Evangelho do dia – mês de janeiro de 2017

01.01.2017 – Lc 2, 16-21

16Foram, pressurosos, è encontraram Maria, José e o Menino deitado na manjedoira. 17E, ao verem isto, deram a conhecer o que lhes tinham dito daquele Menino. 18Todos os que ouviram ficaram admirados do que os pastores lhes contaram. 19Maria, por seu turno, conservava todas estas palavras, ponderando-as no seu espí­rito.

20E os pastores voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham visto e ouvido, conforme lhes fora anunciado.

21Quando se completaram oito dias para O circuncidarem, deram-Lhe o nome de Jesus, indicado pelo Anjo antes de Ele ter sido concebido no seio materno.

Comentário

  1. A pressa dos pastores é fruto da sua alegria e do seu afã por ver o Salvador. Comenta Santo Ambrósio: «Ninguém busca Cristo preguiçosamente» (Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc.). O Evangelista já observou antes que Nossa Senhora, depois da Anunciação, se apressurou a visitar Santa Isabel (Lc l ,39). A alma que deu entrada a Deus no seu coração vive com alegria a visita do Senhor e esta alegria dá asas à sua vida.
  2. Em breves palavras este versículo diz muito de Maria Santíssima. Apresenta-no-la serena e contemplativa diante das maravilhas que se estavam a cumprir no nasci­mento do seu divino Filho. Maria penetra-ás com olhar profundo, pondera-as e guarda-as no silêncio da sua alma. Maria Santíssima, mestra de oração! Se a imitarmos, se guardarmos e ponderarmos nos nossos corações o que ouvimos de Jesus e o que Ele faz em nós, estamos a caminho da santidade cristã e não faltará na nossa vida nem a doutrina do Senhor nem a Sua graça. Por outro lado, meditando deste modo os ensinamentos que recebemos de Jesus, vamos aprofundando no mistério de Cristo, e assim «a Tradição apostólica progride na Igreja sob a assistência do Espírito Santo. Com efeito, progride a percepção tanto das coisas como das palavras transmitidas, quer mercê da contemplação e estudo dos crentes, que as meditam no seu coração, quer mercê da íntima inteligência que experi­mentam das coisas espirituais, quer mercê da pregação daqueles que, com a sucessão do episcopado, receberam o carisma da verdade» (Dei Verbum, n. 8).
  3. Acerca do significado e do rito da circuncisão, cfr a nota a Lc 1,59. «Jesus» significa «Yahwéh salva» ou «Yahwéh e salvação», isto é, Salvador. Este nome foi imposto ao Menino não por disposição humana, mas para cumprir o que o arcanjo tinha ordenado da parte de Deus à Santíssima Virgem e a São José (cfr Lc 1,31; Mt 1,21).

O fim da Encarnação do Filho de Deus foi a Redenção e a Salvação de todos os homens, e daí que, com razão, se Lhe tenha chamado Jesus, Salvador. Assim o confessamos no Credo: «Que por nós homens e para a nossa salvação, desceu do Céu». «Certamente, houve muitos com este nome (…). Mas, com quanta mais verdade entenderemos que deve ser chamado com este nome o Salvador? Ele, com efeito, trouxe a vida, a liberdade e a salvação eterna não a um povo qualquer, mas a todos os homens de todos os tempos; não em verdade oprimidos pela fome ou pelo domínio dos egípcios ou dos babilônios, mas assentados na sombra da morte e subjugados com as duríssimas cadeias do pecado e do demô­nio» (Catecismo Romano, I, 3,5).

 

02.01.2017 – Jo 1, 19-28

19Foi este o testemunho de João, quando os Judeus lhe enviaram, de Jerusalém, sacerdotes e levitas, para lhe perguntarem: Tu quem és? 20Ele confessou e não negou: Eu não sou o Messias — confessou. 21Quem és então? — perguntaram:lhe. — És Elias? Não sou — respondeu ele. És o Profeta? Ele retorquiu: Não! 22Disseram-lhe então: Quem és tu?… É para darmos resposta aos que nos enviaram: Que dizes de ti mesmo? 23Ele declarou:

Sou a voz de um que brada no deserto: «Endireitai o caminho do Senhor», como disse o profeta Isaías.

24Tinham sido enviados alguns dos Fari­seus. 25Interrogaram-no eles, nestes termos: Então porque é que baptizas, se não és o Messias, nem Elias, nem o Profeta? 26Res­pondeu-lhes João, dizendo: Eu baptizo em água; mas no meio de vós se encontra quem vós não conheceis,27Aquele que vem depois de mim; a quem eu não sou digno de desatar as correias das sandálias. 28Deram-se estes factos em Betânia, além-Jordão, onde João estava a baptizar.

Comentário

19-24. Num ambiente de intensa expectativa messiâ­nica, o Baptista aparece como uma figura rodeada de um prestígio extraordinário; prova disso é que as autoridades judaicas enviam personagens qualificadas (sacerdotes e levitas de Jerusalém) a perguntar-lhe se é o Messias.

Chama a atenção a grande humildade de João: adianta-se aos seus interlocutores afirmando: «Não sou o Cristo». Considera-se tão pequeno diante do Senhor que dirá: «Não sou digno de desatar a correia das Suas sandálias» (v. 27). Toda a fama de que desfrutava põe-na ao serviço da sua missão de Precursor do Messias e, com esquecimento total de si mesmo, afirma que «é necessário que Ele cresça e que eu diminua» (Ioh 3,30).

25-26. «Baptizar»: Significava originariamente sub­mergir na água, banhar. O rito da imersão exprimia entre os Judeus a purificação legal daqueles que tivessem contraído alguma impureza prevista pela Lei. Existia também o baptismo dos prosélitos, que era um dos ritos de incorporação dos gentios no povo judeu. Nos manuscritos do Mar Morto fala-se de um baptismo como rito de iniciação e purificação dos adeptos à seita judaica de Qumrán, que existia em tempos de Nosso Senhor.

O baptismo de João tinha um marcado caracter de con­versão interior. As palavras de exortação que pronunciava o Baptista e o reconhecimento humilde dos pecados por parte dos que acorriam a ele dispunham para receber a graça de Cristo. O baptismo de João constituía, pois, um rito de penitência muito apto para preparar o povo para a vinda do Messias, cumprindo-se com isso as profecias que falavam precisamente de uma purificação pela água perante o advento do Reino de Deus nos tempos messiânicos (cfr Zach ;13,1; Ez 36,25; 37,23; ler 4,14). O baptismo de João, todavia, não tinha poder para limpar a alma dos pecados, como faz o Baptismo cristão (cfr Mt 3,11; Mc 1,4). , «Quem vós não conheceis»: Com efeito, Jesus ainda não Se tinha manifestado publicamente como o Messias e Filho de Deus; ainda que alguns O conhecessem enquanto homem, São João Baptista pode afirmar que realmente não O conhe­ciam.

  1. O Baptista declara a primazia de Cristo sobre ele por meio da comparação do escravo que desata a correia das sandálias do seu senhor. Para nos aproximarmos de Cristo, que João anuncia, é preciso imitar o Baptista. Como diz Santo Agostinho: «Entenderá estas palavras quem imite a humildade do Precursor… O mérito maior de João é, meus irmãos, este acto de humildade» (In Ioann. Evang., 4,7).
  2. Refere-se à cidade de Betânia que estava situada na margem oriental do Jordão, em frente de Jerico, diferente da Betânia onde vivia a família de Lázaro, próximo de Jeru­salém (cfr Ioh 11,18).

 

03.01.2017 – Jo 1, 29-34

29No dia seguinte, vê este a Jesus, que vinha ter com ele, e diz: Aí está o Cordeiro de Deus, que vai tirar o pecado do mundo. 30Era d’Este que eu dizia: «Depois de mim vem um homem que passou à minha frente, por­que era antes de mim». 31E eu não O conhe­cia; mas para Ele Se manifestar a Israel é que eu vim baptizar em água.

32João deu mais este testemunho: Eu vi o Espírito que descia do Céu, como uma pomba e permaneceu sobre Ele. 33E eu não O conhe­cia, mas quem me enviou a baptizar em água é que me disse: «Aquele sobre quem vires o Espírito descer e permanecer é que baptiza no Espírito Santo». 34Ora eu vi e sou testemunha de que Ele é o Filho de Deus.

Comentário

  1. Pela primeira vez no Evangelho se chama a Cristo «Cordeiro de Deus». Este nome alude ao sacrifício redentor de Cristo. Já Isaías tinha comparado os sofrimentos do Servo de Yahwéh, do Messias, com o sacrifício de um cordeiro (cfr Is 53,7); por outro lado, o sangue do cordeiro pascal, aspergido sobre as portas das casas, tinha servido para livrar da morte os primogênitos dos israelitas no Egipto (cfr Ex 12,6-7). Tudo isso era promessa e figura do verdadeiro Cordeiro, Cristo, vítima no sacrifício do Calvário em favor de toda a humanidade. Por isto. São Paulo dirá que «o nosso Cordeiro pascal, Cristo, foi imolado» (l Cor 5,7). A expressão «Cordeiro de Deus» indica também a inocência imaculada do Redentor (cfr 1Pet 1,18-20; 1Ioh 3,5).

O texto sagrado diz «o pecado do mundo», no singular, para manifestar de modo absoluto que tirou todo o gênero de pecados. Cristo, na verdade, veio livrar-nos do pecado original, que em Adão atingiu todos os homens, e de todos os pecados pessoais.

O livro do Apocalipse revela-nos que Jesus está triunfante e glorioso nos Céus como o «Cordeiro imolado» (Apc 5,6-14), rodeado dos santos, dos mártires e das virgens (Apc 7, 9.14; 14,1-5), dos quais recebe louvor e glória por ser Deus (Apc 7,10).

Sendo a Sagrada Comunhão a participação no Sacrifício de Cristo, os sacerdotes pronunciam estas palavras do Baptista antes de administrar a Sagrada Comunhão, para suscitar nos fiéis o agradecimento ao Senhor por Se ter entregado à morte para nossa salvação e por Se nos dar como alimento das nossas almas.

30-31. João Baptista declara aqui a superioridade de Jesus ao dizer que Ele existia já antes dele, apesar de ter nascido depois. Mostra assim a divindade de Cristo, gerado pelo Pai desde toda a eternidade e nascido de Maria Virgem no tempo. Ê como se o Baptista dissesse: «Embora eu tenha nascido antes d’Ele, a Ele não O limitam os laços do Seu nascimento; porque mesmo quando nasce de Sua Mãe no tempo, foi gerado pelo Pai fora do tempo» (In Evangelia homiliae, 7).

Com as palavras do v. 31 o Precursor não pretende negar o conhecimento pessoal que tinha de Jesus (cfr Lc 1,36 e Mt 3,14), mas manifestar que conheceu por revelação divina o momento de proclamar publicamente a condição do Senhor como Messias e Filho de Deus, e que compreendeu também que a sua própria missão de Precursor não tinha outra finalidade a não ser dar testemunho de Jesus Cristo.

32-34, Para confirmar a divindade de Jesus Cristo, o evangelista recolhe o testemunho do Precursor sobre o Baptismo de Jesus (vejam-se os outros Evangelhos que descrevem com mais pormenor como aconteceu o Baptismo, cfr Mt 3,13-17 e par.). É um dos momentos cume da vida do Senhor em que se revela o mistério da Santíssima Trindade (cfr a nota a Mt 3,16).

A pomba é símbolo do Espírito Santo, de quem se diz no Gen 1,2 que revoava sobre as águas. Com este sinal cum­prem-se as profecias de Is 11,2-5; 42,1-2, segundo as quais o Messias estaria cheio da força do Espírito Santo. O Baptista manifesta a grande diferença entre o seu- baptismo e o de Cristo; em Ioh 3, Jesus falará deste novo Baptismo na água e no Espírito (cfr Act 1,5; Tit 3,5).

«O Filho de Deus»: E de notar que a expressão tem artigo no texto original, o que quer dizer que João Baptista confessa diante dos seus ouvintes o caracter sobrenatural e transcendente do messianismo de Cristo, tão distante da idéia político-religiosa que tinham forjado os dirigentes do judaísmo.

 

04.01.2017 – Jo 1, 35-42

35No dia seguinte, novamente se encontrava ali João com dois dos seus discípulos. 36Fitando o olhar em Jesus, que passava, põe-se a dizer: Aí está o Cordeiro de Deus. 37Ora os dois discípulos ouviram-no dizer isto e seguiram a Jesus. 38Voltando-Se Jesus e vendo que eles O seguiam, disse-lhes: Que procurais? Eles responderam: Rabi — que quer dizer Mestre — onde ficas? 39Vinde ver — respondeu-lhes. Foram, pois, ver onde ficava e permaneceram nesse dia junto d’Ele. Era por volta da hora décima.

40André, irmão de Simão Pedro, era um dos dois que tinham ouvido a João e seguido a Jesus. 41Encontra ele primeiro a Simão, seu irmão, e diz-lhe: Encontramos o Messias— que quer dizer Ungido. 42E levou-o a Jesus. Fitando nele o olhar, disse Jesus: Tu és Simão, filho de João; hás-de chamar-te Kefá — que quer dizer Pedro.

Comentário

35-39. Depois das palavras do Baptista, estes dois discí­pulos, movidos interiormente pela graça, aproximaram-se do Senhor. O testemunho de João é um exemplo das graças especiais que Deus outorga para atrair os Seus. Às vezes dirige um chamamento directo e pessoal que move inte­riormente as almas e as convida ao Seu seguimento; outras vezes, como neste caso, quer servir-Se de alguém que está ao nosso lado, que nos conhece e nos situa perante Cristo.

Nos dois discípulos existia já o desejo de ver o Messias; as palavras de João movem-nos a buscar a amizade com o Senhor: não é o interesse meramente humano, mas a perso­nalidade de Cristo que os atrai. Querem conhecê-Lo, ter intimidade com Ele, ser doutrinados por Ele e gozar da Sua companhia. «Vinde e vereis» (l ,39; cfr 11,34): doce convite a iniciar a familiaridade amistosa que buscavam. Necessi­tariam de tempo e de convívio pessoal com Cristo para se assegurarem mais na sua vocação. O apóstolo.São João, um dos protagonistas desta cena, registra o momento em que teve lugar tal episódio: «Era por volta da hora décima», as quatro da tarde aproximadamente.

A fé cristã não se reduz a uma mera curiosidade intelec­tual, mas é toda uma vida que não compreenderá quem realmente não a viva; por isso o Senhor não lhes explica de momento qual é o Seu modo de vida, mas convida-os a que convivam com Ele um dia. São Tomás de Aquino comenta este passo dizendo que o Senhor fala de um modo elevado e místico, porque o que Deus é na Sua glória ou na Sua graça não se pode saber senão por experiência, pois as palavras não conseguem explicá-lo. A esse conhecimento chega-se pelas boas obras (ao convite de Cristo obedeceram imediata­mente, e, como prêmio, «viram»), pelo recolhimento e apli­cação da mente à contemplação das coisas divinas, pelo querer saborear a doçura de Deus, pela assiduidade na oração. A tudo isto convidou o Senhor quando disse «vinde e vereis», e tudo isso puderam alcançá-lo os discípulos quando, prestando atenção ao Senhor, etectivamente «foram» e puderam conhecer por experiência pessoal o que só com as palavras não teriam podido entender (cfr Comentário sobre S. João, ad loc.).

40-41. O Evangelista indica-nos agora o nome de um dos dois discípulos que tinham protagonizado a cena an­terior; voltará a falar de André a propósito da multiplicação dos pães (cfr 6,8) e da última Páscoa (cfr 12,22).

Não se sabe com certeza quem era o segundo dos discí­pulos; mas já desde os primeiros séculos da era cristã se considera que é o próprio Evangelista. A vivacidade do relato, o pormenor de indicar a hora em que sucediam estes factos, e inclusivamente a tendência de João para ficar no anonimato (cfr 19,16; 20,2; 21, 7.20), parecem confirmá-lo.

«O Apóstolo João, que verte no seu Evangelho a expe­riência de uma vida inteira, narra a primeira conversa com o encanto daquilo que nunca mais se pode esquecer: Mestre, onde moras? Disse-lhes Jesus: Vinde e vede. Foram, pois, e viram onde morava e ficaram com Ele aquele dia.

«Diálogo divino e humano, que transformou a vida de João e de André, de Pedro, de Tiago e de tantos outros; que preparou os seus corações para escutarem a palavra impe­riosa que Jesus lhes dirigiu junto ao mar da Galielia» (Cristo que passa, n° 118).

Aquelas horas que tinham passado junto do Senhor produzem depressa os primeiros frutos de apostolado. André, sem poder ocultar a sua alegria, comunica a Simão Pedro a notícia de ter encontrado o Messias e leva-o até Ele. Como então, também agora é urgente fazer que outros conheçam o Senhor.

«Um dia — não quero generalizar, abre o teu coração ao Senhor e conta-Lhe tu a tua história — talvez um amigo, um cristão normal e corrente como tu, te tenha feito descobrir um panorama profundo e novo e ao mesmo tempo tão antigo como o Evangelho. Sugeriu-te a possibilidade de te empenhares seriamente em seguir Cristo, em ser apóstolo de apóstolos. Talvez tenhas perdido então a tranqüilidade e não a terás recuperado, convertida em paz, até que, livre­mente, porque ‘muito bem te apeteceu’ — que é a razão mais sobrenatural — respondeste a Deus que sim. E veio a alegria, vigorosa, constante, que só desaparece quando te afastas d’Ele» (Cristo que passa, n.° 1).

  1. Como gostaríamos de contemplar o olhar de Jesus! Aqui, pelas palavras que pronuncia o Senhor, aparece como imperioso e fascinante. Noutras circunstâncias, com o Seu olhar convidará a deixar tudo e a segui-Lo, como no caso de Mateus (Mt 9,9); ou encher-Se-á de amor, como no encontro com o jovem rico (Mc 10,21); ou de ira e de tristeza, vendo a incredulidade dos fariseus (Mc 2,5); de compaixão, diante do filho da viúva de Naim (Lc 7,13); saberá remover o coração de Zaqueu, produzindo a sua conversão (Lc 19,5); enternecer-Se-á diante da fé e da grandeza de ânimo da pobre viúva que deu como esmola tudo o que possuía (Mc 12,41-44). O Seu olhar penetrante punha a descoberto a alma diante de Deus, e suscitava ao mesmo tempo o exame e a contrição. Assim olhou Jesus para a mulher adúltera (Ioh 8,10), e assim olhou para o próprio Pedro que, depois da sua traição (Lc 22,61), chorou amargamente (Mc 14,72).

«Hás-de chamar-te Kefá»: Pôr o nome equivalia a tomar posse do nomeado (cfr Gen 17,5; 22,28; 32,28; Is 62,2). Assim, p. ex., Adão, constituído dono da criação, pôs nome a todas as coisas (Gen 2,20). «Kefá» é transcrição grega de uma palavra aramaica que quer dizer pedra, rocha. Daqui que, escrevendo em grego, São João tenha explicado o significado do termo empregado por Jesus. Kefá não era nome próprio, mas o Senhor impõe-no ao Apóstolo para indicar a função de Vigário Seu, que lhe será revelada mais adiante (Mt 16,16-18): Simão estava destinado a ser pedra, a rocha da Igreja.

Os primeiros cristãos consideravam tão significativo este novo nome que o empregaram sem o traduzir (cfr Gal 2,9.11.14); depois tornou-se corrente a sua tradução — Pedro —, que ocultou o antigo nome do Apóstolo — Simão —.«Filho de João»: A antiga documentação manuscrita oferece variantes, como «filho de Jonas», etc.

 

05.01.2017 – Jo 1, 43-51

43No dia seguinte, resolve Jesus partir para a Galileia. Encontra Filipe e diz-lhe: Segue-Me. 44Filipe era de Betsaida, cidade de André e de Pedro. 45Encontra Filipe a Natanael e diz-lhe: Aquele de quem Moisés escreveu na Lei, bem como os profetas, aca­bamos de encontrá-Lo. É Jesus de Nazaré, filho de José. 46Diz-lhe Natanael: De Nazaré pode vir alguma coisa boa? Vem ver — res­ponde-lhe Filipe.

47Jesus, vendo Natanael, que vinha ao Seu encontro, diz acerca dele: Aí está um autên­tico israelita, em quem não há fingimento! 48Diz-Lhe Natanael: Donde me conheces? Respondeu-lhe Jesus, dizendo: Antes de Fi­lipe te haver chamado, quando estavas de­baixo da figueira, Eu vi-te! 49Volveu-Lhe Natanael: Rabi, Tu és o Filho de Deus, Tu és o Rei de Israel. 50Retorquiu-lhe Jesus, nestes termos: Porque te disse: «Eu vi-te debaixo da figueira», acreditas? Verás coisas maiores do que estas. 51E acrescentou: Em verdade, em verdade vos digo: Heis-de ver o Céu aberto e os Anjos de Deus subir e descer por sobre o Filho do homem.

Comentário

  1. «Segue-Me» é o termo usual de Jesus para chamar os Seus discípulos (cfr Mt 4,19; 8,22;9.9). Em vida de Jesus o convite a segui-Lo implicava acompanhá-Lo no Seu minis­tério público, escutar a Sua doutrina, imitar o Seu modo de vida… Uma vez que o Senhor subiu aos Céus, o seguimento não é já, evidentemente, um acompanhamento físico pelos caminhos da Palestina, mas o cristão deve viver segundo a vida de Cristo, tornando seus os sentimentos de Cristo, de tal modo que possa exclamar com São Paulo: Non vivo ego, vivit vero in me Chrístus (Gal 2,20), não sou eu quem vive; é Cristo que vive em mim» (Cristo que passa, n.° 103). Em qualquer caso, o convite do Senhor comporta sempre um pôr-se a caminho; isto é, a exigência de uma vida de esforço e de luta por cumprir em cada momento a Vontade divina ainda que requeira uma entrega abnegada e generosa.

