Evangelho do dia – mês de maio de 2015

Maio de 2015

01.05.2015 – Jo 14, 1-6

Não se perturbe o vosso coração. Acreditai em Deus, acreditai tambem em Mim. 2Em casa de Meu Pai há muitas habitações. Se assim não fora, ter-vo-lo-ia dito, pois vou preparar-vos um lugar. 3E, quando Eu tiver ido e vos tiver preparado um lugar, virei novamente e levar-vos-ei para junto de Mim, a fim de que, onde Eu estiver, vós estejais também. 4E, para onde Eu vou, vós sabeis o caminho. 5Diz-lhe Tome: Senhor, não sabemos para onde vais. Como é que sabemos o caminho? 6Responde-lhe Jesus: Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida; ninguém vai ao Pai, senão por Mim.

Comentário

1-3. Segundo parece, o anúncio das negações de Pedro entristeceu os discípulos. Jesus anima-os di­zendo que vai partir para lhes preparar uma morada nos Céus, pois, apesar das suas misérias e claudicacões, final­mente perseverarão. A volta a que Se refere Jesus inclui a Sua segunda vinda no fim do mundo ou Parusia (cfr 1Cor 4,5; 11,26; 1Thes 4,16-17; 1Ioh 2,28) e o encontro com cada alma depois da morte: Cristo preparou-nos a morada celeste mediante a Sua obra redentora. Por isso, as Suas palavras podem considerar-se dirigidas não só aos Doze, mas a todos os que crerem n’Ele ao longo dos tempos. O Senhor levará consigo até à Sua glória todos os que tiverem acreditado n’Ele e Lhe tiverem sido fiéis.

4-7. Os Apóstolos não compreendiam com profundidade o que Jesus lhes estava a ensinar; daí a pergunta de Tome. O Senhor explica que Ele é o caminho para o Pai. «Era necessário dizer-lhes ‘Eu sou o Caminho’ para lhes demons­trar que na realidade sabiam o que julgavam ignorar, porque O conheciam a Ele» (In Ioann. Evang., 66,2).

Jesus é o caminho para o Pai: pela Sua doutrina, pois observando o Seu ensinamento chegaremos ao Céu; pela fé que suscita, porque veio a este mundo para que «todo o que crer tenha vida eterna n’Ele» (Ioh 3,15); pelo Seu exemplo, já que ninguém pode ir ao Pai senão imitando o Filho; pelos Seus méritos, com que nos possibilita a entrada na pátria celeste; e sobretudo é o caminho porque revela o Pai com Quem é um pela Sua natureza divina.

«As crianças pequenas, à força de ouvir falar as mães e de balbuciar vocábulos com elas, aprendem a falar; nós, permanecendo junto ao nosso Salvador, mediante a meditação, considerando as Suas palavras, as Suas accões e os Seus afectos, aprenderemos, mediante a Sua graça, a falar, a actuar e a amar como Ele. — É necessário deter-se aqui (…); não poderemos chegar até Deus Pai senão por este caminho (…); também a Divindade não poderia ser bem contemplada por nós neste baixo mundo se não se tivesse unido à Humanidade sagrada do Salvador, cuja vida e morte são o objecto mais proporcionado, suave, delicioso e útil que podemos escolher para as nossas meditações» (Introdução à vida devota, p. II, c. 1,2).

«Ego sum via: Ele é o único caminho que une o Céu à terra. Declara-o a todos os homens, mas recorda-o especial­mente aos que, como tu e eu, Lhe dissemos que estamos decididos a tomar a sério a nossa vocação de cristãos, de modo que Deus Se encontre sempre presente nos nossos pensamentos, nos nossos lábios e em todos os nossos actos, mesmo nos mais normais e correntes.

«Jesus é o caminho. Ele deixou neste mundo as pegadas limpas dos Seus passos, sinais indeléveis que nem o desgaste dos anos nem a perfídia do inimigo conseguiram apagar» (Amigos de Deus, n.° 127).

As palavras de Jesus vão para além da pergunta de Tome ao responder « Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida ». Ser a Verdade e a Vida é o específico do Filho de Deus feito homem, de quem São João diz no Prólogo do seu Evangelho que está «cheio de graça e de verdade» (1,14). Ele é a Verdade porque com a Sua vinda ao mundo mostra-se a fidelidade de Deus às Suas promessas, e porque ensina verdadeiramente quem é Deus e como a autêntica adoração há-de ser «em espírito e em verdade» (Ioh 4,23). É a Vida por ter desde toda a eternidade a vida divina junto ao Pai (cfr Ioh 1,4), e porque nos faz, mediante a graça, participantes dessa vida divina. Por tudo isso diz o Evangelho: «Esta é a vida eterna: que Te conheçam a Ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo a quem Tu enviaste» (Ioh 17,3).

Com a Sua resposta, Jesus está «como que a dizer: Por onde queres ir? Eu sou o Caminho. Para onde queres ir? Eu sou a Verdade. Onde queres permanecer? Eu sou a Vida. Todo o homem consegue compreender a Verdade e a Vida; mas nem todos encontram o Caminho. Os sábios do mundo compreendem que Deus é vida eterna e verdade cognoscível; mas o Verbo de Deus, que é Verdade e Vida junto ao Pai, fez-Se Caminho ao assumir a natureza humana. Caminha contemplando a Sua humildade e chegarás até Deus» (De verb. Dom. serm., 54).

02.05.2015 – Jo 14, 7-14

7Uma vez que Me conheceis, conhecereis também a Meu Pai. Agora ficais a conhecê-Lo e já O vistes. 8Diz-lhe Filipe: Senhor, mostra-nos o Pai. e isso nos basta. 9Responde-lhe Jesus: Há tanto tempo que estou convosco, e não Me conheceis, Filipe? Quem Me viu viu o Pai. Como é que tu dizes: «Mos­tra-nos o Pai»? 10Não acreditais que Eu estou no Pai e que o Pai está em Mim? As palavras que Eu vos digo, não as profiro por Mim mesmo; e o Pai, permanecendo em Mim, é que faz as obras. 11Acreditai-Me: Eu estou no Pai e o Pai está em Mim. Ao menos, acreditai-o por causa das mesmas obras. 12Em verdade, em verdade vos digo: Quem acredita em Mim fará também as obras que Eu faço e fá-las-á maiores do que estas, porque Eu vou para o Pai; 13e o que quer que pedirdes em Meu nome, fá-lo-ei, para o Pai ser glorificado no Filho. 14Se Me pedirdes alguma coisa em Meu nome, fá-lo-ei.

Comentário

8-11. As palavras do Senhor continuam a ser misteriosas para os Apóstolos, que não acabam de entender a unidade do Pai e do Filho. Daí a insistência de Filipe. Por isso Jesus repreende o apóstolo porque ainda O não conhece, quando é claro que as Suas obras são próprias de Deus: caminhar sobre as ondas, dar ordens aos ventos, perdoar pecados, ressuscitar os mortos. Este é o motivo da repreensão: o não ter conhecido a Sua condição de Deus através da Sua natu­reza humana» (De Trinitate, liv. 7).

É certo que a visão do Pai a que se refere Jesus Cristo neste passo é uma visão de fé, pois a Deus nunca ninguém O viu tal como é (cfr Ioh 1,18;6,46). Todas as manifestações de Deus ou teofanias foram mediatas, só um reflexo da grandeza divina. A manifestação suprema de Deus Pai te­mo-la em Cristo Jesus, o Filho de Deus enviado aos homens. «Ele, com toda a Sua presença e manifestação da Sua pessoa, com palavras e obras, sinais e milagres, e sobretudo com a Sua morte e gloriosa ressurreição, enfim, com o envio do Espírito de verdade, completa totalmente e confirma com o testemunho divino a revelação, a saber, que Deus está connosco para nos libertar das trevas do pecado e da morte e para nos ressuscitar para a vida eterna» (Dei Verbum, n. 4).

12-14. Antes de partir deste mundo, o Senhor promete aos Apóstolos que os fará participantes dos Seus poderes para que a salvação de Deus se manifeste por meio deles. As obras que realizarão são os milagres feitos em nome de Jesus Cristo (cfr Act 3,1-10; 5,15-16; etc.), e sobretudo, a conversão dos homens à fé cristã e a sua santificação, me­diante a pregação e a administração dos sacramentos. Po­dem considerar-se obras maiores que as de Jesus enquanto pelo ministério dos Apóstolos o Evangelho não só foi pregado na Palestina, mas se difundiu até aos extremos da terra; mas este poder extraordinário da palavra apostólica procede de Jesus Cristo, que subiu para o Pai: depois de passar pela humilhação da Cruz, Jesus foi glorificado e do Céu manifesta o Seu poder actuando através dos Apóstolos.

O poder dos Apóstolos dimana, pois, de Cristo glori­ficado. O Senhor exprime-o ao dizer: «E o que pedirdes ao Pai em Meu nome isso farei…». «Não será maior que Eu aquele que crê em Mim; mas Eu farei então coisas maiores que as que agora faço; realizarei mais por meio daquele que crer em Mim, do que agora realizo por Mim mesmo» (In Ioann. Evang., 72,1).

Jesus Cristo é o nosso intercessor no Céu, por isso nos promete que tudo o que pedirmos em Seu Nome, Ele o fará. Pedir em Seu nome (cfr 15,7.16; 16,23-24) significa apelar para o poder de Cristo ressuscitado, crendo que Ele é omnipotente e misericordioso porque é verdadeiro Deus; e significa também pedir aquilo que convém à nossa salvação, porque Jesus Cristo é o Salvador. Assim «o que pedirdes» entende-se como o que é bom para o que pede. Quando o Senhor não concede o que se pede é porque não convém para a nossa salvação. Desse modo mostra-Se igualmente Salvador quando nos nega o que Lhe pedimos e quando no-lo concede.

03.05.2015 – Jo 15, 1-8

Eu sou a verdadeira cepa, e Meu Pai é o agricultor. 2Toda a vara que em Mim e não dá fruto, Ele corta-a, e toda aquela que dá fruto, Ele limpa-a, para dar mais fruto. 3Vós já estais limpos devido à palavra que vos expus. 4Permanecei em Mim, e Eu per­manecerei em vós. Assim como a vara que não pode dar fruto por si mesma, se não permanecer na cepa, assim vós também não, se não permanecerdes em Mim. 5Eu sou a cepa, vós as varas. Aquele que perma­nece em Mim e em quem Eu permaneço é que dá muito fruto, porque, sem Mim, nada podeis fazer. 6Se alguém não permanece em Mim, é lançado fora, como a vara, e seca. Tais varas, apanham-nas, lançam-nas ao fogo e elas ardem. 7Se permanecerdes em Mim e as Minhas palavras permanecerem em vós, pedi o que quiserdes, e ser-vos-á concedido. 8A glória de Meu Pai é que deis muito fruto; então vos tomareis Meus discí­pulos.

Comentário

1. A comparação do povo escolhido com uma videira tinha sido utilizada já no Antigo Testamento: no Salmo 80 fala-se da ruína e da restauração da vinha arrancada do Egipto e plantada noutra terra; e no cântico de Isaías (5,1-7) Deus queixa-Se de que a Sua vinha, apesar dos cuidados amorosos, tenha produzido agraços em lugar de uvas. Jesus tinha utilizado estas imagens na parábola dos vinhateiros homicidas (Mt 21,33-43) para significar a rejeição do Filho por parte dos Judeus e o chamamento aos gentios. Aqui, porém, a comparação tem um sentido diferente, mais pessoal: Cristo apresenta-Se como a verdadeira videira, porque à velha videira, ao antigo povo escolhido, sucedeu o novo, a Igreja, cuja cabeça é Cristo (cfr 1Cor 3,9). É preciso estar unidos à nova e verdadeira Videira, a Cristo, para produzir fruto. Não se trata já apenas de pertencer a uma comunidade, mas de viver a vida de Cristo, vida da Graça, que é a seiva vivificante que anima o crente e o capacita para dar frutos de vida eterna. Esta imagem da videira, por outro lado, ajuda a compreender a unidade da Igreja, Corpo Místico de Cristo, em que todos os membros estão intimamente unidos com a Cabeça, e nela, unidos também uns com os outros (1Cor 12,12-26; Rom 12,4-5; Eph 4,15-16).

2. O Senhor descreve duas situações: a daqueles que, mesmo estando unidos à videira com vínculos externos, não dão fruto; e a daqueles que, mesmo dando fruto, podem dar mais. Isto ensina-nos também a Epístola de São Tiago ao dizer que não basta a fé (lac 2,17). Embora seja certo que a fé é o começo da salvação, e sem a fé não podemos agradar a Deus, também é verdade que a fé viva há-de dar o fruto das obras. «Porque em Cristo Jesus nem a circuncisão nem a incircuncisão têm valor, mas somente a fé que actua pela caridade» (Gal 5,6). Assim pois, pode dizer-se que para dar frutos agradáveis a Deus não basta ter recebido o Baptismo e professar externamente a fé, mas é preciso participar da vida de Cristo pela graça e colaborar na Sua obra redentora.

Jesus utiliza o mesmo verbo para falar da poda das varas e da limpeza dos discípulos no versículo seguinte; à letra deveria traduzir-se: «A todo o que dá fruto limpa-o para que dê mais fruto». Fica assim claro que Deus não Se contenta com uma entrega a meias. Por isto purifica os Seus através da contradição e das dificuldades, que são como uma poda, para que deem mais fruto. Aqui podemos ver uma explicação do porquê do sofrimento: «Não ouviste dos lábios do Mestre a parábola da videira e das varas? — Con­sola-te. Ele é exigente porque és vara que dá fruto… E poda-te, ‘ut fructum plus afferas’ — para que dês mais fruto.

«É claro: dói esse cortar, esse arrancar. Mas, depois, que louçania nos frutos, que maturidade nas obras!» (Caminho, n.°701).

3. Jesus ao lavar os pés a Pedro já tinha dito que os Seus Apóstolos estavam limpos, ainda que nem todos (cfr Ioh 13,10). Agora volta a referir-Se a essa limpeza interior por virtude dos ensinamentos que aceitaram. «Pois a palavra de Cristo purifica em primeiro lugar dos erros, instruindo (cfr Tit 1,9,) (…); em segundo lugar, purifica os corações dos afectos terrenos, despertando-os para as coisas celestiais (…); finalmente, a palavra purifica pelo vigor da fé: pois ‘purificou os seus corações pela fé’ (Act 15,9)» (Comentário sobre S. João, ad loc.).

4-5. O Senhor continua a deduzir consequências da comparação da videira e das varas. Agora sublinha a inutilidade de quem se afasta d’Ele, tal como a da vara separada da videira. «Reparai nesses sarmentos repletos, porque participam da seiva do tronco. Só assim aqueles minúsculos rebentos de alguns meses antes puderam converter-se em polpa doce e madura, que encherá de alegria a vista e o coração das pessoas (Ps CHI,15). No solo ficam talvez algumas varas toscas, soltas, meias enterradas. Eram sar­mentos também, mas secos, estiolados. São o símbolo mais gráfico da esterilidade. Porque, sem Mim, nada podeis fazer» (Amigos de Deus, n.° 254).

A vida de união com Cristo transcende necessariamente o âmbito individual do cristão para se projectar em benefício dos outros: daí brota a fecundidade apostólica, já que «o apostolado, seja ele de que tipo for, consiste numa superabundância da vida interior» (Amigos de Deus, n.° 239). O Concilio Vaticano II, citando o presente passo de São João, ensina como deve ser o apostolado dos cristãos: «A fonte e origem de todo o apostolado da Igreja é Cristo, enviado pelo Pai. Sendo assim, é evidente que a fecundidade do aposto­lado dos leigos depende da sua união vital com Cristo, segundo as palavras do Senhor: ‘aquele que permanece em Mim e em quem Eu permaneço, esse produz muito fruto; pois, sem Mim, nada podeis fazer’. Esta vida de íntima união com Cristo na Igreja é alimentada pelos auxílios espirituais comuns a todos os fiéis e, de modo especial, pela participação activa na sagrada Liturgia; e os leigos devem servir-se deles de tal modo que, desempenhando correctamente as diversas tarefas terrenas nas condições ordinárias da existência, não separem da própria vida a união com Cristo, mas antes, realizando a própria actividade segundo a vontade de Deus, nela cresçam» (Apostolicam actuositatem, n. 4).

6. Quem não está unido a Cristo por meio da graça terá, finalmente, o mesmo destino que as varas secas: o fogo. E claro o paralelismo com outras imagens da pregação do Senhor acerca do Inferno: as parábolas da árvore boa e da má (Mt 8,15-20), da rede de arrasto (Mt 13,49-50), do convi­dado para as bodas (Mt 22,11-14), etc. Santo Agostinho comenta assim este passo: «Os sarmentos da videira são do mais desprezível se não estão unidos à cepa; e do mais nobre se o estão (…). Se se cortam não servem de nada nem para o vinhateiro nem para o carpinteiro. Para os sarmentos uma de duas: ou a videira ou o fogo. Se não estão na videira, vão para o fogo: para não irem para o fogo, que estejam unidos à videira» (In Ioann. Evang., 81,3).

04.05.2015 – Jo 14, 21-26

21Quem tem os Meus mandamentos e os guarda, esse é que Me ama. E quem Me ama será amado por Meu Pai, e Eu amá-lo-ei e manifestar-Me-ei a ele.

22Diz-lhe Judas, não o Iscariotes: Senhor, e como é que Te vais manifestar a nós, e não ao mundo? 23Respondeu-lhe Jesus, dizendo: Se alguém Me ama, há-de guardar a Minha palavra; Meu Pai amá-lo-á e nós viremos a ele e estabeleceremos nele habitação. 24Quem Me não ama não guarda as Minhas palavras; e a palavra que estais a ouvir não é Minha, é do Pai, que Me enviou.

25Isto tenho-vos Eu dito na Minha perma­nência entre vós. 26Mas o Assistente, o Espí­rito Santo, que o Pai vai enviar em Meu nome, é que vos há-de ensinar tudo e vos recordará tudo o que Eu vos disse.

Comentário

22-23. Era crença comum entre os Judeus que quando chegasse o Messias Se manifestaria a todo o mundo como Rei e Salvador. Os Apóstolos entendem as palavras de Jesus como uma manifestação reservada só a eles, e admiram-se. Daí a pergunta de Judas Tadeu. Pode observar-se a confiança dos Apóstolos no convívio com o Senhor, como Lhe pergun­tam o que não sabem e O consultam acerca das suas dúvidas. E um exemplo de como devemos dirigir-nos a quem é também o nosso Mestre e Amigo.

A resposta de Jesus é aparentemente evasiva, mas na realidade, ao indicar o modo dessa manifestação, explica por que não Se manifesta ao mundo: Ele dá-Se a conhecer a quem O ama e guarda os Seus mandamentos. Deus tinha-Se manifestado repetidas vezes no Antigo Testamento e tinha prometido a Sua presença no meio do povo (cfr Ex 29,45; Ez 37,26-27; etc.). Pelo contrário, aqui Jesus fala-nos de uma presença em cada pessoa. A esta presença refere-se São Paulo quando afirma que cada um de nós é templo do Espírito Santo (cfr 2 Cor 6,16-17). Santo Agostinho, ao considerar a proximidade inefável de Deus na alma, exclama: «Tarde Te amei, formosura tão antiga e tão nova, tarde Te amei; eis que Tu estavas dentro de mim e eu fora, e por fora Te buscava (…). Tu estavas comigo, mas eu não estava contigo. Tinham-me longe de Ti as coisas que, se não estivessem em Ti, não existiriam. Tu chamaste-me claramente e quebraste a minha surdez; brilhaste, resplandeceste e curaste a minha cegueira» (Confissões, X, 27,38).

