Evangelho do dia – mês de fevereiro de 2017

01.02.2017– Mc 6, 1-6

Partindo depois dali, foi à Sua terra, e os discípulos acompanharam-No. 2Vindo o sábado, começou a ensinar na sinagoga, e os muitos que O ouviam exclamavam admirados: Donde Lhe vieram todas estas coisas? E que sabedoria é esta que Lhe foi dada? E os prodígios como esses que opera com Suas mãos? 3Porventura não é Este o carpinteiro, o filho de Maria e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? E Suas irmãs não vivem aqui entre nós? 4E escandalizavam-se d’Ele. Mas Jesus dizia-lhes: O profeta não é desconsiderado senão na sua terra, entre os seus parentes e na sua casa. 5E não pôde fazer ali nenhum milagre. Apenas curou um pequeno número de enfermos, impondo-lhes as mãos. 6E admirava-Se da incredulidade daquela gente. E percorria as aldeias dos arredores, ensinando.

Comentário

1-3. Jesus é designado aqui pelo Seu trabalho e por ser «o filho de Maria». Indicará isto que São José já tinha morrido? Não o sabemos, ainda que seja provável. Em qualquer caso, é de sublinhar esta expressão: nos Evangelhos de São Mateus e de São Lucas tinha-se narrado a concepção virginal de Jesus. O Evangelho de São Marcos não refere a infância do Senhor, mas talvez possa ver-se uma alusão à concepção e nascimento virginais, na designação «o filho de Maria».

«José, cuidando daquele Menino como lhe tinha sido ordenado, fez de Jesus um artesão: transmitiu-Lhe o seu ofício. Por isso, os vizinhos de Nazaré falavam de Jesus chamando-Lhe indistintamente faber e fabrí filius: artesão e filho de artesão» (Cristo que passa, n.° 55). Desta maneira o Senhor fez-nos saber que a nossa vocação profissional não é alheia aos Seus desígnios divinos.

«Esta verdade, segundo a qual o homem mediante o trabalho participa na obra do próprio Deus, seu Criador, foi particularmente posta em relevo por Jesus Cristo, aquele Jesus com Quem muitos dos Seus primeiros ouvintes em Nazaré ‘ficavam admirados e exclamavam: ‘Donde Lhe veio tudo isso? E que sabedoria é esta que lhe foi dada?… Porventura não é Ele o carpinteiro’…?’ (Mc 6,2-3). Com efeito, Jesus não só proclamava, mas sobretudo punha em prática com obras as palavras da Sabedoria eterna, o ‘Evangelho’ que Lhe tinha sido confiado. Tratava-se verdadeiramente do ‘evangelho do trabalho’ pois Aquele que o proclamava era Ele próprio homem do trabalho, do trabalho artesanal como José de Nazaré (cfr Mt 13, 55). Ainda que não encontremos nas Suas palavras o preceito especial de trabalhar — antes pelo contrário, uma vez, a proibição da preocupação excessiva com o trabalho e com os meios de subsistência (Mt 6, 25-34) — contudo, a eloquência da vida de Cristo é inequívoca: Ele pertence ao ‘mundo do trabalho’ e tem apreço e respeito pelo trabalho humano. Pode-se até afirmar: Ele encara com amor este trabalho, bem como as suas diversas expressões, vendo em cada uma delas uma linha particular da semelhança do homem com Deus, Criador e Pai» (Laborem exercens, n. 26). São Marcos dá uma lista de irmãos de Jesus, e fala genericamente da existência de umas irmãs. Mas a palavra «irmão» não significava necessariamente filho dos mesmos pais. Podia indicar também outros graus de parentesco: primos, sobrinhos, etc. Assim em Gen 13, 8 e 14, 14.16 chama-se a Lot irmão de Abraão, enquanto por Gen 12,5 e 14, 12 sabemos que era sobrinho, filho de Arão, irmão de Abraão. O mesmo acontece com Labão, a quem se chama irmão de Jacob (Gen 29,15), quando era irmão de sua mãe (Gen 29,10); e noutros casos: cfr 1Chr 23,21-22, etc. Esta confusão deve-se à pobreza da linguagem hebraica e aramaica: carecem de termos diferentes e usam uma mesma palavra, irmão, para designar graus diversos de parentesco.

