Evangelho do dia – mês de junho de 2016

Junho de 2016

01.06.2016 – Mc 12, 18-27

18Vêm depois ter com Ele os Saduceus, que negam a ressurreição, e perguntam-Lhe: 19Mestre, Moisés prescreveu-nos que, se morrer um irmão, deixando a mulher sem filho nenhum, o irmão dele tome essa mulher e suscite descendência ao irmão. 20Havia sete irmãos: o primeiro casou e, morrendo, não deixou descendência. 21O segundo casou com a viúva e morreu sem deixar descen­dência. Do mesmo modo, o terceiro; 22e assim os sete não deixaram descendência. Por fim, morreu também a mulher. 23Na ressurreição, quando ressuscitarem, de qual deles será ela mulher, pois os sete a tiveram por mulher? 24Disse-lhes Jesus: Não vedes que por isso errais, porque não compreendeis as Escrituras nem o poder de Deus? 25Quando os mortos ressuscitarem, nem eles nem elas se casam, mas são como Anjos no Céu. 26E, a propósito da ressurreição dos mortos, não lestes no livro de Moisés, no passo da sarça, como Deus lhe falou, dizendo: Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac, o Deus de Jacob? 27Não é Deus de mortos, mas de vivos. Andais muito errados.

Comentário

18-27. Jesus, antes de responder à dificuldade proposta pelos saduceus, quer assinalar a raiz donde procede: a tendência do homem a reduzir a grandeza divina aos limites humanos, uma excessiva confiança na razão, menosprezando a doutrina revelada e o poder de Deus. Alguém pode ter dificuldades diante das verdades da fé e isto não pode causar estranheza, pois essas verdades superam a razão. Mas é ridículo tratar de buscar contradições na palavra revelada: esse é o caminho para não resolver as dificuldades e para se extraviar definitivamente. Da Sagrada Escritura e, em geral, das coisas de Deus uma pessoa deve aproximar-se com a humildade que a fé exige. Precisamente na passagem da sarça ardente, que Jesus cita perante os saduceus, Deus disse a Moisés:«Descalça-te, que a terra que estás a pisar é sagrada» (Ex 3, 5).

02.06.2016 – Mc 12, 28b-34

Qual é o primeiro de todos os mandamentos? 29O primeiro — respondeu Jesus — é: Ouve Israel: O Senhor nosso Deus é o único Senhor30e ama o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e de todas as tuas forças. 31O segundo é: Ama o teu próximo como a ti mesmo. Não há nenhum mandamento maior que estes. 32Disse-Lhe o escriba: Mestre, disseste verdadeiramente bem que é único e não há outro fora d’Ele, 33e que amá-Lo de todo o coração, e de toda a inteligência, e de todas as forças, e amar o próximo como a si mesmo vale mais que todos os holocaustos e sacrifícios.34Jesus, ao ver que tinha respondido atinadamente, disse-lhe: Não estás longe,do Reino de Deus. E ninguém mais ousava interrogá-Lo.

Comentário

28-34. O doutor da lei que faz a pergunta mostra uma atitude leal diante de Jesus Cristo porque busca sinceramente a verdade. Ficou impressionado diante da resposta precedente de Jesus (vv. 18-27), e aproxima-se com desejos de conhecer melhor os ensinamentos do Mestre. A sua pergunta é acertada e Jesus entretém-se a instruir este homem, pertencente a um grupo, os escribas, sobre o qual vai lançar as acusações mais fortes (cfr Mc 12,38 ss.).

Mas Jesus não vê no personagem que d’Ele se aproxima apenas um escriba mas uma alma que busca a verdade. E os ensinamentos de Jesus penetram no seu coração: aquele homem repete-os saboreando-os, e o Senhor terá para ele uma palavra carinhosa que incita à conversão definitiva: «Não estás longe do Reino de Deus». Este encontro faz-nos recordar o que teve com Nicodemos (cfr Ioh3, 1 ss.). Sobre o conteúdo doutrinai destes dois mandamentos cfr a nota a Mt 22,34-40.

  1. Este mandamento da Antiga Lei, ratificado por Jesus, manifesta, antes de mais, o amor de Deus que quer estabelecer uma comunicação íntima com o homem:« Verda­deiramente Deus mostra-Se desejoso do nosso amor! Não Lhe bastou conceder-nos a graça de consentir que O amássemos'(…); vai mais adiante em declarar-nos a Sua paixão amorosa; ordena-nos que O amemos com todas as forças, a fim de que nem a consideração da Sua Majestade e da nossa miséria, coisas tão infinitamente díspares, nem qualquer outro pretexto nos afastem do Seu amor. Nisso mostra bem que não colocou inutilmente em nós a inclinação para O amarmos, pois para que não ficasse frustrada, impele-nos a exercitá-la mediante um mandamento geral; e para que se possa cumprir este mandamento, a nenhum homem regateia os meios indispensáveis» (Tratado do amor de Deus, livro 2, cap. 8).

03.06.2016 –Lc 15, 3-7

3Pro­pôs-lhes então a seguinte parábola: 4Quem dentre vós — disse Ele — possuindo cem ovelhas e, tendo perdido uma delas, não deixa as noventa e nove no deserto, para ir atrás da que está perdida, até a encontrar? 5E, ao encontrá-la, a não põe, radiante, aos ombros 6e, ao chegar a casa, não convoca os amigos e vizinhos, dizendo-lhes: «Alegrai-vos comigo, porque achei a minha ovelha perdida.»? 7Eu vos digo que haverá assim mais alegria no Céu por um só pecador que se arrepende do que por noventa e nove justos que não têm necessidade de arrepen­dimento.

Comentário

5-6. A tradição cristã, fundada também noutros passos evangélicos (cfr Ioh 10,11), aplica esta parábola a Cristo, Bom Pastor, que sente falta e busca com afã a ovelha perdida: o Verbo, desencaminhada a humanidade pelo pecado, sai ao seu encontro na Encarnação. Neste sentido comenta São Gregório Magno: «Pôs a ovelha aos ombros, porque, ao assumir a natureza humana, Ele próprio carregou com os nossos pecados» (In Evangeliahomiliae, 2,14).

O Concilio Vaticano II aplica estes versículos de São Lucas ao cuidado pastoral que hão-de ter os sacerdotes: «No seu trato e solicitude de cada dia, não se esqueçam de apresentar aos fiéis e infiéis, aos católicos e não-católicos, a imagem do autêntico ministério sacerdotal e pastoral, de dar a todos o testemunho de verdade e de vida, e de procurar também, como bons pastores, aqueles que, baptizados embora na Igreja católica, abandonaram os sacramentos ou até mesmo a fé» (Lumen gentium, n 28). Mas um cuidado semelhante, vivido fraternalmente, incumbe também a todo o fiel cristão, que deve ajudar os seus irmãos os homens no caminho da salvação e da santificação.

  1. Isto não quer dizer que o Senhor não estime a perseverança dos justos, mas que aqui se põe em realce o gozo de Deus e dos bem-aventurados diante do pecador que se converte. É um claro chamamento ao arrependimento e a não duvidar nunca do perdão de Deus.« Outra queda…, e que queda!… Desesperar-te? Não; humilhar-te e recorrer, por Maria, tua Mãe, ao Amor Misericordioso de Jesus. — Um ‘miserere’ e, coração ao alto! — A começar de novo» (Cami­nho, n° 711).

04.06.2016 –Lc2, 41-51

41Iam Seus pais todos os anos a Jerusalém, nela festa da Páscoa. 42E, quando chegou aos doze anos, subiram eles até lá, segundo o costume da festa. 43Quando chegaram ao fim desses dias, ao regressarem, o Menino Jesus ficou em Jerusalém, sem os pais darem por isso. 44Pensando que Ele Se encontrava na caravana, fizeram um dia de viagem e começaram a procurá-Lo entre os parentes e conhecidos. 45Não O encontrando, voltaram a Jerusalém, à procura d’Ele. 46E, depois de três dias, acharam-No no Templo, sentado no meio dos doutores, a ouvi-los e a fazer-lhes perguntas. 47Todos aqueles que O ouviam, estavam pasmados da Sua inteligência e das Suas respostas. 48Quando O viram, ficaram vivamente impressionados, e Sua mãe disse-Lhe: Filho, porque procedeste assim connosco? Olha que Teu pai e eu andávamos aflitos à Tua procura. 49Ele respondeu-lhes: Porque Me procuráveis? Não sabíeis que Eu tenho de estar em casa de Meu Pai? 50Mas eles não entenderam as palavras que lhes disse.

51Depois, desceu com eles, veio para Nazaré e era-lhes submisso. Suamãe guardava todas estas coisas no seu coração.

Comentário

  1. Só São Lucas (2,41-50) recolheu o acontecimento do Menino Jesus perdido e achado no Templo, que piedosa­mente contemplamos no quinto mistério gozoso do santo Rosário.

A viagem era obrigatória apenas para os varões a partir dos doze anos. A distância entre Nazaré e Jerusalém em linha recta é de uns 100 km. Tendo em conta as zonas montanhosas, os caminhos dariam um rodeio que pode cal­cular-se em 140 km.

43-44. Nas peregrinações a Jerusalém os Judeus costu­mavam caminhar em dois grupos: um de homens e outro de mulheres. As crianças podiam ir com qualquer dos dois. Isto explica que pudesse passar inadvertida a ausência do Menino até que terminou a primeira jornada, momento em que se reagrupavam as famílias para acampar.

«Maria chora. — Bem corremos, tu e eu, de grupo em grupo, de caravana em caravana; não O viram. — José, depois de fazer esforços inúteis para não chorar, chora também… E tu… E eu…

«Eu, como sou criadito rústico, choro até mais não poder e clamo ao céu e à terra…, por todas as vezes que O perdi por minha culpa e não clamei» (Santo Rosário, quinto mistério gozoso).

  1. A solicitude com que Maria e José buscam o Menino há-de estimular-nos a nós a buscar sempre Jesus, sobretudo quando O tenhamos perdido pelo pecado.

«Jesus! Que eu nunca mais Te perca… E então, a desgraça e a dor unem-nos, como nos uniu o pecado, e saem de todo o nosso ser gemidos de profunda contrição e frases ardentes, que a pena não pode, não deve registrar»(Santo Rosário, quinto mistério gozoso).

46-47. Seguramente o Menino Jesus estaria no átrio do Templo, onde os doutores costumavam ensinar. Os que queriam escutavam as explicações, sentados no chão, inter­vindo por vezes com perguntas e respostas. O Menino Jesus seguiu este costume, mas as Suas perguntas e respostas chamaram a atenção dos doutores pela sua sabedoria e ciência.

  1. A Virgem Santíssima sabia desde a Anunciação do anjo que o Menino Jesus era Deus. Esta fé fundamentou uma atitude constante de generosa fidelidade ao longo de toda a sua vida, mas não tinha por que incluir o conhecimento concreto de todos os sacrifícios que Deus lhe pediria, nem do modo como Cristo levaria a cabo a Sua missão redentora ia descobrindo na contemplação da vida de Nosso Senhor.
  2. A resposta de Cristo é uma explicação. As palavras do Menino — que são as primeiras que recolhe o Evangelho — indicam claramente a Sua Filiação divina. E afirmam a Sua vontade de cumprir os desígnios de Seu Pai Eterno. « Não os repreende — a Maria e a José — porque O buscam como filho, mas fá-los levantar os olhos do seu espírito para que vejam o que deve Àquele de Quem é Filho Eterno»(In LucaeEvangeliumexpositio, ad loc.). Jesus ensina-nos a todos que por cima de qualquer autoridade humana, inclusive a dos pais, está o dever primário de cumprir a vontade de Deus: «E com a alegria de encontrarmos Jesus — três dias de ausência! — disputando com os Mestres de Israel (Lc II, 46), ficará bem gravada na tua alma e na minha a obrigação de deixarmos os nossos em serviço do Pai Celestial»(Santo Rosário, quinto mistério gozoso). Cfr a nota a Mt 10,34-37.
  3. Há que ter em conta que Jesus conhecia com pormenor desde a sua concepção o desenvolvimento de toda a Sua vida na terra (cfr a nota a Lc 2,52). As palavras com que responde a Seus pais denotam esse conhecimento. Maria e José deram-se conta de que essa resposta entranhava um sentido muito profundo que não chegavam a compreender. Foram-no compreendendo à medida que os acontecimentos ida vida de Seu Filho se iam desenvolvendo. A fé de Maria e José e a sua atitude de reverência perante o Menino leva­ram-nos a não perguntar mais por então, e a meditar, como noutras ocasiões, nas obras e nas palavras de Jesus.
  4. O Evangelho resume-nos a vida admirável de Jesus em Nazaré apenas com três palavras: erat súbditus illis, era-lhes submisso, obedecia-lhes. «Jesus obedece, e obedece a José e a Maria. Deus veio à Terra para obedecer, e para obedecer às criaturas. São duas criaturas perfeitíssimas — Santa Maria, nossa Mãe; mais do que Ela, só Deus; e aquele varão castíssimo, José. Mas criaturas. E Jesus, que é Deus, obedecia-lhes! Temos de amar a Deus, para amar assim a Sua vontade, e ter desejos de responder aos chamamentos que nos dirige através das obrigações da nossa vida corrente: nos deveres de estado, na profissão, no trabalho, na família, no convívio social, no nosso sofrimento e no sofrimento dos outros homens, na amizade, no empenho de realizar o que é bom e justo…» (Cristo que passa,n° 17).

Em Nazaré permaneceu Jesus como um mais dos homens, trabalhando no mesmo ofício de São José e ganhando o sustento com o suor do Seu rosto. «Esses anos ocultos do Senhor não são coisa sem significado, nem uma simples preparação dos anos que viriam depois, os da Sua vida pública. Desde 1928 compreendi claramente que Deus deseja que os cristãos tomem exemplo de toda a vida do Senhor. Entendi especialmente a Sua vida escondida, a Sua vida de trabalho corrente no meio dos homens: o Senhor quer que muitas almas encontrem o seu caminho nos anos de vida calada e sem brilho. Obedecer à vontade de Deus, portanto, é sempre sair do nosso egoísmo; mas não tem por que se traduzir no afastamento das circunstâncias ordinárias da vida dos homens, iguais a nós pelo seu estado, pela sua profissão, pela sua situação na sociedade.

«Sonho — e o sonho já se tornou realidade — com mul­tidões de filhos de Deus santificando-se na sua vida de cidadãos correntes, compartilhando ideais, anseios e esforços com as outras pessoas. Preciso de lhes gritar esta verdade divina: se permaneceis no meio do mundo, não é porque Deus Se tenha esquecido de vós; não é porque o Senhor não vos tenha chamado; convidou-vos a permanecer nas actividades e nas ansiedades da Terra, porque vos fez saber que a vossa vocação humana, a vossa profissão, as vossas quali­dades não só não são alheias aos Seus desígnios divinos, mas Ele as santificou como oferenda gratíssima ao Pai!» (Cristo que passa,n° 20).

05.06.2016 –Lc7, 11-17

11Em seguida, dirigiu-Se a uma cidade chamada Naim, indo com Ele os Seus discípulos e grande multidão. 12Quando Se aproximava da porta da cidade, traziam um defunto a enterrar, filho único de sua mãe. Esta era viúva, e vinha a acompanhá-la bastante gente da cidade. 13Ao vê-la, o Senhor compadeceu-Se dela e disse-lhe: Não chores. 14Aproximando-Se, tocou no caixão e estacaram os que o transportavam. Depois disse: Meu rapaz, Eu to digo, levan­ta-te. I5O morto sentou-se e começou a falar; e Ele entregou-o à mãe. 16Encheram-se todos de temor e davam glória a Deus, dizendo: Surgiu entre nós um grande profeta, e Deus visitou o Seu povo. 17Divulgou-se este dito a Seu respeito na Judeia inteira e em toda a região circunvizinha.

Comentário

11-17.«Jesus vê a angústia daquelas pessoas com quem Se cruza ocasionalmente. Podia ter passado de lado ou ter esperado que O chamassem e Lhe fizessem um pedido. Mas não Se afasta, nem fica na expectativa. Toma Ele próprio a iniciativa, movido pela aflição de uma viúva que perdera a única coisa que lhe restava —o filho.

«Explica o evangelista que Jesus Se compadeceu- talvez a Sua comoção tivesse também sinais externos, como pela morte de Lázaro. Jesus não era, nem é, insensível ao padecimento que nasce do amor, nem sente prazer em separar os filhos dos pais. Supera a morte, para dar a vida, para que aqueles que se amam convivam, exigindo, antes e ao mesmo tempo, a preeminência do Amor divino que deve informar a autêntica existência cristã.

Cristo sabe que O rodeia uma grande multidão, a quem o milagre encherá de pasmo e que há-de ir apregoando o sucedido por toda aquela região. Mas o Senhor não actua com artificialismo, só para praticar um ‘feito’; sente-Se singelamente afectado pelo sofrimento daquela mulher; não pode deixar de a consolar. Então, aproximou-Se e disse-lhe: não chores (Lc 7, 13). Que é como se lhe dissesse: hão te quero ver desfeita em lágrimas, pois Eu vim trazer à Terra a alegria e a paz. E imediatamente se dá o milagre, manifes­tação do poder de Cristo, Deus. Mas antes já se dera a comoção da Sua alma, manifestação evidente da ternura do coração de Cristo, Homem»(Cristo que passa, n° 166).