Jesus refere-Se à habitação da Santíssima Trindade na alma, renovada pela graça: «O coração sente então a necessidade de distinguir e adorar cada uma das pessoas divinas. De certo modo, é uma descoberta que a alma faz na vida sobrenatural, como as de uma criancinha que vai abrindo os olhos à existência. E entretém-se amorosamente com o Pai e com o Filho e com o Espírito Santo; e submete-se facilmente à actividade do Paráclito vivificador, que Se nos entrega sem o merecermos: os dons e as virtudes sobrena­turais!» (Amigos de Deus, n.° 306).

25-26. Jesus expôs com clareza a Sua doutrina, mas os Apóstolos não podiam entendê-la plenamente; entendê-la-ão depois, quando receberem o Espírito Santo, o Espírito da Verdade que os guiará até à verdade completa (cfr Ioh 16,13). «Com efeito, o Espírito Santo ensinou e recordou: ensinou tudo aquilo que Cristo não tinha dito por superar as nossas forças, e recordou o que o Senhor tinha ensinado e que, quer pela obscuridade das coisas, quer pela rudeza do seu entendimento, eles não tinham podido conservar na memória» (Teofilacto, Enarratio in Evangelium Ioannis, ad loc.).

O termo que traduzimos por «recordar» inclui também a idéia de «sugerir»: o Espírito Santo trará à memória dos Apóstolos o que já tinham escutado a Jesus, mas com uma luz tal que os capacitará para descobrir a profundidade e a riqueza do que tinham visto e escutado. Assim, «os Apóstolos transmitiram aos seus ouvintes, com aquela compreensão mais plena de que eles, instruídos pelos acontecimentos gloriosos de Cristo e iluminados pelo Espírito de verdade, gozavam (cfr 2,22), as coisas que Ele tinha dito e feito» (Dei Verbum, n. 18).

«Cristo não deixou os Seus seguidores sem guia na tarefa de compreender e viver o Evangelho. Antes de voltar ao Pai prometeu enviar o Seu Espírito Santo à Igreja: ‘Mas o Paráclito, o Espírito Santo que o Pai enviará em Meu nome, Ele vos ensinará tudo e vos recordará todas as coisas que vos disse’. Este mesmo Espírito guia os sucessores dos Apóstolos, os vossos Bispos unidos ao Bispo de Roma, a quem encar­regou de manter a fé e ‘pregar o Evangelho a toda a criatura’ (Mc 16,15). Escutai a sua voz, pois vos transmite a palavra do Senhor» (João Paulo II, Homília Santuário de Knock).

Nos Evangelhos ficaram escritas, sob o carisma da inspiração divina, as recordações e a compreensão que tinham os Apóstolos, depois do Pentecostes, daquelas coisas de que tinham sido testemunhas. Por isso tais escritos sagrados «narram fielmente o que Jesus, o Filho de Deus, vivendo entre os homens, fez e ensinou realmente até ao dia da Ascensão (cfr Act 1,1-2)» (Dei Verbum, n. 11). Por isso também a Igreja tem recomendado insistentemente a leitura da Sagrada Escritura e especialmente dos Evangelhos. «Oxalá fossem tais as tuas atitudes e as tuas palavras, que todos pudessem dizer quando te vissem ou ouvissem falar: ‘Este lê a vida de Jesus Cristo» (Caminho, n° 2).

05.05.2015 – Jo 14, 27-31a

27Deixo-vos a paz, dou-vos a Minha paz. Não é como o mundo a dá que Eu vo-la dou. Não se perturbe o vosso coração, nem se torne pusilânime. 28Ouvistes que vos disse: «Eu vou, mas volto para junto de vós». Se Me amasseis, alegrar-vos-íeis por Eu ir para o Pai, porque o Pai é maior do que Eu. 29Pois bem, disse-vo-lo antes de acontecer, para que acrediteis quando isso acontecer. 30Já não falarei muito convosco, pois vai chegar o Príncipe do Mundo. Ele nada pode contra Mim, 31mas é para que o mundo saiba que amo o Pai, que faço como o Pai Me mandou.

Comentário

27. Desejar a paz, era, e é também hoje, a forma usual de saudação dos Hebreus e dos Árabes. Essa mesma saudação que empregava Jesus, continuaram a usá-la os Apóstolos, segundo vemos pelas suas cartas (cfr 1Pet 1,3; 3 Ioh 15; Rom 1,7; etc.), e dela se continua a servir a Igreja na Liturgia; assim, por exemplo, antes da Comunhão o celebrante deseja aos presentes a paz, condição para participar dignamente no Santo Sacrifício (cfr Mt 5,23), e por sua vez, fruto do mesmo.

A saudação ordinária do povo hebreu recupera na boca do Senhor o seu sentido mais profundo; a paz é um dos dons messiânicos por excelência (cfr Is 9,7; 48,18; Mich 5,5; Mt 10,22; Lc 2,14; 19,38). A paz que nos dá Jesus transcende por completo a do mundo (veja-se a nota a Mt 10,34-37), que pode ser superficial e aparente, compatível com a injustiça. Pelo contrário, a paz de Cristo é sobretudo reconciliação com Deus e entre os homens, um dos frutos do Espírito Santo (cfr Gal 5,22-23), «é serenidade da mente, tranquilidade da alma, simplicidade do coração, vínculo de amor, união de caridade: não pode adquirir a herança de Deus quem não cumpra o Seu testamento de paz, nem pode viver unido a Cristo quem está separado do cristianismo» (De verb. Dom. serm., 58).

«Cristo é ‘a nossa paz’ (Eph 2,14). Hoje e sempre, Ele repete-nos: ‘A paz vos deixo, a Minha paz vos dou’. Nunca na história da humanidade se falou tanto da paz e se tem desejado tanto como nos nossos dias (…). E, não obstante, constata-se mais e mais como a paz é ameaçada e destruída (…). A paz é um resultado de muitas atitudes e realidades convergentes; é o resultado de preocupações morais, de princípios éticos, baseados na mensagem do Evangelho e corroborados por ele.

«Na sua mensagem para o Dia Mundial da Paz de 1971, o meu venerado predecessor, Paulo VI, o peregrino da paz, dizia: ‘A verdadeira paz deve fundar-se na justiça, no sentido da dignidade inviolável do homem, no reconhecimento de uma igualdade indelével e desejável entre os homens, no princípio básico da fraternidade humana, isto é, no respeito e amor devido a cada homem, porque é homem’. Esta mesma mensagem repeti eu no México e na Polônia. Repito-a aqui na Irlanda. Todo o ser humano tem direitos inaliená­veis que devem ser respeitados. Toda a comunidade humana — étnica, histórica, cultural ou religiosa — tem direitos que devem ser respeitados. A paz está ameaçada sempre que um destes direitos é violado. A lei moral, guardiã dos direitos do homem, protectora da dignidade da pessoa humana, não pode ser deixada de lado por nenhuma pessoa, nenhum grupo, nem pelo próprio Estado, por nenhum motivo, nem sequer pela segurança ou no interesse da lei ou da ordem pública. A lei de Deus está muito acima de todas as razões de Estado. Enquanto existirem: injustiças em qualquer campo que diga respeito à dignidade da pessoa humana, quer seja no campo político, social ou econômico, quer seja na esfera cultural ou na religiosa, não haverá verdadeira paz (…). A paz não pode ser estabelecida pela violência, a paz não pode florescer nunca num clima de terror, de intimi­dação ou de morte. O próprio Jesus disse: ‘Todos os que empregam a espada perecerão à espada’ (Mt 25,52). Esta é a palavra de Deus, a que ordena aos homens desta geração violenta que desistam do ódio e da violência e se arrepen­dam» (Homília Drogheda).

O gozo e a paz que. nos traz Cristo hão-de caracterizar o estado de ânimo de um crente: «Repele esses escrúpulos que te tiram a paz. — Não é de Deus o que rouba a paz da alma

«Quando Deus te visitar, hás-de sentir a verdade daquelas saudações: dou-vos a paz…, deixo-vos a paz…, a paz seja convosco… E isto, no meio da tribulação» (Caminho, n° 258).

28. Jesus Cristo, enquanto Filho Unigênito de Deus, possui a glória divina desde a eternidade, mas durante o tempo da Sua vida na terra essa glória está velada e oculta por detrás da Sua Santíssima Humanidade (cfr 17,5; Phil 2,7). Só se manifesta em algumas ocasiões, como nos milagres (cfr 2,11), ou na Transfiguração (cfr Mt 17,1-8 e par.). Vai ser agora, mediante a Morte, Ressurreição e Ascensão aos céus, que Jesus vai ser glorificado, também no Seu Corpo, voltando ao Pai e entrando na Sua glória. Por isso, a Sua saída deste mundo devia ser causa de alegria para os discípulos; mas estes não entendem bem as palavras do Senhor, e entristecem-se porque os afecta mais a pena da separação física do Mestre que o pensamento da glória que O espera.

Quando Jesus diz que o Pai é maior que Ele, está a considerar a Sua natureza humana; assim, enquanto homem, Jesus vai ser glorificado ascendendo à direita do Pai. Jesus Cristo «é igual ao Pai segundo a divindade, menor que o Pai segundo a humanidade» (Símbolo Atanasiano). Santo Agos­tinho exorta: «Reconheçamos, pois, a dupla natureza de Cristo: uma, pela qual é igual ao Pai, que é a divina; e a humana, que o torna inferior ao Pai. Uma e outra natureza não constituem dois mas um só Cristo…» (In Ioann. Evang., 78,3). Não obstante, embora o Pai e o Filho sejam iguais em natureza, eternidade e dignidade, também podem enten­der-se as palavras do Senhor considerando que «maior» se refere à origem: só o Pai é «princípio sem princípio», enquanto o Filho procede eternamente do Pai por geração também eterna. Jesus Cristo é Deus de Deus, Luz de Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro (cfr Símbolo Niceno-Constantinopolitano).

30. É certo que o mundo é bom porque saiu das mãos do Criador, e que Deus de tal maneira o amou que lhe entregou o Seu Filho Unigénito (cfr Ioh 3,16). Não obstante, por mundo entende-se neste passo o conjunto dos homens que rejeitam Cristo; por isso, príncipe desse mundo é o demônio (cfr Ioh 1,10; 7,7; 15,18-19). Este opõe-se à obra de Jesus já desde o começo da Sua vida pública nas tentações do deserto (cfr Mt 4,1-11 e par.). Agora, na Paixão, volta a aparecer para obter a vitória sobre Cristo, ainda que seja momentânea e aparente. Esta é a hora do poder das trevas, em que, servin­do-se do traidor (cfr Lc 22,53; Ioh 13,27), o demônio consegue que prendam o Senhor e O crucifiquem.

06.05.2015 – Jo 15, 1-8

Eu sou a verdadeira cepa, e Meu Pai é o agricultor. 2Toda a vara que em Mim e não dá fruto, Ele corta-a, e toda aquela que dá fruto, Ele limpa-a, para dar mais fruto. 3Vós já estais limpos devido à palavra que vos expus. 4Permanecei em Mim, e Eu per­manecerei em vós. Assim como a vara que não pode dar fruto por si mesma, se não permanecer na cepa, assim vós também não, se não permanecerdes em Mim. 5Eu sou a cepa, vós as varas. Aquele que perma­nece em Mim e em quem Eu permaneço é que dá muito fruto, porque, sem Mim, nada podeis fazer. 6Se alguém não permanece em Mim, é lançado fora, como a vara, e seca. Tais varas, apanham-nas, lançam-nas ao fogo e elas ardem. 7Se permanecerdes em Mim e as Minhas palavras permanecerem em vós, pedi o que quiserdes, e ser-vos-á concedido. 8A glória de Meu Pai é que deis muito fruto; então vos tomareis Meus discí­pulos.

Comentário

1. A comparação do povo escolhido com uma videira tinha sido utilizada já no Antigo Testamento: no Salmo 80 fala-se da ruína e da restauração da vinha arrancada do Egipto e plantada noutra terra; e no cântico de Isaías (5,1-7) Deus queixa-Se de que a Sua vinha, apesar dos cuidados amorosos, tenha produzido agraços em lugar de uvas. Jesus tinha utilizado estas imagens na parábola dos vinhateiros homicidas (Mt 21,33-43) para significar a rejeição do Filho por parte dos Judeus e o chamamento aos gentios. Aqui, porém, a comparação tem um sentido diferente, mais pessoal: Cristo apresenta-Se como a verdadeira videira, porque à velha videira, ao antigo povo escolhido, sucedeu o novo, a Igreja, cuja cabeça é Cristo (cfr 1Cor 3,9). É preciso estar unidos à nova e verdadeira Videira, a Cristo, para produzir fruto. Não se trata já apenas de pertencer a uma comunidade, mas de viver a vida de Cristo, vida da Graça, que é a seiva vivificante que anima o crente e o capacita para dar frutos de vida eterna. Esta imagem da videira, por outro lado, ajuda a compreender a unidade da Igreja, Corpo Místico de Cristo, em que todos os membros estão intimamente unidos com a Cabeça, e nela, unidos também uns com os outros (1Cor 12,12-26; Rom 12,4-5; Eph 4,15-16).

2. O Senhor descreve duas situações: a daqueles que, mesmo estando unidos à videira com vínculos externos, não dão fruto; e a daqueles que, mesmo dando fruto, podem dar mais. Isto ensina-nos também a Epístola de São Tiago ao dizer que não basta a fé (lac 2,17). Embora seja certo que a fé é o começo da salvação, e sem a fé não podemos agradar a Deus, também é verdade que a fé viva há-de dar o fruto das obras. «Porque em Cristo Jesus nem a circuncisão nem a incircuncisão têm valor, mas somente a fé que actua pela caridade» (Gal 5,6). Assim pois, pode dizer-se que para dar frutos agradáveis a Deus não basta ter recebido o Baptismo e professar externamente a fé, mas é preciso participar da vida de Cristo pela graça e colaborar na Sua obra redentora.

Jesus utiliza o mesmo verbo para falar da poda das varas e da limpeza dos discípulos no versículo seguinte; à letra deveria traduzir-se: «A todo o que dá fruto limpa-o para que dê mais fruto». Fica assim claro que Deus não Se contenta com uma entrega a meias. Por isto purifica os Seus através da contradição e das dificuldades, que são como uma poda, para que deem mais fruto. Aqui podemos ver uma explicação do porquê do sofrimento: «Não ouviste dos lábios do Mestre a parábola da videira e das varas? — Con­sola-te. Ele é exigente porque és vara que dá fruto… E poda-te, ‘ut fructum plus afferas’ — para que dês mais fruto.

«É claro: dói esse cortar, esse arrancar. Mas, depois, que louçania nos frutos, que maturidade nas obras!» (Caminho, n° 701).

3. Jesus ao lavar os pés a Pedro já tinha dito que os Seus Apóstolos estavam limpos, ainda que nem todos (cfr Ioh 13,10). Agora volta a referir-Se a essa limpeza interior por virtude dos ensinamentos que aceitaram. «Pois a palavra de Cristo purifica em primeiro lugar dos erros, instruindo (cfr Tit 1,9,) (…); em segundo lugar, purifica os corações dos afectos terrenos, despertando-os para as coisas celestiais (…); finalmente, a palavra purifica pelo vigor da fé: pois ‘purificou os seus corações pela fé’ (Act 15,9)» (Comentário sobre S. João, ad loc.).

4-5. O Senhor continua a deduzir consequências da comparação da videira e das varas. Agora sublinha a inutilidade de quem se afasta d’Ele, tal como a da vara separada da videira. «Reparai nesses sarmentos repletos, porque participam da seiva do tronco. Só assim aqueles minúsculos rebentos de alguns meses antes puderam converter-se em polpa doce e madura, que encherá de alegria a vista e o coração das pessoas (Ps CHI,15). No solo ficam talvez algumas varas toscas, soltas, meias enterradas. Eram sar­mentos também, mas secos, estiolados. São o símbolo mais gráfico da esterilidade. Porque, sem Mim, nada podeis fazer» (Amigos de Deus, n° 254).

A vida de união com Cristo transcende necessariamente o âmbito individual do cristão para se projectar em benefício dos outros: daí brota a fecundidade apostólica, já que «o apostolado, seja ele de que tipo for, consiste numa superabundância da vida interior» (Amigos de Deus, n° 239). O Concilio Vaticano II, citando o presente passo de São João, ensina como deve ser o apostolado dos cristãos: «A fonte e origem de todo o apostolado da Igreja é Cristo, enviado pelo Pai. Sendo assim, é evidente que a fecundidade do aposto­lado dos leigos depende da sua união vital com Cristo, segundo as palavras do Senhor: ‘aquele que permanece em Mim e em quem Eu permaneço, esse produz muito fruto; pois, sem Mim, nada podeis fazer’. Esta vida de íntima união com Cristo na Igreja é alimentada pelos auxílios espirituais comuns a todos os fiéis e, de modo especial, pela participação activa na sagrada Liturgia; e os leigos devem servir-se deles de tal modo que, desempenhando correctamente as diversas tarefas terrenas nas condições ordinárias da existência, não separem da própria vida a união com Cristo, mas antes, realizando a própria actividade segundo a vontade de Deus, nela cresçam» (Apostolicam actuositatem, n. 4).

6. Quem não está unido a Cristo por meio da graça terá, finalmente, o mesmo destino que as varas secas: o fogo. E claro o paralelismo com outras imagens da pregação do Senhor acerca do Inferno: as parábolas da árvore boa e da má (Mt 8,15-20), da rede de arrasto (Mt 13,49-50), do convi­dado para as bodas (Mt 22,11-14), etc. Santo Agostinho comenta assim este passo: «Os sarmentos da videira são do mais desprezível se não estão unidos à cepa; e do mais nobre se o estão (…). Se se cortam não servem de nada nem para o vinhateiro nem para o carpinteiro. Para os sarmentos uma de duas: ou a videira ou o fogo. Se não estão na videira, vão para o fogo: para não irem para o fogo, que estejam unidos à videira» (In Ioann. Evang., 81,3).

07.05.2015 – Jo 15, 9-11

9Assim como o Pai Me amou também Eu vos amei. Permanecei no Meu amor. 10Se guardardes os Meus mandamentos, permanecereis no Meu amor, assim como Eu tenho guardado os mandamentos de Meu Pai e permaneço no Seu amor. 11Disse-vos isto, para a Minha alegria estar em vós e a vossa alegria ser completa.

Comentário

9-11. O amor de Cristo aos cristãos é reflexo do amor que as três Pessoas divinas têm entre Si e para com os homens: «Amemos a Deus porque Ele nos amou primeiro» (l Ioh 4,19).

A certeza de que Deus nos ama é a raiz da alegria e do gozo cristão (v. 11), mas ao mesmo tempo exige a nossa correspondência fiel, que deve traduzir-se num desejo fervo­roso de cumprir a Vontade de Deus em tudo, isto é, os Seus mandamentos, à imitação de Jesus Cristo que cumpriu a Vontade do Pai (cfr Ioh 4,34).

08.05.2015 – Jo 15, 12-17

12É este o Meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como Eu vos amei a vós. 13Ninguém tem amor maior que o de quem der a própria vida pelos seus amigos. 14Vós sereis Meus amigos, se fizerdes o que Eu vos ordeno. 15Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu Senhor; Eu cha­mei-vos amigos, porque tudo o que ouvi a Meu Pai vo-lo dei a conhecer. 16Não fostes vós que Me escolhestes, fui Eu que vos escolhi e vos estabeleci, para irdes e dardes fruto e o vosso fruto permanecer, de sorte que o que pedirdes ao Pai em Meu nome, Ele vo-lo concederá. 17O que vos mando é que vos ameis uns aos outros.

