Evangelho do dia: mês de julho de 2012

Julho de 2012

01.07.2012 – Mt 16,13-19

13Em seguida, foi Jesus para os lados de Cesareia de Filipe e perguntou aos discípulos: Quem dizem os homens que é o Filho do homem? 14Responderam-Lhe: Uns, João Baptista: outros, Elias; outros, Jeremias ou algum dos profetas. 15Disse-lhes Jesus: E quem dizeis vós que Eu sou? 16Respondeu Simão Pedro, dizendo: Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo. 17E Jesus, respondendo-lhe, disse: Bem-aventurado és tu, Simão, Barjona, porque não foi a carne e o sangue que to revelaram, mas Meu Pai que,está nos Céus. 18E Eu digo-te a ti que tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a Minha Igreja, e as portas do Inferno não prevalecerão contra ela. 19Dar-te-ei as chaves do Reino dos Céus, e tudo o que ligares na terra, será ligado nos Céus; e tudo o que desligares na terra, será desligado nos Céus.

Comentário

13-20. Neste passo promete-se a São Pedro o Primado sobre toda a Igreja. Primado que Jesus lhe conferirá, depois da Sua Ressurreição, segundo nos relata o Evangelho de São João (cfr Ioh21, 15-18). Os poderes supremos são dados a Pedro para bem da Igreja. Como esta há-de durar até ao fim dos tempos, esses poderes transmitir-se-ão àqueles que sucedam a Pedro ao longo da história. O Romano Pontífice é em concreto o sucessor de São Pedro.

A doutrina sobre o Primado de Pedro e dos seus sucessores foi definida como dogma de fé pelo Magistério solene da Igreja no Concilio Vaticano I, nos seguintes termos: «Ensinamos, pois, e declaramos que, segundo os testemunhos do Evangelho, o primado de jurisdição sobre a Igreja universal de Deus foi prometido e conferido, imediata e directamente, ao bem-aventurado Pedro por Cristo Nosso Senhor. Porque só a Simão — a quem já antes tinha dito: ‘Tu chamar-te-ás Cefas’ (Ioh 1, 42) —, depois de pronunciar a sua confissão: ‘Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo’, se dirigiu o Senhor com estas solenes palavras: ‘Bem-aventurado és, Simão filho de João, porque não foi a carne nem o sangue que te revelaram isso, mas Meu Pai que está nos Céus. E Eu digo-te, que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a Minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Dar-te-ei as chaves do Reino dos Céus; e tudo o que ligares na terra ficará ligado nos Céus, e tudo o que desligares na terra, ficará desligado nos Céus’ (Mt 16, 16 ss.). E só a Simão Pedro conferiu Jesus, depois da Sua Ressurreição, a jurisdição de pastor e chefe supremo de todo o Seu rebanho, dizendo: ‘Apascenta os Meus cordeiros. Apascenta as Minhas ovelhas’ (Ioh 21, 15 ss.)… (Canon). Se alguém disser que o bem-aventurado Pedro Apóstolo não foi constituído por Cristo Senhor príncipe de todos os Apóstolos e cabeça visível de toda a Igreja militante, ou que recebeu directa e imediatamente do próprio Jesus Cristo Senhor Nosso somente o primado de honra, mas não de verdadeira e própria jurisdição, seja anátema».

Ora bem, «o que Cristo Senhor, príncipe dos pastores e grão pastor das ovelhas, instituiu no bem-aventurado Apóstolo Pedro para perpétua salvação e bem perene da Igreja, é mister que dure perpetuamente por obra do mesmo Senhor na Igreja que, fundada sobre a pedra, tem de permanecer firme até à consumação dos séculos. ‘Para ninguém, na verdade, é duvidoso, antes, para todos os séculos é notório, que o santo e beatíssimo Pedro, príncipe e cabeça dos Apóstolos, coluna da fé e fundamento da Igreja Católica, recebeu as chaves do Reino das mãos de Nosso Senhor Jesus Cristo, Salvador e Redentor do gênero humano; e até ao tempo presente e sempre continua a viver, preside e exerce o juízo nos seus sucessores’ (cfr Concilio de Efeso), os bispos da santa Sé Romana, por ele fundada e pelo seu sangue consagrada. Donde se segue que seja quem for o que sucede a Pedro nesta cátedra, esse, segundo a instituição do próprio Cristo, obtém o Primado de Pedro sobre a Igreja universal…

«Por esta causa, foi sempre necessário que a esta Igreja Romana, ‘pela sua mais poderosa principalidade, se unisse toda a Igreja, isto é, quantos fiéis há, de onde quer que sejam’…

«(Canon.) Se alguém disser que não é de instituição do próprio Cristo, isto é, de direito divino, que o bem-aventurado Pedro tenha perpétuos sucessores no primado sobre a Igreja universal; ou que o Romano Pontífice não é sucessor do bem-aventurado Pedro no mesmo primado, seja anátema.

«…Julgamos que é absolutamente necessário afirmar solenemente a prerrogativa que o Unigênito Filho de Deus se dignou juntar com o supremo dever pastoral.

«Assim, pois, Nós, seguindo a tradição recolhida fielmente desde o princípio da fé cristã, para glória de Deus Salvador. Nosso, para exaltação da fé católica e salvação dos povos cristãos, com aprovação do sagrado concilio, ensinamos e definimos ser dogma divinamente revelado: Que o Romano Pontífice, quando fala ex cathedra — isto é, quando cumprindo o seu cargo de pastor e doutor de todos os cristãos, define pela sua suprema autoridade apostólica que uma doutrina sobre a fé e costumes deve ser definida pela Igreja universal —, pela assistência divina que lhe foi prometida na pessoa do bem-aventurado Pedro, goza daquela infalibilidade de que o Redentor divino quis que estivesse prevista a Sua Igreja na definição da doutrina sobre a fé e os costumes; e, por isso, que as definições do Romano Pontífice são irreformáveis por si mesmas e não pelo consentimento da Igreja.

«(Canon.) E se alguém tivesse a ousadia, o que Deus não permita, de contradizer essa definição nossa, seja anátema» (Pastor aeternus, caps l, 2 e 4).

 

02.07.2012 – Mt 8, 16-22

16Ao anoitecer, apresentaram-Lhe muitos possessos e Ele com a Sua palavra expulsou os espíritos e curou todos os que se sentiam mal, 17para se cumprir o que fora anunciado pelo profeta Isaías, que disse: Ele tomou sobre Si as nossas enfermidades e carregou com as nossas doenças.»

18Vendo Jesus grandes multidões de povo à volta de Si, mandou ir para o lado de lá. 19E, aproximando-se um escriba disse-lhe: Mestre, seguir-Te-ei para onde quer que fores. 20Disse-lhe Jesus: As raposas têm covas e as aves do céu ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça. 21Outro de entre os discípulos disse-Lhe: Senhor, dá-me primeiro licença de ir sepultar meu pai. 22Jesus, porém, disse-lhe: Segue-Me e deixa que os mortos sepultem os seus mortos.

Comentário

18-22. Desde os começos da Sua pregação messiânica, Jesus mal permanece num mesmo lugar; vai sempre a caminho, passando. «Não tem onde reclinar a cabeça» (Mt 8,20). Quem quiser estar com Ele tem de «O seguir». A expressão «seguir Jesus» adquire no Novo Testamento um alcance preciso: seguir Jesus é ser Seu discípulo (cfr Mt 19, 28). Ocasionalmente as multidões «seguem-nO». Mas os verdadeiros discípulos são «os que O seguem» de modo permanente, sempre; de tal modo que existe uma equivalência entre «ser discípulo de Jesus» e «segui-Lo». Depois da Ascensão do Senhor, «segui-Lo» identifica-se com ser cristão (cfr Act 8, 26). Pelo facto simples e sublime do nosso Baptismo, todo o cristão é chamado, com vocação divina, a ser plenamente discípulo do Senhor com todas as suas consequências.

O Evangelista recolhe aqui dois casos concretos de seguimento de Jesus. No primeiro — o do escriba —, Nosso Senhor explica as exigências do chamamento à fé àqueles que descobrem que são chamados. No segundo — o do homem que já disse sim a Jesus— recorda-lhe as exigências do seu compromisso. O soldado que não abandona o seu posto na frente de batalha para enterrar o pai, deixando esse trabalho para os da retaguarda, cumpre o seu dever. Se o serviço da pátria pode ter tais exigências, com maior razão pode tê-las o serviço a Jesus Cristo e à sua Igreja.

O seguimento de Cristo, com efeito, leva consigo uma disponibilidade rendida, uma entrega imediata do que Jesus pede, porque essa chamada é um seguir Cristo ao ritmo do Seu próprio passo, que não admite ficar para trás: Jesus ou se segue, ou se perde. Em que consiste o seguimento de Cristo, ensinou-o Jesus no Sermão da Montanha (Mt 5-7), e é-nos resumido pelos catecismos mais elementares da doutrina: cristão quer dizer homem que crê em Jesus Cristo— fé que recebeu no Baptismo — e que está obrigado ao Seu santo serviço. Cada cristão deve procurar, na oração e intimidade Com o Senhor, quais sãos as exigências pessoais e concretas dia sua vocação cristã.

 

03.07.2012 – Jo 20, 24-29

24Ora Tome, um dos doze, a quem chamavam Dídimo, não estava com eles quando veio Jesus. 25Diziam-lhe os outros discípulos: Vimos o Senhor! Ele, porém, respondeu-lhes: Se não Lhe vir nas mãos a marca dos cravos, se não chegar com o dedo ao sítio dos ‘cravos e levar a mão ao Seu lado, não acreditarei.

26Oito dias depois, estavam os discípulos novamente lá dentro, e Tome com eles. Veio Jesus, com as portas fechadas, colocou-Se no meio deles e disse: A paz seja convosco! 27A seguir, disse a Tome: Chega aqui o teu dedo e vê as Minhas mãos, aproxima a tua mão e chega com ela ao Meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente. 28Respondeu-Lhe Tome, dizendo: Meu Senhor e meu Deus! 29Jesus replicou-lhe: Porque Me viste acreditaste? Felizes os que, sem terem visto, acreditam!

Comentário

24-28. A dúvida do Apóstolo Tome leva o Senhor a dar-lhe uma prova especial da realidade do Seu corpo ressuscitado. Assim confirma, ao mesmo tempo, a fé daqueles que mais tarde haviam de crer n’Ele. «Será que pensais — comenta São Gregório Magno — que aconteceu por pura casualidade que estivesse ausente então aquele discípulo escolhido, que ao voltar ouvisse relatar a aparição, e que ao ouvir duvidasse, duvidando palpasse e palpando cresse? Não foi por casualidade, mas por disposição de Deus. A divina clemência actuou de modo admirável para que tocando o discípulo duvidador as feridas da carne no seu Mestre, sarasse em nós as feridas da incredulidade (…). Assim o discípulo, duvidando e palpando, converteu-se em testemunha da verdadeira ressurreição» (In Evangelia homiliae, 26,7).

A resposta de Tome não é uma simples exclamação, é uma afirmação: um maravilhoso acto de fé na Divindade de Jesus Cristo: «Meu Senhor e meu Deus!». Estas palavras constituem uma jaculatória que repetiram com frequência os cristãos, especialmente como acto de fé na presença real de Jesus Cristo na Santíssima Eucaristia.

29. O mesmo São Gregório Magno explica estas palavras do Senhor: « São Paulo ao dizer que ‘a fé é o fundamento das coisas que se esperam e uma convicção das que não se veem’ (Heb 11,1), torna evidente que a fé versa sobre as coisas que não se veem, pois as que se veem já não são objecto da fé, mas da experiência. Ora bem, por que é dito a Tome quando viu e tocou: Porque viste, acreditaste? Porque uma coisa é o que se viu e outra o que se creu. É certo que o homem mortal não pode ver a divindade; portanto, ele viu o Homem e reconheceu-O como Deus, dizendo: ‘Meu Senhor e meu Deus’. Em conclusão, vendo creu, porque contemplando atentamente este homem verdadeiro exclamou que era Deus, a quem não podia ver» (In Evangelia homiliae, 27,8).

Tomé, como todos os homens, necessitou da graça de Deus para crer, mas, além disso, recebeu uma prova singular; teria sido mais meritória a sua fé se tivesse aceitado o testemunho dos Apóstolos. As verdades reveladas transmitem-se normalmente pela palavra, pelo testemunho de outros homens que, enviados por Cristo e assistidos pelo Espírito Santo, pregam o depósito da fé (cfr Mc 16,15-16). «Por conseguinte a fé vem pela pregação e a pregação pela palavra de Cristo» (Rom 10,17). A pregação, pois, do Evangelho tem as garantias suficientes de credibilidade, e o homem ao aceitá-lo «oferece a Deus a homenagem total da sua inteligência e da sua vontade prestando voluntário assentimento à Sua revelação» (Dei Verbum, n. 5).

«Alegra-nos muito o que se segue: ‘Bem-aventurados os que sem ter visto creram’. Sentença na qual, sem dúvida, estamos assinalados nós, que confessamos com a alma o que não vimos na carne. Alude-se a nós, desde que vivamos de acordo com a fé; porque só crê de verdade aquele que pratica o que crê» (In Evangelia homiliae, 26,9).

 

04.07.2012 – Mt 8, 28-34

28Chegado ao lado de lá, ao país dos Gadarenos, vieram-Lhe ao encontro dois possessos, saídos dos sepulcros, e tão furiosos, que ninguém se arriscava a passar por aquele caminho. 29Os quais em alta voz diziam: Que tens que ver connosco, Filho de Deus? Vieste aqui atormentar-nos antes do tempo? 30Ora, a certa distância deles, andava uma grande vara de porcos a pastar, 31e os Demônios suplicaram: Se nos expulsas, manda-nos para estes porcos. 32Disse-lhes Ele: Ide! Eles saíram e foram-se para os porcos. E logo toda a vara se despenhou do precipício no mar e se afogou nas águas. 33Os guardadores fugiram e, chegando à cidade, contaram tudo e também o caso dos possessos. 34E eis que toda a cidade saiu ao encontro de Jesus e, apenas O viram, pediram-Lhe que Se retirasse do seu termo.

Comentário

28. A maioria dos códices gregos e a Neo-vulgata dizem gadarenos; a Vulgata, porém, e os textos paralelos de Mc e Lc transcrevem gerasenos. Ambos os nomes são possíveis, pois dependem respectivamente das duas cidades, Gerasa e Gadara, as mais importantes desta zona. O acontecimento pode ter-se dado nos limites entre ambas, um tanto imprecisos, embora a precipitação dos porcos no lago ou mar da Galileia dê alguma maior possibilidade a Gadara. Gergesenos procede de uma conjectura de Orígenes.