45-51. O apóstolo Filipe não pode deixar de transmitir ao seu amigo Natanael (Bartolomeu) a alegria da sua desco­berta, cheio de emoção (v. 45). «Natanael (…) tinha ouvido pelas Escrituras que o Cristo devia vir de Belém, da aldeia de David. Assim o criam os judeus e o tinha anunciado, tempo atrás, o profeta: ‘E tu, Belém, não és certamente a menor entre as principais cidades de Judá; pois de ti sairá um chefe, que apascentará o Meu povo, Israel’ (Mich 5,2). Portanto, ao escutar que provinha de Nazaré turvou-se e duvidou por não ver como compaginar as palavras de Filipe com a predição profética» (Hom. sobre S. João, 20,1).

Pense o cristão que ao transmitir a sua fé a outros, estes podem apresentar-lhe dificuldades. Que deve fazer? O que fez Filipe: não confiar nas suas próprias explicações, mas convidá-los a vir pessoalmente até Jesus: «Vem ver» (v. 46). O cristão, pois, deve pôr os seus irmãos os homens diante do Senhor através dos meios da graça que Ele próprio deu e a Igreja administra: frequência de Sacramentos e prática da piedade cristã.

Natanael, homem sincero (v. 47), acompanha Filipe até Jesus. Estabelece-se o contacto pessoal com o Senhor (v. 48). E o resultado é a fé do novo discípulo, fruto do seu bom acolhimento da graça, que lhe chega através da Humani­dade de Cristo (v. 49).

Segundo podemos deduzir dos Evangelhos, Natanael é o primeiro Apóstolo que faz uma confissão explícita de fé em Jesus como Messias e como Filho de Deus. Mais tarde São Pedro, de modo mais solene, reconhecerá a divindade do Senhor (cfr Mt 16,16). Aqui (v. 51) Jesus evoca um texto de Daniel (7,13) para confirmar e dar profundidade às palavras que pronunciou o novo discípulo.

06.01.2017 – Mc 1, 7-11

7E pregava assim: Depois de mim vem Aquele que é mais forte do que eu, e eu não sou digno de me inclinar para Lhe desatar as correias das sandálias. 8Eu baptizei-vos em água, mas Ele baptizar-vos-á no Espírito Santo. 9Ora sucedeu que, por aqueles dias, veio Jesus de Nazaré da Galileia e foi por João baptizado no Jordão. I0E logo, ao subir da água, viu rasgarem-se os céus e o Espírito, em forma de pomba, descer sobre Ele, 11enquanto dos céus soava uma voz: Tu és o Meu Filho amado; em Ti pus as Minhas complacências.

Comentário

  1. «Baptizar no Espírito Santo» refere-se ao Baptismo que Cristo vai instituir, e marca a sua diferença com o de João. No baptismo de João só era significada a graça, como nos outros ritos do Antigo Testamento. «Pelo Baptismo da Nova Lei os homens são baptizados interiormente pelo Espírito Santo, coisa que só Deus faz. Pelo contrário, pelo baptismo de João só era lavado com água o corpo» (Suma Teológica, III, q. 38, a. 2 ad 1). No Baptismo cristão, instituído por Nosso Senhor, o rito baptismal não só significa a graça, mas causa-a eficazmente, isto é, confere-a.

«O sacramento do Baptismo confere a primeira graça santificante, pela qual é perdoado o pecado original, e também os actuais, se os há; remite toda a pena por eles devida; imprime o caracter de cristãos; faz-nos filhos de Deus, mem­bros da Igreja e herdeiros da glória, e habilita-nos para receber os outros sacramentos» (Catecismo Maior, n.° 553).

Como todas as realidades pertencentes à santificação das almas, os efeitos do Baptismo cristão são atribuídos ao Espírito Santo, o «Santificador». Deve advertir-se que, como todas as obras ad extra de Deus (isto é, que são exteriores à vida íntima da Santíssima Trindade), a santificação das almas é obra comum das três Pessoas Divinas.

  1. A vida oculta do Senhor desenvolveu-se (salvo o nascimento em Belém e a estada no Egipto), em Nazaré da Galileia, donde acorre a receber o baptismo de João.

Jesus não tinha por que receber este baptismo de con­versão. Não obstante, convinha que quem ia estabelecer a Nova Aliança reconhecesse e aceitasse a missão do Seu Precursor, sendo baptizado com aquele baptismo para mover os homens a prepararem-se e a receber o Baptismo necessário. Os Santos Padres comentam que o Senhor foi receber este baptismo para cumprir toda a justiça (cfr a nota a Mt 3,15), para nos dar exemplo de humildade, para ser conhecido por todos, para que todos cressem n’Ele e para dar força vivificante à água do Baptismo.

«Devem notar-se dois tempos diversos do Baptismo: um, quando o Salvador o instituiu e o outro, quando se estabeleceu a obrigação de o receber. Relativamente ao primeiro, é evidente que Nosso Senhor instituiu este sacramento quando, baptizado Ele próprio por São João, deu à água a virtude de santificar (…). No que diz respeito ao segundo, isto é, ao tempo em que se deu a lei acerca do Baptismo, não há razão para duvidar. Porque estão de acordo os Santos Padres em que foi quando, depois da Ressurreição do Senhor mandou os Apóstolos: Ide, pois, e fazei discípulos a todos os povos, baptizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo» (Catecismo Romano 11,2,20-21).

  1. A presença visível do Espírito Santo em forma de pomba assinala o começo do ministério público de Cristo. Também aparecerá o Espírito Santo, em forma de línguas de fogo, no momento em que a Igreja inicia o seu caminho entre as nações no dia de Pentecostes (cfr Act 2,3-21).

A pomba, segundo á interpretação mais comum nos Santos Padres, é símbolo da paz e da reconciliação entre Deus e os homens. Aparece já no relato do dilúvio (Gen. 8, 10-11), indicando que cessava o castigo divino sobre a humanidade. A sua presença no começo do ministério público de Jesus simboliza a paz e a reconciliação que Cristo vinha trazer.

  1. No momento de começar a vida pública manifesta-se o mistério da Santíssima Trindade: «O Filho é baptizado, o Espírito Santo desce em forma de pomba e ouve-se a voz do Pai» (In Marci Evangelium expositio, ad loc.). «Permanece n’Ele o Espírito Santo — continua o mesmo autor —, não desde que foi baptizado, mas desde que encarnou». Ou seja, Jesus não recebe a Sua filiação divina no momento do baptismo, mas é Filho de Deus desde toda a eternidade. Também não é constituído Messias neste momento, já que o é desde a Encarnação.

O baptismo é a manifestação pública de Jesus como Filho de Deus e como Messias, ratificada com a presença da Santíssima Trindade.

«A descida do Espírito Santo sobre Jesus guarda relação com o sacramento de todos os que depois iam ser baptizados, pois todos os que são baptizados com o Baptismo de Cristo recebem o mesmo Espírito Santo» (Suma Teológica, III, q. 39, a. 6 ad 3).

07.01.2017 – Jo 2, 1-11

No terceiro dia, houve um casamento em Cana da Galileia, e estava lá a mãe de Jesus. 2Ora Jesus e os discípulos foram também convidados para o casamento. 3Como viesse a faltar o vinho, diz a mãe de Jesus para Este: Não têm vinho… 4Responde-lhe Jesus: Que Me desejas, Senhora? Ainda não chegou a Minha hora. 5Diz Sua mãe aos serventes: Fazei o que Ele vos disser.

6Havia ali seis talhas de pedra, dispostas para a purificação dos Judeus, cada uma das quais levava duas ou três medidas. 7Diz-lhes Jesus: Enchei essas talhas de água. E eles encheram-nas até acima. 8Depois diz-lhes: Tirai agora e levai ao chefe de mesa. E eles levaram. 9O chefe de mesa, depois de provar a água convertida em vinho — ele não sabia donde era, sabiam-no os serventes que ti­nham tirado a água — chama o noivo 10e diz-lhe: Toda a gente serve primeiro o vinho bom e, quando tiverem bebido bem, serve então o inferior. Tu guardaste o vinho bom até agora!

11Foi assim que, em Cana da Galileia, Jesus deu início aos Seus milagres. Mani­festou a Sua glória, e acreditaram n’Ele os discípulos.

Comentário

1-18. Estes versículos constituem o prólogo ou intro­dução ao quarto Evangelho; são um belo canto que, antes do relato da vida terrena de Jesus Cristo, engrandece e proclama a Sua divindade e eternidade. Jesus é o Verbo Incriado, o Deus Unigênito que assume a nossa condição humana e nos oferece a possibilidade de ser filhos de Deus, isto é, de participar real e sobrenaturalmente da própria vida divina.

O apóstolo João sublinha particularmente em todo o seu Evangelho a divindade do Senhor: não começou a existir ao fazer-Se homem, mas antes de tomar carne nas entranhas virginais de Maria, antes de todas as criaturas, existia na eternidade divina como Verbo consubstancial ao Pai e ao Espírito Santo. Esta é a verdade luminosa, graças à qual se podem apreciar as palavras e os factos de Jesus recolhidos ao longo do quarto Evangelho.

São João chega a contemplar a divindade de Jesus Cristo e a exprimi-la como o Verbo de Deus, depois de ter sido testemunha do Seu ministério público e das Suas aparições depois da Ressurreição. Ao pôr este poema como prólogo do Evangelho, o Apóstolo oferece-nos a chave para compreen­der com profundidade tudo quanto vai escrever a seguir; tem uma função semelhante aos dois primeiros capítulos dos Evangelhos de São Mateus e São Lucas, que nos introduzem na contemplação da vida de Jesus, narrando o nascimento virginal e alguns episódios relevantes da Sua infância, embora se pareça mais, pela sua estrutura e conteúdo, com os passos introdutórios de outros livros do NT como Col 1,15-20, Eph 1,3-14 e 1Ioh 1,1-4.

É evidente que o prólogo constitui um grandioso hino a Cristo. Não sabemos se São João o compôs quando escreveu o Evangelho, ou se se serviu de algum hino litúrgico existente, que adaptaria para que servisse de introdução ao seu livro. O certo é que na documentação cristã só aparece como prólogo do quarto Evangelho.

O prólogo de São João recorda-nos o primeiro capítulo do Gênesis por vários motivos: 1) a coincidência nas primeiras palavras, No princípio…, que no Evangelho se referem ao princípio absoluto, isto é, à eternidade, enquanto no Gênesis se referem ao princípio concreto da Criação e do tempo. 2) O paralelismo na função que desempenha o Verbo: no Gênesis Deus vai criando todos os seres mediante a Sua palavra; no Evangelho diz-se que tudo foi feito pelo Verbo (Palavra) de Deus. 3) No Gênesis a obra criadora de Deus culmina com a criação do homem à imagem e semelhança de Deus; no Evangelho, a obra do Verbo Encarnado culmina na elevação do homem — como uma nova criação — à dignidade de filho de Deus.

Como ensinamentos principais que aparecem no prólogo podem apreciar-se: 1) a divindade e eternidade do Verbo; 2) a Encarnação do Verbo e a Sua manifestação como homem; 3) a intervenção do Verbo na Criação e na obra salvífica da humanidade; 4) o comportamento diverso dos homens diante da vinda do Salvador: uns aceitam-No com fé e outros rejeitam-No; 5) por último, João Baptista é a teste­munha da presença do Verbo no mundo.

A Igreja deu sempre especial importância a este prólogo. Foram muitos os Santos Padres e escritores da antiguidade cristã que o comentaram amplamente, e durante séculos leu-se no fim da Santa Missa, como instrução e meditação permanentes,

Este prólogo tem forma de poema. A doutrina vai-se expondo em versos, agrupados em estrofes (vv. 1-5; 6-8; 9-13; 14-18). Como uma pedra lançada a um tanque produz umas ondas que se vão ampliando, assim a ideia expressada ao princípio de cada estrofe costuma ir-se ampliando nos versos sucessivos sem perder o ponto de partida. É um modo de explicar as coisas muito típico dos antigos povos, que favorece a compreensão progressiva dos conceitos, e que Deus quis utilizar para nos facilitar a penetração nestes mistérios centrais da nossa fé.

  1. O texto sagrado chama Verbo ao Filho de Deus. Uma analogia ou comparação com as coisas humanas pode ajudar-nos a compreender a noção de «Verbo» ou «Palavra»: ,assim como um homem ao conhecer-se forma na sua mente uma imagem de si mesmo, assim Deus Pai ao conhecer-Se gera o Verbo Eterno. Este Verbo de Deus é um e único, não pode existir outro porque n’Ele se exprime toda a essência de Deus. Por isso o Evangelho não Lhe chama simplesmente «Verbo», mas «o Verbo». Do Verbo afirmam-se três verda­des: que é eterno, que é diferente do Pai, e que é Deus. «Afirmar que existia no princípio eqüivale a dizer que existia antes de todas as coisas» (De Trinitate, 6,2). Por outro lado, ao assinalar que estava junto de Deus, isto é, junto do Pai, ensina-nos que a pessoa do Verbo é diferente da do Pai, e indica, ao mesmo tempo, a Sua relação de intimidade com Ele, tão grande que tem a mesma natureza divina: é consubstanciai ao Pai (cfr Símbolo Niceno).

O Papa Paulo VI, por ocasião do Ano da Fé (1967-1968), resumiu a verdade acerca da Santíssima Trindade no cha­mado Credo do Povo de Deus (n.° 11) com estas palavras: «Cremos em Nosso Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus. Ele é o Verbo Eterno, nascido do Pai antes de todos os séculos e consubstanciai ao Pai, isto é, homoousios to Patrí; por Quem foram feitas todas as coisas. E encarnou por obra do Espírito Santo, de Maria Virgem, e Se fez homem: portanto, igual ao Pai segundo a divindade, menor que o Pai segundo a huma­nidade, completamente um não por confusão da substância (que não pode fazer-se), mas pela unidade da pessoa».

«No princípio»: «Não significa senão que foi sempre e é eterno (…). Porque se é Deus, como de verdade o é, não há nada antes d’Ele; se é Criador de todas as coisas, então Ele mesmo é o primeiro; se é Dominador e Senhor de tudo, tudo é posterior a Ele: as criaturas e os séculos» (Hom. sobre S. João, 2,4).

  1. O prólogo, depois de mostrar que o Verbo está no seio do Pai, passa a tratar da Sua relação com as criaturas. Já no Antigo Testamento a Palavra de Deus aparece como força criadora (cfr Is 55,10-11), como Sabedoria que estava pre­sente na criação do mundo (cfr Prv 8,22-26). Aqui dá-se um progresso na Revelação divina: é-nos manifestado que a Criação foi realizada pelo Verbo; isto não quer dizer que o Verbo seja um instrumento subordinado e inferior ao Pai, mas que é princípio activo juntamente com o Pai e o Espírito Santo. A acção criadora é comum às três Pessoas divinas da Santíssima Trindade: «O Pai que gera, o Filho que nasce, e o Espírito Santo que procede são consubstanciais, co-iguais e co-eternos: são um só princípio de todas as coisas; Criador de todas as coisas, das visíveis e das invisíveis, das espirituais e das corporais» (IV Concilio de Latrão, De fide catholica, Dz-Sch, n. 800). Disso se deduzem, entre outras coisas, os vestígios da Trindade na criação e, portanto, a bondade radical das coisas criadas.
  2. A seguir expõem-se as verdades fundamentais sobre o Verbo: que é a Vida e que é a Luz. Aqui trata-se da vida divina, fonte primeira de toda a vida, da natural e da sobre­natural. E essa Vida é luz dos homens, porque recebemos de Deus a luz da razão, a luz da fé e a luz da glória, que são participação da Inteligência divina. Só a criatura racional é capaz de conhecer Deus neste mundo, e de O contemplar depois gozosamente no Céu por toda a eternidade. Também a Vida (o Verbo) é luz dos homens enquanto os ilumina tiran­do-os das trevas, isto é, do mal e do erro (cfr Is 8,23; 9,1.2; Mt 4,15-16; Lc 1, 74). Jesus dirá mais adiante: «Eu sou a luz do mundo; aquele que Me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida» (Ioh 8,12; cfr 12,46).

Os versículos 3 e 4 podem ler-se com outra pontuação, hoje geralmente abandonada, ainda que na antigüidade tenha tido bastantes defensores. Segundo essa -pontuação poderia traduzir-se assim:

«3Tudo foi feito por Ele e sem Ele não se fez nada; 4tudo o que foi feito n’Ele, era vida, e a vida era luz dos homens».

Esta leitura indicaria que tudo o que foi criado é vida no Verbo, isto é, que todos os seres recebem o ser e o operar, o viver, pelo Verbo, não sendo possível sem Ele a existência. 5. «Dominaram»: O verbo original grego, que o texto latino traduz por comprehenderunt, significa abraçar ou abarcar uma coisa como que rodeando-a com os braços; mas este acto pode fazer-se com intenção de bom acolhimento (abraço amigável), ou de hostilidade (acção de sufocar ou asfixiar outro apertando-o). Há, pois, lugar para duas pos­síveis traduções do versículo: a de ‘receberam’, ou a que expressaria que as trevas não puderam apagar ou sufocar a luz, que a tradução portuguesa por nós adoptada exprime com a palavra ‘dominaram’. Com esta última interpretação indicar-se-ia que Cristo e o Seu Evangelho continuam a brilhar entre os homens apesar da oposição do mundo, ven­cendo-o, segundo as palavras de Jesus: «Confiai: Eu venci o mundo» (Ioh 16,33; cfr 12,31; 1Ioh 5,4). Em qualquer caso, o versículo exprime a resistência, a luta das trevas contra a luz. Que coisa sejam a luz e as trevas São João i-lo-á indicando ao longo do Evangelho; para já, nos versículos 9 a 11 refere-se à luta entre ambas; e posteriormente por trevas designará o mal e as potências do maligno, que obscurecem a mente do homem e obstaculizam o conheci­mento de Deus (cfr Ioh 12,15-46; 1Ioh 5,6).

Santo Agostinho (In Ioann. Evang. 1,19) comenta assim este passo: «Pode ser que haja uns corações insensatos, ainda incapazes de receber essa Luz, porque o peso dos seus pecados os impede de vê-la; que não pensem, porém, que a Luz não existe por não a poderem ver: é que eles mesmos, pelos seus pecados, tornaram-se trevas. Meus irmãos, é como se um cego estivesse diante do sol. O sol está presente, mas o cego está ausente do sol. Assim todo o homem néscio, todo o homem iníquo, todo o homem sem religião, tem um coração cego. Que pode fazer? Que se limpe, e verá Deus; verá a Sabedoria presente, porque Deus é a própria Sabe­doria, e está escrito: ‘Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus’». Não há dúvida que o pecado entenebrece o olhar espiritual do homem, incapacitando-o para ver e apreciar as coisas de Deus.

6-8. Depois de considerar a divindade do Verbo, passa-se a tratar da Encarnação, e começa-se por falar de João Baptista, que aparece num momento histórico concreto como a testemunha directa de Jesus Cristo diante dos homens (Ioh 1,15.19-36; 3,22 ss.). Assim dirá Santo Agosti­nho: «Porque (o Verbo Encarnado) era homem e ocultava a Sua divindade, precedeu-O um grande homem com a missão de dar testemunho a favor daquele que era mais que homem» (In Ioann. Evang., 2,5).

Todo o Antigo Testamento é uma preparação para a vinda de1 Cristo. Assim os Patriarcas e os Profetas anunciaram de diversas maneiras a salvação que viria pelo Messias. Mas João Baptista, o maior dos nascidos de mulher (cfr Mt 11,11), pôde indicar com o dedo q próprio Messias (cfr Ioh 1 ,29), sendo o testemunho do Baptista a culminação de todas as profecias anteriores.

A missão de João Baptista como testemunha de Jesus Cristo é tão importante que os Evangelhos Sinópticos começam a narração do ministério público de Jesus por esse testemunho. Os discursos de São Pedro e de São Paulo, recolhidos nos Actos dos Apóstolos, também aludem ao testemunho de João (Act 1,22; 10,37; 12,24). O quarto Evangelho menciona-o sete vezes (1,6.15.19.29.35; 3,27; 5,33). Sabemos além disso, “que o apóstolo São João tinha sido discípulo do Baptista antes de o ser do Senhor, e que precisa-mente o Baptista foi quem o encaminhou para Cristo (,cfr 1,37ss.).

O Novo Testamento, pois, ensina-nos a transcendência da missão do Baptista, ao mesmo tempo que a clara consciência de este não ser senão o Precursor imediato do Messias, ao qual não é digno de desatar as correias das Suas sandálias (cfr Mc 1 ,7); por isso o Baptista insiste no seu papel de testemunha de Cristo e na sua missão de preparar o caminho ao Messias (cfr Lc 1,15-17; Mt 3,3-12). O testemunho de João Baptista permanece através dos tempos, convidando todos os homens a abraçar a fé em Jesus, a Luz verdadeira.