Por outros passos do Evangelho, sabemos que Tiago e José, aqui nomeados, eram filhos de Maria de Cléofas (Mc 15, 40; Ioh 19, 25). De Simão e de Judas temos menos dados. Parece que são os Apóstolos Simão o Zelotes (Mt 10,4; Mc 3, 18) e Judas Tadeu (Lc 6, 16), autor da epístola católica em que se declara «irmão» de Tiago. Por outro lado, ainda que se fale de Tiago, Simão e Judas como irmãos de Jesus, nunca se diz que sejam «filhos de Maria», o que teria sido natural se tivessem sido estritamente irmãos do Senhor. Jesus aparece sempre como filho único; para os de Nazaré. Ele é «o filho de Maria» (Mt 13, 55). Jesus ao morrer confia Sua mãe a São João (cfr Ioh 19,26-27), o que revela que Maria não tinha outros filhos. A isto acrescenta-se a fé constante da Igreja, que considera Maria como a sempre Virgem: «Virgem antes do parto, no parto, e para sempre depois do parto» (Cum quorumdam).

5-6. Jesus não fez ali milagres: não porque Lhe faltasse poder, mas como castigo da incredulidade dos Seus concidadãos. Deus quer que o homem use da graça oferecida, de sorte que, ao cooperar com ela, se disponha a receber novas graças. Em frase gráfica de Santo Agostinho, «Deus que te criou sem ti, não te salvará sem ti» (Sermo 169).

 

02.02.2017– Lc 2, 22-40

22Quando chegaram os dias da purificação, de segundo a Lei de Moisés, levaram-No a Jerusalém para O apresentarem ao Senhor, do Menino conforme está escrito na Lei do Senhor, que todo o primogênito do sexo masculino será consagrado ao Senhor, 24e para oferecerem em sacrifício, segundo o que se diz na lei, um par de rolas ou duas pombinhas. 25Vivia então em Jerusalém um homem chamado Simeão; esse homem, justo e piedoso, esperava a consolação de Israel, e o Espírito Santo estava nele. 26Revelara-lhe o Espírito Santo que não veria a morte antes de ter visto o Messias do Senhor; 27e veio ao Templo, movido pelo Espírito. Quando os pais trouxeram o Menino Jesus, a fim de procederem conforme o uso da Lei que Lhe dizia respeito, 28ele recebeu-O nos braços e bendisse a Deus, exclamando:

29«Agora, Senhor, podes despedir o Teu servo em paz segundo a Tua palavra, 30porque viram os meus olhos a Salvação 31que preparaste ao alcance de todos os povos:

32luz para se revelar aos pagãos e glória de Israel, Teu povo».

33Seu pai e Sua mãe estavam admirados com as coisas que d’Ele se diziam. 34Simeão abençoou-os e disse a Maria, Sua mãe: Olha que Ele está aqui para a queda e o ressurgimento de muitos em Israel e para ser sinal de contradição — 35uma espada te há-de traspassar a tua própria alma — a fim de se revelarem os pensamentos de muitos espíritos.

36Havia também uma profetisa, Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser. Era de idade muito avançada e tinha vivido casada sete anos, após o seu tempo de donzela, 37e viúva, até aos oitenta e quatro. Não se afastava do Templo, servindo a Deus noite e dia, com jejuns e orações. 38Vindo nessa mesma ocasião, pôs-se a louvar a Deus por sua vez e a falar do Menino a todos os que esperavam a libertação de Jerusalém. 39Deppis de terem cumprido tudo o que infância ordenava a Lei do Senhor, voltaram para a de Jesus Galileia, para a sua cidade de Nazaré. 40Entretanto, o Menino crescia e robustecia-Se, enchendo-Se de sabedoria, e a graça de Deus estava n’Ele.

Comentário

22-24. A Sagrada família sobe a Jerusalém com o fim de dar cumprimento a duas prescrições da Lei de Moisés: purificação da mãe, e apresentação e resgate do primogênito. Segundo Lev 12,2-8, a mulher ao dar à luz ficava impura. A mãe de filho varão aos quarenta dias do nascimento terminava o tempo de impureza legal com o rito da purificação. Maria Santíssima, sempre virgem, de facto não estava compreendida nestes preceitos da Lei porque nem tinha concebido por obra de varão, nem Cristo ao nascer rompeu a integridade virginal de Sua Mãe. Não obstante, Maria Santíssima quis submeter-se à Lei, embora não estivesse obrigada.