Comentário

12-15. Jesus insiste no «mandamento novo», cumprin­do-o Ele mesmo ao dar a Sua vida por nós. Veja-se a nota a Ioh 13,34-35.

A amizade de Cristo com o cristão, que o Senhor manifesta de modo particular neste passo, foi posta em realce na pregação de Mons. J. Escrivá de Balaguer: «A vida do cristão que decide comportar-se de acordo com a grandeza da sua vocação converte-se num eco prolongado daquelas palavras do Senhor: Já não vos chamarei servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; chamei-vos amigos, porque tudo quanto ouvi de Meu Pai vo-lo dei a conhecer (Ioh 15,15). Estar pronto a seguir documente a Vontade divina abre horizontes insuspeitados (…) ‘não há nada melhor que saber que somos por amor escravos de Deus, porque perdemos a situação de escravos para nos tornarmos amigos, filhos’ (Amigos de Deus, n° 35).

«Filhos de Deus, Amigos de Deus (…) Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro Homem: nosso Irmão, nosso Amigo; se procurarmos criar intimidade com Ele, ‘partici­paremos na dita da amizade divina’ (Ibid., n° 300); se fizermos o possível por acompanhá-Lo desde Belém até ao Calvário, compartilhando as Suas alegrias e os Seus sofri­mentos, tornar-nos-emos dignos da Sua companhia amistosa: calicem Domini biberunt — canta a Liturgia das Horas — et amici Dei facti sunt, beberam do cálice do Senhor e torna­ram-se amigos de Deus (Responsório da segunda leitura do ofício da Dedicação das Basílicas dos Apóstolos Pedro e Paulo).

«Filiação e amizade são duas realidades inseparáveis para aqueles que amam a Deus. A Ele acorremos como filhos, num diálogo que há-de encher toda a nossa vida; e como amigos (…). Do mesmo modo, a filiação divina leva a que a abundância de vida interior se traduza em actos de apostolado, tal como a amizade com Deus leva a pormo-nos ‘ao serviço de todos: temos de utilizar esses dons de Deus como instrumentos para ajudar os homens a descobrirem Cristo’ (Amigos de Deus, n.° 258)» (Amigos de Deus, Apresentação de Mons. A. Del Portillo, pp. 20-21).

16. Três ideias estão contidas nestas palavras do Senhor. Uma, que o chamamento aos Apóstolos e também a todo o cristão não provém de bons desejos, mas da escolha gratuita de Cristo. Não foram os Apóstolos que escolheram o Senhor como Mestre, segundo o costume judaico de escolher para si um rabino, mas foi Cristo quem os escolheu a eles. A segunda ideia é que a missão dos Apóstolos e de todo o cristão consiste em seguir Cristo, buscar a santidade e contribuir para a propagação do Evangelho. O terceiro ensinamento refere-se à eficácia da súplica feita em nome de Cristo; por isso a Igreja costuma terminar as orações da Sagrada Liturgia com a invocação «por Jesus Cristo Nosso Senhor».

As três ideias assinaladas unem-se harmonicamente: a oração é necessária para que a vida cristã seja fecunda, pois é Deus quem dá o incremento (cfr 1Cor 3,7); e a obrigação de buscar a santidade e exercer o apostolado deriva de que é o próprio Cristo quem nos chamou a realizar esta missão.

«Lembra-te, meu filho, de que não és somente uma alma que se une a outras almas para fazer uma coisa boa.

«Isso é muito…, mas é pouco. — Es o Apóstolo que cumpre uma ordem imperativa de Cristo» (Caminho, n° 942).

09.05.2015 – Jo 15, 18-21

18Se o mundo vos odeia, ficai sabendo que, primeiro do que a vós, Me odiou a Mim. 19Se fósseis do mundo, o mundo amaria o que era seu. Mas porque não sois do mundo e porque Eu, ao contrário, do mundo vos escolhi, é que o mundo vos odeia. 20Lembrai-vos da Palavra que vos disse: «Não é o servo maior que o seu senhor». Se a Mim Me perseguiriam, tam­bém a vós vos hão-de perseguir. Se guar­daram a Minha palavra, também a vossa hão-de guardar. 21Mas tudo isto farão contra vós por causa do Meu nome, por não conhecerem Aquele que Me enviou.

Comentário

18-19. Jesus afirma que entre Ele e o mundo como reino do pecado não há possibilidade de acordo: quem vive no pecado aborrece a luz (cfr Ioh 3,19-20). Por isso perseguiram Cristo e perseguirão também os Apóstolos. «A hostilidade dos perversos soa como um louvor para a nossa vida — diz São Gregório —, porque demonstra que temos pelo menos algo de rectidão enquanto somos incômodos para os que não amam a Deus: ninguém pode ser agradável para Deus e para os inimigos de Deus ao mesmo tempo. Demonstra que não é amigo de Deus quem busca agradar aos que se opõem a Ele: e quem se submete à verdade lutará contra o que se opõe à verdade» (In Ezechielem homiliae, 9).

10.05.2015 – Jo 15, 9-17

9Assim como o Pai Me amou também Eu vos amei. Permanecei no Meu amor. 10Se guardardes os Meus mandamentos, permanecereis no Meu amor, assim como Eu tenho guardado os mandamentos de Meu Pai e permaneço no Seu amor. 11Disse-vos isto, para a Minha alegria estar em vós e a vossa alegria ser completa. 12É este o Meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como Eu vos amei a vós. 13Ninguém tem amor maior que o de quem der a própria vida pelos seus amigos. 14Vós sereis Meus amigos, se fizerdes o que Eu vos ordeno. 15Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu Senhor; Eu cha­mei-vos amigos, porque tudo o que ouvi a Meu Pai vo-lo dei a conhecer. 16Não fostes vós que Me escolhestes, fui Eu que vos escolhi e vos estabeleci, para irdes e dardes fruto e o vosso fruto permanecer, de sorte que o que pedirdes ao Pai em Meu nome, Ele vo-lo concederá. 17O que vos mando é que vos ameis uns aos outros.

Comentário

9-11. O amor de Cristo aos cristãos é reflexo do amor que as três Pessoas divinas têm entre Si e para com os homens: «Amemos a Deus porque Ele nos amou primeiro» (l Ioh 4,19).

A certeza de que Deus nos ama é a raiz da alegria e do gozo cristão (v. 11), mas ao mesmo tempo exige a nossa correspondência fiel, que deve traduzir-se num desejo fervo­roso de cumprir a Vontade de Deus em tudo, isto é, os Seus mandamentos, à imitação de Jesus Cristo que cumpriu a Vontade do Pai (cfr Ioh 4,34).

12-15. Jesus insiste no «mandamento novo», cumprin­do-o Ele mesmo ao dar a Sua vida por nós. Veja-se a nota a Ioh 13,34-35.

A amizade de Cristo com o cristão, que o Senhor manifesta de modo particular neste passo, foi posta em realce na pregação de Mons. J. Escrivá de Balaguer: «A vida do cristão que decide comportar-se de acordo com a grandeza da sua vocação converte-se num eco prolongado daquelas palavras do Senhor: Já não vos chamarei servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; chamei-vos amigos, porque tudo quanto ouvi de Meu Pai vo-lo dei a conhecer (Ioh 15,15). Estar pronto a seguir documente a Vontade divina abre horizontes insuspeitados (…) ‘não há nada melhor que saber que somos por amor escravos de Deus, porque perdemos a situação de escravos para nos tornarmos amigos, filhos’ (Amigos de Deus, n° 35).

«Filhos de Deus, Amigos de Deus (…) Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro Homem: nosso Irmão, nosso Amigo; se procurarmos criar intimidade com Ele, ‘partici­paremos na dita da amizade divina’ (Ibid., n° 300); se fizermos o possível por acompanhá-Lo desde Belém até ao Calvário, compartilhando as Suas alegrias e os Seus sofri­mentos, tornar-nos-emos dignos da Sua companhia amistosa: calicem Domini biberunt — canta a Liturgia das Horas — et amici Dei facti sunt, beberam do cálice do Senhor e torna­ram-se amigos de Deus (Responsório da segunda leitura do ofício da Dedicação das Basílicas dos Apóstolos Pedro e Paulo).

«Filiação e amizade são duas realidades inseparáveis para aqueles que amam a Deus. A Ele acorremos como filhos, num diálogo que há-de encher toda a nossa vida; e como amigos (…). Do mesmo modo, a filiação divina leva a que a abundância de vida interior se traduza em actos de aposto-lado, tal como a amizade com Deus leva a pormo-nos ‘ao serviço de todos: temos de utilizar esses dons de Deus como instrumentos para ajudar os homens a descobrirem Cristo’ (Amigos de Deus, n° 258)» (Amigos de Deus, Apresentação de Mons. A. Del Portillo, pp. 20-21).

16. Três ideias estão contidas nestas palavras do Senhor. Uma, que o chamamento aos Apóstolos e também a todo o cristão não provém de bons desejos, mas da escolha gratuita de Cristo. Não foram os Apóstolos que escolheram o Senhor como Mestre, segundo o costume judaico de escolher para si um rabino, mas foi Cristo quem os escolheu a eles. A segunda ideia é que a missão dos Apóstolos e de todo o cristão consiste em seguir Cristo, buscar a santidade e contribuir para a propagação do Evangelho. O terceiro ensinamento refere-se à eficácia da súplica feita em nome de Cristo; por isso a Igreja costuma terminar as orações da Sagrada Liturgia com a invocação «por Jesus Cristo Nosso Senhor».

As três ideias assinaladas unem-se harmonicamente: a oração é necessária para que a vida cristã seja fecunda, pois é Deus quem dá o incremento (cfr 1Cor 3,7); e a obrigação de buscar a santidade e exercer o apostolado deriva de que é o próprio Cristo quem nos chamou a realizar esta missão.

«Lembra-te, meu filho, de que não és somente uma alma que se une a outras almas para fazer uma coisa boa.

«Isso é muito…, mas é pouco. — Es o Apóstolo que cumpre uma ordem imperativa de Cristo» (Caminho, n° 942).

11.05.2015 – Jo 15, 26-16.4a

26Mas, quando vier o Assistente que Eu hei-de enviar lá do Pai, o Espírito da Ver­dade, que do Pai procede, Ele dará teste­munho de Mim. 27E vós também ides dar testemunho, porque estais comigo desde o princípio.

E disse-vos isto para não sucumbirdes. 2Hão-de excluir-vos das sinagogas. E até vai chegar a hora em que todo aquele que vos der a morte julgará prestar culto a Deus. 3E fá-lo-ão por não terem conhecido nem o Pai nem a Mim. 4Mas Eu disse-vos isto para que, ao chegar a respec­tiva hora, vos lembreis de que Eu vo-lo disse.

Comentário

26-27. Os Apóstolos voltarão a receber o encargo de dar testemunho de Jesus Cristo momentos antes da Ascensão (cfr Act 1,8). Eles foram testemunhas do ministério público, da Morte e Ressurreição de Cristo, condição para fazer parte do Colégio Apostólico, como se vê na escolha de Matias em substituição de Judas (cfr Act 1,21-22). Mas será com a vinda do Espírito Santo que se iniciará a pregação pública dos Doze e a vida da Igreja.

Todo o cristão há-de ser também uma testemunha viva de Cristo, e a Igreja inteira é um testemunho perene de Jesus Cristo: «A missão da Igreja realiza-se, pois, mediante a actividade pela qual, obedecendo ao mandamento de Cristo e movida pela graça e pela caridade do Espírito Santo, ela se torna actual e plenamente presente a todos os homens ou povos para os conduzir à fé, liberdade e paz de Cristo, não só pelo exemplo de vida e pela pregação, mas também pelos sacramentos e pelos restantes meios da graça» (Ad gentes, n. 5).

2-3. O fanatismo pode arrastar até fazer crer que é lícito o crime para servir a causa da religião. Era o que acontecia a estes judeus que perseguiram Jesus até à morte e depois a Igreja. Um caso típico desse falso zelo foi o de Paulo de Tarso (cfr Act 22,3-16), mas ao conhecer o seu erro converteu-se num dos mais fervorosos apóstolos de Cristo. Como predisse o Senhor, a Igreja sofreu repetidas vezes tal ódio fanático e diabólico. Outras vezes esse falso zelo não é tão manifesto, mas mostra-se na oposição sistemática e injusta às coisas de Deus. «Nas horas de luta e contradição, quando talvez ‘os bons’ encham de obstáculos o teu caminho, levanta o teu coração de apóstolo; ouve a Jesus que fala do grão de mostarda e do fermento. — E diz-Lhe: ‘e dissere nobis parabolam’ — explica-nos a parábola.

«E sentirás a alegria de contemplar a vitória futura: aves do céu à sombra do teu apostolado, agora incipiente; e toda a massa fermentada» (Caminho, n° 695).

Nestes casos, como também o advertiu Nosso Senhor, aqueles que perseguem os verdadeiros servidores de Deus pensam agradar-Lhe: esses perseguidores confundem a causa de Deus com concepções deformadas da religião.

4. Agora o Senhor não profetiza apenas a Sua morte (cfr Mt 16,21-23), mas também as perseguições que padecerão os Seus discípulos. Prediz as contrariedades para que quando cheguem não se escandalizem nem desanimem: pelo con­trário, serão ocasião de mostrar a fé.

12.05.2015 – Jo 16, 5b-11

5Mas agora vou para Aquele que Me enviou e já nenhum de vós Me per­gunta: «Para onde vais?». 6Mas, por Eu vos ter dito estas coisas, encheu-se de mágoa o vosso coração. 7Contudo, Eu digo-vos a ver­dade: É conveniente para vós que Eu Me vá. Se Eu não for, o Assistente não virá até vós. Mas, se Eu for, enviar-vo-Lo-ei. 8Depois de chegar, há-de Ele confundir o mundo quanto ao pecado, quanto à justiça e quanto ao julgamento: 9quanto ao pecado, porque não acreditam em Mim; 10quanto à justiça, por­que Eu vou para o Pai e já Me não vereis; 11e quanto ao julgamento, porque o Príncipe deste mundo está condenado.

Comentário

6-7. O pensar que os vai deixar sós enche de tristeza os Apóstolos. O Senhor consola-os com a promessa do Paráclito, o Consolador. Mais adiante (v. 20 s.) assevera-lhes que aquela tristeza se converterá numa alegria que ninguém poderá arrebatar-lhes.

Jesus fala do Espírito Santo três vezes no Sermão da Ceia. Na .primeira (14,15 ss.), afirma que virá outro Paráclito (advogado, consolador) enviado pelo Pai para que esteja sempre com eles; na segunda (14,26), diz que Ele mesmo enviará, de parte do Pai, o Espírito da verdade, que lhes ensinará tudo; na terceira (16,6-7), descobre totalmente o plano de salvação e anuncia que o fruto da Sua Ascensão ao Céu será o envio do Espírito Santo.

8-11. A palavra « mundo» designa aqui os que não creram em Cristo e O rejeitaram. A estes o Espírito Santo acusá-los-á de pecado pela sua incredulidade. Argui-los-á de justiça porque mostrará que Jesus era o Justo que jamais cometeu pecado algum (cfr Ioh 8,46; Heb 4,15), e por isso é glorificado junto do Pai, Por último arguirá de juízo ao tornar patente que o Demônio, príncipe deste mundo, foi vencido mediante a Morte de Cristo, pela qual o homem é resgatado do poder do Maligno e capacitado, pela graça, para vencer as suas ciladas.

13.05.2015 – Jo 16, 12-15

12Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não podeis comportá-las por agora. 13Quando Ele vier, o Espírito da Verdade, guiar-vos-á para a verdade total. É que Ele não falará por si próprio, mas falará de quanto ouve e anunciar-vos-á o que está para vir. 14Ele há-de glorificar-Me, porque receberá do que é Meu, para vo-lo anunciar. 15Tudo quanto o Pai tem é Meu. Por isso Eu disse que Ele receberá do que é Meu, para vo-lo anunciar.

Comentário

13. O Espírito Santo é quem leva à plena compreensão da verdade revelada por Cristo. Com efeito, como ensina o Concilio Vaticano II, o Senhor «com o envio do Espírito de verdade, completa totalmente e confirma com o testemunho divino a revelação» (Dei Verbum, n. 4). Cfr a nota a Ioh 14,25-26.

14-15. Jesus Cristo revela aqui alguns aspectos do mistério da Santíssima Trindade. Ensina a igualdade de natureza das três Pessoas divinas ao dizer que tudo o que tem o Pai é do Filho, que tudo o que tem o Filho é do Pai (cfr Ioh 17,10) e que o Espírito Santo possui também aquilo que é comum ao Pai e ao Filho, isto é, a essência divina. Acção própria do Espírito Santo será glorificar Cristo, recordando e esclarecendo aos discípulos o que o Mestre lhes ensinou (Ioh 16,13). Os homens, ao reconhecerem o Pai através do Filho movidos pelo Espírito, glorificam Cristo; e glorificar Cristo é o mesmo que dar glória a Deus (cfr Ioh 17,1.3-5.10).

14.05.2015 – Jo 15, 9-17

9Assim como o Pai Me amou também Eu vos amei. Permanecei no Meu amor. 10Se guardardes os Meus mandamentos, permanecereis no Meu amor, assim como Eu tenho guardado os mandamentos de Meu Pai e permaneço no Seu amor. 11Disse-vos isto, para a Minha alegria estar em vós e a vossa alegria ser completa. 12É este o Meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como Eu vos amei a vós. 13Ninguém tem amor maior que o de quem der a própria vida pelos seus amigos. 14Vós sereis Meus amigos, se fizerdes o que Eu vos ordeno. 15Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu Senhor; Eu cha­mei-vos amigos, porque tudo o que ouvi a Meu Pai vo-lo dei a conhecer. 16Não fostes vós que Me escolhestes, fui Eu que vos escolhi e vos estabeleci, para irdes e dardes fruto e o vosso fruto permanecer, de sorte que o que pedirdes ao Pai em Meu nome, Ele vo-lo concederá. 17O que vos mando é que vos ameis uns aos outros.

Comentário

9-11. O amor de Cristo aos cristãos é reflexo do amor que as três Pessoas divinas têm entre Si e para com os homens: «Amemos a Deus porque Ele nos amou primeiro» (l Ioh 4,19).

A certeza de que Deus nos ama é a raiz da alegria e do gozo cristão (v. 11), mas ao mesmo tempo exige a nossa correspondência fiel, que deve traduzir-se num desejo fervo­roso de cumprir a Vontade de Deus em tudo, isto é, os Seus mandamentos, à imitação de Jesus Cristo que cumpriu a Vontade do Pai (cfr Ioh 4,34).

12-15. Jesus insiste no «mandamento novo», cumprin­do-o Ele mesmo ao dar a Sua vida por nós. Veja-se a nota a Ioh 13,34-35.

A amizade de Cristo com o cristão, que o Senhor manifesta de modo particular neste passo, foi posta em realce na pregação de Mons. J. Escrivá de Balaguer: «A vida do cristão que decide comportar-se de acordo com a grandeza da sua vocação converte-se num eco prolongado daquelas palavras do Senhor: Já não vos chamarei servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; chamei-vos amigos, porque tudo quanto ouvi de Meu Pai vo-lo dei a conhecer (Ioh 15,15). Estar pronto a seguir documente a Vontade divina abre horizontes insuspeitados (…) ‘não há nada melhor que saber que somos por amor escravos de Deus, porque perdemos a situação de escravos para nos tornarmos amigos, filhos’ (Amigos de Deus, n° 35).