  1. «Era a luz verdadeira»: Os Santos Padres, as versões antigas e a maioria dos comentadores actuais entendem que o sujeito de «era» é «o Verbo». Neste caso, a frase poderia traduzir-se: «o Verbo era a luz verdadeira». Outra interpre­tação, pela qual se inclinam bastantes autores modernos, põe como sujeito de «era» a Luz. Deste modo, a tradução seria: «Existia a Luz verdadeira». Em última análise, o con­teúdo é quase o mesmo.

«Vindo ao mundo»: Segundo o texto grego não está claro a que se referem estas palavras. Podem aplicar-se quer à «luz», quer a «todo o homem». No primeiro caso, é a Luz (o Verbo) que vindo a este mundo ilumina todos os homens. No segundo caso, são os homens que ao virem a este mundo, ao nascerem, são iluminados pelo Verbo. O texto latino da Neo-vulgata optou pela primeira interpretação.

Chama-se ao Verbo «a luz verdadeira» porque é a luz originária da qual procede toda a outra luz ou revelação de Deus. Ao vir o Verbo ao mundo, este fica plenamente iluminado pela autêntica Luz. Os profetas e todos os outros enviados de Deus, incluído João Baptista, não eram a verda­deira luz, mas o reflexo, as testemunhas da Luz do Verbo. Perante a plenitude desta luz que é o Verbo, interroga-se São João Crisóstomo: «Como é que tantos homens perma­necem envoltos em trevas? Porque nem todos os homens crêm em Jesus Cristo nem Lhe rendem o culto augusto que Lhe é devido. Como, pois, pode dizer-se que ilumina todo o homem? Sim. Ele ilumina todos segundo a disposição e a vontade de cada um. Na medida em que depende do Verbo, ilumina todos. Mas se livremente os homens fecham os olhos da sua alma a esta luz, se rejeitam os seus raios, então o facto de permanecerem em trevas não se deve à natureza da luz, mas à maldade de coração de quem se priva deste dom da graça» (Hom. sobre S. João, 8,1).

  1. O Verbo está no mundo como o artífice que governa o que fez (cfr In Ioann. Evang., 2,10). O termo «mundo» no Evangelho de São João indica, além de tudo o que foi criado, o conjunto dos homens; assim Cristo veio para salvar a humanidade inteira; «Deus amou de tal maneira o mundo que lhe entregou o Seu Filho Unigênito, para que todo o que crê n’Ele não pereça mas tenha a vida eterna. Pois Deus não enviou Seu Filho ao mundo para julgar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele» (Ioh 3,16-17). Mas enquanto uma grande parte dos homens rejeitaram a Luz, isto é. Cristo, « mundo» significa também tudo aquilo que se opõe a Deus (cfr Ioh 17,14-15). Os homens que, obcecados pelas suas culpas, não reconhecem no mundo a obra do Criador (cfr Rom 1,18-20; Sap 13,1-15), ficam apegados só ao mundo e gostam exclusivamente das coisas que são do mundo» (Hom. sobre S. João, 7). Mas o Verbo, «luz verdadeira», veio para nos revelar a verdade acerca do mundo (cfr Ioh 1,3; 18,37) e para nos salvar.
  2. Pelos « Seus » entende-se, em primeiro lugar, o povo judaico, que tinha sido escolhido por Deus como povo da Sua propriedade (Dt 7,6-7) para que nele nascesse Cristo. Também pode entender-se toda a humanidade, pois pertence-Lhe por ter sido criada por Ele e Ele ter estendido a ela a Sua obra redentora. Daí que a censura por não receber o Verbo feito homem há-de entender-se não só dirigida aos judeus mas também a todos os que, chamados por Deus à Sua amizade, O rejeitam. «Cristo veio; mas por uma misteriosa e terrível infelicidade nem todos O conheceram, nem todos O aceitaram (…). É o quadro da humanidade tal como, depois de vinte séculos de cristianismo, se abre diante de nós. Como é possível? Que quer dizer? Não pretenderemos verificar uma realidade imersa em mistérios que nos transcendem: o mistério do bem e do mal. Mas podemos recordar que a economia de Cristo, para que a sua luz se difunda, deve desdobrar-se numa subalterna, mas necessária, cooperação humana: a da evangelízação, a da Igreja apostólica e missio­nária, que se registra resultados incompletos, é mais uma razão para ser ajudada e integrada por todos» (Audiência geral Paulo VI, 4-XII-1974).

08.01.2017 – Mt 2, 1-12

Nascido Jesus em Belém da Judeia, no tempo do rei Herodes, chegaram a Jerusalém uns Magos, vindos do Oriente, 2que perguntavam: Onde está o rei dos Judeus, nascido há pouco? Pois, vimos a Sua estrela e viemos adorá-Lo.

3Ao ouvir isto, o rei Herodes perturbou-se e toda a Jerusalém com ele. 4Convocou então todos os Príncipes dos Sacerdotes e Escribas do povo e inquiriu deles onde havia de nascer o Messias. 5Responderam-lhe eles: Em Belém da Judeia, porque assim está escrito no profeta: 6«E tu, Belém, Terra de Judá, não és, de modo nenhum, a mais peque­nina entre as principais cidades de Judá, porque de ti sairá um chefe que há-de reger o meu povo, Israel».

7Então Herodes, tendo chamado secretamente os magos, procurou saber deles, com exactidão, o tempo em que a estrela lhes ti­nha aparecido 8e, encaminhando-os para Belém, disse-lhes: Ide e informai-vos bem do Menino e, quando O encontrardes, avisai-me para eu ir também adorá-Lo.

9Eles, depois de ouvirem o rei, partiram. E eis que a estrela que tinham visto no Oriente ia diante deles e parou sobre o lugar onde estava o Menino. 10Ao verem a estrela, sentiram grande alegria. 11E, ao entrarem na casa, viram o Menino com Maria, Sua Mãe e, prostrando-se por terra, adoraram-No. Em seguida, abriram os corres e ofereceram-Lhe presentes: oiro, incenso e mirra. 12Foram depois avisados em sonhos que não regres­sassem à presença de Herodes e retiraram-se por outro caminho, para a sua terra.

Comentário

  1. 1. «O rei Herodes»: O Novo Testamento fala de quatro Herodes. O primeiro, Herodes o Grande, a que se referem este passo e o seguinte. O segundo, seu filho, Herodes Antipas, que mandou degolar São João Baptista (Mt 14, 1-12) e que ultrajou Jesus durante a Paixão (Lc 23, 7-11). O terceiro, Herodes Agripa I, neto de Herodes o Grande, que mandou matar o Apóstolo São Tiago, o Maior (Act 12,1-3), que meteu no cárcere Pedro (Act 12,4-7), e que morreu repentinamente e de um modo misterioso (Act 12, 20-23). O quarto, Herodes Agripa II, filho do anterior, perante quem São Paulo, prisio­neiro em Cesareia marítima, se defendeu da acusação dos judeus (Act 25, 23).

Herodes o Grande, do qual aqui se trata, era filho de pais não judeus; tinha conseguido reinar sobre estes com a ajuda e como vassalo do Império Romano. Desenvolveu uma grande actividade política e, entre outras coisas, reconstruiu luxuo­samente o Templo de Jerusalém. Sofreu de mania de perse­guição, vendo por toda a parte competidores da sua realeza; célebre pela sua crueldade, matou a maioria das dez mulheres que teve, alguns filhos e bom número de pessoas influentes na sociedade do seu tempo. Estes dados procedem principal­mente do historiador judeu Flávio Josefo (que escreveu em fins do século I) e concordam com a figura cruel que conhecemos pelos Evangelhos. «Uns Magos»: Estes personagens eram uns sábios prove­nientes provavelmente da Pérsia e dedicados ao estudo das estrelas. Por não serem judeus, são como que as primícias dos gentios que receberão o chamamento à salvação em Cristo. A adoração dos magos foi recolhida pela tradição mais antiga: já em começos do séc. II se encontra a cena nas pinturas das catacumbas de Priscila em Roma.

  1. 2. Os judeus tinham difundido pelo Oriente as esperanças messiânicas. Os magos tinham conhecimento do Messias esperado, rei dos Judeus. O qual, segundo idéias difundidas naquela época, devia ter, como personagem muito impor­tante na história universal, uma estrela relacionada com o seu nascimento. Deus quis valer-se destas concepções para conduzir até Cristo os representantes dos gentios, que haviam de crer.

«Precisamente tinha-se-lhes ocultado antes, para que, ao encontrarem-se sem guia, não tivessem outro remédio senão perguntar aos judeus, e ficasse manifesto a todos o nasci­mento de Cristo» (Hom. sobre S. Mateus, 7).

O mesmo São João Crisóstomo explica que «Deus os chama através do que para eles era mais familiar, e mostra-Ihes uma estrela grande e maravilhosa, para que os impres­sione pela sua própria grandeza e formosura» (Hom. sobre S. Mateus, 6). O chamamento dos magos, enquanto se dedicam ao seu ofício, é um facto que se repete no chama­mento que Deus faz aos homens; chamá-los precisamente entre as ocupações ordinárias da sua vida. Assim chamou Moisés quando pastoreava o rebanho (Ex 3, 1-3), o profeta <Eliseu quando lavrava a sua terra com os bois (1Reg 19, 19-20), Amos quando cuidava o seu gado (Am 7,15)…« O que a ti te admira, a mim parece-me razoável. — Deus foi-te procurar no exercício da tua profissão?

«Foi assim que procurou os primeiros: Pedro, André, João e Tiago, junto das redes; Mateus, sentado à mesa dos impostos…

«E assombra-te! — Paulo, no seu afã de acabar com a semente dos cristãos» (Caminho, n.° 799).

«Tal como os Reis Magos, descobrimos uma estrela que é luz, rumo certo no céu da nossa alma.

«Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo. Também nós tivemos esta experiência. Também nós sentimos que, a pouco e pouco, se acendia na nossa alma uma luz nova: o desejo de ser cristãos em plenitude, o desejo, por assim dizer, de tomar Deus a sério» (Cristo que passa, n.° 32).

  1. 4. No tempo de Jesus encontrava-se amplamente difun­dida em todos os ambientes judaicos a esperança da iminente vinda do Messias, concebido sobretudo como rei à maneira de um novo e maior David. Daqui a perturbação de Herodes, rei dos Judeus com o apoio dos romanos e cruelmente zeloso da defesa da sua coroa. Pela sua ambição política e pela sua carência de sentido religioso, Herodes viu o possível Messias–Rei como um perigoso competidor do seu poder temporal.

No tempo de Nosso Senhor, tanto o regime monárquico de Herodes como o regime de ocupação directa romana por meio dos procuradores tinham respeitado o organismo representativo do próprio povo judaico, constituído pelo Sinédrio. Este era, pois, o grande conselho da nação, que intervinha nos assuntos ordinários, religiosos ou civis. A execução dos assuntos mais importantes necessitava da aprovação, quer do rei (no tempo da monarquia herodiana), quer do procurador (no tempo da ocupação directa da Palestina pelo Império Romano).

Em recordação de Ex 24, 1-9 e Num 11, 16, o Sinédrio compunha-se de 71 membros, presididos pelo sumo sacerdote, escolhidos entre os seguintes três estratos ou grupos do povo judaico: l.° Os príncipes dos sacerdotes, quer dizer, os chefes das principais famílias sacerdotais, entre as quais costumava recair a nomeação do sumo sacerdote, e aqueles que tinham cessado neste cargo. 2.° Os anciãos, que eram os chefes das principais famílias. 3.° Os escribas, que eram os doutores da lei ou peritos nas questões legais e religiosas; a maior parte destes escribas pertencia ao partido ou escola dos fariseus.

Neste passo de Mateus só se mencionam o l.° e 3.° destes grupos que compunham o Sinédrio: isso é lógico, visto que o grupo dos anciãos não era entendido no assunto do nascimento do Messias, que era uma questão eminentemente religiosa.

5-6. A profecia a que se refere o passo é concretamente a de Miqueias 5, 1. É de notar que na tradição judaica se interpretava esta profecia como predição do lugar exacto do nascimento do Messias, e que este era um personagem determinado.

O livro sagrado ensina-nos uma vez mais que em Jesus Cristo se cumprem as profecias do Antigo Testamento.

  1. 8. Herodes pretendia saber com exactidão onde estava o Menino não precisamente para O adorar, como dizia, mas para se livrar d’Ele, segundo a visão puramente política que tinha o então rei dos Judeus. A sua astúcia e maldade não podem impedir que se cumpram os desígnios de Deus. Por cima dos cálculos de Herodes é da sua ambição estavam a sabedoria e o poder divinos para realizar a salvação.
  2. 9. «Quase sempre por nossa culpa, em certos momentos da nossa vida interior, acontece-nos o que aconteceu na viagem dos Reis Magos: a estrela oculta-se (…). Que havemos de fazer então? Seguir o exemplo daqueles homens santos: perguntar. Herodes serviu-se da ciência para proceder de modo injusto; os Reis Magos utilizam-na para fazer o bem. Mas nós, cristãos, não temos necessidade de perguntar a Herodes ou aos sábios da Terra. Cristo deu à Sua Igreja a segurança da doutrina, a corrente de graça dos Sacramentos; e providenciou para que haja pessoas que nos orientem, que nos conduzam, que nos recordem constantemente o caminho» (Cristo que passa, n° 34).
  3. 10. «E por quê tanta alegria? Porque eles, que nunca duvidaram, recebem do Senhor a prova de que a estrela não tinha desaparecido; tinham deixado de a ver sensivelmente, mas tinham-na conservado sempre na alma. Assim é a vocação cristã: se não se perde a fé, se se mantém a esperança em Jesus Cristo que estará connosco até à consumação dos séculos (Mt XXVIII, 20), a estrela reaparece. E, ao verificar uma vez mais a realidade da vocação, nasce em nós uma alegria maior, que aumenta a nossa fé, a nossa esperança, o nosso amor (Cristo que passa, ° 35).
  4. 11. Os dons oferecidos — ouro, incenso e mirra — eram os mais preciosos do Oriente. O homem tem necessidade de oferecer presentes para testemunhar a sua veneração e a sua fé. Já que não pode oferecer-se o próprio homem como desejaria, oferece em seu lugar o que é mais valioso e lhe é mais querido.

Os profetas e o salmista tinham predito para os tempos messiânicos a submissão a Deus dos reis da terra 0s 49, 23), com o oferecimento dos seus bens (Is 60, 5) e a adoração (Ps72,10-15). Com este acto dos magos e o oferecimento dos seus dons a Jesus, Deus e homem, começam a cumprir-se estas profecias.

O Concilio de Trento cita expressamente este passo da adoração dos magos ao ensinar o culto que se deve dar a Cristo na Eucaristia: «Todos os fiéis de Cristo na sua veneração deste Santíssimo Sacramento devem tributar-lhe aquele culto de latria que é devido ao verdadeiro Deus (…). Porque cremos que nele está presente aquele mesmo Deus, de Quem, ao introduzi-Lo o Pai no orbe da terra, diz: E adorem-No todos os anjos de Deus (Heb 1 ,6; cfr Ps 97, 7); a Quem os magos, prostrando-se por terra, adoraram (cfr Mt 2, 11), de Quem, enfim, a Escritura testemunha (cfr Mt 28, 17) que Q adoraram os Apóstolos na Galileia» (De SS. Eucharistia, çap. 5).

Também a propósito deste versículo, comentava São Gregório de Nazianzo: « Nós permaneçamos em adoração; e a Quem por causa da nossa salvação Se humilhou a tal grau de pobreza que recebeu o nosso corpo, ofereçamos, não já Incenso, ouro e mirra — o primeiro como a Deus, o segundo como a rei e o terceiro como Aquele que buscou a morte por nossa causa —, mas dons espirituais, mais sublimes que os que se vêem com os olhos» (Oratio, 19).

  1. 12. A intervenção dos magos nos acontecimentos de Belém termina com um novo acto de delicada obediência e Cooperação com os planos de Deus. Também o cristão deve ser dócil até ao fim à graça e à missão concreta que Deus lhe confie, ainda que isto suponha modificar os planos pessoais que se tenha proposto.

09.01.2017 – Mt 3, 13-17

13Entáo veio Jesus da Galileia ao Jordão e apresentou-se a João, para ser por ele baptizado. l4Queria João impedi-Lo e dizia-Lhe: Eu é que preciso de ser baptizado por Ti, e Tu vens a mim?

15Jesus, porém, respondeu-Lhe: Deixa por agora, pois assim nos convém cumprir toda a justiça.

Então ele deixou-O.

16Baptizado Jesus, subiu logo da água e eis que se Lhe abriram os céus e viu o Espírito de Deus que, em figura de pomba, descia e vinha sobre Ele, 17enquanto dos céus uma voz dizia: Este é o meu Filho amado, no Qual pus as minhas complacências.

 

Comentário

  1. Jesus tinha passado uns trinta anos (Lc 3, 23) no que normalmente chamamos vida oculta. Admira-nos o silêncio do Verbo de Deus Encarnado durante todo este tempo. Muitas podem ser as razões desta longa espera de Jesus antes de começar o Seu ministério público. Pode ter influído nisso o costume judaico de que os rabinos tivessem feito os trinta anos, antes de exercer o seu ofício de mestres. Em qualquer dos casos, Nosso Senhor, com os Seus longos anos de trabalho na oficina de São José, ensina aos cristãos o sentido santificador da vida e trabalho ordinários.

Jesus começa o Seu ministério público depois de o Baptista “ter preparado o povo, segundo o plano divino, para receber o Messias.

  1. São João Baptista, ao ver aproximar-se do seu baptismo Aquele de quem tinha dado testemunho tão autên­tico, resistia razoavelmente a baptizá-Lo. Não era necessário que Jesus fosse baptizado por João, já que não tinha pecado algum. Mas Jesus quis submeter-Se a este baptismo (veja-se nota ao v. 15) antes de inaugurar a Sua pregação para nos ensinar a obedecer a todas as disposições divinas (antes tinha-Se submetido, por exemplo, à circuncisão, à apresen­tação no Templo e ao resgate como primogênito). Os planos de Deus dispunham que Jesus Se aniquilasse até Se submeter à autoridade de outros homens.
  2. «Justiça», na Bíblia, tem um significado muito rico: refere-se ao plano que Deus, na Sua infinita bondade e sabedoria, traçou para a salvação do homem. Por isso «cumprir toda a justiça» deve ser interpretado na linha de cumprir a vontade de Deus e os Seus desígnios. Daí que pudéssemos traduzir «cumprir toda a justiça» por: «cumprir tudo o estabelecido por Deus».

Jesus Cristo acorre ao baptismo de João em reconhecimento de uma etapa da História da Salvação, prevista por Deus como preparação última e imediata da era messiânica. O cumprimento de qualquer destas etapas ou actos do plano divino pode chamar-se, resumidamente, um acto de justiça. Jesus, que veio cumprir a Vontade do Pai (Ioh 4, 34), procura cumprir esse plano salvador em todos os seus pormenores.

  1. Jesus desde a Sua própria conceição, possuía a plenitude do Espírito Santo. Isto é assim pela união da natureza humana com a natureza divina na pessoa do Verbo (dogma da união hipostática). A doutrina cristã ensina que em Cristo há uma só Pessoa, divina, e duas naturezas, divina e humana. A descida do Espírito de Deus, de que fala o nosso texto, exprime que, assim como Jesus iniciava de modo solene o Seu ofício messiânico, assim o Espírito Santo começava a Sua acção por meio do Messias. São muitos os textos do Antigo Testamento em que se anuncia a especialíssima manifestação do Espírito Santo no futuro Messias. Com este sinal do Espírito, recebia também São João Baptista a prova inequívoca da autenticidade do seu teste­munho acerca de Cristo (cfr Ioh l, 29-34).

No Baptismo de Jesus Cristo revela-se o mistério da Santíssima Trindade: o Filho, que recebe o Baptismo; o Espírito Santo, que desce sobre Ele em figura de pomba; e a voz do Pai, que dá testemunho da pessoa de Seu Filho. No nome das três Pessoas divinas deverão ser baptizados os cristãos. «Se tu tens uma piedade sincera, sobre ti descerá também o Espírito Santo e ouvirás a voz do Pai do alto que diz: este não é o Meu Filho, mas agora depois do Baptismo, «foi feito meu filho» (De Baptismo,14)

  1. Literalmente: «Este é o Meu Filho, o amado». «Amado», precedido do artigo e unido à expressão «o Filho», normalmente refere-se a um filho único (cfr Gen 22,2.12.16.; Ier 6,26; Am 8,10; Zach 12,10; etc.). O duplo uso do artigo e a Solenidade do passo fazem que este testemunho divino acerca |de Jesus mostre claramente, na linguagem da Bíblia, que Jesus Cristo não é mais um, nem sequer o mais excelente, de tantos filhos adoptivos de Deus; mas com toda a propriedade e força, declara que Jesus é «o Filho de Deus», o Unigênito, absolutamente distinto, pela Sua condição divina, dos outros homens (cfr Mt 7,21; 11,27; 17,5; Ioh 3,35; 5,20; 20, 17; etc.).

Neste passo têm cumprimento as profecias messiânicas, especialmente Is 42, 1, cuja expressão é aplicada agora a Jesus Cristo pela voz do Pai, que fala do céu.