«Aprenderás com este exemplo, meu pateta, a cumprir a Santa Lei de Deus, apesar de todos os sacrifícios pessoais?

«Purificação! Tu e eu, sim; nós realmente é que precisamos de purificação! — Expiação, e, além da expiação, o Amor. — Um amor que seja cautério, que abrase a sujidade da nossa alma, que incendeie com chamas divinas a miséria do nosso coração» (Santo Rosário, quarto mistério gozoso).

Igualmente, em Ex 13,2.12-13 indica-se que todo o primogénito pertence a Deus e deve ser-Lhe consagrado, isto é, dedicado ao culto divino. Não obstante, desde que este foi reservado à tribo de Levi, aqueles primogênitos que não pertenciam a esta tribo não eram dedicados ao culto e para mostrar que continuavam a ser propriedade especial de Deus, realizava-se o rito do resgate.

A Lei mandava também que os israelitas oferecessem para os sacrifícios uma rês menor, por exemplo, um cordeiro, ou se eram pobres um par de rolas ou dois pombinhos. O Senhor que «sendo rico Se fez pobre por nós, para nos enriquecer com a Sua pobreza» (2 Cor 8,9), quis que fosse oferecida por Ele a oferenda dos pobres.

25-32. Simeão, qualificado como homem justo e temente a Deus, atento a vontade divina, dirige-se ao Senhor na sua oração como um vassalo ou servidor leal que depois de ter estado vigilante durante toda a sua vida, à espera da vinda do seu Senhor, vê agora por fim chegado esse momento, que deu sentido à sua existência. Ao ter o Menino nos seus braços, conhece não por razão humana mas por graça especial de Deus, que esse Menino é o Messias prometido, a Consolação de Israel, a Luz dos povos.

O cântico de Simeão (vv. 29-32) é, além disso, uma verdadeira profecia. Tem este cântico duas estrofes: a primeira (vv. 29-30) é uma acção de graças a Deus, trespassada de profundo gozo, por ter visto o Messias. A segunda (vv. 31-32) acentua o caracter profético e canta os benefícios divinos que o Messias traz a Israel e a todos os homens. O cântico realça o caracter universal da Redenção de Cristo, anunciada por muitas profecias do AT (cfr Gen 22,18; Is 42,6; Is 60,3; Ps 98,2).

Podemos compreender o gozo singular de Simeão ao considerar que muitos patriarcas, profetas e reis de Israel anelaram ver o Messias e não O viram, e ele, pelo contrário, tem-No nos seus braços (cfr Lc 10,24; 1Pet 1,10). 33. A Virgem Santíssima e São José admiravam-se não porque desconhecessem o mistério de Cristo, mas pelo modo como Deus o ia revelando. Uma vez mais nos ensinam a saber contemplar os mistérios divinos no nascimento de Cristo.

34-35. Depois de os abençoar, Simeão, movido pelo Espírito Santo, profetiza de novo sobre o futuro do Menino e de Sua Mãe. As palavras de Simeão tornaram-se mais claras para nós ao cumprirem-se na Vida e na Morte do Senhor.

Jesus, que veio para a salvação de todos os homens, não obstante, será sinal de contradição > porque alguns obstinar-se-ão em rejeitá-Lo, e para estes Jesus será a sua ruína. Para outros, porém, ao aceitá-Lo com fé, Jesus será a sua salvação, livrando-os do pecado nesta vida e ressuscitando-os para a vida eterna.

As palavras dirigidas à Santíssima Virgem anunciam que Maria teria de estar intimamente unida à obra redentora do seu Filho. A espada de que fala Simeão expressa a participação de Maria nos sofrimentos do Filho; é uma dor inenarrável, que traspassa a alma. O Senhor sofreu na Cruz pelos nossos pecados; também são os pecados de cada um de nós que forjaram a espada de dor da nossa Mãe. Por conseguinte, temos um dever de desagravo não só com Deus, mas também com a Sua Mãe, que é igualmente nossa Mãe. As últimas palavras da profecia, «a fim de se revelarem os pensamentos de muitos espíritos», enlaçam com o v. 34: na aceitação ou rejeição de Cristo manifesta-se a rectidão ou a perversão dos corações.