«Filhos de Deus, Amigos de Deus (…) Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro Homem: nosso Irmão, nosso Amigo; se procurarmos criar intimidade com Ele, ‘partici­paremos na dita da amizade divina’ (Ibid., n.° 300); se fizermos o possível por acompanhá-Lo desde Belém até ao Calvário, compartilhando as Suas alegrias e os Seus sofri­mentos, tornar-nos-emos dignos da Sua companhia amistosa: calicem Domini biberunt — canta a Liturgia das Horas — et amici Dei facti sunt, beberam do cálice do Senhor e torna­ram-se amigos de Deus (Responsório da segunda leitura do ofício da Dedicação das Basílicas dos Apóstolos Pedro e Paulo).

«Filiação e amizade são duas realidades inseparáveis para aqueles que amam a Deus. A Ele acorremos como filhos, num diálogo que há-de encher toda a nossa vida; e como amigos (…). Do mesmo modo, a filiação divina leva a que a abundância de vida interior se traduza em actos de apostolado, tal como a amizade com Deus leva a pormo-nos ‘ao serviço de todos: temos de utilizar esses dons de Deus como instrumentos para ajudar os homens a descobrirem Cristo’ (Amigos de Deus, n° 258)» (Amigos de Deus, Apresentação de Mons. A. Del Portillo, pp. 20-21).

16. Três ideias estão contidas nestas palavras do Senhor. Uma, que o chamamento aos Apóstolos e também a todo o cristão não provém de bons desejos, mas da escolha gratuita de Cristo. Não foram os Apóstolos que escolheram o Senhor como Mestre, segundo o costume judaico de escolher para si um rabino, mas foi Cristo quem os escolheu a eles. A segunda ideia é que a missão dos Apóstolos e de todo o cristão consiste em seguir Cristo, buscar a santidade e contribuir para a propagação do Evangelho. O terceiro ensinamento refere-se à eficácia da súplica feita em nome de Cristo; por isso a Igreja costuma terminar as orações da Sagrada Liturgia com a invocação «por Jesus Cristo Nosso Senhor».

As três ideias assinaladas unem-se harmonicamente: a oração é necessária para que a vida cristã seja fecunda, pois é Deus quem dá o incremento (cfr 1Cor 3,7); e a obrigação de buscar a santidade e exercer o apostolado deriva de que é o próprio Cristo quem nos chamou a realizar esta missão.

«Lembra-te, meu filho, de que não és somente uma alma que se une a outras almas para fazer uma coisa boa.

«Isso é muito…, mas é pouco. — Es o Apóstolo que cumpre uma ordem imperativa de Cristo» (Caminho, n° 942).

15.05.2015 – Jo 16, 20-23a

20Em verdade, em verdade vos digo: Vós haveis de chorar e lamentar-vos, e o mundo alegrar-se-á. Vós haveis de entristecer-vos, mas a vossa tristeza tornar-se-á em alegria. 21A mulher, quando vai dar à luz, sente-se triste, por ter chegado a sua hora. Mas, depois de ter tido o menino, já se não lembra da aflição com a alegria de ter vindo um homem ao mundo. 22Tarnbém vós vos sentis agora tristes. Mas Eu hei-de tornar a ver-vos; então o vosso coração alegrar-se-á, e a vossa alegria ninguém vo-la poderá tirar. 23E, nesse dia, nada Me haveis de perguntar.

Comentário

16-22. O Senhor tinha consolado antes os discípulos asseverando-lhes que depois da Sua partida lhes enviaria o Espírito Santo (v. 7). Agora dá-lhes outro motivo de conso­lação: a Sua partida não será definitiva, mas voltará a estar com eles. Não obstante, os Apóstolos não acabam de enten­der o que lhes quer dizer, e interrogam-se uns aos outros sobre o sentido das palavras do Mestre. O Senhor não lhes dá uma explicação directa, quiçá porque não seriam capazes de compreender, como já noutras ocasiões (cfr Mt 16,21-23 e par.). Pelo contrário, insiste na alegria que virá depois dessa tristeza que agora os embarga. E assim anuncia-lhes que, depois das tribulações, terão um gozo completo que não perderão jamais (cfr Ioh 17,13). Refere-Se, antes de mais, à alegria da Ressurreição (cfr Lc 24,41), mas também ao encontro definitivo com Jesus no Céu. Esta imagem da mulher que dá à luz, que é muito frequente no Antigo Testa­mento para exprimir a dor intensa, costuma empregar-se também, sobretudo nos Profetas, para significar o parto do novo povo messiânico (cfr Is 21,3;26,17; 66,7; ler 30,6; Os 13,13; Mich 4,9-10). As palavras de Jesus, que o presente passo do Evangelho recolhe, parecem ter uma relação com tais profecias, das quais constituiriam o seu cumprimento. O nascimento do povo messiânico — a Igreja de Cristo — comporta dores intensas não só para Jesus, mas também, na sua medida, para os Apóstolos. Mas essas dores, como de parto, ver-se-ão compensadas pelo gozo da consumação do Reino de Cristo: «Porque estou convencido — diz São Paulo — de que os padecimentos do tempo presente não são compa­ráveis com a glória que se há-de manifestar em nós» (Rom 8,18).

16.05.2015 – Jo 16, 23b-28

Em verdade, em verdade vos digo: O que pedirdes ao Pai. Ele vo-lo dará em Meu nome. 24Até agora nada pedistes em Meu nome; pedi e recebereis, para a vossa alegria ser completa.

25Disse-vos estas coisas em parábolas. Vai chegar a hora em que já vos não falarei em parábolas, mas abertamente vos farei decla­rações acerca do Pai. 26Nesse dia, pedireis em Meu nome; e não vos digo que rogarei por vós ao Pai, “pois é o próprio Pai que vos ama, por vós Me terdes amado e haverdes acreditado que Eu vim de junto de Deus. 28Eu saí do Pai e vim ao mundo. De novo deixo o mundo e volto para o Pai.

Comentário

23-24. Veja-se a nota a Ioh 14,12-14.

25-30. Como se vê também noutros passos dos Evan­gelhos, Jesus explicava a Sua doutrina aos Apóstolos detidamente e com mais clareza que às multidões (cfr Mc 4, 10-12 e par.). Desta forma ia-os preparando para os enviar a pregar o Evangelho por todo o mundo (cfr Mt 28,18-20). Não obstante, o Senhor também realiza essa instrução dos Apóstolos por meio de figuras ou parábolas, inclusivamente na intimidade do discurso da Ceia: a videira, a mulher que dá à luz, etc. Esta forma de ensinar desperta a curiosidade dos Apóstolos, que, como não acabam de entender, querem perguntar mais (cfr vv. 17-18). Jesus anuncia-lhes que vai chegar o momento em que lhes falará com toda a clareza, e assim possam compreendê-Lo de todo. Isto acontecerá depois da Ressurreição (cfr Act 1,3). Mas já agora, pelo facto de conhecer os seus pensamentos, lhes está a manifestar uma vez mais que é Deus, pois só Deus pode conhecer o que há no mundo interior do homem (cfr 2,25). Por outro lado, a frase do v. 28 «saí do Pai e vim ao mundo; de novo deixo o mundo e vou para o Pai» resume o mistério da Sua Pessoa (cfr Ioh 1,14; 20,31).

17.05.2015 – Mc 16, 15-20

Disse-lhes Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura. 16Quem acre­ditar e for baptizado será salvo, mas quem não crer será condenado. 17Aos que crerem acompanhá-los-ão estes milagres: em Meu nome expulsarão Demônios, falarão novas línguas, 18pegarão em serpentes e, se beberem peçonha, não lhes fará mal, imporão as mãos aos doentes, e eles recobrarão saúde.

19E assim o Senhor Jesus, depois de ter falado com eles, foi assumido ao Céu e sentou-Se à direita de Deus.

20Eles partiram a pregar por toda a parte, cooperando o Senhor com eles e confirmando a sua palavra com os milagres que a acom­panhavam.

Comentário

15. Este versículo contém o chamado mandato apostó­lico universal, que é paralelo ao de Mt 28,19-20 e ao de Lc 24,46-48. É um mandato imperativo de Cristo aos Seus Após­tolos para que preguem o Evangelho a todas as nações. Essa mesma missão apostólica incumbe, de modo especial, aos sucessores dos Apóstolos, que são os Bispos em comunhão com o Papa, sucessor de Pedro.

Não só eles, porém, mas toda «a Igreja nasceu para tornar todos os homens participantes da redenção salvadora e, por eles, ordenar efectivamente a Cristo o universo inteiro, dilatando pelo mundo o Seu Reino para glória de Deus Pai. Toda a actividade do Corpo místico que a este fim se oriente, chama-se apostolado. A Igreja exerce-o de diversas maneiras, por meio de todos os seus membros, já que a vocação cristã é também, por sua própria natureza, vocação ao apostolado. (…). Existe na Igreja diversidade de funções, mas unidade de missão. Aos Apóstolos e seus sucessores, confiou Cristo a missão de ensinar, santificar e governar em Seu nome e com o Seu poder. Mas os leigos, dado que são participantes do múnus sacerdotal, profético e real de Cristo, têm um papel próprio a desempenhar na missão do inteiro Povo de Deus, na Igreja e no mundo» (Apostolicam actuositatem, n. 2).

É verdade que Deus actua directamente na alma de cada pessoa por meio da Sua graça, mas, ao mesmo tempo, deve afirmar-se que é vontade de Cristo, expressa neste e noutros textos, que os homens sejam instrumento ou veículo de salvação para os outros homens.

Neste sentido também o Concilio Vaticano II ensina: «A todos os fiéis incumbe, portanto, o glorioso encargo de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens em toda a terra» (Ibid., n. 3).

16. Como consequência da proclamação da Boa Nova ensina-se neste versículo que a fé e o Baptismo são requisitos indispensáveis para alcançar a salvação. A conversão à fé de Jesus Cristo há-de levar directamente ao Baptismo, que nos «confere a primeira graça santificante, pela qual se perdoa o pecado original e também os actuais, se os houver; remete toda a pena por eles devida; imprime o caracter de cristãos; faz-nos filhos de Deus, membros da Igreja e herdeiros da glória, e habilita-nos para receber os outros sacramentos» (Catecismo Maior, n.° 553).

O Baptismo é absolutamente necessário para o homem se salvar, como se depreende destas palavras do Senhor. Mas a impossibilidade física do rito baptismal pode ser suprida ou pelo martírio, que é chamado baptismo de sangue, ou por um acto perfeito de amor de Deus ou de contrição, unidos ao desejo, pelo menos implícito, de ser baptizado; a isto chama-se baptismo de desejo (cfr Ibid., n.os 567-568).

Relativamente ao Baptismo das crianças, já Santo Agos­tinho ensinava que «de nenhum modo se pode rejeitar nem considerar como desnecessário o costume da Santa Madre Igreja de baptizar as crianças; antes pelo contrário, há que admiti-lo forçosamente por ser tradição apostólica» (De Gen. ad litt., 10,23,39). O novo Código de Direito Canônico assinala a necessidade de que as crianças sejam baptizadas: «Os pais têm obrigação de procurar que as crianças sejam baptizadas dentro das primeiras semanas; logo após o nasci­mento, ou até antes deste, vão ter com o pároco, peçam-lhe o sacramente para o filho e preparem-se devidamente para ele» (cân. 867 § 1).

Outra consequência ligada intimamente à anterior é a necessidade da Igreja, como declara o Concilio Vaticano II: «Com efeito, só Cristo é mediador e caminho de salvação e Ele torna-Se-nos presente no Seu corpo, que é a Igreja; ao inculcar expressamente a necessidade da fé e do Baptismo (cfr Mc 16,16; Ioh 3,5), confirmou simultaneamente a necessidade da Igreja, para a qual os homens entram pela porta do Baptismo. Pelo que, não se poderiam salvar aqueles que, não ignorando ter sido a Igreja católica fundada por Deus, por meio de Jesus Cristo, como necessária, contudo, ou não querem entrar nela ou nela não querem perseverar» (Lumen gentium, n. 14; cfr Presbyterorum ordinis, n. 4; Ad gentes, nn. 1.3; Dignitatis humanae, n. 11).

17-18. Nos primeiros tempos da expansão da Igreja, estes factos miraculosos que Jesus anuncia cumpriram-se de modo frequente e visível. Os testemunhos históricos destes acontecimentos são abundantíssimos no Novo Testamento (cfr, p. ex. Act 3,1-11; 28,3-6) e noutros escritos cristãos antigos. Era muito conveniente que assim sucedesse para mostrar ao mundo de uma maneira palpável a verdade do cristianismo. Mais tarde, continuaram a realizar-se milagres deste tipo, mas em menor número, como casos excepcionais. Também é conveniente que assim seja porque, por um lado, a verdade do Cristianismo está já suficientemente atestada; e, por outro, para dar lugar ao mérito da fé. «Os milagres — comenta São Jerônimo — foram precisos ao princípio para confirmar com eles a fé. Mas, uma vez que a fé da Igreja está confirmada, os milagres não são necessários» (Comm. in Marcum, ad loc.). De qualquer modo, Deus continua a realizar milagres através dos santos de todos os tempos, também dos actuais.

19. A Ascensão do Senhor aos Céus e o estar sentado à direita do Pai constituem o sexto artigo da Fé que recitamos no Credo. Jesus Cristo subiu ao Céu em corpo e alma para tomar posse do Reino alcançado com a Sua morte, para nos preparar o nosso lugar na glória (cfr Apc 3,21), e para enviar o Espírito Santo à Sua Igreja (cfr Catecismo Maior, n° 123).

A afirmação «sentou-se à direita de Deus» significa que Jesus Cristo, também na Sua Humanidade, tomou posse eterna da glória e que, sendo igual ao Pai enquanto Deus, ocupa junto d’Ele o lugar de honra sobre todas as criaturas enquanto homem (cfr Catecismo Romano, I, 7,2-3). Já no Antigo Testamento se diz que o Messias estará sentado à direita do Todo-poderoso, exprimindo assim a suprema dignidade do Ungido de Yahwéh (cfr Ps 110,1). O NT recolhe aqui esta verdade, e também noutros muitos lugares (cfr Eph 1,20-22; Heb 1,13).

Segundo amplia o Catecismo Romano, Jesus subiu aos Céus pela Sua própria virtude e não por poder estranho a Ele. Também não ascendeu aos Céus apenas como Deus, mas também como homem.

20. O Evangelista, movido pelo Espírito Santo, dá tes­temunho de que as palavras de Cristo já se tinham começado a cumprir no tempo em que escrevia o seu Evangelho. Os Apóstolos, com efeito, souberam realizar com fidelidade a missão que o Senhor lhes tinha confiado. Começaram a pregar por todo o mundo então conhecido a Boa Nova da Salvação. A palavra dos Apóstolos era acompanhada pelos sinais e prodígios que o Senhor lhes tinha prometido, dando assim autoridade ao seu testemunho e à sua doutrina. Mas já sabemos que o trabalho apostólico foi sempre duro, cheio de fadigas, perigos, incompreensão, perseguições e até do próprio martírio, seguindo em tudo isso os rastos do Senhor.

Graças a Deus e também aos Apóstolos, chegou até nós a força e a alegria de Cristo Senhor Nosso. Mas cada geração cristã, cada homem, tem de receber essa pregação do Evan­gelho e por sua vez transmiti-lo. A graça do Senhor não faltará nunca: «Non est abbreviata manus Domini» (Is 59,1), o poder do Senhor não diminuiu.

18.05.2015 – Jo 16, 29-33

29Dizem os discípulos: Agora é que estás a falar aber­tamente e não dizes parábola nenhuma. 30Agora sabemos que tudo conheces e não precisas que ninguém Te interrogue. Por isso acreditamos que saíste de Deus.31 Res­pondeu-lhes Jesus: Acreditais agora? 32Olhai que vai chegar a hora, e já chegou, em que vos dispersareis, cada qual para seu lado, e Me deixareis só; se bem que não estou só, porque o Pai está comigo. 33Eu disse-vos isto, para terdes paz em Mim. No mundo tereis tribulações. Mas coragem! Eu venci o mundo!

Comentário

31-32. Jesus modera o entusiasmo dos Apóstolos, que se manifesta numa espontânea profissão de fé, com uma per­gunta que tem um duplo aspecto. Por um lado, é como uma repreensão por terem tardado tanto em crer n’Ele: é certo que em ocasiões anteriores manifestaram a sua fé no Mestre (cfr Ioh 6,68-69; etc.), mas até agora não reconhecem claramente que Ele é o enviado do Pai. Por outro lado, refere-Se à falta de estabilidade daquela fé: creem e, não obstante, pouco depois abandoná-Lo-ão nas mãos dos Seus inimigos. Jesus exige uma fé firme: não basta que se mani­feste em momentos de entusiasmo, mas é necessário que se prove diante das dificuldades.

33. O Concilio Vaticano II ensina a propósito deste passo: «O Senhor Jesus, que disse: Confiai, Eu venci o mundo, não prometeu à Sua Igreja, com estas palavras, a vitória perfeita, já na terra. Todavia, o sagrado Concilio alegra-se porque a terra semeada pelo Evangelho frutifica em muitas partes pela acção do Espírito do Senhor, que enche todo o mundo» (Presbvterorum ordinis, n. 22).

19.05.2015 – Jo 17, 1-11a

Assim falou Jesus. Depois, erguendo os olhos ao Céu, disse: Pai, chegou a hora: glorifica o Teu Filho, para o Teu Filho Te glorificar, 2de acordo com o poder que Lhe outorgaste sobre toda a criatura, com o qual Ele dará a vida eterna a todos os que Lhe deste. 3É esta a vida eterna: que Te conheçam a Ti, único Deus verdadeiro, e Aquele que enviaste, Jesus Cristo. 4Eu glorifiquei-Te na Terra, consumando a obra que Me deste a fazer. 5E agora glorifica-Me Tu, ó Pai, junto de Ti mesmo, com a glória que Eu tinha junto de Ti, antes de o mundo existir.

6Manifestei o Teu nome aos homens que, do mundo, Me deste. Eram Teus e deste-Mos a Mim; eles guardaram a Tua palavra. 7Agora sabem que tudo quanto Me deste vem de ti, 8porque Eu dei-lhes as palavras que Tu Me deste, e eles receberam-nas; reconheceram verdadeiramente que Eu saí de Ti e acreditaram que Tu Me enviaste. 9Por eles é que Eu peço; não é pelo mundo que peço, é por aqueles que Me deste, porque são Teus. 10Mas tudo o que é Meu é Teu e o que é Teu é Meu; e neles Eu estou glorificado. 11Já não estou no mundo, mas eles estão no mundo, enquanto Eu vou para Ti.

Comentário

1-26. Depois do discurso da Ceia (caps. 13-16) começa a chamada Oração sacerdotal de Cristo, que ocupa todo o cap. 17. Denomina-se oração sacerdotal porque Jesus Se dirige a Seu Pai num diálogo emocionado, em que, como Sacerdote, Lhe oferece o sacrifício iminente da Sua Paixão e Morte. Desta forma revela-nos elementos essenciais da Sua missão redentora e serve-nos de modelo e de ensinamento: « O Senhor, Unigénito e coeterno do Pai, teria podido orar em silêncio se era necessário, mas quis manifestar-Se ao Pai como suplicante porque é o nosso Mestre (…). Daí que esta oração pelos discípulos não tenha sido útil só para aqueles que a ouviram, mas para todos os que havíamos de lê-la» (In Ioann. Evang., 104,2).

A Oração sacerdotal consta de três partes: na primeira (vv. 1-5), Jesus pede a glorificação da Sua Santíssima Huma­nidade e a aceitação por parte do Pai do Seu sacrifício na Cruz. Na segunda (vv. 6-19), roga pelos Seus discípulos, que vai enviar ao mundo para proclamarem a obra redentora que Ele está prestes a consumar. Por último (vv. 20-26), roga pela unidade entre todos os que hão-de crer n’Ele ao longo dos séculos, até conseguir a plena união com Ele próprio na glória.

