Evangelho do dia – mês de junho de 2014

Junho de 2014

01.06.14 – Mt 28, 16-20

16Os onze discípulos partiram para a Galileia, para o monte que Jesus lhes tinha e mandato designado. 17Ao verem-No, adoraram-No, mas houve alguns que duvidaram. 18Aproximou-Se Jesus e falou-lhes nestes termos: Foi-Me dado todo o poder no Céu e na Terra . 19lde, pois, doutrinai todas as gentes, baptizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, 20e ensinando-as a observar tudo o que vos mandei. Sabei que Eu estou convosco todos os dias até à consumação dos séculos.

Comentário

16-20. Este breve passo, com que se encerra o Evangelho segundo São Mateus, é de extraordinária importância. Os discípulos vendo o Ressuscitado adoram-nO, prostram-se diante d’Ele como diante de Deus. A sua atitude parece indicar que enfim são conscientes do que já, muito antes, tinham no coração e unham confessado: que o Seu Mestre era o Messias, o Filho de Deus (cfr Mt 16, 18; Ioh 1, 49). Apodera-se deles o assombro e a alegria diante da maravilha que os seus olhos contemplam, que parece quase impossível, se não o estivessem a ver. Mas era realidade, e o pasmo deixou passagem à adoração. O Mestre fala-lhes com a majestade própria de Deus: «Foi-Me dado todo o poder no Céu e na Terra». A Omnipotência, atributo exclusivo de Deus, é também atributo Seu: está a confirmar a fé dos que O adoram. E, ao mesmo tempo, ensina que o poder que eles vão receber para realizar a Sua missão universal, deriva do próprio poder divino.

Recordemos diante destas palavras de Cristo que a autoridade da Igreja, em ordem à salvação dos homens, vem de Jesus Cristo directamente, e que esta autoridade, nas coisas de fé e de moral, está por cima de qualquer outra da terra.

Os Apóstolos ali presentes, e depois deles os seus legítimos sucessores, recebem o mandato de ensinar a todas as gentes a doutrina de Jesus Cristo: o que Ele próprio tinha ensinado com as Suas obras e as Suas palavras, o único caminho que conduz a Deus. A Igreja, e nela todos os fiéis cristãos, têm o dever de anunciar, até ao fim dos tempos, com o seu exemplo e com a sua palavra, a fé que receberam. De modo especial recebem esta missão os sucessores dos Apóstolos, pois neles recai o poder de ensinar com autoridade, «já que Cristo ressuscitado antes de voltar ao Pai (…) lhes confiava deste modo a missão e o poder de anunciar aos homens o que eles próprios tinham ouvido, visto com os seus olhos, contemplado e palpado com as suas mãos, acerca do Verbo da vida (1Ioh 1, 1). Ao mesmo tempo confiava-lhes a missão e o poder de explicar com autoridade o que Ele lhes tinha ensinado, as Suas palavras e os Seus actos, os Seus sinais e os Seus manda­mentos. E dava-lhes o Espírito para cumprir esta missão» (Catechesi tradendae, n., 1). Portanto, os ensinamentos do Papa e dos Bispos unidos a ele, devem ser recebidos sempre por todos com assentimento e obediência.

Também comunica ali Cristo aos Apóstolos e aos seus sucessores o poder de baptizar, isto é, de admitir os homens na Igreja, abrindo-lhes o caminho da sua salvação pessoal.

A missão que, em última análise, recebe a Igreja neste fim do Evangelho de São Mateus, é a de continuar para sempre a obra de Cristo: ensinar aos homens as verdades acerca de Deus e a exigência de que se identifiquem com essas verdades, ajudando-os sem cessar com a graça dos sacra­mentos. Uma missão que durará até ao fim dos tempos e que, para a levar a cabo, o próprio Cristo Glorioso promete acompanhar a Sua Igreja e não a abandonar. Quando na Sagrada Escritura se afirma que Deus está com alguém, quer-se dizer que este terá êxito nas suas empresas. Daí que a Igreja, com a ajuda e a assistência do seu Fundador Divino, está segura de poder cumprir indefectivelmente a sua missão até ao fim dos séculos.

02.06.14 – Jo 16, 29-33

29Dizem os discípulos: Agora é que estás a falar aber­tamente e não dizes parábola nenhuma. 30Agora sabemos que tudo conheces e não precisas que ninguém Te interrogue. Por isso acreditamos que saíste de Deus.31 Res­pondeu-lhes Jesus: Acreditais agora? 32Olhai que vai chegar a hora, e já chegou, em que vos dispersareis, cada qual para seu lado, e Me deixareis só; se bem que não estou só, porque o Pai está comigo. 33Eu disse-vos isto, para terdes pazem Mim. No mundo tereis tribulações. Mas coragem! Eu venci o mundo!

Comentário

31-32. Jesus modera o entusiasmo dos Apóstolos, que se manifesta numa espontânea profissão de fé, com uma per­gunta que tem um duplo aspecto. Por um lado, é como uma repreensão por terem tardado tanto em crer n’Ele: é certo que em ocasiões anteriores manifestaram a sua fé no Mestre (cfr Ioh 6,68-69; etc.), mas até agora não reconhecem claramente que Ele é o enviado do Pai. Por outro lado, refere-Se à falta de estabilidade daquela fé: crêem e, não obstante, pouco depois abandoná-Lo-ão nas mãos dos Seus inimigos. Jesus exige uma fé firme: não basta que se mani­feste em momentos de entusiasmo, mas é necessário que se prove diante das dificuldades.

33. O Concilio Vaticano II ensina a propósito deste passo: «O Senhor Jesus, que disse: Confiai, Eu venci o mundo, não prometeu à Sua Igreja, com estas palavras, a vitória perfeita, já na terra. Todavia, o sagrado Concilio alegra-se porque a terra semeada pelo Evangelho frutifica em muitas partes pela acção do Espírito do Senhor, que enche todo o mundo» (Presbyterorum ordinis, n. 22).

03.06.14 – Jo, 17, 1-11a

Assim falou Jesus. Depois, erguendo os olhos ao Céu, disse: Pai, chegou a hora: glorifica o Teu Filho, para o Teu Filho Te glorificar, 2de acordo com o poder que Lhe outorgaste sobre toda a criatura, com o qual Ele dará a vida eterna a todos os que Lhe deste. 3É esta a vida eterna: que Te conheçam a Ti, único Deus verdadeiro, e Aquele que enviaste, Jesus Cristo. 4Eu glorifiquei-Te na Terra, consumando a obra que Me deste a fazer. 5E agora glorifica-Me Tu, ó Pai, junto de Ti mesmo, com a glória que Eu tinha junto de Ti, antes de o mundo existir.

6Manifestei o Teu nome aos homens que, do mundo, Me deste. Eram Teus e deste-Mos a Mim; eles guardaram a Tua palavra. 7Agora sabem que tudo quanto Me deste vem de ti, 8porque Eu dei-lhes as palavras que Tu Me deste, e eles receberam-nas; reconheceram verdadeiramente que Eu saí de Ti e acreditaram que Tu Me enviaste. 9Por eles é que Eu peço; não é pelo mundo que peço, é por aqueles que Me deste, porque são Teus. 10Mas tudo o que é Meu é Teu e o que é Teu é Meu; e neles Eu estou glorificado. 11Já não estou no mundo, mas eles estão no mundo, enquanto Eu vou para Ti.

Comentário

1-26. Depois do discurso da Ceia (caps. 13-16) começa a chamada Oração sacerdotal de Cristo, que ocupa todo o cap. 17. Denomina-se oração sacerdotal porque Jesus Se dirige a Seu Pai num diálogo emocionado, em que, como Sacerdote, Lhe oferece o sacrifício iminente da Sua Paixão e Morte. Desta forma revela-nos elementos essenciais da Sua missão redentora e serve-nos de modelo e de ensinamento: « O Senhor, Unigénito e coeterno do Pai, teria podido orar em silêncio se era necessário, mas quis manifestar-Se ao Pai como suplicante porque é o nosso Mestre (…). Daí que esta oração pelos discípulos não tenha sido útil só para aqueles que a ouviram, mas para todos os que havíamos de lê-la» (In Ioann. Evang., 104,2).

A Oração sacerdotal consta de três partes: na primeira (vv. 1-5), Jesus pede a glorificação da Sua Santíssima Huma­nidade e a aceitação por parte do Pai do Seu sacrifício na Cruz. Na segunda (vv. 6-19), roga pelos Seus discípulos, que vai enviar ao mundo para proclamarem a obra redentora que Ele está prestes a consumar. Por último (vv. 20-26), roga pela unidade entre todos os que hão-de crer n’Ele ao longo dos séculos, até conseguir a plena união com Ele próprio na glória.

1-5. A palavra «glória» designa aqui o esplendor, o poder e a honra próprios de Deus. O Filho é Deus igual ao Pai, e desde a Sua Encarnação e nascimento, principalmente na Sua Morte e Ressurreição, manifestou a Sua divindade: «Vimos a Sua glória, glória como de Unigénito do Pai» (Ioh 1,14). A glorificação de Jesus Cristo abrange um tríplice aspecto: primeiro, serve para glória do Pai, porque Cristo, obedecendo ao decreto redentor de Deus (cfr Phil 2,6 ss.), dá a conhecer o Pai e leva ao fim deste modo a obra salvífica divina (v. 4). Segundo, Cristo é glorificado porque a Sua Divindade, que esteve velada voluntariamente, por fim vai manifestar-se através da Sua Humanidade que, depois da Ressurreição, se mostrará revestida do mesmo poder divino sobre toda a criatura (vv. 2-5). Terceiro, Cristo, com a Sua glorificação, oferece ao homem a possibilidade de alcançar a vida eterna, conhecer Deus Pai e Jesus Cristo, Seu Filho Unigénito; o que redunda em glorificação do Pai e de Jesus Cristo, ao mesmo tempo que implica a participação do homem na glória divina (v. 3).

«O Filho glorifica-Te fazendo que Te conheçam todos aqueles que Lhe confiaste. É verdade que se a vida eterna é o conhecimento de Deus, tanto mais tendemos a viver quanto mais progredimos neste conhecimento (…). O louvor de Deus não terá fim onde o conhecimento do mesmo Deus será pleno; e porque no Céu este conhecimento será completo, também será completa a glorificação de Deus» (In Ioann Evang., 105,3).

6-8. Nosso Senhor rogou ao Pai por Si mesmo; agora roga pelos Seus Apóstolos, que serão os continuadores da Sua obra redentora no mundo. Ao orar por eles, Jesus descreve algumas prerrogativas dos que vão formar o Colégio Apostólico.

Em primeiro lugar, a escolha: «Eram Teus…». Deus Pai tinha-os escolhido desde toda a eternidade (cfr Eph 1,3-4) e, no momento próprio, Jesus comunicou-lhes esta escolha: «O Senhor Jesus, depois de ter feito oração ao Pai, chamando a Si os que Ele quis, constituiu Doze para que vivessem com Ele e para os enviar a pregar o Reino de Deus (cfr Mc 3,13-19; Mt 10,1-42); a estes Apóstolos (cfr Lc 6,13) instituiu-os a modo de Colégio, isto é, de grupo estável, à frente do qual colocou Pedro, escolhido dentre eles mesmos (cfr Ioh 21,15-17)» (Lumen gentium, n. 19). Por outro lado, os Apóstolos gozaram do privilégio de escutar directamente de Jesus Cristo a doutrina revelada. Mediante essa doutrina recebida com docilidade, chegaram a conhecer que Jesus tinha saído do Pai e que, portanto, é o enviado de Deus (v. 8); isto é, conseguiram o conhecimento das relações entre o Pai e o Filho.

O cristão, também discípulo, vai adquirindo pela vida de6-8. Nosso Senhor rogou ao Pai por Si mesmo; agora roga pelos Seus Apóstolos, que serão os continuadores da Sua obra redentora no mundo. Ao orar por eles, Jesus descreve algumas prerrogativas dos que vão formar o Colégio Apostólico.

Em primeiro lugar, a escolha: «Eram Teus…». Deus Pai tinha-os escolhido desde toda a eternidade (cfr Eph 1,3-4) e, no momento próprio, Jesus comunicou-lhes esta escolha: «O Senhor Jesus, depois de ter feito oração ao Pai, chamando a Si os que Ele quis, constituiu Doze para que vivessem com Ele e para os enviar a pregar o Reino de Deus (cfr Mc 3,13-19; Mt 10,1-42); a estes Apóstolos (cfr Lc 6,13) instituiu-os a modo de Colégio, isto é, de grupo estável, à frente do qual colocou Pedro, escolhido dentre eles mesmos (cfr Ioh 21,15-17)» (Lumen gentium, n. 19). Por outro lado, os Apóstolos gozaram do privilégio de escutar directamente de Jesus Cristo a doutrina revelada. Mediante essa doutrina recebida com docilidade, chegaram a conhecer que Jesus tinha saído do Pai e que, portanto, é o enviado de Deus (v. 8); isto é, conseguiram o conhecimento das relações entre o Pai e o Filho.

O cristão, também discípulo, vai adquirindo pela vida de fé, com a intimidade com Jesus Cristo, o conhecimento de Deus e das coisas divinas.

«Ao recordarmos esta delicadeza humana de Cristo, que gasta a Sua vida em serviço dos outros, fazemos muito mais do .que descrever um modo possível de nos comportarmos: estamos a descobrir Deus. Toda a actuação de Cristo tem um valor transcendente; dá-nos a conhecer o modo de ser de Deus; convida-nos a crer no amor de Deus, que nos criou e que quer levar-nos até à Sua intimidade» (Cristo que passa, n. 109).

11-19. Jesus agora pede ao Pai para os Seus quatro coisas: a unidade, a perseverança, o gozo e a santidade. Ao pedir que os guarde em Seu nome (v. 11) está a rogar que perseverem na doutrina recebida (cfr v. 6) e em comunhão íntima com Ele. Consequência imediata desta comunhão é a unidade: «Para serem um só, como Nós»; a unidade que pede para os discípulos é reflexo da que existe entre as três Pessoas divinas.

Roga, além disso, que nenhum deles se perca, que o Pai os guarde e proteja, tal como Ele os protegeu enquanto esteve com eles. Em terceiro lugar, da união com Deus e da perse­verança no Seu amor surge a participação no gozo completo de Cristo (v. 13). Nesta vida, quanto melhor conhecermos Deus e mais intimamente estivermos unidos a Ele, maior dita teremos. Na vida eterna, a nossa alegria será completa, porque o conhecimento e amor a Deus terão chegado à sua plenitude.

Por último, o Senhor roga pelos que, vivendo no meio do mundo, não são do mundo, para que sejam santos de verdade (v. 17) e levem a cabo a missão que Ele lhes confia, como Ele realizou a que recebeu do Pai (v. 18).

04.06.14 – Jo 17, 11b-19

Pai Santo, guarda-os no Teu nome, o nome que Me deste, para serem um só, como Nós. 12Quando Eu estava com eles, guardava-os no Teu nome, o nome que Me deste, e preservei-os, não se tendo perdido nenhum deles, a não ser o filho da perdição, para se cumprir a Escritura. 13Mas agora vou para Ti e, ainda no mundo, digo isto, para eles terem em si a plenitude da Minha alegria. 14Eu dei-lhes a Tua palavra, e o mundo odiou-os, por não serem do mundo, como Eu não sou do mundo. 15Não peço que os tires do mundo, mas que os guardes do Maligno. 16Eles não são do mundo, como Eu não sou do mundo. 17Consagra-os na verdade. A Tua palavra é a verdade. 18Assim como Tu Me enviaste ao mundo, também Eu os enviei ao mundo. 19Eu consagro-Me por eles, para eles serem também consagrados na verdade.

Comentário

11-19. Jesus agora pede ao Pai para os Seus quatro coisas: a unidade, a perseverança, o gozo e a santidade. Ao pedir que os guarde em Seu nome (v. 11) está a rogar que perseverem na doutrina recebida (cfr v. 6) e em comunhão íntima com Ele. Consequência imediata desta comunhão é a unidade: «Para serem um só, como Nós»; a unidade que pede para os discípulos é reflexo da que existe entre as três Pessoas divinas.

Roga, além disso, que nenhum deles se perca, que o Pai os guarde e proteja, tal como Ele os protegeu enquanto esteve com eles. Em terceiro lugar, da união com Deus e da perse­verança no Seu amor surge a participação no gozo completo de Cristo (v. 13). Nesta vida, quanto melhor conhecermos Deus e mais intimamente estivermos unidos a Ele, maior dita teremos. Na vida eterna, a nossa alegria será completa, porque o conhecimento e amor a Deus terão chegado à sua plenitude.

Por último, o Senhor roga pelos que, vivendo no meio do mundo, não são do mundo, para que sejam santos de verdade (v. 17) e levem a cabo a missão que Ele lhes confia, como Ele realizou a que recebeu do Pai (v. 18).

12. «Para se cumprir a Escritura»: É uma alusão ao que, pouco antes (Ioh 13,18), tinha dito aos Apóstolos ci­tando explicitamente o texto sagrado: «Aquele que come o pão comigo levantará contra Mim o seu calcanhar» (Ps 41,10). A finalidade desta e de outras alusões de Cristo à traição de Judas é consolidar a fé dos Apóstolos, manifes­tando que conhecia tudo de antemão e que as Escrituras já o tinham anunciado.

De qualquer modo, Judas perdeu-se por sua culpa e não porque Deus o determinasse a isso; assim, a sua traição deve ter-se ido preparando pouco a pouco, mediante pequenas infidelidades, apesar de que Nosso Senhor em muitas ocasiões o ajudou para que pudesse arrepender-se e voltar ao bom caminho (cfr a nota a Ioh 13,21-32); não obstante, Judas não correspondeu a essas graças e perdeu-se por sua própria vontade. Deus, que vê o futuro, predisse a traição de Judas na Escritura; Cristo, como verdadeiro Deus, conhecia essa perdição.e anuncia-a agora aos Seus discípulos com imensa dor.

14-16. «Mundo» na Sagrada Escritura tem várias acepções. A primeira designa o conjunto da criação (Gen 1, 1 ss.), e dentro dela a humanidade, os homens, que Deus ama enternecidamente (Prv 8,31)- Neste contexto entende-se o pedido do Senhor: «Não peço que os tires do mundo, mas que os guardes do Maligno» (v. 15). «Constantemente o tenho ensinado com palavras da Santa Escritura: o mundo não é mau, porque saiu das mãos de Deus, porque Yahwéh olhou para ele e viu que era bom (cfr Gen 1,7 e ss.). Nós, os homens, é que o tornamos mau e feio com os nossos pecados e as nossas infidelidades. Não duvideis, meus filhos: qualquer forma de evasão das honestas realidades diárias é, para vós, homens e mulheres do mundo, coisa oposta à vontade de Deus» (Temas Actuais do Cristianismo, n.° 114).

Em segundo lugar,« mundo» indica os bens da terra, de si caducos e que podem apresentar oposição aos bens do espírito (cfr Mt 16,26).

Finalmente, porque os homens maus foram escravizados pelo pecado e pelo demônio, «príncipe deste mundo» (Ioh 12,31; 16,11), o «mundo» é considerado por vezes como inimigo de Deus e contrário a Cristo e aos Seus seguidores (Ioh 1,10). Neste sentido, o mundo é mau, e por isso Jesus não é do mundo, nem o são os Seus discípulos (v. 16). Também a essa acepção pejorativa se refere a doutrina tradicional que considera o mundo, junto com o demônio e a carne, como inimigos da alma diante dos quais se deve estar em constante vigilância. «O mundo, o demônio e a carne são uns aventu­reiros que, aproveitando-se da fraqueza do selvagem que trazes dentro de ti, querem que, em troca do fictício brilho dum prazer — que nada vale — lhes entregues o ouro fino e as pérolas e os brilhantes e os rubis embebidos no Sangue vivo e redentor do teu Deus, que são o preço e o tesouro da tua eternidade» (Caminho, n.° 708).