36-38. O testemunho de Ana é muito parecido ao de Simeão: como este, também ela tinha estado à espera da vinda do Messias durante a sua longa vida, num serviço fiel à Deus; e também é premiada com o gozo de O ver. «Pôs-se a falar», isto é, do Menino: louvava a Deus em oração pessoal, e exortava os outros a que cressem que aquele Menino era o Messias.

Assim, pois, o nascimento de Cristo manifesta-se por três espécies de testemunhas e de três modos diferentes: primeiro, pelos pastores, depois do anúncio do anjo; segundo, pelos Magos, guiando-os a estrela; terceiro, por Simeão e Ana, movidos pelo Espírito S Quem, como Simeão e Ana, persevera na piedade e no serviço a Deus, por muito pouca valia que pareça ter a sua vida aos olhos dos homens, converte-se em instrumento apto do Espírito Santo para dar a conhecer Cristo aos outros. Nos Seus planos redentores, Deus vaie-Se destas almas simples para conceder muitos bens à humanidade.

  1. Antes da volta a Nazaré aconteceram os factos da fuga e permanência no Egipto que São Mateus relata em 2,13-23.
  2. «Nosso Senhor Jesus Cristo enquanto criança, isto é, revestido da fragilidade da natureza humana, devia crescer e fortalecer-Se; mas enquanto Verbo eterno de Deus não necessitava de Se fortalecer nem de crescer. Donde muito bem é descrito cheio de sabedoria e de graça» (In Lucae Evangelium expositio, ad loc.).

 

03.02.2017– Mc 6, 14-29.

14Ouviu o rei Herodes falar de Jesus, pois o Seu nome se tinha tornado célebre, e dizia: João Baptista ressuscitou dos mortos, e é por isso que essas forças milagrosas operam nele. 15Outros, porém, diziam: É Elias; e outros: É um profeta, como um dos antigos profetas. 16Mas Herodes, ouvindo isto, dizia: É João, a quem eu decapitei, que ressuscitou.

17De facto, Herodes mandara prender a João e pusera-o a ferros numa prisão por causa de Herodiade, mulher de seu irmão

Filipe, com a qual tinha casado. 18Porque João dizia a Herodes: Não te é lícito ter a mulher de teu irmão. 19Herodíade perseguia-o e queria fazê-lo condenar à morte, mas não podia. 20É que Herodes, sabendo que João era homem justo e santo, temia-o e protegia-o e, quando o ouvia, ficava muito perplexo, mas escutava-o com prazer. 21Chegou enfim um dia favorável, quando Herodes, no seu aniversário natalício, deu um banquete aos grandes da sua corte e aos oficiais e aos principais da Galileia. 22A filha da mesma Herodíade apresentou-se a dançar e agradou a Herodes e aos convivas, tanto que o rei disse à moça: Pede-me o que quiseres e dar-to-ei. 23E jurou-lhe: Tudo o que me pedires te darei, ainda que seja metade do meu reino. 24Ela saiu a perguntar à mãe: Que hei-de pedir? Respondeu-lhe: A cabeça de João Baptista. 25Voltou ela, a correr, à presença do rei e fez-lhe assim o pedido: Quero que me dês agora mesmo, num prato, a cabeça de João Baptista. 26Entristeceu-se muito o rei, mas, por causa do juramento e dos convivas, não quis faltar-lhe à palavra. 27E logo o rei mandou um guarda com ordem de trazer a cabeça dele. Este foi e decapitou-o no cárcere; 28e trouxe a cabeça num prato e deu-a à moça, e a moça deu-a à mãe. 29Ao saberem disso, os seus discípulos vieram e levaram o corpo e depuseram-no num sepulcro.

Comentário

  1. De acordo com o uso popular, São Marcos chama a Herodes rei; mas com precisão jurídica apenas era tetrarca, como dizem São Mateus (14, 1) e São Lucas (9, 7), isto é, governador de certa importância. Este Herodes, que São Marcos aqui cita, era Herodes Antipas, filho de Herodes o Grande, aquele que era rei dos Judeus nos anos do nascimento de Jesus Cristo. Cfr a nota a Mt 2, 1.