10.01.2017 – Mc 1, 21b-28

No sábado seguinte, indo à sinagoga, pôs-Se a ensinar. 22E maravilhavam-se por causa da Sua dou­trina, pois os ensinava como quem tinha autoridade e não como os Escribas. 23Nisto um homem possuído do espírito imundo, o qual estava na sinagoga, começou a gritar: 24Ai! Que tens Tu connosco, Jesus de Nazaré? Vieste para nos perder. Sei quem Tu és: o Santo de Deus. 25Mas Jesus intimou-lhe: Cala-te e sai desse homem! 26O espírito imundo, agitando-o convulsivamente e fa­zendo grande alarido, saiu dele. 27Ficaram todos atônitos, de modo que perguntavam uns aos outros: Que é isto? Uma doutrina nova, e com autoridade! Manda nos espí­ritos imundos, e eles obedecem-Lhe! 28E a Sua fama correu logo por toda a parte, em toda a vizinha região da Galileia.

Comentário

— o lugar em que os Judeus se reuniam para escutar a leitura da Sagrada Escritura e rezar. Parece que as sinagogas tiveram a sua origem nas reuniões cultuais que celebravam os Judeus cativos em Babilônia, ainda que não se estendessem até pais tarde. No tempo de Nosso Senhor havia-as em todas as cidades e aldeias da Palestina de certa importância; e fora da Palestina nos lugares onde havia uma comunidade de Judeus suficien­temente numerosa. A sinagoga constava principalmente de uma sala rectangular, construída de tal forma que os assis­tentes, sentados, olhassem para Jerusalém. Na sala havia uma tribuna ou estrado onde se lia e se explicava a Sagrada Escritura.

  1. Aparece aqui como Jesus mostrava a Sua autoridade ao ensinar. Inclusivamente quando tomava como base a Escritura, como no Sermão da Montanha, distinguia-Se dos outros mestres, pois falava em nome próprio: «Mas Eu digo-vos» (cfr a nota a Mt 7,28-29). O Senhor, na verdade, fala dos mistérios de Deus e das relações entre os homens; explica com simplicidade e com poder, porque fala do que sabe e dá testemunho do que viu (Ioh 3, 11). Os escribas ensinavam também ao povo — comenta São Beda — o que está escrito em Moisés e nos Profetas; mas Jesus pregava ao povo como Deus e Senhor do próprio Moisés (cfr In Marci Evangelium expositio, ad loc.) Além disso, primeiro faz e depois diz (Act 1, 1) e não é como os escribas que dizem e não fazem (Mt 23,1-5).

23-26. Os Evangelhos apresentam vários relatos de curas miraculosas. Entre elas sobressaem as de alguns endemoninhados. A vitória sobre o espírito imundo, nome que se dava correntemente ao demônio, é um sinal claro de que chegou a salvação divina: Jesus, ao vencer o Maligno, revela-Se como o Messias, o Salvador, com um poder superior ao dos demônios: «Agora é que é o julgamento deste mundo. Agora é que o Príncipe deste mundo vai ser lançado fora» (Ioh 12, 31). Ao longo do Evangelho torna-se patente a luta contínua e vitoriosa do Senhor contra o demônio.

A oposição do demônio a Jesus vai aparecendo, cada vez mais clara: é solapada e subtil no deserto; manifesta e violenta nos endemoninhados; radical e total na Paixão, que é « a hora e o poder das trevas» (Lc 22,53). A vitória de Jesus é também cada vez mais patente, até ao triunfo total da Ressurreição.

O demônio é chamado imundo — diz São João Crisóstomo — pela sua impiedade e afastamento de Deus, e porque se mistura em toda a obra má e contrária a Deus. Reconhece de alguma maneira a santidade de Cristo, mas este conhecimento não vai acompanhado pela caridade. Além do facto histórico concreto, podemos ver neste endemoninhado os pecadores que se querem converter a Deus, libertando-se da escravidão do demônio e do pecado. A luta pode ser longa, mas terminará com uma vitória: o espírito maligno não pode nada contra Cristo (cfr a nota a Mt 12, 22-24).

  1. A mesma autoridade que Jesus mostrou no ensino (1, 22) aparece agora nos Seus feitos. Fá-lo só com o Seu querer, sem necessitar de múltiplas invocações e conjuros. As palavras e os actos de Jesus evidenciam algo de superior, um poder divino, que enche de admiração e de temor aqueles que O escutam e observam.

Esta primeira impressão manter-se-á até ao fim (Mc 2, 12; 5, 20. 42 ; 7, 37; 1 5, 39; Lc 1 9,48; Ioh 7, 46). Jesus de Nazaré é o Salvador esperado. Ele sabe-o e manifesta-o precisamente nos Seus actos e nas Suas palavras, que constituem uma unidade inseparável segundo os relatos evangélicos (Mc 1, 38-39:2, 10-11; 4, 39). Como ensina o Vaticano II (Dei Verbum, n. 2), a Revelação faz-se com actos e palavras intimamente unidos entre si. As palavras esclarecem os actos; os factos confirmam as palavras. Deste modo Jesus vai revelando progressivamente o mistério da Sua Pessoa: primeiro as gentes captam a Sua autoridade excepcional, e os Apóstolos, iluminados pela graça de Deus, reconhecerão depois a raiz última dessa autoridade: «Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo» (Mt 16,16).

11.01.2017 – Mc 1, 29-39

29Saindo depois da sinagoga, foi para casa de Simão e André, com Tiago e João. 30Ora a sogra de Simão estava de cama com febre e logo Lhe falam dela. 31E Ele, aproximando-Se, pegou-lhe na mão e ergueu-a. A febre deixou-a, e ela pôs-se a servi-los.

32Ao anoitecer, depois do sol-posto, trouxeram-Lhe todos os doentes e possessos, 33e toda a cidade se apinhou diante da porta. Soltes 34Ele curou muitos, atacados de várias enfermidades, e expulsou muitos Demônios; mas não deixava que os Demônios falassem, porque sabiam quem Ele era.

35De madrugada, muito antes de amanhecer, levantou-Se e saiu para um lugar solitário e ali orava. 36Simáo e os que com ele estavam foram à procura d’Ele. 37Quando O encontraram, disseram-Lhe: Andam todos a procurar-Te. 38Diz-lhes Ele: Vamos a outro lugar, às vilas circunvizinhas, para também ali pregar, pois para isso é que saí. 39E andava a pregar nas suas sinagogas, por toda a Galileia, e a expulsar os Demônios. 40Vem ter com Ele um leproso que, suplicando e lançando-se de joelhos, Lhe diz: Se quiseres, podes limpar-me. 41Ele, enternecido, estendeu a mão, e tocou-o e disse-lhe: Quero; se limpo! 42E imediatamente desapa­receu a lepra, e ficou limpo. 43Entáo Jesus, tomando um ar severo, mandou-o embora e disse-lhe: 44Vê lá, não digas nada a ninguém; mas vai, mostra-te ao sacerdote e oferece pela tua cura o que Moisés ordenou, para que lhes sirva de testemunho. 45Ele, porém, saindo, começou a apregoar altamente e a espalhar a notícia do facto, de tal sorte que Jesus já não podia entrar às claras em nenhuma cidade; mas ficava fora, em lugares desertos. E de toda a parte vinham ter com Ele.

Comentário

  1. Os demônios possuem um saber sobre-humano, por, isso reconhecem Jesus como o Messias (Mc 1, 24). Por meio dos endemoninhados, os demônios podiam dar a conhecer o caracter messiânico de Jesus. Mas o Senhor, com o Seu poder divino, manda-os guardar silêncio. Ordena a mesma coisa, noutras ocasiões, aos discípulos (Mc 8,30; 9,9), e aos doentes, depois da sua cura, ordena que não propaguem a notícia (Mc 1,44; 5,43; 7,36; 8,26).

Este proceder do Senhor pode explicar-se como pedagogia divina para ir ensinando que a idéia que do Messias tinham a maioria dos contemporâneos de Jesus era demasiado humana e politizada (cfr a nota a Mt 9, 30). Por isso quer primeiro despertar o interesse com os Seus milagres, e ir esclarecendo o sentido do Seu messianismo com as Suas palavras, para que os discípulos e todo o povo o possam compreender progressivamente.

Também devemos pensar, com alguns Santos Padres, que Jesus não quer aceitar em favor da verdade o testemunho daquele que é o pai da mentira. E por isso, apesar de O reconhecerem, não os deixa dizer Quem é. Cfr a nota a Ioh 8,44.

  1. São muitos os passos do Novo Testamento que referem a oração de Jesus. Os evangelistas assinalaram-no nos momentos mais importantes do ministério público do Senhor: Baptismo (Lc 3,21), escolha dos Apóstolos (Lc 6,12), primeira multiplicação dos pães (Mc 6,46), Transfiguração (Lc 9, 29), no horto do Getsémani antes da Paixão (Mt 26,39), etc. Marcos, por seu lado, refere a oração de Jesus em três momentos solenes: no começo do Seu ministério público (1, 35), no meio (6,46), e no fim, no Getsémani (14,3,2).

A oração de Jesus é oração de louvor perfeito ao Pai, é oração de petição por Si mesmo e por nós, e é, finalmente, modelo para os Seus discípulos. É louvor e acção de graças perfeita porque Ele é o Filho amado de Deus em Quem o Pai Se compraz plenamente (cfr Mc 1, 11). É oração de petição, pois pedir coisas a Deus é o primeiro movimento espontâneo da alma que reconhece Deus como Pai. A oração de Jesus, segundo vemos por numerosos passos evangélicos (p. ex. Ioh 17, 9 e ss.), era uma petição contínua ao Pai pela obra da Redenção, que Ele devia realizar por meio da dor e do sacrifício (cfr as notas a Mc 14, 32-42 e Mt 7, 7-11). O Senhor quer, além disso, ensinar-nos com o Seu exemplo qual deve ser a atitude do cristão: entabular habitualmente um diálogo filial com Deus, no meio e por ocasião das nossas actividades ordinárias — trabalho, vida familiar, relações sociais, apostolado —, com o fim de dar à nossa vida um significado e uma presença autenticamente cristãos, já que, como assinalará mais tarde Jesus, «sem Mim nada podeis fazer» (Ioh 15,5).

«Escreveste-me: ‘Orar é falar com Deus. Mas de quê?’ De quê?! D’Ele e de ti; alegrias, tristezas, êxitos e fracassos, ambições nobres, preocupações diárias…, fraquezas; e acções de graças e pedidos; e Amor e desagravo.

«Em duas palavras: conhecê-Lo e conhecer-te — ganhar intimidade!» (Caminho, n.° 91) (cfr as notas a Mt 6, 5-6; 7, 7-11 e 14, 22-23).

  1. Jesus Cristo diz-nos aqui que a Sua missão é pregar, evangelizar. Para isto foi enviado (vid. também Lc 4, 43). Os Apóstolos, por sua vez, foram escolhidos por Jesus para os enviar a pregar (Mc 3, 14; 16, 15). A pregação é o meio escolhido por Deus para levar a cabo a salvação: «Aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação» (1Cor 1, 21). Por isso o mesmo São Paulo diz a Timóteo: «Prega a palavra, insiste oportuna e inoportunamente, repreende censura e exorta com bondade e doutrina» (2 Tim 4,1-2). A fé vem-nos pelo ouvido, dirá em Rom 10, 17 e, citando o profeta Isaías, exclama com entusiasmo: «Que formosos são os pés dos que anunciam boas novas!» (Rom 10,15; Is 52,7).

A Igreja põe em realce entre os ofícios principais de Bispos e de presbíteros o de pregar o Evangelho. São Pio X chegou a dizer que «o dever de pregar é o que mais grave e estritamente obriga o sacerdote» (Acerbo nimis). No mesmo sentido se pronunciou o Concilio Vaticano II: «O Povo de Deus é reunido antes de mais pela palavra de Deus vivo (cfr 1Pet 1, 23; Act 6, 7; 12, 24), que é justíssimo esperar receber da boca dos sacerdotes (cfr Mal 2, 7; 1Tim 4, 11-13; etc.). Com efeito, como ninguém se pode salvar se antes não tiver acreditado (cfr Mc 16,16), os presbíteros, como cooperadores dos Bispos, têm, como primeiro dever, anunciar a todos o Evangelho de Deus (cfr 2Cor 11, 7), para que, realizando o mandato do Senhor: Ide por todo o mundo, pregai o Evangelho a todas as criaturas (Mc 16, 15), constituam e aumentem o Povo de Deus» (Presbiterorum ordinis, n. 4).

A pregação de Jesus não consiste apenas em palavras. É uma doutrina acompanhada com a autoridade e eficácia de uns factos(Mc 1,27.39). Jesus faz e ensina (Act 1, 1). Também a Igreja foi enviada a pregar a salvação, e a realizar a obra salvífica que proclama. Esta obra é posta em prática mediante os sacramentos e, especialmente, através da renovação do sacrifício do Calvário na Santa Missa (Sacrosanctum Concilium, n. 6).

Na Igreja de Deus, todos os fiéis têm de escutar devota­damente a pregação do Evangelho e todos têm de sentir, por sua vez, a responsabilidade de transmiti-lo com palavras e com factos. Por seu lado, à Hierarquia da Igreja corresponde ensinar autenticamente — com a autoridade de Cristo — a doutrina evangélica.

12.01.2017 – Mc 1, 40-45

40Vem ter com Ele um leproso que, suplicando e lançando-se de joelhos, Lhe diz: Se quiseres, podes limpar-me. 41Ele, enternecido, estendeu a mão, e tocou-o e disse-lhe: Quero; se limpo! 42E imediatamente desapa­receu a lepra, e ficou limpo. 43Entáo Jesus, tomando um ar severo, mandou-o embora e disse-lhe: 44Vê lá, não digas nada a ninguém; mas vai, mostra-te ao sacerdote e oferece pela tua cura o que Moisés ordenou, para que lhes sirva de testemunho. 45Ele, porém, saindo, começou a apregoar altamente e a espalhar a notícia do facto, de tal sorte que Jesus já não podia entrar às claras em nenhuma cidade; mas ficava fora, em lugares desertos. E de toda a parte vinham ter com Ele.

Comentário

40-44. Na lepra via-se um castigo de Deus (cfr Num 12, 10-15). O desaparecimento desta doença era considerado como uma das bênçãos da época messiânica (Is 35, 8; cfr Mt 11, 5; Lc 7, 22). Ao doente de lepra, pelo caracter contagioso desta doença, a Lei tinha-o declarado impuro e transmissor de impureza àquelas pessoas que tocava, ou àqueles lugares em que entrava. Por isso tinha de viver isolado (Num 5,2; 12, 14 ss.), e mostrar, por um conjunto de sinais externos, a sua condição de leproso. Relativamente ao rito da sua purifi­cação, cfr a nota a Mt 8,4.

O passo mostra-nos a oração, cheia de fé e de confiança, de um homem que necessita da ajuda de Jesus e pede-a seguro de que, se o Senhor o quer, tem poder para o livrar do mal de que padece (cfr a nota a Mt 8, 2). «Aquele homem ajoelha-se prostrando-se em terra — o que é sinal de humildade e de vergonha —, para que cada um se envergonhe das manchas da sua vida. Mas a vergonha não há-de impedir a confissão: o leproso mostrou a chaga e pediu o remédio. A sua confissão está cheia de piedade e de fé. Se queres, diz podes: isto é, reconheceu que o poder de curar-se estava nas mãos do Senhor» (In Marci Evangelium expositio, ad loc.).

Sobre esta discrição e prudência exigidas por Jesus acerca da Sua pessoa, cfr as notas a Mc 1, 34 e a Mt 9, 30.

13.01.2017 – Mt 2, 1-12

Nascido Jesus em Belém da Judeia, no tempo do rei Herodes, chegaram a Jerusalém uns Magos, vindos do Oriente, 2que perguntavam: Onde está o rei dos Judeus, nascido há pouco? Pois, vimos a Sua estrela e viemos adorá-Lo.

3Ao ouvir isto, o rei Herodes perturbou-se e toda a Jerusalém com ele. 4Convocou então todos os Príncipes dos Sacerdotes e Escribas do povo e inquiriu deles onde havia de nascer o Messias. 5Responderam-lhe eles: Em Belém da Judeia, porque assim está escrito no profeta: 6«E tu, Belém, Terra de Judá, não és, de modo nenhum, a mais peque­nina entre as principais cidades de Judá, porque de ti sairá um chefe que há-de reger o meu povo, Israel».

7Então Herodes, tendo chamado secretamente os magos, procurou saber deles, com exactidão, o tempo em que a estrela lhes ti­nha aparecido 8e, encaminhando-os para Belém, disse-lhes: Ide e informai-vos bem do Menino e, quando O encontrardes, avisai-me para eu ir também adorá-Lo.

9Eles, depois de ouvirem o rei, partiram. E eis que a estrela que tinham visto no Oriente ia diante deles e parou sobre o lugar onde estava o Menino. 10Ao verem a estrela, sentiram grande alegria. 11E, ao entrarem na casa, viram o Menino com Maria, Sua Mãe e, prostrando-se por terra, adoraram-No. Em seguida, abriram os corres e ofereceram-Lhe presentes: oiro, incenso e mirra. 12Foram depois avisados em sonhos que não regres­sassem à presença de Herodes e retiraram-se por outro caminho, para a sua terra.

Comentário

  1. 1. «O rei Herodes»: O Novo Testamento fala de quatro Herodes. O primeiro, Herodes o Grande, a que se referem este passo e o seguinte. O segundo, seu filho, Herodes Antipas, que mandou degolar São João Baptista (Mt 14, 1-12) e que ultrajou Jesus durante a Paixão (Lc 23, 7-11). O terceiro, Herodes Agripa I, neto de Herodes o Grande, que mandou matar o Apóstolo São Tiago, o Maior (Act 12,1-3), que meteu no cárcere Pedro (Act 12,4-7), e que morreu repentinamente e de um modo misterioso (Act 12, 20-23). O quarto, Herodes Agripa II, filho do anterior, perante quem São Paulo, prisio­neiro em Cesareia marítima, se defendeu da acusação dos judeus (Act 25, 23).

Herodes o Grande, do qual aqui se trata, era filho de pais não judeus; tinha conseguido reinar sobre estes com a ajuda e como vassalo do Império Romano. Desenvolveu uma grande actividade política e, entre outras coisas, reconstruiu luxuo­samente o Templo de Jerusalém. Sofreu de mania de perse­guição, vendo por toda a parte competidores da sua realeza; célebre pela sua crueldade, matou a maioria das dez mulheres que teve, alguns filhos e bom número de pessoas influentes na sociedade do seu tempo. Estes dados procedem principal­mente do historiador judeu Flávio Josefo (que escreveu em fins do século I) e concordam com a figura cruel que conhecemos pelos Evangelhos. «Uns Magos»: Estes personagens eram uns sábios prove­nientes provavelmente da Pérsia e dedicados ao estudo das estrelas. Por não serem judeus, são como que as primícias dos gentios que receberão o chamamento à salvação em Cristo. A adoração dos magos foi recolhida pela tradição mais antiga: já em começos do séc. II se encontra a cena nas pinturas das catacumbas de Priscila em Roma.

  1. 2. Os judeus tinham difundido pelo Oriente as esperanças messiânicas. Os magos tinham conhecimento do Messias esperado, rei dos Judeus. O qual, segundo idéias difundidas naquela época, devia ter, como personagem muito impor­tante na história universal, uma estrela relacionada com o seu nascimento. Deus quis valer-se destas concepções para conduzir até Cristo os representantes dos gentios, que haviam de crer.

«Precisamente tinha-se-lhes ocultado antes, para que, ao encontrarem-se sem guia, não tivessem outro remédio senão perguntar aos judeus, e ficasse manifesto a todos o nasci­mento de Cristo» (Hom. sobre S. Mateus, 7).

O mesmo São João Crisóstomo explica que «Deus os chama através do que para eles era mais familiar, e mostra-Ihes uma estrela grande e maravilhosa, para que os impres­sione pela sua própria grandeza e formosura» (Hom. sobre S. Mateus, 6). O chamamento dos magos, enquanto se dedicam ao seu ofício, é um facto que se repete no chama­mento que Deus faz aos homens; chamá-los precisamente entre as ocupações ordinárias da sua vida. Assim chamou Moisés quando pastoreava o rebanho (Ex 3, 1-3), o profeta <Eliseu quando lavrava a sua terra com os bois (1Reg 19, 19-20), Amos quando cuidava o seu gado (Am 7,15)…« O que a ti te admira, a mim parece-me razoável. — Deus foi-te procurar no exercício da tua profissão?

«Foi assim que procurou os primeiros: Pedro, André, João e Tiago, junto das redes; Mateus, sentado à mesa dos impostos…

«E assombra-te! — Paulo, no seu afã de acabar com a semente dos cristãos» (Caminho, n.° 799).

«Tal como os Reis Magos, descobrimos uma estrela que é luz, rumo certo no céu da nossa alma.

«Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo. Também nós tivemos esta experiência. Também nós sentimos que, a pouco e pouco, se acendia na nossa alma uma luz nova: o desejo de ser cristãos em plenitude, o desejo, por assim dizer, de tomar Deus a sério» (Cristo que passa, n.° 32).

  1. 4. No tempo de Jesus encontrava-se amplamente difun­dida em todos os ambientes judaicos a esperança da iminente vinda do Messias, concebido sobretudo como rei à maneira de um novo e maior David. Daqui a perturbação de Herodes, rei dos Judeus com o apoio dos romanos e cruelmente zeloso da defesa da sua coroa. Pela sua ambição política e pela sua carência de sentido religioso, Herodes viu o possível Messias–Rei como um perigoso competidor do seu poder temporal.

No tempo de Nosso Senhor, tanto o regime monárquico de Herodes como o regime de ocupação directa romana por meio dos procuradores tinham respeitado o organismo representativo do próprio povo judaico, constituído pelo Sinédrio. Este era, pois, o grande conselho da nação, que intervinha nos assuntos ordinários, religiosos ou civis. A execução dos assuntos mais importantes necessitava da aprovação, quer do rei (no tempo da monarquia herodiana), quer do procurador (no tempo da ocupação directa da Palestina pelo Império Romano).