1-5. A palavra «glória» designa aqui o esplendor, o poder e a honra próprios de Deus. O Filho é Deus igual ao Pai, e desde a Sua Encarnação e nascimento, principalmente na Sua Morte e Ressurreição, manifestou a Sua divindade: «Vimos a Sua glória, glória como de Unigénito do Pai» (Ioh 1,14). A glorificação de Jesus Cristo abrange um tríplice aspecto: primeiro, serve para glória do Pai, porque Cristo, obedecendo ao decreto redentor de Deus (cfr Phil 2,6 ss.), dá a conhecer o Pai e leva ao fim deste modo a obra salvífica divina (v. 4). Segundo, Cristo é glorificado porque a Sua Divindade, que esteve velada voluntariamente, por fim vai manifestar-se através da Sua Humanidade que, depois da Ressurreição, se mostrará revestida do mesmo poder divino sobre toda a criatura (vv. 2-5). Terceiro, Cristo, com a Sua glorificação, oferece ao homem a possibilidade de alcançar a vida eterna, conhecer Deus Pai e Jesus Cristo, Seu Filho Unigénito; o que redunda em glorificação do Pai e de Jesus Cristo, ao mesmo tempo que implica a participação do homem na glória divina (v. 3).

«O Filho glorifica-Te fazendo que Te conheçam todos aqueles que Lhe confiaste. É verdade que se a vida eterna é o conhecimento de Deus, tanto mais tendemos a viver quanto mais progredimos neste conhecimento (…). O louvor de Deus não terá fim onde o conhecimento do mesmo Deus será pleno; e porque no Céu este conhecimento será completo, também será completa a glorificação de Deus» (In Ioann Evang., 105,3).

6-8. Nosso Senhor rogou ao Pai por Si mesmo; agora roga pelos Seus Apóstolos, que serão os continuadores da Sua obra redentora no mundo. Ao orar por eles, Jesus descreve algumas prerrogativas dos que vão formar o Colégio Apostólico.

Em primeiro lugar, a escolha: «Eram Teus…». Deus Pai tinha-os escolhido desde toda a eternidade (cfr Eph 1,3-4) e, no momento próprio, Jesus comunicou-lhes esta escolha: «O Senhor Jesus, depois de ter feito oração ao Pai, chamando a Si os que Ele quis, constituiu Doze para que vivessem com Ele e para os enviar a pregar o Reino de Deus (cfr Mc 3,13-19; Mt 10,1-42); a estes Apóstolos (cfr Lc 6,13) instituiu-os a modo de Colégio, isto é, de grupo estável, à frente do qual colocou Pedro, escolhido dentre eles mesmos (cfr Ioh 21,15-17)» (Lumen gentium, n. 19). Por outro lado, os Apóstolos gozaram do privilégio de escutar directamente de Jesus Cristo a doutrina revelada. Mediante essa doutrina recebida com docilidade, chegaram a conhecer que Jesus tinha saído do Pai e que, portanto, é o enviado de Deus (v. 8); isto é, conseguiram o conhecimento das relações entre o Pai e o Filho.

O cristão, também discípulo, vai adquirindo pela vida de6-8. Nosso Senhor rogou ao Pai por Si mesmo; agora roga pelos Seus Apóstolos, que serão os continuadores da Sua obra redentora no mundo. Ao orar por eles, Jesus descreve algumas prerrogativas dos que vão formar o Colégio Apostólico.

Em primeiro lugar, a escolha: «Eram Teus…». Deus Pai tinha-os escolhido desde toda a eternidade (cfr Eph 1,3-4) e, no momento próprio, Jesus comunicou-lhes esta escolha: «O Senhor Jesus, depois de ter feito oração ao Pai, chamando a Si os que Ele quis, constituiu Doze para que vivessem com Ele e para os enviar a pregar o Reino de Deus (cfr Mc 3,13-19; Mt 10,1-42); a estes Apóstolos (cfr Lc 6,13) instituiu-os a modo de Colégio, isto é, de grupo estável, à frente do qual colocou Pedro, escolhido dentre eles mesmos (cfr Ioh 21,15-17)» (Lumen gentium, n. 19). Por outro lado, os Apóstolos gozaram do privilégio de escutar directamente de Jesus Cristo a doutrina revelada. Mediante essa doutrina recebida com docilidade, chegaram a conhecer que Jesus tinha saído do Pai e que, portanto, é o enviado de Deus (v. 8); isto é, conseguiram o conhecimento das relações entre o Pai e o Filho.

O cristão, também discípulo, vai adquirindo pela vida de fé, com a intimidade com Jesus Cristo, o conhecimento de Deus e das coisas divinas.

«Ao recordarmos esta delicadeza humana de Cristo, que gasta a Sua vida em serviço dos outros, fazemos muito mais do .que descrever um modo possível de nos comportarmos: estamos a descobrir Deus. Toda a actuação de Cristo tem um valor transcendente; dá-nos a conhecer o modo de ser de Deus; convida-nos a crer no amor de Deus, que nos criou e que quer levar-nos até à Sua intimidade» (Cristo que passa, n. 109).

20.05.2015 – Jo 17, 11b-19

Pai Santo, guarda-os no Teu nome, o nome que Me deste, para serem um só, como Nós. 12Quando Eu estava com eles, guardava-os no Teu nome, o nome que Me deste, e preservei-os, não se tendo perdido nenhum deles, a não ser o filho da perdição, para se cumprir a Escritura. 13Mas agora vou para Ti e, ainda no mundo, digo isto, para eles terem em si a plenitude da Minha alegria. 14Eu dei-lhes a Tua palavra, e o mundo odiou-os, por não serem do mundo, como Eu não sou do mundo. 15Não peço que os tires do mundo, mas que os guardes do Maligno. 16Eles não são do mundo, como Eu não sou do mundo. 17Consagra-os na verdade. A Tua palavra é a verdade. 18Assim como Tu Me enviaste ao mundo, também Eu os enviei ao mundo. 19Eu consagro-Me por eles, para eles serem também consagrados na verdade.

Comentário

11-19. Jesus agora pede ao Pai para os Seus quatro coisas: a unidade, a perseverança, o gozo e a santidade. Ao pedir que os guarde em Seu nome (v. 11) está a rogar que perseverem na doutrina recebida (cfr v. 6) e em comunhão íntima com Ele. Consequência imediata desta comunhão é a unidade: «Para serem um só, como Nós»; a unidade que pede para os discípulos é reflexo da que existe entre as três Pessoas divinas.

Roga, além disso, que nenhum deles se perca, que o Pai os guarde e proteja, tal como Ele os protegeu enquanto esteve com eles. Em terceiro lugar, da união com Deus e da perse­verança no Seu amor surge a participação no gozo completo de Cristo (v. 13). Nesta vida, quanto melhor conhecermos Deus e mais intimamente estivermos unidos a Ele, maior dita teremos. Na vida eterna, a nossa alegria será completa, porque o conhecimento e amor a Deus terão chegado à sua plenitude.

Por último, o Senhor roga pelos que, vivendo no meio do mundo, não são do mundo, para que sejam santos de verdade (v. 17) e levem a cabo a missão que Ele lhes confia, como Ele realizou a que recebeu do Pai (v. 18).

12. «Para se cumprir a Escritura»: É uma alusão ao que, pouco antes (Ioh 13,18), tinha dito aos Apóstolos ci­tando explicitamente o texto sagrado: «Aquele que come o pão comigo levantará contra Mim o seu calcanhar» (Ps 41,10). A finalidade desta e de outras alusões de Cristo à traição de Judas é consolidar a fé dos Apóstolos, manifes­tando que conhecia tudo de antemão e que as Escrituras já o tinham anunciado.

De qualquer modo, Judas perdeu-se por sua culpa e não porque Deus o determinasse a isso; assim, a sua traição deve ter-se ido preparando pouco a pouco, mediante pequenas infidelidades, apesar de que Nosso Senhor em muitas ocasiões o ajudou para que pudesse arrepender-se e voltar ao bom caminho (cfr a nota a Ioh 13,21-32); não obstante, Judas não correspondeu a essas graças e perdeu-se por sua própria vontade. Deus, que vê o futuro, predisse a traição de Judas na Escritura; Cristo, como verdadeiro Deus, conhecia essa perdição e anuncia-a agora aos Seus discípulos com imensa dor.

14-16. «Mundo» na Sagrada Escritura tem várias acepções. A primeira designa o conjunto da criação (Gen 1, 1 ss.), e dentro dela a humanidade, os homens, que Deus ama enternecidamente (Prv 8,31)- Neste contexto entende-se o pedido do Senhor: «Não peço que os tires do mundo, mas que os guardes do Maligno» (v. 15). «Constantemente o tenho ensinado com palavras da Santa Escritura: o mundo não é mau, porque saiu das mãos de Deus, porque Yahwéh olhou para ele e viu que era bom (cfr Gen 1,7 e ss.). Nós, os homens, é que o tornamos mau e feio com os nossos pecados e as nossas infidelidades. Não duvideis, meus filhos: qualquer forma de evasão das honestas realidades diárias é, para vós, homens e mulheres do mundo, coisa oposta à vontade de Deus» (Temas Actuais do Cristianismo, n° 114).

Em segundo lugar,« mundo» indica os bens da terra, de si caducos e que podem apresentar oposição aos bens do espírito (cfr Mt 16,26).

Finalmente, porque os homens maus foram escravizados pelo pecado e pelo demônio, «príncipe deste mundo» (Ioh 12,31; 16,11), o «mundo» é considerado por vezes como inimigo de Deus e contrário a Cristo e aos Seus seguidores (Ioh 1,10). Neste sentido, o mundo é mau, e por isso Jesus não é do mundo, nem o são os Seus discípulos (v. 16). Também a essa acepção pejorativa se refere a doutrina tradicional que considera o mundo, junto com o demônio e a carne, como inimigos da alma diante dos quais se deve estar em constante vigilância. «O mundo, o demônio e a carne são uns aventu­reiros que, aproveitando-se da fraqueza do selvagem que trazes dentro de ti, querem que, em troca do fictício brilho dum prazer — que nada vale — lhes entregues o ouro fino e as pérolas e os brilhantes e os rubis embebidos no Sangue vivo e redentor do teu Deus, que são o preço e o tesouro da tua eternidade» (Caminho, n° 708).

17-19. Jesus pede a santidade para os Seus discípulos. O único Santo é Deus, de cuja santidade participam as pessoas e as coisas. «Santificar» consiste em consagrar e dedicar algo a Deus, excluindo-o dos usos profanos; neste sentido Deus diz a Jeremias: «Antes de teres saído do seio materno Eu te santifiquei, te constituí profeta para as nações» (ler 1,5). A consagração a Deus exige a perfeição ou santidade do dom consagrado. Daí que uma pessoa consa­grada deva ter a santidade moral, exercitar-se nas virtudes morais. Ambas as coisas — consagração e perfeição — pede aqui o Senhor para os Seus discípulos, porque delas neces­sitam para cumprir a sua missão sobrenatural no mundo.

«Eu consagro-Me por eles…»: Estas palavras querem dizer que Jesus Cristo, que carregou com os pecados dos homens, Se consagra ao Pai por meio do Seu sacrifício na Cruz. Por este todos os cristãos ficam santificados: «Por isso também Jesus, para santificar o povo com o Seu sangue, padeceu fora da cidade» (Heb 13,12). Na verdade, depois da morte de Cristo, os homens mediante o Baptismo tornam-se filhos de Deus, participantes da natureza divina e capazes de alcançar a santidade a que foram chamados (cfr Lumen gentium, n. 40).

21.05.2015 – Jo 17, 20-26

20Não é só por eles que Eu rogo, é também por aqueles que vão acreditar em mim, por meio da sua palavra, 21para todos serem um só; como Tu, ó Pai, estás em Mim e Eu em Ti, que eles também estejam em Nós, a fim de que o mundo acredite que Tu Me enviaste. 22 E Eu dei-lhes a glória que Tu Me deste. para que sejam um só, como Nós somos um só: 23Eu neles e Tu em Mim, para chegarem à perfeita unidade, a fim de que o mundo reconheça que Tu Me enviaste e os amaste, como Me amaste a Mim. 24Pai, os que Me deste, quero que, onde Eu estiver, eles estejam também comigo, para contemplarem a glória que Me pertence e que Tu Me deste, por Me teres amado antes da constituição do mundo. 25Pai justo, se o mundo não Te conheceu, Eu conheci-Te, e estes reconhe­ceram que Tu Me enviaste. 26Eu dei-lhes a conhecer o Teu nome e dar-lho-ei a conhe­cer, para que o amor com que Me amaste esteja neles e Eu esteja neles também.

Comentário

20-23. Por ser Cristo quem pede pela Igreja, a Sua oração é infalivelmente eficaz, de maneira que a verdadeira Igreja de Jesus Cristo sempre será una e única. A unidade é, portanto, uma propriedade essencial da Igreja. «Nós cremos que a Igreja, que Cristo fundou e pela qual rogou, é sem cessar una pela fé, pelo culto, e pelo vínculo da comunhão hierárquica» (Credo do Povo de Deus, n° 21). Além disso, o pedido de Jesus ensina quais são os fundamentos da unidade e os efeitos que se conseguirão com ela.

A fonte donde brota a unidade da Igreja é a união íntima das três Pessoas divinas, entre as quais há uma doação e amor mútuos.« Quando o Senhor Jesus pede ao Pai que todos sejam um (…) como Nós somos um, sugere — abrindo pers­pectivas inacessíveis à razão humana — que há uma certa analogia entre a união das Pessoas divinas entre Si e a união dos filhos de Deus na verdade e na caridade. Esta semelhança torna manifesto que o homem, única criatura sobre a terra a ser querida por Deus por si mesma, não se pode encontrar plenamente a não ser no sincero dom de si mesmo» (Gaudium et spes, n. 24). A unidade está também baseada na união dos fiéis com Jesus Cristo e por Ele com o Pai (v. 23). Com efeito, a plenitude da unidade — consummati in unum — conse­gue-se pela graça sobrenatural que nos vem de Cristo (cfr Ioh 15,5).

Os frutos da unidade da Igreja são, por um lado, que o mundo creia em Cristo e na Sua missão divina (vv 21-23); e, por outro, que os próprios cristãos e todos os homens reconheçam a especial predilecção de Deus, que ama os fiéis com um amor que é reflexo do que as Pessoas divinas têm entre Si. Deste modo, a oração de Jesus atinge toda a huma­nidade, já que todos os homens são convidados ao favor de Deus (cfr 1Tim 2,4). «Amaste-os como Me amaste a Mim»: esta frase, como explica São Tomás de Aquino, «não indica igualdade estrita no amor, mas o motivo e a semelhança. É como se dissesse: o amor pelo qual Me amaste a Mim é a razão e a causa pelas quais os amaste a eles, pois, precisa­mente porque Me amas a Mim amas aqueles que Me amam» (Comentário sobre S. João, ad loc.). Junto a esta explicação precisa da Teologia, há que ponderar a força expressiva das palavras de Cristo que supõem o amor ardente do Seu coração pelos homens. Em todo o discurso da Última Ceia não podemos senão vislumbrar de longe a profunda reali­dade dos sentimentos de Jesus Cristo, cuja grandeza de alma supera a medida limitada dos nossos corações humanos. Uma vez mais devemos render-nos diante do mistério de Deus feito homem.

20. À Igreja, pela qual Cristo pede, pertencem todos aqueles que ao longo dos séculos hão-de crer n’Ele pela pregação dos Apóstolos. .«A missão divina confiada por Cristo aos Apóstolos durará até ao fim dos tempos (cfr Mt 28,20), uma vez que o Evangelho que eles devem anunciar é em todo o tempo o princípio de toda a vida na Igreja. Pelo que os Apóstolos trataram de estabelecer sucessores, nesta sociedade hierarquicamente constituída» (Lumen gentium, n. 20).

A origem e o fundamento apostólico da Igreja chama-se «Apostolicidade», propriedade essencial que confessamos no Credo. Consiste em que o Papa e os Bispos são sucessores de Pedro e dos Apóstolos, conservam a sua autoridade e proclamam a mesma doutrina. «Ensina, por isso, o sagrado Concilio que, por instituição divina, os Bispos sucedem aos Apóstolos, como pastores da Igreja; quem os ouve, ouve a Cristo; quem os despreza, despreza a Cristo e Aquele que enviou Cristo (cfr Lc 10,16)» (Lumen gentium, n. 20).

21. A união dos cristãos com Cristo causa a unidade deles entre si. Esta unidade da Igreja beneficia, em última análise, toda a humanidade, pois sendo a Igreja una e única, aparece como sinal levantado diante das nações para convidar a crer em Jesus Cristo como enviado divino que vem salvar todos os homens. A Igreja continua no mundo essa missão salvadora pela sua união com Cristo. Por isso convoca todos a integrar-se na sua própria unidade e, mediante esta, a participar na união com Cristo e com o Pai.

O Concilio Vaticano II, falando dos fundamentos do ecumenismo, relaciona a unidade da Igreja com a sua universalidade: «Quase todos, se bem que de modo diverso, aspiram a uma Igreja de Deus una e visível, que seja verdadeiramente universal e enviada ao mundo inteiro, a fim de que o mundo se converta ao Evangelho e assim seja salvo, para glória de Deus» (Unitatis redintegratio, n. 1). Este caracter universal é outra nota da Igreja, denominada «Catolicidade». «Desde há séculos que a Igreja está esten­dida por todo o mundo, contando com pessoas de todas as raças e condições sociais. Mas a catolicidade da Igreja não depende dá extensão geográfica, mesmo que isto seja um sinal visível e um motivo de credibilidade. A Igreja era Católica já no Pentecostes; nasce Católica no Coração cha­gado de Jesus, como um fogo que o Espírito Santo inflama.

«No século II, os cristãos definiam como Católica a Igreja, para a distinguir das seitas que, utilizando o nome de Cristo, traíam nalgum ponto a Sua doutrina. Chamamos-lhe Católica, escreve São Cirilo, quer porque se encontra difundida por todo o orbe da Terra, dum confim ao outro, quer porque ensina de modo universal e sem defeito todos os dogmas que os homens devem conhecer, do visível e do invisível, do celestial e do terreno. Também porque submete ao recto culto todo o tipo de homens, governantes e cidadãos, doutos e ignorantes. (S. Cirilo, Catechesis, 18,23)» (Hom. Lealdade à Igreja).

Todo o cristão deve ter os mesmos sentimentos que Jesus Cristo, anelando pela unidade que Ele pede ao Pai. «Instru­mento privilegiado para a participação na busca da unidade de todos os cristãos é a oração. O próprio Jesus Cristo deixou-nos o Seu último desejo de unidade por meio de uma oração ao Pai (…).

«Também o Concilio Vaticano II nos recomendou insis­tentemente a oração em favor da unidade, defendendo-a como ‘a alma de todo o movimento ecumênico’ (Unitatis redintegratio, n. 8). Como a alma ao corpo, assim a oração dá vida, coerência, espírito, finalidade ao movimento ecumê­nico.

«A oração põe-nos, antes de mais, diante do Senhor; purifica-nos nas intenções, nos sentimentos, no nosso coração, e produz a ‘conversão interior’, sem a qual não existe verda­deiro ecumenismo (cfr Unitatis redintegratio, n. 7).

«A oração, além disso, recorda-nos que a unidade, em última análise, é um dom de Deus; dom que devemos pedir e para que nos devemos preparar para que nos seja conce­dido» (Audiência geral, João Paulo II, 17-1-1979).