  1. A alegria da mãe ao recuperar vivo o seu filho recorda a alegria da Santa Madre Igreja pelos seus filhos pecadores regressados à vida da graça. «A mãe viúva — comenta Santo Agostinho — alegra-se com o seu filho ressus­citado. A Mãe Igreja alegra-se diariamente com os homens que ressuscitam na sua alma. Aquele, morto quanto ao corpo; estes, quanto ao seu espírito. Aquela morte visível chora-se visivelmente; a morte invisível destes nem se chora nem se vê. Busca estes mortos o que os conhece, o que os pode fazer regressar à vida»(Sermo98,2).

06.06.2016 –Mt 5, 1-12

Vendo Ele as multidões, subiu ao monte e sentou-Se. Acercaram-se os discípulos 2e Ele, tomando a palavra, pôs-se a ensiná-los, dizendo:

3Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus.

4Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados.

5Bem-aventurados os mansos, porque eles possuirão a terra.

6Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos.

7Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia.

8Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus.

9Bem-aventurados os pacíficos, porque eles serão chamados filhos de Deus.

10Bem-aventurados os perseguidos por amor da justiça, porque deles é o Reino dos Céus.

11Bem-aventurados sois, quando, por minha causa, vos injuriarem e perseguirem e disserem, falsamente, contra vós toda a espécie de mal.

12Alegrai-vos e exultai, porque será grande nos Céus a vossa recompensa. Foi assim que perseguiram os profetas antes de vós.

Comentário

1-2. O Sermão da Montanha ocupa integralmente os caps. 5, 6 e 7 de São Mateus. Trata-se do primeiro dos cinco grandes discursos de Jesus que aparecem neste Evan­gelho. Compreende uma considerável parte dos ensinamentos do Senhor.

Não é fácil de reduzir o discurso a um só tema, mas os diversos ensinamentos podem comodamente agrupar-se à volta destes cinco pontos: 1) o espírito que se deve ter para entrar no Reino dos Céus (as Bem-aventuranças, sal da terra e luz do mundo, Jesus e a Sua doutrina, plenitude da Lei); 2) rectidão de intenção nas práticas de piedade (aqui se inclui a oração do Senhor ou Pai-Nosso); 3) confiança na Providência paternal de Deus; 4) as relações fraternas dos filhos de Deus (não julgar o próximo, respeito pelas coisas santas, eficácia da oração e a regra de oiro da caridade); e 5) condições e fundamento para a entrada no reino (a porta estreita, os falsos profetas e edificar sobre rocha).

  1. «Pôs-se a ensiná-los»: Refere-se tanto aos discípulos que rodeavam Jesus como às multidões ali presentes, se­gundo aparece no fim do Sermão da Montanha (Mt 7,28).

As Bem-aventuranças (5,3-12) constituem como que o pórtico do Sermão da Montanha. Para uma recta compreensão das Bem-aventuranças é conveniente ter em conta que nelas não se promete a salvação a umas determinadas classes de pessoas que aqui se enumerariam, mas a todos aqueles que alcancem as disposições religiosas e o comportamento moral que Jesus Cristo exige. Quer dizer, os pobres de espírito, os mansos, os que choram, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os puros de coração, os pacíficos e os que sofrem perseguição por buscar a santidade, não indicam pessoas distintas entre si, mas são como que diversas exigências de santidade dirigidas a quem quer ser discípulo de Cristo.

Pela mesma razão, também não prometem a salvação a determinados grupos da sociedade, mas a toda a pessoa que, seja qual for a sua situação no mundo, se esforce por viver o espírito e as exigências das Bem-aventuranças.

A todas elas é também comum o sentido escatológico, isto é, é-nos prometida a salvação definitiva não neste mundo, mas na vida eterna. Mas o espírito das Bem-aventuranças produz, já na vida presente, a paz no meio das tributações. Na história da humanidade, as Bem-aventuranças constituem uma mudança completa dos critérios humanos habituais: desqualificam o horizonte da piedade farisaica, que via na felicidade terrena a bênção e prêmio de Deus e, na infeli­cidade e desgraça, o castigo. Em todos os tempos as Bem-aventuranças põem muito por cima os bens do espírito sobre os bens materiais. Sãos e doentes, poderosos e débeis, ricos e pobres… são chamados, por cima das suas circunstâncias, à felicidade profunda daqueles que alcançam as Bem-aventu­ranças de Jesus.

É evidente que as Bem-aventuranças não contêm toda a doutrina evangélica. Não obstante contêm, como que em germe, todo o programa de perfeição cristã.

  1. Neste versículo exprime-se de modo amplo a relação ida pobreza com o espírito. Este conceito religioso de pobre tinha já uma longa tradição no AT (cfr, p. ex., Soph 2,3 s). Mais quea condição social de pobre, expressa a atitude religiosa ide indigência e de humildade diante de Deus: é pobre o que corre a Deus sem considerar méritos próprios e confia só na misericórdia divina para ser salvo. Esta atitude religiosa da pobreza está muito aparentada com a chamada infância espiritual. O cristão considera-se diante de Deus como um filho pequeno que não tem nada em propriedade; tudo é de Deus seu Pai e a Ele o deve. De qualquer modo a pobreza em espírito, quer dizer, a pobreza cristã, exige o desprendimento dos bens materiais e austeridade no uso deles. A alguns, os religiosos, Deus pede-lhes o desprendimento inclusive jurídico das suas propriedades, como testemunho perante o mundo da condição passageira das coisas terrenas.
  2. «Os que choram»: Chama aqui bem-aventurados Nosso Senhor todos os que estão aflitos por alguma causa e, de modo particular, aqueles que estão verdadeiramente arrependidos dos seus pecados, ou aflitos pelas ofensas que outros fazem a Deus, e que levam o seu sofrimento com amor e desejos de reparação.

«Choras? — Não te envergonhes. Chora; sim, os homens também choram, como tu, na solidão e diante de Deus. — Durante a noite, diz o rei David, regarei de lágrimas o meu leito.

«Com essas lágrimas, ardentes e viris, podes purificar o teu passado e sobrenaturalizar a tua vida actual» (Caminho, n.° 216).

O Espírito de Deus consolará com paz e alegria, mesmo neste mundo, os que choram os pecados, e depois participarão da plenitude da felicidade e da glória do céu: esses são bem-aventurados.

5.«Mansos»: quer dizer, os que sofrem com paciência as perseguições injustas; os que nas adversidades mantêm o ânimo sereno, humilde e firme. e não se deixam levar pela ira ou pelo abatimento. É a virtude da mansidão muito necessária para a vida cristã. Normalmente as frequentes manifestações externas de irritabilidade procedem da falta de humildade e de paz interior.

«A terra»: Comummente entende-se em sentido trans­cendente, quer dizer, a pátria celestial.

  1. O conceito de justiça na Sagrada Escritura é essen­cialmente religioso (cfr nota a Mt 1,19). Chama-se justo a quem se esforça sinceramente por cumprir a Vontade de Deus, que se manifesta nos mandamentos, nos deveres de estado e na união da alma com Deus. Por isso a justiça, na linguagem da Bíblia, coincide com o que actualmente cos­tuma chamar-se santidade (1Ioh 2,29; 3,7-10; Apc 22,11; Gen 15,6; Dt 9,4). Como comenta São Jerónimo (Comm. in Matth.5.6). esta (quarta bem-aventurança de Nosso Senhor exige não um simples desejo vago de justiça, mas ter fome e sede dela, isto e, amar e buscar com todas as forças aquilo que torna justo o homem diante de Deus. O que de verdade quer a santidade cristã tem de amar os meios que a Igreja, instrumento universal de salvação, oferece e ensina a viver a todos os homens: frequência de sacramentos, convivência íntima com Deusna oração, fortaleza em cumprir os deveres familiares, profissionais, sociais.
  2. A misericórdia não consiste apenas em dar esmola aos pobres, mas também em compreender os defeitos que possam ‘ter os outros, desculpá-los, ajudá-los a superá-los e amá-los mesmo com os defeitos que tenham. Também faz parte da misericórdia alegrar-se e sofrer com as alegrias e dores alheias.

A doutrina de Cristo ensina que a raiz da qualidade dos actos humanos está no coração, quer dizer, no interior do homem, no fundo do seu espírito: «Quando falamos de um coração humano, não nos referimos só aos sentimentos: aludimos à pessoa toda que quer, que ama, que convive com os outros. Ora, na maneira de os homens se exprimirem, que a Sagrada Escritura utiliza para nos ajudar a compreender as coisas divinas, o coração é tido por resumo e fonte, expressão e fundo íntimo dos pensamentos, das palavras, das acções. Um homem vale o que vale o seu coração — diríamos com palavras bem humanas»(Cristo que passa, n.° 164). A pureza de coração é um dom de Deus, que se manifesta na capacidade de amar, no olhar recto e puro para tudo o que é nobre. Como diz o Apóstolo, «tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, tudo o que é virtuoso e louvável, é o que deveis ter em mente» (Phil 4,8). O cristão, ajudado pela graça de Deus, deve lutar continuamente para purificar o seu coração e adquirir essa pureza, em virtude da qual se promete a visão de Deus.

9.A palavra «pacíficos» é a usual nas traduções e, além disso, etimologicamente é fiel ao texto. No livro sagrado tem claramente um sentido activo: «os que pro­movem a paz» em si mesmos, nos outros e, sobretudo, como fundamento do anterior, procuram reconciliar-se e recon­ciliar os outros com Deus. A paz com Deus é a causa e o cume de toda a paz. Será vã e enganadora qualquer paz no mundo que não se baseie nessa paz divina. «Serão chamados filhos de Deus»: É um hebraísmo muito frequente na Sagrada Escritura; é o mesmo que dizer «serão filhos de Deus». A primeira Epístola de São João (l Ioh 3, 1) dá-nos a exegese autêntica desta bem-aventurança: «Vede que amor nos mostrou o Pai: que sejamos chamados filhos de Deus e que realmente o sejamos».

  1. Acerca do significado de «justiça» veja-se o dito em Mt 1,19; 5,6. Assim, pois, o sentido desta bem-aventurança é o seguinte: bem-aventurados os que sofrem perseguição por ser santos ou pelo seu empenho em ser santos, porque deles é o Reino dos Céus.

Portanto, é bem-aventurado o que sofre perseguição por ser fiel a Jesus Cristo, e a suporta não só com paciência mas com alegria. Na vida do cristão apresentam-se circunstâncias heroicas, nas quais não têm lugar meios termos; ou se é fiel a Jesus Cristo jogando-se a honra, a vida e os bens, ou O renegamos. São Bernardo (Sermão da Festa de Todos os Santos) diz que esta oitava bem-aventurança era como que a prerrogativa dos santos mártires. O cristão que é fiel à doutrina de Jesus Cristo é de facto também um «mártir» (testemunha) que reflecte ou cumpre esta bem-aventurança, mesmo sem chegar à morte corporal.

11-12. As Bem-aventuranças são as condições que Cristo pôs para entrar no Reino dos Céus. O versículo, à maneira de recapitulação, é um convite global a viver estes ensinamentos. A vida cristã não é, pois, tarefa fácil, mas vale a pena pela plenitude de vida que o Filho de Deus promete.

07.06.2016 –Mt 5, 13-16

13Vós sois o sal da terra. Ora se o sal se tornar insípido, com que há-de ser ele sal­gado? Para nada mais serve, senão para se deitar fora e ser pisado pelos homens.

14Vós sois a luz do mundo. Não pode ocultar-se uma cidade assente sobre um monte.

15Nem se acende uma candeia para se colocar debaixo do alqueire mas sim sobre o velador, e assim alumia a quantos estão em casa.

16Brilhe a vossa luz diante dos homens de tal modo que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos Céus.

Comentário

13-15. Estes versículos são um chamamento à missão apostólica que todo o cristão tem pelo facto de o ser. Cada cristão há-de lutar pela sua santificação pessoal, mas também pela santificação dos outros. Jesus ensina-o com as imagens expressivas do sal e da luz. Assim como o sal preserva da corrupção os alimentos, lhes dá sabor, os torna agradáveis e desaparece confundindo-se com eles, o cristão há-de desem­penhar essas mesmas funções entre os seus semelhantes.

«Tu és sal, alma de apóstolo. — «Bonum est sal» — o sal é bom, lê-se no Santo Evangelho; «si autem sal evanuerit» — mas se o sal se desvirtua… de nada serve, nem para a terra, nem para o estéreo; deita-se fora como inútil.

«Tu és sal, alma de apóstolo. — Mas se te desvirtuas…»(Caminho, n.°921).

As boas obras são fruto da caridade, que consiste em amar os outros como nos ama o Senhor (cfrIoh 15, 12). «Agora adivinho — escreve Santa Teresinha — que a verdadeira ca­ridade consiste em suportar todos os defeitos do próximo, em não estranhar as suas debilidades, em edificar-se com as suas menores virtudes; mas aprendi especialmente que a caridade não deve permanecer encerrada no fundo do cora­ção pois ‘não se acende uma luz para a colocar debaixo de um alqueire, mas sobre o velador a fim de alumiar todos os que estão em casa’. Parece-me que esta tocha representa a caridade que deve iluminar e alegrar não só aqueles que mais amo, mas todos os que estão em casa»(História de uma alma, cap 9).

Uma das manifestações mais claras da caridade é a actividade apostólica. O Concilio Vaticano II pôs em relevo a obrigação do apostolado, direito e dever que nascem do Baptismo e da Confirmação (cfrLumen gentium, n. 33), até afirmar que, fazendo o cristão parte do Corpo Místico, «o membro que não contribui segundo a sua medida para o aumento deste Corpo, deve dizer-se que não aproveita nem à Igreja nem a si mesmo» (Apostolicamactuositatem, n. 2). «Inúmeras oportunidades se oferecem aos leigos para exer­cerem o apostolado de evangelização e santificacão.O; próprio testemunho da vida cristã e as obras, feitas com espírito sobrenatural, têm eficácia para atrair os homens à fé B a Deus; diz o Senhor: ‘Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, de modo que vejam as vossas boas obras e dêem glória ao vosso Pai que está nos céus’»(Apostolicamactuosi­tatem, n. 6).

«A Igreja tem de estar presente nestes agrupamentos humanos por meio dos seus filhos que entre eles vivem ou a eles são enviados. Com efeito, todos os fiéis cristãos, onde quer que vivam, têm obrigação de manifestar, pelo exemplo da vida e pelo testemunho da palavra, o homem novo de que se revestiram pelo Baptismo, e a virtude do Espírito Santo por quem na Confirmação foram robustecidos, de tal modo que os outros homens, ao verem as suas boas obras, glorifiquem o Pai e compreendam mais plenamente o sentido genuíno da vida humana e o vínculo universal da comunidade humana» (Adgentes, n. 11; cfr n. 36).

08.06.2016 –Mt 5, 17-19

17Não julgueis que vim abolir a Lei ou os Profetas. Não vim abolir mas cumprir.

18Ern verdade vos digo: até que passem os Céus e a Terra, nem um só jota ou um só til da Lei passará, sem que tudo se cumpra.

19Portanto, quem transgredir um só destes mandamentos mais pequenos e ensinar assim aos homens, será o mais pequeno no Reino dos Céus. Mas quem os observar e ensinar, esse será grande no Reino dos Céus.

Comentário

17-19. Jesus ensina neste passo o valor perene do Antigo Testamento, enquanto é palavra de Deus; goza, portanto, de autoridade divina e não pode desprezar-se o mínimo. Na Antiga Lei havia preceitos morais, judiciais e litúrgicos. Os preceitos morais do AT conservam no Novo o seu valor, porque são principalmente promulgações concretas, divino-positivas, da lei natural. Nosso Senhor dá-lhes, contudo, a sua significação e as suas exigências mais profundas. Os preceitos judiciais e cerimoniais, pelo contrário, foram dado por Deus para uma etapa concreta na História da Salvação, a saber, até à vinda de Cristo; a sua observância material em si não obriga os cristãos (cfr Suma Teológica, I-II, q. 108, a. 3 ad 3).

A lei promulgada por meio de Moisés e explicada pelos Profetas constituía um dom de Deus para o povo, como antecipação da Lei definitiva que daria Cristo o Messias. Na verdade, como definiu o Concilio de Trento, Jesus não só « foi dado aos homens como Redentor em quem confiem, mas também como Legislador a quem obedeçam»(De justificatione, can. 21).

09.06.2016 –Mt 5, 20-26

20Porque Eu vos digo que, se a vossa justiça não sobrepujar a dos Escribas e Fariseus, não entra reis no Reino dos Céus.

21Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás, e quem matar será réu perante o tribunal. 22Eu, porém, digo-vos: Todo aquele que se irar contra seu irmão, será réu perante o tribunal. E quem chamar a seu irmão «imbecil», será réu perante o Sinédrio. E quem lhe chamar «doido», será réu da Geena do fogo. 23Portanto, se ao apresentares a tua oferenda ao altar, aí te recordares que teu irmão tem algo contra ti, 24deixa aí a tua oferenda diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão, depois vem e apresenta a tua oferenda. 25Põe-te de acordo com o teu adversário, enquanto estás com ele no caminho. Não seja caso que o adver­sário te entregue ao juiz, e o juiz ao guarda, e sejas metido na prisão. 26Em verdade te digo: não sairás de lá, enquanto não pagares o último ceitil.