Em recordação de Ex 24, 1-9 e Num 11, 16, o Sinédrio compunha-se de 71 membros, presididos pelo sumo sacerdote, escolhidos entre os seguintes três estratos ou grupos do povo judaico: l.° Os príncipes dos sacerdotes, quer dizer, os chefes das principais famílias sacerdotais, entre as quais costumava recair a nomeação do sumo sacerdote, e aqueles que tinham cessado neste cargo. 2.° Os anciãos, que eram os chefes das principais famílias. 3.° Os escribas, que eram os doutores da lei ou peritos nas questões legais e religiosas; a maior parte destes escribas pertencia ao partido ou escola dos fariseus.

Neste passo de Mateus só se mencionam o l.° e 3.° destes grupos que compunham o Sinédrio: isso é lógico, visto que o grupo dos anciãos não era entendido no assunto do nascimento do Messias, que era uma questão eminentemente religiosa.

5-6. A profecia a que se refere o passo é concretamente a de Miqueias 5, 1. É de notar que na tradição judaica se interpretava esta profecia como predição do lugar exacto do nascimento do Messias, e que este era um personagem determinado.

O livro sagrado ensina-nos uma vez mais que em Jesus Cristo se cumprem as profecias do Antigo Testamento.

  1. 8. Herodes pretendia saber com exactidão onde estava o Menino não precisamente para O adorar, como dizia, mas para se livrar d’Ele, segundo a visão puramente política que tinha o então rei dos Judeus. A sua astúcia e maldade não podem impedir que se cumpram os desígnios de Deus. Por cima dos cálculos de Herodes é da sua ambição estavam a sabedoria e o poder divinos para realizar a salvação.
  2. 9. «Quase sempre por nossa culpa, em certos momentos da nossa vida interior, acontece-nos o que aconteceu na viagem dos Reis Magos: a estrela oculta-se (…). Que havemos de fazer então? Seguir o exemplo daqueles homens santos: perguntar. Herodes serviu-se da ciência para proceder de modo injusto; os Reis Magos utilizam-na para fazer o bem. Mas nós, cristãos, não temos necessidade de perguntar a Herodes ou aos sábios da Terra. Cristo deu à Sua Igreja a segurança da doutrina, a corrente de graça dos Sacramentos; e providenciou para que haja pessoas que nos orientem, que nos conduzam, que nos recordem constantemente o caminho» (Cristo que passa, ° 34).
  3. 10. «E por quê tanta alegria? Porque eles, que nunca duvidaram, recebem do Senhor a prova de que a estrela não tinha desaparecido; tinham deixado de a ver sensivelmente, mas tinham-na conservado sempre na alma. Assim é a vocação cristã: se não se perde a fé, se se mantém a esperança em Jesus Cristo que estará connosco até à consumação dos séculos (Mt XXVIII, 20), a estrela reaparece. E, ao verificar uma vez mais a realidade da vocação, nasce em nós uma alegria maior, que aumenta a nossa fé, a nossa esperança, o nosso amor (Cristo que passa, ° 35).
  4. 11. Os dons oferecidos — ouro, incenso e mirra — eram os mais preciosos do Oriente. O homem tem necessidade de oferecer presentes para testemunhar a sua veneração e a sua fé. Já que não pode oferecer-se o próprio homem como desejaria, oferece em seu lugar o que é mais valioso e lhe é mais querido.

Os profetas e o salmista tinham predito para os tempos messiânicos a submissão a Deus dos reis da terra 0s 49, 23), com o oferecimento dos seus bens (Is 60, 5) e a adoração (Ps72,10-15). Com este acto dos magos e o oferecimento dos seus dons a Jesus, Deus e homem, começam a cumprir-se estas profecias.

O Concilio de Trento cita expressamente este passo da adoração dos magos ao ensinar o culto que se deve dar a Cristo na Eucaristia: «Todos os fiéis de Cristo na sua veneração deste Santíssimo Sacramento devem tributar-lhe aquele culto de latria que é devido ao verdadeiro Deus (…). Porque cremos que nele está presente aquele mesmo Deus, de Quem, ao introduzi-Lo o Pai no orbe da terra, diz: E adorem-No todos os anjos de Deus (Heb 1 ,6; cfr Ps 97, 7); a Quem os magos, prostrando-se por terra, adoraram (cfr Mt 2, 11), de Quem, enfim, a Escritura testemunha (cfr Mt 28, 17) que Q adoraram os Apóstolos na Galileia» (De SS. Eucharistia, çap. 5).

Também a propósito deste versículo, comentava São Gregório de Nazianzo: « Nós permaneçamos em adoração; e a Quem por causa da nossa salvação Se humilhou a tal grau de pobreza que recebeu o nosso corpo, ofereçamos, não já Incenso, ouro e mirra — o primeiro como a Deus, o segundo como a rei e o terceiro como Aquele que buscou a morte por nossa causa —, mas dons espirituais, mais sublimes que os que se vêem com os olhos» (Oratio, 19).

  1. 12. A intervenção dos magos nos acontecimentos de Belém termina com um novo acto de delicada obediência e Cooperação com os planos de Deus. Também o cristão deve ser dócil até ao fim à graça e à missão concreta que Deus lhe confie, ainda que isto suponha modificar os planos pessoais que se tenha proposto.

 

14.01.2017 – Mc 2, 13-17

l3Em seguida, saiu outra vez para a beira-mar; e todo o povo concorria para junto d’Ele, e Ele ensinava-os. 14Ao passar, viu Levi, filho de Alfeu, sentado ao telónio e disse-lhe: Segue-Me. E Ele levantou-se e seguiu-O. I5E sucedeu que, estando à mesa em casa dele, também muitos publicanos e pecadores se puseram à mesma mesa com Jesus e Seus discípulos, porque eram muitos os que O seguiam. l6Os Escribas dos Fariseus, ao verem-No a comer com os pecadores e publicanos, diziam aos discípulos: Porque é que Ele come e bebe com os publicanos e pecadores? 17Mas Jesus, que os ouvia, diz-lhes: Náo precisam de médico os sãos, mas os doentes. Não vim chamar justos, mas pecadores.

Comentário

  1. São Marcos e São Lucas (5, 27-32) coincidem em chamar-lhe «Levi». O primeiro Evangelho, porém (Mt 9, 9-13), chama-lhe «Mateus». Trata-se de uma mesma pessoa, ainda que tenha nomes diferentes. Nos três relatos dão-se as mesmas circunstâncias. Mais adiante, São Marcos e São Lucas, ao darem a lista dos Apóstolos (Mc 3, 13-19; Lc 6, 12-16), incluem Mateus, não Levi. Os Santos Padres identifi­caram-nos. Além disso, era freqüente entre os Judeus terem dois nomes: Jacob-Israel; Simão-Pedro; Saulo-Paulo; José-Caifás; João-Marcos… Com freqüência, o nome e o sobrenome estavam relacionados com uma mudança significativa na vida e missão de tal pessoa. Terá havido também neste caso uma mudança originada pela irrupção salvadora de Jesus na vida do apóstolo? O Evangelho nada diz.

Levi-Mateus, pela sua condição de publicano (Mt 9, 9-13), estava a cobrar os impostos no «telónio» — posto público para o pagamento de tributos —. Os publicanos eram cobradores ao serviço dos romanos. Por isso era um ofício odiado e desprezado pelo povo, ainda que, ao mesmo tempo, apetecido pela facilidade de enriquecimento. Quando Jesus chama Mateus, este deixa tudo. Obedece imediatamente à vocação de Jesus, que lhe dá a graça para responder ao Seu chamamento.

Jesus é o fundamento da confiança na nossa própria transformação, se colaborarmos com a Sua graça, por mais desprezível que tenha sido o nosso comportamento anterior. E é também o fundamento da confiança para o nosso apostolado em favor da conversão e santificação dos outros. Ele, que é o Filho de Deus, até das pedras é capaz de tirar filhos de Deus (cfr Mt 3, 9). Cfr a nota a Mt 9. 9.

  1. À pergunta que, em tom de censura, os escribas e os fariseus fazem aos discípulos, Jesus responde com um provérbio já conhecido: «Não têm necessidade de médico os sãos, mas os doentes». Ele é o médico das almas e veio para curar os pecadores das doenças espirituais de que padecem. O Senhor chama a todos, a Sua missão redentora é universal; noutras ocasiões afirma-o utilizando parábolas como a do banquete de núpcias (Mt 22, 1-14; Lc 14, 16-24). Como explicar então essa restrição que parece pôr aqui o Senhor, ao dizer que não veio para chamar os justos? Não se trata na realidade de uma restrição. Jesus aproveita a ocasião para censurar aos escribas e fariseus a sua atitude orgulhosa: consideravam-se justos e a sua complacência nesta aparente virtude afastava-os do chamamento à con­versão, pensando que se salvariam por si mesmos (cfr Ioh 9, 41). Assim se pode explicar este provérbio pronunciado por Jesus, que, por outro lado, deixou claro na Sua pregação que «ninguém é bom senão um, Deus» (Mc 10,18), e que todos os homens têm de recorrer à misericórdia e ao perdão de Deus para se salvarem. Porque, em última análise, não há dois blocos na humanidade: um de justos e outro de pecadores. Todos somos pecadores, como atesta São Paulo: «Todos pecaram e carecem da glória de Deus» (Rom 3, 23). Preci­samente por isto. Cristo veio para nos chamar a todos, e àquele que responde ao Seu chamamento, fá-lo justo.

As palavras do Senhor devem mover-nos também a rezar com humildade e confiança por aquelas pessoas que parece que querem continuar a viver no pecado. Como suplicava Santa Teresa: «Oh, que dura coisa Vos peço, verdadeiro Deus meu: que ameis a quem não vos ama, que abrais a quem não Vos chama, que deis saúde a quem gosta de estar doente e anda a procurar a doença! Vós dizeis, Senhor meu, que vindes buscar os pecadores. Estes, Senhor, são os verda­deiros pecadores. Não olheis a nossa cegueira, meu Deus. mas o muito sangue que derramou o Vosso Filho por nós; resplandeça a Vossa misericórdia em tão crescida maldade; olhai, Senhor, que somos feitura Vossa» (Exclamações, n° 8).

Por outro lado, os Santos Padres costumam entender esse chamamento de Jesus aos pecadores como um convite ao arrependimento e à penitência. Assim, São João Crisóstomo (Hom. sobre S. Mateus, 30,3) explica a frase, pondo na boca de Jesus estas palavras: «Não vim para que continuem a ser pecadores, mas para que se convertam e cheguem a ser melhores».

 

15.01.2017 – Jo 1, 29-34

29No dia seguinte, vê este a Jesus, que vinha ter com ele, e diz: Aí está o Cordeiro de Deus, que vai tirar o pecado do mundo. 30Era d’Este que eu dizia: «Depois de mim vem um homem que passou à minha frente, por­que era antes de mim». 31E eu não O conhe­cia; mas para Ele Se manifestar a Israel é que eu vim baptizar em água.

32João deu mais este testemunho: Eu vi o Espírito que descia do Céu, como uma pomba e permaneceu sobre Ele. 33E eu não O conhe­cia, mas quem me enviou a baptizar em água é que me disse: «Aquele sobre quem vires o Espírito descer e permanecer é que baptiza no Espírito Santo». 34Ora eu vi e sou testemunha de que Ele é o Filho de Deus.

Comentário

  1. Pela primeira vez no Evangelho se chama a Cristo «Cordeiro de Deus». Este nome alude ao sacrifício redentor de Cristo. Já Isaías tinha comparado os sofrimentos do Servo de Yahwéh, do Messias, com o sacrifício de um cordeiro (cfr Is 53,7); por outro lado, o sangue do cordeiro pascal, aspergido sobre as portas das casas, tinha servido para livrar da morte os primogênitos dos israelitas no Egipto (cfr Ex 12,6-7). Tudo isso era promessa e figura do verdadeiro Cordeiro, Cristo, vítima no sacrifício do Calvário em favor de toda a humanidade. Por isto. São Paulo dirá que «o nosso Cordeiro pascal, Cristo, foi imolado» (1Cor 5,7). A expressão «Cordeiro de Deus» indica também a inocência imaculada do Redentor (cfr 1Pet 1,18-20; 1Ioh 3,5).

O texto sagrado diz «o pecado do mundo», no singular, para manifestar de modo absoluto que tirou todo o gênero de pecados. Cristo, na verdade, veio livrar-nos do pecado original, que em Adão atingiu todos os homens, e de todos os pecados pessoais.

O livro do Apocalipse revela-nos que Jesus está triunfante e glorioso nos Céus como o «Cordeiro imolado» (Apc 5,6-14), rodeado dos santos, dos mártires e das virgens (Apc 7, 9.14; 14,1-5), dos quais recebe louvor e glória por ser Deus (Apc 7,10).

Sendo a Sagrada Comunhão a participação no Sacrifício de Cristo, os sacerdotes pronunciam estas palavras do Baptista antes de administrar a Sagrada Comunhão, para suscitar nos fiéis o agradecimento ao Senhor por Se ter entregado à morte para nossa salvação e por Se nos dar como alimento das nossas almas.

30-31. João Baptista declara aqui a superioridade de Jesus ao dizer que Ele existia já antes dele, apesar de ter nascido depois. Mostra assim a divindade de Cristo, gerado pelo Pai desde toda a eternidade e nascido de Maria Virgem no tempo. Ê como se o Baptista dissesse: «Embora eu tenha nascido antes d’Ele, a Ele não O limitam os laços do Seu nascimento; porque mesmo quando nasce de Sua Mãe no tempo, foi gerado pelo Pai fora do tempo» (In Evangelia homiliae, 7).

Com as palavras do v. 31 o Precursor não pretende negar o conhecimento pessoal que tinha de Jesus (cfr Lc 1,36 e Mt 3,14), mas manifestar que conheceu por revelação divina o momento de proclamar publicamente a condição do Senhor como Messias e Filho de Deus, e que compreendeu também que a sua própria missão de Precursor não tinha outra finalidade a não ser dar testemunho de Jesus Cristo.

32-34, Para confirmar a divindade de Jesus Cristo, o evangelista recolhe o testemunho do Precursor sobre o Baptismo de Jesus (vejam-se os outros Evangelhos que descrevem com mais pormenor como aconteceu o Baptismo, cfr Mt 3,13-17 e par.). É um dos momentos cume da vida do Senhor em que se revela o mistério da Santíssima Trindade (cfr a nota a Mt 3,16).

A pomba é símbolo do Espírito Santo, de quem se diz no Gen 1,2 que revoava sobre as águas. Com este sinal cum­prem-se as profecias de Is 11,2-5; 42,1-2, segundo as quais o Messias estaria cheio da força do Espírito Santo. O Baptista manifesta a grande diferença entre o seu baptismo e o de Cristo; em Ioh 3, Jesus falará deste novo Baptismo na água e no Espírito (cfr Act 1,5; Tit 3,5).

«O Filho de Deus»: E de notar que a expressão tem artigo no texto original, o que quer dizer que João Baptista confessa diante dos seus ouvintes o caracter sobrenatural e transcendente do messianismo de Cristo, tão distante da idéia político-religiosa que tinham forjado os dirigentes do judaísmo.

 

16.01.2017 – Mc 2, 18-22

18Um dia em que os discípulos de João e os dos Fariseus jejuavam, vêm e dizem-Lhe: Porque é que os discípulos de João e os discípulos dos Fariseus jejuam e os Teus discípulos não jejuam? 19Disse-lhes Jesus: Porventura podem os convidados das bodas jejuar enquanto está com eles o esposo? Enquanto têm consigo o esposo, não podem jejuar. 20Dias virão em que o esposo lhes será tirado, e então jejuarão naquele dia.21Nin­guém cose um remendo de pano não pisoado num vestido velho, senão o conserto novo puxa pelo velho, e o rasgão torna-se ainda maior. 22Como também ninguém deita vinho novo em odres velhos; aliás o vinho arre­bentará os odres, e perde-se o vinho e os odres. Para vinho novo, odres novos.

Comentário

18-22. A resposta de Cristo declara, a propósito de/um caso particular, as relações entre o Antigo e o Novo Testa­mento. No Antigo o Esposo ainda não tinha chegado, no Novo está presente em Cristo. Com Ele começam os tempos mes­siânicos, uma época nova e diferente da anterior. O jejum dos judeus, portanto, deve ser entendido, dentro do conjunto das suas observâncias religiosas, como preparação de todo o povo para a vinda do Messias. Cristo mostra a diferença entre o espírito que Ele traz e o do judaísmo daquela época. Este espírito novo não será uma peça acrescentada ao velho, mas um princípio vivificante dos ensinamentos perenes da antiga Revelação. A novidade do Evangelho, tal como o vinho novo, não cabe nos moldes da Lei antiga.

Mas este passo diz algo mais: para receber a nova doutrina de Cristo é preciso que os homens se renovem por dentro e, por conseguinte, se desprendam das rotinas de uma vida anquilosada. Cfr a nota a Mt 9,14-17.

19-20. Jesus Cristo designa-Se no v. 19 como o Esposo (cfr também Lc 12, 35-36; Mt 25,1-13; Ioh 3,29), cumprindo assim o que tinham dito os profetas relativamente às relações

Deus com o Seu povo (cfr Os 2, 18-22; Is 54, 5 ss.). Os Apóstolos são os companheiros do Esposo nas núpcias, convidados a participar com Ele no banquete nupcial, na alegria do Reino dos Céus (cfr Mt 22,1-14).

No v. 20 Jesus Cristo anuncia que o Esposo lhes será arrebatado: é a primeira alusão que faz Jesus à Sua Paixão e Morte (cfr Mc 8, 31; Ioh 2,19; 3,14). A visão de alegria e dor, que encontramos nestes dois versículos, ajuda-nos a com­preender também a condição humana enquanto caminhamos na terra.

 

17.01.2017 – Mc 2, 23-28

23Sucedeu também que, atravessando Ele por meio de umas searas em dia de o sábado, os discípulos começaram a colher espigas enquanto caminhavam. 24E os Fariseus diziam-Lhe: Olha! Como é que eles fazem ao sábado o que não é lícito? 25Diz-lhes Ele: Nunca lestes o que fez David, quando se viu em necessidade e teve fome, ele e os que estavam com ele? 26Como entrou na casa de Deus, no tempo do Sumo Sacerdote Abiatar, e comeu os pães da proposição, que só os sacerdotes podem comer, e deu também aos que estavam com ele? 27E acrescentou: O sábado fez-se para o homem e não o, homem para o sábado. 28Por isso o Filho do homem é também senhor do sábado.

Comentário

  1. Cfr a nota a Mt 12,2.

26-27. Os pães da proposição eram doze pães que se colocavam todas as semanas na mesa do santuário, como homenagem das doze tribos de Israel ao Senhor (cfr Lev 24, 5-9). Os pães substituídos ficavam reservados para os sacer­dotes que serviam no culto.

O comportamento de Abiatar antecipou a doutrina que Cristo ensina neste passo. Já no Antigo Testamento Deus tinha estabelecido uma ordem nos preceitos da Lei, de modo que os de menor categoria cedem diante dos principais.

À luz disto explica-se que um preceito cerimonial (como o que comentamos) cedesse diante de um preceito da lei natural. Igualmente o preceito do sábado não está por cima das necessidades elementares da subsistência. O Concilio Vaticano II inspira-se neste passo para sublinhar o valor da pessoa por cima do desenvolvimento econômico e social: «A ordem social e o seu progresso devem, pois, reverter sempre em bem das pessoas, já que a ordem das coisas deve estar subordinada à ordem das pessoas e não ao contrário; foi o próprio Senhor quem o insinuou ao dizer que o sábado fora feito para o homem, não o homem para o sábado. Essa ordem, fundada na verdade, construída sobre a justiça e vivificada pelo amor, deve ser cada vez mais desenvolvida» (Gaudium et spes, n. 26).

Finalmente, neste passo Cristo ensina qual era o sentido da instituição divina do sábado: Deus tinha-o instituído para bem do homem, para que pudesse descansar e dedicar-se com paz e alegria ao culto divino. A interpretação dos fariseus tinha convertido este dia em ocasião de angústia e de preocupação por causa da multiplicidade de prescrições e de proibições.

Ao proclamar-Se «senhor do sábado», Jesus afirma a Sua divindade e o Seu poder universal. Por esta razão, pode esta­belecer outras leis. tal como Yahwéh no Antigo Testamento.

  1. O sábado tinha sido feito não só para que o homem descansasse, mas para que desse glória a Deus: este é o autêntico sentido da expressão «o sábado foi feito para o homem». Jesus bem pode chamar-se senhor do sábado, porque é Deus. Cristo restitui ao descanso semanal toda a sua força religiosa: não se trata do mero cumprimento de uns preceitos legais, nem de preocupar-se apenas dum bem-estar material: o sábado pertence a Deus e é um modo, adaptado à natureza humana, de dar glória e honra ao Todo-poderoso. A Igreja, desde o tempo dos Apóstolos, transferiu a obser­vância deste preceito para o dia seguinte, domingo — dia do Senhor —, para celebrar a Ressurreição de Cristo (Act 20, 7).