17-19. Jesus pede a santidade para os Seus discípulos. O único Santo é Deus, de cuja santidade participam as pessoas e as coisas. «Santificar» consiste em consagrar e dedicar algo a Deus, excluindo-o dos usos profanos; neste sentido Deus diz a Jeremias: «Antes de teres saído do seio materno Eu te santifiquei, te constituí profeta para as nações» (ler 1,5). A consagração a Deus exige a perfeição ou santidade do dom consagrado. Daí que uma pessoa consa­grada deva ter a santidade moral, exercitar-se nas virtudes morais. Ambas as coisas — consagração e perfeição — pede aqui o Senhor para os Seus discípulos, porque delas neces­sitam para cumprir a sua missão sobrenatural no mundo.

«Eu consagro-Me por eles…»: Estas palavras querem dizer que Jesus Cristo, que carregou com os pecados dos homens, Se consagra ao Pai por meio do Seu sacrifício na Cruz. Por este todos os cristãos ficam santificados: «Por isso também Jesus, para santificar o povo com o Seu sangue, padeceu fora da cidade» (Heb 13,12). Na verdade, depois da morte de Cristo, os homens mediante o Baptismo tornam-se filhos de Deus, participantes da natureza divina e capazes de alcançar a santidade a que foram chamados (cfr Lumen gentium, n. 40).

05.06.14 – Jo 17, 20-26

20Não é só por eles que Eu rogo, é também por aqueles que vão acreditar em mim, por meio da sua palavra, 21para todos serem um só; como Tu, ó Pai, estás em Mim e Eu em Ti, que eles também estejam em Nós, a fim de que o mundo acredite que Tu Me enviaste. 22 E Eu dei-lhes a glória que Tu Me deste. para que sejam um só, como Nós somos um só: 23Eu neles e Tu em Mim, para chegarem à perfeita unidade, a fim de que o mundo reconheça que Tu Me enviaste e os amaste, como Me amaste a Mim. 24Pai, os que Me deste, quero que, onde Eu estiver, eles estejam também comigo, para contemplarem a glória que Me pertence e que Tu Me deste, por Me teres amado antes da constituição do mundo. 25Pai justo, se o mundo não Te conheceu, Eu conheci-Te, e estes reconhe­ceram que Tu Me enviaste. 26Eu dei-lhes a conhecer o Teu nome e dar-lho-ei a conhe­cer, para que o amor com que Me amaste esteja neles e Eu esteja neles também.

Comentário

20-23. Por ser Cristo quem pede pela Igreja, a Sua oração é infalivelmente eficaz, de maneira que a verdadeira Igreja de Jesus Cristo sempre será una e única. A unidade é, portanto, uma propriedade essencial da Igreja. «Nós cremos que a Igreja, que Cristo fundou e pela qual rogou, é sem cessar una pela fé, pelo culto, e pelo vínculo da comunhão hierárquica» (Credo do Povo de Deus, n.° 21). Além disso, o pedido de Jesus ensina quais são os fundamentos da unidade e os efeitos que se conseguirão com ela.

A fonte donde brota a unidade da Igreja é a união íntima das três Pessoas divinas, entre as quais há uma doação e amor mútuos.« Quando o Senhor Jesus pede ao Pai que todos sejam um (…) como Nós somos um, sugere — abrindo pers­pectivas inacessíveis à razão humana — que há uma certa analogia entre a união das Pessoas divinas entre Si e a união dos filhos de Deus na verdade e na caridade. Esta semelhança torna manifesto que o homem, única criatura sobre a terra a ser querida por Deus por si mesma, não se pode encontrar plenamente a não ser no sincero dom de si mesmo» (Gaudium et spes, n. 24). A unidade está também baseada na união dos fiéis com Jesus Cristo e por Ele com o Pai (v. 23). Com efeito, a plenitude da unidade — consummati in unum — conse­gue-se pela graça sobrenatural que nos vem de Cristo (cfr Ioh 15,5).

Os frutos da unidade da Igreja são, por um lado, que o mundo creia em Cristo e na Sua missão divina (vv 21-23); e, por outro, que os próprios cristãos e todos os homens reconheçam a especial predilecção de Deus, que ama os fiéis com um amor que é reflexo do que as Pessoas divinas têm entre Si. Deste modo, a oração de Jesus atinge toda a huma­nidade, já que todos os homens são convidados ao favor de Deus (cfr 1Tim 2,4). «Amaste-os como Me amaste a Mim»: esta frase, como explica São Tomás de Aquino, «não indica igualdade estrita no amor, mas o motivo e a semelhança. É como se dissesse: o amor pelo qual Me amaste a Mim é a razão e a causa pelas quais os amaste a eles, pois, precisa­mente porque Me amas a Mim amas aqueles que Me amam» (Comentário sobre S. João, ad loc.). Junto a esta explicação precisa da Teologia, há que ponderar a força expressiva das palavras de Cristo que supõem o amor ardente do Seu coração pelos homens. Em todo o discurso da Última Ceia não podemos senão vislumbrar de longe a profunda reali­dade dos sentimentos de Jesus Cristo, cuja grandeza de alma supera a medida limitada dos nossos corações humanos. Uma vez mais devemos render-nos diante do mistério de Deus feito homem.

20. À Igreja, pela qual Cristo pede, pertencem todos aqueles que ao longo dos séculos hão-de crer n’Ele pela pregação dos Apóstolos. .«A missão divina confiada por Cristo aos Apóstolos durará até ao fim dos tempos (cfr Mt 28,20), uma vez que o Evangelho que eles devem anunciar é em todo o tempo o princípio de toda a vida na Igreja. Pelo que os Apóstolos trataram de estabelecer sucessores, nesta sociedade hierarquicamente constituída» (Lumen gentium, n. 20).

A origem e o fundamento apostólico da Igreja chama-se «Apostolicidade», propriedade essencial que confessamos no Credo. Consiste em que o Papa e os Bispos são sucessores de Pedro e dos Apóstolos, conservam a sua autoridade e proclamam a mesma doutrina. «Ensina, por isso, o sagrado Concilio que, por instituição divina, os Bispos sucedem aos Apóstolos, como pastores da Igreja; quem os ouve, ouve a Cristo; quem os despreza, despreza a Cristo e Aquele que enviou Cristo (cfr Lc 10,16)» (Lumen gentium, n. 20).

21. A união dos cristãos com Cristo causa a unidade deles entre si. Esta unidade da Igreja beneficia, em última análise, toda a humanidade, pois sendo a Igreja una e única, aparece como sinal levantado diante das nações para convidar a crerem Jesus Cristo como enviado divino que vem salvar todos os homens. A Igreja continua no mundo essa missão salvadora pela sua união com Cristo. Por isso convoca todos a integrar-se na sua própria unidade e, mediante esta, a participar na união com Cristo e com o Pai.

O Concilio Vaticano II, falando dos fundamentos do ecumenismo, relaciona a unidade da Igreja com a sua universalidade: «Quase todos, se bem que de modo diverso, aspiram a uma Igreja de Deus una e visível, que seja verdadeiramente universal e enviada ao mundo inteiro, a fim de que o mundo se converta ao Evangelho e assim seja salvo, para glória de Deus» (Unitatis redintegratio, n. 1). Este caracter universal é outra nota da Igreja, denominada «Catolicidade». «Desde há séculos que a Igreja está esten­dida por todo o mundo, contando com pessoas de todas as raças e condições sociais. Mas a catolicidade da Igreja não depende dá extensão geográfica, mesmo que isto seja um sinal visível e um motivo de credibilidade. A Igreja era Católica já no Pentecostes; nasce Católica no Coração cha­gado de Jesus, como um fogo que o Espírito Santo inflama.

«No século II, os cristãos definiam como Católica a Igreja, para a distinguir das seitas que, utilizando o nome de Cristo, traíam nalgum ponto a Sua doutrina. Chamamos-lhe Católica, escreve São Cirilo, quer porque se encontra difundida por todo o orbe da Terra, dum confim ao outro, quer porque ensina de modo universal e sem defeito todos os dogmas que os homens devem conhecer, do visível e do invisível, do celestial e do terreno. Também porque submete ao recto culto todo o tipo de homens, governantes e cidadãos, doutos e ignorantes. (S. Cirilo, Catechesis, 18,23)» (Hom. Lealdade à Igreja).

Todo o cristão deve ter os mesmos sentimentos que Jesus Cristo, anelando pela unidade que Ele pede ao Pai. «Instru­mento privilegiado para a participação na busca da unidade de todos os cristãos é a oração. O próprio Jesus Cristo deixou-nos o Seu último desejo de unidade por meio de uma oração ao Pai (…).

«Também o Concilio Vaticano II nos recomendou insis­tentemente a oração em favor da unidade, defendendo-a como ‘a alma de todo o movimento ecumênico’ (Unitatis redintegratio, n. 8). Como a alma ao corpo, assim a oração dá vida, coerência, espírito, finalidade ao movimento ecumê­nico.

«A oração põe-nos, antes de mais, diante do Senhor; purifica-nos nas intenções, nos sentimentos, no nosso coração, e produz a ‘conversão interior’, sem a qual não existe verda­deiro ecumenismo (cfr Unitatis redintegratio, n. 7).

«A oração, além disso, recorda-nos que a unidade, em última análise, é um dom de Deus; dom que devemos pedir e para que nos devemos preparar para que nos seja conce­dido» (Audiência geral, João Paulo II, 17-1-1979).

22-23. Jesus tem a glória, manifestação da divindade, porque é Deus, igual ao Pai (cfr a nota a Ioh 17,1-5). Cristo, ao dizer que comunica a Sua glória, está a indicar que por meio da graça nos torna participantes da natureza divina (2 Pet 1,4). A glória e a justificação pela graça aparecem na Sagrada Escritura estreitamente unidas: «Aqueles que Deus predestinou também os chamou. E aqueles que chamou também os justificou, e aqueles que justificou também os glorificou» (Rom 8,30). A transformação pela graça consiste em que os cristãos se tornam cada vez mais semelhantes a Cristo, que é a imagem do Pai (cfr 2 Cor 4,4; Heb 1,2-3). Deste modo, Cristo, ao comunicar a Sua glória, faz que os fiéis se unam com Deus pela participação na própria vida sobrena­tural, que é a raiz da santidade dos cristãos e da Igreja: «Agora compreenderemos melhor como é que a unidade da Igreja leva à santidade, e como é que um dos aspectos capitais da sua santidade é essa unidade centrada no mistério do Deus uno e Trino: Há um só corpo e um só espírito, como também vós fostes chamados a uma só esperança pela vossa vocação. Há um só Senhor, uma só fé, um só baptismo. Há um só Deus e Pai de todos, que está acima de todos, e governa todas as coisas e habita em todos nós (Eph 4,4-6)» (Hom. Lealdade à Igreja).

24. Cristo termina esta oração pedindo a bem-aventurança para todos os cristãos. O termo que utiliza — «quero» em vez de «rogo» — exprime que está a pedir o mais impor­tante, que coincide com a Vontade do Pai, que quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade (cfr 1Tim 2,4); é, em última análise, a missão da Igreja: a salvação das almas.

Enquanto estamos na Terra participamos da vida de Deus pelo conhecimento (fé) e pelo amor (caridade); mas só no Céu conseguiremos a plenitude dessa vida sobrenatural, ao contemplar Deus tal qual é (cfr 1Ioh 3,2), face a face (cfr 1Cor 13,9-12). Por isso, a Igreja aponta para a eternidade, é escatológica; isto é, que tendo neste mundo todos os meios para ensinar a verdadeira doutrina, tributar a Deus o verdadeiro culto e comunicar a vida da graça, mantém viva a esperança na plenitude da vida eterna: «A Igreja, à qual todos somos chamados e na qual por graça de Deus alcan­çamos a santidade, só na glória celeste alcançará a sua realização plena, quando vier o tempo da restauração de todas as coisas (cfr Act 3,21) e, quando, juntamente com o gênero humano, também o universo inteiro, que ao homem está intimamente ligado, e por ele atinge o seu fim, for perfeitamente restaurado em Cristo (cfr Eph 1,10; Col 1 ,20; 2Pet 3,10-13)» (Lumen gentium, n. 48).

25-26. A revelação que Deus fez de Si mesmo por Jesus Cristo introduz-nos na participação da vida que culminará no Céu: « Só Deus pode outorgar-nos um conhecimento recto e pleno de Si mesmo, revelando-Se a Si mesmo como Pai, Filho e Espírito Santo, de cuja vida eterna somos chamados a participar pela graça aqui, na Terra, na obscuridade da fé, e, depois da morte, na luz sempiterna» (Credo do Povo de Deus, n.° 9).

Para participar do amor mútuo das Pessoas divinas Cristo revelou-nos tudo o que devemos conhecer: em primeiro lugar, o mistério do Seu ser e da Sua missão e, com isso, o próprio Deus — «dei-lhes a conhecer o Teu nome» —; assim se cumpre o que tinha anunciado: «Ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho queira revelá-Lo» (Mt 11,27).

Cristo continua a dar a conhecer o amor do Pai por meio da Igrejaem que Eleestá sempre presente: «Sabei que Eu estou convosco todos os dias até ao fim do mundo» (Mt 28,20).

06.06.14 – Jo 21, 15-19

15No fim do almoço, pergunta Jesus ao Simão Pedro: Simão, filho de João, amas-Me tu mais do que estes? Sim, Senhor, responde-Lhe ele. Tu sabes que Te amo! Diz-lhe Jesus: Apascenta os Meus cordeiros. 16Volta a perguntar-Lhe segunda vez: Simão, filho de João, tu amas-Me? Sim, Senhor, responde-Lhe ele. Tu sabes que Te amo. Diz-Lhe Jesus: Apascenta as Minhas ovelhas. I7Pergunta-Lhe terceira vez: Simão, filho de João, tu amas-Me? Pedro entriste­ce-se por lhe ter perguntado pela terceira vez: «Tu amas-me?» E responde-Lhe: Tu sabes tudo, Senhor, Tu bem sabes que Te amo. Diz-lhe Jesus: Apascenta as minhas ovelhas. 18Em verdade, em verdade te digo: Quando eras mais novo, tu mesmo te cingias e andavas por onde querias. Mas, quando fores velho, estenderás as tuas mãos e outro é que há-de cingir-te e levar-te para onde não queres. 19Disse-o para indicar por que morte ele havia de glorificar a Deus. Dito isto, acrescenta: Segue-Me.

Comentário

15-17. Jesus Cristo tinha prometido a Pedro o primado da Igreja (cfr Mt 16,16-19ea nota correspondente). Apesar das três negações do Apóstolo durante a Paixão, confere-lhe agora o Primado prometido. «Jesus Cristo interroga Pedro, por três vezes, como se lhe quisesse dar a oportunidade de reparar a sua tripla negação. Pedro já aprendeu, escarmentado com a sua própria miséria: está profundamente con­vencido de que são inúteis aqueles seus alardes temerários; tem consciência da sua debilidade. Por isso, põe tudo nas mãos de Cristo. Senhor, Tu sabes que eu Te amo» (Amigos de Deus, n.° 267). A entrega do Primado a Pedro foi directa e imediata. Assim o entendeu sempre a Igreja e o definiu o Concilio Vaticano I: «Ensinamos, pois, e declaramos que, segundo os testemunhos do Evangelho, o primado de juris­dição sobre a Igreja universal de Deus foi prometido e conferido imediata e directamente ao bem-aventurado Pedro por Cristo Nosso Senhor (…). Porque só a Simão Pedro conferiu Jesus depois da Sua Ressurreição a jurisdição de pastor e reitor supremo sobre todo o Seu rebanho, dizendo: ‘Apascenta os Meus cordeiros’. ‘Apascenta as Minhas ovelhas’» (Pastor aeternus, cap. 1).

O Primado é uma graça que é conferida a Pedro e aos seus sucessores os Papas; é um dos elementos fundacionais da Igreja para guardar e proteger a sua unidade: «Para que o episcopado fosse uno e indiviso e a multidão universal dos crentes se conservasse na unidade da fé e da comunhão (…) ao preferir o bem-aventurado Pedro aos outros Apóstolos, nele instituiu um princípio perpétuo de uma e de outra unidade, e um fundamento visível» (Pastor aeternus, Dz-Sch 3051; cfr Lumen gentium, n. 18). Portanto, o Primado de Pedro perpetua-se em todos e em cada um dos seus sucessores por disposição de Cristo, não por costume ou legislação humana.

Em razão do Primado, Pedro, e cada um dos seus suces­sores, é Pastor de toda a Igreja e Vigário de Cristo na terra, porque desempenha o poder vicário do próprio Cristo. O amor ao Papa, que Santa Catarina de Sena chamava «o doce Cristo na terra», deve estar coalhado de oração, sacri­fício e obediência.

18-19. Segundo a tradição, São Pedro seguiu o seu Mestre até morrer crucificado, de cabeça para baixo. « Pedro e Paulo sofreram martírio em Roma durante a perseguição de Nero aos cristãos, que teve lugar entre os anos 64 e 68. O martírio de ambos os Apóstolos é recordado por São Clemente, sucessor do próprio Pedro na Sede da Igreja Romana, que escrevendo aos Coríntios lhes propõe os exemplos gene­rosos dos dois atletas, com estas palavras: por causa dos zelos e da inveja, os que eram colunas principais e santíssimas padeceram perseguição e lutaram até à morte» (Petrum et Paulum).

«Segue-Me»: Esta palavra evocaria no Apóstolo o seu primeiro chamamento (cfr Mt 4,19) e as condições de entrega absoluta que o Senhor impõe aos Seus discípulos: « Se alguém quer vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz cada dia, e siga-Me» (Lc 9,23). O próprio São Pedro, numa das suas cartas, deixa-nos o testemunho de que a exigência Ha Cruz é necessária para todo o cristão: «Pois para isto tostes chamados, já que também Cristo padeceu por vós, dando-vos exemplo, para que sigais os Seus passos» (1Pet 2,21).

07.06.14 – Jo 7, 37-39

37No último dia, o mais solene da festa, Jesus, que estava ali de pé, disse em voz alta: Se alguém tem sede venha até Mim, e beba 38quem acredita em Mim. Como disse a Escri­tura, fluir-Lhe-ão do seio rios de água viva. 39Ora Ele disse isto do Espírito, que deviam receber os que acreditassem n’Ele. É que o Espírito ainda não viera, por Jesus não ter sido ainda glorificado.

Comentário

37-39. Cada um dos oito dias que durava a festa dos Tabernáculos o Sumo Sacerdote dirigia-se à fonte de Siloé e, numa taça de ouro, trazia para o Templo água com a qual aspergia o altar, recordando a água que prodigiosamente manou no deserto e pedindo a Deus abundantes chuvas (cfr Ex 17,1-7). Entretanto, cantava-se um passo do profeta Isaías (cfr Is 12,3) que anunciava a vinda do Salvador e com Ele a efusão dos dons celestes; também se lia Ez 47, que fala das torrentes de água que brotarão do Templo. Jesus, que tinha presenciado este rito, rodeado sem dúvida de uma grande multidão, visto que era o dia mais solene da festa, anuncia ao povo que aquele tempo venturoso chegou: «Se alguém tem sede venha até Mim e beba…». Este convite evoca também a Sabedoria divina, que diz: «Vinde a mim os que me desejais e saciai-vos» (Eccli 24,19; cfr Prv 9,4-5). O Senhor apresenta-Se como Aquele que pode saciar o coração do homem e dar-lhe a paz (veja-se também Mt 11,28). A este propósito, exclama Santo Agostinho: «Criaste-nos, Senhor, para Ti, e o nosso coração está inquieto até que descanse em Ti» (Confissões, 1, 1,1).