Comentário

  1. «Justiça»: Veja-se nota a Mt 5, 6. O versículo vem esclarecer o sentido dos precedentes. Os escribas e os fariseus tinham chegado a deformar o espírito da Lei, ficando na observância externa e ritual da mesma. Entre eles o cumpri­mento exacto e minucioso, mas externo, dos preceitos tinha-se transformado numa garantia de salvação do homem diante de Deus: « se eu cumpro isto sou justo, sou santo e Deus tem de me salvar». Com este modo de conceber a justificação já não é Deus no fundo quem salva, mas é o homem quem se salva pelas obras externas. A falsidade de tal concepção fica patente com a afirmação de Cristo, que poderia exprimir-se com estes termos: para entrar no Reino dos Céus é necessário superar radicalmente a concepção da justiça ou santidade a que tinham chegado os escribas e os fariseus. Por outras palavras, a justificação ou santificação é uma graça de Deus, com a qual o homem só pode colaborar secundariamente pela sua fidelidade a essa graça. Noutros lugares estes ensinamentos ficarão ainda mais claramente explicados por Jesus (cfr Lc 18, 9-14, parábola do fariseu e do publicano). Também dará lugar a Uma das grandes batalhas doutrinais de São Paulo perante os «judaizantes» (veja-se Gal 3 e Rom 2-5).

21-26. Nestes versículos temos um exemplo concreto de como Jesus leva à sua plenitude a Lei de Moisés, explicando profundamente o sentido dos mandamentos desta.

  1. Jesus ao falar em primeira pessoa («Eu, porém, digo-vos») expressa que a Sua autoridade está por cima da de Moisés e dos Profetas; quer dizer: Ele tem autoridade divina. Nenhum homem poderia falar com essa autoridade,

«Imbecil»: Muitíssimas versões deste passo mantiveram a transcrição da palavra original aramaica: «Raça», pronunciada por Cristo. Não é fácil de dar uma tradução exacta. O termo «raça» equivale ao que hoje entendemos por néscio, estúpido, imbecil. Era sinal entre os Judeus de um grande desprezo, que muitas vezes se manifestava não com palavras, mas com a acção de cuspir no chão.

«Doido», que outras versões traduzem por «fátuo», «louco», «renegado», etc., era um insulto ainda maior que «raça»: referia-se à perda do sentido moral e religioso, até ao ponto da apostasia.

Nosso Senhor indica neste texto três faltas que podemos cometer contra a caridade, nas quais se pode apreciar uma gradação, que vai desde a irritação interna até ao maior dos insultos. A propósito deste passo comenta Santo Agostinho que se devem observar três graus de faltas e de castigos. O primeiro, entrar em cólera por um movimento interno do coração, ao que corresponde o castigo do juízo; o segundo, dizer alguma palavra de desprezo, que leva consigo o castigo do Conselho; o terceiro, quando deixando-nos levar pela ira até à obcecação, injuriamos despiedadamente os nossos irmãos, que é castigado com o fogo do inferno (cfrDe Semi. Dom. in monte II, 9).

«Geena do fogo», frase que na linguagem judaica daqueles tempos significava o castigo eterno, o fogo do inferno.

Daqui a gravidade dos pecados externos contra a caridade: murmuração, injúria, calúnia, etc. Não obstante, devemos dar-nos conta de que estes brotam do coração; o Senhor chama a atenção em primeiro lugar para os pecados internos: rancor, ódio, etc., para fazer ver que aí está a raiz, e quanto nos convém refrear os primeiros movimentos da ira.

23-24. O Senhor encontra-Se com umas práticas judaicas do Seu tempo, e em tal ocasião dará uma doutrina de valor moral altíssimo e perene. Naturalmente que no cristianismo estamos noutra situação diferente das práticas cultuais judaicas. Para nós o mandato do Senhor tem uns caminhos determinados por Ele mesmo. Em concreto, na Nova e definitiva Aliança, fundada por Cristo, reconciliar-nos é apro­ximar-nos do sacramento da Penitência. Neste os fiéis «obtêm da misericórdia de Deus o perdão da ofensa feita a Ele, e ao mesmo tempo reconciliam-se com a Igreja, à qual feriram pelo pecado» (Lumen gentium, n. 11).

Do mesmo modo, no Novo Testamento, a oferenda por excelência é a Eucaristia. Ainda que à Santa Missa se deva assistir sempre nos dias de preceito, é sabido que para a recepção da Sagrada Comunhão se requer como condição imprescindível estar em graça de Deus.

Nosso Senhor não quer dizer nestes versículos que se tenha de antepor o amor do próximo ao amor de Deus. A caridade tem uma ordem: amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças. Este é o maior e primeiro mandamento (cfr Mt 22, 37-38). O amor ao próximo, que é o segundo mandamento em importância (cfr Mt 22, 39), recebe o seu sentido do primeiro. Não é concebível fraternidade sem paternidade. A ofensa contra a caridade é, antes de mais, ofensa a Deus.

10.06.2016 –Mt 5, 27-32

27Ouvistes que foi dito: Não cometerás adultério. 28Eu, porém, digo-vos: Todo aquele que olhar uma mulher para a cobiçar, já com ela cometeu adultério em seu coração. 29Se o teu olho direito te faz tropeçar, arranca-o e lança-o fora, para longe de ti, porque melhor é para ti perder-se um só dos teus membros, do que ser todo o teu corpo lançado na Geena. 30E se a tua mão direita te faz tropeçar, corta-a e lança-a fora, para longe de ti, porque melhor é para ti perder-se um só dos teus membros, do que ir todo o teu corpo para a Geena.

31Também foi dito: Todo aquele que se desquitar de sua mulher, dê-lhe libelo de repúdio. 32Eu, porém, digo-vos: Todo o que se desquitar de sua mulher, excepto no caso de união ilegítima, faz com que ela venha a ser adúltera, e quem se casar com uma repudiada, comete adultério.

Comentário

27-30. Refere-se ao olhar pecaminoso dirigido a toda a mulher, casada ou não. Nosso Senhor leva à sua plenitude o preceito da Antiga Lei. Neste só se considerava pecado o adultério e o desejo da mulher do próximo.

O desejo: uma coisa é sentir e outra consentir. O consen­timento supõe a advertência da maldade desses actos (olhares, imaginações, desejos impuros), e a voluntariedade que livremente os admite.

A proibição dos vícios implica sempre um aspecto positivo, que é a virtude contrária. A santa pureza é, como toda a virtude, eminentemente positiva; nasce do primeiro man­damento e para ele se ordena: «Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração e com toda a tua alma e com toda a tua mente» (Mt 22, 37). «A pureza é consequência do amor com que entregamos ao Senhor a alma e o corpo, as potências e os sentidos.Não é uma negação: é uma alegre afirmação»(Cristo que passa, n° 5). Esta virtude exige pôr todos os meios e, se for necessário, heroicamente.

Por olho direito e mão direita entende-se o que é para nós de maior estima. Este modo de falar do Senhor, tão forte, não deve ser rebaixado na sua exigência moral. É claro que não significa que nos devemos mutilar fisicamente, mas lutar sem concessões, estando dispostos a sacrificar tudo aquilo que possa ser ocasião clara de ofensa a Deus. As palavras do Senhor, tão gráficas, previnem principalmente acerca de uma das mais frequentes ocasiões: o cuidado que devemos ter com os olhares. O rei David começou deixando-se levar pela curiosidade e isto conduziu-o ao adultério e ao crime. Depois chorou os seus pecados e teve uma vida santa na presença de Deus (cfr 2Sam 11 e 12).

«Os olhos! Por eles entram na alma muitas iniquidades. — Quantas experiências como a de David!… — Se guardardes a vista, tereis assegurado a guarda do vosso coração»(Caminho, n°183).

Entre os meios ascéticos que servem para salvaguardar a virtude da santa pureza podem enumerar-se: Confissão e Comunhão frequentes; devoção à Santíssima Virgem; espírito de oração e mortificação; guarda dos sentidos; fuga das ocasiões, e esforço por evitar a ociosidade, estando sempre ocupados em coisas úteis. Há também outros dois meios que têm hoje uma particular importância: «O pudor e a modéstia são os irmãos pequenos da pureza» (Caminho, n° 128). Pudor e modéstia são expressão de bom gosto, de respeito pelos outros e pela dignidade humana e cristã. Por isso o cristão, consequente com esta doutrina do Senhor, há-de lutar opondo-se a um ambiente paganizado, para influir nele e tratar de mudá-lo.

«É necessária uma cruzada de virilidade e de pureza que contrarie e anule o trabalho selvagem daqueles que pensam que o homem é uma besta.E esta cruzada é obra vossa»(Caminho, n° 121).

31-32. A Lei de Moisés (Dt 24, 1), dada em tempos antigos, tinha tolerado o divórcio pela dureza de coração dos Hebreus. Mas não tinha indicado de maneira clara os motivos para chegar a ele. Por isso os rabinos tinham dado uma série de interpretações diversas, segundo as escolas a que pertencessem, que iam de posições muito laxas a outras mais rígidas. Em qualquer dos casos, só o marido podia repudiar a mulher. A condição de inferioridade da mulher tinha sido de algum modo suavizada pela acta ou libelo de repúdio, escrito pelo qual o marido declarava a liberdade da mulher repudiada para que pudesse contrair novas núpcias. Contra tais interpretações rabínicas, Jesus restabelece a originária indissolubilidade do matrimônio tal como Deus o tinha instituído (Gen 1, 27; 2, 24; cfr Mt 19, 4-6; Eph 1, 31; 1Cor 7,10).

«Excepto no caso de união ilegítima» ou «fora do caso de fornicação» não pode tomar-se como uma excepção do prin­cípio da absoluta indissolubilidade do matrimônio que Jesus acaba de restabelecer. Quase com toda a certeza, a mencionada cláusula refere-se a uniões admitidas como matri­mônio entre alguns povos pagãos, mas proibidas, por incestuosas, na Lei mosaica (cfr Lev 18) e na tradição rabínica. Trata-se, pois, de uniões inválidas desde a sua raiz por algum impedimento. Quando tais pessoas se convertiam à verdadeira fé, não é que pudesse dissolver-se a sua união, mas declarava-se que não tinham estado nunca unidas em verdadeiro matrimônio. Portanto, esta cláusula não vai con­tra a indissolubilidade do matrimônio, mas reafirma-a. A Igreja, a partir dos ensinamentos de Jesus, e guiada pelo Espírito Santo, concretizou a solução do caso especialmente grave do adultério, estabelecendo a liceidade da separação dos cônjuges, mas sem dissolubilidade do vínculo matrimonial e, portanto, sem possibilidade de contrair novo matrimônio.

A indissolubilidade do matrimônio foi ensinada pela Igreja desde o princípio sem a menor dúvida, e urgiu na prática o cumprimento moral e jurídico desta doutrina, exposta com toda a autoridade por Jesus (Mt 19, 3-9; Mc 10, 1-12; Lc 16, 18) e pelos Apóstolos (1Cor 6, 16; 7, 10-11.39; Rom 7,2-3; Eph 5,31 s.). Entre os muitos textos do Magistério que se poderiam citar, eis aqui só alguns a modo de exemplo:

«É atribuído um triplo bem ao matrimônio (…). O terceiro é a indissolubilidade do matrimônio, porque significa a união invisível de Cristo e da Igreja. E ainda que por motivo de fornicação seja lícito fazer separação do leito, não o é, contudo, contrair outro matrimônio, uma vez que o vínculo do matrimônio legitimamente contraído é perpétuo»(Pró Armeniis).

«Se alguém disser que, por causa de heresia, ou por coabitação molesta, ou por ausência culpável do cônjuge, o vínculo do matrimônio pode ser dissolvido, seja anátema» (De Sacram. matr.,can. 5).

«Se alguém disser que a Igreja erra quando ensinou e ensina que, de acordo com a doutrina do Evangelho e dos Apóstolos, não se pode desatar o vínculo do matrimônio por razão de adultério de um dos cônjuges; e que nenhum dos dois, nem sequer o inocente que não deu causa para o adultério, pode contrair novo matrimônio enquanto viva o outro cônjuge, e que adultera na mesma o que depois de repudiar a adúltera se casa com outra, como a que depois de repudiar o adúltero se casa com outro, seja anátema» (De Sacram. matr., can. 7).

«Fique assente, antes de mais, como fundamento inamovível e inviolável, que o matrimônio não foi instituído nem estabelecido por obra dos homens, mas por obra de Deus; que foi protegido, confirmado e elevado não com leis dos homens, mas do próprio autor da natureza, Cristo Senhor; leis, portanto, que não podem estar sujeitas ao arbítrio dos homens, nem sequer ao acordo contrário dos mesmos côn­juges. Esta é a doutrina das Sagradas Letras; esta a constante e universal Tradição da Igreja; esta a solene definição do sagrado Concilio de Trento, que confirma e precisa com as mesmas palavras da Sagrada Escritura que o perpétuo e indissolúvel vínculo do matrimônio e a sua unidade e firmeza têm Deus por autor» (Casticonnubii).

«Assim pois, apesar de antes de Cristo, de tal modo se ter temperado a sublimidade e serenidade da lei primitiva que Moisés permitiu aos cidadãos do mesmo povo de Deus, por causa da dureza do seu coração, dar libelo de repúdio por determinadas causas; não obstante, Cristo, no uso do Seu poder de legislador supremo, revogou esta permissão de maior licença, e restabeleceu inteiramente a lei primitiva por aquelas palavras que nunca se devem esquecer: ‘o que Deus uniu, não o separe o homem’» (Casticonnubii).

«Em vista do bem tanto dos esposos e da prole como da sociedade, este sagrado vínculo não está ao arbítrio da vontade humana. O próprio Deus é o autor do matrimônio… Esta união íntima, já que é o dom recíproco de duas pessoas, exige, do mesmo modo que o bem dos filhos, a inteira fidelidade dos cônjuges e a indissolubilidade da sua união»(Gaudium et Spes, n. 48).

11.06.2016 –Mt 10, 7-13

7Ide e pregai, dizen­do: « Está próximo o Reino dos Céus». 8Curai enfermos, ressuscitai mortos, limpai lepro­sos, expulsai Demônios. Dai de graça o que de graça recebeste. 9Não procureis oiro nem prata nem cobre para vossos cintos, 10nem alforge para o caminho, nem duas túnicas nem calçado nem bordão, porque o traba­lhador tem direito ao seu sustento.

11Em qualquer cidade ou aldeia onde entrardes, informai-vos de alguma pessoa honrada que nela haja e hospedai-vos aí até partirdes. 12E, ao entrar na casa, saudai-a. E, se realmente essa casa for digna, venha sobre ela a vossa paz; 13se, porém, não for digna, a vossa paz voltará para vós.

Comentário

7-8. Até então os Profetas tinham anunciado ao povo eleito os bens messiânicos, por vezes em imagens acomodadas à sua mentalidade ainda pouco madura espiritualmente. Agora, Jesus envia os Seus Apóstolos a anunciar que esse Reino de Deus prometido está iminente, manifestando os seus aspectos espirituais. Os poderes mencionados no v. 8 são precisamente o sinal anunciado pelos Profetas acerca do Reino de Deus ou reino messiânico. Primariamente (caps. 8 e 9) estes poderes messiânicos exerce-os Jesus Cristo; agora dá-os aos Seus discípulos para mostrar que essa missão é divina (cfrIs 35,5-6 40, 9; 52, 7; 61,1).

  1. «Cintos»: Cinturões duplos, cosidos pelas bordas, em que se costumava na antiguidade levar o dinheiro e outros objectos pequenos e pesados.

9-10. Jesus urge aos Seus discípulos a que partam sem demora para o cumprimento da sua missão. Não devem preo­cupar-se por carecerem de bens materiais, nem dos meios humanos; o que faltar Deus provê-lo-á na medida das suas necessidades. Esta santa audácia em empreender as obras de Deus repete-se uma e outra vez na história da Igreja. Quantas coisas grandes foram empreendidas, mesmo sem ter à disposição os meios humanos mais imprescindíveis! Assim agiram os santos. Se na expansão da Igreja se tivesse esperado por dispor desses meios, muitas almas não teriam recebido a luz de Cristo. Quando o cristão está persuadido de qual é a Vontade de Deus, não deve, com ânimo encolhido, parar a contar os meios de que dispõe. «Nos empreendimentos de apostolado, está bem — é um dever que consideres os teus meios terrenos (2 + 2 =4). Mas não te esqueças — nunca — de que tens de contar, felizmente, com outra parcela. Deus + 2 + 2…)(Caminho, n.°471).

De qualquer modo, não pretendamos forçar Deus para que intervenha de modo extraordinário quando podemos remediar as necessidades com o nosso próprio esforço e trabalho. Isto quer dizer que os cristãos devem ajudar com generosidade aqueles que, dedicados totalmente a cuidar dos bens espirituais dos seus irmãos, não têm tempo para se ocuparem do seu próprio sustento. Veja-se a este propósito o que promete o próprio Jesus em Mt 10,40-42.

11-15. A palavra «paz» era e continua a ser a saudação usual entre os Judeus. Mas na boca dos Apóstolos devia adquirir uma significação mais profunda: a manifestação da bênção de Deus, que os discípulos de Jesus, como enviados Seus, derramam sobre aqueles que os acolhem. Este manda­to do Senhor não termina naquela missão concreta, mas é como que uma profecia para toda a história posterior. O mensageiro de Cristo não desanima quando a sua palavra não é acolhida. Sabe que a bênção de Deus não fica vazia nem é ineficaz (cfrIs 55, 11) e todo o esforço por parte do cristão sempre dará fruto. Em qualquer caso, a palavra apostólica leva consigo a graça da conversão: «muitos dos que tinham ouvido a Palavra abraçaram a Fé, e o número, só dos homens, elevou-se a uns cinco mil» (Act 4,4; cfr 10,44; Rom 10,17).