22-23. Jesus tem a glória, manifestação da divindade, porque é Deus, igual ao Pai (cfr a nota a Ioh 17,1-5). Cristo, ao dizer que comunica a Sua glória, está a indicar que por meio da graça nos torna participantes da natureza divina (2 Pet 1,4). A glória e a justificação pela graça aparecem na Sagrada Escritura estreitamente unidas: «Aqueles que Deus predestinou também os chamou. E aqueles que chamou também os justificou, e aqueles que justificou também os glorificou» (Rom 8,30). A transformação pela graça consiste em que os cristãos se tornam cada vez mais semelhantes a Cristo, que é a imagem do Pai (cfr 2 Cor 4,4; Heb 1,2-3). Deste modo, Cristo, ao comunicar a Sua glória, faz que os fiéis se unam com Deus pela participação na própria vida sobrena­tural, que é a raiz da santidade dos cristãos e da Igreja: «Agora compreenderemos melhor como é que a unidade da Igreja leva à santidade, e como é que um dos aspectos capitais da sua santidade é essa unidade centrada no mistério do Deus uno e Trino: Há um só corpo e um só espírito, como também vós fostes chamados a uma só esperança pela vossa vocação. Há um só Senhor, uma só fé, um só baptismo. Há um só Deus e Pai de todos, que está acima de todos, e governa todas as coisas e habita em todos nós (Eph 4,4-6)» (Hom. Lealdade à Igreja).

24. Cristo termina esta oração pedindo a bem-aventurança para todos os cristãos. O termo que utiliza — «quero» em vez de «rogo» — exprime que está a pedir o mais impor­tante, que coincide com a Vontade do Pai, que quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade (cfr 1Tim 2,4); é, em última análise, a missão da Igreja: a salvação das almas.

Enquanto estamos na Terra participamos da vida de Deus pelo conhecimento (fé) e pelo amor (caridade); mas só no Céu conseguiremos a plenitude dessa vida sobrenatural, ao contemplar Deus tal qual é (cfr 1Ioh 3,2), face a face (cfr 1Cor 13,9-12). Por isso, a Igreja aponta para a eternidade, é escatológica; isto é, que tendo neste mundo todos os meios para ensinar a verdadeira doutrina, tributar a Deus o verdadeiro culto e comunicar a vida da graça, mantém viva a esperança na plenitude da vida eterna: «A Igreja, à qual todos somos chamados e na qual por graça de Deus alcan­çamos a santidade, só na glória celeste alcançará a sua realização plena, quando vier o tempo da restauração de todas as coisas (cfr Act 3,21) e, quando, juntamente com o gênero humano, também o universo inteiro, que ao homem está intimamente ligado, e por ele atinge o seu fim, for perfeitamente restaurado em Cristo (cfr Eph 1,10; Col 1 ,20; 2Pet 3,10-13)» (Lumen gentium, n. 48).

25-26. A revelação que Deus fez de Si mesmo por Jesus Cristo introduz-nos na participação da vida que culminará no Céu: « Só Deus pode outorgar-nos um conhecimento recto e pleno de Si mesmo, revelando-Se a Si mesmo como Pai, Filho e Espírito Santo, de cuja vida eterna somos chamados a participar pela graça aqui, na Terra, na obscuridade da fé, e, depois da morte, na luz sempiterna» (Credo do Povo de Deus, n° 9).

Para participar do amor mútuo das Pessoas divinas Cristo revelou-nos tudo o que devemos conhecer: em primeiro lugar, o mistério do Seu ser e da Sua missão e, com isso, o próprio Deus — «dei-lhes a conhecer o Teu nome» —; assim se cumpre o que tinha anunciado: «Ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho queira revelá-Lo» (Mt 11,27).

Cristo continua a dar a conhecer o amor do Pai por meio da Igreja em que Ele está sempre presente: «Sabei que Eu estou convosco todos os dias até ao fim do mundo» (Mt 28,20).

22.05.2015 – Jo 21, 15-19

15No fim do almoço, pergunta Jesus ao Simão Pedro: Simão, filho de João, amas-Me tu mais do que estes? Sim, Senhor, responde-Lhe ele. Tu sabes que Te amo! Diz-lhe Jesus: Apascenta os Meus cordeiros. 16Volta a perguntar-Lhe segunda vez: Simão, filho de João, tu amas-Me? Sim, Senhor, responde-Lhe ele. Tu sabes que Te amo. Diz-Lhe Jesus: Apascenta as Minhas ovelhas. I7Pergunta-Lhe terceira vez: Simão, filho de João, tu amas-Me? Pedro entriste­ce-se por lhe ter perguntado pela terceira vez: «Tu amas-me?» E responde-Lhe: Tu sabes tudo, Senhor, Tu bem sabes que Te amo. Diz-lhe Jesus: Apascenta as minhas ovelhas. 18Em verdade, em verdade te digo: Quando eras mais novo, tu mesmo te cingias e andavas por onde querias. Mas, quando fores velho, estenderás as tuas mãos e outro é que há-de cingir-te e levar-te para onde não queres. 19Disse-o para indicar por que morte ele havia de glorificar a Deus. Dito isto, acrescenta: Segue-Me.

Comentário

15-17. Jesus Cristo tinha prometido a Pedro o primado da Igreja (cfr Mt 16,16-19ea nota correspondente). Apesar das três negações do Apóstolo durante a Paixão, confere-lhe agora o Primado prometido. «Jesus Cristo interroga Pedro, por três vezes, como se lhe quisesse dar a oportunidade de reparar a sua tripla negação. Pedro já aprendeu, escarmentado com a sua própria miséria: está profundamente con­vencido de que são inúteis aqueles seus alardes temerários; tem consciência da sua debilidade. Por isso, põe tudo nas mãos de Cristo. Senhor, Tu sabes que eu Te amo» (Amigos de Deus, n.° 267). A entrega do Primado a Pedro foi directa e imediata. Assim o entendeu sempre a Igreja e o definiu o Concilio Vaticano I: «Ensinamos, pois, e declaramos que, segundo os testemunhos do Evangelho, o primado de juris­dição sobre a Igreja universal de Deus foi prometido e conferido imediata e directamente ao bem-aventurado Pedro por Cristo Nosso Senhor (…). Porque só a Simão Pedro conferiu Jesus depois da Sua Ressurreição a jurisdição de pastor e reitor supremo sobre todo o Seu rebanho, dizendo: ‘Apascenta os Meus cordeiros’. ‘Apascenta as Minhas ovelhas’» (Pastor aeternus, cap. 1).

O Primado é uma graça que é conferida a Pedro e aos seus sucessores os Papas; é um dos elementos fundacionais da Igreja para guardar e proteger a sua unidade: «Para que o episcopado fosse uno e indiviso e a multidão universal dos crentes se conservasse na unidade da fé e da comunhão (…) ao preferir o bem-aventurado Pedro aos outros Apóstolos, nele instituiu um princípio perpétuo de uma e de outra unidade, e um fundamento visível» (Pastor aeternus, Dz-Sch 3051; cfr Lumen gentium, n. 18). Portanto, o Primado de Pedro perpetua-se em todos e em cada um dos seus sucessores por disposição de Cristo, não por costume ou legislação humana.

Em razão do Primado, Pedro, e cada um dos seus suces­sores, é Pastor de toda a Igreja e Vigário de Cristo na terra, porque desempenha o poder vicário do próprio Cristo. O amor ao Papa, que Santa Catarina de Sena chamava «o doce Cristo na terra», deve estar coalhado de oração, sacri­fício e obediência.

18-19. Segundo a tradição, São Pedro seguiu o seu Mestre até morrer crucificado, de cabeça para baixo. « Pedro e Paulo sofreram martírio em Roma durante a perseguição de Nero aos cristãos, que teve lugar entre os anos 64 e 68. O martírio de ambos os Apóstolos é recordado por São Clemente, sucessor do próprio Pedro na Sede da Igreja Romana, que escrevendo aos Coríntios lhes propõe os exemplos gene­rosos dos dois atletas, com estas palavras: por causa dos zelos e da inveja, os que eram colunas principais e santíssimas padeceram perseguição e lutaram até à morte» (Petrum et Paulum).

«Segue-Me»: Esta palavra evocaria no Apóstolo o seu primeiro chamamento (cfr Mt 4,19) e as condições de entrega absoluta que o Senhor impõe aos Seus discípulos: « Se alguém quer vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz cada dia, e siga-Me» (Lc 9,23). O próprio São Pedro, numa das suas cartas, deixa-nos o testemunho de que a exigência Ha Cruz é necessária para todo o cristão: «Pois para isto tostes chamados, já que também Cristo padeceu por vós, dando-vos exemplo, para que sigais os Seus passos» (1Pet 2,21).

23.05.2015 – Jo 7, 37-39

37No último dia, o mais solene da festa, Jesus, que estava ali de pé, disse em voz alta: Se alguém tem sede venha até Mim, e beba 38quem acredita em Mim. Como disse a Escri­tura, fluir-Lhe-ão do seio rios de água viva. 39Ora Ele disse isto do Espírito, que deviam receber os que acreditassem n’Ele. É que o Espírito ainda não viera, por Jesus não ter sido ainda glorificado.

Comentário

37-39. Cada um dos oito dias que durava a festa dos Tabernáculos o Sumo Sacerdote dirigia-se à fonte de Siloé e, numa taça de ouro, trazia para o Templo água com a qual aspergia o altar, recordando a água que prodigiosamente manou no deserto e pedindo a Deus abundantes chuvas (cfr Ex 17,1-7). Entretanto, cantava-se um passo do profeta Isaías (cfr Is 12,3) que anunciava a vinda do Salvador e com Ele a efusão dos dons celestes; também se lia Ez 47, que fala das torrentes de água que brotarão do Templo. Jesus, que tinha presenciado este rito, rodeado sem dúvida de uma grande multidão, visto que era o dia mais solene da festa, anuncia ao povo que aquele tempo venturoso chegou: «Se alguém tem sede venha até Mim e beba…». Este convite evoca também a Sabedoria divina, que diz: «Vinde a mim os que me desejais e saciai-vos» (Eccli 24,19; cfr Prv 9,4-5). O Senhor apresenta-Se como Aquele que pode saciar o coração do homem e dar-lhe a paz (veja-se também Mt 11,28). A este propósito, exclama Santo Agostinho: «Criaste-nos, Senhor, para Ti, e o nosso coração está inquieto até que descanse em Ti» (Confissões, 1, 1,1).

Por sua vez, as palavras de Jesus que o versículo 37 con­serva suscitavam a Santo Afonso Maria de Ligório as seguintes considerações, que constituem um comovente comentário, cheio de amor pelo Nosso Salvador: «Temos em Jesus Cristo três fontes de graças. A primeira é de misericórdia, em que nos podemos purificar de todas as manchas dos nossos pecados (…). A segunda fonte é de amor: quem medita nos sofrimentos e ignomínias de Jesus Cristo por nosso amor, desde o nascimento até à morte, é impossível que não se sinta abrasado na feliz fogueira que veio acender pela terra nos corações de todos os homens (…). A terceira fonte é de paz; quem desejar a paz do coração venha a Mim, que sou o Deus da paz» (Meditações para o Advento, med. 8).

Por outro lado, Jesus ao falar dos «rios de água viva» que brotarão do Seu seio, está a referir-se provavelmente à profecia de Ez 36,25 ss., em que se anuncia que nos tempos messiânicos o povo será purificado com água pura, receberá um Espírito novo e ser-lhes-á substituído o coração de pedra por um coração de carne. Na verdade, Jesus, uma vez exaltado como corresponde à Sua condição de Filho de Deus, enviará no Pentecostes o Espírito Santo, que transformará interiormente todos os que creem n’Ele. «Por isso, a Tra­dição cristã resumiu a atitude que devemos adoptar para com o Espírito Santo num só conceito: docilidade. Sermos sensíveis àquilo que o Espírito divino promove à nossa volta e em nós mesmos: aos carismas que distribui, aos movi­mentos e instituições que suscita, aos efeitos e decisões que faz nascer nos nossos corações» (Cristo que passa, n° 130).

Que o Espírito Santo tenha vindo visivelmente no dia de Pentecostes não quer dizer que já antes não tivesse actuado: no Antigo Testamento os profetas falam movidos pelo Espírito Santo (cfr 2Pet 1,21) e são inumeráveis os passos do Novo Testamento em que está presente a Sua acção. Assim, cobre com a Sua sombra a Santíssima Virgem na Anunciação (cfr Lc 1,35); move Zacarias a apregoar as grandezas do Senhor (cfr Lc 1,67-79) e Simeão a proclamar que já tinha chegado Aquele que é a salvação de todas as gentes (cfr Lc 2,25-38).

Mas — pergunta-se Santo Agostinho —, «como entender a frase do Evangelista ‘ainda não tinha sido dado o Espírito Santo já que Jesus ainda não tinha sido glorificado’, senão no sentido de que aquela dádiva ou efusão do Espírito Santo haveria de comunicar-se no futuro, depois da glorificação de Cristo, como jamais o tinha sido antes?» (De Trinitate, 4,20). O Senhor referia-Se, portanto, à vinda do Espírito Santo depois da Sua Ascensão ao Céu, efusão que São João vê antecipada simbolicamente na transfixão, quando do lado de Cristo brota sangue e água (Ioh 19,34). Os Santos Padres consideraram neste facto o nascimento da Igreja e a força santificadora dos Sacramentos, especialmente do Baptismo e da Santíssima Eucaristia.

24.05.2015 – Jo 14, 15-16.23b-26

15Se Me amardes, guardareis os Meus mandamentos. 16E Eu pedirei ao Pai, Ele vos dará outro Assistente, para estar convosco para sempre.

Se alguém Me ama, há-de guardar a Minha palavra; Meu Pai amá-lo-á e nós viremos a ele e estabeleceremos nele habitação. 24Quem Me não ama não guarda as Minhas palavras; e a palavra que estais a ouvir não é Minha, é do Pai, que Me enviou.

25Isto tenho-vos Eu dito na Minha perma­nência entre vós. 26Mas o Assistente, o Espí­rito Santo, que o Pai vai enviar em Meu nome, é que vos há-de ensinar tudo e vos recordará tudo o que Eu vos disse.

Comentário

15. O autêntico amor há-de manifestar-se com obras. «Isto é na verdade o amor: obedecer àquele que se ama e crer nele» (Hom. sobre S. João, 74). Por isso Jesus quer fazer-nos compreender que o amor a Deus, para o ser deveras, há-de reflectir-se numa vida de entrega generosa e fiel ao cumpri­mento da Vontade divina: aquele que recebe os Seus manda­mentos e os guarda, esse é que O ama (cfr Ioh 14,21). O próprio São João exorta-nos noutro passo a que «não amemos de palavra e com a língua, mas com obras e de verdade» (l Ioh 3,18), e ensina-nos que «o amor de Deus consiste em que cumpramos os Seus mandamentos» (l Ioh 5,3).

16-17. O Senhor promete aos Apóstolos em diversas ocasiões que lhes enviará o Espírito Santo (cfr 14,26; 15,36; 16,7-14; Mt 10,20). Aqui anuncia-lhes que um fruto da Sua mediação diante do Pai será a vinda do Paráclito. O Espírito Santo, com efeito, virá sobre os discípulos depois da Ascensão do Senhor (cfr Act 2,1-13), enviado pelo Pai e pelo Filho. Aqui Jesus ao prometer que por meio d’Ele o Pai lhes enviará o Espírito Santo, está a revelar o mistério da Santíssima Trindade.

Paráclito significa etimologicamente «chamado junto a um» com o fim de o acompanhar, consolar, proteger, defen­der… Daí que o Paráclito se traduza por Consolador, Advo­gado, etc. Jesus fala do Espírito Santo como de «outro Paráclito», porque será dado aos discípulos em Seu lugar como Advogado ou Defensor que os assista, já que Ele vai subir aos Céus. Em 1Ioh 2,1 chama-se Paráclito a Jesus Cristo: «Temos Advogado diante do Pai: Jesus Cristo, o Justo». Cristo, portanto, é também nosso Advogado e Media­dor no Céu junto ao Pai (cfr Heb 7,25). O Espírito Santo cumpre agora o ofício de guiar, proteger e vivificar a Igreja, « porque, como sabemos — comenta o Papa Paulo VI —, dois são os elementos que Cristo prometeu e outorgou, ainda que diversamente, para continuar a Sua obra (…): o apostolado e o Espírito. O apostolado actua externa e objectivamente; forma o corpo, por assim dizer, material da Igreja, confere-lhe as suas estruturas visíveis e sociais; enquanto o Espírito Santo actua internamente, dentro de cada uma das pessoas, como também sobre a comunidade inteira, animando, vivificando, santificando» (Discurso abertura Vaticano II, n° 3).

O Paráclito é o nosso Consolador enquanto caminhamos neste mundo no meio de dificuldades e sob a tentação da tristeza. «Por maiores que sejam as nossas limitações, nós, homens, podemos olhar com confiança para os Céus e sen­tir-nos cheios de alegria: Deus ama-nos e liberta-nos dos nossos pecados. A presença e a acção do Espírito Santo na Igreja são o penhor e a antecipação da felicidade eterna, dessa alegria e dessa paz que Deus nos prepara» (Cristo que passa, n° 128).

25-26. Jesus expôs com clareza a Sua doutrina, mas os Apóstolos não podiam entendê-la plenamente; entendê-la-ão depois, quando receberem o Espírito Santo, o Espírito da Verdade que os guiará até à verdade completa (cfr Ioh 16,13). «Com efeito, o Espírito Santo ensinou e recordou: ensinou tudo aquilo que Cristo não tinha dito por superar as nossas forças, e recordou o que o Senhor tinha ensinado e que, quer pela obscuridade das coisas, quer pela rudeza do seu entendimento, eles não tinham podido conservar na memória» (Teofilacto, Enarratio in Evangelium Ioannis, ad loc.).

O termo que traduzimos por «recordar» inclui também a ideia de «sugerir»: o Espírito Santo trará à memória dos Apóstolos o que já tinham escutado a Jesus, mas com uma luz tal que os capacitará para descobrir a profundidade e a riqueza do que tinham visto e escutado. Assim, «os Apóstolos transmitiram aos seus ouvintes, com aquela compreensão mais plena de que eles, instruídos pelos acontecimentos gloriosos de Cristo e iluminados pelo Espírito de verdade, gozavam (cfr 2,22), as coisas que Ele tinha dito e feito» (Dei Verbum, n. 18).

«Cristo não deixou os Seus seguidores sem guia na tarefa de compreender e viver o Evangelho. Antes de voltar ao Pai prometeu enviar o Seu Espírito Santo à Igreja: ‘Mas o Paráclito, o Espírito Santo que o Pai enviará em Meu nome, Ele vos ensinará tudo e vos recordará todas as coisas que vos disse’. Este mesmo Espírito guia os sucessores dos Apóstolos, os vossos Bispos unidos ao Bispo de Roma, a quem encar­regou de manter a fé e ‘pregar o Evangelho a toda a criatura’ (Mc 16,15). Escutai a sua voz, pois vos transmite a palavra do Senhor» (João Paulo II, Homília Santuário de Knock).

Nos Evangelhos ficaram escritas, sob o carisma da inspiração divina, as recordações e a compreensão que tinham os Apóstolos, depois do Pentecostes, daquelas coisas de que tinham sido testemunhas. Por isso tais escritos sagrados «narram fielmente o que Jesus, o Filho de Deus, vivendo entre os homens, fez e ensinou realmente até ao dia da Ascensão (cfr Act 1,1-2)» (Dei Verbum, n. 11). Por isso também a Igreja tem recomendado insistentemente a leitura da Sagrada Escritura e especialmente dos Evangelhos. «Oxalá fossem tais as tuas atitudes e as tuas palavras, que todos pudessem dizer quando te vissem ou ouvissem falar: ‘Este lê a vida de Jesus Cristo» (Caminho, n° 2).