28-34. Neste episódio Jesus Cristo mostra o Seu poder, uma vez mais, sobre o demônio e as forças diabólicas. Que o facto suceda em terra de gentios (Gerasa e Gádara estavam na Decápole, a Este do Jordão), fica atestado porque entre os Judeus era proibida a criação de porcos, declarados impuros segundo a Lei de Moisés. Esta expulsão de demônios, e outras mais que nos narram os evangelistas, vêm resumidas no livro dos Actos dos Apóstolos, no discurso de São Pedro diante de Cornélio e da sua família: «Passou fazendo o bem e curando todos os que tinham caído sob o poder do diabo» (Act 10,38). É uma prova de que o Reino de Deus começou (cfr Mt 12,28).

A atitude dos habitantes da cidade perante o milagre recorda-nos que o encontro com Deus e a vida cristã exigem a subordinação dos planos pessoais aos planos divinos. Uma atitude egoísta ou materialista fecha o horizonte dos bens eternos. Por este caminho podemos expulsar Deus da nossa vida, como o expulsaram da sua terra os habitantes de Gerasa.

 

05.07.2012 – Mt 9, 1-8

E Ele, subindo para uma barca, refez a travessia e voltou para a Sua cidade. 2Senão quando, apresentaram-Lhe um paralítico estendido num leito. Vendo Jesus a sua fé, disse ao paralítico: Tem confiança, filho, os teus pecados estão perdoados. 3Pelo que alguns Escribas disseram de si para consigo: Este blasfema. 4Jesus, que lhes via os pensamentos, disse: Para que pensais mal em vossos corações? 5Qual é mais fácil, dizer: «os teus pecados estão perdoados», ou dizer: «levanta-te e anda»? 6Ora, para que saibais que o Filho do homem tem sobre a terra poder para perdoar pecados, — aqui diz ao paralítico: levanta-te! toma o teu leito e vai para tua casa. 7Ele levantou-se e foi para casa. 8Vendo isto, a multidão, cheia de temor, glorificou a Deus, que deu tal poder aos homens.

Comentário

1. Como se pode ver por Mt 4, 13 e Mc 2, 1, trata-se de Cafarnaum.

2-6. O doente e os que o levam pedem a Jesus a cura do corpo, movidos pela fé nos Seus poderes sobrenaturais. Nosso Senhor, como noutros milagres, interessa-se mais pelo remédio das causas profundas do mal, isto é, o pecado. Na Sua grandeza divina, dá mais do que Lhe é pedido, ainda que a limitação humana não o saiba apreciar. Diz São Tomás que Jesus Cristo faz como o bom médico: cura a causa da doença (cfr Comentário sobre S. Mateus, 9,1-6).

2. A leitura do passo paralelo de São Marcos conservou-nos um pormenor que nos ajuda a entender melhor a cena e que, em concreto, explica a expressão «a sua fé»: em Mc 2, 2-5 conta-se-nos que foi tanta a aglomeração de gente à volta de Jesus, que não podiam aproximar-se d’Ele com a enxerga do paralítico. Perante isto, tiveram a feliz ideia de subir ao alto da casa e dependurar a enxerga com o paralítico, abrindo um buraco pelo tecto leve, diante donde estava Jesus. Assim se explica a frase «vendo Jesus a sua fé».

O Senhor fica gratamente impressionado por tal audácia, fruto de uma fé operativa que não se detém perante os obstáculos. Por sua vez, esta simpática ousadia ilustra o modo prático de viver a caridade e como Jesus Se sente inclinado para aqueles que se preocupam sinceramente com os outros; curou o paralítico por ocasião da intrepidez dos seus amigos e parentes, da qual também participava o próprio doente, que não teve medo nesta acção arriscada.

São Tomás comenta assim o versículo: «Este simboliza o pecador que jaz no pecado; assim como o paralítico não se pode mover, também o pecador não pode valer-se por si mesmo. Os que levam Q paralítico representam os que com os seus conselhos conduzem o pecador para Deus» (Comentário sobre S. Mateus, 9,2). Para aproximar-se de Jesus é necessário também ser santamente audazes e atrevidos, como vemos que o foram os santos. O que não actua assim nunca tomará decisões importantes na sua vida de cristão.

3-7. Aqui «dizer» significa evidentemente «dizer com verdade», «dizer eficazmente, realizando o que se expressa». O Senhor argumenta desta forma: Qual destas duas coisas é mais fácil, sarar o corpo de um paralítico, ou perdoar os pecados da alma? Não há dúvida que curar um paralítico; pois a alma é mais excelente que o corpo e por isso as doenças daquela são mais difíceis de curar que as deste. Não obstante, a cura da alma é uma coisa oculta, enquanto a do corpo é visível e patente. Jesus demonstra a verdade do que está oculto pelo que aparece manifesto.

Por outro lado, os judeus pensavam que todas as doenças eram efeito de pecados pessoais (cfr Ioh 9,1-3); assim quando ouviram dizer ao Senhor «os teus pecados estão perdoados», faziam internamente este raciocínio: só Deus pode perdoar os pecados (cfr Lc 5, 21); este homem diz que tem poder para os perdoar; logo está a usurpar a Deus um poder que é «exclusivamente Seu; portanto é um blasfemo. Mas o Senhor sai-lhes ao encontro partindo dos seus próprios princípios: ao curar o paralítico só com a Sua palavra faz-lhes ver que, visto que tem poder para curar os efeitos do pecado — segundo eles julgavam —, tem também poder para curar a causa, isto é, o pecado; por conseguinte tem poder divino.

Jesus Cristo transmitiu o poder de perdoar os pecados aos apóstolos e aos seus sucessores no ministério sacerdotal: Recebei o Espírito Santo; àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes; ser-lhes-ão retidos» (Ioh 20, 22-23). «Garanto-vos que tudo o que ligardes na terra ficará ligado no Céu, e tudo o que desligardes na terra, ficará desligado no Céu» (Mt 18,18). Os sacerdotes exercem o poder do perdão dos pecados no Sacramento da Penitência não em virtude própria, mas em nome de Cristo — in persona Christi — como instrumentos nas mãos do Senhor.

Daqui o respeito, veneração e agradecimento com que devemos aproximar-nos da Confissão: no sacerdote devemos ver o próprio Cristo, Deus, e receber as palavras da absolvição com a fé firme de que é o próprio Cristo quem as diz pela boca do sacerdote. Por esta razão, o ministro não diz: «Cristo te absolva…», mas «eu te absolvo dos teus pecados…», na primeira pessoa, numa identificação plena com o próprio Jesus Cristo (cfr Catecismo Romano, II, 5,10).

 

06.07.2012 – Mt 9, 9-13

9Seguindo Jesus dali, viu sentado ao telónio um homem chamado Mateus e disse-lhe: Segue-Me. E ele levantou-se e seguiu-O. 10Ora, sucedeu que, estando à mesa em sua casa, vieram muitos publicanos e pecadores pôr-se à mesa com Jesus e Seus discípulos. 11Ao verem isto os Fariseus, diziam aos discípulos: Porque é que o vosso Mestre come com os publicanos e pecadores? 12Mas Ele, que os ouviu, disse: Não precisam de médico os que têm boa saúde, mas os doentes. 13lde, pois, aprender o que significa: quero misericórdia e não sacrifício, porque não vim Eu chamar os justos, mas os pecadores.

Comentário

9. «Telónio»: Posto público para o pagamento de tributos. Acerca do «seguir Jesus» veja-se a nota a Mt 8,18-22.

Este Mateus, a quem Jesus chama, é o apóstolo do mesmo nome e autor humano do primeiro Evangelho. É o mesmo que em Mc 2,14 e em Lc 5,27 é chamado Levi o de Alfeu, ou simplesmente Levi.

Deus é quem chama. Para seguir Jesus de modo permanente não basta a própria determinação do homem, mas requer-se, absolutamente, o chamamento individual por parte do Senhor; isto é, a graça da vocação (cfr Mt 4, 19-21; Mc 1, 17-20; Ioh 1, 39; etc.). Esse chamamento implica a prévia escolha divina. Por outras palavras, não é o homem quem toma a iniciativa; pelo contrário, é Jesus quem chama primeiro e o homem corresponde a esse chamamento com a sua livre decisão pessoal: «Não fostes vós que Me escolhestes, filas fui Eu que vos escolhi a vós» (Ioh 15,16). Deve pôr-se em relevo a prontidão com que Mateus «segue» o chamamento de Jesus. Diante da voz de Deus pode entrar na alma a tentação de responder: «Amanhã, ainda não estou preparado». No fundo esta e outras razões não são mais que egoísmo e medo, além de que o medo pode ser um sintoma a mais do chamamento (cfr Ioh 1). Amanhã corre-se o risco de ser demasiado tarde.

Como o dos outros apóstolos, o chamamento de São Mateus dá-se no meio das circunstâncias normais da sua vida: «— Deus foi-te procurar no exercício da tua profissão? ,,, « Foi assim que procurou os primeiros: Pedro, André, João e Tiago, junto das redes; Mateus, sentado à mesa dos Impostos…

«E — assombra-te! — Paulo, no seu afã de acabar com a semente dos cristãos» (Caminho, n.° 799).

10-11. A mentalidade desses fariseus, tão inclinada a julgar os outros e classificar facilmente como justos e pecadores, não concorda com a atitude e ensinamentos de Jesus. Já tinha dito: «Não julgueis e não sereis julgados» (Mt 7, 1), e acrescentou ainda: «Quem de vós estiver sem pecado seja o primeiro a lançar-lhe uma pedra» (Ioh 8,7).

A realidade é que todos os homens são pecadores e o Senhor veio para remir a todos. Não há, pois, razão para que se dê entre os cristãos o escandalizar-se pelos pecados de outros, visto que qualquer de nós é capaz de cometer as maiores vilezas se não for assistido pela graça de Deus.

12. Ninguém deve desanimar ao ver-se cheio de misérias: reconhecer-se pecador é a única atitude justa diante de Deus. Ele veio buscar a todos, mas o que se considera justo, por esse mesmo facto, está a fechar as portas a Deus, porque na realidade todos somos pecadores.

13. A frase de Jesus, tomada de Os 6, 6, conserva a expressão hiperbólica do estilo semítico. Uma tradução mais fiel ao sentido seria: «quero mais misericórdia que sacrifício» . Não é que o Senhor não queira os sacrifícios que Lhe são oferecidos, mas insiste em que estes háo-de ir sempre acompanhados pela bondade do coração, visto que a caridade há-de informar toda a actividade do cristão e com maior razão o culto a Deus (vid. 1Cor 13,1-13; Mt 5,23-24).

 

07.07.2012 – Mt 9, 14-17

14Então acercam-se d’Ele os discípulos de João e perguntam: Porque é que nós e os Fariseus jejuamos com frequência e os Teus discípulos não jejuam? 15Disse-lhes Jesus: Podem acaso os convidados das bodas entristecer-se enquanto está com eles o esposo? Dias virão em que o esposo lhes será tirado, e então jejuarão. 16Ninguém deita um remendo de pano não pisoado num vestido velho; aliás, o conserto puxa pelo vestido, e o rasgão torna-se ainda maior. 17Nem se deita vinho novo em odres velhos; doutra sorte, rebentam os odres, derrama-se o vinho, e os odres estragam-se. Mas o vinho novo deita-se em odres novos, e ambas as coisas se conservam.

Comentário

14-17. O interesse da questão que levanta este passo radica, não em saber que jejuns praticavam os judeus contemporâneos de Jesus, e em especial os fariseus e os discípulos de João Baptista, mas em Saber qual é a razão pela qual Jesus não obriga os Seus discípulos a tais jejuns. A resposta que dá aqui o Senhor é, ao mesmo tempo, um ensinamento e uma profecia. O cristianismo não é um mero remendo no antigo traje do judaísmo. A redenção operada por Cristo implica uma total regeneração. O seu espírito é demasiado novo e pujante para ser amoldado às velhas formas penitenciais, cuja vigência caducava.

A história da Igreja primitiva ensina-nos até que ponto os costumes de alguns cristãos, procedentes do judaísmo, resistiam a entender a transformação operada por Jesus. É sabido que na época de Nosso Senhor dominava nas escolas judaicas uma complicadíssima casuística de jejuns, purificações etc., que afogavam a simplicidade da verdadeira piedade. As palavras de Jesus apontam para esta (Simplicidade de coração com que os Seus discípulos devem viver a oração, o jejum e a esmola (cfr Mt 6, 1-18 e notas correspondentes). Será a Igreja que, desde os tempos apostólicos, concretizará em cada época, com os poderes que Deus lhe deu, as formas de jejum, segundo este espírito do Senhor. 15. «Os convidados das bodas»: O texto original diz literalmente «filhos da casa onde se celebram as bodas», que é uma expressão típica para designar os amigos mais íntimos do esposo. Deve sublinhar-se a marcada construção semítica da frase que o Evangelista conservou na sua fidelidade à expressão original de Jesus.

Por outro lado, esta «casa» a que alude Jesus Cristo tem um profundo sentido: há que pô-la em relação com a parábola dos convidados para as bodas (Mt 22, 1-14), e simboliza a Igreja como casa de Deus e Corpo de Cristo: «Moisés, na verdade, foi fiel em toda a casa de Deus, como servo, para dar testemunho de tudo o que se havia de anunciar. Cristo, porém, é fiel, como Filho, à frente da Sua própria casa, a qual somos nós, se conservarmos firmemente até ao fim a confiança e a esperança de que nos gloriamos» (Heb 3, 5-6).

A segunda parte do versículo alude à morte violenta do Senhor.

 

08.07.2012- Mc 6, 1-6

Partindo depois dali, foi à Sua terra, e os discípulos acompanharam-No. 2Vindo o sábado, começou a ensinar na sinagoga, e os muitos que O ouviam exclamavam admirados: Donde Lhe vieram todas estas coisas? E que sabedoria é esta que Lhe foi dada? E os prodígios como esses que opera com Suas mãos? 3Porventura não é Este o carpinteiro, o filho de Maria e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? E Suas irmãs não vivem aqui entre nós? 4E escandalizavam-se d’Ele. Mas Jesus dizia-lhes: O profeta não é desconsiderado senão na sua terra, entre os seus parentes e na sua casa. 5E não pôde fazer ali nenhum milagre. Apenas curou um pequeno número de enfermos, impondo-lhes as mãos. 6E admirava-Se da incredulidade daquela gente.