O homem deve prestar atenção a essa palavra do Evan­gelho e acreditar nela (Act 13, 48; 15, 7). Se a aceitar e perseverar nela, receberá a consolação da sua alma, a paz do seu espírito (Act 8, 3.9) e a salvação (Act 11, 4-18). Mas se a rejeitar, não estará isento de culpa e Deus julgá-lo-á por se ter fechado à graça que lhe foi oferecida.

12.06.2016 –Lc7, 36-8.3

36Um fariseu convidou-O a comer consigo. Ele entrou em casa do fariseu e pôs-Se à mesa. 37Ora uma mulher, que era pecadora naquela cidade, ao saber que Ele estava à mesa em casa do fariseu, trouxe um vaso de alabastro com perfume. 38Colocou-se por detrás, chorando a Seus pés e, com lágrimas, começou a banhar-Lhe os pés; pôs-se depois a enxugar-Lhos com os seus cabelos, a beijar-Lhos e a ungir-Lhos com perfume. 39Ao ver tal cena, o fariseu que O tinha convidado disse consigo: «Este homem, se fosse profeta, saberia quem é e de que espécie é a mulher que Lhe está a tocar: uma pecadora!» 40Então Jesus tomou a palavra e disse-lhe: Simão, tenho uma coisa a dizer-te. Este respondeu: Diz lá, Mestre. 41Tinha certo prestamista dois devedores: um devia qui­nhentos denarios e o outro cinquenta. 42Não tendo eles com que pagar, perdoou a ambos. Qual deles então lhe ficará com mais amizade? 43Simão disse, em resposta: Penso que aquele a quem mais perdoou. Respondeu-lhe Ele: Julgaste bem. «E, voltando-Se para a mulher, disse a Simão: Vês esta mulher? Entrei em tua casa e não Me deste água para os pés; mas ela banhou-Me os pés com lágrimas e enxugou-Mos com os seus cabelos. 45Não Me deste um ósculo; mas ela, desde que Eu entrei, não deixou de Me beijar os pés. 46Não Me ungiste a cabeça com óleo; mas ela ungiu-Me os pés com perfume. 47Por isso te digo: Estão perdoados os seus muitos peca­dos, visto que manifestou muito amor. Mas aquele a quem pouco se perdoa pouco amor manifesta. 48Depois, disse-lhe a ela: Estão perdoados os teus pecados. 49Começaram então os convivas a dizer consigo: Quem é Este que até os pecados perdoa? 50E Jesus disse à mulher: Salvou-te a tua fé: vai em paz!

O Em seguida, ia caminhando por cidades e aldeias, a pregar e a anunciar a Boa Nova do Reino de Deus. 2Andavam com Ele os doze e algumas mulheres, que tinham sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades: Maria, que era chamada de Magdala e de quem tinham saído sete Demônios, 3Joana, mulher de Cuzá, adminis­trador de Herodes, Susana e muitas outras, que os serviam com os seus haveres.

Comentário

36-40. A mulher pecadora, movida sem dúvida pela graça, acorreu atraída pela pregação de Cristo e pelo que se dizia d’Ele. Os convidados punham-se à mesa apoiados sobre o braço esquerdo, em pequenos divas, de forma que os pés ficavam retirados para fora. Eram deveres de cortesia para com o hóspede dar-lhe o beijo de boas-vindas, ofere­cer-lhe água para lavar os pés e perfumes com que se ungisse.

41-50. Três coisas nos ensina Cristo na breve parábola dos dois devedores: a Sua divindade e o poder de perdoar os pecados; o mérito do amor da pecadora; e a descortesia que encerram os descuidos de Simão, que omitiu no convívio com Jesus os pormenores de urbanidade que se costumavam ter com os convidados. O Senhor não buscava esses porme­nores pelo valor que em si possuíam mas pelo carinho que eles expressavam, e por isso queixa-Se da falta de cortesia de Simão.

«(…) Jesus repara em todos esses pormenores de cortesia e de delicadeza humanas, que o fariseu não soube manifes­tar-Lhe. Cristo é perfectus Deus, perfectus homo (Símbolo Atanasiano), Deus, Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, e homem perfeito. Traz a salvação e não a destruição da natureza. Com Ele aprendemos que não é cristão compor­tar-se mal com o homem, criatura de Deus, feito à Sua imagem e semelhança (Gen 1, 26)»(Amigos de Deus, n° 73).

Além disso, o fariseu pensou mal ao julgar negativa­mente a pecadora e Jesus: Simão duvida do conhecimento que Cristo tem e murmura interiormente. O Senhor, que conhecia os segredos dos corações dos homens (manifes­tando assim a Sua divindade), intervém para lhe indicar o seu descaminho. A verdadeira justiça, diz-nos São Gregório Magno (cfrIn Evangeliahomiliae, 33), tem compaixão; a falsa, pelo contrário, indigna-se. Muitos são como esse fa­riseu: esquecendo a sua condição, passada ou presente, de pobres pecadores, quando veem os pecados dos outros, imedia­tamente, sem piedade, deixam-se levar pela indignação, ou apressam-se a julgar, ou riem-se ironicamente deles. Não pensam nas frases de São Paulo: «O que crê estar de pé, veja que não caia» (1Cor 10,12). «Irmãos, se porventura alguém é achado em alguma falta, vós, que sois espirituais, corrigi-o com espírito de mansidão (…).Levai os fardos uns dos outros, e assim cumprireis a lei de Cristo» (Gal 6,1-2).

Devemos esforçar-nos para que a caridade presida a todos os nossos juízos. Se não, facilmente seremos injustos com os outros: «Não queiramos julgar. — Cada qual vê as coisas do seu ponto de vista… e com o seu entendimento, bem limitado quase sempre, e com os olhos obscuros 6u enevoados, com trevas de exaltação muitas vezes (…).

«Como valem pouco os juízos dos homens! — Não jul­gueis sem joeirar o vosso juízo na oração»(Caminho, n° 451).

A caridade e a humildade far-nos-ão ver nos pecados dos outros a nossa própria condição débil e desprotegida, e ajudar-nos-ão a unir-nos do coração à dor de todo o pecador que se arrepende, porque também nós cairíamos em iguais ou mais graves pecados se a divina piedade não estivesse» misericordiosamente junto de nós.

«O Senhor — conclui Santo Ambrósio — amou não o unguento, mas o carinho; agradeceu a fé, louvou a humildade.E tu também, se desejas a graça, aumenta o teu amor; derrama sobre o corpo de Jesus a tua fé na Ressurreição, os perfume da Igreja santa e o unguento da caridade com os outros»(ExpositioEvangelii sec. Lucam, ad loc.).

  1. O homem não pode merecer o perdão dos pecados porque, sendo Deus o ofendido, a sua gravidade torna-se’ infinita. É necessário o sacramento da Penitência, com que ‘ Deus nos perdoa pelos méritos infinitos de Jesus Cristo; só há uma condição indispensável para alcançar o perdão de Deus: o nosso amor, o nosso arrependimento. Perdoa-se-nos na medida em que amamos; e quando o nosso coração está cheio de amor já não há nele lugar para o pecado, porque então demos lugar a Jesus, que nos diz como a esta mulher: Ficam perdoados os teus pecados. O arrependimento é mostra de que amamos a Deus. Mas Deus é que nos amou primeiro (cfr 1Ioh 4,10). Quando Deus nos perdoa mani­festa o Seu amor por nós. O nosso amor a Deus, pois, é sempre de correspondência, depois do Seu. O perdão divino faz crescer o nosso agradecimento e o nosso amor por Ele. «Ama pouco — comenta Santo Agostinho — aquele que é perdoado em pouco. Tu, que dizes não ter cometido muitos pecados, por que não os fizeste? (…). É por te ter Deus levado pela mão (…). Nenhum pecado, com efeito, comete um homem que não possa fazê-lo também outra pessoa se Deus, que fez o homem, não o segura pela Sua mão»(Sermo99,6). Por conseguinte, devemos amar, enamorar-nos cada dia mais do Senhor, não só porque nos perdoa os nossos peca­dos, mas também porque nos preserva, com a ajuda da Sua graça, de os cometer.
  2. Jesus Cristo declara que a fé levou aquela mulher a prostrar-se aos Seus pés e a mostrar-Lhe o seu arrependi­mento; este arrependimento mereceu-lhe o perdão. Da mesma maneira nós, ao aproximar-nos do sacramento da Penitência, devemos reavivar a nossa fé em que «a confissão sacramental não é um diálogo humano; é um colóquio divino; é um tribunal de segura e divina justiça e, sobretudo, de misericórdia, com um juiz amoroso que não deseja a morte do pecador, mas que ele se converta e viva (Ez XXXIII, 11)» (Cristo que passa,n° 78).

1-3. Em várias ocasiões nos fala o Evangelho de mulheres que acompanhavam o Senhor. São Lucas recolhe aqui o nome de três: Maria, chamada Madalena, a quem Cristo ressuscitado aparece junto do sepulcro (Ioh 20,11-18: Mc 16,9); Joana, de posição remediada, que se encontra também entre as que acorrem ao sepulcro na manhã da Ressurreição (Lc 24,10) e Susana, da qual não temos ne­nhuma outra notícia no Evangelho. A missão destas mulheres consistia em ajudar com os seus bens e com o seu trabalho a Jesus e aos discípulos. Deste modo correspondiam com agradecimento aos benefícios que tinham recebido de Cristo, e cooperavam na tarefa apostólica.

Na Igreja a mulher e o homem gozam de igual dignidade. Dentro desta dignidade comum há na mulher, sem dúvida, características peculiares que se hão-dereflectir necessa­riamente no seu papel dentro da Igreja: «Todos os baptizados — homens e mulheres — participam igualmente da comum dignidade, liberdade e responsabilidade dos filhos de Deus (…). A mulher é chamada a levar à família, à sociedade civil, à Igreja, alguma coisa de característico, que lhe é próprio e que só ela pode dar: a sua delicada ternura, a sua generosidade incansável, o seu amor ao concreto, a sua agudeza de engenho, a sua capacidade de intuição, a sua piedade profunda e simples, a sua tenacidade… A femini­lidade não é autêntica se não reconhece a formosura dessa contribuição insubstituível e não a incorpora na própria vida»(Temas Actuais do Cristianismo, nos 14 e 87).

O Evangelho põe em realce a generosidade das santas mulheres. E formoso pensar que o Senhor quis apoiar-Se nesta caridade, e que elas souberam corresponder-Lhe com um desprendimento tão delicado e generoso, que provoca na mulher cristã «uma santa inveja, cheia de eficácia» (cfr Caminho, n°981).

13.06.2016 –Mt 5, 38-42

38Ouvistes que foi dito: Olho por olho, dente por dente. 39Eu, porém, digo-vos que não resistais ao mau; mas, se alguém te ferir na face direita oferece-lhe também a outra. 40E a quem quiser pleitear contigo para te tirar a túnica, larga-lhe também a capa. 41E se alguém te requisitar por uma milha, vai com ele duas. 42Dá a quem te pede e não voltes as costas a quem te pede emprestado.

Comentário

38-42. Entre os antigos semitas, dos quais procede o povo hebraico, imperava a lei da vingança. Isto dava lugar a intermináveis lutas e crimes. A lei de talião constituiu naqueles primeiros séculos do povo eleito um avanço ético, social e jurídico notório. Esse avanço consistia em que o castigo não podia ser maior que o delito, e que cortava pela raiz toda a reiteração punitiva. Com isso, por um lado, ficava satisfeito o sentido da honra dos clãs e famílias e, por outro, cortava-se a interminável cadeia de vinganças.

Na moral do Novo Testamento Jesus dá o avanço defini­tivo, no que desempenha um papel fundamental o sentido do perdão e a superação do orgulho. Sobre estas bases morais e a defesa razoável dos direitos pessoais deve esta­belecer-se todo o ordenamento jurídico para combater o mal no mundo. Os três últimos versículos referem-se à caridade mútua entre os filhos do Reino; caridade que pressupõe e impregna a justiça.

14.06.2016 –Mt 5, 43-48

43Ouvistes que foi dito: Ama o teu próximo e odeia o teu inimigo. 44Eu, porém, digo-vos: Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; 45para serdes filhos de vosso Pai que está nos Céus, o qual faz nascer o sol sobre maus e bons, e chover sobre justos e injustos. 46Porque, se amais os que vos amam, que recompensa mereceis? Porventura não fazem o mesmo também os publicanos? 47E se saudais só os vossos irmãos, que fazeis nisso de extraordinário? Porventura não fazem o mesmo também os gentios? 48Sede, pois, vós perfeitos como é perfeito vosso Pai celeste.

Comentário

  1. A primeira parte do versículo «ama p teu próxi­mo», está em Levítico 19, 18. A segunda parte «odeia o teu inimigo», não vem na Lei de Moisés. As palavras de Jesus, contudo, aludem a uma interpretação generalizada entre os rabinos da Sua época, os quais entendiam por próximo só os Israelitas. O Senhor corrige esta falsa interpretação da Lei, entendendo por próximo todo o homem (cfr a parábola do bom samaritano em Lc 10,25-37). 43-47. O passo recapitula os ensinamentos anteriores. O Senhor chega a estabelecer que o cristão não tem inimigos pessoais. O seu único inimigo é o mal em si, o pecado, mas não o pecador. Esta doutrina foi levada à prática pelo próprio Jesus Cristo com os que O crucificaram, e é a que segue todos os dias com os pecadores que se rebelam contra Ele e O desprezam. Por isso os santos seguiram o exemplo do Senhor, como o primeiro mártir Santo Estêvão, que orava pelos que lhe estavam a dar a morte. Chegou-se ao cume da perfeição cristã: amar e rezar até pelos que nos persigam e caluniem.

Este é o distintivo dos filhos de Deus.

  1. «Publicanos»: Eram os cobradores de impostos. O Império Romano não tinha funcionários próprios para este serviço, mas entregava-o a determinadas pessoas do país respectivo. Estas podiam ter empregados subalternos (daí que por vezes se fale de «chefe de publicanos», como é o caso dê Zaqueu; cfr Lc 19, 2). A quantidade genérica do imposto para cada região era determinada pela autoridade romana. Os publicanos cobravam uma sobretaxa, da qual viviam, e que se prestava a arbitrariedade; por isso normalmente eram Odiados pelo povo. Além disso, no caso dos Judeus, agregava-se a nota infamante de espoliar o povo eleito em favor dos gentios. 48. O versículo 48 resume, de algum modo, todos os ensinamentos do capítulo, incluídas as Bem-aventuranças. Em sentido estrito é impossível que a criatura tenha a perfeição de Deus. Portanto, o Senhor quer dizer aqui que a perfeição divina deve ser o modelo para o qual há-de tender o fiel cristão, sabendo que há uma distância infinita em relação ao seu Criador. Isto, porém, não rebaixa nada a força deste mandamento, mas, pelo contrário, ilumina-o. Juntamente com a exigência deste mandato de Jesus Cristo, há que considerar a magnitude da graça que promete, para que sejamos capazes de tender, nada menos, que à perfeição divina. De qualquer modo a perfeição que havemos de imitar não se refere ao poder e à sabedoria de Deus, que superam por completo as nossas possibilidades, mas nesta passagem, pelo contexto, parece referir-se sobretudo ao amor e à miseri­córdia. Neste sentido São Lucas refere-nos as seguintes palavras do Senhor: «Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso» (Lc 6, 36; cfr nota a Lc 6, 20-49,).

Como se vê, a «chamada universal à santidade» não é uma sugestão, mas um mandamento de Jesus Cristo: «Tens obrigação de te santificar. — Tu, também. — Quem pensa que é tarefa exclusiva de sacerdotes e religiosos?

A todos, sem excepção, disse o Senhor: ‘Sede perfeitos, como Meu Pai Celestial é perfeito’»(Caminho, n° 291). Doutrina que o Concilio Vaticano II sanciona no cap. 5 da Const. Lumen gentium, n. 40, donde tiramos estas palavras: «Jesus, mestre e modelo divino de toda a perfeição, pregou a santidade de vida, de que Ele é autor e consumador, a todos e a cada um dos Seus discípulos, de qualquer condição: ‘sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito’ (…). É, pois, claro a todos, que os cristãos de qualquer estado ou condição de Vida, são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade. Na própria sociedade terrena, esta santidade promove um modo de vida mais humano».

15.06.2016 – Mt 6, 1-6.16-18

Guardai-vos de praticar a vossa justiça diante dos homens, para serdes vistos deles. De outra sorte, não tereis recompensa junto do vosso Pai que está nos Céus.

2Portanto, quando deres esmola, não toques trombeta diante de ti, como fazem os hipó­critas nas sinagogas e nas ruas, para serem louvados dos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. 3Mas, quando tu deres esmola, não saiba a tua esquerda o que faz a direita, 4para que a tua esmola fique secreta, e teu Pai, que vê em lugar secreto, te recompensará.