Por sua vez, as palavras de Jesus que o versículo 37 con­serva suscitavam a Santo Afonso Maria de Ligório as seguintes considerações, que constituem um comovente comentário, cheio de amor pelo Nosso Salvador: «Temos em Jesus Cristotrês fontes de graças. A primeira é de misericórdia, em que nos podemos purificar de todas as manchas dos nossos pecados (…). A segunda fonte é de amor: quem medita nos sofrimentos e ignomínias de Jesus Cristo por nosso amor, desde o nascimento até à morte, é impossível que não se sinta abrasado na feliz fogueira que veio acender pela terra nos corações de todos os homens (…). A terceira fonte é de paz; quem desejar a paz do coração venha a Mim, que sou o Deus da paz» (Meditações para o Advento, med. 8).

Por outro lado, Jesus ao falar dos «rios de água viva» que brotarão do Seu seio, está a referir-se provavelmente à profecia de Ez 36,25 ss., em que se anuncia que nos tempos messiânicos o povo será purificado com água pura, receberá um Espírito novo e ser-lhes-á substituído o coração de pedra por um coração de carne. Na verdade, Jesus, uma vez exaltado como corresponde à Sua condição de Filho de Deus, enviará no Pentecostes o Espírito Santo, que transformará interiormente todos os que crêem n’Ele. «Por isso, a Tra­dição cristã resumiu a atitude que devemos adoptar para com o Espírito Santo num só conceito: docilidade. Sermos sensíveis àquilo que o Espírito divino promove à nossa volta e em nós mesmos: aos carismas que distribui, aos movi­mentos e instituições que suscita, aos efeitos e decisões que faz nascer nos nossos corações» (Cristo que passa, n.° 130).

Que o Espírito Santo tenha vindo visivelmente no dia de Pentecostes não quer dizer que já antes não tivesse actuado: no Antigo Testamento os profetas falam movidos pelo Espírito Santo (cfr 2Pet 1,21) e são inumeráveis os passos do Novo Testamento em que está presente a Sua acção. Assim, cobre com a Sua sombra a Santíssima Virgem na Anunciação (cfr Lc 1,35); move Zacarias a apregoar as grandezas do Senhor (cfr Lc 1,67-79) e Simeão a proclamar que já tinha chegado Aquele que é a salvação de todas as gentes (cfr Lc 2,25-38).

Mas — pergunta-se Santo Agostinho —, «como entender a frase do Evangelista ‘ainda não tinha sido dado o Espírito Santo já que Jesus ainda não tinha sido glorificado’, senão no sentido de que aquela dádiva ou efusão do Espírito Santo haveria de comunicar-se no futuro, depois da glorificação de Cristo, como jamais o tinha sido antes?» (De Trinitate, 4,20). O Senhor referia-Se, portanto, à vinda do Espírito Santo depois da Sua Ascensão ao Céu, efusão que São João vê antecipada simbolicamente na transfixão, quando do lado de Cristo brota sangue e água (Ioh 19,34). Os Santos Padres consideraram neste facto o nascimento da Igreja e a força santificadora dos Sacramentos, especialmente do Baptismo e da Santíssima Eucaristia.

08.06.14 – Jo 20, 19-23

19Na tarde deste dia, o primeiro da semana, estando, por medo dos Judeus, fechadas as portas no lugar onde se encon­travam os discípulos, veio Jesus colocar-Se no meio deles e disse-lhes: A paz seja convosco! 20Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos ficaram cheios de ale­gria, ao verem o Senhor. 21Jesus então dis­se-lhes de novo: A paz seja convosco! Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos mando a vós. 22Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo. 23Àqueles a quem perdoardes os pecados, ficar-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ficar-lhes-ão retidos.

Comentário

19-20. Jesus aparece aos Apóstolos na própria tarde do Domingo em que ressuscitou. Apresenta-Se no meio deles sem necessidade de abrir as portas, já que goza das quali­dades do corpo glorioso; mas para desfazer a possível im­pressão de que é só um espírito, mostra-lhes as mãos e o lado: não fica nenhuma dúvida de que é o próprio Jesus e de que verdadeiramente ressuscitou. Além disso, saúda-os por duas vezes com a fórmula usual entre os Judeus, com o acento entranhável que noutras ocasiões poria nessa sau­dação. Com essas palavras amigáveis ficavam dissipados o temor e a vergonha que teriam os Apóstolos por se terem comportado deslealmente durante a Paixão. Desta forma voltou a criar-se o ambiente de intimidade,em que Jesus lhes vai comunicar poderes transcendentes.

21. O Papa Leão XIII explicava como Cristo transferiu a Sua própria missão aos Apóstolos: «Que quis e que procurou ao fundar e conservar a Igreja? Isto: transmitir a mesma missão e o mesmo mandato que tinha recebido do Pai para que Ela os continue. Isto é claramente o que Se tinha proposto fazer e isto é o que fez: ‘Como o Pai Me enviou assim Eu vos envio’ (Ioh 20,21). ‘Como Tu Me enviaste ao mundo, assim os enviei Eu ao mundo’ (Ioh 17,18) (…). Momentos antes de retornar ao Céu envia os Apóstolos com o mesmo poder com que o Pai O tinha enviado; ordenou-lhes que estendessem e semeassem por todo o mundo a Sua doutrina (cfr Mt 28,18). Todos os que obedecerem aos Apóstolos salvar-se-ão; os que não lhes obedecerem perecerão (cfr Mc 16,16) (…). Por isso manda aceitar religiosamente e guardar santamente a doutrina dos Apóstolos como Sua: ‘Quem vos ouve a vós, ouve-Me a Mim; quem vos despreza a vós, des­preza-Me a Mim’ (Lc 10,16). Em conclusão, os Apóstolos são enviados por Jesus Cristo da mesma forma que Ele foi enviado pelo Pai» (Satis cognitum). Nesta missão os Bispos são sucessores dos Apóstolos: «Cristo, através dos mesmos Apóstolos, tornou participantes da sua consagração e missão os sucessores deles, os Bispos, cujo cargo ministerial, em grau subordinado, foi confiado aos presbíteros, para que, constituídos na Ordem do presbiterado, fossem cooperadores da Ordem do episcopado para o desempenho perfeito da missão apostólica confiada por Cristo» (Presbytemrorum ordinis, n. 2).

22-23. A Igreja compreendeu sempre — e assim o de­finiu — que Jesus Cristo com estas palavras conferiu aos Apóstolos o poder de perdoar os pecados, poder que se exerce no sacramento da Penitência. «O Senhor, principalmente então, instituiu o sacramento da Penitência, quando, ressus­citado de entre os mortos, soprou sobre os Seus discípulos dizendo: ‘Recebei o Espírito Santo…’. Por este facto tão insigne e por tão claras palavras, o sentir comum de todos os Padres entendeu sempre que foi comunicado aos Apóstolos e aos seus legítimos sucessores o poder de perdoar e reter os pecados para reconciliar os fiéis caídos em pecado depois do Baptismo» (De Paenitentia, cap. 1).

O sacramento da Penitência é a expressão mais sublime do amor e da misericórdia de Deus com os homens, como ensina Jesus na parábola do filho pródigo (cfr Lc 15,11-32). O Senhor espera sempre com os braços abertos que voltemos arrependidos, para nos perdoar e nos devolver a nossa digni­dade de filhos Seus.

Os Papas têm recomendado com insistência que nós, os cristãos, saibamos apreciar e aproveitemos com fruto este Sacramento: «Para progredir mais rapidamente no cami­nho da virtude, recomendamos vivamente o pio uso, intro­duzido pela Igreja sob a inspiração do Espírito Santo, da confissão frequente, que aumenta o conhecimento próprio, desenvolve a humildade cristã, desarraiga os maus cos­tumes, combate a negligência e tibieza espiritual, purifica a consciência, fortifica a vontade, presta-se à direcção espiritual, e por virtude do mesmo sacramento aumenta a graça» (Mystici Corporis).

09.06.14 – Mt 5, 1-12

Vendo Ele as multidões, subiu ao monte e sentou-Se. Acercaram-se os discípulos 2e Ele, tomando a palavra, pôs-se a ensiná-los, dizendo:

3Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus.

4Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados.

5Bem-aventurados os mansos, porque eles possuirão a terra.

6Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos.

7Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia.

8Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus.

9Bem-aventurados os pacíficos, porque eles serão chamados filhos de Deus.

10Bem-aventurados os perseguidos por amor da justiça, porque deles é o Reino dos Céus.

11Bem-aventurados sois, quando, por minha causa, vos injuriarem e perseguirem e disserem, falsamente, contra vós toda a espécie de mal.

12Alegrai-vos e exultai, porque será grande nos Céus a vossa recompensa. Foi assim que perseguiram os profetas antes de vós.

Comentário

1-2. O Sermão da Montanha ocupa integralmente os caps. 5, 6 e 7 de São Mateus. Trata-se do primeiro dos cinco grandes discursos de Jesus que aparecem neste Evan­gelho. Compreende uma considerável parte dos ensinamentos do Senhor.

Não é fácil de reduzir o discurso a um só tema, mas os diversos ensinamentos podem comodamente agrupar-se à volta destes cinco pontos: 1) o espírito que se deve ter para entrar no Reino dos Céus (as Bem-aventuranças, sal da terra e luz do mundo, Jesus e a Sua doutrina, plenitude da Lei); 2) rectidão de intenção nas práticas de piedade (aqui se inclui a oração do Senhor ou Pai-Nosso); 3) confiança na Providência paternal de Deus; 4) as relações fraternas dos filhos de Deus (não julgar o próximo, respeito pelas coisas santas, eficácia da oração e a regra de oiro da caridade); e 5) condições e fundamento para a entrada no reino (a porta estreita, os falsos profetas e edificar sobre rocha).

2. «Pôs-se a ensiná-los»: Refere-se tanto aos discípulos que rodeavam Jesus como às multidões ali presentes, se­gundo aparece no fim do Sermão da Montanha (Mt 7,28).

As Bem-aventuranças (5,3-12) constituem como que o pórtico do Sermão da Montanha. Para uma recta compreensão das Bem-aventuranças é conveniente ter em conta que nelas não se promete a salvação a umas determinadas classes de pessoas que aqui se enumerariam, mas a todos aqueles que alcancem as disposições religiosas e o comportamento moral que Jesus Cristo exige. Quer dizer, os pobres de espírito, os mansos, os que choram, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os puros de coração, os pacíficos e os que sofrem perseguição por buscar a santidade, não indicam pessoas distintas entre si, mas são como que diversas exigências de santidade dirigidas a quem quer ser discípulo de Cristo.

Pela mesma razão, também não prometem a salvação a determinados grupos da sociedade, mas a toda a pessoa que, seja qual for a sua situação no mundo, se esforce por viver o espírito e as exigências das Bem-aventuranças.

A todas elas é também comum o sentido escatológico, isto é, é-nos prometida a salvação definitiva não neste mundo, mas na vida eterna. Mas o espírito das Bem-aventuranças produz, já na vida presente, a paz no meio das tributações. Na história da humanidade, as Bem-aventuranças constituem uma mudança completa dos critérios humanos habituais: desqualificam o horizonte da piedade farisaica, que via na felicidade terrena a bênção e prêmio de Deus e, na infeli­cidade e desgraça, o castigo. Em todos os tempos as Bem-aventuranças põem muito por cima os bens do espírito sobre os bens materiais. Sãos e doentes, poderosos e débeis, ricos e pobres… são chamados, por cima das suas circunstâncias, à felicidade profunda daqueles que alcançam as Bem-aventu­ranças de Jesus.

É evidente que as Bem-aventuranças não contêm toda a doutrina evangélica. Não obstante contêm, como que em germe, todo o programa de perfeição cristã.

3. Neste versículo exprime-se de modo amplo a relação ida pobreza com o espírito. Este conceito religioso de pobre tinha já uma longa tradição no AT (cfr, p. ex., Soph 2,3 s). Mais que a condição social de pobre, expressa a atitude religiosa ide indigência e de humildade diante de Deus: é pobre o que corre a Deus sem considerar méritos próprios e confia só na misericórdia divina para ser salvo. Esta atitude religiosa da pobreza está muito aparentada com a chamada infância espiritual. O cristão considera-se diante de Deus como um filho pequeno que não tem nada em propriedade; tudo é de Deus seu Pai e a Ele o deve. De qualquer modo a pobreza em espírito, quer dizer, a pobreza cristã, exige o desprendimento dos bens materiais e austeridade no uso deles. A alguns, os religiosos, Deus pede-lhes o desprendimento inclusive jurídico das suas propriedades, como testemunho perante o mundo da condição passageira das coisas terrenas.

4. «Os que choram»: Chama aqui bem-aventurados Nosso Senhor todos os que estão aflitos por alguma causa e, de modo particular, aqueles que estão verdadeiramente arrependidos dos seus pecados, ou aflitos pelas ofensas que outros fazem a Deus, e que levam o seu sofrimento com amor e desejos de reparação.

«Choras? — Não te envergonhes. Chora; sim, os homens também choram, como tu, na solidão e diante de Deus. — Durante a noite, diz o rei David, regarei de lágrimas o meu leito.

«Com essas lágrimas, ardentes e viris, podes purificar o teu passado e sobrenaturalizar a tua vida actual» (Caminho, nº 216).

O Espírito de Deus consolará com paz e alegria, mesmo neste mundo, os que choram os pecados, e depois participarão da plenitude da felicidade e da glória do céu: esses são bem-aventurados.

5. «Mansos»: quer dizer, os que sofrem com paciência as perseguições injustas; os que nas adversidades mantêm o ânimo sereno, humilde e firme. e não se deixam levar pela ira ou pelo abatimento. É a virtude da mansidão muito necessária para a vida cristã. Normalmente as frequentes manifestações externas de irritabilidade procedem da falta de humildade e de paz interior.

«A terra»: Comummente entende-se em sentido trans­cendente, quer dizer, a pátria celestial.

6. O conceito de justiça na Sagrada Escritura é essen­cialmente religioso (cfr nota a Mt 1,19). Chama-se justo a quem se esforça sinceramente por cumprir a Vontade de Deus, que se manifesta nos mandamentos, nos deveres de estado e na união da alma com Deus. Por isso a justiça, na linguagem da Bíblia, coincide com o que actualmente cos­tuma chamar-se santidade (lIoh 2,29; 3,7-10; Apc 22,11; Gen 15,6; Dt 9,4). Como comenta São Jerónimo (Comm. in Matth.5.6). esta (quarta bem-aventurança de Nosso Senhor exige não um simples desejo vago de justiça, mas ter fome e sede dela, isto e, amar e buscar com todas as forças aquilo que torna justo o homem diante de Deus. O que de verdade quer a santidade cristã tem de amar os meios que a Igreja, instrumento universal de salvação, oferece e ensina a viver a todos os homens: frequência de sacramentos, convivência íntima com Deus na oração, fortaleza em cumprir os deveres familiares, profissionais, sociais.

7. A misericórdia não consiste apenas em dar esmola aos pobres, mas também em compreender os defeitos que possam ‘ter os outros, desculpá-los, ajudá-los a superá-los e amá-los mesmo com os defeitos que tenham. Também faz parte da misericórdia alegrar-se e sofrer com as alegrias e dores alheias.

A doutrina de Cristo ensina que a raiz da qualidade dos actos humanos está no coração, quer dizer, no interior do homem, no fundo do seu espírito: «Quando falamos de um coração humano, não nos referimos só aos sentimentos: aludimos à pessoa toda que quer, que ama, que convive com os outros. Ora, na maneira de os homens se exprimirem, que a Sagrada Escritura utiliza para nos ajudar a compreender as coisas divinas, o coração é tido por resumo e fonte, expressão e fundo íntimo dos pensamentos, das palavras, das acções. Um homem vale o que vale o seu coração — diríamos com palavras bem humanas» (Cristo que passa, nº 164). A pureza de coração é um dom de Deus, que se manifesta na capacidade de amar, no olhar recto e puro para tudo o que é nobre. Como diz o Apóstolo, «tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, tudo o que é virtuoso e louvável, é o que deveis ter em mente» (Phil 4,8). O cristão, ajudado pela graça de Deus, deve lutar continuamente para purificar o seu coração e adquirir essa pureza, em virtude da qual se promete a visão de Deus.

9. A palavra «pacíficos» é a usual nas traduções e, além disso, etimologicamente é fiel ao texto. No livro sagrado tem claramente um sentido activo: «os que pro­movem a paz» em si mesmos, nos outros e, sobretudo, como fundamento do anterior, procuram reconciliar-se e recon­ciliar os outros com Deus. A paz com Deus é a causa e o cume de toda a paz. Será vã e enganadora qualquer paz no mundo que não se baseie nessa paz divina. «Serão chamados filhos de Deus»: É um hebraísmo muito frequente na Sagrada Escritura; é o mesmo que dizer «serão filhos de Deus». A primeira Epístola de São João (1Ioh 3, 1) dá-nos a exegese autêntica desta bem-aventurança: «Vede que amor nos mostrou o Pai: que sejamos chamados filhos de Deus e que realmente o sejamos».

10. Acerca do significado de «justiça» veja-se o dito em Mt 1,19; 5,6. Assim, pois, o sentido desta bem-aventurança é o seguinte: bem-aventurados os que sofrem perseguição por ser santos ou pelo seu empenho em ser santos, porque deles é o Reino dos Céus.

Portanto, é bem-aventurado o que sofre perseguição por ser fiel a Jesus Cristo, e a suporta não só com paciência mas com alegria. Na vida do cristão apresentam-se circunstâncias heroicas, nas quais não têm lugar meios termos; ou se é fiel a Jesus Cristo jogando-se a honra, a vida e os bens, ou O renegamos. São Bernardo (Sermão da Festa de Todos os Santos) diz que esta oitava bem-aventurança era como que a prerrogativa dos santos mártires. O cristão que é fiel à doutrina de Jesus Cristo é de facto também um «mártir» (testemunha) que reflecte ou cumpre esta bem-aventurança, mesmo sem chegar à morte corporal.

11-12. As Bem-aventuranças são as condições que Cristo pôs para entrar no Reino dos Céus. O versículo, à maneira de recapitulação, é um convite global a viver estes ensinamentos. A vida cristã não é, pois, tarefa fácil, mas vale a pena pela plenitude de vida que o Filho de Deus promete.

10.06.14 – Mt 5, 13-16

13Vós sois o sal da terra. Ora se o sal se tornar insípido, com que há-de ser ele sal­gado? Para nada mais serve, senão para se deitar fora e ser pisado pelos homens.

14Vós sois a luz do mundo. Não pode ocultar-se uma cidade assente sobre um monte.

15Nem se acende uma candeia para se colocar debaixo do alqueire mas sim sobre o velador, e assim alumia a quantos estão em casa.

16Brilhe a vossa luz diante dos homens de tal modo que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos Céus.

Comentário

13-15. Estes versículos são um chamamento à missão apostólica que todo o cristão tem pelo facto de o ser. Cada cristão há-de lutar pela sua santificação pessoal, mas também pela santificação dos outros. Jesus ensina-o com as imagens expressivas do sal e da luz. Assim como o sal preserva da corrupção os alimentos, lhes dá sabor, os torna agradáveis e desaparece confundindo-se com eles, o cristão há-de desem­penhar essas mesmas funções entre os seus semelhantes.

«Tu és sal, alma de apóstolo. — «Bonum est sal» — o sal é bom, lê-se no Santo Evangelho; «si autem sal evanuerit» — mas se o sal se desvirtua… de nada serve, nem para a terra, nem para o estéreo; deita-se fora como inútil.