E percorria as aldeias dos arredores, ensinando.

Comentário

1-3. Jesus é designado aqui pelo Seu trabalho e por ser «o filho de Maria». Indicará isto que São José já tinha morrido? Não o sabemos, ainda que seja provável. Em qualquer caso, é de sublinhar esta expressão: nos Evangelhos de São Mateus e de São Lucas tinha-se narrado a concepção virginal de Jesus. O Evangelho de São Marcos não refere a infância do Senhor, mas talvez possa ver-se uma alusão à concepção e nascimento virginais, na designação «o filho de Maria».

«José, cuidando daquele Menino como lhe tinha sido ordenado, fez de Jesus um artesão: transmitiu-Lhe o seu ofício. Por isso, os vizinhos de Nazaré falavam de Jesus chamando-Lhe indistintamente faber e fabrí filius: artesão e filho de artesão» (Cristo que passa, n.° 55). Desta maneira o Senhor fez-nos saber que a nossa vocação profissional não é alheia aos Seus desígnios divinos.

«Esta verdade, segundo a qual o homem mediante o trabalho participa na obra do próprio Deus, seu Criador, foi particularmente posta em relevo por Jesus Cristo, aquele Jesus com Quem muitos dos Seus primeiros ouvintes em Nazaré ‘ficavam admirados e exclamavam: ‘Donde Lhe veio tudo isso? E que sabedoria é esta que lhe foi dada?… Porventura não é Ele o carpinteiro’…?’ (Mc 6,2-3). Com efeito, Jesus não só proclamava, mas sobretudo punha em prática com obras as palavras da Sabedoria eterna, o ‘Evangelho’ que Lhe tinha sido confiado. Tratava-se verdadeiramente do ‘evangelho do trabalho’ pois Aquele que o proclamava era Ele próprio homem do trabalho, do trabalho artesanal como José de Nazaré (cfr Mt 13, 55). Ainda que não encontremos nas Suas palavras o preceito especial de trabalhar — antes pelo contrário, uma vez, a proibição da preocupação excessiva com o trabalho e com os meios de subsistência (Mt 6, 25-34) — contudo, a eloquência da vida de Cristo é inequívoca: Ele pertence ao ‘mundo do trabalho’ e tem apreço e respeito pelo trabalho humano. Pode-se até afirmar: Ele encara com amor este trabalho, bem como as suas diversas expressões, vendo em cada uma delas uma linha particular da semelhança do homem com Deus, Criador e Pai» (Laborem exercens, n. 26). São Marcos dá uma lista de irmãos de Jesus, e fala genericamente da existência de umas irmãs. Mas a palavra «irmão» não significava necessariamente filho dos mesmos pais. Podia indicar também outros graus de parentesco: primos, sobrinhos, etc. Assim em Gen 13, 8 e 14, 14.16 chama-se a Lot irmão de Abraão, enquanto por Gen 12,5 e 14, 12 sabemos que era sobrinho, filho de Arão, irmão de Abraão. O mesmo acontece com Labão, a quem se chama irmão de Jacob (Gen 29,15), quando era irmão de sua mãe (Gen 29,10); e noutros casos: cfr 1Chr 23, 21-22, etc. Esta confusão deve-se à pobreza da linguagem hebraica e aramaica: carecem de termos diferentes e usam uma mesma palavra, irmão, para designar graus diversos de parentesco.

Por outros passos do Evangelho, sabemos que Tiago e José, aqui nomeados, eram filhos de Maria de Cléofas (Mc 15, 40; Ioh 19, 25). De Simão e de Judas temos menos dados. Parece que são os Apóstolos Simão o Zelotes (Mt 10,4; Mc 3, 18) e Judas Tadeu (Lc 6, 16), autor da epístola católica em que se declara «irmão» de Tiago. Por outro lado, ainda que se fale de Tiago, Simão e Judas como irmãos de Jesus, nunca se diz que sejam «filhos de Maria», o que teria sido natural se tivessem sido estritamente irmãos do Senhor. Jesus aparece sempre como filho único; para os de Nazaré. Ele é «o filho de Maria» (Mt 13, 55). Jesus ao morrer confia Sua mãe a São João (cfr Ioh 19,26-27), o que revela que Maria não tinha outros filhos. A isto acrescenta-se a fé constante da Igreja, que considera Maria como a sempre Virgem: «Virgem antes do parto, no parto, e para sempre depois do parto» (Cum quorumdam).

5-6. Jesus não fez ali milagres: não porque Lhe faltasse poder, mas como castigo da incredulidade dos Seus concidadãos. Deus quer que o homem use da graça oferecida, de sorte que, ao cooperar com ela, se disponha a receber novas graças. Em frase gráfica de Santo Agostinho, «Deus que te criou sem ti, não te salvará sem ti» (Sermo 169).

 

09.07.2012 – Mt 9, 18-26

18Enquanto assim lhes falava, aproximou- Ressurreição -se um chefe e, prostrando-se diante d’Ele, disse: Minha filha faleceu agora mesmo; mas vem impor a Tua mão sobre ela, e viverá.

19Jesus levantou-Se e seguiu-o com os discípulos.

20Nisto, uma mulher que, havia doze anos, padecia de fluxo de sangue, chegou-se por detrás e tocou-Lhe na franja do manto, 21porque dizia consigo mesma: «se eu tocar, ainda que seja só no manto, ficarei curada». 22Mas Jesus voltou-Se e, olhando para ela, disse: Confiança, filha. A tua fé te salvou. E desde aquele momento ficou a mulher curada.

23Quando Jesus chegou a casa do chefe e viu os tocadores de flauta e a gente em grande alarido, disse: 24Retirai-vos, que a menina não morreu, mas dorme. E riam-se d’Ele. 25Ele, porém, depois de terem feito sair a gente, entrou, pegou-lhe na mão, e a menina levantou-se. 26E correu esta fama por toda aquela região.

Comentário

18-26. Estamos perante dois milagres que se realizaram quase simultaneamente. É clara a relevância dos dois factos prodigiosos. A ressurreição da filha deste personagem, juntamente com a ressurreição do filho da viúva de Naim e a de Lázaro, são as três ressurreições operadas por Jesus que narram os Evangelhos. Pelos passos paralelos de Marcos (5, 21-43) e Lucas (8, 40-56) sabemos que este homem principal era chefe da sinagoga e se chamava Jairo. Assim pois, nos três casos ficam claramente identificadas as pessoas que receberam o benefício de tais prodígios.

O relato evangélico mostra-nos, uma vez mais, a função que a fé desempenha nas acções salvadoras de Jesus. No caso da doente de fluxo de sangue, deve sublinhar-se que Jesus atende sobretudo à sinceridade e à fé que demonstra a mulher ao superar os obstáculos para chegar a Ele. E também é i. semelhante o caso de Jairo: deixando a um lado todo o tipo de respeito humano, este homem, relevante na cidade, humilha-se visivelmente diante de Jesus.

18. «Prostrando-se»: É o uso oriental para manifestar o respeito a Deus ou a pessoas de categoria. Os gestos de reverência nos actos litúrgicos, especialmente perante a Santíssima Eucaristia, são legítima e apropriada manifestação externa da atitude interior de fé e adoração.

23. «Os tocadores de flauta»: O texto original diz «flautistas», que eram os que normalmente acompanhavam com sua música as honras fúnebres.

24. «Retirai-vos, a menina não morreu, mas dorme»: O mesmo dirá o Senhor a propósito de Lázaro: «Lázaro, nosso amigo, está adormecido, mas vou despertá-lo» (Ioh 11,11).

Ainda que Jesus fale de sono, não há a menor dúvida de que a menina — como mais tarde Lázaro — tinha morrido, para o Senhor não há morte verdadeira que não seja a do Castigo eterno (cfr Mt 10,28).

 

10.07.2012 – Mt 9, 32-38

32Quando estes iam a sair, apresentaram-Lhe um mudo e endemoninhado. 33E, expulso o Demônio, falou o mudo, e a multidão admirada dizia: Nunca se viu coisa assim em Israel. 34Os Fariseus, porém, diziam: É pelo Príncipe dos Demônios que Ele expulsa os Demônios.

35E Jesus andava por todas as cidades e aldeias, a ensinar nas sinagogas, a pregar o Evangelho do Reino e a curar todas as doenças e todas as enfermidades. 36Ao ver a multidão, condoeu-Se dela, porque andavam maltratados e abatidos, como ovelhas sem pastor. 37Então disse aos discípulos: A messe é grande, mas os trabalhadores, poucos. 38Rogai, pois, ao Senhor da messe que envie trabalhadores para a Sua messe.

Comentário

31. Diz São Jerônimo (cfr Comm. In Matth. 9,31) que os cegos divulgaram o acontecimento, não porque se tenham negado a obedecer a Jesus, mas porque não encontraram outro meio de exprimir a sua gratidão.

35. O Concilio Vaticano II recorre a este lugar para assinalar a mensagem de caridade cristã que a Igreja deve levar a toda a parte: «Efetivamente, a caridade cristã a todos se estende sem discriminação de raça, condição social ou religião; não espera qualquer lucro ou agradecimento. portanto, assim como Deus nos amou com um amor gratuito, assim também os fiéis, pela sua caridade, sejam solícitos para com os homens, amando-os com o mesmo zelo com que Deus veio procurá-los. E assim como Cristo percorria todas as cidades e aldeias, curando todas as doenças e todas as enfermidades, proclamando o advento do reino de Deus, do mesmo modo a Igreja, por meio dos seus filhos, estabelece relações com os homens de qualquer condição, de modo especial com os pobres e aflitos, e de bom grado por eles gasta as forças» (Adgentes, n. 12).

36. «Condoeu-Se dela»: O verbo grego é profundamente expressivo: «comover-se nas entranhas». Jesus, com efeito, comoveu-Se ao ver o povo, porque os seus pastores, em vez de o guiarem e cuidarem dele, o desencaminhavam, comportando-se mais como lobos do que como verdadeiros pastores do seu próprio rebanho. Jesus vê na situação do Seu tempo cumprida a profecia de Ez 34, em que Deus, por meio do profeta, increpa os maus pastores de Israel, em substituição dos quais enviará o Messias.

«Se fôssemos consequentes com a nossa fé, quando olhássemos à nossa volta e contemplássemos o espectáculo da História e do Mundo, não poderíamos deixar de sentir crescer nos nossos corações os mesmos sentimentos que animaram o de Jesus Cristo» (Cristo que passa n° 133). Com efeito, a consideração das necessidades espirituais do mundo deve levar-nos a um infatigável e generoso trabalho apostólico.

37-38. À contemplação da multidão abandonada pelos seus pastores, seguem-se as palavras de Jesus que nos apresentam, sob a imagem da messe, essa mesma multidão preparada para que se realize nela a obra da Redenção: «Levantai os vossos olhos e vede os campos que estão dourados para a sega» (Ioh 4, 35). O campo arroteado pelos Profetas, ultimamente por São João Baptista, está já coberto de espigas maduras. Do mesmo modo que nos trabalhos do campo se não se sega no momento oportuno a colheita se perde, assim na Igreja se sente ao longo dos séculos a urgência de colher a messe, que é muita e está preparada.

A dificuldade é que agora, como nos tempos de Jesus, os obreiros são poucos em proporção com a tarefa. A solução é dada pelo próprio Senhor: orar, rogar a Deus, Dono da messe, para que envie os obreiros necessários. Será difícil que um cristão, que se ponha a rezar de verdade, não se sinta urgido a participar pessoalmente neste trabalho apostólico. Ao cumprir este mandato de Jesus Cristo, deve pedir-se de modo especial que não faltem os bons pastores, que deem aos outros operários da messe os meios de santificação necessários para a tarefa apostólica.

Na verdade, recorda-nos o Papa Paulo VI: «A responsabilidade da difusão do Evangelho que salva é de todos, de todos os que o receberam. O dever missionário recai sobre todo o Corpo da Igreja. De maneira e em medidas diferentes, é certo; mas todos, todos devemos ser solidários no cumprimento deste dever. Assim pois, que a consciência de cada crente se pergunte: Tenho cumprido o meu dever missionário A oração pelas Missões é o primeiro modo de pôr em prática este dever» (Alocução na recitação do Angelus, 23-X-1977).

 

11.07.2012 – Mt 10, 1-7

E chamando a Si os doze discípulos, deu-lhes poder sobre os espíritos imundos, para os expulsarem e para curarem todas as doenças e todas as enfermidades. 2Ora, os nomes dos doze Apóstolos são estes: primeiro Simão, chamado Pedro, e André, seu irmão, e Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, 3Filipe e Bartolomeu, Tome e Mateus, o publicano, Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu, 4Simão, o Cananeu, e Judas, o Iscariotes, o que O entregou. 5A estes doze enviou Jesus, depois de lhes dar as seguintes instruções: Não vades a terra de gentios, nem entreis em cidades de Samaritanos. 6Ide antes às ovelhas desgarradas da Casa de Israel. 7Ide e pregai, dizen-do: « Está próximo o Reino dos Céus».

Comentário

1-4. Tão essencial é a oração na vida da Igreja, que Jesus chama os Seus Doze Apóstolos depois de lhes ter recomendado que rezassem para que o Senhor enviasse operários para a Sua messe (cfr Mt 9, 38). Toda a actividade apostólica dos cristãos deve ser, pois, precedida e acompanhada por uma intensa vida de oração, visto que não se trata de uma empresa meramente humana mas divina. O Senhor inicia a Sua Igreja chamando Doze homens que vão ser como que os doze patriarcas do Novo Povo de Deus que é a Sua Igreja. Este Novo Povo não se constituirá por uma descendência segundo a carne, mas por uma descendência espiritual. Os seus nomes ficam aqui registrados. A sua escolha é gratuita: não se distinguiram por serem sábios, poderosos, importantes…; são homens normais e correntes que responderam com fé à graça do chamamento de Jesus. Todos serão fiéis ao Senhor, excepto Judas Iscariotes. Inclusive, Jesus antes de morrer e ressuscitar gloriosamente, confere-lhes esses poderes de expulsar os espíritos imundos e de curar enfermidades, como antecipação e preparação da missão salvífica que lhes dará depois.

E comovedor saber os nomes daqueles primeiros. A Igreja venera-os com especial afecto e sente-se orgulhosa de ser continuadora — apostólica — da missão sobrenatural que eles iniciaram, e de ser fiel ao testemunho que souberam dar da doutrina de Cristo. Não há verdadeira Igreja sem a ininterrupta sucessão apostólica e a continuada identificação com o espírito que os Apóstolos souberam encarnar.