5E quando orardes, não sejais como os hipócritas que gostam de orar de pé nas sinagogas e nos cantos das praças, para serem vistos dos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. 6Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta à chave e ora a teu Pai que está em lugar secreto. E teu Pai que vê em lugar secreto, te recompensará.

«16E quando jejuais, não andeis tristes, como os hipócritas pois desfiguram o rosto, para mostrarem aos homens que jejuam. Em verdade vos digo que receberam já a sua recompensa. 17Tu, porém, quando jejuas, perfuma a cabeça e lava o rosto, 18para não mostrares aos homens que jejuas, mas sim a teu Pai, que está em lugar secreto, e teu Pai, que vê em lugar secreto, te recompensará.

Comentário

1-18 «Justiça»: Aqui quer dizer boas obras (cfr a nota a Mt 5,6). Nosso Senhor ensina com que espírito se hão-de fazer os actos de piedade pessoal. A esmola, o jejum e a oração constituíam os actos fundamentais da piedade individual no povo escolhido; daqui que se centre nesses três temas. Jesus Cristo, como quem tem a autoridade máxima, ensina que a verdadeira piedade deve viver-se com rectidão de intenção, em intimidade com Deus e fugindo da ostentação. Esta piedade, assim vivida, supõe um exercício da fé em Deus que os vê, e da esperança de que premiará os que vivem uma piedade sincera.

5-6. A Igreja, seguindo esta doutrina de Jesus, sempre nós ensinou a rezar desde crianças no nosso aposento. Esse «tu» do Senhor (v. 6) está a indicar inequivocamente a necessidade da oração pessoal; cada um, a sós com Deus, como um filho que fala com o Pai.

A oração pública em que participam todos os fiéis é santa e necessária; mas não pode nunca substituir este terminante preceito do Senhor; tu, no teu aposento, fechada a porta, ora a teu Pai.

O Concilio Vaticano II recolhe os ensinamentos e a prática da Igreja na sua Liturgia, que é «a meta para a qual se encaminha a acção da Igreja e a fonte donde promana toda a sua força (…). A participação na sagrada Liturgia não esgota, todavia, a vida espiritual. O cristão, chamado a rezar em comum, deve entrar também no seu quarto para rezar a sós ao Pai, e até, segundo ensina o Apóstolo, deve rezar sem cessar (lThes 5,17) (SacrosanctumConcilium, nn. 10.12).

A alma que realmente vive a sua fé cristã sabe que necessita de se retirar frequentemente para orar a sós com seu Pai Deus. Jesus, que nos dá este ensinamento acerca da oração, praticou-o na Sua vida terrena: o santo Evangelho refere-nos as muitas vezes que o Senhor Se retirava sozinho para orar: «Às vezes, passava a noite inteira ocupado em colóquio íntimo com o Pai. Como cativou os primeiros discípulos a figura de Cristo em oração!» (Cristo que passa n° 119)(cfr Mt 14, 23; Mc 1, 35; Lc 5, 16; etc.). Os Apóstolos seguiram o exemplo do Mestre, e assim vemos Pedro que sobe ao terraço da casa em que se aloja em Jope, para se retirar a orar a sós, e ali recebe uma revelação (cfrAct 10, 9-16). «A vida de oração tem de fundamentar-se, além disso, em pequenos espaços de tempo, dedicados exclusivamente a ‘estar com Deus.São momentos de colóquio sem ruído de palavras»(Cristo que passa, n° 119).

16-18. Partindo da prática tradicional do jejum, o Senhor inculca-nos o espírito com que devemos viver a necessária mortificação dos sentidos: temos de fazê-la sem ostentação, evitando o aplauso dos homens, discretamente; assim não poderão aplicar-se contra nós essas palavras de Jesus: «Já receberam a sua recompensa», pois seria um triste negócio. «O mundo só admira o sacrifício com espectáculo porque ignora o valor do sacrifício escondido e silencioso» (Caminho, n.° 185).

16.06.2016 – Mt 6, 6-15

6Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta à chave e ora a teu Pai que está em lugar secreto. E teu Pai que vê em lugar secreto, te recompensará. 7E, na oração, não sejais palavrosos como os gentios, pois ima­ginam que hão-de ser ouvidos pela sua verbosidade. 8Não vos pareçais, pois, com eles, porque o vosso Pai sabe o que vos é necessário, antes de Lho pedirdes. 9Vós, pois, orai assim:

Pai nosso que estás nos Céus, santificado seja o Teu nome.

10Venha o Teu Reino. Seja feita a Tua vontade, assim na Terra como no Céu.

11O pão nosso de cada dia nos dá hoje.

12E perdoa-nos as nossas dívidas, como também nós perdoamos aos nossos devedores.

13E não nos metas em tentação, Mas livra-nos do mal.»

14Porque, se vós perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celeste vos perdoará a vós. 15Se, porém, não perdoardes aos homens, nem o Pai celeste perdoará as vossas ofensas.

Comentário

7-8. Jesus corrige os exageros supersticiosos de crer que são necessárias longas orações para que Deus nos escute. A verdadeira piedade não consiste tanto na quantidade de palavras como na frequência e no amor com que o cristão se volta para Deus nos acontecimentos, grandes ou pequenos, de cada dia. A oração vocal é boa e necessária, mas as palavras só têm valor enquanto exprimem o sentir do Coração.

9-13. O «Pai-nosso» é, sem dúvida, a página mais comentada de toda a fé. Os grandes escritores da Igreja deixaram-nos explicações cheias de piedade e sabedoria. Já os primeiros cristãos, «fiéis à recomendação do Salvador e seguindo os Seus divinos ensinamentos», centraram a sua oração nesta fórmula sublime e simples de Jesus. E também os últimos cristãos elevarão o seu coração para dizer pela última vez o Pai-nosso quando estiverem prestes a ser levados para o Céu. Entretanto, desde criança até que deixa este mundo, o Pai-nosso é a oração que enche de consolação e de esperança o coração do homem. Bem sabia Jesus Cristo a eficácia que ia ter esta oração Sua. Graças sejam dadas a Nosso Senhor porque a compôs para nós, e também aos Apóstolos por no-la terem transmitido, e às nossas mães porque no-la ensinaram nas nossas primeiras balbuciadelas. É tão importante esta oração dominical, que desde os tempos apostólicos foi utilizada como base da catequese cristã, juntamente com o Credo ou Símbolo da fé, o Decálogo e os Sacramentos. A vida de oração era ensinada aos catecúmenos comentando o Pai-nosso. E. daí este costume passou para os nossos catecismos.

Santo Agostinho diz que esta oração do Senhor é tão perfeita, que em poucas palavras compendia tudo o que o homem possa pedir a Deus (cfrSermo56). Normalmente distinguem-se nela uma invocação e sete pedidos: três relativos à glória de Deus e quatro às necessidades dos homens.

  1. E grande consolação poder chamar «Pai nosso» a Deus. Se Jesus, o Filho de Deus, ensina os homens a que invoquem Deus como Pai é porque neles se dá esta realidade consoladora, a de ser e sentir-se filhos de Deus.

«O Senhor (…) não é um dominador tirânico, nem um juiz rígido e implacável: é nosso Pai. Fala-nos dos nossos pecados, dos nossos erros, da nossa falta de generosidade, mas é para nos livrar deles e nos prometer a Sua amizade e o Seu amor (…). Um filho de Deus trata o Senhor como Pai. Não servilmente, nem com uma reverência formal, de mera cortesia, mas cheio de sinceridade e de confiança»(Cristo que passa, n° 64).

«Santificado seja o Teu nome»: Na Bíblia o nome equivale à própria pessoa. Aqui nome de Deus é o próprio Deus. Que sentido tem pedir que Deus seja santificado? Não pode sê-lo à maneira humana: afastando-se progressivamente do mal e aproximando-se do bem, visto que Deus é a própria santidade. Pelo contrário, Deus é santificado quando a Sua Santidade é reconhecida e honrada pelas Suas criaturas. Este é o sentido que tem o primeiro pedido do «Pai-nosso» (cfr Catecismo Romano, IV, 10).

  1. «Venha o Teu Reino»: Chegamos aqui outra vez à ideia central do evangelho de Jesus Cristo: a vinda do Reino. O Reino de Deus identifica-se tão plenamente com a obra de Jesus Cristo, que o Evangelho é chamado indiferentemente evangelho de Jesus Cristo ou evangelho do Reino (Mt 9, 35). Sobre o conceito de Reino de Deus veja-se o comentário a Mt 3, 2; 4, 17. O advento do Reino de Deus é a realização do desígnio salvador de Deus no mundo. O Reino de Deus esta­belece-se em primeiro lugar no mais íntimo do homem, elevando-o à participação da própria vida divina. Esta elevação tem como que duas etapas: a primeira na terra, que se realiza pela graça; e a segunda, definitiva, na vida eterna, que será a plenitude da elevação sobrenatural do homem. Tudo isso exige de nós uma submissão espontânea, amorosa e confiada a Deus.

«Seja feita a Tua vontade»: Este terceiro pedido exprime um desejo duplo. Primeiro, a identificação do homem com a vontade de Deus, de modo rendido e incondicional; é a expressão do abandono nas mãos de seu Pai Deus. Segundo, o cumprimento daquela vontade divina, que reclama a livre cooperação humana. Este é o caso, por exemplo, da lei divina no aspecto moral, pela qual Deus manifesta a Sua vontade, mas sem a impor à força. Uma das manifestações da vinda do Reino de Deus é o cumprimento amoroso da vontade divina por parte do homem. A segunda parte da frase «assim na Terra como no Céu » quer dizer: assim como no céu os anjos e os santos estão totalmente identificados com a vontade de Deus, de modo semelhante se deseja que isso aconteça já aqui na terra.

A luta por cumprir a vontade de Deus é o sinal de que somos sinceros quando pronunciamos as palavras: «venha o Teu Reino». Porque diz o Senhor: «Nem todo o que Me diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino dos Céus, mas o que faz a vontade de Meu Pai que está nos Céus» (Mt 7, 21). «Quem de veras tiver dito esta palavra: ‘Fiat voluntas tua’, tem de ter feito tudo, com a determinação pelos menos» (Caminho de perfeição, cap. 63, n° 2).

  1. Neste quarto pedido, o que ora tem em conta em primeiro lugar as necessidades da vida presente. A importância desta súplica consiste em que os bens mate­riais, necessários para viver, são declarados lícitos. Exprime-se um profundo sentido religioso da manutenção da vida: o que o discípulo de Cristo alcança com o seu próprio trabalho também o deve implorar de Deus e recebê-lo como um dom divino; Deus é quem mantém a vida. Ao pedir a Deus o próprio sustento e considerar que este vem das mãos divinas, o cristão afasta de si a angustiosa preocupação pelas neces­sidades materiais. Jesus quer que pecamos não a riqueza ou o gozo desses bens, mas a posse austera do necessário. Daí que, tanto em Mateus como em Lucas (Lc 11, 2), se fale do alimento suficiente para cada dia. O quarto pedido dirige-se, pois, a uma moderação do alimento e dos bens necessários, afastada dos extremos de opulência e miséria, como já tinha ensinado Deus no AT:

«Não me dês pobreza nem riqueza, concede-me o pão que me é necessário, para que, saciado, não te renegue, e não diga: ‘Quem é o Senhor’?

Ou, empobrecido, não roube e não profane o nome do meu Deus» (Prv 30,8-9)

Os Santos Padres interpretaram o pão que aqui se pede, não só como o alimento material, mas também viram significada a Santíssima Eucaristia, sem a qual não pode viver o nosso espírito.

Segundo o Catecismo Romano (cfr IV, 13, 21), as razões para que se chame à Eucaristia pão nosso quotidiano são: Que cada dia se oferece a Deus na Santa Missa, e que devemos recebê-lo dignamente, sendo possível todos os dias, segundo Aconselho de Santo Ambrósio: «Se o pão é diário, por que o recebes tu apenas uma vez por ano? Recebe todos os dias o que todos os dias te é proveitoso; vive de modo que diariamente sejas digno de o receber» (De Sacramentis, V, 4).

  1. «Dívida» tem aqui claramente o sentido de pecado. Com efeito, no dialecto aramaico do tempo de Jesus utilizava-se a mesma palavra para designar ofensa ou dívida. No Quinto pedido reconhecemos, pois, a nossa situação de Devedores por termos ofendido a Deus. Na revelação do AT é frequente a recordação da condição pecadora do homem. Inclusive os «justos» são também pecadores. Reconhecer os nossos pecados é o princípio de toda a conversão a Deus. Não SC trata apenas de reconhecer antigos pecados nossos, mas de confessar a nossa actual condição de pecadores. Esta mesma condição faz-nos sentir a necessidade religiosa de recorrer ao único que pode remediá-la, Deus. Daqui a conveniência de rezar insistentemente, com a oração do Senhor, para alcançar da misericórdia divina uma e outra vez o perdão dos nossos pecados.

A segunda parte deste pedido é uma chamada séria a perdoar aos nossos semelhantes: como nos atrevemos a pedir perdão a Deus, se não estamos dispostos a perdoar aos outros! O cristão deve ser consciente das exigências desta oração, que há-de rezar com todas as suas consequências: não querer perdoar a outro é condenar-se a si mesmo (vide nota a Mt 5, 23-24 e 18,21-35).

  1. «E não nos deixes cair na tentação»: «Não pedimos aqui para não sermos tentados, porque a vida do homem na terra é milícia (Iob 7, 1)… Que é, pois, o que aqui pedimos? Que, sem nos faltar o auxílio divino, não consintamos por erro nas tentações, nem cedamos a elas por desalento; que esteja pronta em nosso favor a graça de Deus, a qual nos console e fortaleça quando nos faltem as próprias forças»(Catecismo Romano, IV, 15,14).

Reconhecemos nesta súplica do Pai-nosso a nossa debi­lidade para lutar contra a tentação só com as forças humanas. Isto deve levar-nos a recorrer com humildade a Deus, para receber d’Ele a fortaleza necessária. Porque «muito forte é Deus para livrar-te de tudo, e pode fazer-te mais bem do que mal todos os demônios. Deus quer somente que te fies d’Ele, que te arrimes a Ele, que confies n’Ele e desconfies de ti mesmo, e desta maneira há-de ajudar-te e com a Sua ajuda vencerás todo o inferno que venha contra ti. Desta firme esperança não te deixes cair, porque Se irritará com isso, nem porque os demônios sejam muitos e muitas as tentações e bravas e de muitas maneiras. Está sempre arrimado a Ele, porque se este arrimo e força não tens com o Senhor, logo cairás e temerás qualquer coisa» (Sermones, 9, Domingo I de Quaresma).

«Mas livra-nos do mal»: Neste pedido, que de algum modo resume todos os anteriores, rogamos ao Senhor que nos livre de tudo aquilo que o nosso inimigo faz contra nós para perder-nos; e não nos poderemos livrar dele se o próprio Deus não nos livra, concedendo a Sua assistência aos nossos rogos.

Igualmente poderia traduzir-se por «mas livra-nos do Mau», quer dizer, do maligno, do demônio, que é a origem, em última instância, de todos os nossos males.

Ao fazermos este pedido podemos estar seguros de ser ouvidos, porque Jesus Cristo, estando para sair deste mundo, rogava ao Pai pela salvação dos homens com estas palavras: «Não peço que os tires do mundo, mas que os guardes do Maligno» (Ioh 17,15).

14-15. São Mateus conserva nos vv. 14 e 15 como um comentário de Nosso Senhor à quinta petição do Pai-nosso.

Que maravilha é Deus que perdoa! Mas se Deus, três vezes Santo, tem misericórdia do pecador, quanto mais nós, pecadores, que sabemos por experiência própria da miséria do pecado, devemos perdoar aos outros. Não há ninguém perfeito na terra. Assim como Deus nos ama, mesmo com os nossos defeitos, e nos perdoa, nós também devemos amar os outros, mesmo com os seus defeitos, e perdoar-lhes. Se esperamos amar os que não têm defeitos, nunca amaremos ninguém. Se esperamos que se corrijam ou se desculpem os outros primeiro, quase nunca perdoaremos. Mas então, também nós não seremos perdoados. «De acordo: aquela pessoa tem sido má contigo. — Mas não tens sido tu pior com Deus?» (Caminho. n°686). Perdoando àqueles que nos têm ofendido tornamo-nos, pois, semelhantes ao nosso Pai Deus: «No facto de amar os inimigos, vê-se claramente certa semelhança com o nosso Pai Deus, que reconciliou consigo o gênero humano, que era muito inimigo e contrário Seu, redimindo-o da condenação eterna por meio da morte do Seu Filho» (Catecismo Romano, IV, 14,19).

17.06.2016 –Mt 6, 19-23

19Não entesoireis na terra, onde a traça e a Confiança ferrugem destroem e os ladrões arrombam e roubam. 20Entesoirai antes tesoiros no Céu, onde nem a traça nem a ferrugem destroem, e os ladrões não arrombam nem roubam. 21 Porque onde está o teu tesoiro, aí está o teu coração. 22Acandeia do corpo é o olho. Se, pois, o teu olho estiver são, todo o corpo terá luz. 23Mas se o teu olho estiver doente, todo o teu corpo estará em trevas. Ora se a luz que em ti há é treva, quão grande a treva não será…

Comentário

19-21. A ideia é clara: o coração do homem anela por um tesouro em cuja posse pensa encontrar a segurança e a felicidade. Não obstante, todo o tesouro composto de bens da terra, de riquezas, de dinheiro, transforma-se numa contínua fonte de preocupações, porque está exposto ao perigo de perder-se, ou porque a sua defesa leva consigo uma tensão cheia de desgostos, e de dissabores. Jesus, pelo contrário, ensina aqui que o verdadeiro tesouro são as obras boas e o comportamento recto, que serão premiadas por Deus no Céu eternamente. Esse sim que é um tesouro que não se perde! É aí que o discípulo de Cristo deve pôr o seu coração.