16-29. E de notar que se intercala no relato evangélico o extenso episódio da morte de João Baptista. A razão é que São João Baptista tem relevância especial na História da Salvação, porque é o Precursor, encarregado de preparar os caminhos do Messias. Por outro lado, João Baptista tinha um grande prestígio entre o povo: consideravam-no profeta (Mc 11,32) e alguns inclusivamente o Messias (Lc 3, 15; Ioh 1, 20) e acorriam a ele de muitos lugares (Mc 1, 5). O próprio Jesus chegou a dizer: «Entre os nascidos de mulher, não surgiu nenhum maior que João Baptista» (Mt 11,11). Mais tarde, o apóstolo São João voltaria a falar dele no seu Evangelho: «Houve um homem enviado por Deus, que se chamava João» (Ioh 1, 6). Mas no texto sagrado esclarece-se, não obstante, que o Baptista, apesar de tanto, não era a luz, mas a testemunha da luz (Ioh 1, 6-8). Propriamente apenas era a lâmpada que levava a luz (Ioh 5,35).

De João Baptista é-nos dito aqui que era justo e que pregava a cada qual aquilo de que necessitava: à multidão do povo, aos publicanos, aos soldados (Lc 3,10-14); aos fariseus e aos saduceus (Mt 3, 7-12), ao próprio rei Herodes (Mc 6, 18-20). Este homem humilde, íntegro e austero, garante com a sua vida o testemunho que davam as suas palavras sobre o Messias Jesus (Ioh 1, 29.36-37).

  1. Os juramentos e as promessas de conteúdo imoral não se devem fazer. E, se se fizeram, não se devem cumprir. Esta é a doutrina da Igreja, resumida pelo Catecismo Maior de São Pio X, n° 383, da seguinte maneira: «Estamos obrigados a manter o juramento de fazer coisas injustas ou ilícitas? Não só não estamos obrigados, mas, pelo contrário, pecamos ao fazê-las, como coisas proibidas pela Lei de Deus ou da Igreja».

 

04.02.2017– Mc 6, 30-34.

30Entretanto os «apóstolos voltaram a reunir-se com Jesus e contaram-Lhe tudo quanto tinham feito e ensinado. 31E Ele disse-lhes: Vinde vós outros sozinhos para um lugar deserto e descansai um pouco. Eram com efeito muitos os que iam e vinham, e eles nem sequer tinham tempo para comer. 32Partiram, pois, de barco, a sós, para um lugar deserto.

33Viram-nos, porém, partir e muitos perceberam para onde iam; e, por terra, concorreram lá de todas as cidades e chegaram primeiro do que eles. 34Ao desembarcar, viu uma grande multidão e condoeu-Se dela, porque eram como ovelhas sem pastor, e começou a ensinar-lhes muitas coisas.

Comentário

30-31. Vê-se aqui a intensidade do ministério público de Jesus. Era tal a dedicação às almas que, por duas vezes, São Marcos faz notar que inclusivamente lhes faltava o tempo para comer (cfr Mc 3, 20). O cristão deve estar disposto a sacrificar o próprio tempo, e inclusivamente o descanso, para serviço do Evangelho. Esta atitude de disponibilidade levar-nos-á a saber mudar os nossos planos quando o exija o bem das almas.

Mas também ensina aqui Jesus a ter senso comum e não pretender fazer loucamente certos esforços, que excedem absolutamente as nossas forças naturais: «O Senhor faz descansar os Seus discípulos para ensinar aos que governam que aqueles que trabalham por obras ou por palavras não podem trabalhar sem interrupção» (In Marci Evangelium expositio, ad loc.). «Quem se entrega a trabalhar por Cristo não há-de ter um momento livre, porque o descanso não é não fazer nada; é distrair-se em actividades que exigem menos esforço» (Caminho, n° 357).

  1. 34. O Senhor fez planos para descansar algum tempo, juntamente com os Seus discípulos, das absorventes tarefas apostólicas (Mc 6, 31-32). Mas não os pode levar a cabo pela presença de um grande número de gente que acorre a Ele ávida da Sua palavra. Jesus Cristo não só não Se aborrece com eles, mas sente compaixão ao ver a necessidade espiritual que têm. «Morre o Meu povo por falta de doutrina» (Os 4, 6). Necessitam de instrução e o Senhor quer satisfazer esta necessidade por meio da pregação. «A fome e a dor comovem Jesus, mas sobretudo comove-O a ignorância» (Cristo que passa, n°109).