«Tu és sal, alma de apóstolo. — Mas se te desvirtuas…» (Caminho, n.°921).

As boas obras são fruto da caridade, que consiste em amar os outros como nos ama o Senhor (cfr Ioh 15, 12). «Agora adivinho — escreve Santa Teresinha — que a verdadeira ca­ridade consiste em suportar todos os defeitos do próximo, em não estranhar as suas debilidades, em edificar-se com as suas menores virtudes; mas aprendi especialmente que a caridade não deve permanecer encerrada no fundo do cora­ção pois ‘não se acende uma luz para a colocar debaixo de um alqueire, mas sobre o velador a fim de alumiar todos os que estão em casa’. Parece-me que esta tocha representa a caridade que deve iluminar e alegrar não só aqueles que mais amo, mas todos os que estão em casa» (História de uma alma, cap 9).

Uma das manifestações mais claras da caridade é a actividade apostólica. O Concilio Vaticano II pôs em relevo a obrigação do apostolado, direito e dever que nascem do Baptismo e da Confirmação (cfr Lumen gentium, n. 33), até afirmar que, fazendo o cristão parte do Corpo Místico, «o membro que não contribui segundo a sua medida para o aumento deste Corpo, deve dizer-se que não aproveita nem à Igreja nem a si mesmo» (Apostolicam actuositatem, n. 2). «Inúmeras oportunidades se oferecem aos leigos para exer­cerem o apostolado de evangelização e santificacão. O; próprio testemunho da vida cristã e as obras, feitas com espírito sobrenatural, têm eficácia para atrair os homens à fé B a Deus; diz o Senhor: ‘Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, de modo que vejam as vossas boas obras e dêem glória ao vosso Pai que está nos céus’» (Apostolicam actuosi­tatem, n. 6).

«A Igreja tem de estar presente nestes agrupamentos humanos por meio dos seus filhos que entre eles vivem ou a eles são enviados. Com efeito, todos os fiéis cristãos, onde quer que vivam, têm obrigação de manifestar, pelo exemplo da vida e pelo testemunho da palavra, o homem novo de que se revestiram pelo Baptismo, e a virtude do Espírito Santo por quem na Confirmação foram robustecidos, de tal modo que os outros homens, ao verem as suas boas obras, glorifiquem o Pai e compreendam mais plenamente o sentido genuíno da vida humana e o vínculo universal da comunidade humana» (Adgentes, n. 11; cfr n. 36).

11.06.14 – Mt 10, 7, 13

7Ide e pregai, dizen­do: « Está próximo o Reino dos Céus». 8Curai enfermos, ressuscitai mortos, limpai lepro­sos, expulsai Demônios. Dai de graça o que de graça recebeste. 9Não procureis oiro nem prata nem cobre para vossos cintos, 10nem alforge para o caminho, nem duas túnicas nem calçado nem bordão, porque o traba­lhador tem direito ao seu sustento.

11Em qualquer cidade ou aldeia onde entrardes, informai-vos de alguma pessoa honrada que nela haja e hospedai-vos aí até partirdes. 12E, ao entrar na casa, saudai-a. E, se realmente essa casa for digna, venha sobre ela a vossa paz; 13se, porém, não for digna, a vossa paz voltará para vós.

Comentário

7-8. Até então os Profetas tinham anunciado ao povo eleito os bens messiânicos, por vezes em imagens acomodadas à sua mentalidade ainda pouco madura espiritualmente. Agora, Jesus envia os Seus Apóstolos a anunciar que esse Reino de Deus prometido está iminente, manifestando os seus aspectos espirituais. Os poderes mencionados no v. 8 são precisamente o sinal anunciado pelos Profetas acerca do Reino de Deus ou reino messiânico. Primariamente (caps. 8 e 9) estes poderes messiânicos exerce-os Jesus Cristo; agora dá-os aos Seus discípulos para mostrar que essa missão é divina (cfr Is 35,5-6 40, 9; 52, 7; 61,1).

9. «Cintos»: Cinturões duplos, cosidos pelas bordas, em que se costumava na antiguidade levar o dinheiro e outros objectos pequenos e pesados.

9-10. Jesus urge aos Seus discípulos a que partam sem demora para o cumprimento da sua missão. Não devem preo­cupar-se por carecerem de bens materiais, nem dos meios humanos; o que faltar Deus provê-lo-á na medida das suas necessidades. Esta santa audácia em empreender as obras de Deus repete-se uma e outra vez na história da Igreja. Quantas coisas grandes foram empreendidas, mesmo sem ter à disposição os meios humanos mais imprescindíveis! Assim agiram os santos. Se na expansão da Igreja se tivesse esperado por dispor desses meios, muitas almas não teriam recebido a luz de Cristo. Quando o cristão está persuadido de qual é a Vontade de Deus, não deve, com ânimo encolhido, parar a contar os meios de que dispõe. «Nos empreendimentos de apostolado, está bem — é um dever que consideres os teus meios terrenos (2 + 2 =4). Mas não te esqueças — nunca — de que tens de contar, felizmente, com outra parcela. Deus + 2 + 2…) (Caminho, n.°471).

De qualquer modo, não pretendamos forçar Deus para que intervenha de modo extraordinário quando podemos remediar as necessidades com o nosso próprio esforço e trabalho. Isto quer dizer que os cristãos devem ajudar com generosidade aqueles que, dedicados totalmente a cuidar dos bens espirituais dos seus irmãos, não têm tempo para se ocuparem do seu próprio sustento. Veja-se a este propósito o que promete o próprio Jesus em Mt 10,40-42.

11-15. A palavra «paz» era e continua a ser a saudação usual entre os Judeus. Mas na boca dos Apóstolos devia adquirir uma significação mais profunda: a manifestação da bênção de Deus, que os discípulos de Jesus, como enviados Seus, derramam sobre aqueles que os acolhem. Este manda­to do Senhor não termina naquela missão concreta, mas é como que uma profecia para toda a história posterior. O mensageiro de Cristo não desanima quando a sua palavra não é acolhida. Sabe que a bênção de Deus não fica vazia nem é ineficaz (cfr Is 55, 11) e todo o esforço por parte do cristão sempre dará fruto. Em qualquer caso, a palavra apostólica leva consigo a graça da conversão: «muitos dos que tinham ouvido a Palavra abraçaram a Fé, e o número, só dos homens, elevou-se a uns cinco mil» (Act 4,4; cfr 10,44; Rom 10,17).

O homem deve prestar atenção a essa palavra do Evan­gelho e acreditar nela (Act 13, 48; 15, 7). Se a aceitar e perseverar nela, receberá a consolação da sua alma, a paz do seu espírito (Act 8, 3.9) e a salvação (Act 11, 4-18). Mas se a rejeitar, não estará isento de culpa e Deus julgá-lo-á por se ter fechado à graça que lhe foi oferecida.

12.06.14 – Mt 5, 20-26

20Porque Eu vos digo que, se a vossa justiça não sobrepujar a dos Escribas e Fariseus, não entra reis no Reino dos Céus.

21Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás, e quem matar será réu perante o tribunal. 22Eu, porém, digo-vos: Todo aquele que se irar contra seu irmão, será réu perante o tribunal. E quem chamar a seu irmão «imbecil», será réu perante o Sinédrio. E quem lhe chamar «doido», será réu da Geena do fogo. 23Portanto, se ao apresentares a tua oferenda ao altar, aí te recordares que teu irmão tem algo contra ti, 24deixa aí a tua oferenda diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão, depois vem e apresenta a tua oferenda. 25Põe-te de acordo com o teu adversário, enquanto estás com ele no caminho. Não seja caso que o adver­sário te entregue ao juiz, e o juiz ao guarda, e sejas metido na prisão. 26Em verdade te digo: não sairás de lá, enquanto não pagares o último ceitil.

Comentário

20. «Justiça»: Veja-se nota a Mt 5, 6. O versículo vem esclarecer o sentido dos precedentes. Os escribas e os fariseus tinham chegado a deformar o espírito da Lei, ficando na observância externa e ritual da mesma. Entre eles o cumpri­mento exacto e minucioso, mas externo, dos preceitos tinha-se transformado numa garantia de salvação do homem diante de Deus: « se eu cumpro isto sou justo, sou santo e Deus tem de me salvar». Com este modo de conceber a justificação já não é Deus no fundo quem salva, mas é o homem quem se salva pelas obras externas. A falsidade de tal concepção fica patente com a afirmação de Cristo, que poderia exprimir-se com estes termos: para entrar no Reino dos Céus é necessário superar radicalmente a concepção da justiça ou santidade a que tinham chegado os escribas e os fariseus. Por outras palavras, a justificação ou santificação é uma graça de Deus, com a qual o homem só pode colaborar secundariamente pela sua fidelidade a essa graça. Noutros lugares estes ensinamentos ficarão ainda mais claramente explicados por Jesus (cfr Lc 18, 9-14, parábola do fariseu e do publicano). Também dará lugar a Uma das grandes batalhas doutrinais de São Paulo perante os «judaizantes» (veja-se Gal 3 e Rom 2-5).

21-26. Nestes versículos temos um exemplo concreto de como Jesus leva à sua plenitude a Lei de Moisés, explicando profundamente o sentido dos mandamentos desta.

22. Jesus ao falar em primeira pessoa («Eu, porém, digo-vos») expressa que a Sua autoridade está por cima da de Moisés e dos Profetas; quer dizer: Ele tem autoridade divina. Nenhum homem poderia falar com essa autoridade,

«Imbecil»: Muitíssimas versões deste passo mantiveram a transcrição da palavra original aramaica: «Raça», pronunciada por Cristo. Não é fácil de dar uma tradução exacta. O termo «raça» equivale ao que hoje entendemos por néscio, estúpido, imbecil. Era sinal entre os Judeus de um grande desprezo, que muitas vezes se manifestava não com palavras, mas com a acção de cuspir no chão.

«Doido», que outras versões traduzem por «fátuo», «louco», «renegado», etc., era um insulto ainda maior que «raça»: referia-se à perda do sentido moral e religioso, até ao ponto da apostasia.

Nosso Senhor indica neste texto três faltas que podemos cometer contra a caridade, nas quais se pode apreciar uma gradação, que vai desde a irritação interna até ao maior dos insultos. A propósito deste passo comenta Santo Agostinho que se devem observar três graus de faltas e de castigos. O primeiro, entrar em cólera por um movimento interno do coração, ao que corresponde o castigo do juízo; o segundo, dizer alguma palavra de desprezo, que leva consigo o castigo do Conselho; o terceiro, quando deixando-nos levar pela ira até à obcecação, injuriamos despiedadamente os nossos irmãos, que é castigado com o fogo do inferno (cfr De Semi. Dom. in monte II, 9).

«Geena do fogo», frase que na linguagem judaica daqueles tempos significava o castigo eterno, o fogo do inferno.

Daqui a gravidade dos pecados externos contra a caridade: murmuração, injúria, calúnia, etc. Não obstante, devemos dar-nos conta de que estes brotam do coração; o Senhor chama a atenção em primeiro lugar para os pecados internos: rancor, ódio, etc., para fazer ver que aí está a raiz, e quanto nos convém refrear os primeiros movimentos da ira.

23-24. O Senhor encontra-Se com umas práticas judaicas do Seu tempo, e em tal ocasião dará uma doutrina de valor moral altíssimo e perene. Naturalmente que no cristianismo estamos noutra situação diferente das práticas cultuais judaicas. Para nós o mandato do Senhor tem uns caminhos determinados por Ele mesmo. Em concreto, na Nova e definitiva Aliança, fundada por Cristo, reconciliar-nos é apro­ximar-nos do sacramento da Penitência. Neste os fiéis «obtêm da misericórdia de Deus o perdão da ofensa feita a Ele, e ao mesmo tempo reconciliam-se com a Igreja, à qual feriram pelo pecado» (Lumen gentium, n. 11).

Do mesmo modo, no Novo Testamento, a oferenda por excelência é a Eucaristia. Ainda que à Santa Missa se deva assistir sempre nos dias de preceito, é sabido que para a recepção da Sagrada Comunhão se requer como condição imprescindível estar em graça de Deus.

Nosso Senhor não quer dizer nestes versículos que se tenha de antepor o amor do próximo ao amor de Deus. A caridade tem uma ordem: amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças. Este é o maior e primeiro mandamento (cfr Mt 22, 37-38). O amor ao próximo, que é o segundo mandamento em importância (cfr Mt 22, 39), recebe o seu sentido do primeiro. Não é concebível fraternidade sem paternidade. A ofensa contra a caridade é, antes de mais, ofensa a Deus.

13.06.14 – Mt 5, 27-32

27Ouvistes que foi dito: Não cometerás adultério. 28Eu, porém, digo-vos: Todo aquele que olhar uma mulher para a cobiçar, já com ela cometeu adultério em seu coração. 29Se o teu olho direito te faz tropeçar, arranca-o e lança-o fora, para longe de ti, porque melhor é para ti perder-se um só dos teus membros, do que ser todo o teu corpo lançado na Geena. 30E se a tua mão direita te faz tropeçar, corta-a e lança-a fora, para longe de ti, porque melhor é para ti perder-se um só dos teus membros, do que ir todo o teu corpo para a Geena.

31Também foi dito: Todo aquele que se desquitar de sua mulher, dê-lhe libelo de repúdio. 32Eu, porém, digo-vos: Todo o que se desquitar de sua mulher, excepto no caso de união ilegítima, faz com que ela venha a ser adúltera, e quem se casar com uma repudiada, comete adultério.

Comentário

27-30. Refere-se ao olhar pecaminoso dirigido a toda a mulher, casada ou não. Nosso Senhor leva à sua plenitude o preceito da Antiga Lei. Neste só se considerava pecado o adultério e o desejo da mulher do próximo.

O desejo: uma coisa é sentir e outra consentir. O consen­timento supõe a advertência da maldade desses actos (olhares, imaginações, desejos impuros), e a voluntariedade que livremente os admite.

A proibição dos vícios implica sempre um aspecto positivo, que é a virtude contrária. A santa pureza é, como toda a virtude, eminentemente positiva; nasce do primeiro man­damento e para ele se ordena: «Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração e com toda a tua alma e com toda a tua mente» (Mt 22, 37). «A pureza é consequência do amor com que entregamos ao Senhor a alma e o corpo, as potências e os sentidos. Não é uma negação: é uma alegre afirmação» (Cristo que passa, nº5). Esta virtude exige pôr todos os meios e, se for necessário, heroicamente.

Por olho direito e mão direita entende-se o que é para nós de maior estima. Este modo de falar do Senhor, tão forte, não deve ser rebaixado na sua exigência moral. É claro que não significa que nos devemos mutilar fisicamente, mas lutar sem concessões, estando dispostos a sacrificar tudo aquilo que possa ser ocasião clara de ofensa a Deus. As palavras do Senhor, tão gráficas, previnem principalmente acerca de uma das mais frequentes ocasiões: o cuidado que devemos ter com os olhares. O rei David começou deixando-se levar pela curiosidade e isto conduziu-o ao adultério e ao crime. Depois chorou os seus pecados e teve uma vida santa na presença de Deus (cfr 2Sam 11 e 12).

«Os olhos! Por eles entram na alma muitas iniquidades. — Quantas experiências como a de David!… — Se guardardes a vista, tereis assegurado a guarda do vosso coração» (Caminho, n.°183).

Entre os meios ascéticos que servem para salvaguardar a virtude da santa pureza podem enumerar-se: Confissão e Comunhão frequentes; devoção à Santíssima Virgem; espírito de oração e mortificação; guarda dos sentidos; fuga das ocasiões, e esforço por evitar a ociosidade, estando sempre ocupados em coisas úteis. Há também outros dois meios que têm hoje uma particular importância: «O pudor e a modéstia são os irmãos pequenos da pureza» (Caminho, nº128). Pudor e modéstia são expressão de bom gosto, de respeito pelos outros e pela dignidade humana e cristã. Por isso o cristão, consequente com esta doutrina do Senhor, há-de lutar opondo-se a um ambiente paganizado, para influir nele e tratar de mudá-lo.

«É necessária uma cruzada de virilidade e de pureza que contrarie e anule o trabalho selvagem daqueles que pensam que o homem é uma besta. E esta cruzada é obra vossa» (Caminho, nº121).

31-32. A Lei de Moisés (Dt 24, 1), dada em tempos antigos, tinha tolerado o divórcio pela dureza de coração dos Hebreus. Mas não tinha indicado de maneira clara os motivos para chegar a ele. Por isso os rabinos tinham dado uma série de interpretações diversas, segundo as escolas a que pertencessem, que iam de posições muito laxas a outras mais rígidas. Em qualquer dos casos, só o marido podia repudiar a mulher. A condição de inferioridade da mulher tinha sido de algum modo suavizada pela acta ou libelo de repúdio, escrito pelo qual o marido declarava a liberdade da mulher repudiada para que pudesse contrair novas núpcias. Contra tais interpretações rabínicas, Jesus restabelece a originária indissolubilidade do matrimônio tal como Deus o tinha instituído (Gen 1, 27; 2, 24; cfr Mt 19, 4-6; Eph 1, 31; 1Cor 7,10).

«Excepto no caso de união ilegítima» ou «fora do caso de fornicação» não pode tomar-se como uma excepção do prin­cípio da absoluta indissolubilidade do matrimônio que Jesus acaba de restabelecer. Quase com toda a certeza, a mencionada cláusula refere-se a uniões admitidas como matri­mônio entre alguns povos pagãos, mas proibidas, por incestuosas, na Lei mosaica (cfr Lev 18) e na tradição rabínica. Trata-se, pois, de uniões inválidas desde a sua raiz por algum impedimento. Quando tais pessoas se convertiam à verdadeira fé, não é que pudesse dissolver-se a sua união, mas declarava-se que não tinham estado nunca unidas em verdadeiro matrimônio. Portanto, esta cláusula não vai con­tra a indissolubilidade do matrimônio, mas reafirma-a. A Igreja, a partir dos ensinamentos de Jesus, e guiada pelo Espírito Santo, concretizou a solução do caso especialmente grave do adultério, estabelecendo a liceidade da separação dos cônjuges, mas sem dissolubilidade do vínculo matrimonial e, portanto, sem possibilidade de contrair novo matrimônio.

A indissolubilidade do matrimônio foi ensinada pela Igreja desde o princípio sem a menor dúvida, e urgiu na prática o cumprimento moral e jurídico desta doutrina, exposta com toda a autoridade por Jesus (Mt 19, 3-9; Mc 10, 1-12; Lc 16, 18) e pelos Apóstolos (1Cor 6, 16; 7, 10-11.39; Rom 7,2-3; Eph 5,31 s.). Entre os muitos textos do Magistério que se poderiam citar, eis aqui só alguns a modo de exemplo:

«É atribuído um triplo bem ao matrimônio (…). O terceiro é a indissolubilidade do matrimônio, porque significa a união invisível de Cristo e da Igreja. E ainda que por motivo de fornicação seja lícito fazer separação do leito, não o é, contudo, contrair outro matrimônio, uma vez que o vínculo do matrimônio legitimamente contraído é perpétuo» (Pró Armeniis).

«Se alguém disser que, por causa de heresia, ou por coabitação molesta, ou por ausência culpável do cônjuge, o vínculo do matrimônio pode ser dissolvido, seja anátema» (De Sacram. matr., can. 5).

«Se alguém disser que a Igreja erra quando ensinou e ensina que, de acordo com a doutrina do Evangelho e dos Apóstolos, não se pode desatar o vínculo do matrimônio por razão de adultério de um dos cônjuges; e que nenhum dos dois, nem sequer o inocente que não deu causa para o adultério, pode contrair novo matrimônio enquanto viva o outro cônjuge, e que adultera na mesma o que depois de repudiar a adúltera se casa com outra, como a que depois de repudiar o adúltero se casa com outro, seja anátema» (De Sacram. matr., can. 7).

