculos/para se cumprir o desígnio da vontade de Deus, que, no princípio, criou uma só natureza humana e resolveu juntar em unidade todos os Seus filhos que estavam dispersos (cfr Ioh 11,52). Foi para isto que Deus enviou o Seu Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas; (cfr Heb 1,2), para ser mestre, rei e sacerdote universal, cabeça do novo e universal Povo dos filhos de Deus» (Lumen gentium, n. 13).

No século IV, São João Crisóstomo explicava aos seus fiéis a catolicidade da Igreja com estas palavras: «Que quer dizer ‘para reunir os que estavam próximo’ e ‘os que esta­vam dispersos’? Que os fez um só corpo. Quem reside em Roma sabe que os cristãos da índia são seus membros» (Hom. sobre S. João, 65,1).

54. Ainda não tinha chegado a hora da Sua morte; por isso Jesus actua com prudência, pondo os meios humanos para não precipitar os acontecimentos.

55. Sendo a Páscoa a festa mais solene dos Judeus, os fiéis chegavam uns dias antes a Jerusalém para se prepararem para a sua celebração por meio de abluções, jejuns e oferendas: práticas que não eram tanto exigidas pela lei moisaica como pela piedade do povo. Os próprios ritos da Páscoa, com a imolação do cordeiro, serviam de purificação e de expiação pelos pecados. A Páscoa dos Judeus era figura da Páscoa cristã, pois, como nos ensina o Apóstolo São Paulo, o nosso cordeiro pascal é Cristo (cfr l Cor 5,7), o qual Se ofereceu de uma vez para sempre ao eterno Pai na Cruz para expiar pelos nossos pecados. Paulo VI recordava esta verdade gozosa da nossa fé: «Sacrificou-Se? Mas, será que existe ainda uma religião que se exprima em sacrifícios? Não, os sacrifícios da antiga lei e das religiões pagas já não têm razão de ser; mas de um sacrifício, um sacrifício válido, único e perene, sem dúvida que tem sempre necessidade o mundo para a redenção do pecado humano; (…) e é o sacrifício de Cristo sobre a cruz, o que apaga o pecado do mundo; sacrifício que a Eucaristia actualiza no tempo, dando aos homens desta terra a possibilidade de participar nele» (Alocução de 17-VI-1976).

Se os Judeus se preparavam com tantos ritos e abluções para celebrar a Páscoa, que não devemos fazer nós para celebrar ou participar na Santa Missa e receber Cristo — nossa Páscoa — na Eucaristia! «Quando na Terra se recebem pessoas muito importantes, há luzes, música, trajes de gala. Para albergar Cristo na nossa alma, como devemos pre­parar-nos? Já teremos por acaso pensado como nos compor­taríamos se só se pudesse comungar uma vez na vida?» (Cristo que passa, n,° 91).