Jesus encerra os ensinamentos dos versículos precedentes com uma frase a modo de refrão (v. 21). Com esta doutrina Jesus não quer dizer que o homem deva despreocupar-se das coisas da terra. O que nos ensina é que nenhuma coisa criada pode ser «o tesouro», o fim último do homem. Pelo contrário, o homem, usando rectamente das coisas nobres da terra, percorre o caminho para Deus, santifica-se e dá ao Senhor toda a glória: «Quer comais, quer bebais ou façais qualquer coisa, fazei-o tudo para a glória de Deus» (l Cor 10, 31; cfrCol 3, 17).

22-23. Nestes versículos temos outra pequena joia da doutrina sapiencial de Jesus. Começa com uma sentença que imediatamente é explicada. O Mestre emprega a imagem do olho como lamparina do corpo ao qual dá luz. A exegese cristã viu nesse «olho» e nessa «lâmpada» a intencionalidade dos nossos actos. São Tomás explica-o assim: «Com o olho é significada a intenção. O que quer fazer uma coisa, primeiro pretende-a: assim, se a tua intenção é luminosa — simples, transparente —, quer dizer, encaminhada para Deus, todo o teu corpo, ou seja, todas as tuas acções serão luminosas, dirigidas sinceramente para o bem» (Comentário sobre S. Mateus, 6, 22-23).

18.06.2016 –Mt 6, 24-34

24Ninguém pode servir a dois senhores, porque, ou há-de aborrecer um e amar o outro, ou ser dedicado a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e à riqueza.

25Por isso vos digo: Não vos preocupeis pela vossa vida: que haveis de comer ou que haveis de beber; nem pelo vosso corpo: que haveis de vestir. Porventura não vale mais a vida do que o alimento, e o corpo mais do que o vestido? 26Vede as aves do céu, que não semeiam nem ceifam nem enceleiram, e, contudo, vosso Pai celeste as sustenta. Não sois vós, porventura, muito mais do que elas? 27E quem de vós, com todas as suas preocupações, poderá acrescentar um côvado à sua vida? 28E quanto ao vestido, porque vos preocupais? Reparai nos lírios do Campo: como crescem!… e não trabalham nem fiam. 29Ora Eu vos digo que nem Salo­mão, em toda a sua magnificência, se vestiu como um deles. 30Pois, se à erva do campo que hoje é e amanhã se lança no forno, Deus a. veste, quanto mais a vos, homens de pouca fé? 31Náo andeis, pois, preocupados, dizendo: que havemos de comer ou que havemos de beber ou que havemos de vestir? 32Os gentios é que se afanam por estas coisas; bem sabe vosso Pai celeste que vós precisais de todas elas.

33Buscai primeiramente o Reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas se vos darão por acréscimo. 34Por isso, não vos preocupeis com o dia de amanhã, pois que o dia de amanhã se preocupará de si mesmo. Basta a cada dia o seu afã.

Comentário

  1. O fim último do homem é Deus. Por este fim o homem deve entregar todo o seu ser. De facto, porém, há quem não ponha em Deus o seu fim último, mas nas riquezas. Neste caso, as riquezas convertem-se no seu deus. O homem não pode dividir-se entre dois fins absolutos e contrários.

25-32. Nesta belíssima página Jesus põe em relevo o valor das realidades correntes da vida. Ao mesmo tempo ensina-nos a pôr a nossa confiança na providência paternal de Deus. Com exemplos e comparações simples, tomados da vida quotidiana, inculca o abandono sereno nas mãos de Deus.

  1. Onde se diz «vida», pode dizer-se também «estatura», mas seria versão mais afastada do texto (cfr Lc 12,25). A palavra «côvado» significa uma medida de espaço aplicável também ao tempo metaforicamente.
  2. Uma vez mais a justiça do Reino de Deus aparece como a vida de graça no homem; o que leva consigo todo um conjunto de atitudes espirituais e morais, e pode resumir-se no conceito de «santidade». A busca da santidade é a primeira coisa que se deve intentar nesta vida. De novo Jesus insiste na primazia das exigências espirituais. Afirma Sua Santidade o Papa Paulo VI, comentando este passo: «Porquê a pobreza? Para dar a Deus, ao Reino de Deus o primeiro lugar na escala de valores que são objecto das aspirações humanas. Diz Jesus: ‘Buscai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça’; e di-lo em comparação com todos os outros bens temporais, inclusive necessários e legítimos, que normalmente empenham os desejos humanos. A pobreza de Cristo torna possível este desprendimento afectivo das coisas terrenas para pôr à frente das aspirações humanas a relação com Deus»(Audiência geral Paulo VI, 5-1-1977).
  3. O Senhor exorta-nos a viver com serenidade cada dia, eliminando preocupações inúteis pelo que aconteceu ontem ou pelo que possa acontecer amanhã. É a sabedoria que se apoia na providência paternal de Deus e na própria experiência quotidiana: «O que observa o vento não semeia; é O que examina as nuvens não cega» (Eccl 11,4).

O importante, o que está nas nossas mãos, é viver diante de Deus e com intensidade o momento presente: «Porta-te bem’agora’, sem te lembrares de ‘ontem’, que já passou, e sem te preocupares com o ‘amanhã’, que não sabes se chegará para ti» (Caminho, n°253).

19.06.2016 –Lc9, 18-24

18Uma vez que rezava em particular, estando os discípulos com Ele, interrogou-os, nestes termos: Quem dizem as mul­tidões que Eu sou? 19Disseram eles, em resposta: João Baptista; outros, Elias, e outros que ressuscitou um dos antigos pro­fetas. 20Disse-lhes Ele: E vós quem dizeis que Eu sou? Pedro tomou então a palavra e respondeu: O Messias de Deus. 21Mas Ele, em tom severo, ordenou-lhes que a ninguém o dissessem, 22e acrescentou: O Filho do homem tem de sofrer muito, ser rejeitado por parte dos Anciãos, dos Sumos Sacer­dotes e dos Escribas, ser morto e, ao terceiro dia, ressuscitar.

23Então pôs-Se a dizer para todos: Se alguém quer vir após Mim, renegue-se a si mesmo, tome a sua cruz todos os dias e siga-Me. 24Pois quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á, mas quem perder a sua vida por Minha causa, esse há-de salvá-la.

Comentário

  1. «Cristo» significa ungido e é nome de honra e de ofício. Na Antiga Lei ungiam-se os sacerdotes (Ex 29,7 e 40,13) e os reis (1Sam 9,16), a quem Deus tinha mandado que se ungisse pela dignidade do seu cargo; também houve o costume de ungir os profetas (l Sam 16,13) enquanto eram intérpretes e intermediários de Deus. «Mas ao vir ao mundo Jesus Cristo, nosso Salvador, recebeu o estado e as obriga­ções dos três ofícios de sacerdote, rei e profeta, e por esta causa foi chamado Cristo» (Catecismo Romano, 1,3,7).
  2. O Senhor profetizou a Sua Paixão e Morte para facilitar a fé dos discípulos. Ao mesmo tempo manifesta a voluntariedade com que aceita os sofrimentos. «Cristo não quis glorificar-Se, mas desejou vir sem glória para padecer o sofrimento; e tu, que nasceste sem glória, queres glorificar-te? Pelo caminho que Cristo percorreu é por onde tu deves caminhar. Isto é reconhecê-Lo, isto é imitá-Lo tanto na ignomínia como na boa fama, para que te glories na Cruz, como Ele próprio Se glorificou. Tal foi o comportamento de Paulo e por isso se gloria ao dizer: ‘Longe de mim gloriar-me a não ser na Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo’ (Gal 6,14)» (ExpositioEvangelii sec. Lucam, ad loc).
  3. «Cristo repete-o a cada um de nós, ao ouvido, inti­mamente: a Cruz de cada dia. Não só — escreve São Jerónimo — em tempo de perseguição ou quando se apresente a possibili­dade do martírio, mas em todas as situações, em todas as actividades, em todos os pensamentos, em todas as palavras, neguemos aquilo que antes éramos e confessemos o que agora somos, visto que renascemos em Cristo (Epístola 121,3) (…). Vedes? A cruz de cada dia. Nulla dies sinecruce, nenhum dia sem Cruz: nenhum dia que não carreguemos com a Cruz do Senhor, em que não aceitemos o Seu jugo»(Cristo que passa, nos 58 e 176). «E muito certo que aquele que ama os prazeres, que busca as suas comodidades, que foge das ocasiões de sofrer, que se inquieta, que murmura, que repreende e se impacienta porque a coisa mais insignificante não corre segundo a sua vontade e o seu desejo, tal pessoa, de cristão só tem o nome; somente serve para desonrar a sua religião, pois Jesus Cristo disse: aquele que queira vir após Mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz todos os dias da vida, e siga-Me» (Sermões escolhidos, Quarta Feira de Cinzas).

A Cruz não só deve estar presente na vida de cada cristão, mas também em todas as encruzilhadas do mundo: «Que formosas essas cruzes no cimo dos montes, no alto dos grandes monumentos, no pináculo das catedrais!… Mas também é preciso inserir a Cruz nas entranhas do mundo. «Jesus quer ser levantado ao alto, aí: no ruído das fábricas e das oficinas, no silêncio das bibliotecas, no fragor das ruas, na quietude dos campos, na intimidade das famí­lias, nas assembleias, nos estádios…Onde quer que um cristão gaste a sua vida honradamente, aí deve colocar, com o seu amor, a Cruz de Cristo, que atrai a Si todas as coisas»(Via Sacra, XI, n° 3).

24.06.2016 –Mt 7, 1-5

Não julgueis, para não serdes julgados. 2Porque, com o juízo com que julgardes, sereis julgados e com a medida com que medirdes, vos será medido.

3Porque vês o argueiro no olho do teu irmão e não advertes na trave que tens no teu? 4Ou como ousas dizer a teu irmão: deixa-me tirar o argueiro do teu olho, tu que tens uma trave no teu? 5Hipócrita! Tira primeiro a trave do teu olho e então verás bem, para tirar o argueiro do olho de teu irmão.

Comentário

1-2. Como noutros lugares, os verbos na voz passiva («serdes julgados», «vos será medido») têm como sujeito Deus, ainda que não esteja explicitamente dito: «Não jul­gueis os outros e não sereis julgados por Deus». É claro que o juízo de que se fala aqui é sempre um juízo condenatório; portanto, se não queremos ser condenados por Deus, não condenemos nunca o próximo. «Pois Deus mede como me­dimos e perdoa como perdoamos, e socorre-nos da maneira e com as entranhas com que nos vê socorrer» (Exposição do livro de Job, cap. 29).

  1. Jesus condena aqui o juízo que fazemos temerariamente acerca dos nossos irmãos, quando por ligeireza ou por malvadez julgamos pejorativamente acerca do seu comportamento, dos seus sentimentos ou das suas intenções. O malicioso dito «pensa mal e acertarás» está contra a doutrina de Jesus Cristo.

São Paulo, ao falar da caridade cristã, assinala como notas salientes: «a caridade é paciente, é benigna…não pensa mal… tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo tolera» (1Cor 13, 4.5.7.). Por isso: «Não admitas um mau pensamento acerca de ninguém, mesmo que as palavras ou obras do interessado deem motivo para assim julgares razoavelmente» (Caminho, n° 442). « Não queiramos julgar. — Cada qual vê as coisas do seu ponto de vista… e com o seu entendimento, bem limitado quase sempre, e com os olhos obscuros ou enevoados, com trevas de exaltação muitas vezes» (Caminho, n°451).

3-5. O que tem a vista deformada vê deformadas as coisas, ainda que estas sejam correctas. Já Santo Agostinho dava este conselho: «Procurai adquirir as virtudes que credes que faltam nos vossos irmãos, e já não vereis os seus defeitos, porque não os tendes vós» (Enarrationes in Psalmos, 30, 2, 7). Neste caso, o refrão popular «julga o ladrão que todos são da sua condição» concorda com esta doutrina de Jesus Cristo. Por outro lado: «Fazer crítica, destruir, não é difícil: o Último aprendiz de pedreiro sabe assestar a sua ferramenta na pedra nobre e bela de uma catedral.» — Construir: eis o trabalho que exige mestres»(Caminho, n°456).

21.06.2016 –Mt 7, 6.12-14

6Não deis as coisas santas aos cães, nem Respeito deiteis as vossas pérolas aos porcos, não seja caso que eles as calquem aos pés e, voltando-se, vos despedacem.

12Tudo aquilo, pois, que quereis que os A outros vos façam a vós, fazei-o também vós a eles, porque esta é a Lei e os Profetas.

13Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçosa a via que leva à perdição, e são muitos os que entram por ela. 14quão estreita é a porta, e apertada a via que leva à vida! E são poucos os que dão com ela.

Comentário

  1. Nesta breve fórmula, a modo de sentença, Jesus ensina um discernimento prudente na pregação da palavra deDeus e na entrega dos meios de santificação. A Igreja, já desde o princípio, teve em conta esta advertência, que se manifesta especialmente no respeito com que rodeou a administração dos sacramentos e, de modo singular, a Santíssima Eucaristia. A confiança filial não exime do sincero e profundo respeito com que se deve tratar tanto Deus como as coisas santas.
  2. A sentença de Jesus, chamada «regra de ouro», oferece um critério prático para reconhecer o alcance das nossas obrigações e da nossa caridade para com os outros. Mas uma consideração superficial correria o risco de mudá-lo num móbil egoísta do nosso comportamento: não se trata, evidentemente, de um do ut dês («dou-te para que me dês»), mas de fazer o bem aos outros sem pôr condições, como em boa lógica as não pomos no amor a nós mesmos. Esta regra prática ficará completada com o «mandamento novo» de Jesus Cristo (Ioh 13, 34), onde nos ensina a amar os outros como Ele mesmo nos amou.

13-14. «Entrai»: Este verbo no Evangelho de São Mateus têmfrequentemente como termo o «Reino dos Céus» ou as Suas expressões equivalentes (a Vida, o banquete nupcial, o gozo do Senhor, etc.). Podemos interpretar que «entrai» Constitui um convite imperioso. A senda do pecado é momentaneamente prazenteira e não requer esforço, mas a sua meta é a perdição eterna. Pelo contrário, percorrer o caminho de uma vida cristã generosa, sincera e dura, é custoso — daí que Jesus fale de porta estreita e caminho estreito —, mas a sua meta é a Vida ou salvação eterna.

A senda do cristão é levar a Cruz. «Se o homem se determina a sujeitar-se a levar esta cruz, que é um determi­nar-se a querer de veras achar e levar trabalho em todas as coisas por Deus, em todas elas achará grande alívio e suavidade para andar este caminho assim, despido de tudo, sem querer nada. Porém, se pretende ter algo, quer de Deus, quer de outra coisa, com alguma propriedade, não vai despido nem abnegado em tudo; e assim, nem caberá nem poderá subir por esta senda estreita» (Subida ao Monte Carmelo, liv. 2, cap. 7, n° 7).

22.06.2016 –Mt 7, 15-20

15Guardai-vos dos falsos profetas que vêm a vós com veste de ovelhas mas, por dentro,são lobos rapaces. I6Pelos seus frutos os conhecereis. Porventura, colhem-se uvas dos espinheiros ou figos dos abrolhos? 17Assim, toda a árvore boa dá frutos bons, e a árvore ruim dá frutos maus. 18Não pode a árvore boa dar frutos maus nem a árvore ruim dar frutos bons. 19Toda a árvore que não dá bom fruto corta-se e deita-se no fogo. 20Portanto, pelos seus frutos os conhecereis.

Comentário

15-20. No Antigo Testamento alude-se com frequência aos «falsos profetas»; é célebre o passo de ler 23, 9-40. Denuncia-se ali a impiedade desses profetas que «profetizam por Baal e fazem errar o Meu povo Israel»; que «vos estão a enganar, vos contam as suas próprias fantasias, não coisa da boca de Yahwéh… Eu não enviei esses profetas e eles foram. Não lhes falei, e eles profetizaram»; que «desencaminham o Meu povo com as suas mentiras e as suas jactâncias, sendo verdade que Eu não os enviei, nem lhes dei missão alguma, nem fizeram ao Meu povo bem algum».

Na vida da Igreja a figura dos falsos profetas, de que fala Jesus, foi entendida pelos Santos Padres referindo-a aos hereges, que, embora se revistam de um hábito exterior de piedade e de reforma, todavia o seu coração não tem os sentimentos de Cristo (cfrComm. in Matth.,7). São João Crisóstomo (Hom. sobre S. Mateus, 23) aplicava-o aos que aparentam virtudes que não têm, e com esta aparência enganam os que não os conhecem.