«Fique assente, antes de mais, como fundamento inamovível e inviolável, que o matrimônio não foi instituído nem estabelecido por obra dos homens, mas por obra de Deus; que foi protegido, confirmado e elevado não com leis dos homens, mas do próprio autor da natureza, Cristo Senhor; leis, portanto, que não podem estar sujeitas ao arbítrio dos homens, nem sequer ao acordo contrário dos mesmos côn­juges. Esta é a doutrina das Sagradas Letras; esta a constante e universal Tradição da Igreja; esta a solene definição do sagrado Concilio de Trento, que confirma e precisa com as mesmas palavras da Sagrada Escritura que o perpétuo e indissolúvel vínculo do matrimônio e a sua unidade e firmeza têm Deus por autor» (Casti connubii).

«Assim pois, apesar de antes de Cristo, de tal modo se ter temperado a sublimidade e serenidade da lei primitiva que Moisés permitiu aos cidadãos do mesmo povo de Deus, por causa da dureza do seu coração, dar libelo de repúdio por determinadas causas; não obstante, Cristo, no uso do Seu poder de legislador supremo, revogou esta permissão de maior licença, e restabeleceu inteiramente a lei primitiva por aquelas palavras que nunca se devem esquecer: ‘o que Deus uniu, não o separe o homem’» (Casti connubii).

«Em vista do bem tanto dos esposos e da prole como da sociedade, este sagrado vínculo não está ao arbítrio da vontade humana. O próprio Deus é o autor do matrimônio… Esta união íntima, já que é o dom recíproco de duas pessoas, exige, do mesmo modo que o bem dos filhos, a inteira fidelidade dos cônjuges e a indissolubilidade da sua união» (Gaudium et Spes, n. 48).

14.06.14 – Mt 5, 33-37

33Ouvistes mais que foi dito aos antigos: Não jures falso, mas cumpre os juramentos feitos ao Senhor. 34Eu, porém, digo-vos que não jureis de modo nenhum, nem pelo Céu, que é o trono de Deus, 35nem pela Terra, que é estrado dos seus pés, nem por Jerusalém, que é a cidade do Grande Rei. 36Nem jures pela tua cabeça, porque não podes tornar um só cabelo branco ou preto. 37Seja, pois, o vosso falar: sim, sim, não, não, porque tudo o que passa disto procede do Maligno.

Comentário

33-37. A Lei de Moisés proibia taxativamente o perjúrio ou violação de juramento (Ex 20, 7; Num 30,3; Dt 23,22). Em tempos de Cristo, a prática do juramento tinha caído num abuso até ridículo pela sua frequência e pela casuística à volta dele. Segundo numerosos documentos rabínicos da época, jurava-se pelos motivos mais fúteis. Juntamente com o abuso do juramento, tinha surgido outro, não menos ridículo, para legitimar o seu não cumprimento. Tudo isso constituía uma falta de respeito ao nome de Deus. Não obstante, pela mesma Sagrada Escritura sabemos que o juramento é lícito e bom nalgumas ocasiões: «se juras pela vida de Yahwéh com verdade, com direito e com justiça, serão em ti abençoados os povos e em ti se gloriarão» (Ier 4,2).

Jesus estabelece o princípio que hão-de seguir os Seus discípulos nesta matéria. Funda-se num restabelecimento da confiança mútua, da hombridade de bem e da sinceridade. O demônio é o «pai da mentira» (Ioh 8, 44). Portanto, na Igreja de Cristo não podem tolerar-se umas relações humanas baseadas no engano, na hipocrisia. Deus é a verdade, e os filhos do Reino têm, pois, que fundamentar as suas relações na verdade. Jesus conclui com uma exaltação da sinceridade. Ao longo de todo o seu ensino a hipocrisia é um dos vícios mais combatidos (veja-se, por exemplo, Mt 23, 13-32), enquanto que a sinceridade constitui uma das mais belas virtudes (veja-se Ioh 1, 47).

15.06.14 – Jo 3, 16-18

16De facto, Deus amou de tal maneira o mundo que deu o Seu Filho único, para que todo o que n’Ele acredita náo pereça, mas tenha a vida eterna. 17É que Deus não enviou o Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para o mundo ser salvo por Seu inter­médio. 18Quem n’Ele acredita não é conde­nado; mas quem não acredita já está conde­nado, porque não acreditou no nome do Filho único de Deus.

Comentário

16-21. Com estas palavras carregadas de sentido sinte­tiza-se como a Morte de Jesus Cristo é a manifestação suprema do amor de Deus pelos homens (cfr Introdução ao Evangelho segundo São João, parágrafo sobre A caridade, pp 1101-1105). «De tal maneira Deus amou o mundo que lhe en­tregou Seu Filho Unigênito para a sua salvação. Toda a nossa religião é uma revelação da bondade, da misericórdia, do amor de Deus por nós. ‘Deus é amor’ (cfr 1Ioh4,16), isto é, amor que se difunde e se prodigaliza; e tudo se resume nesta grande verdade que tudo explica e tudo ilumina. É necessário ver a história de Jesus a esta luz. ‘Ele amou-me’, escreve São Paulo, e cada um de nós pode e deve repeti-lo a si mesmo: Ele amou-me, e sacrificou-Se por mim (Gal 2,20)» (Homília do Corpus Christi).

A entrega de Cristo constitui o chamamento mais pre­mente a corresponder ao Seu grande amor: «Se Deus nos criou, se nos redimiu, se nos ama ao ponto de entregar por nós o Seu Filho Unigênito (Ioh III, 16), se nos espera — todos os dias! — como aquele pai da parábola esperava o filho pródigo (cfr Lc XV, 11-32). como não há-de desejar que O tratemos com amor? O que seria estranho era não falar com Deus, afastar-se d’Ele, esquecê-Lo, dedicar-se a actividades estranhas a esses toques ininterruptos da graça» (Amigos de Deus, n.° 251).

«O homem não pode viver sem amor. Ele permanece para si próprio um ser incompreensível e a sua vida é destituída de sentido, se não lhe for revelado o amor, se ele não se encontra com o amor, se o não experimenta e se o não torna algo seu próprio, se nele não participa vivamente. E por isto precisamente Cristo Redentor (…) revela plena­mente o homem ao próprio homem. Esta é — se assim é lícito exprimir-se — a dimensão humana do mistério da Redenção. Nesta dimensão o homem reencontra a grandeza, a dignidade e o valor próprios da sua humanidade (…). O homem que quiser compreender-se a si mesmo profun­damente (…) deve, com a sua inquietude, incerteza e também fraqueza e pecaminosidade, com a sua vida e com a sua morte, aproximar-se de Cristo. Ele deve, por assim dizer, entrar n’Ele com tudo o que é em si mesmo, deve ‘apro­priar-se’ e assimilar toda a realidade da Encarnação e da Redenção, para se encontrar a si mesmo. Se no homem se actuar este processo profundo, então ele produz frutos, não somente de adoração de Deus, mas também de profunda maravilha perante si próprio. Que grande valor deve ter o homem aos olhos do Criador, se ‘mereceu ter um tal e tão grande Redentor’ (Missal Romano, Hino Exultei da Vigília Pascal), se ‘Deus deu o Seu Filho’, para que ele, o homem, ‘não pereça, mas tenha a vida eterna’.

«(…) A Igreja, que não cessa de contemplar o conjunto do mistério de Cristo, sabe com toda a certeza da fé, que a Redenção que se verificou por meio da Cruz, restituiu defini­tivamente ao homem a dignidade e o sentido da sua existência no mundo, sentido que ele havia perdido em consi­derável medida por causa do pecado. E por isso a Redenção realizou-se no mistério pascal, que, através da cruz e da morte, conduz à ressurreição» (Redemptor hominis, n. 10). Jesus Cristo exige como primeiro requisito para parti­cipar do Seu amor a fé n’Ele. Com ela passamos das trevas para a luz e entramos em caminho de salvação. «Quem não acredita já está condenado» (v. 18). «As palavras de Cristo são, ao mesmo tempo, palavras de juízo e de graça, de morte e de vida. É que só infligindo a morte ao que é velho podemos ter acesso à novidade de vida: e isto, que vale, em primeiro lugar, das pessoas, vale também dos diversos bens deste mundo que estão marcados tanto pelo pecado do homem como pela bênção de Deus (…). Por si mesmo e pelas próprias forças não há ninguém que se liberte do pecado e se eleve acima de si mesmo, ninguém absolutamente que se liberte a si mesmo da sua enfermidade, da sua solidão ou da sua escravidão, mas todos precisam de Cristo como modelo, mestre, libertador, salvador, vivificador. De facto, na história humana, mesmo sob o ponto de vista temporal, o Evangelho foi um fermento de liberdade e de progresso e apresenta-se sempre como fermento de fraternidade, de unidade e de paz» (Ad gentes, n. 8).

16.06.14 – Mt 5, 38-42

38Ouvistes que foi dito: Olho por olho, dente por dente. 39Eu, porém, digo-vos que não resistais ao mau; mas, se alguém te ferir na face direita oferece-lhe também a outra. 40E a quem quiser pleitear contigo para te tirar a túnica, larga-lhe também a capa. 41E se alguém te requisitar por uma milha, vai com ele duas. 42Dá a quem te pede e não voltes as costas a quem te pede emprestado.

Comentário

38-42. Entre os antigos semitas, dos quais procede o povo hebraico, imperava a lei da vingança. Isto dava lugar a intermináveis lutas e crimes. A lei de talião constituiu naqueles primeiros séculos do povo eleito um avanço ético, social e jurídico notório. Esse avanço consistia em que o castigo não podia ser maior que o delito, e que cortava pela raiz toda a reiteração punitiva. Com isso, por um lado, ficava satisfeito o sentido da honra dos clãs e famílias e, por outro, cortava-se a interminável cadeia de vinganças.

Na moral do Novo Testamento Jesus dá o avanço defini­tivo, no que desempenha um papel fundamental o sentido do perdão e a superação do orgulho. Sobre estas bases morais e a defesa razoável dos direitos pessoais deve esta­belecer-se todo o ordenamento jurídico para combater o mal no mundo. Os três últimos versículos referem-se à caridade mútua entre os filhos do Reino; caridade que pressupõe e impregna a justiça.

17.06.14 – Mt 5, 43-48

43Ouvistes que foi dito: Ama o teu próximo e odeia o teu inimigo. 44Eu, porém, digo-vos: Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; 45para serdes filhos de vosso Pai que está nos Céus, o qual faz nascer o sol sobre maus e bons, e chover sobre justos e injustos. 46Porque, se amais os que vos amam, que recompensa mereceis? Porventura não fazem o mesmo também os publicanos? 47E se saudais só os vossos irmãos, que fazeis nisso de extraordinário? Porventura não fazem o mesmo também os gentios? 48Sede, pois, vós perfeitos como é perfeito vosso Pai celeste.

Comentário

43. A primeira parte do versículo «ama p teu próxi­mo», está em Levítico 19,18. A segunda parte «odeia o teu inimigo», não vem na Lei de Moisés. As palavras de Jesus, contudo, aludem a uma interpretação generalizada entre os rabinos da Sua época, os quais entendiam por próximo só os Israelitas. O Senhor corrige esta falsa interpretação da Lei, entendendo por próximo todo o homem (cfr a parábola do bom samaritano em Lc 10, 25-37). 43-47. O passo recapitula os ensinamentos anteriores. O Senhor chega a estabelecer que o cristão não tem inimigos pessoais. O seu único inimigo é o mal em si, o pecado, mas não o pecador. Esta doutrina foi levada à prática pelo próprio Jesus Cristo com os que O crucificaram, e é a que segue todos os dias com os pecadores que se rebelam contra Ele e O desprezam. Por isso os santos seguiram o exemplo do Senhor, como o primeiro mártir Santo Estêvão, que orava pelos que lhe estavam a dar a morte. Chegou-se ao cume da perfeição cristã: amar e rezar até pelos que nos persigam e caluniem.

Este é o distintivo dos filhos de Deus.

46. «Publicanos»: Eram os cobradores de impostos. O Império Romano não tinha funcionários próprios para este serviço, mas entregava-o a determinadas pessoas do país respectivo. Estas podiam ter empregados subalternos (daí que por vezes se fale de «chefe de publicanos», como é o caso dê Zaqueu; cfr Lc 19, 2). A quantidade genérica do imposto para cada região era determinada pela autoridade romana. Os publicanos cobravam uma sobretaxa, da qual viviam, e que se prestava a arbitrariedade; por isso normalmente eram Odiados pelo povo. Além disso, no caso dos Judeus, agregava-se a nota infamante de espoliar o povo eleito em favor dos gentios. 48. O versículo 48 resume, de algum modo, todos os ensinamentos do capítulo, incluídas as Bem-aventuranças. Em sentido estrito é impossível que a criatura tenha a perfeição de Deus. Portanto, o Senhor quer dizer aqui que a perfeição divina deve ser o modelo para o qual há-de tender o fiel cristão, sabendo que há uma distância infinita em relação ao seu Criador. Isto, porém, não rebaixa nada a força deste mandamento, mas, pelo contrário, ilumina-o. Juntamente com a exigência deste mandato de Jesus Cristo, há que considerar a magnitude da graça que promete, para que sejamos capazes de tender, nada menos, que à perfeição divina. De qualquer modo a perfeição que havemos de imitar não se refere ao poder e à sabedoria de Deus, que superam por completo as nossas possibilidades, mas nesta passagem, pelo contexto, parece referir-se sobretudo ao amor e à miseri­córdia. Neste sentido São Lucas refere-nos as seguintes palavras do Senhor: «Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso» (Lc 6, 36; cfr nota a Lc 6, 20-49,).

Como se vê, a «chamada universal à santidade» não é uma sugestão, mas um mandamento de Jesus Cristo: «Tens obrigação de te santificar. — Tu, também. — Quem pensa que é tarefa exclusiva de sacerdotes e religiosos?

A todos, sem excepção, disse o Senhor: ‘Sede perfeitos, como Meu Pai Celestial é perfeito’» (Caminho, nº 291). Doutrina que o Concilio Vaticano II sanciona no cap. 5 da Const. Lumen gentium, n. 40, donde tiramos estas palavras: «Jesus, mestre e modelo divino de toda a perfeição, pregou a santidade de vida, de que Ele é autor e consumador, a todos e a cada um dos Seus discípulos, de qualquer condição: ‘sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito’ (…). É, pois, claro a todos, que os cristãos de qualquer estado ou condição de Vida, são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade. Na própria sociedade terrena, esta santidade promove um modo de vida mais humano».

18.06.14 – Mt 6, 1-6.16-18

Guardai-vos de praticar a vossa justiça diante dos homens, para serdes vistos deles. De outra sorte, não tereis recompensa junto do vosso Pai que está nos Céus.

2Portanto, quando deres esmola, não toques trombeta diante de ti, como fazem os hipó­critas nas sinagogas e nas ruas, para serem louvados dos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. 3Mas, quando tu deres esmola, não saiba a tua esquerda o que faz a direita, 4para que a tua esmola fique secreta, e teu Pai, que vê em lugar secreto, te recompensará.

5E quando orardes, não sejais como os hipócritas que gostam de orar de pé nas sinagogas e nos cantos das praças, para serem vistos dos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. 6Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta à chave e ora a teu Pai que está em lugar secreto. E teu Pai que vê em lugar secreto, te recompensará.

«16E quando jejuais, não andeis tristes, como os hipócritas pois desfiguram o rosto, para mostrarem aos homens que jejuam. Em verdade vos digo que receberam já a sua recompensa. 17Tu, porém, quando jejuas, perfuma a cabeça e lava o rosto, 18para não mostrares aos homens que jejuas, mas sim a teu Pai, que está em lugar secreto, e teu Pai, que vê em lugar secreto, te recompensará.

Comentário

1-18 «Justiça»: Aqui quer dizer boas obras (cfr a nota a Mt 5,6). Nosso Senhor ensina com que espírito se hão-de fazer os actos de piedade pessoal. A esmola, o jejum e a oração constituíam os actos fundamentais da piedade individual no povo escolhido; daqui que se centre nesses três temas. Jesus Cristo, como quem tem a autoridade máxima, ensina que a verdadeira piedade deve viver-se com rectidão de intenção, em intimidade com Deus e fugindo da ostentação. Esta piedade, assim vivida, supõe um exercício da fé em Deus que os vê, e da esperança de que premiará os que vivem uma piedade sincera.

5-6. A Igreja, seguindo esta doutrina de Jesus, sempre nós ensinou a rezar desde crianças no nosso aposento. Esse «tu» do Senhor (v. 6) está a indicar inequivocamente a necessidade da oração pessoal; cada um, a sós com Deus, como um filho que fala com o Pai.

A oração pública em que participam todos os fiéis é santa e necessária; mas não pode nunca substituir este terminante preceito do Senhor; tu, no teu aposento, fechada a porta, ora a teu Pai.

O Concilio Vaticano II recolhe os ensinamentos e a prática da Igreja na sua Liturgia, que é «a meta para a qual se encaminha a acção da Igreja e a fonte donde promana toda a sua força (…). A participação na sagrada Liturgia não esgota, todavia, a vida espiritual. O cristão, chamado a rezar em comum, deve entrar também no seu quarto para rezar a sós ao Pai, e até, segundo ensina o Apóstolo, deve rezar sem cessar (1Thes 5,17) (Sacrosanctum Concilium, nn. 10.12).

A alma que realmente vive a sua fé cristã sabe que necessita de se retirar frequentemente para orar a sós com seu Pai Deus. Jesus, que nos dá este ensinamento acerca da oração, praticou-o na Sua vida terrena: o santo Evangelho refere-nos as muitas vezes que o Senhor Se retirava sozinho para orar: «Às vezes, passava a noite inteira ocupado em colóquio íntimo com o Pai. Como cativou os primeiros discípulos a figura de Cristo em oração!» (Cristo que passa n° 119) (cfr Mt 14, 23; Mc 1, 35; Lc 5, 16; etc.). Os Apóstolos seguiram o exemplo do Mestre, e assim vemos Pedro que sobe ao terraço da casa em que se aloja em Jope, para se retirar a orar a sós, e ali recebe uma revelação (cfr Act 10, 9-16). «A vida de oração tem de fundamentar-se, além disso, em pequenos espaços de tempo, dedicados exclusivamente a ‘estar com Deus. São momentos de colóquio sem ruído de palavras» (Cristo que passa, n° 119).

16-18. Partindo da prática tradicional do jejum, o Senhor inculca-nos o espírito com que devemos viver a necessária mortificação dos sentidos: temos de fazê-la sem ostentação, evitando o aplauso dos homens, discretamente; assim não poderão aplicar-se contra nós essas palavras de Jesus: «Já receberam a sua recompensa», pois seria um triste negócio. «O mundo só admira o sacrifício com espectáculo porque ignora o valor do sacrifício escondido e silencioso» (Caminho, nº185).

19.06.14 – Jo 6, 51-59

51Eu sou o pão vivo que desceu do Céu. Se alguém comer este pão, viverá eternamente; e o pão que Eu hei-de dar é a Minha carne pela vida do mundo.