«Apóstolo»: Significa enviado, porque Jesus Cristo os enviava a pregar o Seu Reino e a Sua doutrina.

O Concilio Vaticano II, na mesma linha do Vaticano I, confessa e declara que a Igreja,está constituída hierarquicamente: « O Senhor Jesus, depois de ter orado ao Pai, chamando a Si os que Ele quis, elegeu doze para estarem com Ele e para os enviar a pregar o Reino de Deus (cfr Mc 3,13-19; Mt 10,1-10); e;a estes Apóstolos (cfr Lc 6, 13) constituiu-os em colégio ou grupo estável e deu-lhes como chefe a Pedro, escolhido de entre eles (cfr Ioh21, 15-17). Enviou-os primeiro aos filhos de Israel e, depois, a todos os povos (cfr Rom 1,16), para que, participando do Seu poder, fizessem de todas as gentes discípulos Seus e as santificassem e governassem (cfr Mt 28,16-20; Mc 16, 15; Lc 24, 45-48; Ioh 20, 21-23) e deste modo propagassem e apascentassem a Igreja, servindo-a, sob a direcção do Senhor, todos os dias até ao fim dos tempos (cfr Mt 28,28)» (Lumen gentium, n. 19).

1. Neste capítulo 10 São Mateus expõe como Jesus, para levar para a frente no futuro o Reino de Deus que inaugura, têm o propósito de fundar a Igreja, e para isso escolhe, dá poderes e instrui os Doze Apóstolos que são o germe da Sua Igreja.

5-15. De maneira semelhante a como na escolha dos Apóstolos (vv. 1-4) Jesus mostra a Sua vontade de fundar a Igreja, no presente passo (vv. 5-15) manifesta o Seu propósito de formar esses primeiros Apóstolos, já antes da Sua Morte e Ressurreição. Deste modo Jesus Cristo começou a pôr os fundamentos da Sua Igreja desde os começos do Seu ministério público.

Todos temos necessidade de uma formação doutrinai e apostólica para desempenhar a nossa vocação cristã. A Igreja tem o dever de ensinar, e os fiéis têm a obrigação de fazer seu esse ensinamento. Por conseguinte, cada cristão deve aproveitar os meios de formação que a Igreja lhe oferece, nas circunstâncias concretas em que Deus o colocou na vida.

5-6. Segundo o plano de salvação estabelecido por Deus, ao povo hebraico foram feitas as promessas (a Abraão e aos Patriarcas), conferida a Aliança, dada a Lei (Moisés) e enviados os Profetas. Deste povo, segundo a carne, nasceria o Messias. Compreende-se que o Messias e o Reino de Deus devessem ser anunciados à Casa de Israel primeiro que aos não Judeus. Por isso, nesta primeira aprendizagem de missão apostólica, Jesus restringe o campo da sua actividade só aos Judeus, sem que tal circunstância possa significar um obstáculo ao caracter universal da missão da Igreja. Com efeito, Jesus mandar-lhes-ia mais tarde: «Ide, pois, doutrinai todos os povos» (Mt 28, 19); «Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura» (Mc 16,15). Também os Apóstolos, na primeira expansão do Cristianismo, ao evangelizar uma cidade em que havia alguma comunidade de judeus, costumavam dirigir-se a estes em primeiro lugar (cfr Act 13,46).

7-8. Até então os Profetas tinham anunciado ao povo eleito os bens messiânicos, por vezes em imagens acomodadas à sua mentalidade ainda pouco madura espiritualmente. Agora, Jesus envia os Seus Apóstolos a anunciar que esse Reino de Deus prometido está iminente, manifestando os seus aspectos espirituais. Os poderes mencionados no v. 8 são precisamente o sinal anunciado pelos Profetas acerca do Reino de Deus ou reino messiânico. Primariamente (caps. 8 e 9) estes poderes messiânicos exerce-os Jesus Cristo; agora dá-os aos Seus discípulos para mostrar que essa missão é divina (cfr Is 35,5-6 40, 9; 52, 7; 61,1).

 

12.07.2012 – Mt 10, 7-15

7Ide e pregai, dizendo: « Está próximo o Reino dos Céus». 8Curai enfermos, ressuscitai mortos, limpai leprosos, expulsai Demônios. Dai de graça o que de graça recebeste. 9Não procureis oiro nem prata nem cobre para vossos cintos, 10nem alforge para o caminho, nem duas túnicas nem calçado nem bordão, porque o trabalhador tem direito ao seu sustento.

11Em qualquer cidade ou aldeia onde entrardes, informai-vos de alguma pessoa honrada que nela haja e hospedai-vos aí até partirdes. 12E, ao entrar na casa, saudai-a. E, se realmente essa casa for digna, venha sobre ela a vossa paz; 13se, porém, não for digna, a vossa paz voltará para vós. 14E se alguém vos não receber nem ouvir as vossas palavras, saí dessa casa ou povoação e sacudi o pó dos vossos pés. 15Em verdade vos digo: no dia do Juízo, mais tolerável sorte terá a terra de Sodoma e Gomorra do que essa cidade.

Comentário

7-8. Até então os Profetas tinham anunciado ao povo eleito os bens messiânicos, por vezes em imagens acomodadas à sua mentalidade ainda pouco madura espiritualmente. Agora, Jesus envia os Seus Apóstolos a anunciar que esse Reino de Deus prometido está iminente, manifestando os seus aspectos espirituais. Os poderes mencionados no v. 8 são precisamente o sinal anunciado pelos Profetas acerca do Reino de Deus ou reino messiânico. Primariamente (caps. 8 e 9) estes poderes messiânicos exerce-os Jesus Cristo; agora dá-os aos Seus discípulos para mostrar que essa missão é divina (cfr Is 35,5-6 40, 9; 52, 7; 61,1).

9. «Cintos»: Cinturões duplos, cosidos pelas bordas, em que se costumava na antiguidade levar o dinheiro e outros objectos pequenos e pesados.

9-10. Jesus urge aos Seus discípulos a que partam sem demora para o cumprimento da sua missão. Não devem preocupar-se por carecerem de bens materiais, nem dos meios humanos; o que faltar Deus provê-lo-á na medida das suas necessidades. Esta santa audácia em empreender as obras de Deus repete-se uma e outra vez na história da Igreja. Quantas coisas grandes foram empreendidas, mesmo sem ter à disposição os meios humanos mais imprescindíveis! Assim agiram os santos. Se na expansão da Igreja se tivesse esperado por dispor desses meios, muitas almas não teriam recebido a luz de Cristo. Quando o cristão está persuadido de qual é a Vontade de Deus, não deve, com ânimo encolhido, parar a contar os meios de que dispõe. «Nos empreendimentos de apostolado, está bem — é um dever que consideres os teus meios terrenos (2 + 2 =4). Mas não te esqueças — nunca — de que tens de contar, felizmente, com outra parcela. Deus + 2 + 2…) (Caminho, n.°471).

De qualquer modo, não pretendamos forçar Deus para que intervenha de modo extraordinário quando podemos remediar as necessidades com o nosso próprio esforço e trabalho. Isto quer dizer que os cristãos devem ajudar com generosidade aqueles que, dedicados totalmente a cuidar dos bens espirituais dos seus irmãos, não têm tempo para se ocuparem do seu próprio sustento. Veja-se a este propósito o que promete o próprio Jesus em Mt 10,40-42.

11-15. A palavra «paz» era e continua a ser a saudação usual entre os Judeus. Mas na boca dos Apóstolos devia adquirir uma significação mais profunda: a manifestação da bênção de Deus, que os discípulos de Jesus, como enviados Seus, derramam sobre aqueles que os acolhem. Este mandato do Senhor não termina naquela missão concreta, mas é como que uma profecia para toda a história posterior. O mensageiro de Cristo não desanima quando a sua palavra não é acolhida. Sabe que a bênção de Deus não fica vazia nem é ineficaz (cfr Is 55, 11) e todo o esforço por parte do cristão sempre dará fruto. Em qualquer caso, a palavra apostólica leva consigo a graça da conversão: «muitos dos que tinham ouvido a Palavra abraçaram a Fé, e o número, só dos homens, elevou-se a uns cinco mil» (Act 4,4; cfr 10,44; Rom 10,17).

O homem deve prestar atenção a essa palavra do Evangelho e acreditar nela (Act 13, 48; 15, 7). Se a aceitar e perseverar nela, receberá a consolação da sua alma, a paz do seu espírito (Act 8, 3.9) e a salvação (Act 11, 4-18). Mas se a rejeitar, não estará isento de culpa e Deus julgá-lo-á por se ter fechado à graça que lhe foi oferecida.

 

13.07.2102 – Mt 10, 16-23

16Olhai que Eu mando-vos, como ovelhas para o meio dos lobos. Sede, portanto, prudentes como as serpentes, e simples, como as pombas. 17Acautelai-vos, porém, dos homens, pois hão-de entregar-vos aos Sinédrios e açoitar-vos nas sinagogas. 18E sereis, por Minha causa, levados à presença dos governadores e à dos reis, para dardes testemunho diante deles e dos gentios. 19Mas, quando vos entregarem, não vos dê cuidado como ou o que haveis de dizer, pois ser-vos-á dado nessa hora o que haveis de dizer, 20porque não sois vós que falais, mas o Espírito de vosso Pai, que fala em vós. 210 irmão há-de entregar à morte o irmão, e o pai, ao filho. E levantar-se-ão os filhos contra os pais e far-lhe-ão dar a morte. 22E sereis odiados de todos, por causa do Meu nome; mas aquele que perseverar até ao fim, esse será salvo. 23Quando, porém, vos perseguirem numa cidade, fugi para outra. Em verdade vos digo que não terminareis as cidades de Israel até vir o Filho do homem.

Comentário

16-23. Jesus Cristo dá aqui uma série de instruções e advertências, que terão aplicação constante ao longo de toda a história da Igreja. Dificilmente o espírito do mundo compreenderá os caminhos de Deus. Quando não forem as perseguições, será a indiferença e a incompreensão do ambiente. Mas seguir a Cristo de perto será sempre custoso: não se pode estranhar que seja assim, visto que o próprio Jesus foi sinal de contradição; mais ainda, se na vida do cristão não aparecesse esta, haveria que perguntar-se se não está a acontecer que o cristão se mundanizou. O discípulo de Cristo não pode transigir com certas manifestações mundanas, por muito em moda que estejam. Por isso, a vida cristã levará consigo, necessariamente, uma inconformidade diante de tudo o que atente contra a fé e a moral (cfr Rom 12,2). Não Se pode estranhar que a vida do cristão se mova, não poucas vezes, entre o heroísmo ou a traição. Perante estas dificuldades não se deve ter medo: não estamos sós, contamos com a ajuda poderosa do nosso Pai Deus, que nos fará ser valentes e audazes.

20. Com estas palavras Jesus ensina o caracter completamente sobrenatural do testemunho que pede aos Seus discípulos. O comportamento de tantos mártires cristãos, conservado documentalmente, prova como se cumpre na vida dos fiéis a promessa de Jesus; é impressionante ao ler esses documentos comprovar a serenidade e a sabedoria de pessoas de escassa cultura, por vezes quase crianças.

A doutrina deste versículo fundamenta a fortaleza e confiança que o cristão deve ter nas situações mais variadas e difíceis da vida, nas quais seja necessário confessar a fé. Não estará só, mas o Espírito Santo porá nele palavras cheias de sabedoria divina.

23. Na interpretação deste texto deve rejeitar-se, antes de mais, a opinião de alguns racionalistas segundo a qual Jesus estaria convencido da Sua próxima vinda gloriosa e do fim do mundo. Tal interpretação contradiz abertamente muitos outros passos do Evangelho e do Novo Testamento. É evidente que com «Filho do Homem» Jesus Se designa a Si próprio, e que anuncia uma manifestação da Sua glória. A interpretação mais razoável é que aqui Jesus alude, em primeiro lugar, à situação histórica da primeira guerra judaica contra Roma, que acabou com a total destruição de Jerusalém e do Templo no ano 70, e que causou a dispersão do povo Hebreu. Mas este acontecimento, que teria lugar poucos anos depois da morte de Jesus, é uma imagem ou figura profética do fim dos tempos (cfr a nota a Mt 24,1). A vinda gloriosa de Cristo terá lugar em data que Deus não revelou. A incerteza do fim dos tempos é um incentivo a vigilância do cristão e da Igreja. 24-25. Com dois provérbios Jesus insinua a sorte futura dos discípulos: a sua maior glória será imitar o Mestre, identificar-se com Ele, ainda que isto os leve a ser desprezados e perseguidos como antes o foi o seu Senhor; o exemplo do Mestre é o único que ilumina e guia o comportamento do cristão, pois Ele disse de Si mesmo: «Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida» (Ioh14,6).

Belzebu ou Beelzebul (Lc 11,15) era o nome do ídolo da antiga cidade filisteia de Acaron. Os judeus denominaram a seguir com este nome depreciativamente o demônio ou o príncipe dos demônios (cfr Mt 12, 24), e o ódio que tinham a Jesus Cristo levou-os ao extremo de denominá-Lo da mesma forma.

Diante das perseguições e incompreensões a que iam estar submetidos os cristãos (Ioh15, 18), Jesus Cristo anima-os dando-lhes a Sua intimidade. No fim da Sua vida chamar-lhes-á carinhosamente amigos (Ioh15, 15) e filhos (Ioh13, 33).

 

14.07.2012 – Mt 10, 24-33

24O discípulo não é superior ao mestre, nem o servo, superior ao senhor. 25Basta ao discípulo que seja como o seu mestre, e ao servo, como o seu senhor. Se ao Pai de família chamaram Belzebu, quanto mais aos de sua casa! 26Portanto, não tenhais medo deles, porque não há nada encoberto que não venha a descobrir-se, nem oculto, que não venha a saber-se. 27O que vos digo nas trevas, dizei-o vós à luz e o que ouvis em segredo, apregoai-o sobre os terraços. 28Não temais os que matam o corpo e que não podem matar a alma. Temei antes Aquele que pode deitar a perder a alma e o corpo na Geena. 29Não se vendem dois pardais por um asse? E, contudo, nem um deles cairá em terra sem permissão do vosso Pai. 30Quanto a vós, até os cabelos da cabeça estão todos contados. 31Por isso, não temais, que mais vaieis vós do que muitos pardais.

32A todo aquele, pois, que Me confessar diante dos homens, também Eu o confessarei diante de Meu Pai, que está nos Céus, 33mas a quem Me negar diante dos homens, também Eu o negarei diante de Meu Pai que está nos Céus.