Como distinguir os falsos profetas dos verdadeiros? Pelos frutos. As coisas de Deus têm um sabor especial, feito de rectidão natural e de inspiração divina. O que verdadeira­mente fala das coisas de Deus semeia fé, esperança, caridade, paz, compreensão; pelo contrário, o falso profeta na Igreja de Deus é o que com a sua pregação e o seu comportamento ou actuação semeia divisão, ódio, ressentimento, orgulho, sen­sualidade (cfr Gal 5, 16-25). Mas o fruto mais característico do falso profeta é afastar o povo de Deus do Magistério da Igreja, através do qual ressoa no mundo a doutrina de Cristo. O fim destes enganadores está também assinalado pelo Senhor: a perdição eterna. Meu povo com as suas mentiras e as suas jactâncias, sendo verdade que Eu não os enviei, nem lhes dei missão alguma, nem fizeram ao Meu povo bem algum».

Na vida da Igreja a figura dos falsos profetas, de que fala Jesus, foi entendida pelos Santos Padres referindo-a aos hereges, que, embora se revistam de um hábito exterior de piedade e de reforma, todavia o seu coração não tem os sentimentos de Cristo (cfrComm. in Matth.,7). São João Crisóstomo (Hom. sobre S. Mateus, 23) aplicava-o aos que aparentam virtudes que não têm, e com esta aparência enganam os que não os conhecem.

Como distinguir os falsos profetas dos verdadeiros? Pelos frutos. As coisas de Deus têm um sabor especial, feito de rectidão natural e de inspiração divina. O que verdadeira­mente fala das coisas de Deus semeia fé, esperança, caridade, paz, compreensão; pelo contrário, o falso profeta na Igreja de Deus é o que com a sua pregação e o seu comportamento ou actuação semeia divisão, ódio, ressentimento, orgulho, sen­sualidade (cfr Gal 5, 16-25). Mas o fruto mais característico do falso profeta é afastar o povo de Deus do Magistério da Igreja, através do qual ressoa no mundo a doutrina de Cristo. O fim destes enganadores está também assinalado pelo Senhor: a perdição eterna. 21-23. A oração, para que seja autêntica, deve ir acom­panhada pela luta contínua por cumprir a vontade divina. Do mesmo modo, para cumprir essa vontade não basta falar das coisas de Deus, mas é necessário que haja coerência entre o que se pede — o que se diz — e o que se faz: «O Reino de Deus não consiste em palavras, mas em realidades» (1Cor 4, 20); «Sede cumpridores da palavra e não apenas ouvintes, enga­nando-vos a vós próprios» (Iac l, 22).

Os cristãos «fiéis ao Evangelho e graças à sua força, unidos a quantos amam e promovem a justiça, têm a realizar aqui na terra uma obra imensa, da qual prestarão contas Aquele que a todos julgará no último dia. Nem todos os que dizem ‘Senhor, Senhor’ entrarão no reino dos céus, mas aqueles que cumprem a vontade do Pai e põem seriamente mãos à obra»(Gaudium et Spes, n. 93).

Para entrar no Reino dos Céus, para ser santo, não basta, pois, falar de modo eloquente da santidade. É necessário levar à prática o que se diz, dar os frutos de acordo com as palavras. Muito graficamente recomenda Frei Luís de Granada: «Olha que não é ser bom cristão somente rezar e jejuar e ouvir Missa, mas que te ache Deus fiel, como a outro Job e outro Abraão, no tempo da tribulação» (Guia de pecadores, liv. l, part. 2, cap. 21).

Também o exercício de um ministério eclesiástico não assegura a santidade, visto que deve ir acompanhado da prática das virtudes que se pregam. Por outro lado, a experiência vem ensinar que todo o cristão (seja qual for a sua condição dentro da Igreja) que não se esforça por fazer coincidir os seus actos com as exigências da fé que professa, começa a debilitar-se nesta fé e termina afastando-se dela, não só na prática, mas também na doutrina. Pois todo aquele que não cumpre o que diz, acaba a dizer o que não deve. A autoridade com que Jesus Se exprime nestes versículos revela a Sua condição de Juiz soberano de vivos e mortos. Nunca no AT nenhum profeta tinha falado com essa auto­ridade.

23.06.2016 –Mt 7, 21-29

21Nem todo o que Me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos Céus, mas o que faz a vontade de Meu Pai que está nos Céus. 22Muitoshão-de dizer-Me naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em Teu nome e em Teu nome expulsamos demônios e em Teu nome fizemos muitos milagres? 23Então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci, apartai-vos de Mim, obreiros da iniquidade.

24Todo aquele, pois, que ouve estas Minhas palavras e as põe em prática, é semelhante a um homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha. 25E caiu a chuva, e vieram os rios, e sopraram os ventos, e precipitaram-se contra aquela casa, mas ela não desabou porque estava fundada sobre a rocha. 26E todo o que ouve estas Minhas palavras e não as põe em prática é semelhante a um homem insen­sato, que edificou a sua casa sobre a areia. 27E caiu a chuva e vieram os rios, e sopraram os ventos, e precipitaram-se contra aquela casa, e ela desabou, e a sua ruína foi grande.

28E aconteceu que, quando Jesus terminou este discurso, a multidão estava maravi­lhada por causa da Sua doutrina, 29porque os ensinava como quem tinha autoridade e não como os seus Escribas e Fariseus.

Comentário

  1. «Naquele dia»: Fórmula técnica na linguagem da Bíblia para designar o dia do Juízo do Senhor ou Juízo Final.
  2. «Lhes direi abertamente»: A frase equivaleria a «então eu pronunciarei a sua sentença». Com efeito, a passagem refere-se ao juízo dos homens que há-de fazer Jesus Cristo. O texto sagrado emprega um verbo que expressa a proclamação pública de uma verdade. Como neste caso quem proclama é Jesus Cristo, tal proclamação é a sentença judicial.

24-27. Estes versículos constituem como que a face positiva do passo anterior. Quem se esforça por levar à prática os ensinamentos de Jesus, ainda que venham as tribulações pessoais, ou períodos de confusão na vida da Igreja, ou se veja rodeado do erro, permanecerá forte na fé, como o homem sábio que edifica a sua casa sobre rocha.

Além disso, para permanecer fortes nos momentos difíceis é necessário, nos tempos de bonança, aceitar com boa cara as pequenas contrariedades, ser delicados no trato com Deus e com os outros, e cumprir com fidelidade e abnegação os próprios deveres de estado. Deste modo se vão lançando os fundamentos, fortalecendo a construção e reparando as fendas que se possam produzir.

28-29. O povo que escutava Jesus percebeu com clareza a diferença radical que havia entre o modo de ensinar dos escribas e fariseus, e a segurança e serenidade com que Jesus Cristo expunha a Sua doutrina. As palavras do Senhor nunca são afectadas de insegurança, nem apresentam dúvida, nem expõem uma mera opinião. Jesus falava com domínio absoluto da verdade e com conhecimento perfeito do verdadeiro sentido da Lei e dos Profetas; mais ainda, não poucas vezes falava no Seu próprio nome (cfr Mt 5,22.28.32.38.44), e com a própria autoridade de Deus (cfr Mc 2, 10; Mt 28, 18). Tudo isso conferia uma singular força e autoridade às Suas palavras, como jamais se tinha ouvido em Israel (cfr Lc 19, 48; Ioh 7, 46).

28.06.2016 –Lc1, 57-66.80

57Entretanto, chegou o tempo de Isabel Nascimento dar à luz e teve um filho. 58E souberam os vizinhos e parentes que o Senhor havia tido para com ela grande misericórdia e com ela se congratulavam. 59Ao oitavo dia, vieram circuncidar o menino e iam dar-lhe o nome do pai, Zacarias. 60Mas a mãe interveio, dizendo: Não, João é que há-de chamar-se. 61Disseram-lhe eles: Não há ninguém da tua família que tenha esse nome. 62E pergun­tavam ao pai por sinais como queria que se chamasse. 63Ele, pedindo uma placa, respondeu por escrito: João é que é o seu nome. E ficaram todos admirados. 64Imediatamente se lhe abriu a boca e se lhe soltou a língua e pôs-se a falar, bendizendo a Deus. 65Encheram-se de temor todos os que eram seus vizinhos e na Judeia, por toda a serra, se divulgaram todos aqueles factos. 66Quantos os ouviam conservavam-nos na memória e diziam: Quem virá então a ser este menino? E, de facto, a mão do Senhor estava com ele!

80Entretanto, o menino crescia e robustecia-se no espírito. E esteve no deserto até ao dia da sua apresentação a Israel.

Comentário

  1. No Antigo Testamento a circuncisão era um rito instituído por Deus para assinalar como com uma marca e contrassenha os que pertenciam ao povo eleito. Deus mandou a circuncisão a Abraão como sinal da Aliança que estabelecia com ele e com toda a sua descendência (cfrGen 17,10-14), e prescreveu que se realizasse no oitavo dia do nascimento. O rito realizava-se na casa paterna ou na sinagoga, e além da operação sobre o corpo do menino, incluía bênçãos e a imposição do nome.

Com a instituição do Baptismo cristão cessou o manda­mento da circuncisão. Os Apóstolos, no concilio de Jerusalém (cfrAct 15,1 ss.), declararam definitivamente abolida a necessidade do antigo rito para os que se incorporassem na Igreja.

E bem eloquente o ensinamento de São Paulo (Gal 5,2 ss.; 6,12 ss.; Col 2,11 ss.) acerca da inutilidade da circuncisão depois da Nova Aliança estabelecida por Cristo.

60-63. Com a imposição do nome de João cumpriu-se o que tinha mandado Deus a Zacarias por meio do anjo e que nos relatou São Lucas pouco antes (1,13).

  1. Neste facto miraculoso cumpriu-se exactamente o que tinha profetizado o anjo Gabriel a Zacarias quando lhe anunciou à concepção e o nascimento do Baptista (Lc 1,19-20). Observa Santo Ambrósio: «Com razão se soltou em seguida a sua língua, porque a fé desatou o que tinha atado u incredulidade» (ExpositioEvangelii sec. Lucam, ad loc.),

É um caso semelhante ao do apóstolo São Tome, que tinha resistido a crer na Ressurreição do Senhor, e acreditou depois das provas evidentes que lhe deu Jesus ressuscitado (cfrIoh 20,24-29). Com estes dois homens Deus faz o milagre e vence a sua incredulidade; mas ordinariamente Deu» exige-nos fé e obediência sem realizar novos milagres. Por isso repreendeu e castigou Zacarias, e censurou o apóstolo Tome: «Porque Me viste acreditaste; bem-aventurados oi que sem ter visto acreditaram» (Ioh 20,29). 67. Zacarias, que era um homem justo (cfr v. 6), no nascimento de seu filho João recebeu, além disso, a graça especial da profecia. Em virtude desta, pronuncia o cântico chamado Benedictus, tão cheio de fé, reverência e devoção que a Igreja estabeleceu que se recite diariamente na Liturgia das Horas.

Profetizar significa não só predizer coisas futuras, mas também louvar a Deus movido pelo Espírito Santo. Ambos os aspectos se encontram no cântico do Benedictus.

  1. «Deserto»: Seguramente trata-se da zona chamada «deserto da Judeia», que se estendia desde as margens do noroeste do Mar Morto até ao maciço montanhoso da Judeia. Não é um deserto de areia, mas antes uma zona estépica, árida, com algumas matas e vegetação elementar, enxames de abelhas e de sal toes ou gafanhotos silvestres. Havia também abundantes grutas onde se podia encontrar refúgio.

25.06.2016 –Mt 8, 5-17

5Apenas entrado em Cafarnaum, veio ter com Ele um centurião, que suplicava 6nestes termos: Senhor, o meu servo jaz em casa paralítico e sofre cruelmente. 7Disse-lhe Ele: Eu vou lá curá-lo. 8Tornou-Lhe o centurião: Senhor, não sou digno de que entres debaixo do meu tecto: mas dize uma só palavra e o meu servo será curado. 9Porque também eu, que sou um subalterno, tenho soldados às minhas ordens e digo a este: «vai», e ele vai; e a outro: «vem», e ele vem; e ao meu servo: «faze isto», e ele faz. 10Jesus, ao ouvi-lo, admirou-Se e disse aos que O seguiam: Em verdade vos digo que não encontrei nin­guém em Israel com tão grande fé. 11Por isso, vos digo que muitos virão do Oriente e do Ocidente a pôr-se à mesa com Abraão, Isaac e Jacob no Reino dos Céus, 12ao passo que os filhos do Reino serão lançados nas trevas exteriores. Aí haverá choro e ranger de dentes. 13Depois Jesus disse ao centurião: Vai, faça-se como tu creste! E naquela mesma hora ficou o servo curado.

14Entrando depois Jesus em casa de Pedro, encontrou a sogra dele de cama com febre. l5Tocou-lhe na mão e a febre deixou-a, e ela levantou-se e pôs-se a servi-Lo.

16Ao anoitecer, apresentaram-Lhe muitos possessos e Ele com a Sua palavra expulsou os espíritos e curou todos os que se sentiam mal, 17para se cumprir o que fora anunciado pelo profeta Isaías, que disse: Ele tomou sobre Si as nossas enfermidades e carregou com as nossas doenças.»

Comentário

5-13. «Centurião»: Oficial do exército romano que tinha o comando sobre cem soldados. A fé exemplar deste homem atravessou os tempos. No momento solene em que o cristão vai receber o próprio Jesus na Santíssima Eucaristia, a Liturgia da Igreja, para avivar a fé, põe na sua boca e no seu coração precisamente as palavras do centurião de Cafarnaum: «Se­nhor, não sou digno…».

Segundo a mentalidade israelita da época, o facto de um judeu entrar em casa de um gentio levava consigo contrair a impureza legal (cfrIoh 18,28; Act 11,2-3). O centurião tem a deferência de não colocar Jesus numa situação incômoda diante dos Seus concidadãos. Manifesta a sua firme convicção de que a doença está submetida a Jesus. Daí que proponha dar uma simples ordem, uma só palavra, que produzirá o efeito desejado, sem necessidade de entrar em sua casa. O raciocínio do centurião é simples e convincente, tomado da sua própria experiência profissional. Jesus aproveita este encontro com um crente gentio para fazer a solene profecia do destino universal do Evangelho: a ele serão chamados os homens de todas as nações, raças, idades e condições.

14-15. Depois da cura do corpo — ou da alma — vem o «levantar-se» imediato da situação anterior e servir Jesus Cristo. Nada de lamentações, nem de perdas de tempo, mas disponibilidade imediata ao serviço do Senhor. 16-17. A expulsão dos demônios manifesta um dos aspectos importantes do estabelecimento do Reino de Deus (cfr Mt 12, 8). Igualmente, a cura das doenças, que são consequência do pecado, é sinal específico das «obras do Messias» anunciadas pelos Profetas (cfrIs 29,18; 35,5-6).

Em poucas palavras o Evangelista, inspirado pelo Espírito Santo, resume um amplo sector da actividade de Jesus (v. 16), e dá a entender o significado salvífico de tais obras do Messias, assinalando como nelas se cumpre a profecia de Isaías 53,4 que anunciava a missão redentora do «Servo de Yahwéh» (v. 17).

26.06.2016 –Lc9, 51-62

51Como estivessem a chegar os dias de ser levado deste mundo, tomou Jesus a firme resolução de Se dirigir a Jerusalém e mandou mensageiros à Sua frente. 52Estes puse­ram-se a caminho e entraram numa povoação de Samaritanos, a fim de Lhe prepa­rarem hospedagem. 53Mas não O receberam, por ir ostensivamente a caminho de Jeru­salém. 54Ao verem isto, disseram os discí­pulos Tiago e João: Senhor, queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma? 55Mas Ele, voltando-Se, repreendeu-os. 56E foram para outra povoação.

57Indo eles no caminho, disse-Lhe alguém: Seguir-Te-ei para onde quer que fores. 58Retorquiu-lhe Jesus: As raposas têm tocas e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça. 59Disse a outro: Segue-Me. Este respondeu: Senhor, deixa-me ir primeiro sepultar meu pai. 60Mas Ele replicou-lhe: Deixa os mortos sepultar os seus mortos, e tu vai anunciar ó Reino de Deus. 61Disse outro ainda: Seguir-Te-ei, Senhor, mas antes deixa que vá despedir-me dos meus. 62Mas Jesus respon­deu-lhe: Quem, depois de deitar a mão ao arado, olha para trás, não é apto para o Reino de Deus.

Comentário

  1. «Os dias de ser levado deste mundo»: Literalmente tempo da Sua assunção. Estas palavras referem-se ao momento em que Jesus Cristo, abandonando este mundo, sobe aos Céus. O próprio Senhor o dirá mais claramente na Ultima Ceia: «Saí do Pai e vim ao mundo; de novo deixo o mundo e vou para o Pai» (Ioh 16,28). Ao encaminhar-Se decididamente para Jerusalém, para a Cruz, Jesus cumpre voluntariamente o que Deus Pai tinha determinado: que pela Sua Paixão e Morte chegasse à Ressurreição e à Ascensão gloriosas.

52-53. Os Samaritanos eram inimigos dos Judeus. Esta inimizade provinha de que aqueles descendiam da fusão dos antigos Hebreus com os gentios que repovoaram a região da Samaria na época do cativeiro assírio (século VIII a.C.). A este motivo acrescentavam-se outros de tipo religioso: os Samaritanos tinham misturado com a religião de Moisés certas práticas supersticiosas, e não reconheciam o Templo de Jerusalém como o único lugar onde se podiam oferecer sacrifícios. Construíram o seu próprio templo no monte Garizin, que opunham ao de Jerusalém (cfrIoh 4,20); por esta razão, ao dar-se conta de que Jesus Se dirigia para a Cidade Santa, não quiseram dar-Lhe hospedagem.