52Puseram-se então os Judeus a disputar entre si, dizendo: Como pode Ele dar-nos a carne a comer? 53Jesus disse-lhes então: Em verdade, em verdade vos digo: Se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o Seu sangue, não tereis a vida em vós. 54Quem come a Minha carne e bebe o Meu sangue tem a vida eterna, e Eu ressuscitá-lo-ei no último dia. 55É que a Minha carne é verdadeiramente uma comida, e o Meu sangue é verdadeiramente uma bebida. 56Quem come a Minha carne e bebe o Meu sangue fica em Mim e Eu nele. 57Assim como o Pai, que vive, Me enviou e Eu vivo pelo Pai, também o que Me come viverá por Mim, 58Tal é o pão que desceu do Céu: não é como aquele que os nossos pais comeram, e mor­reram; quem come deste pão viverá eterna­mente.

59Isto disse Ele, estando a ensinar na sina­goga, em Cafarnaum.

Comentário

52. Os ouvintes compreendem perfeitamente o sentido próprio e directo das palavras do Senhor; mas não crêem que tal afirmação possa ser verdade; se as tivessem enten­dido em sentido figurado ou simbólico não lhes teria causado tão grande estranheza nem se teria produzido a discussão. Jesus depois insistirá na Sua afirmação confir­mando o que eles tinham entendido (cfr vv 54-56).

53. Jesus reitera com grande força a necessidade de O receber na Eucaristia para participar na vida divina, para que cresça e se desenvolva a vida da graça recebida no Baptismo. Nenhum pai se contenta com dar a existência aos seus filhos, mas proporciona-lhes alimentos e meios para que possam chegar à maturidade. «Recebemos Jesus Cristo na Sagrada Comunhão para que_ seja alimento das nossas almas, nos aumente a graça e nos dê a vida eterna» (Catecismo da Doutrina Cristã, n.° 289).

54. Jesus afirma claramente que o Seu Corpo e o Seu Sangue são penhor da vida eterna e garantia da ressurreição corporal. São Tomás de Aquino dá esta explicação: «O Verbo dá a vida às almas, mas o Verbo feito carne vivifica os corpos. Neste Sacramento não se contém só o Verbo com a Sua divindade mas também com a Sua humanidade; portanto, não é éó causa da glorificação das almas, mas também dos corpos» (Comentário sobre S. João, ad loc.).

O Senhor emprega uma expressão mais forte que o mero comer (o verbo original poderia traduzir-se por « mastigar»), exprimindo assim o realismo da Comunhão: trata-se de uma verdadeira refeição. Não há lugar, pois, para uma interpre­tação simbólica, como se participar na Eucaristia fosse apenas uma metáfora, e não o comer e beber realmente o Corpo e o Sangue de Cristo.

«Estes convites, estas promessas e estas ameaças nascem todas do grande desejo que tem (Jesus) de Se unir a nós neste Sacramento. Mas, por que deseja tanto Jesus Cristo que vamos recebê-Lo na sagrada Comunhão? Eis a razão: o amor (…) sempre aspira e tende à união e, como diz São Tomás, ‘os amigos que se amam de coração quereriam estar de tal modo unidos que não formassem mais que um só’. Isto passou com o imenso amor de Deus aos homens, que não esperou para Se dar por completo no Reino dos Céus, mas ainda nesta terra deixou-Se possuir pelos homens com a mais íntima posse que se possa imaginar, ocultando-Se sob as aparências de pão no Santíssimo Sacramento. Ali está como detrás de um muro, e dali nos contempla como através de gelosias (cfr Cant 2,9). Ainda que nós não O vejamos, Ele olha para nós dali, e ali Se encontra realmente presente, para permitir que o possuamos, embora Se oculte para que O desejemos. E até que cheguemos à pátria celeste, Jesus quer deste modo entregar-Se-nos completamente e viver assim unido connosco» (Prática do amor a Jesus Cristo, cap. 2).

55. Assim como o alimento corporal é necessário para a vida terrena, a sagrada Comunhão é necessária para manter a vida da alma. Por isto a Igreja exortou sempre a receber este Sacramento com frequência: «Diariamente, como é de desejar, os fiéis em grande número participem activamente no Sacrifício da Missa, alimentem-se com coração puro e santo da sagrada Comunhão, e deem graças a Cristo Nosso Senhor por tão grande dom. Recordem estas palavras: ‘O desejo de Jesus e da Igreja de que todos os fiéis se aproximem diariamente do sagrado banquete consiste sobre­tudo nisto: que os fiéis, unidos a Deus em virtude do sacra­mento, tirem dele força para dominar a sensualidade, para se purificarem das culpas leves quotidianas e para evitar os pecados graves, a que está sujeita a “humana fragilidade’ (Decr. da S. Congregação do Concilio de 20-XII-1905)» (Mysterium fidei).

«O Salvador instituiu o Santíssimo Sacramento da Eucaristia, que contém realmente a Sua Carne e o Seu Sangue, para que aquele que comer d’Ele viva eternamente; por isso, todo aquele que usa devota e frequentemente deste Sacra­mento assegura de tal maneira a salvação da sua alma, que é quase impossível que qualquer sorte de má afeição lhe ocasione a morte. Não se pode estar alimentado por esta carne de vida e viver dos afectos da morte (…). Os cristãos que se condenarem ficarão sem saber que replicar quando o justo Juiz lhes fizer ver o insensatos que foram morrer espiritualmente, podendo ter conservado com tanta facili­dade a saúde da alma comendo do Corpo que Ele lhes deixou para este fim. Miseráveis, dir-lhes-á, como é que estais mortos, tendo-vos mandado comer o fruto e manjar da vida?» (Introdução à vida devota, p. II, c. 20,1).

56. O efeito mais importante da Santíssima Eucaristia é a união íntima com Jesus Cristo. O próprio nome de Comunhão indica esta participação unitiva na Vida do Senhor: se em todos os sacramentos, por meio da graça que nos conferem, se consolida a nossa união com Jesus, esta é mais intensa na Eucaristia, visto que não só nos dá a graça, mas o próprio Autor da graça: «Participando realmente do Corpo do Senhor na fracção do pão eucarístico, somos elevados a uma comunhão com Ele e entre nós.’ Porque o pão é um, somos muitos um só corpo, pois todos participamos de um único pão’ (1Cor 10,17)» (Lumen gentium, n. 7). Precisa­mente por ser a Eucaristia o sacramento que melhor significa a nossa união com Cristo, é ao mesmo tempo onde toda a Igreja mostra e leva a cabo a sua unidade: Jesus Cristo «instituiu na Sua Igreja o admirável sacramento da Euca­ristia, pelo qual se significa e se realiza a unidade da Igreja» (Unitatis redintegratio, n. 2).

57. Em Cristo, o Verbo encarnado e enviado ao mundo «habita toda a plenitude da divindade corporalmente» (Col 2,9) pela inefável união da Sua natureza humana com a é natureza divina na Pessoa do Verbo. Ao recebermos neste sacramento a Carne e o Sangue de Cristo indissoluvelmente unidos à Sua divindade, participamos na própria vida divina da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Nunca apreciaremos suficientemente a intimidade e a proximidade com o próprio Deus — Pai, Filho e Espírito Santo —, que Se nos oferece no banquete eucarístico.

«Sendo isto assim, devíamos confessar que a alma não pode fazer nem pensar coisa mais agradável a Jesus Cristo do que hospedar no seu coração, com as devidas disposições, hóspede de tanta majestade, porque desta maneira se une a Jesus Cristo, que tal é o desejo de tão enamorado Senhor. Disse que se deve receber a Jesus não com as disposições dignas, mas com as devidas, porque, se fosse necessário ser digno deste sacramento, quem jamais poderia comungar? Só um Deus poderia ser digno de receber um Deus. Digo dignas no sentido em que convém à mísera criatura vestida da pobre carne de Adão. Ordinariamente falando, basta que a alma se encontre em graça de Deus e com vivo desejo de aumentar nela o amor a Jesus Cristo» (Prática do amor a Jesus Cristo, cap. 2).

58. Pela terceira vez (cfr 6,31-32 e 6,49) Jesus compara o verdadeiro pão da vida, o Seu próprio Corpo, com o maná, com que Deus tinha alimentado os Hebreus diariamente durante quarenta anos no deserto. Assim, faz um convite a alimentar frequentemente a nossa alma com o manjar do Seu Corpo.

«Quantos anos a comungar diariamente! — Outro seria santo — disseste-me — e eu, sempre na mesma!

«— Filho — respondi-te — continua com a Comunhão diária, e pensa: que seria de mim, se não tivesse comun­gado?» (Caminho, n.° 534).

20.06.14 – Mt 6, 19-23

19Não entesoireis na terra, onde a traça e a Confiança ferrugem destroem e os ladrões arrombam e roubam. 20Entesoirai antes tesoiros no Céu, onde nem a traça nem a ferrugem destroem, e os ladrões não arrombam nem roubam. 21 Porque onde está o teu tesoiro, aí está o teu coração. 22A candeia do corpo é o olho. Se, pois, o teu olho estiver são, todo o corpo terá luz. 23Mas se o teu olho estiver doente, todo o teu corpo estaráem trevas. Ora se a luz que em ti há é treva, quão grande a treva não será…

Comentário

19-21. A ideia é clara: o coração do homem anela por um tesouro em cuja posse pensa encontrar a segurança e a felicidade. Não obstante, todo o tesouro composto de bens da terra, de riquezas, de dinheiro, transforma-se numa contínua fonte de preocupações, porque está exposto ao perigo de perder-se, ou porque a sua defesa leva consigo uma tensão cheia de desgostos, e de dissabores. Jesus, pelo contrário, ensina aqui que o verdadeiro tesouro são as obras boas e o comportamento recto, que serão premiadas por Deus no Céu eternamente. Esse sim que é um tesouro que não se perde! É aí que o discípulo de Cristo deve pôr o seu coração.

Jesus encerra os ensinamentos dos versículos precedentes com uma frase a modo de refrão (v. 21). Com esta doutrina Jesus não quer dizer que o homem deva despreocupar-se das coisas da terra. O que nos ensina é que nenhuma coisa criada pode ser «o tesouro», o fim último do homem. Pelo contrário, o homem, usando rectamente das coisas nobres da terra, percorre o caminho para Deus, santifica-se e dá ao Senhor toda a glória: «Quer comais, quer bebais ou façais qualquer coisa, fazei-o tudo para a glória de Deus» (l Cor 10, 31; cfr Col 3, 17).

22-23. Nestes versículos temos outra pequena jóia da doutrina sapiencial de Jesus. Começa com uma sentença que imediatamente é explicada. O Mestre emprega a imagem do olho como lamparina do corpo ao qual dá luz. A exegese cristã viu nesse «olho» e nessa «lâmpada» a intencionalidade dos nossos actos. São Tomás explica-o assim: «Com o olho é significada a intenção. O que quer fazer uma coisa, primeiro pretende-a: assim, se a tua intenção é luminosa — simples, transparente —, quer dizer, encaminhada para Deus, todo o teu corpo, ou seja, todas as tuas acções serão luminosas, dirigidas sinceramente para o bem» (Comentário sobre S. Mateus, 6, 22-23).

21.06.14 – Mt 6, 24-34

24Ninguém pode servir a dois senhores, porque, ou há-de aborrecer um e amar o outro, ou ser dedicado a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e à riqueza.

25Por isso vos digo: Não vos preocupeis pela vossa vida: que haveis de comer ou que haveis de beber; nem pelo vosso corpo: que haveis de vestir. Porventura não vale mais a vida do que o alimento, e o corpo mais do que o vestido? 26Vede as aves do céu, que não semeiam nem ceifam nem enceleiram, e, contudo, vosso Pai celeste as sustenta. Não sois vós, porventura, muito mais do que elas? 27E quem de vós, com todas as suas preocupações, poderá acrescentar um côvado à sua vida? 28E quanto ao vestido, porque vos preocupais? Reparai nos lírios do Campo: como crescem!… e não trabalham nem fiam. 29Ora Eu vos digo que nem Salo­mão, em toda a sua magnificência, se vestiu como um deles. 30Pois, se à erva do campo que hoje é e amanhã se lança no forno, Deus a. veste, quanto mais a vos, homens de pouca fé? 31Náo andeis, pois, preocupados, dizendo: que havemos de comer ou que havemos de beber ou que havemos de vestir? 32Os gentios é que se afanam por estas coisas; bem sabe vosso Pai celeste que vós precisais de todas elas.

33Buscai primeiramente o Reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas se vos darão por acréscimo. 34Por isso, não vos preocupeis com o dia de amanhã, pois que o dia de amanhã se preocupará de si mesmo. Basta a cada dia o seu afã

Comentário

24. O fim último do homem é Deus. Por este fim o homem deve entregar todo o seu ser. De facto, porém, há quem não ponha em Deus o seu fim último, mas nas riquezas. Neste caso, as riquezas convertem-se no seu deus. O homem não pode dividir-se entre dois fins absolutos e contrários.

25-32. Nesta belíssima página Jesus põe em relevo o valor das realidades correntes da vida. Ao mesmo tempo ensina-nos a pôr a nossa confiança na providência paternal de Deus. Com exemplos e comparações simples, tomados da vida quotidiana, inculca o abandono sereno nas mãos de Deus.

27. Onde se diz «vida», pode dizer-se também «estatura», mas seria versão mais afastada do texto (cfr Lc 12,25). A palavra «côvado» significa uma medida de espaço aplicável também ao tempo metaforicamente.

33. Uma vez mais a justiça do Reino de Deus aparece como a vida de graça no homem; o que leva consigo todo um conjunto de atitudes espirituais e morais, e pode resumir-se no conceito de «santidade». A busca da santidade é a primeira coisa que se deve intentar nesta vida. De novo Jesus insiste na primazia das exigências espirituais. Afirma Sua Santidade o Papa Paulo VI, comentando este passo: «Porquê a pobreza? Para dar a Deus, ao Reino de Deus o primeiro lugar na escala de valores que são objecto das aspirações humanas. Diz Jesus: ‘Buscai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça’; e di-lo em comparação com todos os outros bens temporais, inclusive necessários e legítimos, que normalmente empenham os desejos humanos. A pobreza de Cristo torna possível este desprendimento afectivo das coisas terrenas para pôr à frente das aspirações humanas a relação com Deus» (Audiência geral Paulo VI, 5-1-1977).

34. O Senhor exorta-nos a viver com serenidade cada dia, eliminando preocupações inúteis pelo que aconteceu ontem ou pelo que possa acontecer amanhã. É a sabedoria que se apoia na providência paternal de Deus e na própria experiência quotidiana: «O que observa o vento não semeia; é O que examina as nuvens não cega» (Eccl 11,4).

O importante, o que está nas nossas mãos, é viver diante de Deus e com intensidade o momento presente: «Porta-te bem ‘agora’, sem te lembrares de ‘ontem’, que já passou, e sem te preocupares com o ‘amanhã’, que não sabes se chegará para ti» (Caminho, n.°253).

22.06.14 – Mt 10, 26-33

26Portanto, não tenhais medo deles, porque não há nada encoberto que não venha a descobrir-se, nem oculto, que não venha a saber-se. 27O que vos digo nas trevas, dizei-o vós à luz e o que ouvis em segredo, apregoai-o sobre os terraços. 28Não temais os que matam o corpo e que não podem matar a alma. Temei antes Aquele que pode deitar a perder a alma e o corpo na Geena. 29Não se vendem dois pardais por um asse? E, contudo, nem um deles cairá em terra sem permissão do vosso Pai. 30Quanto a vós, até os cabelos da cabeça estão todos contados. 31Por isso, não temais, que mais vaieis vós do que muitos pardais.

32A todo aquele, pois, que Me confessar diante dos homens, também Eu o confessarei diante de Meu Pai, que está nos Céus, 33mas a quem Me negar diante dos homens, também Eu o negarei diante de Meu Pai que está nos Céus.

Comentário

26-27. Jesus Cristo manda aos Seus discípulos que não tenham medo das calúnias ou murmurações. Virá um dia em que chegue ao conhecimento de todos quem é cada um, as suas verdadeiras intenções e a disposição exacta da sua alma. Entretanto, os que são de Deus podem ser apresentados como se não o fossem por aqueles que, por paixão ou por malícia, utilizam a mentira. Esse é o segredo que chegará a saber-se.

Junto a estas recomendações, Cristo manda também que os Apóstolos falem com clareza, abertamente. Por razões de pedagogia divina, Jesus tinha falado às multidões em parábolas e tinha-lhes descoberto gradualmente a Sua verdadeira personalidade. Os Apóstolos, depois da vinda do Espírito Santo (cfr Act 1,8), hão-de pregar às claras, desde os terraços, o que Jesus lhes foi dando a conhecer.

A nós toca-nos hoje também continuar a manifestar sem ambiguidades toda a doutrina de Cristo, sem nos deixarmos levar por falsas prudências humanas ou por medo das consequências.

28. A Igreja, apoiada neste e em muitos outros passos do Evangelho (Mt 5,22.29; 18,9; Mc9,43.45.47; Lc 12, 5),ensina com clareza que existe o inferno, onde recebem castigo eterno as almas que morrem em pecado grave (cfr Catecismo Romano, 1, 6, 3). Ali os condenados sofrem as penas de dano e de sentido eternamente, de um modo que nós ignoramos nesta vida (cfr Livro da sua vida, cap. 32). Ver as notas a Lc 16,19-31.

Por isso o Senhor previne os Seus discípulos contra o falso medo. Não há por que temer os que somente podem tirar a vida do corpo. Só Deus é quem tem poder de lançar alma e corpo no inferno. Por isso o verdadeiro temor e respeito devemo-lo a Deus, que é o nosso Príncipe e Juiz Supremo, e não aos homens. Os mártires são os que melhor viveram este preceito do Senhor; sabiam que a vida eterna valia muito mais que a vida terrena.

29-31. O «asse» era uma pequena moeda de ínfimo valor. Cristo emprega esta imagem para ilustrar o imenso carinho que Deus tem à Sua criatura. Como diz São Jerónimo (Comm. in Matth., 10, 29-31): «Se os passarinhos, que são de tão vil preço, não deixam de estar sob a providência e cuidado de Deus, como é que vós, que pela natureza da vossa alma sois eternos, podereis temer que não vos olhe com particular cuidado Aquele a quem respeitais como vosso Pai?» De novo Jesus Cristo ensina a paternal Providência de Deus, da qual falou extensamente no Sermão da Montanha (cfr Mth, 19-34).

32-33. Com estas palavras Jesus está a ensinar-nos que a confissão pública da fé n’Ele — com todas as suas consequências — é condição indispensável para a salvação eterna. Cristo receberá no Céu, depois do Juízo, os que deram testemunho da sua fé, e condenará os que cobardemente se envergonharam d’Ele (cfr Mt 7, 23; 25, 41; Apc 21, 8). Sob o nome de «confessores» a Igreja honra os santos que, sem terem sofrido o martírio de sangue, com a sua vida deram testemunho da fé católica. Embora todo o cristão deva estar disposto para o martírio, a vocação cristã ordinária é a de ser confessores da fé.

23.06.14 – Lc 1, 5-17

5Nos dias de Herodes, rei da Judéia, existiu um sacerdote de nome Zacarias, da turma de Abias, cuja esposa era da descen­dência de Aarão e se chamava Isabel. 6Eram ambos justos diante de Deus, cumprindo irrepreensivelmente todos os preceitos e regulamentos do Senhor. 7E não tinham filhos, pelo facto de Isabel ser estéril e ambos de idade avançada.

8Estando ele a exercer as funções sacerdotais diante de Deus, na ordem da sua turma, 9coube-lhe, por sorte, segundo o costume sacerdotal, entrar no Santuário do Senhor, para queimar o incenso. 10E toda a multidão estava de fora a rezar, à hora do incenso. 11Apareceu-lhe então o Anjo do Senhor, de pé, à direita do altar do incenso. 12Zacarias, ao vê-lo, ficou perturbado e encheu-se de temor.