Comentário

26-27. Jesus Cristo manda aos Seus discípulos que não tenham medo das calúnias ou murmurações. Virá um dia em que chegue ao conhecimento de todos quem é cada um, as suas verdadeiras intenções e a disposição exacta da sua alma. Entretanto, os que são de Deus podem ser apresentados como se não o fossem por aqueles que, por paixão ou por malícia, utilizam a mentira. Esse é o segredo que chegará a saber-se.

Junto a estas recomendações, Cristo manda também que os Apóstolos falem com clareza, abertamente. Por razões de pedagogia divina, Jesus tinha falado às multidões em parábolas e tinha-lhes descoberto gradualmente a Sua verdadeira personalidade. Os Apóstolos, depois da vinda do Espírito Santo (cfr Act 1,8), hão-de pregar às claras, desde os terraços, o que Jesus lhes foi dando a conhecer.

A nós toca-nos hoje também continuar a manifestar sem ambiguidades toda a doutrina de Cristo, sem nos deixarmos levar por falsas prudências humanas ou por medo das consequências.

28. A Igreja, apoiada neste e em muitos outros passos do Evangelho (Mt 5, 22.29; 18,9; Mc 9,43.45.47; Lc 12, 5),ensina com clareza que existe o inferno, onde recebem castigo eterno as almas que morrem em pecado grave (cfr Catecismo Romano, I, 6, 3). Ali os condenados sofrem as penas de dano e de sentido eternamente, de um modo que nós ignoramos nesta vida (cfr Livro da sua vida, cap. 32). Ver as notas a Lc 16,19-31.

Por isso o Senhor previne os Seus discípulos contra o falso medo. Não há por que temer os que somente podem tirar a vida do corpo. Só Deus é quem tem poder de lançar alma e corpo no inferno. Por isso o verdadeiro temor e respeito devemo-lo a Deus, que é o nosso Príncipe e Juiz Supremo, e não aos homens. Os mártires são os que melhor viveram este preceito do Senhor; sabiam que a vida eterna valia muito mais que a vida terrena.

29-31. O «asse» era uma pequena moeda de ínfimo valor. Cristo emprega esta imagem para ilustrar o imenso carinho que Deus tem à Sua criatura. Como diz São Jerônimo (Comm. in Matth., 10, 29-31): «Se os passarinhos, que são de tão vil preço, não deixam de estar sob a providência e cuidado de Deus, como é que vós, que pela natureza da vossa alma sois eternos, podereis temer que não vos olhe com particular cuidado Aquele a quem respeitais como vosso Pai?» De novo Jesus Cristo ensina a paternal Providência de Deus, da qual falou extensamente no Sermão da Montanha (cfr Mth, 19-34).

32-33. Com estas palavras Jesus está a ensinar-nos que a confissão pública da fé n’Ele — com todas as suas consequências — é condição indispensável para a salvação eterna. Cristo receberá no Céu, depois do Juízo, os que deram testemunho da sua fé, e condenará os que cobardemente se envergonharam d’Ele (cfr Mt 7, 23; 25, 41; Apc 21, 8). Sob o nome de «confessores» a Igreja honra os santos que, sem terem sofrido o martírio de sangue, com a sua vida deram testemunho da fé católica. Embora todo o cristão deva estar disposto para o martírio, a vocação cristã ordinária é a de ser confessores da fé.

 

15.07.2012 – Mc 6, 7-13

7Depois chamou a Si os doze e foi-os enviando dois a dois, dando-lhes poder sobre os espíritos imundos 8e recomendando-lhes que não levassem nada para o caminho, a não ser um simples bordão, nem pão, nem alforge, nem cobres no cinto. 9Calçai sandálias, muito embora, mas não vistais duas túnicas. 10E dizia-lhes: Hospedai-vos na casa em que primeiro entrardes e ficai aí até partirdes. 11E, se em algum lugar vos não receberem nem ouvirem, ao sairdes de lá, sacudi o pó que se vos pegou aos pés, em testemunho contra eles. 12Partiram, pois, e pregaram que fizessem penitência; 13expulsavam muitos Demônios e ungiam com azeite muitos enfermos e curavam-nos.

 

Comentário

7. Cfr as notas a Mc 1, 27; 3, 14-19.

8-9. Jesus Cristo exige estar livre de qualquer espécie de ataduras no momento de pregar o Evangelho. O discípulo, que tem o encargo de levar o Reino de Deus às almas mediante a pregação, não deve pôr a sua confiança nos meios humanos, mas na Providência de Deus. Aquilo de que há-de necessitar para viver dignamente como arauto do Evangelho deverá ser procurado pelos próprios beneficiários da pregação, pois o operário é digno de sustento (cfr Mt 10, 10).

«Tanta deve ser a confiança em Deus daquele que prega que há-de estar seguro de que não lhe faltará o necessário para viver, ainda que ele o não possa procurar; visto que não se deve ocupar menos das coisas eternas, por se ocupar das temporais» (In Marci Evangelium expositio, ad loc.). «Daqui se deduz que o Senhor não diz neste preceito que os anunciadores do Evangelho não podem viver de outro modo que do que lhes deem aqueles a quem o anunciam, mas que lhes dá poder de agir assim, fazendo-lhes saber que têm direito a isso; de outra maneira, o Apóstolo (São Paulo) teria agido contra este preceito, ao querer viver do trabalho das suas mãos» (De consensu Evangelistarum, II, 30).

13. São Marcos é o único Evangelista que fala de uma unção com azeite aos doentes. O azeite utilizava-se frequentemente para curar as feridas — cfr Is 1, 6; Lc 10, 34 —, e os Apóstolos empregam-no também para curar miraculosamente as doenças corporais, segundo o poder que Jesus lhes conferiu. Daí o uso do azeite como matéria do sacramento da Unção dos Doentes, que cura as feridas da alma e inclusivamente as do corpo, se convém. Como ensina o Concilio de Trento — Doctrina de sacramento extremae unctionis, cap. l —, há que ver «insinuado» neste versículo de São Marcos o sacramento da Unção dos Doentes, que será instituído pelo Senhor, e mais tarde «recomendado e promulgado aos fiéis pelo Apóstolo São Tiago» (cfr Iac 5,14 e ss.).

 

16.07.2012 – Mt 12, 46-50

46Enquanto Ele falava ao povo, estavam fora Sua Mãe e irmãos, procurando falar-Lhe. 47Disse-Lhe alguém: Olha, Tua Mãe e Teus irmãos estão lá fora e querem falar-Te. 48Ele, porém, respondeu ao que Lho disse: Quem é a Minha mãe e quem são os Meus irmãos? 49E, estendendo a mão para os Seus discípulos, disse: Eis a Minha mãe e os Meus irmãos. 50Porque todo aquele que fizer a vontade de Meu Pai que está nos Céus, esse é Meu irmão, e irmã, e mãe.

Comentário

46-47. «Irmãos»: Nos idiomas antigos hebraico, árabe, aramaico, etc., não havia palavras concretas para indicar os graus de parentesco que existem noutros idiomas mais modernos. Em geral, todos os pertencentes a uma mesma família, clã, inclusive tribo, eram «irmãos».

No caso concreto que aqui nos ocupa deve ter-se presente, além disso, que os familiares de Jesus eram parentes de diverso grau e que se trata de dois grupos: uns por parte da Santíssima Virgem, e outros de São José. Mt 13, 55-56 menciona, como a viver em Nazaré, Tiago, José, Simão e Judas «irmãos do Senhor», e alude também a «irmãs» (cfr Mc 6, 3). Por outro lado, Mt 27, 56 diz-nos que destes, Tiago e José são filhos de uma certa Maria, diferente da Virgem, e Simão e Judas não são irmãos de Tiago e José, mas, segundo parece, filhos de um irmão de São José.

Jesus, porém, era para todos «o filho de Maria» (Mc 6, 3) ou «o filho do carpinteiro» (Mt 13, 55).

A Igreja sempre professou com plena certeza que Jesus Cristo não teve irmãos de sangue em sentido próprio: é o dogma da perpétua virgindade de Maria (cfr a nota a Mt 1, 25). 48-50. E evidente o amor de Jesus por Sua mãe Santa Maria e por São José. O Nosso Salvador aproveita este episódio para nos ensinar que no Seu Reino os direitos do sangue não têm primazia. Em Lc 8,19 encontramos a mesma doutrina. O que faz a vontade do Seu Pai Celeste é considerado por Jesus como da Sua própria família. Por isso, mesmo sacrificando os sentimentos naturais da família, deverá abandoná-la quando lho peça o cumprimento da missão que o Pai lhe confiou (cfr Lc 2,49).

Podemos dizer que a própria Virgem Maria é mais amada por Jesus por causa dos laços criados entre ambos pela graça do que em virtude da geração natural, que fez d’Ela Sua Mãe segundo a carne: a maternidade divina é a fonte de todas as outras prerrogativas da Santíssima Virgem; mas esta mesma maternidade é, por sua vez, a primeira e a maior das graças outorgadas a Maria.

 

17.07.2012 – Mt 11, 20-24

20Então começou a censurar asperamente as cidades onde se tinha realizado a maior parte dos seus milagres, porque não tinham feito penitência: 21Ai de ti Corozaim! Ai de ti Betsaida! Porque, se em Tiro e Sidónia se tivessem feito os milagres que se fizeram em vós, há muito teriam feito penitência em cilício e cinza. 22Por isso vos digo que Tiro e Sidónia, no dia do Juízo, terão sorte mais tolerável do que vós. 23E tu, Cafarnaum, serás acaso elevada até ao Céu? Descerás até ao Inferno; porque, se em Sodoma se tivessem feito os milagres que se fizeram em ti, ainda hoje existiria. 24Por isso, vos digo que a terra de Sodoma, no dia do Juízo, terá sorte mais tolerável do que tu.

Comentário

21-24. Corozaim e Betsaida eram duas cidades situadas na margem norte do lago de Genesaré, não longe de Cafarnaum. Durante o Seu ministério público Jesus (pregou com frequência nestas cidades, e realizou muitos milagres; em Cafarnaum ensinou a doutrina do Seu Corpo e Sangue, a Santíssima Eucaristia (cfr Ioh6, 51 ss.). Tiro e Sidónia, as duas capitais da Fenícia, juntamente com Sodoma e Gomorra — todas elas célebres pelos seus vícios —, eram exemplos clássicos entre os judeus para designar o castigo de Deus (veja-se Ez 26-28; Is 23).

Com estas alusões Jesus põe em relevo a ingratidão das pessoas que puderam conhecê-Lo, mas não se converteram: no dia do Juízo (vv. 22 e 24) pedir-se-lhes-á contas mais graves: «A todo aquele a quem muito foi dado, muito lhe será exigido» (Lc 12,48).

 

18.07.2012 – Mt 11, 25-27

25Naquela ocasião, tomando Jesus a palavra, disse: Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e prudentes e as revelaste aos pequeninos. 26Sim Pai, porque tal foi o Teu beneplácito. 27Todas as coisas me foram entregues por meu Pai; e ninguém conhece o Filho senão o Pai, nem ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar.

Comentário

25-26. Os prudentes e os sábios deste mundo, isto é, os que confiam na sua própria sabedoria, não podem aceitar a revelação que Cristo nos trouxe. A visão sobrenatural vai sempre unida à humildade. O que se considera pouca coisa diante de Deus, o humilde, vê; o que está contente com o seu próprio valor não percebe o sobrenatural.

27. Nestas palavras solenes Jesus revela-nos a Sua divindade. É o conhecimento que temos de uma pessoa o que dá ideia da nossa intimidade com ela, segundo o princípio enunciado por São Paulo: «Pois, quem dentre os homens, conhece as coisas do homem, a não ser o espírito do homem que nele reside?» (1Cor 2, 11). O Filho conhece o Pai com o mesmo conhecimento com que o Pai conhece o Filho. Esta identidade de conhecimento implica a unidade de natureza; quer dizer, Jesus é Deus como o Pai.

 

19.07.2012 – Mt 11, 28-30

28Vinde a Mim todos os que andais afadigados e sobrecarregados, e Eu vos aliviarei. 29Tomai sobre vós o Meu jugo e aprendei de Mim, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas, 30pois o Meu jugo é suave, e a Minha carga é leve.

Comentário

28-30. O Senhor chama para Si todos os homens, pois andamos sob o peso das nossas fadigas, lutas e tributações, «a história das almas mostra a verdade destas palavras de Jesus. Só o Evangelho apaga a sede de verdade e de justiça que desejam os corações sinceros. Só Nosso Senhor, o Mestre – e aqueles a quem Ele dá o Seu poder —, pode apaziguar o pecador ao dizer-lhe «os teus pecados te são perdoados»? (1Vít 9, 2). Neste sentido ensina o Papa Paulo VI: «Jesus diz agora e sempre: ‘Vinde a Mim todos os que andais afadigados e sobrecarregados, e Eu vos aliviarei’. Efectivamente Jesus está numa atitude de convite, de conhecimento e de compaixão por nós; mais ainda, de oferecimento, de promessa, de amizade, de bondade; de remédio para os nossos males, de confortador, e ainda mais, de alimento, de pão, de fonte de energia e de vida» (Homília Corpus Christi).

«Vinde a Mim»: O Mestre dirige-Se às multidões que O seguem, «maltratadas e abatidas, como ovelhas sem pastor» (Mt 9, 36). Os fariseus sobrecarregavam-nas com minuciosas práticas insuportáveis (cfr Act 15, 10), que em troca não lhes davam a paz do coração. Pelo contrário, Jesus fala àquelas gentes e também a nós do Seu jugo e da Sua carga: «Qualquer outra carga te oprime é esmaga, mas a carga de Cristo alivia-te o peso. Outra carga qualquer tem peso, mas a de Cristo tem asas. Se a um pássaro lhe tiras as asas, parece que o alivias do peso, mas quanto mais lhe tires este peso, tanto mais O atas à terra. Vês no solo aquele que quiseste aliviar de um peso; restitui-lhe o peso das suas asas e verás como voa» (Santo Agostinho, Sermo 126). Com um pouco de experiência na intimidade pessoal com o Senhor, Compreendemos que nos diga que «o Meu jugo é suave e a Minha carga é leve». «Como se dissesse: todos os que andais atormentados, aflitos e carregados com a carga dos vossos cuidados e apetites, saí deles, vindo a Mim, e Eu vos recrearei e achareis para as vossas almas o descanso que vos tiram os vossos apetites» (Subida ao Monte Carmelo, liv. I, cap. 7, n.° 4).