25.05.2015 – Mc 10, 17-27

17Ao sair para Se pôr a caminho, correu a Ele um que, de joelhos, Lhe perguntou: Bom Mestre, que hei-de fazer para alcançar a vida eterna? 18Respondeu-lhe Jesus: Porque Me chamas bom? Ninguém é bom senão só Deus. 19Sabes os mandamentos: Não matar, não adulterar, não roubar, não levantar falsos testemunhos, não defraudar, honrar pai e mãe.

20Mas ele respondeu-Lhe: Mestre, tudo isso tenho eu observado desde a minha mocidade.21 Jesus fitou-o com amor e disse-lhe: Uma só coisa te falta. Vai, vende quanto tens e dá-o aos pobres e terás um tesouro no Céu. Depois vem e segue-Me, tomando a cruz. 22Ouvindo ele estas palavras, anuviou-se-lhe o rosto e afastou-se triste, porque tinha muitos haveres.

23Então Jesus, volvendo em torno o olhar, disse aos discípulos: Quão dificilmente entrarão no Reino de Deus os que tem riquezas! 24Ficaram os discípulos pasmados com as Suas palavras. Mas Jesus tornou a repetir: Meus filhos, como é difícil entrarem no Reino de Deus os que confiam nas riquezas! 25É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no Reino de Deus! 26Eles mais assombrados ficaram e diziam uns para os outros: Então quem se pode salvar?27Jesus olhou para eles e disse: Aos homens é impossível, mas a Deus não; pois a Deus tudo é possível.

Comentário

17-18. O jovem — assim o especifica Mt 19,16 — recorre a Jesus como a um mestre autorizado na vida espiritual, com a esperança de que o guie para a vida eterna. Não é que Jesus Cristo rejeite o louvor de que é objecto, mas explica a causa profunda dessas palavras do jovem: Ele é bom, não como o é um homem bom, mas por ser Deus, que é a própria bondade. Portanto, o moço disse uma verdade, mas uma verdade a meias. Aí está o enigmático da resposta de Jesus e a sua profundidade absoluta. Jesus trata, portanto, de fazer re­montar o jovem desde uma consideração honesta, mas humana, a uma visão inteiramente sobrenatural. Para que este homem consiga realmente a vida eterna tem de ver em Jesus Cristo, não só um bom mestre, mas o Salvador divino, o único Mestre, o único que, como Deus, é a própria Bondade. Vid. a nota a Mt 19,16-22.

19. O Senhor não veio abolir a Lei, mas dar-lhe pleni­tude (Mt 5,17). Os mandamentos são o núcleo fundamental da Lei. O cumprimento destes preceitos é necessário para alcançar a vida eterna. Cristo dá plenitude a estes manda­mentos num duplo sentido. Primeiro, porque nos ajuda a descobrir todas as exigências que estes têm na vida dos homens. A luz da revelação leva-nos ao conhecimento fácil e seguro dos preceitos do Decálogo, que a razão humana pelas suas próprias forças muito dificilmente conseguiria alcançar. Em segundo lugar, a sua graça põe em nós a fortaleza para fazer frente à inclinação má que é fruto do pecado original. Os mandamentos conservam, pois, na vida cristã toda a sua vigência e são como os marcos que assinalam o caminho que conduz ao Céu.

21-22. O Senhor sabe que no coração daquele jovem há um fundo de generosidade, de entrega. Por isso olha-o com amor, com um amor de predilecção que leva consigo o convite a viver numa maior intimidade com Deus. Isto exige uma renúncia que o Senhor concretiza: abandonar todas as suas riquezas, para entregar o coração todo inteiro a Jesus. Deus chama todos os homens à santidade. Mas são muitos os caminhos que a ela conduzem. A cada homem toca pôr os meios para descobrir qual é, segundo a vontade de Deus, o seu concreto. O Senhor, nos Seus desígnios, semeia na alma de cada pessoa a semente da vocação, que indica o caminho peculiar pelo qual há-de chegar à meta comum da santidade.

Com efeito, se o homem não põe obstáculos, se responde com generosidade a essa semente, sente um desejo de ser melhor, de se entregar de um modo mais generoso. Como fruto desse desejo, busca, pergunta a Deus na oração, às pessoas que o possam guiar. A essa busca sincera Deus responde sempre servindo-Se de instrumentos muito va­riados. Ao homem parece-lhe que vê claro o caminho que Deus lhe assinala, mas duvida na decisão, sente-se sem fortaleza para empreender este caminho que exige sempre renúncias. São momentos de oração, de mortificação, para que triunfe a luz, o convite divino, por cima dos cálculos humanos. Porque o homem, diante da chamada de Deus, permanece sempre livre. Por isso pode responder com generosidade, ou ser cobarde, como o jovem de que nos fala o Evangelho. A falta de generosidade para seguir a própria vocação produz sempre tristeza.

21. «Na sua concisa eloqüência — assinala João Paulo II comentando este passo—, este acontecimento profunda­mente penetrante exprime uma grande lição em poucas palavras: toca problemas substanciais e questões de fundo que não perderam, de modo algum, a sua importância. Em toda a parte os jovens se propõem problemas impor­tantes: problemas sobre o significado da vida, sobre o modo recto de viver, sobre a verdadeira escala de valores: ‘Que hei-de fazer? Que hei-de fazer para conseguir a vida eterna?’ (…) Por isto vos digo a cada um de vós: escutai o chamamento de Cristo quando sentis que vos diz: ‘Segue-Me’. Caminha sobre os Meus passos. Vem ao Meu lado! Permanece no Meu amor! É uma opção que se faz: a opção por Cristo e pelo Seu modelo de vida, pelo Seu mandamento de amor!

«A mensagem de amor que Cristo traz é sempre impor­tante, sempre interessante. Não é difícil de ver como o mundo de hoje, apesar da sua beleza e grandeza, apesar das conquistas da ciência e da tecnologia, apesar dos refinados e abundantes bens materiais que oferece, está ávido de mais verdade, de mais amor, de mais alegria. E tudo isto se encontra em Cristo e no Seu modelo de vida (…). Diante destes problemas e destas desilusões, muitos tratarão de fugir das próprias responsabilidades, refugiando-se no egoísmo, nos prazeres sexuais, na droga, na violência, no indiferentismo ou numa atitude de cinismo. Mas hoje eu pro­ponho-vos a opção do amor, que é o contrário da fuga. Se vós aceitais realmente este amor que vem de Cristo, este conduzir-vos-á a Deus. Talvez no sacerdócio ou na vida religiosa; talvez em algum serviço especial que presteis a vossos irmãos e irmãs, especialmente aos necessitados, aos pobres, a quem se sente só, aos marginalizados, àqueles cujos direitos foram conculcados, àqueles cujas exigências fundamentais não foram satisfeitas. Qualquer coisa que façais da vossa vida, fazei que seja um reflexo do amor de Cristo» (Homília Boston Common).

22. «A tristeza deste jovem leva-nos a reflectir. Pode­remos ter a tentação de pensar que possuir muitas coisas, muitos bens deste mundo, pode fazer-nos felizes. Pelo contrário, vemos no caso do jovem do Evangelho que as muitas riquezas se converteram em obstáculo para aceitar o chamamento de Jesus a segui-Lo. Não estava disposto a dizer sim a Jesus, e não a si mesmo, a dizer sim ao amor, e não à fuga! O amor verdadeiro é exigente. Não cumpriria a minha missão se não vo-lo tivesse dito com toda a clareza. Porque foi Jesus — o nosso próprio Jesus — quem disse: ‘Vós sois Meus amigos se fizerdes o que vos mando’ (Ioh 15,14). O amor exige esforço e compromisso pessoal para cumprir a vontade de Deus. Significa disciplina e sacrifício, mas significa também alegria e realização humana. Queridos jovens, não tenhais medo a um esforço honesto e a um trabalho honesto; não tenhais medo à verdade. Com a ajuda de Cristo e através da oração, vós podeis responder ao Seu chamamento, resistindo às tentações, aos entusiasmos pas­sageiros e a toda a forma de manipulação de massas. Abri os vossos corações a este Cristo do Evangelho, ao Seu amor, à Sua verdade, à Sua alegria. Não vos vades tristes! (…).

«Segui a Cristo! Vós, esposos, tornai-vos participantes reciprocamente, do vosso amor e das vossas cargas, respeitai a dignidade humana do vosso cônjuge; aceitai com alegria a vida que Deus vos confia; tornai estável e seguro o vosso matrimônio por amor aos vossos filhos.

«Segui a Cristo! Vós, ainda solteiros, ou que vos estais a preparar para o matrimônio, segui a Cristo! Vós, jovens ou velhos, segui a Cristo! Vós, doentes ou anciãos; vós, os que sofreis ou estais aflitos; os que notais a necessidade de cuidados, a necessidade de amor, a necessidade de um amigo: segui a Cristo!

«Em nome de Cristo estendo a todos vós o chamamento, o convite, a vocação: Vem e segue-Me!» (Homília Boston Common).

23-27. O comportamento do jovem rico dá ocasião a Nosso Senhor para expor uma vez mais a doutrina sobre o uso dos bens materiais. Não os condena por si mesmos; são meios que Deus pôs à disposição do homem para o seu desenvolvimento em sociedade com os outros. O apego indevido a eles é o que faz que se convertam em ocasião pecaminosa. O pecado consiste em «confiar» neles, como solução única da vida, voltando as costas à divina Provi­dência. Idolatria chama São Paulo à avareza (Col 3,5). Cristo exclui do Reino de Deus a quem cai nesse apego às riquezas, constituindo-as em centro da sua vida. Ou melhor dito, ele mesmo se exclui.

As riquezas podem seduzir tanto aqueles que já dispõem delas, como aqueles que desejam ardentemente dispor. Por isso há — paradoxalmente — pobres ricos e ricos pobres. Como a inclinação para o apego ou para a confiança nas riquezas é universal, os discípulos desconfiam da salvação: «Então, quem se pode salvar?». Com meios humanos, impossível. Com a graça de Deus, tudo é possível. Cfr a nota a Mt 6,11.

Por outro lado, não pôr a confiança nas riquezas supõe que o que tem bens neste mundo deve empregá-los a ajudar os mais necessitados. Isso exige «muita generosidade, inume­ráveis sacrifícios e um esforço sem descanso. A cada um toca examinar a sua consciência, que tem uma nova voz para a nossa época. Está disposto a sustentar com o seu dinheiro as obras e as empresas organizadas a favor dos mais pobres? A pagar mais impostos para que os poderes públicos inten­sifiquem o seu esforço para o desenvolvimento?» (Populorum progressio, n. 47).

26.05.2015 – Mc 10, 28-31

28Começou Pedro a dizer-Lhe: Nós deixamos tudo e seguimos-Te. 29E Jesus: Em verdade vos digo que não há ninguém que tenha deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos ou campos por Minha causa e por causa do Evangelho, 30que não receba o cêntuplo já no tempo presente, em casas, irmãos, irmãs, mães, pais, filhos e campos, juntamente com perseguições, e no século futuro a vida eterna.31 Mui tos, porém, dos primeiros serão últimos, e os últimos primeiros.

Comentário

28-30. Jesus Cristo exige a virtude da pobreza a todo o cristão; também exige a austeridade real e efectiva na posse e uso dos bens materiais. Mas aos que receberam um chamamento específico para o apostolado — como é aqui o caso dos Doze—, exige um desprendimento absoluto de bens. riquezas, tempo, família, etc., em razão da sua disponibilidade para o serviço apostólico, à imitação de Jesus Cristo que, sendo o Senhor de todo o universo, Se fez pobre até não ter onde reclinar a cabeça (cfr Mt 8,20). A entrega de todos esses bens pelo Reino dos Céus, traz consigo a libertação do peso deles: é como o soldado que se despoja de um impedimento ao entrar em combate para estar mais ágil de movimentos. Isto produz um certo domínio sobre todas as coisas: já se não é escravo delas e experimenta-se aquela sensação a que aludia São Paulo: «como nada tendo, mas possuindo tudo» (2 Cor 6,10). O cristão que dessa maneira se despojou do egoísmo, adquiriu a caridade, e com ela todas as coisas são suas: «Tudo é vosso, vós sois de Cristo e Cristo de Deus» (1Cor 3,22-23).

Todavia, o prêmio de tudo pôr em Cristo, não será recebido plenamente só na vida eterna, mas já nesta vida. Jesus Cristo fala de uma maneira simples do cem por um, que já receberá aqui quem abandone generosamente as suas coisas.

O Senhor acrescenta «com perseguições» (v. 30), porque estas também são recompensa da fé com que abandonamos as coisas por amor de Jesus Cristo; pois a glória de um cristão é a de se conformar com a imagem do Filho de Deus, tomando parte na Sua Cruz para participar depois da Sua glória: «Desde que padeçamos com Ele, para sermos com Ele também glorificados» (Rom 8,17); «porque todos os que querem viver com piedadeem Cristo Jesusterão de sofrer perseguições» (2 Tim 3,12).

29. Estas palavras do Senhor cumprem-se especial­mente naqueles que por vocação divina abraçam o celibato, renunciando a constituir uma família na terra. Jesus, ao dizer «por Minha causa e por causa do Evangelho», está a indicar que o Seu exemplo e as exigências da Sua doutrina dão pleno sentido a este modo de vida: « É, pois, o mistério da novidade de Cristo, de tudo o que Ele é e significa; é a suma dos mais altos ideais do Evangelho e do Reino; é uma manifestação especial da graça que brota do mistério pascal do Redentor, que torna desejável e digna a escolha da virgindade por parte dos chamados pelo Senhor Jesus, com a intenção não só de participar do Seu ofício sacerdotal, mas também de compartilhar com Ele o Seu próprio estado de vida» (Sacerdotalis caelibatus, n. 23).

27.05.2015 – Mc 10, 32-45

32Entretanto iam de caminho subindo para Jerusalém. Jesus ia diante deles, do que eles se assombravam, e os outros que O seguiam tinham medo. Tomando, de novo, consigo, os doze, começou a declarar-lhes o que Lhe havia de acontecer: “Olhai: Subimos a Jeru­salém e o Filho do homem vai ser entregue aos Príncipes dos sacerdotes e aos Escribas, e eles condená-Lo-ão à morte e entregá-Lo-ão aos gentios, 34que O hão-de escarnecer, cuspir, flagelar e matar; mas depois de três dias ressuscitará.

35Nisto acercam-se d’Ele Tiago e João e dizem-Lhe: Mestre, queremos que nos faças tudo o que Te pedirmos. 36Disse-lhes Ele: Que quereis que vos faça? 37Responderam-Lhe: Concede-nos que nos assentemos um à Tua direita e outro à Tua esquerda, na Tua glória. 38Mas Jesus disse-lhes: Não sabeis o que pedis. Podeis beber o cálice que Eu bebo? Ou ser baptizados com o baptismo com que estou para ser baptizado? 39Podemos — responderam eles. E Jesus: O cálice que Eu bebo, bebê-lo-eis, e no baptismo com que Eu sou baptizado, sereis baptizados também vós. 40Mas o sentar-se à Minha direita ou à Minha esquerda, não Me toca a Mim concedê-lo: é para aqueles para quem está preparado.

41Ao ouvirem isto, os dez começaram a indignar-se com Tiago e João. 42Jesus, porém, chamou-os e disse-lhes: Sabeis que os que são reconhecidos por soberanos das nações as tratam como senhores, e os seus grandes lhes fazem sentir o seu poder. 43Mas entre vós não é assim; pelo contrário, o que entre vós quiser ser grande faça-se vosso servo; 44e quem quiser entre vós ser o primeiro faça-se escravo de todos: 45porque o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a Sua vida em redenção por muitos.

Comentário

32. Jesus caminhava para Jerusalém com o desejo ardente de que se cumprisse n’Ele tudo o predito acerca da Sua Paixão e Morte. Já tinha anunciado aos Seus discípulos que subia para padecer; por isso não compreendiam a atitude do Senhor. Jesus Cristo ensina-nos na Sua vida a carregar amorosamente com a cruz, sem lhe fugir, sem a escamotear, excedendo-nos, abraçando-a sem medo.

35-44. É admirável a humildade dos Apóstolos que não dissimularam os seus momentos anteriores de fraqueza e de miséria, mas as contaram com sinceridade aos primeiros cristãos. Deus quis também que no Santo Evangelho ficasse notícia histórica daquelas primeiras debilidades dos que iam ser colunas inamovíveis da Igreja. São as maravilhas que opera nas almas a graça de Deus. Nunca deveremos ser pessimistas ao considerar as nossas próprias misérias: «Tudo posso n’Aquele que me conforta» (Phil 4,13).

38. Quando pedimos algo na oração devemos estar dispostos a aceitar, por cima de tudo, a vontade de Deus, ainda que não coincida com os nossos desejos: «Sua Majes­tade sabe melhor o que nos convém; não temos que aconselhá-Lo sobre o que nos há-de dar, pois pode com razão dizer-nos que não sabemos o que pedimos» (Moradas, II, 8).

43-45. O exemplo e as palavras do Senhor são como um impulso para que todos sintamos a obrigação de viver o autêntico espírito de serviço cristão. Só o Filho de Deus que desceu do Céu e Se submeteu voluntariamente às humi­lhações (Belém, Nazaré, o Calvário, a Hóstia Santíssima), pode pedir ao homem que se faça o último, se quer ser o primeiro.

A Igreja ao longo da história continua a missão de Cristo ao serviço dos homens: «Com a experiência que tem da humanidade, a Igreja, sem pretender de maneira alguma misturar-se na política dos Estados, ‘só deseja uma coisa: continuar, sob a direcção do Espírito Consolador, a obra de Cristo que veio ao mundo para dar testemunho da verdade, para salvar e não para julgar, para servir e não para ser servido’ «(…) (Gaudium et spes, n. 3). Tomando parte nas melhores aspirações dos homens e sofrendo ao não os ver satisfeitos, deseja ajudá-los a conseguir o seu pleno desenvolvimento, e isto precisamente porque ela lhes propõe o que ela possui como próprio: uma visão global do homem e da humanidade» (Populorum progressio, n. 13).

A nossa atitude há-de ser a do Senhor: servir a Deus e aos outros com visão nitidamente sobrenatural, sem esperar nada em troca do nosso serviço; servir inclusivamente ao que não agradece o serviço que lhe é prestado. Esta atitude cristã chocará sem dúvida com os critérios humanos. Não obstante, o «orgulho» do cristão, identificado com Cristo, consistirá precisamente em servir. Aoservir os outros, o cristão participa da missão de Cristo e alcança assim a sua verdadeira dignidade: « Esta dignidade exprime-se na dispo­nibilidade para servir, segundo o exemplo de Cristo, o qual ‘não veio para ser servido, mas para servir’. Se, portanto, à luz da atitude de Cristo, se pode verdadeiramente ‘reinar’ somente ‘servindo’, ao mesmo tempo este ‘servir’ exige uma tal maturidade espiritual, que se tem de defini-la preci­samente como ‘reinar’. Para se poder servir os outros digna e eficazmente, é necessário saber dominar-se a si mesmo, é preciso possuir as virtudes que tornam possível um tal domínio» (Redemptor hominis, n. 21). Cfr a nota a Mt 20,27-28.