13Mas o Anjo disse-lhe: Não tenhas receio, Zacarias, porque foi atendida a tua súplica. Tua esposa Isabel dar-te-á um filho, ao qual porás o nome de João. 14Terás alegria e júbilo, e muitos se hão-de regozijar pelo seu nascimento. l5De facto, ele será grande aos olhos do Senhor, não beberá vinho nem outra bebida alcoólica, será cheio do Espírito Santo já desde o ventre materno 16e recon­duzirá ao Senhor seu Deus a muitos dos filhos de Israel. 17Irá diante d’Ele, com o espírito e a força de Elias, para reconduzir os corações dos pais a seus filhos e os rebeldes aos sentimentos dos justos, a fim de proporcionar ao Senhor um povo pre­parado.

Comentário

5 ss. São Lucas e São Mateus dedicam os dois primeiros capítulos dos seus respectivos Evangelhos a narrar alguns episódios da infância do Senhor (Anunciação, Nascimento, meninice, vida oculta em Nazaré) dos quais não se ocupam os outros Evangelhos. Devido a esta temática, esses dois primeiros capítulos de Mateus e de Lucas costumam cha­mar-se evangelho da infância de Jesus. A primeira caracte­rística que se observa é que São Mateus e São Lucas não narram os mesmos acontecimentos.

O evangelho da infância segundo São Lucas compreende seis episódios estruturados de dois em dois e relativos à infância de João Baptista e à de Jesus: duas anunciações, dois nascimentos e circuncisões e duas cenas no Templo; e contém também uns episódios só relativos à infância do Senhor: revelação aos pastores e adoração destes, purifi­cação da Santíssima Virgem e apresentação do Menino no Templo, vida escondida em Nazaré.

As narrações de Lucas adquirem um elevado tom lírico, simples e grandioso ao mesmo tempo, que surpreende,

enamora e arrasta à contemplação íntima do mistério da Encarnação do Salvador: Anunciação do anjo a Zacarias (1, 5-17); saudação e Anunciação do anjo a Maria Santíssima (1,26-38); visitação de Nossa Senhora a sua prima Santa Isabel (1,39-56); Nascimento de Jesus em Belém (2,1-7); adoração dos pastores (2,8-20); apresentação do Menino no Templo e bênção do velho Simeão à Virgem Santíssima (2,22-38); o Menino perdido e achado no Templo (2,41-52). São Lucas recolhe também quatro profecias em forma versificada, a modo de cânticos: Magnificat de Maria Santíssima (l ,46-55), Benedictus de Zacarias (1,67-79), Glória dos anjos (2,14) e Nunc dimittis de Simeão (2,29-32). Estes cânticos estão entretecidos de palavras e frases que recordam, mais ou menos à letra, diversos passos do Antigo Testamento (em concreto de Gen, Lev, Num, Ide, 1Sam, Is, ler, Mich e Mal): esta circunstância é absolutamente normal, já que naquela época todo o judeu culto e piedoso rezava de ordinário repetindo de memória ou lendo os livros sagrados, e esse é o caso de Nossa Senhora e de Zacarias, de Simeão e de Ana. Além disso, foi o próprio Espírito Santo que inspirou os autores humanos do Antigo Testamento a escrever, e que moveu a falar os justos que contemplaram com os seus próprios olhos como no Menino Jesus se cumpriam os antigos anúncios proféticos. Essas características linguísticas reflectem a louçania das palavras tal como saíram daqueles que as pronunciaram. ,

6. Depois de ter falado da nobreza de sangue de Zaca­rias e de Isabel, o Evangelista alude agora a outra nobreza superior, a da virtude: « Eram ambos justos diante de Deus ». «Porque nem todo o que é justo diante dos homens é também justo diante de Deus; porque uma é a maneira de olhar dos homens e outra a de Deus: os homens veem no exterior, mas Deus vê no coração. Pode acontecer que alguém pareça justo por falsa virtude e diante da gente, e não o seja diante de Deus se a sua justiça não nasce da simplicidade de alma mas se simula para parecer bem.

«O perfeito louvor consiste em ser justo diante de Deus, porque só pode chamar-se perfeito aquele que é provado por quem não pode enganar-se» (Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc.).

Em última análise, o que importa ao cristão é ser justo diante de Deus. Um bom exemplo desta conduta é-nos oferecido por São Paulo quando escreve aos Coríntios: «Quanto a mim, importa-me pouco ser julgado por vós ou por qualquer juízo humano; nem sequer eu mesmo me julgo… Porque quem me julga é o Senhor. Portanto, não queirais julgar antes de tempo até que venha o Senhor, que porá a descoberto as coisas escondidas nas trevas e descobrirá as intenções dos corações. E então Deus dará a cada um o louvor que lhe corresponde» (1Cor 4,3 ss.). Sobre o conceito de homem justo equivalente a santo veja-se a nota a Mt 1, 19.

8. Havia vinte e quatro grupos ou turnos sacerdotais, entre os quais eram sorteadas as funções que deviam exercer no Templo; o oitavo grupo era o da família de Abias (cfr 1Chr 24,7-19). Zacarias era deste oitavo turno.

9-10. Dentro do recinto sagrado, delimitado por uma muralha, estava o edifício que constituía propriamente o Templo. Este, de forma rectangular, tinha uma primeira grande estância que se chamava o « Sanctus», onde estava o altar do incenso, a que alude o v. 9. Depois do «Sanctus» estava a segunda estância, mais interior, chamada o «Sancta Sanctorum», onde se tinha guardado a Arca da Aliança com as tábuas da Lei; era o mais sagrado do Templo, onde não tinha acesso senão o Sumo Sacerdote. Entre ambas as estân­cias estava pendurado o grande véu do Templo. Rodeando o edifício sagrado havia um primeiro átrio, chamado dos sacerdotes e junto a ele, em frente da fachada principal, encontrava-se o chamado átrio dos israelitas, em que per­manecia o povo durante a incensação.

10. Enquanto o sacerdote oferecia a Deus o incenso, o povo, desde o átrio do Templo, unia-se-lhe espiritualmente. Já no Antigo Testamento todo o acto de culto externo devia ser acompanhado pela disposição interior de oferecimento a Deus.

Com maior razão se deve dar esta união nos ritos litúrgicos da Nova Aliança (cfr Mediator Dei, n. 8). Na Liturgia da Igreja, com efeito, aparecem unidos os dois elementos do culto, interno e externo, o que está em conformidade com a natureza do homem, composto de alma e corpo.

11. Os anjos são espíritos puros, não têm corpo; por­tanto « não aparecem aos homens tal como são, mas manifes­tando-se nas formas que Deus dispõe para que possam ser vistos por aqueles a quem os envia» (De Fide orthodoxa, 2,3).

Os espíritos angélicos, além de adorar e de servir a Deus, são mensageiros divinos e instrumentos da Providência de Deus em favor dos homens; por isso na História da Salvação intervém tão frequentemente e a Sagrada Escritura faz constar isso em numerosos passos (cfr, entre outros muitos lugares, Heb 1,14).

O nascimento de Cristo é tão importante que à volta dele a intervenção dos anjos se mostra de modo singular. Neste caso concreto, como no da Anunciação a Maria, será o arcanjo São Gabriel o encarregado de transmitir a mensa­gem divina.

«Não sem razão apareceu o anjo no templo, porque com isso se anunciava a próxima vinda do Verdadeiro Sacerdote e se preparava o Sacrifício Celeste ao qual haviam de servir os anjos. Não se duvide, pois, que os anjos assistirão quando Cristo for imolado» (Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc.).

12. «Não pode o homem por mais justo que seja ver um anjo sem temor: por isso Zacarias se perturba, não podendo resistir à presença do anjo nem suportar aquele resplendor que o acompanha» (De incomprehensibili Dei natura, 2). A razão está não tanto na superioridade do anjo sobre o homem como em que naquele transparece a grandeza da Majestade divina: «E disse-me então: ‘Escreve: Felizes os que foram convidados para o banquete de núpcias do Cordeiro’. Dis­se-me ainda: ‘Estas são as verdadeiras palavras de Deus’. Prostrei-me aos seus pés para o adorar, mas ele disse-me: ‘Não faças isso; sou um servo como tu e como os teus irmãos que têm o testemunho de Jesus. Adora a Deus» (Apc 19,9-10).

13. Por meio do arcanjo Deus intervém de forma extraor­dinária na vida de Zacarias e de Isabel. Mas o que é anun­ciado ultrapassa o âmbito da intimidade familiar. Isabel, já idosa, vai ter um filho que se chamará João e será o Pre­cursor do Messias. João significa « Yahwéh é favorável». Este facto é a manifestação clara de que está já iminente «a plenitude dos tempos» (Gal 4,4), pela qual tinham suspirado os justos de Israel (cfr Ioh 8,56; Heb 11,13).

«Foi atendida a tua súplica». Comenta São Jerónimo: «Isto é, é-te outorgado mais do que pediste. Tinhas rogado pela salvação do povo e foi-te dado o Precursor» (Expositio in Evangelium sec. Lucam, ad loc.). Também a nós o Senhor nos dá por vezes mais do que pedimos: «Conta-se que, certo dia, um mendigo saiu ao encontro de Alexandre Magno, pedindo uma esmola. Alexandre parou e ordenou que o fizessem senhor de cinco cidades. O pobre, confundido e atordoado, exclamou: eu não pedia tanto! E Alexandre respondeu: tu pediste como quem és; eu dou-te como quem sou» (Cristo que passa, nº 160). Quando Deus responde tão generosamente, por cima dos nossos pedidos, não nos podemos acobardar mesquinhamente com medo das dificuldades.

14-17. O arcanjo São Gabriel anuncia a Zacarias os três motivos de alegria pelo nascimento do menino: primeiro, porque Deus lhe concederá uma santidade extraordinária (v. 15); segundo, porque será instrumento para a salvação de muitos (v. 16); e terceiro, porque toda a sua vida e actividade serão uma preparação para a vinda do Messias esperado (v. 17).

Em São João Baptista cumprem-se dois anúncios profé­ticos de Malaquias, nos quais se nos diz que Deus enviará um mensageiro diante d’Ele para Lhe preparar o caminho (Mal 3,1; 4,5-6). João prepara a primeira vinda do Messias, de maneira semelhante a como Elias o fará quando se apro­ximar a segunda (cfr Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc. Comentário sobre S. Mateus, 17,11, ad loc.). Por isso Cristo dirá: «Que fostes então ver? Um profeta? Sim, vo-lo digo, e mais que profeta. É aquele de quem está escrito: Vou mandar à Tua frente o Meu mensageiro, que há-de preparar-Te o caminho diante de Ti» (Lc 7,26-27).

24.06.14 – Lc 1, 57-66.80

57Entretanto, chegou o tempo de Isabel Nascimento dar à luz e teve um filho. 58E souberam os vizinhos e parentes que o Senhor havia tido para com ela grande misericórdia e com ela se congratulavam. 59Ao oitavo dia, vieram circuncidar o menino e iam dar-lhe o nome do pai, Zacarias. 60Mas a mãe interveio, dizendo: Não, João é que há-de chamar-se. 61Disseram-lhe eles: Não há ninguém da tua família que tenha esse nome. 62E pergun­tavam ao pai por sinais como queria que se chamasse. 63Ele, pedindo uma placa, respondeu por escrito: João é que é o seu nome. E ficaram todos admirados. 64Imediatamente se lhe abriu a boca e se lhe soltou a língua e pôs-se a falar, bendizendo a Deus. 65Encheram-se de temor todos os que eram seus vizinhos e na Judeia, por toda a serra, se divulgaram todos aqueles factos. 66Quantos os ouviam conservavam-nos na memória e diziam: Quem virá então a ser este menino? E, de facto, a mão do Senhor estava com ele!

80Entretanto, o menino crescia e robustecia-se no espírito. E esteve no deserto até ao dia da sua apresentação a Israel.

Comentário

59. No Antigo Testamento a circuncisão era um rito instituído por Deus para assinalar como com uma marca e contrassenha os que pertenciam ao povo eleito. Deus mandou a circuncisão a Abraão como sinal da Aliança que estabelecia com ele e com toda a sua descendência (cfr Gen 17,10-14), e prescreveu que se realizasse no oitavo dia do nascimento. O rito realizava-se na casa paterna ou na sinagoga, e além da operação sobre o corpo do menino, incluía bênçãos e a imposição do nome.

Com a instituição do Baptismo cristão cessou o manda­mento da circuncisão. Os Apóstolos, no concilio de Jerusalém (cfr Act 15,1 ss.), declararam definitivamente abolida a necessidade do antigo rito para os que se incorporassem na Igreja.

E bem eloquente o ensinamento de São Paulo (Gal 5,2 ss.; 6,12 ss.; Col 2,11 ss.) acerca da inutilidade da circuncisão depois da Nova Aliança estabelecida por Cristo.

60-63. Com a imposição do nome de João cumpriu-se o que tinha mandado Deus a Zacarias por meio do anjo e que nos relatou São Lucas pouco antes (1,13).

64. Neste facto miraculoso cumpriu-se exactamente o que tinha profetizado o anjo Gabriel a Zacarias quando lhe anunciou à concepção e o nascimento do Baptista (Lc 1,19-20). Observa Santo Ambrósio: «Com razão se soltou em seguida a sua língua, porque a fé desatou o que tinha atado u incredulidade» (Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc.),

É um caso semelhante ao do apóstolo São Tome, que tinha resistido a crer na Ressurreição do Senhor, e acreditou depois das provas evidentes que lhe deu Jesus ressuscitado (cfr Ioh 20,24-29). Com estes dois homens Deus faz o milagre e vence a sua incredulidade; mas ordinariamente Deu» exige-nos fé e obediência sem realizar novos milagres. Por isso repreendeu e castigou Zacarias, e censurou o apóstolo Tome: «Porque Me viste acreditaste; bem-aventurados oi que sem ter visto acreditaram» (Ioh 20,29). 67. Zacarias, que era um homem justo (cfr v. 6), no nascimento de seu filho João recebeu, além disso, a graça especial da profecia. Em virtude desta, pronuncia o cântico chamado Benedictus, tão cheio de fé, reverência e devoção que a Igreja estabeleceu que se recite diariamente na Liturgia das Horas.

Profetizar significa não só predizer coisas futuras, mas também louvar a Deus movido pelo Espírito Santo. Ambos os aspectos se encontram no cântico do Benedictus.

80. «Deserto»: Seguramente trata-se da zona chamada «deserto da Judeia», que se estendia desde as margens do noroeste do Mar Morto até ao maciço montanhoso da Judeia. Não é um deserto de areia, mas antes uma zona estépica, árida, com algumas matas e vegetação elementar, enxames de abelhas e de sal toes ou gafanhotos silvestres. Havia também abundantes grutas onde se podia encontrar refúgio.

25.06.14 – Mt 7, 15-20

15Guardai-vos dos falsos profetas que vêm a vós com veste de ovelhas mas, por dentro,são lobos rapaces. I6Pelos seus frutos os conhecereis. Porventura, colhem-se uvas dos espinheiros ou figos dos abrolhos? 17Assim, toda a árvore boa dá frutos bons, e a árvore ruim dá frutos maus. 18Não pode a árvore boa dar frutos maus nem a árvore ruim dar frutos bons. 19Toda a árvore que não dá bom fruto corta-se e deita-se no fogo. 20Portanto, pelos seus frutos os conhecereis.

Comentário

15-20. No Antigo Testamento alude-se com frequência aos «falsos profetas»; é célebre o passo de ler 23, 9-40. Denuncia-se ali a impiedade desses profetas que «profetizam por Baal e fazem errar o Meu povo Israel»; que «vos estão a enganar, vos contam as suas próprias fantasias, não coisa da boca de Yahwéh… Eu não enviei esses profetas e eles foram. Não lhes falei, e eles profetizaram»; que «desencaminham o Meu povo com as suas mentiras e as suas jactâncias, sendo verdade que Eu não os enviei, nem lhes dei missão alguma, nem fizeram ao Meu povo bem algum».

Na vida da Igreja a figura dos falsos profetas, de que fala Jesus, foi entendida pelos Santos Padres referindo-a aos hereges, que, embora se revistam de um hábito exterior de piedade e de reforma, todavia o seu coração não tem os sentimentos de Cristo (cfr Comm. in Matth., 7). São João Crisóstomo (Hom. sobre S. Mateus, 23) aplicava-o aos que aparentam virtudes que não têm, e com esta aparência enganam os que não os conhecem.

Como distinguir os falsos profetas dos verdadeiros? Pelos frutos. As coisas de Deus têm um sabor especial, feito de rectidão natural e de inspiração divina. O que verdadeira­mente fala das coisas de Deus semeia fé, esperança, caridade, paz, compreensão; pelo contrário, o falso profeta na Igreja de Deus é o que com a sua pregação e o seu comportamento ou actuação semeia divisão, ódio, ressentimento, orgulho, sen­sualidade (cfr Gal 5, 16-25). Mas o fruto mais característico do falso profeta é afastar o povo de Deus do Magistério da Igreja, através do qual ressoa no mundo a doutrina de Cristo. O fim destes enganadores está também assinalado pelo Senhor: a perdição eterna. Meu povo com as suas mentiras e as suas jactâncias, sendo verdade que Eu não os enviei, nem lhes dei missão alguma, nem fizeram ao Meu povo bem algum».

Na vida da Igreja a figura dos falsos profetas, de que fala Jesus, foi entendida pelos Santos Padres referindo-a aos hereges, que, embora se revistam de um hábito exterior de piedade e de reforma, todavia o seu coração não tem os sentimentos de Cristo (cfr Comm. in Matth., 7). São João Crisóstomo (Hom. sobre S. Mateus, 23) aplicava-o aos que aparentam virtudes que não têm, e com esta aparência enganam os que não os conhecem.

Como distinguir os falsos profetas dos verdadeiros? Pelos frutos. As coisas de Deus têm um sabor especial, feito de rectidão natural e de inspiração divina. O que verdadeira­mente fala das coisas de Deus semeia fé, esperança, caridade, paz, compreensão; pelo contrário, o falso profeta na Igreja de Deus é o que com a sua pregação e o seu comportamento ou actuação semeia divisão, ódio, ressentimento, orgulho, sen­sualidade (cfr Gal 5, 16-25). Mas o fruto mais característico do falso profeta é afastar o povo de Deus do Magistério da Igreja, através do qual ressoa no mundo a doutrina de Cristo. O fim destes enganadores está também assinalado pelo Senhor: a perdição eterna. 21-23. Aoração, para que seja autêntica, deve ir acom­panhada pela luta contínua por cumprir a vontade divina. Do mesmo modo, para cumprir essa vontade não basta falar das coisas de Deus, mas é necessário que haja coerência entre o que se pede — o que se diz — e o que se faz: «O Reino de Deus não consiste em palavras, mas em realidades» (1Cor 4, 20); «Sede cumpridores da palavra e não apenas ouvintes, enga­nando-vos a vós próprios» (Iac l, 22).

Os cristãos «fiéis ao Evangelho e graças à sua força, unidos a quantos amam e promovem a justiça, têm a realizar aqui na terra uma obra imensa, da qual prestarão contas Aquele que a todos julgará no último dia. Nem todos os que dizem ‘Senhor, Senhor’ entrarão no reino dos céus, mas aqueles que cumprem a vontade do Pai e põem seriamente mãos à obra» (Gaudium et Spes, n. 93).

Para entrar no Reino dos Céus, para ser santo, não basta, pois, falar de modo eloqüente da santidade. É necessário levar à prática o que se diz, dar os frutos de acordo com as palavras. Muito graficamente recomenda Frei Luís de Granada: «Olha que não é ser bom cristão somente rezar e jejuar e ouvir Missa, mas que te ache Deus fiel, como a outro Job e outro Abraão, no tempo da tribulação» (Guia de pecadores, liv. l, part. 2, cap. 21).