 

20.07.2012 – Mt 12, 1-8

Naquele tempo, atravessou Jesus por meio de umas searas, em dia de sábado, e os discípulos, com fome, começaram a arrancar espigas e a comê-las. 2Viram-nos os Fariseus e disseram-Lhe: Olha, os Teus discípulos estão a fazer o que não é permitido fazer ao sábado. 3Ele, porém, respondeu-lhes: Não lestes o que fez David quando sentiu fome, ele e os companheiros? 4Como entrou na casa de Deus e comeu os pães da proposição, que nem a ele nem aos companheiros era permitido comer, mas somente aos sacerdotes? 5Ou não lestes ria Lei que, ao sábado, os sacerdotes no Templo violam o sábado e não cometem culpa? 6Ora Eu vos digo que há aqui algo maior que o Templo. 7E se soubésseis o que significa: «quero misericórdia e não sacrifício», não condenaríeis nunca os inocentes, 8pois que o Filho do homem é senhor do sábado.

Comentário

2. «Sábado»: Era para os Judeus o dia da semana dedicado ao culto divino. O próprio Deus o instituiu e mandou que o povo judeu se abstivesse de certos trabalhos nesse dia (Ex 20, 8-11; 21,13; Dt 5, 14), para poder dedicar-se com mais demora a honrar a Deus. Com o passar do tempo os rabinos complicaram o preceito divino, e na época de Jesus tinham feito uma classificação de 39 espécies de trabalhos proibidos.

Os fariseus acusam os discípulos de Jesus de violar o sábado. Com efeito, segundo a casuística dos escribas e fariseus, arrancar espigas equivalia a segar; esfregá-las, a debulhar: trabalhos agrícolas proibidos ao sábado.

3-8. Jesus Cristo rebate a acusação dos fariseus com quatro razões: o exemplo de David, o dos sacerdotes, O sentido da misericórdia divina e o domínio do próprio Jesus sobre o sábado. O primeiro exemplo, conhecido pelo povo acostumado a escutara leitura da Bíblia, é tirado de 1Sam 21,2-7: David, fugindo da perseguição do rei Saul, pede ao sacerdote do santuário de Nob alimento para os seus homens; o sacerdote, não tendo senão os «pães da proposição», deu-lhos; eram doze pães que se colocavam cada semana na mesa de ouro do santuário, como homenagem perpétua das doze tribos de Israel ao Senhor (Lev 24, 5-9). O segundo exemplo refere-se ao ministério dos sacerdotes: para realizar o culto divino tinham de fazer ao sábado uma série de trabalhos, sem desobedecer por lei do descanso (cfr Num 28, 9). Para as outras duas razões cfr as notas a Mt 9, 13 e Mc 2, 26-27.28.

 

21.07.2012 – Mt 12, 14-21

14Os Fariseus, porém, saindo dali, reuniram conselho contra Ele, para O matarem. 15Soube-o Jesus e retirou-Se dali. Seguiram-No muitos, e Ele curou-os a todos 16e intimou-lhes que O não dessem a conhecer; 17para que se cumprisse o que fora anunciado pelo profeta Isaías, que disse:

18«Eis o Meu Servo a quem escolhi, O Meu predilecto, no qual se compraz a Minha alma.

Farei repousar sobre Ele o Meu Espírito, e anunciará o Direito às nações.

19 Não porfiará nem clamará, nem se ouvirá nas praças a Sua voz.

20Uma cana rachada, não a quebrará, uma torcida que ainda fumegue, não a apagara, até fazer triunfar o Direito.

21e no Seu nome depositarão as nações as suas esperanças.»

Comentário

17-21. O texto sagrado ensina uma vez mais o contraste entre o reino espectacular do Messias imaginado pelos judeus da Sua época, e a discrição que pede Jesus aos que contemplam e acolhem a Sua doutrina e os Seus milagres. Com esta longa citação de Isaías (42, 1-4) o Evangelista dá-nos a chave doutrinai dos capítulos 11 e 12: em Jesus cumpre-se a profecia do Servo de Yawéh, cujo magistério amável e discreto havia de trazer ao mundo a luz da verdade.

Ao narrar a Paixão do Senhor os Evangelhos voltarão a recordar a figura do Servo de Yahwéh, para mostrar como também se cumpre em Jesus o aspecto doloroso e expiatório da morte profetizada deste «Servo» (cfr Mt 27,30, comparado com Is 50, 6; Mt 8, 17, comparado com Is 53,4; Ioh 1, 38, comparado com Is 53,9-12, etc.).

17. Em Isaías 42, 1-4 fala-se de um servo humilde, amado e escolhido por Deus, em quem Ele Se compraz plenamente. De facto Jesus, sem deixar de ser Filho de Deus e consubstanciai ao Pai, tomou a forma de servo (cfr Phil 2, 6). Esta humildade levou Jesus a curar e a cuidar dos mais pobres e aflitos de Israel, sem nunca pretender clamores de louvor.

18. Veja-se a nota a Mt 3,16.

19. A justiça que anuncia o Servo, cheio do Espírito, não é uma virtude ruidosa. Podemos entrever a amável suavidade de Jesus ao realizar os Seus poderosos milagres, actuando uma justiça humilde. Jesus assim faz triunfar a justiça de Seu Pai, o Seu plano de revelação e salvação, de um modo silencioso e profundo.

20. Segundo muitos Santos Padres, entre eles Santo Agostinho e São Jerônimo, a cana rachada e a torcida que tida fumega referem-se ao povo judaico. Também são figura de qualquer pecador, pois o Senhor não quer a sua morte mas que se converta e viva (cfr Ez 33, 11). Os Evangelhos são um contínuo testemunho desta comovente verdade (cfr Lc 15, 11-32, parábola do filho pródigo; Mt 18,12-24, parábola da ovelha perdida; etc.).

 

22.07.2012 – Mc 6, 30-34

30Entretanto os «apóstolos voltaram a reunir-se com Jesus e contaram-Lhe tudo quanto tinham feito e ensinado. 31E Ele disse-lhes: Vinde vós outros sozinhos para um lugar deserto e descansai um pouco. Eram com efeito muitos os que iam e vinham, e eles nem sequer tinham tempo para comer. 32Partiram, pois, de barco, a sós, para um lugar deserto.

33Viram-nos, porém, partir e muitos perceberam para onde iam; e, por terra, concorreram lá de todas as cidades e chegaram primeiro do que eles. 34Ao desembarcar, viu uma grande multidão e condoeu-Se dela, porque eram como ovelhas sem pastor, e começou a ensinar-lhes muitas coisas.

Comentário

30-31. Vê-se aqui a intensidade do ministério público de Jesus. Era tal a dedicação às almas que, por duas vezes, São Marcos faz notar que inclusivamente lhes faltava o tempo para comer (cfr Mc 3, 20). O cristão deve estar disposto a sacrificar o próprio tempo, e inclusivamente o descanso, para serviço do Evangelho. Esta atitude de disponibilidade levar-nos-á a saber mudar os nossos planos quando o exija o bem das almas.

Mas também ensina aqui Jesus a ter senso comum e não pretender fazer loucamente certos esforços, que excedem absolutamente as nossas forças naturais: «O Senhor faz descansar os Seus discípulos para ensinar aos que governam que aqueles que trabalham por obras ou por palavras não podem trabalhar sem interrupção» (In Marci Evangelium expositio, ad loc.). «Quem se entrega a trabalhar por Cristo não há-de ter um momento livre, porque o descanso não é não fazer nada; é distrair-se em actividades que exigem menos esforço» (Caminho, n.° 357).

34. O Senhor fez planos para descansar algum tempo, juntamente com os Seus discípulos, das absorventes tarefas apostólicas (Mc 6, 31-32). Mas não os pode levar a cabo pela presença de um grande número de gente que acorre a Ele ávida da Sua palavra. Jesus Cristo não só não Se aborrece com eles, mas sente compaixão ao ver a necessidade espiritual que têm. «Morre o Meu povo por falta de doutrina» (Os 4, 6). Necessitam de instrução e o Senhor quer satisfazer esta necessidade por meio da pregação. «A fome e a dor comovem Jesus, mas sobretudo comove-O a ignorância» (Cristo que passa, n.°109).

 

23.07.2012 – Mt 12, 38-42

38Tomaram então a palavra alguns dos Escribas e Fariseus, dizendo: Mestre, queríamos ver-Te fazer um sinal. 39Ele, porém, respondeu-lhes: Esta geração, má e adúltera, pretende um sinal, e não se lhe dará sinal nenhum, senão o sinal do profeta Jonas. 40Pois, assim como Jonas esteve, três dias e três noites, no ventre do cetáceo, assim estará também o Filho do homem, três dias e três noites, no seio da terra. 41Os Ninivitas levantar-se-ão no dia do Juízo com esta geração e condená-la-ão, porque fizeram penitência com a pregação de Jonas. E aqui está algo mais que Jonas. 42A rainha do Meio-Dia erguer-se-á no dia do Juízo com esta geração e condená-la-á, porque veio dos confins da terra, para ouvir a sabedoria de Salomão, e aqui está algo mais do que Salomão.

Comentário

39-40. Este sinal que os judeus pediam pode ter sido um milagre ou outra acção prodigiosa; queriam que Jesus confirmasse com espectáculo o que pregava com simplicidade. Mas o Senhor responde-lhes anunciando o mistério da Sua Morte e Ressurreição, servindo-Se da figura de Jonas. «Não se lhe dará sinal nenhum, senão o sinal do profeta Jonas». Com estas palavras Jesus Cristo mostra que a Sua Ressurreição gloriosa é o «sinal» por excelência, a prova decisiva do caracter divino da Sua pessoa, da Sua missão e da Sua doutrina.

Quando o apóstolo São Paulo (1Cor 15, 3-4) confessa que Jesus Cristo «ressuscitou ao terceiro dia segundo as Escrituras» — com palavras que literalmente passaram para o símbolo Niceno-constantinopolitano, que é o Credo que se recita na Santa Missa —, sem dúvida está a aludir principalmente a este passo. Também vemos outra alusão à figura de Jonas nas palavras do Senhor, pronunciadas pouco antes da Sua Ascensão: «Assim está escrito que o Messias havia de sofrer e ressuscitar dos mortos ao terceiro dia» (Lc 24,45-46).

41-42. Nínive era uma cidade da Mesopotâmia (hoje Iraque), à qual foi enviado o profeta Jonas. Os ninivitas fizeram penitência (Ioh 3, 6-9) porque reconheceram o profeta e aceitaram a sua mensagem. Jerusalém, pelo contrário, não quer reconhecer Jesus, de quem Jonas era apenas figura. A rainha do Meio-dia é a rainha de Sabá, ao sul da Arábia, que visitou Salomão (1Reg 10, 1-10) e ficou maravilhada com a sabedoria que Deus tinha infundido no rei de Israel. Jesus está prefigurado também em Salomão, em quem ã tradição de Israel via o homem sábio por excelência. A censura de Jesus acentua-se com o exemplo de pagãos convertidos, e vislumbra-se a universalidade do cristianismo, que se implantará entre os gentios.

A frase de Jesus «aqui está algo mais que Jonas» e «…mais que Salomão» denota uma certa ironia. Esse «algo mais» na realidade é infinitamente mais, mas Jesus pretere suavizar essa diferença entre Ele e qualquer outro personagem, por muito importante que tivesse sido, do Antigo Testamento.

 

24.07.2012 – Mt 12, 46-50

46Enquanto Ele falava ao povo, estavam fora Sua Mãe e irmãos, procurando falar-Lhe. 47Disse-Lhe alguém: Olha, Tua Mãe e Teus irmãos estão lá fora e querem falar-Te. 48Ele, porém, respondeu ao que Lho disse: Quem é a Minha mãe e quem são os Meus irmãos? 49E, estendendo a mão para os Seus discípulos, disse: Eis a Minha mãe e os Meus irmãos. 50Porque todo aquele que fizer a vontade de Meu Pai que está nos Céus, esse é Meu irmão, e irmã, e mãe.

Comentário

46-47. «Irmãos»: Nos idiomas antigos hebraico, árabe, aramaico, etc., não havia palavras concretas para indicar os graus de parentesco que existem noutros idiomas mais modernos. Em geral, todos os pertencentes a uma mesma família, clã, inclusive tribo, eram «irmãos».

No caso concreto que aqui nos ocupa deve ter-se presente, além disso, que os familiares de Jesus eram parentes de diverso grau e que se trata de dois grupos: uns por parte da Santíssima Virgem, e outros de São José. Mt 13, 55-56 menciona, como a viver em Nazaré, Tiago, José, Simão e Judas «irmãos do Senhor», e alude também a «irmãs» (cfr Mc 6, 3). Por outro lado, Mt 27, 56 diz-nos que destes, Tiago e José são filhos de uma certa Maria, diferente da Virgem, e Simão e Judas não são irmãos de Tiago e José, mas, segundo parece, filhos de um irmão de São José.

Jesus, porém, era para todos «o filho de Maria» (Mc 6, 3) ou «o filho do carpinteiro» (Mt 13, 55).

A Igreja sempre professou com plena certeza que Jesus Cristo não teve irmãos de sangue em sentido próprio: é o dogma da perpétua virgindade de Maria (cfr a nota a Mt 1, 25). 48-50. E evidente o amor de Jesus por Sua mãe Santa Maria e por São José. O Nosso Salvador aproveita este episódio para nos ensinar que no Seu Reino os direitos do sangue não têm primazia. Em Lc 8,19 encontramos a mesma doutrina. O que faz a vontade do Seu Pai Celeste é considerado por Jesus como da Sua própria família. Por isso, mesmo sacrificando os sentimentos naturais da família, deverá abandoná-la quando lho peça o cumprimento da missão que o Pai lhe confiou (cfr Lc 2,49).

Podemos dizer que a própria Virgem Maria é mais amada por Jesus por causa dos laços criados entre ambos pela graça do que em virtude da geração natural, que fez d’Ela Sua Mãe segundo a carne: a maternidade divina é a fonte de todas as outras prerrogativas da Santíssima Virgem; mas esta mesma maternidade é, por sua vez, a primeira e a maior das graças outorgadas a Maria.

 

25.07.2012 – Mt 20, 20-28

20Aproximou-se então d’Ele a mãe dos filhos de Zebedeu, com seus filhos, e prostrou-se por terra para Lhe pedir alguma coisa. 21Disse-lhe Ele: Que queres? E ela: Ordena que estes meus dois filhos se sentem um à Tua direita, outro à Tua esquerda no Teu Reino. 22Respondeu Jesus e disse: Não sabeis o que pedis. Podeis beber o cálice que Eu hei-de beber? Responderam-Lhe: Podemos. 23Diz-lhes Ele: O Meu cálice bebê-lo-eis; agora o sentar-se à Minha direita ou à Minha esquerda, não Me toca a Mim concedê-lo, mas é para quem Meu Pai o tem preparado.