54-56. Jesus Cristo corrige o desejo de vingança dos Seus discípulos, oposto à missão do Messias que não veio para perder os homens mas para os salvar (cfrLc 19,10; Ioh 12,47). Deste modo os Apóstolos vão aprendendo que o zelo pelas coisas de Deus não deve ser áspero e violento.

«O Senhor faz admiravelmente todas as coisas (…).Actua assim com o fim de nos ensinar que a virtude perfeita não guarda nenhum desejo de vingança, e que onde está presente a verdadeira caridade não tem lugar a ira e, enfim, que a debilidade não deve ser tratada com dureza, mas deve ser ajudada. A indignação deve estar longe das almas santas e o desejo de vingança longe das almas grandes»(ExpositioEvangelii sec. Lucam, ad loc.).

Deve advertir-se que entre «repreendeu» do v. 55 e «foram» do v. 56, a Vulgata Clementina inclui a cláusula: «dizendo: Não sabeis a que espírito pertenceis. O Filho do Homem não veio para perder os homens mas para os salvar». Esta cláusula vem em bastantes códices gregos e versões antigas, mas não existe nos melhores e mais antigos códices gregos. Por isso a Neo-vulgatanão recolheu este passo.

57-62. Nosso Senhor exprime claramente as exigências que comporta o segui-Lo. Ser cristão não é tarefa fácil nem cômoda; é necessária a abnegação e pôr o amor a Deus antes de tudo. (Vejam-se as notas a Mt 8,18-22 e Mt 8,22).

Aparece aqui o caso daquele homem que quis seguir Cristo mas com uma condição: despedir-se dos de sua casa. O Senhor vê nele pouca decisão, e dá-lhe uma resposta que nos alcança a todos, visto que todos recebemos a chamada a segui-Lo e devemos procurar não receber essa graça de Deus em vão: «Nós recebemos a graça de Deus em vão quando a recebemos à porta do coração sem lhe permitir a entrada.

Recebemo-la sem a recebermos; recebemo-la sem fruto, pois de nada serve sentir a inspiração se não se consente nela (…). Sucede por vezes que inspirados a fazer muito não acei­tamos toda a inspiração, mas apenas algo, como aqueles personagens do Evangelho que, aconselhados pelo Senhor a que O seguissem, um pediu-Lhe autorização para enterrar o pai, e o outro para se despedir dos parentes»(Tratado do amor de Deus, liv. 2, cap. 11).

A nossa lealdade e fidelidade à tarefa que Deus nos confia deve superar todo o obstáculo: «Nunca existe razão sufi­ciente para voltarmos atrás (cfr. Lc 9.62): o Senhor está ao nosso lado.Temos de ser fiéis, leais, encarar as nossas obrigações, encontrando em Jesus o amor e o estímulo para compreender os erros dos outros e superar os nossos próprios erros»(Cristo que passa, n° 160).

27.06.2016 – Mt 8, 18-22

18Vendo Jesus grandes multidões de povo à volta de Si, mandou ir para o lado de lá. 19E, aproximando-se um escriba disse-lhe: Mestre, seguir-Te-ei para onde quer que fores. 20Disse-lhe Jesus: As raposas têm covas e as aves do céu ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça. 21Outro de entre os discípulos disse-Lhe: Senhor, dá-me primeiro licença de ir sepul­tar meu pai. 22Jesus, porém, disse-lhe: Segue-Me e deixa que os mortos sepultem os seus mortos.

Comentário

18-22. Desde os começos da Sua pregação messiânica, Jesus mal permanece num mesmo lugar; vai sempre a caminho, passando. «Não tem onde reclinar a cabeça» (Mt 8,20). Quem quiser estar com Ele tem de «O seguir». A expressão «seguir Jesus» adquire no Novo Testamento um alcance preciso: seguir Jesus é ser Seu discípulo (cfrMt 19, 28). Ocasional­mente as multidões «seguem-nO». Mas os verdadeiros discí­pulos são «os que O seguem» de modo permanente, sempre; de tal modo que existe uma equivalência entre «ser discípulo de Jesus» e «segui-Lo». Depois da Ascensão do Senhor, «segui-Lo» identifica-se com ser cristão (cfrAct 8, 26). Pelo facto simples e sublime do nosso Baptismo, todo o cristão é chamado, com vocação divina, a ser plenamente discípulo do Senhor com todas as suas consequências.

O Evangelista recolhe aqui dois casos concretos de seguimento de Jesus. No primeiro — o do escriba —, Nosso Senhor explica as exigências do chamamento à fé àqueles que descobrem que são chamados. No segundo — o do homem que já disse sim a Jesus— recorda-lhe as exigências do seu compromisso. O soldado que não abandona o seu posto na frente de batalha para enterrar o pai, deixando esse trabalho para os da retaguarda, cumpre o seu dever. Se o serviço da pátria pode ter tais exigências, com maior razão pode tê-las o.serviço a Jesus Cristo e à sua Igreja.

Oseguimento de Cristo, com efeito, leva consigo uma disponibilidade rendida, uma entrega imediata do que Jesus pede, porque essa chamada é um seguir Cristo ao ritmo do Seu próprio passo, que não admite ficar para trás: Jesus ou se segue, ou se perde. Em que consiste o seguimento de Cristo, ensinou-o Jesus no Sermão da Montanha (Mt 5-7), e é-nos resumido pelos catecismos mais elementares da doutrina: cristão quer dizer homem que crê em Jesus Cristo— fé que recebeu no Baptismo — e que está obrigado ao Seu santo serviço. Cada cristão deve procurar, na oração e intimidade Com o Senhor, quais sãos as exigências pessoais e concretas dia sua vocação cristã.

  1. «Deixa que os mortos sepultem os seus mortos»: Esta frase, à primeira vista tão dura, corresponde à linguagem que por vezes empregava Jesus. Nessa linguagem entende-se bem que sejam chamados «mortos» os que procuram com afã as coisas perecedouras, excluindo do seu horizonte a aspiração pelas perenes.

«Se Jesus o proibiu — comenta São João Crisóstomo —, não é porque nos mande descurar a honra devida àqueles que nos geraram, mas para nos dar a entender que nada há-de haver para nós mais necessário que procurar as coisas do Céu, que a elas nos havemos de entregar com todo o fervor e que nem por um momento podemos diferi-las, por mais iniludível e urgente que seja o que poderia afastar-nos delas» (Hom. sobre S. Mateus, 27). 23-27. Este notável milagre da vida de Jesus deve ter deixado profunda impressão nos Seus discípulos, do que pôde ser índice o facto de os três primeiros Evangelhos no-lo relatarem. A Tradição, partindo da realidade histórica deste maravilhoso acontecimento, fez algumas aplicações à própria vida da Igreja, e até mesmo de cada alma. Desde tempos antigos a literatura e a arte cristã viram na barca uma imagem da Igreja que, de modo semelhante, faz a sua travessia no meio de grandes perigos, que parecem que vão afundá-la. Com efeito, bem depressa os cristãos se viram assediados pelas perseguições dos judeus daquele tempo, e incompreendidos pela opinião pública da sociedade paga que, de modo paulatino, iniciava as suas futuras perseguições. O facto de que Jesus tivesse permanecido adormecido no meio da tempestade tem sido aplicado a esse silêncio em que Deus, por vezes, parece permanecer perante as dificuldades da Igreja. Os cristãos, seguindo o exemplo dos Apóstolos que iam na barca, devem recorrer a Jesus Cristo com as mesmas palavras: «Senhor, salva-nos, que estamos perdidos». E quando a situação pa­rece insustentável, então Jesus mostra o Seu poder: «Er­gueu-se, imperou aos ventos e ao mar e fez-se uma grande bonança », não sem antes nos ter feito a censura de termos sido homens de pouca fé. E é que a história evangélica tem muitas vezes um valor exemplar, de aplicação à vida, e de pré-anúncio da futura história da Igreja e de cada alma cristã.

 

28.06.2016 – Mt 8, 23-27

23Subindo depois para a barca, seguiram-No os discípulos. 24E eis que se levantou no mar uma tempestade tão violenta, que as ondas cobriam a barca. Ele, entretanto, dormia. 25Chegaram-se os discípulos e desper­taram-No, dizendo: Senhor, salva-nos, que estamos perdidos! 26Disse-lhes Ele: Porque estais com medo, homens de pouca fé? Então ergueu-Se, imperou aos ventos e ao mar e fez-se uma grande bonança. 27Ficaram os homens as­sombrados e diziam: Quem é Este, que até os ventos e o mar Lhe obedecem?

Comentário

18-30. «Filho do Homem»: E uma das expressões para designar o Messias no Antigo Testamento. Este título aparece pela primeira vez em Dan 7, 14 e era utilizado na literatura judaica do tempo de Jesus. Até à pregação do Senhor não tinha sido entendido em toda a sua profundidade. O título de «Filho do Homem» estava menos comprometido com as aspi­rações judaicas de um Messias terreno; por esta causa foi preferido por Jesus para Se designar a Si mesmo como Messias, sem reavivar o nacionalismo hebraico. De tal título messiânico, que na mencionada profecia de Daniel reveste um caracter transcendente, se servia o Senhor para proclamar de um modo discreto o Seu messianismo prevenindo falsas interpretações políticas. Os Apóstolos, depois da Ressur­reição de Jesus, compreenderam que «Filho do Homem» equivalia precisamente a «Filho de Deus».

 

29.06.2016 – Mt 8, 28-34

28Chegado ao lado de lá, ao país dos Gadarenos, vieram-Lhe ao encontro dois possessos, saídos dos sepulcros, e tão furiosos, que ninguém se arriscava a passar por aquele caminho. 29Os quais em alta voz diziam: Que tens que ver connosco, Filho de Deus? Vieste aqui atormentar-nos antes do tempo? 30Ora, a certa distância deles, andava uma grande vara de porcos a pastar, 31e os Demônios suplicaram: Se nos expulsas, manda-nos para estes porcos. 32Disse-lhes Ele: Ide! Eles saíram e foram-se para os porcos. E logo toda a vara se despenhou do precipício no mar e se afogou nas águas. 33Os guardadores fugiram e, chegando à cidade, contaram tudo e também o caso dos possessos. 34E eis que toda a cidade saiu ao encon­tro de Jesus e, apenas O viram, pediram-Lhe que Se retirasse do seu termo.

Comentário

  1. 28. A maioria dos códices gregos e a Neo-vulgata dizem gadarenos; a Vulgata, porém, e os textos paralelos de Mc e Lc transcrevem Ambos os nomes são possíveis, pois dependem respectivamente das duas cidades, Gerasa e Gadara, as mais importantes desta zona. O acontecimento pode ter-se dado nos limites entre ambas, um tanto imprecisos, embora a precipitação dos porcos no lago ou mar da Galileia dê alguma maior possibilidade a Gadara. Gergesenosprocede de uma conjectura de Orígenes.

28-34. Neste episódio Jesus Cristo mostra o Seu poder, uma vez mais, sobre o demônio e as forças diabólicas. Que o facto suceda em terra de gentios (Gerasa e Gádara estavam na Decápole, a Este do Jordão), fica atestado porque entre os Judeus era proibida a criação de porcos, declarados impuros segundo a Lei de Moisés. Esta expulsão de demônios, e outras mais que nos narram os evangelistas, vêm resumidas no livro dos Actos dos Apóstolos, no discurso de São Pedro diante de Cornélio e da sua família: «Passou fazendo o bem e curando todos os que tinham caído sob o poder do diabo» (Act 10,38). É uma prova de que o Reino de Deus começou (cfrMt 12,28).

A atitude dos habitantes da cidade perante o milagre recorda-nos que o encontro com Deus e a vida cristã exigem a subordinação dos planos pessoais aos planos divinos. Uma atitude egoísta ou materialista fecha o horizonte dos bens eternos. Por este caminho podemos expulsar Deus da nossa vida, como o expulsaram da sua terra os habitantes de Gerasa.

30.06.2016 – Mt 9, 1-8

E Ele, subindo para uma barca, refez a travessia e voltou para a Sua cidade. 2Senão quando, apresentaram-Lhe um para­lítico estendido num leito. Vendo Jesus a sua fé, disse ao paralítico: Tem confiança, filho, os teus pecados estão perdoados. 3Pelo que alguns Escribas disseram de si para consigo: Este blasfema. 4Jesus, que lhes via os pensa­mentos, disse: Para que pensais mal em vossos corações? 5Qual é mais fácil, dizer: «os teus pecados estão perdoados», ou dizer: «levanta-te e anda»? 6Ora, para que saibais que o Filho do homem tem sobre a terra poder para perdoar pecados, — aqui diz ao paralítico: levanta-te! toma o teu leito e vai para tua casa. 7Ele levantou-se e foi para casa. 8Vendo isto, a multidão, cheia de temor, glorificou a Deus, que deu tal poder aos homens.

Comentário

  1. Como se pode ver por Mt 4, 13 e Mc 2, 1, trata-se deCafarnaum.

2-6. O doente e os que o levam pedem a Jesus a cura do corpo, movidos pela fé nos Seus poderes sobrenaturais. Nosso Senhor, como noutros milagres, interessa-se mais pelo remédio das causas profundas do mal, isto é, o pecado. Na Sua grandeza divina, dá mais do que Lhe é pedido, ainda que a limitação humana não o saiba apreciar. Diz São Tomás que Jesus Cristo faz como o bom médico: cura a causa da doença (cfrComentário sobre S.Mateus, 9,1-6).

2.A leitura do passo paralelo de São Marcos conservou-nos um pormenor que nos ajuda a entender melhor a cena e que, em concreto, explica a expressão «a sua fé»: em Mc 2, 2-5 conta-se-nos que foi tanta a aglomeração de gente à volta de Jesus, que não podiam aproximar-se d’Ele com a enxerga do paralítico. Perante isto, tiveram a feliz ideia de subir ao alto da casa e dependurar a enxerga com o paralítico, abrindo um buraco pelo tecto leve, diante donde estava Jesus. Assim se explica a frase «vendo Jesus a sua fé».

O Senhor fica gratamente impressionado por tal audácia, fruto de uma fé operativa que não se detém perante os obstáculos. Por sua vez, esta simpática ousadia ilustra o modo prático de viver a caridade e como Jesus Se sente inclinado para aqueles que se preocupam sinceramente com os outros; curou o paralítico por ocasião da intrepidez dos seus amigos e parentes, da qual também participava o próprio doente, que não teve medo nesta acção arriscada.

São Tomás comenta assim o versículo: «Este simboliza o pecador que jaz no pecado; assim como o paralítico não se pode mover, também o pecador não pode valer-se por si mesmo.Os que levam q paralítico representam os que com os seus conselhos conduzem o pecador para Deus»(Comentário sobre S. Mateus, 9,2). Para aproximar-se de Jesus é necessário também ser santamente audazes e atrevidos, como vemos que o foram os santos. O que não actua assim nunca tomará decisões importantes na sua vida de cristão.

3-7. Aqui «dizer» significa evidentemente «dizer com verdade», «dizer eficazmente, realizando o que se expressa». O Senhor argumenta desta forma: Qual destas duas coisas é mais fácil, sarar o corpo de um paralítico, ou perdoar os pecados da alma? Não há dúvida que curar um paralítico; pois a alma é mais excelente que o corpo e por isso as doenças daquela são mais difíceis de curar que as deste. Não obstante, a cura da alma é uma coisa oculta, enquanto a do corpo é visível e patente. Jesus demonstra a verdade do que está oculto pelo que aparece manifesto.

Por outro lado, os judeus pensavam que todas as doenças eram efeito de pecados pessoais (cfrIoh 9,1-3); assim quando ouviram dizer ao Senhor «os teus pecados estão perdoados», faziam internamente este raciocínio: só Deus pode perdoar os pecados (cfrLc 5, 21); este homem diz que tem poder para os perdoar; logo está a usurpar a Deus um poder que é «exclusivamente Seu; portanto é um blasfemo. Mas o Senhor sai-lhes ao encontro partindo dos seus próprios princípios: ao curar o paralítico só com a Sua palavra faz-lhes ver que, visto que tem poder para curar os efeitos do pecado — segundo eles julgavam —, tem também poder para curar a causa, isto é, o pecado; por conseguinte tem poder divino.

Jesus Cristo transmitiu o poder de perdoar os pecados aos apóstolos e aos seus sucessores no ministério sacerdotal: Recebei o Espírito Santo; àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes; ser-lhes-ão retidos» (Ioh 20, 22-23). «Garanto-vos que tudo o que ligardes na terra ficará ligado no Céu, e tudo o que desligardes na terra, ficará desligado no Céu» (Mt 18,18). Os sacerdotes exercem o poder do perdão dos pecados no Sacramento da Penitência não em virtude própria, mas em nome de Cristo — in persona Christi — como instrumentos nas mãos do Senhor.

Daqui o respeito, veneração e agradecimento com que devemos aproximar-nos da Confissão: no sacerdote devemos ver o próprio Cristo, Deus, e receber as palavras da absolvi­ção com a fé firme de que é o próprio Cristo quem as diz pela boca do sacerdote. Por esta razão, o ministro não diz: «Cristo te absolva…», mas «eu te absolvo dos teus pecados…», na primeira pessoa, numa identificação plena com o próprio Jesus Cristo (cfrCatecismo Romano, II, 5,10).