Também o exercício de um ministério eclesiástico não assegura a santidade, visto que deve ir acompanhado da prática das virtudes que se pregam. Por outro lado, a experiência vem ensinar que todo o cristão (seja qual for a sua condição dentro da Igreja) que não se esforça por fazer coincidir os seus actos com as exigências da fé que professa, começa a debilitar-se nesta fé e termina afastando-se dela, não só na prática, mas também na doutrina. Pois todo aquele que não cumpre o que diz, acaba a dizer o que não deve. A autoridade com que Jesus Se exprime nestes versículos revela a Sua condição de Juiz soberano de vivos e mortos. Nunca no AT nenhum profeta tinha falado com essa auto­ridade.

26.06.14 – Mt 7, 21-29

21Nem todo o que Me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos Céus, mas o que faz a vontade de Meu Pai que está nos Céus. 22Muitos hão-de dizer-Me naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em Teu nome e em Teu nome expulsamos demônios e em Teu nome fizemos muitos milagres? 23Então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci, apartai-vos de Mim, obreiros da iniqüidade.

24Todo aquele, pois, que ouve estas Minhas palavras e as põe em prática, é semelhante a um homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha. 25E caiu a chuva, e vieram os rios, e sopraram os ventos, e precipitaram-se contra aquela casa, mas ela não desabou porque estava fundada sobre a rocha. 26E todo o que ouve estas Minhas palavras e não as põe em prática é semelhante a um homem insen­sato, que edificou a sua casa sobre a areia. 27E caiu a chuva e vieram os rios, e sopraram os ventos, e precipitaram-se contra aquela casa, e ela desabou, e a sua ruína foi grande.

28E aconteceu que, quando Jesus terminou este discurso, a multidão estava maravi­lhada por causa da Sua doutrina, 29porque os ensinava como quem tinha autoridade e não como os seus Escribas e Fariseus.

Comentário

22. «Naquele dia»: Fórmula técnica na linguagem da Bíblia para designar o dia do Juízo do Senhor ou Juízo Final.

23. «Lhes direi abertamente»: A frase equivaleria a «então eu pronunciarei a sua sentença». Com efeito, a passagem refere-se ao juízo dos homens que há-de fazer Jesus Cristo. O texto sagrado emprega um verbo que expressa a proclamação pública de uma verdade. Como neste caso quem proclama é Jesus Cristo, tal proclamação é a sentença judicial.

24-27. Estes versículos constituem como que a face positiva do passo anterior. Quem se esforça por levar à prática os ensinamentos de Jesus, ainda que venham as tribulações pessoais, ou períodos de confusão na vida da Igreja, ou se veja rodeado do erro, permanecerá forte na fé, como o homem sábio que edifica a sua casa sobre rocha.

Além disso, para permanecer fortes nos momentos difíceis é necessário, nos tempos de bonança, aceitar com boa cara as pequenas contrariedades, ser delicados no trato com Deus e com os outros, e cumprir com fidelidade e abnegação os próprios deveres de estado. Deste modo se vão lançando os fundamentos, fortalecendo a construção e reparando as fendas que se possam produzir.

28-29. O povo que escutava Jesus percebeu com clareza a diferença radical que havia entre o modo de ensinar dos escribas e fariseus, e a segurança e serenidade com que Jesus Cristo expunha a Sua doutrina. As palavras do Senhor nunca são afectadas de insegurança, nem apresentam dúvida, nem expõem uma mera opinião. Jesus falava com domínio absoluto da verdade e com conhecimento perfeito do verdadeiro sentido da Lei e dos Profetas; mais ainda, não poucas vezes falava no Seu próprio nome (cfr Mt 5,22.28.32.38.44), e com a própria autoridade de Deus (cfr Mc 2, 10; Mt 28, 18). Tudo isso conferia uma singular força e autoridade às Suas palavras, como jamais se tinha ouvido em Israel (cfr Lc 19, 48; Ioh 7, 46).

27.06.14 – Mt 11, 25-30

25Naquela ocasião, tomando Jesus a pala­vra, disse: Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e prudentes e as revelaste aos pequeninos. 26Sim Pai, porque tal foi o Teu beneplácito. 27Todas as coisas me foram entregues por meu Pai; e ninguém conhece o Filho senão o Pai, nem ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar.

28Vinde a Mim todos os que andais afadigados e sobrecarregados, e Eu vos aliviarei. 29Tomai sobre vós o Meu jugo e aprendei de Mim, porque sou manso e humilde de cora­ção, e encontrareis descanso para as vossas almas, 30pois o Meu jugo é suave, e a Minha carga é leve.

Comentário

25-26. Os prudentes e os sábios deste mundo, isto é, os que confiam na sua própria sabedoria, não podem aceitar a revelação que Cristo nos trouxe. A visão sobrenatural vai sempre unida à humildade. O que se considera pouca coisa diante de Deus, o humilde, vê; o que está contente com o seu próprio valor não percebe o sobrenatural.

27. Nestas palavras solenes Jesus revela-nos a Sua divindade. É o conhecimento que temos de uma pessoa o que dá idéia da nossa intimidade com ela, segundo o princípio enunciado por São Paulo: «Pois, quem dentre os homens, conhece as coisas do homem, a não ser o espírito do homem que nele reside?» (1Cor 2, 11). O Filho conhece o Pai com o mesmo conhecimento com que o Pai conhece o Filho. Esta identidade de conhecimento implica a unidade de natureza; quer dizer, Jesus é Deus como o Pai.

28-30. O Senhor chama para Si todos os homens, pois andamos sob o peso das nossas fadigas, lutas e tributações, «c história das almas mostra a verdade destas palavras de Jesus. Só o Evangelho apaga a sede de verdade e de justiça que desejam os corações sinceros. Só Nosso Senhor, o Mestre – e aqueles a quem Ele dá o Seu poder —, pode apaziguar o pecador ao dizer-lhe «os teus pecados te são perdoados»? (1Vít 9, 2). Neste sentido ensina o Papa Paulo VI: «Jesus diz agora e sempre: ‘Vinde a Mim todos os que andais afadigados e sobrecarregados, e Eu vos aliviarei’. Efectivamente Jesus está numa atitude de convite, de conhecimento e de compaixão por nós; mais ainda, de oferecimento, de promessa, de amizade, de bondade; de remédio para os nossos males, de confortador, e ainda mais, de alimento, de pão, de fonte de energia e de vida» (Homília Corpus Christi).

«Vinde a Mim»: O Mestre dirige-Se às multidões que O seguem, «maltratadas e abatidas, como ovelhas sem pastor» (Mt 9, 36). Os fariseus sobrecarregavam-nas com minuciosas práticas insuportáveis (cfr Act 15, 10), que em troca não lhes davam a paz do coração. Pelo contrário, Jesus fala àquelas gentes e também a nós do Seu jugo e da Sua carga: «Qualquer outra carga te oprime é esmaga, mas a carga de Cristo alivia-te o peso. Outra carga qualquer tem peso, mas a de Cristo tem asas. Se a um pássaro lhe tiras as asas, parece que o alivias do peso, mas quanto mais lhe tires este peso, tanto mais O atas à terra. Vês no solo aquele que quiseste aliviar de um peso; restitui-lhe o peso das suas asas e verás como voa» (Santo Agostinho, Sermo 126). Com um pouco de experiência na intimidade pessoal com o Senhor, Compreendemos que nos diga que «o Meu jugo é suave e a Minha carga é leve». «Como se dissesse: todos os que andais atormentados, aflitos e carregados com a carga dos vossos cuidados e apetites, saí deles, vindo a Mim, e Eu vos recrearei e achareis para as vossas almas o descanso que vos tiram os vossos apetites» (Subida ao Monte Carmelo, liv. I, cap. 7, nº 4).

28.06.14 – Jo 21, 15-19

15No fim do almoço, pergunta Jesus ao Simão Pedro: Simão, filho de João, amas-Me tu mais do que estes? Sim, Senhor, responde-Lhe ele. Tu sabes que Te amo! Diz-lhe Jesus: Apascenta os Meus cordeiros. 16Volta a perguntar-Lhe segunda vez: Simão, filho de João, tu amas-Me? Sim, Senhor, responde-Lhe ele. Tu sabes que Te amo. Diz-Lhe Jesus: Apascenta as Minhas ovelhas. I7Pergunta-Lhe terceira vez: Simão, filho de João, tu amas-Me? Pedro entriste­ce-se por lhe ter perguntado pela terceira vez: «Tu amas-me?» E responde-Lhe: Tu sabes tudo, Senhor, Tu bem sabes que Te amo. Diz-lhe Jesus: Apascenta as minhas ovelhas. 18Em verdade, em verdade te digo: Quando eras mais novo, tu mesmo te cingias e andavas por onde querias. Mas, quando fores velho, estenderás as tuas mãos e outro é que há-de cingir-te e levar-te para onde não queres. 19Disse-o para indicar por que morte ele havia de glorificar a Deus. Dito isto, acrescenta: Segue-Me.

Comentário

15-17. Jesus Cristo tinha prometido a Pedro o primado da Igreja (cfr Mt 16,16-19ea nota correspondente). Apesar das três negações do Apóstolo durante a Paixão, confere-lhe agora o Primado prometido. «Jesus Cristo interroga Pedro, por três vezes, como se lhe quisesse dar a oportunidade de reparar a sua tripla negação. Pedro já aprendeu, escarmentado com a sua própria miséria: está profundamente con­vencido de que são inúteis aqueles seus alardes temerários; tem consciência da sua debilidade. Por isso, põe tudo nas mãos de Cristo. Senhor, Tu sabes que eu Te amo» (Amigos de Deus, n.° 267). A entrega do Primado a Pedro foi directa e imediata. Assim o entendeu sempre a Igreja e o definiu o Concilio Vaticano I: «Ensinamos, pois, e declaramos que, segundo os testemunhos do Evangelho, o primado de juris­dição sobre a Igreja universal de Deus foi prometido e conferido imediata e directamente ao bem-aventurado Pedro por Cristo Nosso Senhor (…). Porque só a Simão Pedro conferiu Jesus depois da Sua Ressurreição a jurisdição de pastor e reitor supremo sobre todo o Seu rebanho, dizendo: ‘Apascenta os Meus cordeiros’. ‘Apascenta as Minhas ovelhas’» (Pastor aeternus, cap. 1).

O Primado é uma graça que é conferida a Pedro e aos seus sucessores os Papas; é um dos elementos fundacionais da Igreja para guardar e proteger a sua unidade: «Para que o episcopado fosse uno e indiviso e a multidão universal dos crentes se conservasse na unidade da fé e da comunhão (…) ao preferir o bem-aventurado Pedro aos outros Apóstolos, nele instituiu um princípio perpétuo de uma e de outra unidade, e um fundamento visível» (Pastor aeternus, Dz-Sch 3051; cfr Lumen gentium, n. 18). Portanto, o Primado de Pedro perpetua-se em todos e em cada um dos seus sucessores por disposição de Cristo, não por costume ou legislação humana.

Em razão do Primado, Pedro, e cada um dos seus suces­sores, é Pastor de toda a Igreja e Vigário de Cristo na terra, porque desempenha o poder vicário do próprio Cristo. O amor ao Papa, que Santa Catarina de Sena chamava «o doce Cristo na terra», deve estar coalhado de oração, sacri­fício e obediência.

18-19. Segundo a tradição, São Pedro seguiu o seu Mestre até morrer crucificado, de cabeça para baixo. « Pedro e Paulo sofreram martírio em Roma durante a perseguição de Nero aos cristãos, que teve lugar entre os anos 64 e 68. O martírio de ambos os Apóstolos é recordado por São Clemente, sucessor do próprio Pedro na Sede da Igreja Romana, que escrevendo aos Coríntios lhes propõe os exemplos gene­rosos dos dois atletas, com estas palavras: por causa dos zelos e da inveja, os que eram colunas principais e santíssimas padeceram perseguição e lutaram até à morte» (Petrum et Paulum).

«Segue-Me»: Esta palavra evocaria no Apóstolo o seu primeiro chamamento (cfr Mt 4,19) e as condições de entrega absoluta que o Senhor impõe aos Seus discípulos: « Se alguém quer vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz cada dia, e siga-Me» (Lc 9,23). O próprio São Pedro, numa das suas cartas, deixa-nos o testemunho de que a exigência Ha Cruz é necessária para todo o cristão: «Pois para isto tostes chamados, já que também Cristo padeceu por vós, dando-vos exemplo, para que sigais os Seus passos» (1Pet 2,21).

29.06.14 – Mt 16, 13-19

13Em seguida, foi Jesus para os lados de Cesareia de Filipe e perguntou aos discípulos: Quem dizem os homens que é o Filho do homem? 14Responderam-Lhe: Uns, João Baptista: outros, Elias; outros, Jeremias ou algum dos profetas. 15Disse-lhes Jesus: E quem dizeis vós que Eu sou? 16Respondeu Simão Pedro, dizendo: Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo. 17E Jesus, respondendo-lhe, disse: Bem-aventurado és tu, Simão, Barjona, porque não foi a carne e o sangue que to revelaram, mas Meu Pai que,está nos Céus. 18E Eu digo-te a ti que tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a Minha Igreja, e as portas do Inferno não prevalecerão contra ela. 19Dar-te-ei as chaves do Reino dos Céus, e tudo o que ligares na terra, será ligado nos Céus; e tudo o que desligares na terra, será desligado nos Céus.

Comentário

13-20. Neste passo promete-se a São Pedro o Primado sobre toda a Igreja. Primado que Jesus lhe conferirá, depois da Sua Ressurreição, segundo nos relata o Evangelho de São João (cfr Ioh21, 15-18). Os poderes supremos são dados a Pedro para bem da Igreja. Como esta há-de durar até ao fim dos tempos, esses poderes transmitir-se-ão àqueles que sucedam a Pedro ao longo da história. O Romano Pontífice é em concreto o sucessor de São Pedro.

A doutrina sobre o Primado de Pedro e dos seus sucessores foi definida como dogma de fé pelo Magistério solene da Igreja no Concilio Vaticano I, nos seguintes termos: «Ensinamos, pois, e declaramos que, segundo os testemunhos do Evangelho, o primado de jurisdição sobre a Igreja universal de Deus foi prometido e conferido, imediata e directamente, ao bem-aventurado Pedro por Cristo Nosso Senhor. Porque só a Simão — a quem já antes tinha dito: ‘Tu chamar-te-ás Cefas’ (Ioh 1, 42) —, depois de pronunciar a sua confissão: ‘Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo’, se dirigiu o Senhor com estas solenes palavras: ‘Bem-aventurado és, Simão filho de João, porque não foi a carne nem o sangue que te revelaram isso, mas Meu Pai que está nos Céus. E Eu digo-te, que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a Minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Dar-te-ei as chaves do Reino dos Céus; e tudo o que ligares na terra ficará ligado nos Céus, e tudo o que desligares na terra, ficará desligado nos Céus’ (Mt 16, 16 ss.). E só a Simão Pedro conferiu Jesus, depois da Sua Ressurreição, a jurisdição de pastor e chefe supremo de todo o Seu rebanho, dizendo: ‘Apascenta os Meus cordeiros. Apascenta as Minhas ovelhas’ (Ioh 21, 15 ss.)… (Canon). Se alguém disser que o bem-aventurado Pedro Apóstolo não foi constituído por Cristo Senhor príncipe de todos os Apóstolos e cabeça visível de toda a Igreja militante, ou que recebeu directa e imediatamente do próprio Jesus Cristo Senhor Nosso somente o primado de honra, mas não de verdadeira e própria jurisdição, seja anátema».

Ora bem, «o que Cristo Senhor, príncipe dos pastores e grão pastor das ovelhas, instituiu no bem-aventurado Após­tolo Pedro para perpétua salvação e bem perene da Igreja, é mister que dure perpetuamente por obra do mesmo Senhor na Igreja que, fundada sobre a pedra, tem de permanecer firme até à consumação dos séculos. ‘Para ninguém, na verdade, é duvidoso, antes, pára todos os séculos é notório, que o santo e beatíssimo Pedro, príncipe e cabeça dos Apóstolos, coluna da fé e fundamento da Igreja Católica, recebeu as chaves do Reino das mãos de Nosso Senhor Jesus Cristo, Salvador e Redentor do gênero humano; e até ao tempo presente e sempre continua a viver, preside e exerce o juízo nos seus sucessores’ (cfr Concilio de Efeso), os bispos da santa Sé Romana, por ele fundada e pelo seu sangue consa­grada. Donde se segue que seja quem for o que sucede a Pedro nesta cátedra, esse, segundo a instituição do próprio Cristo, obtém o Primado de Pedro sobre a Igreja universal…

«Por esta causa, foi sempre necessário que a esta Igreja Romana, ‘pela sua mais poderosa principalidade, se unisse toda a Igreja, isto é, quantos fiéis há, de onde quer que sejam’…

«(Canon.) Se alguém disser que não é de instituição do próprio Cristo, isto é, de direito divino, que o bem-aven­turado Pedro tenha perpétuos sucessores no primado sobre a Igreja universal; ou que o Romano Pontífice não é sucessor do bem-aventurado Pedro no mesmo primado, seja anátema.

«…Julgamos que é absolutamente necessário afirmar solenemente a prerrogativa que o Unigênito Filho de Deus se dignou juntar com o supremo dever pastoral.

«Assim, pois, Nós, seguindo a tradição recolhida fielmente desde o princípio da fé cristã, para glória de Deus Salvador. Nosso, para exaltação da fé católica e salvação dos povos cristãos, com aprovação do sagrado concilio, ensinamos e definimos ser dogma divinamente revelado: Que o Romano Pontífice, quando fala ex cathedra — isto é, quando cumprindo o seu cargo de pastor e doutor de todos os cristãos, define pela sua suprema autoridade apostólica que uma doutrina sobre a fé e costumes deve ser definida pela Igreja universal —, pela assistência divina que lhe foi prometida na pessoa do bem-aventurado Pedro, goza daquela infalibilidade de que o Redentor divino quis que estivesse prevista a Sua Igreja na definição da doutrina sobre a fé e os costumes; e, por isso, que as definições do Romano Pontífice são irreformáveis por si mesmas e não pelo consentimento da Igreja.

«(Canon.) E se alguém tivesse a ousadia, o que Deus não permita, de contradizer essa definição nossa, seja anátema» (Pastor aeternus, caps l, 2 e 4).

30.06.14 – Mt 24, 4-13

4Respondeu-lhes Jesus: Vede que ninguém vos seduza. 5Porque hão-de vir muitos com o Meu nome, dizendo: «Eu sou o Cristo». E hão-de seduzir muitos. 6Ouvireis falar de guerras e rumores de guerras. Vede lá não vos assusteis, pois isto tem de acontecer; mas ainda não é o fim. 7Levantar-se-á povo contra povo e reino contra reino, e haverá pestes, fomes e terramotos em diversas partes. 8Mas todas estas coisas são só o princípio das dores.

9Então vos entregarão aos suplícios e matar-vos-ão, e sereis odiados de todas as gentes por causa do Meu nome. 10Então muitos se escandalizarão; atraiçoar-se-ão uns aos outros e odiar-se-ão mutuamente. 11Surgirão muitos falsos profetas e enga­narão a muitos. 12E, porque se multiplicou a iniqüidade, esfriar-se-á a caridade de muitos. 13Mas quem perseverar até ao fim, esse será salvo.

Comentário

4-14. O Senhor indica que desde então até ao fim do mundo terá lugar a pregação do Evangelho a todas as criaturas. Durante esse tempo surgirão diversas tribulações. Não são os sinais do fim dos tempos, são as circunstâncias ordinárias entre as quais se desenvolverá a pregação cristã.