«Filho do Homem»: A origem do significado messiânico da expressão «Filho do Homem» aparece sobretudo na profecia de Daniel 7, 13 ss., que contempla em visão profética que sobre as nuvens do céu desce um «como Filho de Homem», que avança até ao tribunal de Deus e recebe o senhorio, a glória e o império sobre todos os povos e nações. Esta expressão foi preferida por Jesus (69 vezes aparece nos Evangelhos Sinópticos) a outras denominações messiânicas, como Filho de David, Messias, etc., para evitar, ao mesmo tempo, a carga nacionalista que os outros títulos tinham então na mente dos Judeus (cfr Introdução ao Evangelho segundo São Marcos, p. 459).

 

18.01.2017 – Mc 3, 1-6

Entrou outra vez na sinagoga. Achava-se lá um homem que tinha uma das mãos ressequida. 2E eles estavam-No observando, para ver se o curava ao sábado, com intento de O acusarem. 3Então diz ao homem que tinha a mão seca: Levanta-te e vem para o meio. 4Depois pergunta-lhes: É lícito, em dia de sábado, fazer bem, ou fazer mal? Salvar uma vida, ou tirá-la? Mas eles cala­ram-se. 5E Jesus, lançando sobre eles um olhar de indignação, contristado por ver aqueles corações tão calejados, diz ao homem: Estende a mão. Ele estendeu-a, e a mão ficou curada. 6Os Fariseus, porém, saindo dali, reuniram imediatamente conselho com os Herodianos contra Ele, para O matarem.

Comentário

  1. Os evangelistas falam-nos várias vezes do olhar de Jesus (p. ex. ao jovem rico: Mc 10,21; a São Pedro: Lc22, 61; etc.). Esta é a única vez em que se alude à indignação no olhar de Nosso Senhor, provocada pela hipocrisia que foi indicada no v. 2.
  2. Os fariseus eram os dirigentes espirituais do judaísmo e os herodianos os partidários do regime de Herodes, com o qual tinham prosperado política e economicamente. Opunham-se uns aos outros e não conviviam, mas juntos vão fazer s causa comum contra Jesus. Os fariseus tentam fazê-Lo desa­parecer porque O consideram como um perigoso inovador. A ocasião mais imediata pôde ser que tinha perdoado os pecados (Mc 2, 1 ss.) e interpretado com toda a autoridade o preceito do sábado (Mc 3, 2); querem também acabar com Jesus porque consideram que Ele, com o Seu proceder, os desprestigiou ao curar o homem que tinha a mão seca. Os herodianos, por seu lado, desprezavam o tom sobrenatural e escatológico da mensagem de Cristo, já que eles esperavam um Messias meramente político e temporal.

 

19.01.2017 – Mc 3, 7-12

7E Jesus com Seus discípulos retirou-Se para o mar, seguido por uma grande multidão da Galileia; e outra grande multidão da Judeia, 8de Jerusalém, da Idumeia, de além–Jordão e das comarcas de Tiro e de Sidónia, ouvindo as grandes coisas que fazia, veio ter com Ele, 9tanto que disse aos discípulos que Lhe tivessem pronta uma barca, para que o tropel da gente O não oprimisse; 10pois, tendo curado muitos, todos os que tinham doenças se precipitavam para Ele, para Lhe tocarem; 11e os espíritos imundos, quando O viam, caíam-Lhe aos pés, gritando: Tu és o Filho de Deus. 12Mas Ele intimava-lhes com energia que O não dessem a conhecer.

Comentário

  1. Durante a vida pública do Senhor repetidamente as multidões aglomeravam-se junto d’Ele para serem curadas (cfr Lc 6, 19; 8, 45; etc,). Como em muitas curas, São Marcos recolhe graficamente o que Jesus realizava sobre os doentes (cfr Mc l, 31.41; 7,31-37; 8,22-26; Ioh 9,1-7.11.15). O Senhor, ao fazer estas curas, mostra que é Deus e homem ao mesmo tempo: cura em virtude do Seu poder divino, servindo-Se da Sua natureza humana. Com efeito, só no Verbo de Deus feito carne se realizou a obra da nossa Redenção, e o instrumento da nossa salvação foi a Humanidade de Jesus — corpo e alma — na unidade da pessoa do Verbo (cfr Sacrosanctum Concilium, n. 5).

Este aglomerar-se das gentes reitera-se em todos os cristãos de qualquer época, porque a Humanidade Santíssima do Senhor é o único caminho para a nossa salvação e o meio insubstituível para nos unir com Deus. Assim, pois, hoje nós podemos aproximar-nos do Senhor por meio dos sacra­mentos, de modo singular e eminente pela Eucaristia. Pelos sacramentos flui também para nós, desde Deus e através da Humanidade do Verbo, uma virtude que cura aqueles que os recebem com fé (cfr Suma Teológica, III, q. 62, a. 5).

 

20.01.2017 – Mc 3, 13-19

13Subiu depois ao monte e chamou a Si os que Ele quis, e eles foram-se para junto d Ele. 14E designou doze para andarem com Ele e para os mandar a pregar, 15com poder de expulsarem os Demônios. 16Designou, pois, os doze: Simão, a quem impôs o nome de Pedro; 17Tiago, filho de Zebedeu, e João, irmão de Tiago, aos quais pôs o nome de Boanerges, isto é, «filhos do trovão»;18André, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tome, Tiago, filho de Alfeu, Tadeu, Simão, o Cananeu, 19e Judas Iscariotes, que foi o que O entregou.

Comentário

  1. «Chamou a Si os que Ele quis»: Deus quer ensinar-nos que a vocação é uma iniciativa divina. Isto é particularmente aplicável à vocação dos Apóstolos. Por isso pôde Jesus dizer-lhes mais tarde: «Não fostes vós que Me escolhestes a Mim, mas Eu que vos escolhi a vós» (Ioh 15, 16). Aqueles que iam ter poder e autoridade dentro da Igreja, não obteriam esses poderes em virtude de um oferecimento pessoal, aceite depois por Jesus, mas ao contrário. «Pois não por própria iniciativa e preparação, mas pela graça divina, seriam chamados ao apostolado» (In Marci Evangelium expositio, ad loc.).

14-19. Os Doze são escolhidos por Jesus (cfr 3, 14), recebendo uma vocação específica para serem «enviados», que é o que significa a palavra «apóstolos». Jesus escolhe-os para a missão posterior (6, 6-13), e para isso lhes outorgará parte do Seu poder. O facto de Jesus escolher precisamente doze tem um profundo significado. O seu número corresponde ao dos doze Patriarcas de Israel, e os Apóstolos representam o novo Povo de Deus, a Igreja, fundada por Cristo. Jesus quis assim pôr em relevo a continuidade entre o Antigo e o Novo Testamento. Eles são as colunas sobre as quais Cristo edifica a Igreja (cfr Gal 2,9). A sua missão consistirá em fazer discípulos do Senhor (ensinar) todos os povos, santificar e governar os crentes (Mt 28, 16-20; Mc 16, 15; Lc 24, 45-48; Ioh 20, 21-23). A própria designação dos Doze mostra que formam um grupo determinado e completo; por isso, depois da morte de Judas, o traidor, é escolhido Matias para completar este número (Act 1, 15-26).

  1. O Concilio Vaticano II vê neste texto a instituição do Colégio Apostólico: «O Senhor Jesus, depois de ter orado ao Pai, chamando a Si os que Ele quis, elegeu doze para estarem com Ele e para os enviar a pregar o Reino de Deus (cfr Mc 3, 13-19; Mt 10, 1-42); e a estes Apóstolos (cfr Lc 6, 13) constituiu-os em colégio ou grupo estável e deu-lhes como chefe a Pedro, escolhido de entre eles (cfr Ioh 21, 15-17) (…). Esta missão divina confiada por Cristo aos Apóstolos durará até ao fim dos tempos (cfr Mt 28, 20), uma vez que o Evangelho que eles devem anunciar é em todo o tempo o princípio de toda a vida na Igreja. Pelo que os Apóstolos trataram de estabelecer sucessores, nesta sociedade hierarquicamente constituída» (Lumen gentium, n. 19-20). Portanto, o Papa e os Bispos, que sucedem ao Colégio dos Doze, são também chamados pelo Senhor para estarem sempre com Jesus e pregar o Evangelho, secundados pelos presbíteros.

Insiste-se, por outro lado, em que a vida de união com Cristo e o zelo apostólico devem estar estreitamente vincu­lados; isto é, a eficácia no apostolado depende sempre da união com o Senhor, da oração contínua, e da vida sacra­mentai: «O zelo é uma loucura divina de apóstolo, que te desejo, e que tem estes sintomas: fome de intimidade com o Mestre; preocupação constante pelas almas; perseverança, que nada faz desfalecer» (Caminho, n° 934).

  1. A frase «designou os doze», semelhante a «designou doze» do v. 14, está atestada por muitos manuscritos, apesar de que não a recolhe a Neo-vulgata. A insistência na mesma expressão e o artigo «os doze» manifestam a importância da instituição do Colégio Apostólico.

 

21.01.2017 – 3, 20-21

20Votou depois para casa. E de novo acorreu tanta gente, que nem sequer podiam comer um bocado de pão. 21Ao saberem isto, os Seus saíram a ter mão n’Ele, pois se dizia: Está fora de Si.

Comentário

20-21. Alguns dos Seus parentes, deixando-se levar por pensamentos meramente humanos, interpretaram a absorvente dedicação de Jesus ao apostolado como um exagero, explicável — na sua opinião — apenas por uma perda de juízo. Ao ler estas palavras do Evangelho, não podemos pelo menos deixar de nos sentir afectados pensando naquilo a que Se submeteu Jesus por nosso amor: a que dissessem que tinha «perdido o juízo». Muitos santos, a exemplo de Cristo, passarão também por loucos, mas serão loucos de Amor, loucos de Amor a Jesus Cristo.

22.01.2017 – Mt 4, 12-23

12Quando ouviu que João fora entregue, retirou-se para a Galileia. 13E, deixando Nazaré, passou a morar em Cafarnaum, à beira-mar, nos confins de Zabulão e de Neftalim, 14para se cumprir o que fora anun­ciado pelo profeta Isaías, que diz: 15«Terra de Zabulão e terra de Neftalim, para os lados do mar, terra de Além-Jordão, Galileia dos Gentios:

16O povo que jazia nas trevas viu uma grande luz, e a luz amanheceu aos que jaziam na região caliginosa da morte».

17Desde então, começou Jesus a pregar e a dizer: Fazei penitência, porque está próximo o Reino dos Céus.

18Passeando ao longo do mar da Galileia, viu dois irmãos, Simão chamado Pedro e André, seu irmão, a deitarem a tarrafa ao mar, pois eram pescadores, 19e disse-lhes: Vinde após Mim, e far-vos-ei pescadores de homens.

20E eles imediatamente, deixadas as redes, seguiram-No.

21Prosseguindo dali, viu outros dois irmãos, Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, na barca, com o pai Zebedeu, a consertarem as redes e chamou-os 22E eles imediatamente, deixando a barca e o pai, seguiram-No.

23E Jesus discorria por toda a Galileia, ensinando nas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino e curando todas as doenças e todas as enfermidades no povo.

Comentário

  1. Veja-se a nota a Mt 3, 2. O versículo indica a transcendência do momento inicial da pregação pública de Jesus, que começa pela proclamação da iminência do Reino de Deus. Jesus entronca na proclamação de João Baptista: pode apreciar-se uma coincidência até literal entre a segunda frase deste versículo e Mt 3,2. Esta coincidência sublinha a função que teve São João Baptista como profeta e precursor de Jesus. Tanto o Baptista como Nosso Senhor exigem o arrependimento, a penitência, como condição prévia para o acolhimento do Reino de Deus que começa.

O reinado de Deus sobre os homens é tema central da Revelação de Jesus Cristo, como o tinha sido no AT. Mas então, o Reino de Deus tinha tido uma matização que se pode chamar teocrática: Deus reinava sobre Israel tanto no espi­ritual como no temporal, e, por meio dele, submeteria ao Seu domínio as outras nações. Agora Jesus irá explicando de modo progressivo a renovada natureza deste Reino de Deus, que chegou à sua plenitude, situando-o no seu plano espiritual de amor e santidade, e purificando-o dos desvios nacionalistas dos judeus.

Este Reino, para o qual o Rei convida todos sem excepção (cfr Mt 22, 1-14), tem na terra o seu Banquete, que exige certas condições, que os propagadores deste Reino hão-de pregar. «Portanto, o banquete eucarístico é o centro da assembléia dos fiéis a que o presbítero preside. Por isso, os presbíteros ensinam os fiéis a oferecer a Deus Pai a vítima divina no sacrifício da missa, e a fazer, com ela, a oblação da sua vida; com o espírito de Cristo Pastor, ensinam-nos a submeter de coração contrito à Igreja no sacramento da Peni­tência os próprios pecados, de tal modo que se convertam cada vez mais no Senhor, lembrados das Suas palavras: ‘Fazei penitência, porque o reino dos céus está próximo’» (Presbyterorum ordinis, n. 5).

18-22. Os quatro discípulos conheciam já o Senhor (Ioh l, 35-42). A breve convivência com Jesus deve ter produzido uma atracção imperiosa nas suas almas. Cristo preparava assim a vocação destes homens. Agora trata-se já daquela vocação eficaz, que os moveu a abandonar todas as suas coisas para O seguir e ser Seus discípulos. Por cima dos defeitos humanos — que os Evangelhos não dissimulam — ressalta, sem dúvida e de modo exemplar, a generosidade e prontidão com que os Apóstolos corresponderam ao chama­mento divino.

O leitor atento poderá descobrir e admirar a terna simplicidade com que os evangelistas relataram, para sempre, as circunstâncias da vocação destes homens no meio dos seus afazeres quotidianos.

«Deus tira-nos das trevas da nossa ignorância, do nosso caminho incerto entre os acontecimentos da história e chama-nos com voz forte, como um dia o fez com Pedro e André» (Cristo que passa, n° 45).

«Diálogo divino e humano, que transformou a vida de João e de André, de Pedro, de Tiago e de tantos outros; que preparou os seus corações para escutarem a palavra imperiosa que Jesus lhes dirigiu junto ao mar da Galileia» (Cristo que passa, n° 108).

São de salientar as palavras com que a Sagrada Escritura descreve a entrega imediata destes apóstolos. Pedro e André deixaram imediatamente as redes e seguiram-No. Do mesmo modo, Tiago e João deixaram imediatamente a barca e o pai e seguiram-No. Deus passa e chama. Se não se Lhe responde imediatamente, Ele pode continuar o Seu caminho e nós podemos perdê-Lo de vista. A passagem de Deus pode ser rápida; seria triste que ficássemos para trás, por querermos segui-Lo levando connosco muitas coisas que não serão senão peso e estorvo.

Sobre o chamamento de Cristo dirigido aos homens no meio do seu trabalho habitual, veja-se a nota a Mt 2,2.

  1. «Sinagoga»: E um nome de origem grega que designa o edifício onde se reúnem os judeus, no dia de Sábado e noutros dias festivos, para celebrar os cultos religiosos, exceptuados os sacrifícios, que só podiam realizar-se no Templo de Jerusalém. A sinagoga era também o lugar onde se atendia à formação religiosa dos judeus. Eram também indicadas com este nome as pequenas comunidades judaicas dentro da Palestina ou no estrangeiro.

 

23.01.2017 – Mc 3, 22-30

22Mas os Escribas, descidos de Jerusalém, diziam: Está possesso de Belzebu, e é em virtude do príncipe dos Demônios que os expulsa. 23Chamou-os Ele e disse-lhes, em parábolas: Como pode Satanás expulsar a Satanás? 24Se um reino se divide contra si mesmo, não pode um tal reino sustentar-se. 25E, se uma casa se divide contra si mesma, não poderá esta casa sustentar-se. 26Se, pois, Satanás se levantou contra si mesmo e se dividiu, não pode sustentar-se, mas está no fim. 27O facto é que ninguém pode entrar em casa dum valente e saquear-lhe as alfaias, sem primeiro o prender; só então lhe saqueará a casa.

28Em verdade vos digo que aos filhos dos homens serão perdoados todos os pecados e todas as blasfêmias que proferirem; 29mas quem blasfemar contra o Espírito Santo jamais alcançará perdão: será réu de delito eterno, 30porque diziam: — Está possesso de um espírito imundo.

Comentário

22-23. Até os milagres de Jesus foram mal entendidos por aqueles escribas que O acusam de ser instrumento do príncipe dos demônios: Beelzebu. Este nome pode rela­cionar-se com Beelzebub, assim o escrevem alguns códices, nome de um deus da cidade filisteia do Eqroii (Accaron), que significa «deus das moscas». Embora seja mais provável que o príncipe dos demônios se denomine Beelzebu, porque este termo significa «deus do estéreo», e estéreo chamavam os Judeus aos sacrifícios pagãos. Beelzebub ou Beelzebu, era aquele a quem se dirigiam, em última análise, esses sacri­fícios: o demônio (l Cor 10, 20). É o mesmo personagem misterioso, mas real, que Jesus chama Satanás, que significa o adversário, e a que Cristo veio arrancar o domínio que tinha sobre o mundo (1Cor 15, 24-28; Col 1, 13 s.), numa luta incessante (Mt 4, 1-10; Ioh 16, 11). Estes nomes mostram a realidade do demônio, como um ser pessoal, que tem ao seu serviço outros muitos da sua natureza (Mc 5,9).

24-27. O Senhor convida agora os fariseus, obcecados e endurecidos, a fazer uma consideração simples: se alguém expulsa o demônio, isto quer dizer que é mais forte do que ele. É uma exortação mais a reconhecer em Jesus o Deus «forte», o Deus que com o Seu poder liberta o homem da escravidão do demônio. Terminou o domínio de Satanás: o príncipe deste mundo está a ponto de ser expulso. A vitória de Jesus sobre o poder das trevas, que culmina na Sua Morte e Ressur­reição, demonstra que a luz está já no mundo. Disse-o o próprio Senhor: «Agora é o julgamento deste mundo. Agora é que o Príncipe deste mundo vai ser lançado fora» (Ioh 12,31-32).

28-30. Jesus acaba de realizar um milagre, mas os escribas não o reconhecem «porque eles diziam: Tem um espírito imundo» (v. 30). Não querem admitir que Deus é o autor do milagre. Nessa atitude consiste precisamente a gravidade especial da blasfêmia contra o Espírito Santo: atribuir ao príncipe do mal, a Satanás, as obras de bondade realizadas pelo próprio Deus. Quem actuasse assim viria a ser como um doente que, no cúmulo da sua desconfiança, repelisse o médico como um inimigo, e rejeitasse como um veneno o remédio que o poderia salvar. Por isso diz Nosso Senhor que o que blasfema contra o Espírito Santo não terá perdão: não porque Deus não possa perdoar todos os pecados, mas porque esse homem, na sua obcecação perante Deus, rejeita Jesus Cristo, a Sua doutrina e os Seus milagres, e despreza as graças do Espírito Santo como se fossem enganos para o perder (cfr Catecismo Romano, II, 5, 19; Suma Teológica, II-II q. 14, a. 3). Veja-se a nota a Mt 12, 31-32.

24.01.2017 – Mc 3, 31-35

31Nisto chegaram Sua Mãe e Seus irmãos e, ficando fora, mandaram-No chamar. “Ora estava muita gente sentada à volta d’Ele, quando Lhe disseram: Olha, Tua Mãe, Teus irmãos e Tuas irmãs estão ali fora a pro­curar-Te. 33Mas Ele respondeu: Quem é Minha mãe e Meus irmãos?34 E, percorrendo com o olhar todos o que estavam à volta d’Ele, disse: 35Quem faz a vontade de Deus, esse é Meu irmão, e irmã, e mãe.

Comentário

31-35. A palavra «irmãos» era em aramaico, a língua falada por Jesus, uma expressão genérica para indicar um parentesco: irmãos também se chamavam os sobrinhos, os primos direitos e os parentes em geral. (Para mais explica­ções cfr a nota a Mc 6, 1-3). «Jesus não disse estas palavras para renegar Sua mãe, mas para mostrar que não só é digna de honra por ter gerado Cristo, mas também pelo cortejo de todas as virtudes» (Enarratio in Evangelium Marci, ad loc.).

Por isso, a Igreja recorda-nos que a Santíssima Virgem « acolheu as palavras com que o Filho, pondo o reino acima de todas as relações de parentesco, proclamou bem-aventurados todos os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática; coisa que Ela fazia fielmente» (Lumen gentium, n. 58).

O Senhor, pois, ensina também que segui-Lo nos leva a compartilhar a Sua Vida até tal ponto de intimidade que constitui um vínculo mais forte que o familiar. São Tomás explica-o dizendo que Cristo «tinha uma geração eterna e outra temporal, e antepõe a eterna à temporal. Aqueles que fazem a vontade de Meu Pai alcançam-No segundo a geração celestial (…). Todo o fiel que faz a vontade do Pai, isto é, que simplesmente Lhe obedece, é irmão de Cristo, porque é semelhante Àquele que cumpriu a vontade do Pai. Mas, quem não só obedece, mas converte os outros, gera Cristo neles, e desta maneira chega a ser como a Mãe de Cristo» (Comentário sobre S. Mateus, 12,49-50).

 

25.01.2017 – Mc 16, 15-18

15e disse-lhes Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura. 16Quem acre­ditar e for baptizado será salvo, mas quem não crer será condenado. 17Aos que crerem acompanhá-los-ão estes milagres: em Meu nome expulsarão Demônios, falarão novas línguas, 18pegarão em serpentes e, se beberem peçonha, não lhes fará mal, imporão as mãos aos doentes, e eles recobrarão saúde.