24Ao ouvirem isto, os dez indignaram-se contra os dois irmãos. 25Jesus, porém, chamou-os e disse: Sabeis que os soberanos das nações as tratam como senhores, e os grandes lhes fazem sentir o seu poder. 26Entre vós não é assim. Pelo contrário, o que entre vós quiser ser grande, faça-se vosso servo. 27E quem quiser entre vós ser o primeiro, faça-se vosso escravo. 28Do mesmo modo que o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a Sua vida em redenção por muitos.

Comentário

20. Os filhos de Zebedeu são Tiago Maior e João. A sua mãe, Salomé, pensando na instauração iminente do reino temporal do Messias, solicita para os filhos os dois lugares mais influentes. Cristo repreende-os porque desconhecem a verdadeira natureza do Reino dos Céus, que é espiritual, e porque ignoram a verdadeira natureza do governo na Igreja que ia fundar, que é serviço e martírio. «Se pensas que, ao trabalhar por Cristo, os cargos são algo mais do que cargas, quantas amarguras te esperam!» (Caminho, n.° 950).

22. «Beber o cálice» significa sofrer perseguições e martírio pelo seguimento de Cristo. «Podemos»: Os filhos de Zebedeu responderam audazmente que sim; esta generosa expressão evoca aquela outra que escreveria anos mais tarde São Paulo: «Tudo posso n’Aquele que me conforta» (Phil 4,13).

23. «O Meu cálice bebê-lo-eis»: Tiago Maior morrerá mártir em Jerusalém pelo ano 44 (cfr Act 12,2); e João, depois de ter sofrido cárcere e açoites em Jerusalém (cfr Act 4, 3; 5, 40-41), padecerá longo desterro na ilha de Patmos (cfr Apc 1, 9).

Destas palavras do Senhor deduz-se que o acesso aos lugares de governo na Igreja não deve ser fruto da ambição e das intrigas humanas, mas consequência da vocação divina. Cristo, que tinha os olhos postos em cumprir a Vontade de Seu Pai Celeste, não ia distribuir os cargos levado por considerações humanas, mas segundo os desígnios do Pai.

26. O Concilio Vaticano II insiste de uma maneira notável neste aspecto de serviço que a Igreja oferece ao mundo, e que os cristãos hão-de apresentar como testemunho da sua identidade cristã: «Este sagrado Concilio, proclamando a sublime vocação do homem, e afirmando que nele está depositado um germe divino, oferece ao gênero humano a sincera cooperação da Igreja, a fim de instaurar a fraternidade universal que a esta vocação corresponde. Nenhuma ambição terrena move a Igreja, mas unicamente este objectivo: continuar, sob a direcção do Espírito Consolador, a obra de Cristo que veio ao mundo para dar testemunho da verdade, para salvar e não para julgar, para servir e não para ser servido» (Gaudium et spes, n. 3; cfr Lumen gentium, n. 32; Ad gentes, n. 12; Unitatis redintegratio, n. 7).

27-28. Jesus Cristo apresenta-Se a Si mesmo como exemplo que deve ser imitado por aqueles que exercem a autoridade na Igreja. Ele, que é Deus e Juiz que há-de vir a julgar o mundo (cfr Phil 2,5-11; Ioh 5,22-27; Act 10,42; Mt 28, 18), não Se impõe, mas serve-nos por amor até ao ponto de entregar a vida por nós (cfr Ioh15,1.3): esta é a Sua forma de ser o primeiro. Assim o entendeu São Pedro, que exorta os presbíteros a que apascentem o rebanho de Deus a eles confiado, não como dominadores sobre a herança, mas servindo de exemplo (cfr 1Pet 5, 1-3); e São Paulo, que não estando submetido a ninguém, se faz servo de todos para a todos ganhar (cfr 1Cor 9, 19 ss; 2Cor 4, 5).

O «serviço» de Cristo à humanidade vai encaminhando para a salvação. Com efeito, a frase «dar a vida em redenção por muitos» não deve ser interpretada como uma restrição da vontade salvífica universal de Deus. «Muitos» aqui não se contrapõe a «todos» mas a «um»: Um é o que salva e a todos é oferecida a salvação.

 

26.07.2012 – Mt 13, 10-17

10Aproximaram-se os discípulos e disseram-Lhe: Porque lhes falas em parábolas? 11Ele respondeu-lhes, dizendo: Porque a vós foi dado conhecer os mistérios do Reino dos Céus; àqueles, porém, não lhes foi dado. 12Pois ao que tem, dar-se-lhe-á e terá em abundância; mas, ao que não tem, até o que tem lhe será tirado. 13Por isso, lhes falo em parábolas, porque, vendo, não vêem e, ouvindo, não ouvem nem compreendem. 14E cumpre-se neles a profecia de Isaías, a qual diz: «Ouvireis com os ouvidos e não entendereis, e olhareis com os olhos e não vereis. 15Porque se embotou o coração deste povo: e tomaram duros os ouvidos, e fecharam os olhos, não seja caso que vejam com os olhos, e oiçam com os ouvidos, e entendam com o coração, e se convertam, e Eu os sare.»

16Ditosos, porém, os vossos olhos, porque vêem, e os vossos ouvidos, porque ouvem. 17Porque, em verdade vos digo que muitos profetas e justos desejaram ver o que estais a ver e não viram, e ouvir o que estais a ouvir e não ouviram.

Comentário

10-13. A realidade do Reino que Jesus ia instaurar encontrou de facto uma repulsa no judaísmo do Seu tempo, talvez pela concepção demasiado nacionalista e humana com que esperavam o Messias. Por isso, Jesus na Sua pregação teve em conta as disposições diversas dos Seus ouvintes a que alude na parábola do semeador. Aos que estavam bem dispostos a apresentação enigmática da parábola aumentar-lhes-ia o interesse; Jesus, com efeito, explica depois o significado ao numeroso grupo dos discípulos; pelo contrário, aos que não queriam aprender era inútil explicar mais.

Por outro lado, as parábolas — e em geral qualquer comparação ou analogia — são empregadas para dar a conhecer ou explicar algo que é difícil de compreender, como são as realidades sobrenaturais que Jesus Cristo revela. Assim como é necessário velar a luz do sol pela sua intensa luminosidade, para a acomodar à capacidade visiva do homem, pois caso contrário ficaria cego e não veria nada, de modo semelhante, as parábolas velam algo da realidade sobrenatural, para que possa compreender-se, sem ficar cego quem a contempla.

Estes versículos apresentam, além disso, algo muito profundo: por que é que a revelação de Deus e da Sua graça produzem efeitos tão díspares entre os homens? É o mistério da graça divina — que é um dom gratuito — e da livre correspondência humana a essa graça. As palavras de Jesus revelam com toda a força a responsabilidade que tem o homem de se dispor bem para aceitar a graça de Deus e corresponder a ela. A menção de Isaías feita por Jesus (Mt 13, 14-15) é uma profecia do endurecimento que terão como castigo aqueles que tiverem resistido à graça.

Em qualquer caso, a interpretação destes versículos deve ser feita à luz das três considerações seguintes: 1) Jesus Cristo amou os homens, incluídos os do Seu próprio povo, até dar a vida por todos para os salvar a todos; 2) a forma literária da parábola é de si eficazmente didáctica e esclarecedora: a sua finalidade última é ensinar, não enganar nem obscurecer; 3) o desprezo da graça divina é algo culpável que, na verdade, merece castigo; Jesus, porém, não veio directamente para castigar, mas para salvar.

12. O Senhor está a falar com os Seus discípulos e explica-lhes que a eles, justamente porque têm fé n’Ele e desejam conhecer mais a fundo a Sua doutrina, lhes será dado um conhecimento mais profundo das verdades divinas. Mas os que «não O seguem» (cfr a nota a Mt 4,18-22) depois de O terem conhecido perdem o interesse pelas coisas de Deus, estarão cada dia mais cegos, e é como se lhes fosse tirado o pouco que tinham.

Por outro lado, o versículo ajuda a entender o sentido da parábola do semeador, parábola que explica admiravelmente a economia sobrenatural da graça divina: Deus concede a graça e o homem corresponde a ela livremente. Deste modo acontece que há aqueles que ao corresponder com generosidade recebem nova graça, chegando assim a abundar cada dia mais em graça e santidade. Pelo contrário, aqueles que rejeitam os dons divinos fecham-se em si mesmos e, vivendo no egoísmo e afecto ao pecado, chegam a perder a graça de Deus totalmente. É, pois, este versículo uma advertência clara e grave de Nosso Senhor, pela qual, com todo o peso da Sua autoridade divina, nos exorta — sem nos tirar a nossa liberdade — à responsabilidade de sermos fiéis: devemos fazer frutificar os dons que Deus nos vai enviando e aproveitar as ocasiões de santificação cristã que nos são oferecidas ao longo da nossa vida.

14-15. Compreendem as palavras divinas apenas os que têm boas disposições. Não basta a materialidade de as ouvir. Durante a pregação de Jesus Cristo voltam a cumprir-se as antigas palavras proféticas de Isaías.

Mas não pensemos que o não querer ouvir nem ver nem compreender foi coisa exclusiva daqueles homens contemporâneos de Jesus; cada um de nós também tem as suas durezas de ouvido, de coração e de entendimento perante a palavra de Deus, perante a Sua graça. Além disso, não basta saber a doutrina da fé: é absolutamente necessário vivê-la com todas as suas exigências morais e ascéticas. Jesus foi cravado no madeiro não só pelos pregos e pelos pecados de alguns judeus, mas também pelos nossos pecados, que íamos cometer séculos depois, mas que já actuavam sobre a Humanidade santíssima de Jesus Cristo, que carregava com os nossos pecados (cfr a nota a Mc 4,11-12).

16-17. Perante a obstinação de muitos judeus, que presenciando a vida de Jesus não creram n’Ele, Nosso Senhor louva a docilidade à graça dos discípulos, abertos a reconhecê-Lo como o Messias e a acolher os Seus ensinamentos.

Bem-aventurados, felizes, chama o Senhor aos Seus discípulos. Com efeito, os profetas e justos do AT, durante séculos, tinham vivido com a esperança de gozar um dia da paz do Messias vindouro, mas morreram sem alcançar essa dita na terra. O velho Simeão, no termo da sua vida. encheu-se de gozo ao contemplar Jesus Menino que era apresentado no Templo: «Ele recebeu-O nos braços e bendisse a Deus, exclamando: Agora, Senhor, podes despedir o Teu servo em paz segundo a Tua palavra, porque os meus olhos viram a Salvação» (Lc 2, 28-30). Os discípulos, que durante a vida pública do Senhor tiveram a dita de O ver e de conviver com Ele, recordarão, ao cabo dos anos, este dom inenarrável, e um deles começará assim a sua primeira carta: «O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos e tocaram as nossas mãos acerca do Verbo da vida;… o que vimos e ouvimos vo-lo anunciamos a vós, para que tenhais também comunhão connosco, pois a nossa comunhão é com o Pai e com o Seu Filho Jesus Cristo. Escrevemo-vos isto para que a vossa alegria seja completa» (Ioh 1,1-4).

Essa sorte singular não dependeu, evidentemente, de especiais méritos pessoais, mas dos desígnios de Deus, que considerou oportuno ter chegado já o tempo do cumprimento das promessas do AT. De qualquer modo, Deus concede a cada alma as suas oportunidades de encontro com Cristo: cada um de nós há-de ter sensibilidade para as captar e não as deixar escapar. Também houve muitos homens e mulheres da Palestina que viram e ouviram o Filho de Deus Encarnado, mas não tiveram finura espiritual para captar n’Ele o que perceberam os Apóstolos e discípulos.

 

27.07.2012 – Mt 13, 18-23

18Vós, pois, ouvi a parábola do semeador. 19Todo aquele que ouve a palavra do Reino e não a entende: vem o Maligno e arrebata a semente lançada no seu coração. Este é a semente que foi semeada ao longo do caminho. 20A que foi semeada em terreno pedregoso, essa é aquele que ouve a palavra e logo a recebe com alegria. 21Mas não tem raiz em si mesmo, senão que é volúvel e, apenas sobrevém alguma tribulação ou perseguição, por causa da palavra, logo se escandaliza. 22E a que foi semeada entre os espinhos essa é aquele que ouve a palavra, mas os cuidados do século e a fascinação das riquezas sufocam-na, e não produz fruto. 23E a que foi semeada em terra boa, essa é aquele que ouve a palavra e a entende: o qual, por isso mesmo, dá fruto produzindo, ora cem, ora sessenta, ora trinta.

Comentário

19. Não compreende porque lhe falta amor, não por falta de inteligência; essa disposição abre a porta da alma ao diabo.

 

28.07.2012 – Mt 13, 24-30

24Outra parábola lhes propôs, dizendo: O Reino dos Céus é semelhante a um homem que semeou boa semente no seu campo. 25Enquanto todos dormiam, veio o seu inimigo, sobressemeou joio no meio do trigo e foi-se embora. 26Quando, porém, cresceu a erva e espigou, apareceu também o joio. 27Os servos foram ter com o patrão e disseram-lhe: «Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde, pois, lhe veio o joio?». 28Respondeu-lhes ele: «Foi um inimigo que o fez». Disseram-lhe os servos: «Queres que vamos arrancá-lo?». 29Respondeu: «Não; não seja caso que, ao apanhardes o joio, arranqueis juntamente com ele o trigo. 30peixai crescer um e outro até à ceifa, e, na altura da ceifa, direi aos ceifeiros: Apanhai primeiro o joio e atai-o em molhos, para ser queimado; mas o trigo, recolhei-o no meu celeiro».

Comentário

24-25. «Está claro: o campo é fértil e a semente é boa; o Senhor do campo lançou às mãos cheias a semente no momento propício e com arte consumada; além disso, preparou toda uma vigilância para proteger a recente sementeira. Se depois apareceu o joio, é porque não houve correspondência, já que os homens — os cristãos especialmente — adormeceram e permitiram que o inimigo se aproximasse» (Cristo que passa, n.° 123).

25. O joio é uma planta muito parecida com o trigo, com o qual facilmente se confunde antes de brotar a espiga. Misturada com farinha boa contamina o pão e produz graves náuseas e enjoos. Semear joio entre o trigo era um caso de vingança pessoal, que se deu não poucas vezes no Oriente. O Direito Romano previa-o e castigava-o (Digesto, IX, 2).