28.05.2015 – Mc 10, 46-52

46Chegam a Jerico. E, ao partirem de Jerico Ele e os discípulos e uma grande multidão, estava Bartimeu, filho de Timeu, cego e men­digo, sentado à beira da estrada. 47Ouvindo que era Jesus de Nazaré, começou a gritar: Filho de David, Jesus, tem compaixão de mim. 48Muitos increpavam-no para que se calasse. Mas ele gritava muito mais: Filho de David, tem compaixão de mim. 49Parou Jesus e disse-lhe: Chamai-o. Chamam o cego e dizem-lhe: Ânimo! Levanta-te, que te chama. 50Ele, lançando para o lado o manto, levantou-se; de um salto e veio ter com Jesus. 51E Jesus perguntou-lhe: Que queres que te faça? Res­pondeu-Lhe o cego: Raboni, que eu veja. 52E Jesus: Vai! A tua fé te salvou. E logo recuperou a vista e O seguia na viagem.

Comentário

46-52. «Ouvindo aquele grande vozear das pessoas, o cego perguntou: o que é isto? Responderam-lhe: é Jesus de Nazaré. Então inflamou-se-lhe tanto a alma na fé em Cristo, que gritou: Jesus, Filho de David, tem piedade de mim.

«Não te dá vontade de gritar, a ti que também estás parado na beira do .caminho, desse caminho da vida que é tão curta; a ti, a quem faltam luzes; a ti, que necessitas de mais graça para te decidires a procurar a santidade? Não sentes urgência em clamar: Jesus, Filho de David, tem piedade de mim? Que bela jaculatória para repetires com freqüência! (…).

«Muitos repreendiam-no para o fazer calar. Tal como a ti quando suspeitaste de que Jesus passava a teu lado. Acelerou-se o bater do teu coração e começaste também a clamar movido por uma íntima inquietação. E amigos, costumes comodidade, ambiente, todos te aconselharam: cala-te, não grites! Porque é que hás-de chamar por Jesus? Não C incomodes!

« Mas o pobre Bartimeu não os ouvia e continuava ainda com mais força: Filho de David, tem piedade de mim O Senhor, que o ouviu desde o começo, deixou-o persevera na sua oração. Contigo, procede da mesma maneira. Jesus apercebe-Se do primeiro apelo da nossa alma, mas espera. Quer que nos convençamos de que precisamos d ‘Ele: quer que Lhe roguemos, que sejamos teimosos, como aquele cego que estava à beira do caminho, à saída de Jerico. Imite­mo-lo. Ainda que Deus não nos conceda imediatamente o que Lhe pedimos e, apesar de muitos procurarem afastar-nos da oração, não cessemos de Lhe implorar (Hom. sobre S. Mateus, 66).

«Jesus, parando, mandou chamá-lo. E alguns dos melhores que O rodeiam, dirigem-se ao cego: Tem confiança; levan­ta-te; Ele chama-te. E a vocação cristã! Mas, na vida de cada um de nós, não há apenas um chamamento de Deus. O Senhor procura-nos a todo o instante: levanta-te — diz-nos — e sai da tua preguiça, do teu comodismo, dos teus pequenos egoísmos, dos teus problemazinhos sem impor­tância. Desapega-te da terra; estás aí rasteiro, achatado e informe. Ganha altura, peso, volume e visão sobrenatural.

«Aquele homem, deitando fora a capa, levantou-se de um salto e foi ter com Jesus. Atirou a capa! Não sei se estiveste alguma vez na guerra. Há já muitos anos, tive ocasião de andar por um campo de batalha, algumas horas depois de ter acabado a luta. Lá havia, abandonados pelo chão, mantas, cantis e mochilas cheias de recordações de família: cartas, fotografias de pessoas queridas… E não pertenciam aos derrotados, mas aos vitoriosos! Tudo aquilo lhes sobrava para correrem mais depressa e saltarem as trincheiras do inimigo. Tal como acontecia com Bartimeu, para correr atrás de Cristo.

«Não te esqueças de que, para chegar até Cristo, é preciso o sacrifício. Deitar fora tudo o que estorva: manta, mochila, cantil. Tens de proceder da mesma maneira nesta luta pela glória de Deus, nesta luta de amor e paz, com que procuramos difundir o reinado de Cristo. Para servires a Igreja, o Romano Pontífice e as almas, deves estar disposto a renun­ciar a tudo o que sobeja (…).

«E imediatamente começa um diálogo divino, um diá­logo maravilhoso, que abrasa, porque tu e eu somos agora Bartimeu. Da boca divina de Cristo sai uma pergunta: quid tibi vis fadam? Que queres que te faça? E o cego: Mestre, faz que eu veja. Que coisa mais lógica! E tu, vês? Não te aconteceu já, alguma vez, o mesmo que a esse cego de Jerico? Não posso agora deixar de recordar que, ao meditar neste passo há já muitos anos e ao compreender então que Jesus esperava alguma coisa de mim — algo que eu não sabia o que era! — compus para mim, umas jaculatórias: Senhor, que queres? Que me pedes? Pressentia que me procurava para uma realidade nova e o Rabboni, ut videam — Mestre, que eu veja — levou-me a suplicar a Cristo, numa oração contínua: Senhor, que se faça isso que Tu queres.

«Rezai comigo ao Senhor: doce me facere voluntatem tuam, quia Deus meus es tu, ensina-me a cumprir a Tua vontade, porque Tu és o meu Deus.-Por outras palavras: que brote dos nossos lábios o afã sincero por corresponder, com um desejo eficaz, aos convites do nosso Criador, procurando seguir os Seus desígnios com uma fé inquebrantável, com a convicção de que Ele não pode falhar (…).

«Mas voltemos à cena que se desenrola à saída de Jerico. Agora é contigo que Cristo fala. Diz-te: que queres de Mim? Que eu veja, Senhor, que eu veja! E Jesus: Vai, a tua fé te salvou. Nesse mesmo instante, começou a ver e seguia-O pelo caminho. Segui-Lo pelo caminho. Tu tomaste conhecimento do que o Senhor te propunha e decidiste acompanhá-lo pelo caminho. Tu procuras seguir os Seus passos, vestir-te com as vestes de Cristo, ser o próprio Cristo: portanto, a tua fé — fé nessa luz que o Senhor te vai dando — deverá ser operativa e sacrificada. Não te iludas, não penses em descobrir novas formas. É assim a fé que Ele nos pede: temos de andar ao Seu ritmo com obras cheias de generosidade, arrancando e abandonando tudo o que seja estorvo» (Amigos de Deus, n.195-198).

29.05.2015 – Mc 11, 11-26

11E entrou em Jerusalém, no Templo; e, depois de ter observado tudo, como era já tarde, saiu para Betânia com os doze.

12No dia seguinte, ao saírem de Betânia, sentiu fome. 13E, vendo ao longe uma figueira coberta de folhas, aproximou-se para ver se encontrava nela alguma coisa, mas, ao chegar junto dela, não encontrou senão folhas, porque não era tempo de figos. 14Tomando então a palavra, disse-lhe: Nunca mais alguém de ti coma fruto! Os discípulos ouviam.

15Chegaram a Jerusalém; e, tendo entrado no Templo, começou a expulsar os que aí vendiam e compravam; derribou as mesas dos cambistas e os bancos dos que vendiam as pombas, 16e não permitia que ninguém levasse nenhum objecto através do Templo. 17E ensinava-os, dizendo: Não está escrito que a Minha casa será chamada casa de oração para todos os povos? Vós, porém, fizestes dela uma caverna de ladrões.

18Ouviram isto os Príncipes dos sacerdotes e os Escribas e procuravam modo de O matar, pois tinham medo d’Ele, porque todo o povo estava maravilhado da Sua doutrina. 19Ao cair da tarde saíram para fora da cidade.

20Na manhã seguinte, ao passarem por ali, repararam que a figueira estava seca até à raiz. 21E Pedro, lembrando-se, disse-Lhe: Mestre, olha, a figueira que amaldiçoaste está seca.22Respondeu-lhes Jesus: Tende fé em Deus. 23Em verdade vos digo que quem disser a este monte: «tira-te e lança-te ao mar» e não vacilarem seu coração, mas crer que o que diz se fará, ser-lhe-á concedido. 24Por isso Eu vos digo que tudo o que pedirdes na oração, crede que o recebestes, e assim será. 25E, quando vos puserdes a orar, se tendes alguma coisa contra alguém, per­doai-lhe, para que também vosso Pai que está nos Céus vos perdoe as vossas ofensas.26

Comentário

12. A fome de Jesus é um sinal entre tantos outros, da Sua verdadeira Humanidade santíssima. Devemos contemplar Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, muito próximo de nós. A fome do Senhor indica-nos que Ele entende perfeitamente e participou das nossas necessidades e limitações. «Generosidade do Senhor que Se humilhou, que aceitou plenamente a condição humana, que não Se serve do Seu poder divino para fugir das dificuldades ou do esforço! E assim nos ensina a ser fortes, a amar o trabalho, a apreciar a nobreza humana e divina de saborear as conseqüências da entrega, da doação» (Cristo que passa, n.° 61).

13-14. Não há dúvida que Jesus sabia que não era tempo de figos; portanto, é claro que não pretendia comê-los, mas esta acção tem um significado mais profundo. Os Santos Padres, cujo sentir recolhe São Beda no seu comen­tário à perícopa, ensinam-nos que o milagre de Jesus tem uma intenção alegórica: Jesus tinha vindo aos Seus, ao povo judaico, com fome de encontrar frutos de santidade e de boas obras, mas não encontrou senão as práticas exte­riores, que, por não terem o correspondente fruto, ficavam reduzidas a mero folhedo. Do mesmo modo Jesus, ao entrar no Templo lançará à cara dos ali presentes que o Templo de Deus, que é casa de oração — fruto da autêntica piedade —, foi convertido por eles em lugar de mercado — folhedo externo e sem valor —. «Também tu — conclui São Beda — se não queres ser condenado por Cristo, deves procurar evitar ser árvore estéril, para poder oferecer a Jesus, que Se fez pobre, o fruto de piedade de que necessita» (In Marci Evangelium expositio, ad loc.).

Deus quer que existam o fruto e as folhas; quando, por falta de rectidão de intenção, só há folhas, o que se vê, a aparência, podemos temer que ali não exista senão uma obra puramente humana, sem relevo sobrenatural, conse­qüência da ambição, da soberba, e do afã de figurar.

«Temos de trabalhar muito na terra e temos de trabalhar bem, porque essa ocupação corrente é a que devemos santificar. Mas nunca nos esqueçamos de a realizar por Deus. Se trabalhássemos por nós mesmos, isto é, por orgulho, só conseguiríamos produzir folhas e nem Deus nem os homens poderiam saborear, numa árvore tão frondosa, a doçura dos frutos» (Amigos de Deus, n.° 202). Vid. também a nota aos vv. 20-26.

15-18. O Senhor não transige com um comportamento com falta de fé e de piedade nas coisas que se referem ao culto de Deus. Se Jesus Se comportou assim no que diz respeito ao Templo da Antiga Lei, que não haveremos de fazer nós relativamente ao Templo cristão, em que Ele está real e verdadeiramente presente na Santíssima Eucaristia!: «Há uma urbanidade da piedade. — Aprende-a. — Dão pena esses homens «piedosos», que não sabem assistir à Missa — ainda /que a ouçam diariamente — nem benzer-se (fazem uns estranhos trejeitos, cheios de precipitação), nem dobrar o joelho diante do Sacrário (as suas genuflexões ridículas parecem um escárnio), nem inclinar reverentemente a cabeça diante de uma imagem da Senhora» (Caminho n.° 541). Cfr a nota a Mt 21,12-13.

20-25. Diante da figueira seca, Jesus fala-nos do poder da oração. Para que esta seja eficaz requere-se fé e confiança absoluta: «Fé viva e penetrante. Como a fé de Pedro. — Quando a tiveres, disse-o Ele, afastarás os montes, os obstáculos, humanamente insuperáveis, que se oponham aos teus empreendimentos de apóstolo» (Caminho, n.° 489).

Para que a oração seja eficaz também é necessário o amor que perdoa ao próximo; assim o nosso Pai Deus nos perdoará também a nós. Já que todos somos pecadores é necessário que o reconheçamos diante de Deus e Lhe pecamos perdão (cfr Lc 18,9-14). Quando Cristo nos ensinou a orar exigiu estas disposições prévias (cfr Mt 6,12; cfr também Mt 5,23 e as notas correspondentes). Assim o explica Teofilacto (Enarratio in Evangelium Marci, ad loc.): «Quando orardes, per­doai sé tendes alguma coisa contra alguém, para que o vosso Pai que está nos Céus, vos perdoe os vossos pecados… Quem crê com grande afecto, eleva plenamente o seu coração para Deus e, usando palavras de David, abre a sua alma diante de Deus. Quem dilata o seu coração diante de Deus une-se com Ele e o seu coração ardente adquire uma maior certeza de alcançar o que deseja».

Inclusivamente estando em pecado, o primeiro que deve fazer o homem é recorrer a Deus na oração. Por isso, Jesus não põe limite algum: «Qualquer que diga…». Por conseguinte, a nossa indignidade pessoal não deve ser desculpai para deixar de recorrer ao nosso Pai Deus com uma oração confiante. O facto de Deus conhecer as nossas necessidades também não pode ser pretexto para não nos dirigirmos á Ele. Santa Teresa exclamava assim na sua oração: «Oh Senhor meu!, porventura será melhor estar calada com minhas necessidades à espera de que Vós as remedieis? Não, certamente; que Vós, Senhor meu e deleite meu, sabendo as muitas que tinham de ser e o alívio que para nós é con­tá-las a Vós, dizeis que Vos pecamos e que não deixareis de dar» (Exclamações, 5). Cfr as notas a Mt 6,5-6 e a Mt 7,7-11.

26. Muitos manuscritos antigos acrescentam o v. 26; mas é claro que se trata de uma adição, tomada literalmente de Mt 6,15. Essa adição foi recolhida pelos editores da antiga Vulgata Sixto-Clementina.

30.05.2015 – Mc 11, 27-33

27Chegam outra vez a Jerusalém; e, andando Ele a passear no Templo, vêm ter com Ele os Príncipes dos sacerdotes e os Escribas e os Anciãos 28e dizem-Lhe: Com que autoridade fazes estas coisas? Ou quem Te deu a autoridade para Fazeres isto? 29Mas Jesus disse-lhes: Far-vos-ei só uma pergunta. Respon­dei-Me e dir-vos-ei com que autoridade faço estas coisas. 30O baptismo de João era do Céu, ou dos homens? Respondei-Me. 31Eles discorriam entre si e diziam: Se dissermos que do Céu, dirá: «Então porque não crestes nele?» 32Diremos antes: «Dos homens…». Mas temiam o povo, porque todos estavam convencidos que João era realmente profeta. 33Responderam, pois, a Jesus: Não sabemos. E Jesus disse-lhes: Nem Eu vos digo com que autoridade faço estas coisas.

Comentário

27-33. Os que interrogam o Senhor são os mesmos que, dias antes, buscavam o modo de O perder (cfr Mc 11,18). Neles está representado o judaísmo oficial da época (cfr a nota a Mt 2,4). Jesus tinha dado já provas e sinais do seu messianismo por meio dos milagres e da Sua doutrina ao longo do ministério público. Além disso. São João Baptista tinha cumprido a sua missão de dar testemunho acerca de Jesus. Por esta causa, antes de dar a resposta, Nosso Senhor exige-lhes que reconheçam a verdade proclamada pelo Precursor. Mas eles não querem aceitar a verdade, nem tão-pouco opor-se publicamente a ela por temor do povo. Diante desse comportamento que não quer rectificar era inútil qualquer explicação de Jesus.

Este episódio é exemplar para muitos outros que acon­tecem na vida: quem intente pedir contas a Deus ficará con­fundido.

31.05.2015 – Mt 28, 16-20

16Os onze discípulos partiram para a Galileia, para o monte que Jesus lhes tinha e mandato designado. 17Ao verem-No, adoraram-No, mas houve alguns que duvidaram. 18Aproximou-Se Jesus e falou-lhes nestes termos: Foi-Me dado todo o poder no Céu e na Terra . 19lde, pois, doutrinai todas as gentes, baptizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, 20e ensinando-as a observar tudo o que vos mandei. Sabei que Eu estou convosco todos os dias até à consumação dos séculos.

Comentário

16-20. Este breve passo, com que se encerra o Evangelho segundo São Mateus, é de extraordinária importância. Os discípulos vendo o Ressuscitado adoram-nO, prostram-se diante d’Ele como diante de Deus. A sua atitude parece indicar que enfim são conscientes do que já, muito antes, tinham no coração e unham confessado: que o Seu Mestre era o Messias, o Filho de Deus (cfr Mt 16, 18; Ioh 1, 49). Apodera-se deles o assombro e a alegria diante da maravilha que os seus olhos contemplam, que parece quase impossível, se não o estivessem a ver. Mas era realidade, e o pasmo deixou passagem à adoração. O Mestre fala-lhes com a majestade própria de Deus: «Foi-Me dado todo o poder no Céu e na Terra». A Omnipotência, atributo exclusivo de Deus, é também atributo Seu: está a confirmar a fé dos que O adoram. E, ao mesmo tempo, ensina que o poder que eles vão receber para realizar a Sua missão universal, deriva do próprio poder divino.

Recordemos diante destas palavras de Cristo que a autoridade da Igreja, em ordem à salvação dos homens, vem de Jesus Cristo directamente, e que esta autoridade, nas coisas de fé e de moral, está por cima de qualquer outra da terra.

Os Apóstolos ali presentes, e depois deles os seus legítimos sucessores, recebem o mandato de ensinar a todas as gentes a doutrina de Jesus Cristo: o que Ele próprio tinha ensinado com as Suas obras e as Suas palavras, o único caminho que conduz a Deus. A Igreja, e nela todos os fiéis cristãos, têm o dever de anunciar, até ao fim dos tempos, com o seu exemplo e com a sua palavra, a fé que receberam. De modo especial recebem esta missão os sucessores dos Apóstolos, pois neles recai o poder de ensinar com autoridade, «já que Cristo ressuscitado antes de voltar ao Pai (…) lhes confiava deste modo a missão e o poder de anunciar aos homens o que eles próprios tinham ouvido, visto com os seus olhos, contemplado e palpado com as suas mãos, acerca do Verbo da vida (1Ioh 1, 1). Ao mesmo tempo confiava-lhes a missão e o poder de explicar com autoridade o que Ele lhes tinha ensinado, as Suas palavras e os Seus actos, os Seus sinais e os Seus manda­mentos. E dava-lhes o Espírito para cumprir esta missão» (Catechesi tradendae, n., 1). Portanto, os ensinamentos do Papa e dos Bispos unidos a ele, devem ser recebidos sempre por todos com assentimento e obediência.

Também comunica ali Cristo aos Apóstolos e aos seus sucessores o poder de baptizar, isto é, de admitir os homens na Igreja, abrindo-lhes o caminho da sua salvação pessoal.

A missão que, em última análise, recebe a Igreja neste fim do Evangelho de São Mateus, é a de continuar para sempre a obra de Cristo: ensinar aos homens as verdades acerca de Deus e a exigência de que se identifiquem com essas verdades, ajudando-os sem cessar com a graça dos sacra­mentos. Uma missão que durará até ao fim dos tempos e que, para a levar a cabo, o próprio Cristo Glorioso promete acompanhar a Sua Igreja e não a abandonar. Quando na Sagrada Escritura se afirma que Deus está com alguém, quer-se dizer que este terá êxito nas suas empresas. Daí que a Igreja, com a ajuda e a assistência do seu Fundador Divino, está segura de poder cumprir indefectivelmente a sua missão até ao fim dos séculos.