Comentário

  1. Este versículo contém o chamado mandato apostó­lico universal, que é paralelo ao de Mt 28,19-20 e ao de Lc 24,46-48. É um mandato imperativo de Cristo aos Seus Após­tolos para que preguem o Evangelho a todas as nações. Essa mesma missão apostólica incumbe, de modo especial, aos sucessores dos Apóstolos, que são os Bispos em comunhão com o Papa, sucessor de Pedro.

Não só eles, porém, mas toda «a Igreja nasceu para tornar todos os homens participantes da redenção salvadora e, por eles, ordenar efectivamente a Cristo o universo inteiro, dilatando pelo mundo o Seu Reino para glória de Deus Pai. Toda a actividade do Corpo místico que a este fim se oriente, chama-se apostolado. A Igreja exerce-o de diversas maneiras, por meio de todos os seus membros, já que a vocação cristã é também, por sua própria natureza, vocação ao aposto-lado. (…). Existe na Igreja diversidade de funções, mas unidade de missão. Aos Apóstolos e seus sucessores, confiou Cristo a missão de ensinar, santificar e governar em Seu nome e com o Seu poder. Mas os leigos, dado que são participantes do múnus sacerdotal, profético e real de Cristo, têm um papel próprio a desempenhar na missão do inteiro Povo de Deus, na Igreja e no mundo» (Apostolicatn actuositatem, n. 2).

É verdade que Deus actua directamente na alma de cada pessoa por meio da Sua graça, mas, ao mesmo tempo, deve afirmar-se que é vontade de Cristo, expressa neste e noutros textos, que os homens sejam instrumento ou veículo de salvação para os outros homens.

Neste sentido também o Concilio Vaticano II ensina: «A todos os fiéis incumbe, portanto, o glorioso encargo de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens em toda a terra» (Ibid., n. 3).

  1. Como consequência da proclamação da Boa Nova ensina-se neste versículo que a fé e o Baptismo são requisitos indispensáveis para alcançar a salvação. A conversão à fé de Jesus Cristo há-de levar directamente ao Baptismo, que nos «confere a primeira graça santificante, pela qual se perdoa o pecado original e também os actuais, se os houver; remete toda a pena por eles devida; imprime o caracter de cristãos; faz-nos filhos de Deus, membros da Igreja e herdeiros da glória, e habilita-nos para receber os outros sacramentos» (Catecismo Maior, n° 553).

O Baptismo é absolutamente necessário para o homem se salvar, como se depreende destas palavras do Senhor. Mas a impossibilidade física do rito baptismal pode ser suprida ou pelo martírio, que é chamado baptismo de sangue, ou por um acto perfeito de amor de Deus ou de contrição, unidos ao desejo, pelo menos implícito, de ser baptizado; a isto chama-se baptismo de desejo (cfr Ibid., nos 567-568).

Relativamente ao Baptismo das crianças, já Santo Agos­tinho ensinava que «de nenhum modo se pode rejeitar nem considerar como desnecessário o costume da Santa Madre Igreja de baptizar as crianças; antes pelo contrário, há que admiti-lo forçosamente por ser tradição apostólica» (De Gen. ad litt., 10,23,39). O novo Código de Direito Canónico assinala a necessidade de que as crianças sejam baptizadas: «Os pais têm obrigação de procurar que as crianças sejam baptizadas dentro das primeiras semanas; logo após o nasci­mento, ou até antes deste, vão ter com o pároco, peçam-lhe o sacramente para o filho e preparem-se devidamente para ele» (cân. 867 § 1).

Outra consequência ligada intimamente à anterior é a necessidade da Igreja, como declara o Concilio Vaticano II: «Com efeito, só Cristo é mediador e caminho de salvação e Ele torna-Se-nos presente no Seu corpo, que é a Igreja; ao inculcar expressamente a necessidade da fé e do Baptismo (cfr Mc 16,16; Ioh 3,5), confirmou simultaneamente a neces­sidade da Igreja, para a qual os homens entram pela porta do Baptismo. Pelo que, não se poderiam salvar aqueles que, não ignorando ter sido a Igreja católica fundada por Deus, por meio de Jesus Cristo, como necessária, contudo, ou não querem entrar nela ou nela não querem perseverar» (Lumen gentium, n. 14; cfr Presbyterorum ordinis, n. 4; Ad gentes, nn. 1.3; Dignitatis humanae, n. 11).

17-18. Nos primeiros tempos da expansão da Igreja, estes factos miraculosos que Jesus anuncia cumpriram-se de modo freqüente e visível. Os testemunhos históricos destes acontecimentos são abundantíssimos no Novo Testamento (cfr, p. ex. Act 3,1-11; 28,3-6) e noutros escritos cristãos antigos. Era muito conveniente que assim sucedesse para mostrar ao mundo de uma maneira palpável a verdade do cristianismo. Mais tarde, continuaram a realizar-se milagres deste tipo, mas em menor número, como casos excepcionais. Também é conveniente que assim seja porque, por um lado, a verdade do Cristianismo está já suficientemente atestada; e, por outro, para dar lugar ao mérito da fé. «Os milagres — comenta São Jerónimo — foram precisos ao princípio para confirmar com eles a fé. Mas, uma vez que a fé da Igreja está confirmada, os milagres não são necessários» (Comm. in Marcum, ad loc.). De qualquer modo, Deus continua a realizar milagres através dos santos de todos os tempos, também dos actuais.

 

26.01.2017 – Lc 10, 1-9

Depois disto, designou o Senhor outros setenta e dois e mandou-os dois a dois, à Sua frente, a todas as cidades e lugares aonde Ele havia de ir. 2Dizia-lhes Ele: A messe é grande, mas os trabalha­dores são poucos. Pedi, portanto, ao dono da messe que mande trabalhadores para a sua messe. 3Ide e olhai que vos envio como cordeiros para o meio de lobos. 4Não leveis bolsa, nem saco, nem sandálias. Não cumpri­menteis ninguém pelo caminho. 5Em qual quer casa onde entrardes, dizei primeiro: «Paz a esta casa». 6E, se lá houver um homem de paz, sobre ele irá repousar a vossa paz. Senão, a vós há-de voltar. ‘Ficai nessa mesma casa, comendo e bebendo do que tiverem, pois o trabalhador merece o seu salário. Não andeis de casa em casa. 8Em qualquer cidade onde entrardes e vos receberem, comei o que vos servirem, 9curai os enfermos que nela houver e dizei-lhes: «Está perto de vós o Reino de Deus».

Comentário

1-12. Entre os que seguiam o Senhor e tinham sido chamados por Ele (cfr Lc 9,57-62), além dos Doze, havia numerosos discípulos (cfr Mc 2,15). Os nomes da maioria são para nós desconhecidos; não obstante, entre eles contavam-se com, toda a segurança aqueles que estiveram com Jesus desde o baptismo de João até à Ascensão do Senhor: por exemplo, José chamado Barsabas e Matias (cfr Act 1,21-26). De modo semelhante podemos incluir Cléofas e o seu companheiro, aos quais Cristo ressuscitado apareceu no caminho de Emaús (cfr Lc 24,13-35).

De entre todos aqueles discípulos, o Senhor escolhe setenta e dois para uma missão concreta. Exige-lhes, tal como aos Apóstolos (cfr Lc 9,1-5). desprendimento total e abandono completo à Providência divina.

Desde o Baptismo cada cristão é chamada por Cristo a cumprir uma missão. Com efeito, a Igreja, em nome do Senhor «pede instantemente a todos os leigos que respondam com decisão de vontade, ânimo generoso e disponibilidade de coração à voz de Cristo, que nesta hora os convida com maior insistência, e ao impulso do Espírito Santo. Os mais. novos tomem como dirigido a si de modo particular este chamamento, e recebam-no com alegria e magnanimidade. Com efeito, é o próprio Senhor que, por meio deste sagrado Concilio, mais uma vez convida todos os leigos a que se unam a Ele cada vez mais intimamente, e sentindo como próprio o que é d’Ele (cfr Phil 2,5), se associem à Sua missão salvadora. É Ele quem de novo os envia a todas as cidades e lugares aonde há-de chegar (cfr Lc 10,1); para que, nas diversas formas e modalidades do apostolado único da Igreja, se tornem verdadeiros cooperadores de Cristo, traba­lhando sempre na obra do Senhor com plena consciência de que o seu trabalho não é vão no Senhor (cfr 1Cor 15, 28)» (Apostolicam actuositatem, n. 33).

3-4. Cristo quer inculcar nos Seus discípulos a audácia apostólica; por isso diz «Eu vos envio», que São João Crisóstomo comenta: «Isto basta para vos dar ânimo, isto basta para que tenhais confiança e não temais os que vos atacam» (Hom. sobre S. Mateus, 33). A audácia dos Apóstolos e dos discípulos vinha desta confiança segura de terem sido enviados pelo próprio Deus: actuavam, como explicou com firmeza o próprio Pedro ao Sinédrio, em nome de Jesus Cristo Nazareno, «pois não foi dado aos homens outro nome debaixo do céu pelo qual podemos salvar-nos» (Act 4,12).

« E continua o Senhor — acrescenta São Gregório Magno — ‘Não leveis bolsa nem saco nem sandálias, e não cumpri­menteis ninguém pelo caminho’. Tanta deve ser a confiança que há-de ter em Deus o pregador, que ainda que não se proveja das coisas necessárias para a vida, deve estar persuadido de que não lhe hão-de faltar, não seja que enquanto se ocupa em prover-se das coisas temporais, deixe de procurar para os outros as eternas» (In Evangelia homiliae, 17). O apostolado exige uma entrega generosa que leva ao desprendimento: por isso, Pedro, o primeiro a pôr em prática o mandamento do Senhor, quando o mendigo da Porta Formosa lhe pediu uma esmola (Act 3,2-3), disse1: « Não tenho ouro nem prata» (Ibid., 3,6), «não tanto para se gloriar da sua pobreza — assinala Santo Ambrósio — como da sua obediência ao mandamento do Senhor, como dizendo: vês em mim um discípulo de Cristo, e pedes-me ouro? Ele deu-nos algo muito mais valioso que o ouro, o poder de agir em Seu nome. Não tenho o que Cristo não me deu, mas tenho o que me deu: ‘Em nome de Jesus, levanta-te e anda’ (Act 3,6)» (Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc.). O apostolado exige, portanto, desprendimento dos bens materiais; e também exige estar sempre dispostos, porque a tarefa apostólica é urgente.

«Não cumprimenteis ninguém pelo caminho»: «Como pode ser — pergunta-se Santo Ambrósio — que o Senhor queira eliminar um costume tão cheio de humanidade? Considera, porém, que não diz apenas ‘não cumprimenteis ninguém’, mas que acrescenta ‘pelo caminho’. E isto não é supérfluo.

«Também Eliseu, quando enviou o seu servo a impor o seu bastão sobre o corpo do menino morto, lhe mandou que não cumprimentasse ninguém pelo caminho (2Reg 4,29): deu-lhe ordem de se apressar para cumprir com rapidez a tarefa e realizar a ressurreição, não acontecesse que, por se entreter a falar com algum transeunte, atrasasse o seu encargo. Aqui não se trata então de evitar a urbanidade de cumprimentar, mas de eliminar um possível obstáculo ao serviço; quando Deus manda, o humano deve ser deixado a um lado, pelo menos por algum tempo. Cumprimentar é uma coisa boa, mas melhor é executar quanto antes uma ordem divina que ficaria muitas vezes frustrada por um atraso» (Ibid.).

  1. «Homem de paz » é todo o homem que está disposto a receber a doutrina do Evangelho, que traz a paz de Deus. A recomendação do Senhor aos discípulos de que anunciem a paz há-de ser uma constante em toda a acção apostólica dos cristãos: «O apostolado cristão não é um programa político, nem uma alternativa cultural; significa a difusão do bem, o contágio do desejo de amar, uma sementeira concreta de paz e de alegria» (Cristo que passa, n° 124).

O sentir a paz na nossa alma e à nossa volta é sinal inequívoco de que Deus vem a nós, e um fruto do Espírito Santo (cfr Gal 5,22): «Repele esses escrúpulos que te tiram a paz. — Não é de Deus o que rouba a paz da alma.

«Quando Deus te visitar, hás-de sentir a verdade daquelas saudações: dou-vos a paz…, deixo-vos a paz…, a paz seja convosco… E isto, no meio da tribulação» (Caminho, n° 258).

  1. Está claro que o Senhor considera que a pobreza e o desprendimento dos bens materiais há-de ser uma das prin­cipais características do apóstolo (vv. 3-4). Não obstante, consciente das necessidades materiais dos Seus discípulos, deixa assente o princípio de que o ministério apostólico merece a sua retribuição. Por isso o Concilio Vaticano II recorda a obrigação que todos temos de contribuir para a sustentação dos que generosamente se entregam ao serviço da Igreja: «Entregues ao serviço de Deus, pelo desempenho do cargo que lhes foi confiado, os presbíteros são merecedores da justa recompensa, visto que o operário é digno do seu salário (Lc 10,7) e o Senhor ordenou àqueles que anunciam o Evangelho, que vivam do Evangelho (1Cor 9,14). Por isso, onde não se tiver providenciado de outra maneira à justa remuneração dos presbíteros, os mesmos fiéis, em cujo benefício eles trabalham, têm verdadeira obrigação de procurar os meios necessários para que levem uma vida digna e honesta» (Presbyterorum ordinis, n. 20).

27.01.2017 – Mc 4, 26-34

26Dizia também: O Reino de Deus é assim como um homem que lançou a semente à terra, 27e dorme, e levanta-se, de noite e de dia, e a semente germina e cresce sem ele saber como. 28Porqüe a terra por si mesma produz primeiro o colmo, depois a espiga, depois o trigo grado na espiga. 29E, quando o fruto o permite, logo lhe mete a foice, porque chegou o tempo da ceifa.

30Dizia ainda: A que havemos de assemelhar o Reino de Deus, ou com que parábola o hemos de representar? 31É como o grão de mostarda que, ao ser semeado na terra, é a mais pequenina de todas as sementes que na Terra há. 32Mas, depois de semeado, cresce e torna-se maior que todas as hortaliças e deita ramos tão grandes, que as aves do céu podem acolher-se à sua sombra.

33E com muitas parábolas como esta lhes Conclusão expunha a palavra, segundo a sua capacidade de ouvir. 34E sem parábolas não lhes falava; mas, em particular, explicava tudo aos Seus discípulos.

Comentário

26-29. Os agricultores esforçam-se por preparar bem o terreno para a sementeira; mas, uma vez semeado o grão, já não podem fazer por ele nada mais, até ao momento da ceifa; de maneira que o grão se desenvolve pela sua própria força. Com esta comparação, exprime o Senhor o vigor íntimo do crescimento do Reino de Deus na terra, até ao dia da ceifa (cfr Ioel 3, 13 e Apc 14,15), ou seja, o dia do Juízo Final.

Jesus fala da Igreja aos Seus discípulos: a pregação do Evangelho, que é a semente generosamente espalhada, dará o seu fruto sem falta, não dependendo de quem semeia ou de quem rega, mas de Deus, que dá o incremento (cfr 1Cor 3, 5-9). Tudo se realizará «sem que ele saiba como», sem que os homens se deem plenamente conta.

Ao mesmo tempo o Reino de Deus indica a operação da graça em cada alma: Deus opera silenciosamente em nós uma transformação, enquanto dormimos ou enquanto velamos, fazendo brotar no fundo da nossa alma resoluções de fide­lidade, de entrega, de correspondência, até nos levar à idade «perfeita» (cfr Eph 4, 13). Ainda que seja necessário este esforço do homem, em última análise é Deus quem actua, «porque é o Espírito Santo que, com as suas inspirações, vai dando tom sobrenatural aos nossos pensamentos, desejos e obras. É Ele que nos impele a aderir à doutrina de Cristo e a assimilá-la em profundidade; que nos dá luz para tomar consciência da nossa vocação pessoal e força para realizar tudo o que Deus espera de nós. Se formos dóceis ao Espírito Santo, a imagem de Cristo ir-se-á formando, cada vez mais nítida, em nós e assim nos iremos aproximando cada vez mais de Deus Pai. Os que são conduzidos pelo Espirito de Deus, esses são filhos de Deus (Rom 8, 14)» (Cristo que passa, n° 135).

30-32. O sentido principal desta parábola é dado pelo contraste entre o pequeno e o grande. A semente do Reino de Deus na Terra é algo muito pequeno ao princípio (Lc 12, 32; Act 1,15); depois será uma árvore grande. Assim vemos como o reduzido grupo inicial dos discípulos cresce nos começos da Igreja (cfr Act 2,47; 6,7; 12,24), se estende ao longo dos séculos e chegará a ser uma multidão imensa «que ninguém poderá contar» (Apc 7,9).

Também se realiza em cada alma esse mistério do crescimento, a que se referem as palavras do Senhor: «O Reino de Deus está dentro de vós» (Lc 17, 21), e que podemos ver anunciado com aquelas outras do Salmo: «O justo multiplicar-se-á como o cedro do Líbano» (Ps 92, 13). Para que brilhe a misericórdia do Senhor que nos exalta, que nos faz grandes, é preciso que nos encontre pequenos, humildes (Ez 17, 22-24; Lc 18,9-14).

 

28.01.2017 – Mc 4, 35-41

35Naquele dia, à tardinha, disse-lhes: Passemos para o lado de lá. 36E eles, deixando o povo, tomam-No consigo, assim como estava na barca; e outras barcas O acompanhavam. 37Nisto levanta-se um grande ciclone que arrojava as ondas sobre a barca, de tal modo que a barca se ia enchendo. 38Entretanto Ele estava na popa a dormir sobre uma almofada. Despertam-No e dizem-Lhe: Mestre, não Te importa que pereçamos? 39Ele, despertando, imperou ao vento e disse ao mar: Cala-te! Emudece! O vento acalmou e fez-se uma grande bonança. 40Disse-lhe então: Por­que estais assim com medo? Como? Não tendes fé? Ficaram eles possuídos de grande temor e diziam uns para os outros:41 Então quem é Este, que até o vento e o mar Lhe obedecem?

Comentário

35-41. O episódio da tempestade acalmada, cuja recor­dação deve ter devolvido muitas vezes a serenidade aos Apóstolos no meio das suas lutas e das dificuldades, serve também a cada alma para nunca perder o ponto de mira sobrenatural: a vida do cristão é comparável a uma barca: «Assim como a nave que atravessa o mar, comenta Santo Afonso Maria de Ligório, está sujeita a milhares de perigos, corsários, incêndios, escolhos e tempestades, assim o homem se vê assaltado na vida por milhares de perigos, de tentações, ocasiões de pecar, escândalos ou maus conselhos dos homens, respeitos humanos e, sobretudo, pelas paixões desordenadas (…). Não por isto há que desconfiar nem desesperar-se. Pelo contrário (…), quando alguém se vê assaltado por uma paixão incontrolada (…), ponha os meios humanos para evitar as ocasiões e (…) apoie-se em Deus (…): no furor da tempestade não deixa o marinheiro de olhar para a estrela cuja claridade o terá de guiar para o porto. De igual modo nesta vida temos sempre de ter os olhos fixos em Deus, que é o único que nos há-de livrar de tais perigos» (Sermão nº 39 para o Dom. IV depois da Epifania).

29.01.2017 – Mt 5, 1-12a

Vendo Ele as multidões, subiu ao monte e sentou-Se. Acercaram-se os discípulos 2e Ele, tomando a palavra, pôs-se a ensiná-los, dizendo:

3Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus.

4Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados.

5Bem-aventurados os mansos, porque eles possuirão a terra.

6Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos.

7Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia.

8Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus.

9Bem-aventurados os pacíficos, porque eles serão chamados filhos de Deus.

10Bem-aventurados os perseguidos por amor da justiça, porque deles é o Reino dos Céus.

11Bem-aventurados sois, quando, por minha causa, vos injuriarem e perseguirem e disserem, falsamente, contra vós toda a espécie de mal.

12Alegrai-vos e exultai, porque será grande nos Céus a vossa recompensa.

Comentário

1-2. O Sermão da Montanha ocupa integralmente os caps. 5, 6 e 7 de São Mateus. Trata-se do primeiro dos cinco grandes discursos de Jesus que aparecem neste Evan­gelho. Compreende uma considerável parte dos ensinamentos do Senhor.

Não é fácil de reduzir o discurso a um só tema, mas os diversos ensinamentos podem comodamente agrupar-se à volta destes cinco pontos: 1) o espírito que se deve ter para entrar no Reino dos Céus (as Bem-aventuranças, sal da terra e luz do mundo, Jesus e a Sua doutrina, plenitude da Lei); 2) rectidão de intenção nas práticas de piedade (aqui se inclui a oração do Senhor ou Pai-Nosso); 3) confiança na Providência paternal de Deus; 4) as relações fraternas dos filhos de Deus (não julgar o próximo, respeito pelas coisas santas, eficácia da oração e a regra de oiro da caridade); e 5) condições e fundamento para a entrada no reino (a porta estreita, os falsos profetas e edificar sobre rocha).

  1. «Pôs-se a ensiná-los»: Refere-se tanto aos discípulos que rodeavam Jesus como às multidões ali presentes, se­gundo aparece no fim do Sermão da Montanha (Mt 7,28).