28. «Quando os servidores irresponsáveis perguntam ao Senhor porque cresceu o joio no seu campo, a explicação salta aos olhos: inimicus homo hoc fecit, foi o inimigo! Nós, os cristãos, que devíamos estar vigilantes para que as coisas boas, postas pelo Criador no mundo, se desenvolvessem ao serviço da verdade e do bem, adormecemos — triste preguiça, esse sono! — enquanto o inimigo e todos os que o servem se moviam sem descanso. Bem vedes como cresceu o joio: que sementeira tão abundante espalhada por todos os sítios!» (Cristo que passa, n.° 123).

29-30. O fim da parábola do joio explica em figura a misteriosa permissão provisória do mal por parte de Deus e a sua extirpação definitiva. O primeiro está a dar-se na terra até ao fim dos tempos. Por isso não nos deve escandalizar a existência do mal neste mundo. O segundo não se dá nesta terra, mas depois da morte; pelo juízo (a sega) uns irão para o céu e outros para o inferno.

 

29.07.2012 – Jo 6, 1-15

Depois disto, retirou-Se Jesus para outro lado do Mar da Galileia. ou de Tiberiade. 2Seguia-O numerosa multidão, por ver os milagres que fazia nos enfermos. 3Jesus subiu ao monte e lá Se sentou com os discípulos. 4Estava próxima a Páscoa, a festa dos Judeus. 5Erguendo então os olhos e vendo que vinha ter com Ele numerosa multidão, Jesus diz a Filipe: Onde havemos de comprar pão para eles comerem? 6Dizia isto para o experimentar, pois bem sabia o que ia fazer. 7Respondeu-Lhe Filipe: Não lhes chegam duzentos denários de pão, para receber cada qual um poucochinho. 8Disse-Lhe um dos discípulos, André, irmão de Simão Pedro: 9Está aqui um pequeno que tem cinco pães de cevada e dois peixinhos; mas que é isso para tanta gente? 10Jesus, porém, respondeu: Fazei com que eles se recostem. Ora havia muita erva no local. Recostaram-se, pois, os homens, em número de cerca de cinco mil. 11Então, Jesus tomou os pães, e, depois de dar graças, distribuiu-os aos convivas; e o mesmo fez dos peixes, tanto quanto lhes apetecia. 12Quando ficaram saciados, disse aos discípulos: Recolhei os pedaços que sobraram, para que nada se perca. 13Recolheram-nos, pois, e encheram doze cestos de pedaços dos cinco pães de cevada, que haviam sobrado aos que tinham estado a comer.

14Ao verem aqueles homens o milagre que Ele fizera, começaram a dizer: Este é, na verdade, o Profeta que está para vir ao mundo. 15Mas Jesus, percebendo que viriam arrebatá-Lo, para O fazerem rei, retirou-Se novamente, sozinho para o monte.

Comentário

1. Refere-se ao segundo lago formado pelo Jordão. Nos Evangelhos costuma chamar-se-lhe umas vezes «Lago de Genesaré» (Lc 5,1), pela localidade do mesmo nome situada na margem Noroeste do lago; outras, «Mar da Galileia» (Mt4,18; 15,29; Mc 1,16; 7,31), pelo nome da região em que se encontra. São João chama-lhe também «Mar de Tiberíades» (cfr 21,1), devido à cidade desse nome fundada por Herodes Antipas em honra do imperador Tibério. No tempo de Jesus Cristo havia à volta deste lago várias cidades: Tiberíades, Magdala, Cafarnaum, Betsaida, etc.; as suas margens foram com frequência cenário da pregação do Senhor.

2. Ainda que São João não refira mais que sete milagres e não mencione outros que narram os Sinópticos, neste versículo, e mais expressamente no fim do seu Evangelho (20,30; 21,25), diz que foram muitos os milagres realizados pelo Senhor; a selecção desses sete é devida a que o Evangelista, querendo mostrar algumas facetas do mistério de Cristo, escolhe — inspirado por Deus — aqueles que estão mais em harmonia com o seu propósito. Narra agora o milagre da multiplicação dos pães e dos peixes, que está em relação directa com os discursos de Cafarnaum, em que Jesus Se apresenta a Si mesmo como «o pão da vida» (6,35.48).

4. O Evangelho de São João costuma mencionar as festas judaicas quando refere muitos dos acontecimentos do ministério público do Senhor. Aqui estamos diante de um destes casos (cfr Duração do Ministério Público, pp. 81 s.; Introdução ao Evangelho segundo São João, pp. 1088 s.). Pouco antes desta Páscoa, Jesus realiza o milagre da multiplicação dos pães e dos peixes, prefigurando a Páscoa cristã e o mistério da Santíssima Eucaristia, como Ele próprio explica no discurso que começa no v. 26, onde promete dar-Se como alimento da nossa alma.

5-9. Jesus é sensível às necessidades espirituais e materiais dos homens. Aqui vemo-Lo a tomar a iniciativa para satisfazer a fome daquela multidão que O segue.

Com estes diálogos e o milagre que vai realizar, Jesus ensina também aos Seus discípulos a confiar n’Ele perante as dificuldades que encontrarão nas suas futuras tarefas apostólicas, empreendendo-as com os meios que tiverem, ainda que sejam insuficientes, como neste caso o eram os cinco pães e os dois peixes. Ele entrará com o que falta. Na vida cristã há que pôr ao serviço do Senhor o que temos, ainda que nos pareça muito pouco. O Senhor saberá multiplicar a eficácia desses meios tão insignificantes.

«Tenhamos, pois, Fé, sem permitir que o desalento nos domine; sem nos determos em cálculos meramente humanos. Para superar os obstáculos, há que começar a trabalhar, metendo-nos em cheio nessa tarefa, de maneira que o nosso próprio esforço nos leve a abrir novos caminhos» (Cristo que passa, n.° 160).

10. O Evangelista transmite um pormenor à primeira vista intranscendente: «Naquele lugar havia muita erva». Isto indica que o milagre aconteceu em plena Primavera da Palestina, em dias muito próximos da Páscoa, como disse no v. 4. Ainda que na Palestina sejam muito escassos os prados, existe, mesmo hoje, uma verdadeira pradaria na margem oriental do lago de Genesaré, chamada el-Batihah, onde podiam sentar-se os cinco mil homens e onde, portanto, pode ter-se verificado este milagre.

11. O relato do milagre começa quase com as mesmas palavras com que os Sinópticos e São Paulo narram a instituição da Eucaristia (cfr Mt 26,26; Mc 14,22; Lc 22,19; 1Cor 11,25). Tal coincidência indica que o milagre, além de ser uma manifestação da misericórdia de Jesus para com os necessitados, é figura da Santíssima Eucaristia, da qual o Senhor falará pouco depois (cfr Ioh 6,26-59).

12-13. A abundância de pormenores reflecte o realismo da narração: o nome dos Apóstolos que falam com o Senhor (vv 5.8), a espécie dos pães que eram de cevada (v. 9), o rapaz que levava essas provisões (v. 9) e, por último, Jesus que manda recolher os pedaços.

O milagre denota o poder divino de Jesus sobre a matéria, e a liberalidade com que o realiza evoca a abundância dos bens messiânicos que os profetas tinham predito (cfr. ler 31,14).

O mandato de recolher os pedaços que sobram ensina que os bens materiais, por serem dons de Deus, não se devem desperdiçar, mas hão-de ser usados com espírito de pobreza (cfr a nota a Mc 6,42). Neste sentido explica Paulo VI que «depois de ter alimentado com liberalidade a multidão, o Senhor recomenda aos Seus discípulos que recolham o que sobrou para que nada se perca (cfr Ioh 6,12). Que formosa lição de economia, no sentido mais nobre e mais pleno da palavra, para a nossa época dominada pelo esbanjamento! Além disso, leva consigo a condenação de toda uma concepção da sociedade em que até o próprio consumo tende a converter-se no seu próprio bem, desprezando os que se veem necessitados e em detrimento, em última análise, dos que julgam ser os seus beneficiários, incapazes já de perceber que o homem é chamado a um destino mais alto» (Discurso aos participantes na Conferência mundial da Alimentação, 9-XI-1974).

14-15. A fé que o milagre suscita naqueles homens é ainda muito imperfeita: reconhecem-No como o Messias prometido no Antigo Testamento (cfr Dt 18,15), mas pensam num messianismo terreno e nacionalista, querem fazê-Lo rei porque consideram que o Messias os há-de livrar da dominação romana.

O Senhor, que mais adiante (vv 26-27) explicará o verdadeiro sentido da multiplicação dos pães e dos peixes, limita-Se a fugir daquele lugar, para evitar uma proclamação popular alheia à Sua verdadeira missão. No diálogo com Pilatos (cfr Ioh 18,36) explicará que o Seu Reino «não é deste mundo».

«Os Evangelhos mostram claramente como para Jesus era uma tentação o que alterasse a Sua missão de Servidor de Yahwéh (cfr Mt 4,8; Lc 4,5). Não aceita a posição daqueles que misturavam as coisas de Deus com atitudes meramente políticas (cfr Mt 22,21; Mc 12,17; Ioh18,36) (…). A perspectiva da Sua missão é muito mais profunda. Consiste na salvação integral por um amor transformante, pacificador, de perdão e de reconciliação. Não há dúvida, por outro lado, que tudo isto é muito exigente para a atitude do cristão que quer servir de verdade os irmãos mais pequenos, os pobres, os necessitados, os marginalizados; numa palavra, todos os que reflectem nas suas vidas o rosto dorido do Senhor (cfr Lumen gentium, n. 8)» (Discurso episcopado latinoamericano. n.° 1,4).

Não se pode, pois, confundir o cristianismo com uma ideologia social ou política, por mais nobre que seja. «Não penso na tarefa dos cristãos na Terra como o nascer duma corrente político-religiosa — seria uma loucura — nem mesmo com o bom propósito de difundir o espírito de Cristo em todas as actividades dos homens. O que é preciso é pôr em Deus o coração de cada um, seja ele quem for. Procuremos falar a todos os cristãos, para que no lugar onde estiverem (…) saibam dar testemunho, com o exemplo e com a palavra, da fé que professam.

«Q cristão vive no mundo com pleno direito, por ser homem. Se aceita que no seu coração habite Cristo, que reine Cristo, em todo o seu trabalho humano encontrar-se-á — bem forte — a eficácia salvadora do Senhor» (Cristo que passa, n.° 183).

 

30.07.2012 – Mt 13, 31-35

31Outra parábola lhes propôs, dizendo: É semelhante o Reino dos Céus a um grão de mostarda que um homem tomou e semeou no seu campo, 32o qual é a mais pequenina de todas as sementes, mas, em crescendo, é maior que as hortaliças e faz-se árvore, de modo que as aves do céu vêm poisar nos seus ramos.

33Expôs-lhes ainda outra parábola: O Reino dos Céus é semelhante ao fermento, que uma mulher tomou e meteu em três medidas de farinha, até que a fermentou toda.

34Todas estas coisas disse Jesus à multidão em parábolas e, sem parábolas, não lhe falava, 35para se cumprir o que fora anunciado pelo profeta, que disse: «abrirei, em parábolas, a minha boca; proferirei coisas ocultas desde o princípio do mundo».

Comentário

31-32. O homem é Jesus Cristo; o campo, o mundo. O grão de mostarda entende-se da pregação do Evangelho e da Igreja: com uns princípios muito pequenos chega a estender-se por todo o mundo. A parábola alude evidentemente à universalidade e ao crescimento do Reino de Deus: a Igreja, que acolhe todos os homens de qualquer classe e condição e em todas as latitudes e tempos, desenvolve-se constantemente, apesar das contrariedades, em virtude da promessa e assistência divinas.

33. A imagem é tomada agora de uma experiência quotidiana: assim como o fermento vai pouco a pouco fermentando e assimilando toda a massa, da mesma maneira a Igreja vai convertendo todos os povos.

O fermento é também figura do cristão. Vivendo no meio do mundo, sem se desnaturalizar, o cristão conquista com o seu exemplo e com a sua palavra as almas para o Senhor. «A nossa vocação de filhos de Deus, no meio do mundo, exige-nos que não procuremos apenas a nossa santidade pessoal, mas que vamos pelos caminhos da Terra, para convertê-los em atalhos que, através dos obstáculos, levem as almas ao Senhor; que participemos, como cidadãos normais e correntes, em todas as actividades temporais, para sermos levedura que há-de fermentar toda a massa» (Cristo que passa, n.° 120).

34-35. A Revelação, os planos de Deus, ocultam-se (cfr Mt 11,25) aos que não estão bem dispostos para os receber. O Evangelista quer sublinhar a necessidade de ser simples e dóceis ao Evangelho. Ao evocar o Salmo 78, 2 ensina-nos outra vez, sob a luz da inspiração divina, que na pregação do Senhor se cumprem as profecias do Antigo Testamento.

 

31.07.2012 – Mt 13, 36-43

36Então, despedidas as turbas, voltou para casa, e os discípulos acercaram-se d’Ele e disseram: Explica-nos a parábola do joio do campo. 37Respondeu Ele: O que semeia a boa semente é o Filho do homem. 38O campo é o mundo. A boa semente são os filhos do Reino. O joio são os filhos do Maligno. 39O inimigo que a semeou é o Demônio. A ceifa é o fim do mundo, e os ceifeiros são os Anjos. 40Assim, pois, como se apanha o joio e se queima no fogo, assim será no fim do mundo. 41Enviará o Filho do homem os Seus Anjos, que apanharão do Seu Reino todos os escândalos e os que praticam a iniquidade, 42e lançá-los-ão na fornalha do fogo. Aí haverá choro e ranger de dentes. 43Então os justos brilharão como o Sol no Reino de Seu Pai. Quem tem ouvidos, oiça.

Comentário

36-43. A Igreja, enquanto caminha na terra, está integrada por bons e maus, por justos e pecadores. Todos viverão misturados uns com os outros até ao tempo da sega, o fim do mundo, quando o Filho do Homem, Jesus Cristo, constituído Juiz de vivos e mortos separará os bons dos maus no Juízo Final: aqueles para a glória eterna — herança exclusiva dos santos —; os maus, pelo contrário, para o fogo eterno do inferno. Ainda que agora os justos e os pecadores permaneçam juntos, a Igreja tem o direito e o dever de excluir os escandalosos, especialmente os que atentam contra a sua doutrina e unidade; pode fazê-lo mediante a excomunhão eclesiástica e as penas canônicas. Contudo, a excomunhão tem um fim medicinal e pastoral: a correcção do que se obstina no erro e a preservação dos outros.