As Bem-aventuranças (5,3-12) constituem como que o pórtico do Sermão da Montanha. Para uma recta compreensão das Bem-aventuranças é conveniente ter em conta que nelas não se promete a salvação a umas determinadas classes de pessoas que aqui se enumerariam, mas a todos aqueles que alcancem as disposições religiosas e o comportamento moral que Jesus Cristo exige. Quer dizer, os pobres de espírito, os mansos, os que choram, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os puros de coração, os pacíficos e os que sofrem perseguição por buscar a santidade, não indicam pessoas distintas entre si, mas são como que diversas exigências de santidade dirigidas a quem quer ser discípulo de Cristo.

Pela mesma razão, também não prometem a salvação a determinados grupos da sociedade, mas a toda a pessoa que, seja qual for a sua situação no mundo, se esforce por viver o espírito e as exigências das Bem-aventuranças.

A todas elas é também comum o sentido escatológico, isto é, é-nos prometida a salvação definitiva não neste mundo, mas na vida eterna. Mas o espírito das Bem-aventuranças produz, já na vida presente, a paz no meio das tributações. Na história da humanidade, as Bem-aventuranças constituem uma mudança completa dos critérios humanos habituais: desqualificam o horizonte da piedade farisaica, que via na felicidade terrena a bênção e prêmio de Deus e, na infeli­cidade e desgraça, o castigo. Em todos os tempos as Bem-aventuranças põem muito por cima os bens do espírito sobre os bens materiais. Sãos e doentes, poderosos e débeis, ricos e pobres… são chamados, por cima das suas circunstâncias, à felicidade profunda daqueles que alcançam as Bem-aventu­ranças de Jesus.

É evidente que as Bem-aventuranças não contêm toda a doutrina evangélica. Não obstante contêm, como que em germe, todo o programa de perfeição cristã.

  1. Neste versículo exprime-se de modo amplo a relação ida pobreza com o espírito. Este conceito religioso de pobre tinha já uma longa tradição no AT (cfr, p. ex., Soph 2,3 s). Mais que a condição social de pobre, expressa a atitude religiosa ide indigência e de humildade diante de Deus: é pobre o que corre a Deus sem considerar méritos próprios e confia só na misericórdia divina para ser salvo. Esta atitude religiosa da pobreza está muito aparentada com a chamada infância espiritual. O cristão considera-se diante de Deus como um filho pequeno que não tem nada em propriedade; tudo é de Deus seu Pai e a Ele o deve. De qualquer modo a pobreza em espírito, quer dizer, a pobreza cristã, exige o desprendimento dos bens materiais e austeridade no uso deles. A alguns, os religiosos, Deus pede-lhes o desprendimento inclusive jurídico das suas propriedades, como testemunho perante o mundo da condição passageira das coisas terrenas.
  2. «Os que choram»: Chama aqui bem-aventurados Nosso Senhor todos os que estão aflitos por alguma causa e, de modo particular, aqueles que estão verdadeiramente arrependidos dos seus pecados, ou aflitos pelas ofensas que outros fazem a Deus, e que levam o seu sofrimento com amor e desejos de reparação.

«Choras? — Não te envergonhes. Chora; sim, os homens também choram, como tu, na solidão e diante de Deus. — Durante a noite, diz o rei David, regarei de lágrimas o meu leito.

«Com essas lágrimas, ardentes e viris, podes purificar o teu passado e sobrenaturalizar a tua vida actual» (Caminho, nº216).

O Espírito de Deus consolará com paz e alegria, mesmo neste mundo, os que choram os pecados, e depois participarão da plenitude da felicidade e da glória do céu: esses são bem-aventurados.

  1. 5. «Mansos»: quer dizer, os que sofrem com paciência as perseguições injustas; os que nas adversidades mantêm o ânimo sereno, humilde e firme. e não se deixam levar pela ira ou pelo abatimento. É a virtude da mansidão muito necessária para a vida cristã. Normalmente as freqüentes manifestações externas de irritabilidade procedem da falta de humildade e de paz interior.

«A terra»: Comummente entende-se em sentido trans­cendente, quer dizer, a pátria celestial.

  1. O conceito de justiça na Sagrada Escritura é essen­cialmente religioso (cfr nota a Mt 1,19). Chama-se justo a quem se esforça sinceramente por cumprir a Vontade de Deus, que se manifesta nos mandamentos, nos deveres de estado e na união da alma com Deus. Por isso a justiça, na linguagem da Bíblia, coincide com o que actualmente cos­tuma chamar-se santidade (lIoh 2,29; 3,7-10; Apc 22,11; Gen 15,6; Dt 9,4). Como comenta São Jerónimo (Comm. in Matth.5.6). esta (quarta bem-aventurança de Nosso Senhor exige não um simples desejo vago de justiça, mas ter fome e sede dela, isto e, amar e buscar com todas as forças aquilo que torna justo o homem diante de Deus. O que de verdade quer a santidade cristã tem de amar os meios que a Igreja, instrumento universal de salvação, oferece e ensina a viver a todos os homens: frequência de sacramentos, convivência íntima com Deus na oração, fortaleza em cumprir os deveres familiares, profissionais, sociais.
  2. A misericórdia não consiste apenas em dar esmola aos pobres, mas também em compreender os defeitos que possam ‘ter os outros, desculpá-los, ajudá-los a superá-los e amá-los mesmo com os defeitos que tenham. Também faz parte da misericórdia alegrar-se e sofrer com as alegrias e dores alheias.

A doutrina de Cristo ensina que a raiz da qualidade dos actos humanos está no coração, quer dizer, no interior do homem, no fundo do seu espírito: «Quando falamos de um coração humano, não nos referimos só aos sentimentos: aludimos à pessoa toda que quer, que ama, que convive com os outros. Ora, na maneira de os homens se exprimirem, que a Sagrada Escritura utiliza para nos ajudar a compreender as coisas divinas, o coração é tido por resumo e fonte, expressão e fundo íntimo dos pensamentos, das palavras, das acções. Um homem vale o que vale o seu coração — diríamos com palavras bem humanas» (Cristo que passa, nº164). A pureza de coração é um dom de Deus, que se manifesta na capacidade de amar, no olhar recto e puro para tudo o que é nobre. Como diz o Apóstolo, «tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, tudo o que é virtuoso e louvável, é o que deveis ter em mente» (Phil 4,8). O cristão, ajudado pela graça de Deus, deve lutar continuamente para purificar o seu coração e adquirir essa pureza, em virtude da qual se promete a visão de Deus.

  1. A palavra «pacíficos» é a usual nas traduções e, além disso, etimologicamente é fiel ao texto. No livro sagrado tem claramente um sentido activo: «os que pro­movem a paz» em si mesmos, nos outros e, sobretudo, como fundamento do anterior, procuram reconciliar-se e recon­ciliar os outros com Deus. A paz com Deus é a causa e o cume de toda a paz. Será vã e enganadora qualquer paz no mundo que não se baseie nessa paz divina. «Serão chamados filhos de Deus»: É um hebraísmo muito frequente na Sagrada Escritura; é o mesmo que dizer «serão filhos de Deus». A primeira Epístola de São João (l Ioh 3, 1) dá-nos a exegese autêntica desta bem-aventurança: «Vede que amor nos mostrou o Pai: que sejamos chamados filhos de Deus e que realmente o sejamos».
  2. Acerca do significado de «justiça» veja-se o dito em Mt 1,19; 5,6. Assim, pois, o sentido desta bem-aventurança é o seguinte: bem-aventurados os que sofrem perseguição por ser santos ou pelo seu empenho em ser santos, porque deles é o Reino dos Céus.

Portanto, é bem-aventurado o que sofre perseguição por ser fiel a Jesus Cristo, e a suporta não só com paciência mas com alegria. Na vida do cristão apresentam-se circunstâncias heroicas, nas quais não têm lugar meios termos; ou se é fiel a Jesus Cristo jogando-se a honra, a vida e os bens, ou O renegamos. São Bernardo (Sermão da Festa de Todos os Santos) diz que esta oitava bem-aventurança era como que a prerrogativa dos santos mártires. O cristão que é fiel à doutrina de Jesus Cristo é de facto também um «mártir» (testemunha) que reflecte ou cumpre esta bem-aventurança, mesmo sem chegar à morte corporal.

11-12. As Bem-aventuranças são as condições que Cristo pôs para entrar no Reino dos Céus. O versículo, à maneira de recapitulação, é um convite global a viver estes ensinamentos. A vida cristã não é, pois, tarefa fácil, mas vale a pena pela plenitude de vida que o Filho de Deus promete.

30.01.2017 – Mc 5, 1-20

Chegaram ao lado de lá do mar, ao país dos Gerasenos. 2Apenas saído da barca, veio logo dos sepulcros ao Seu encontro um homem possuído do espírito imundo, 3o qual tinha a morada nos sepulcros, e já ninguém mais o podia prender nem com algemas; 4pois que, muitas vezes preso com grilhões e algemas, tinha quebrado as algemas e despedaçado os grilhões, e ninguém con­seguia dominá-lo. 5Andava sempre, dia e noite, nos sepulcros e pelos montes, gritando e retalhando-se a si mesmo com pedras. 6Ao ver de longe a Jesus, correu e prostrou-se-Lhe aos pés, 7bradando,em alta voz: Que tens que ver comigo, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Por Deus Te esconjuro que me não atormentes. 8Porque lhe dissera: Espírito imundo, sai desse homem! 9E perguntava-lhe: Como te chamas? Chamo-me Legião, diz-Lhe ele, porque somos muitos. 10E pedia-Lhe instantemente que os não lançasse fora daquele país.

11Ora andava ali pelo monte uma grande vara de porcos a pastar.12 Suplicaram-Lhe, pois: Manda-nos para os porcos, para que entremos neles. 13Deu-lhes licença: e os espí­ritos imundos saíram e entraram nos porcos e a vara, cerca de dois mil, despenhou-se, ladeira abaixo, no mar, e no mar se afogou. 14Os guardadores fugiram e espalharam a notícia pela cidade e pelos campos, e acudiram todos a ver o que é que tinha acontecido. I5Chegando perto de Jesus, viram o possesso que tinha tido o Demônio Legião, sentado, vestido e em seu juízo, e tiveram medo. 16Os presentes contaram o que tinha sucedido ao endemoninhado e o caso dos porcos, 17e eles começaram a pedir a Jesus que saísse do seu termo. l8Ao subir para a barca, o que tinha sido possesso pedia-Lhe para ir com Ele. 19Mas Ele não o “deixou, antes lhe disse: Vai para tua casa, para os teus, e conta-lhes tudo o que o Senhor te fez e como Se compadeceu de ti. 20Ele partiu e começou a apregoar na Decápole tudo o que Jesus lhe tinha feito, e todos ficavam mara­vilhados.

Comentário

1-20. Gerasa estava povoada principalmente por pagãos, como se depreende da existência de uma vara de porcos tão numerosa, que pertenceria sem dúvida a muitos donos. Para os Judeus era proibida a criação destes animais e o comer da sua carne (Lev 11,7).

Este milagre põe em relevo, uma vez mais, a existência do demônio e o seu influxo na vida dos homens: pode causar dano — se Deus o permite — não só aos homens, mas também aos animais. Quando Cristo permite que entrem nos porcos, fica patente a malícia dos demônios: estes consideram um grande tormento não poder causar dano aos homens e por isso rogam-Lhe que, pelo menos, possam fazer mal aos animais. Cristo permite isto para indicar que com a mesma violência e consequências com que entraram nos porcos, o fariam nos homens, se Deus não lhes pusesse obstáculo.

É claro que a intenção de Jesus não foi castigar os donos com a perda da vara de porcos, pois os donos, como pagãos, não estavam sujeitos aos preceitos da Lei judaica. A morte dos porcos é o sinal visível de que o demônio tinha saído daquele homem.

Jesus permitiu a perda de uns bens materiais porque eram incomparavelmente inferiores ao bem espiritual que supunha a cura do endemoninhado. Cfr a nota a Mt 8,28-34.

15-20. Contrasta a diferente atitude diante de Jesus Cristo: os gerasenos pedem a Jesus que Se afaste da cidade; o que foi libertado do demônio quer ficar junto de Jesus e segui-Lo. Os habitantes de Gerasa tiveram perto de si o Senhor, puderam ver os Seus poderes divinos, mas fecharam-se sobre si mesmos, pensando apenas no prejuízo material que constituiu a perda dos porcos; não se dão conta da Obra admirável que Jesus fez. Cristo passou junto deles, ofere­cendo-lhes a Sua graça, mas não corresponderam e rejei­taram Jesus, O que esteve endemoninhado quer segui-Lo com os outros discípulos. Mas Jesus não o admite; dá-lhe um encargo que mostra a misericórdia sem limites do Senhor para com todos os homens, inclusive para com os que O rejeitam: ele deve ficar em Gerasa e anunciar a todos os seus habitantes o que o Senhor fez com ele. Talvez reconsiderem e se deem conta de quem é O que os visitou e saiam do pecado em que estão sumidos por avareza. Estas duas atitudes dão-se sempre que Cristo passa. E também a misericórdia e o chamamento contínuo do Senhor, que não quer a morte do pecador, mas que se converta e viva (cfr Ez 18,23).

  1. Decápole, ou «país das dez cidades». Entre elas as mais conhecidas são: Damasco, Filadélfia, Citópola ou Beisân, Gadara, Pella e Gerasa. A região estava situada a este do lago de Genesaré e era habitada principalmente por pagãos de origem grega e síria: O governador romano da Síria era quem exercia a jurisdição sobre este território.

31.01.2017 – Mc 5, 21-43

21Tendo Jesus passado novamente de barco para a margem oposta, concorreu a Ele grande multidão. Estava junto do mar, 22quando chega um dos príncipes da sinagoga, de nome Jairo, e, ao vê-Lo, cai-Lhe aos pés 23e suplica-Lhe instantemente, dizendo: A minha filhinha está em agonia. Vem impor-lhe as mãos, para que se salve e viva! 24E foi com ele. Acompanhava-O grande multidão, que O apertava.

25Ora uma mulher que há doze anos vinha padecendo dum fluxo de sangue 26e tinha sofrido muito de numerosos médicos e gas­tado toda a sua fortuna, mas longe de melhorar tinha piorado, 27tendo ouvido falar de Jesus, veio por detrás entre a multidão e tocou-Lhe no manto, 28pois dizia consigo: Se eu tocar ainda que seja só nos Seus vestidos, ficarei curada. 29De facto, secou-se-lhe ime­diatamente a fonte do sangue e sentiu no corpo que estava curada do mal. 30Ao mesmo tempo, Jesus, consciente da virtude que d’Ele saíra, voltou-Se para a multidão e disse: Quem Me tocou nos vestidos? 3IDiziam-Lhe os discípulos: Vês que a multidão Te aperta e perguntas: Quem Me tocou? 32Mas Ele continuava a olhar à volta, para ver aquela que o tinha feito. 33Então a mulher, a tremer de medo, pois sabia o que lhe tinha sucedido, aproximou-se, lançou-se-Lhe aos pés e declarou-Lhe toda a verdade. 34E Ele disse-lhe: Filha, a tua Fé te salvou. Vai em paz e fica sã do teu mal.

35Falava ainda, quando de casa do príncipe da sinagoga vêm dizer-lhe: Tua filha morreu. Para que incomodar mais o Mestre? 36Mas Jesus, ouvindo o recado, disse ao príncipe da sinagoga: Não temas; basta que tenhas fé. 37E não permitiu que O acompanhasse ninguém senão Pedro e Tiago e João, irmão de Tiago. 38Ao chegarem a casa do príncipe da sinagoga, vê o reboliço e a gente desfeita em prantos e alaridos; 39e, entrando, disse-lhes: Porquê todo esse reboliço e esses prantos? A criança não morreu, mas dorme. 40E riam-se d’Ele. Mas Ele fá-los sair a todos, toma consigo o pai e a mãe e os que trazia consigo, entra onde jazia a criança 41e, pegando-lhe na mão, diz-lhe: Talitha kum! — que quer dizer: Menina, Eu te mando, levanta-te! 42A menina pôs-se logo em pé e começou a andar, pois tinha doze anos. E ficaram fora de si como que assombrados. 43Jesus, porém, recomendou-lhes muito que ninguém o soubesse e mandou que dessem de comer à pequena.

Comentário

  1. Da multidão que O oprime, uma só pessoa Lhe tocou de verdade: esta doente; e não apenas com um gesto, mas com a fé do seu coração. Comenta Santo Agostinho: «Ela toca, a multidão oprime. Que significa «tocou» senão que creu?» (In Ioann. Evang., 26, 3). Necessitamos do contacto com Jesus. Não nos foi dado outro nome debaixo do céu pelo qual possamos ser salvos (cfr Act 4,12). Ao receber na Santíssima Eucaristia Jesus Cristo, realiza-se este contacto físico através das espécies sacramentais. Pela nossa parte necessitamos de avivar a fé para que sejam proveitosos estes encontros em ordem à nossa salvação (cfr Mt 13, 58).
  2. Jesus não quis que estivessem presentes mais que estes três Apóstolos, número suficiente para que o milagre fosse atestado segundo a Lei (Dt 19, 15). «Porque Jesus, humilde, não quis fazer nada por ostentação» (Enarratio in Evangelium Marci, ad loc.). Além disso, os três discípulos são os mais íntimos de Jesus, que depois estarão também a sós com Ele na Transfiguração (cfr 9,2) e na agonia no horto de Getsémani (cfr 14,33).
  3. As palavras de Jesus contrastam com as dos servos do chefe da sinagoga; eles dizem: «Atua filha morreu»; Jesus, pelo contrário: «Não morreu, mas dorme». Estava morta para os homens, que não podiam despertá-la; para Deus dormia, porque a sua alma vivia submetida ao poder divino, e a carne descansava para a ressurreição. Daqui que se tenha introduzido entre os cristãos o costume de designar os mortos, que sabemos que ressuscitarão, com o nome de dormentes» (In Marci Evangelium expositio, ad loc.). A expres­são de Jesus revela que a morte é 21-43. Tanto Jairo como a hemorroíssa nos dão um exemplo de fé na omnipotência de Cristo, pois só um milagre podia curar a filha de Jairo, que estava em agonia, e ressuscitá-la uma vez morta, assim como curar a doença da hemorroíssa, que já tinha posto todos os meios humanos possíveis. De modo parecido, o cristão deve esperar a ajuda de Deus, que não lhe faltará para superares obstáculos que se oponham à sua santificação. Ordinariamente, a ajuda divina é-nos concedida de modo calado, mas não devemos duvidar que, se fizer falta para a nossa salvação Deus voltará a repetir estes milagres. Tenhamos em conta não obstante, que o que o Senhor espera de nós todos os dias é que cumpramos a Sua vontade.
  4. À frente da sinagoga estava o arqui-sinagogo, que tinha como missão manter a ordem nas reuniões de sábado e nas festas, dirigir as orações, os cânticos e designar o que devia explicar a Sagrada Escritura. Era assistido na sua missão por um conselho, e tinha ao seu serviço um ajudante encarregado das funções materiais.
  5. Esta mulher sofria de uma doença pela qual estava em estado de impureza legal (Lev 15, 25 ss.). Nenhum meio humano a tinha conseguido curar; pelo contrário, acrescenta com realismo o Evangelho, a coisa tinha ido de mal em pior. Aos sofrimentos físicos — já doze anos —, acrescentava-se a vergonha de se sentir imunda segundo a Lei. No povo judeu era considerada impura não só a mulher afectada de uma doença deste tipo, mas tudo o que ela tocava. Por isso, para não ser notada pela gente, a hemorroíssa aproximou-se de Jesus por trás e tocou apenas o Seu manto, por delicadeza. A sua fé é enriquecida por uma manifestação de humildade: a consciência de ser indigna de tocar o Senhor. «Tocou delica­damente a orla do manto, aproximou-se com fé, creu e soube que tinha sido sarada… Assim nós, se queremos ser salvos, toquemos com fé o vestido de Cristo» (Expositio Evangelii sec. Lucam, 6, 56.58).

para Deus nada mais que um sono, porque Ele pode despertar para a vida quando quer. É o mesmo que aconteceu com a morte e ressurreição de Lázaro. Jesus diz: «Lázaro, nosso amigo, está adormecido, mas vou despertá-lo». E quando os discípulos pensam que se tratava do sono natural, o Senhor afirma claramente: « Lázaro morreu » (cfr Ioh 11,11 ss.).

40-42. Este milagre da ressurreição da filha de Jairo, como todos os que aparecem no Evangelho, manifesta a divindade de Cristo. Somente Deus pode fazer milagres; por vezes de um modo directo e outras vezes por meio das criaturas como instrumentos. O caracter exclusivamente divino dos milagres — e particularmente da ressurreição dos mortos — está recolhido no AT: «Yahwéh dá a morte e dá a vida, faz descer ao sepulcro e subir dele» (1Sam 2, 6) porque tem «o poder da vida e da morte» (Sap 16, 13). E também no AT Deus se vale dos homens para ressuscitar os mortos: o profeta Elias ressuscitou o filho da viúva de Sarepta «invocando Yahwéh» (1Reg 17, 21), e Eliseu «orou a Yahwéh» para obter d’Ele a ressurreição do filho da Sunamita (2Reg 4,33).

Igualmente, no NT os Apóstolos não o realizaram por poder próprio, mas pelo poder de Jesus, a Quem tinham elevado antes uma ardente súplica: Pedro devolve a vida a uma cristã de Joppe chamada Tabita (Act 9,36 e ss.); e Paulo, em Tróade, ao jovem Eutico, que tinha caído de uma janela (Act 20,7 e ss.). Quando Jesus, com autoridade soberana, sem se remeter a um poder superior, manda, sem mais, que volte à vida a filha de Jairo, manifesta assim que Ele é Deus.