 

05.02.2017– Mt 5, 13-16.

13Vós sois o sal da terra. Ora se o sal se tornar insípido, com que há-de ser ele salgado? Para nada mais serve, senão para se deitar fora e ser pisado pelos homens.

14Vós sois a luz do mundo. Não pode ocultar-se uma cidade assente sobre um monte.

15Nem se acende uma candeia para se colocar debaixo do alqueire mas sim sobre o velador, e assim alumia a quantos estão em casa.

16Brilhe a vossa luz diante dos homens de tal modo que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos Céus.

Comentário

13-15. Estes versículos são um chamamento à missão apostólica que todo o cristão tem pelo facto de o ser. Cada cristão há-de lutar pela sua santificação pessoal, mas também pela santificação dos outros. Jesus ensina-o com as imagens expressivas do sal e da luz. Assim como o sal preserva da corrupção os alimentos, lhes dá sabor, os torna agradáveis e desaparece confundindo-se com eles, o cristão há-de desempenhar essas mesmas funções entre os seus semelhantes.

«Tu és sal, alma de apóstolo. — «Bonum est sal» — o sal é bom, lê-se no Santo Evangelho; «si autem sal evanuerit» — mas se o sal se desvirtua… de nada serve, nem para a terra, nem para o estéreo; deita-se fora como inútil.

«Tu és sal, alma de apóstolo. — Mas se te desvirtuas…» (Caminho, n° 921).

As boas obras são fruto da caridade, que consiste em amar os outros como nos ama o Senhor (cfr Ioh 15, 12). «Agora adivinho — escreve Santa Teresinha — que a verdadeira caridade consiste em suportar todos os defeitos do próximo, em não estranhar as suas debilidades, em edificar-se com as suas menores virtudes; mas aprendi especialmente que a caridade não deve permanecer encerrada no fundo do coração pois ‘não se acende uma luz para a colocar debaixo de um alqueire, mas sobre o velador a fim de alumiar todos os que estão em casa’. Parece-me que esta tocha representa a caridade que deve iluminar e alegrar não só aqueles que mais amo, mas todos os que estão em casa» (História de uma alma, cap 9).

Uma das manifestações mais claras da caridade é a actividade apostólica. O Concilio Vaticano II pôs em relevo a obrigação do apostolado, direito e dever que nascem do Baptismo e da Confirmação (cfr Lumen gentium, n. 33), até afirmar que, fazendo o cristão parte do Corpo Místico, «o membro que não contribui segundo a sua medida para o aumento deste Corpo, deve dizer-se que não aproveita nem à Igreja nem a si mesmo» (Apostolicam actuositatem, n. 2). «Inúmeras oportunidades se oferecem aos leigos para exercerem o apostolado de evangelização e santificacão. O; próprio testemunho da vida cristã e as obras, feitas com espírito sobrenatural, têm eficácia para atrair os homens à fé B a Deus; diz o Senhor: ‘Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, de modo que vejam as vossas boas obras e dêem glória ao vosso Pai que está nos céus’» (Apostolicam actuositatem, n. 6).

«A Igreja tem de estar presente nestes agrupamentos humanos por meio dos seus filhos que entre eles vivem ou a eles são enviados. Com efeito, todos os fiéis cristãos, onde quer que vivam, têm obrigação de manifestar, pelo exemplo da vida e pelo testemunho da palavra, o homem novo de que se revestiram pelo Baptismo, e a virtude do Espírito Santo por quem na Confirmação foram robustecidos, de tal modo que os outros homens, ao verem as suas boas obras, glorifiquem o Pai e compreendam mais plenamente o sentido genuíno da vida humana e o vínculo universal da comunidade humana» (Adgentes, n. 11; cfr n. 36).

 

06.02.2017– Mc 6, 53-56.

53Feita a travessia, vieram para terra e atracaram em Genesaré. 54Apenas saídos da barca, logo O reconheceram 55e, percorrendo toda aquela região, começaram a trazer em maças os doentes para onde ouviam dizer que Ele estava. 56E onde quer que entrava, nas aldeias ou nas cidades ou nos campos, punham os enfermos nas praças e rogavam-Lhe que ao menos os deixasse tocar a franja do Seu manto. E quantos O tocavam ficavam curados.

Comentário

  1. Os discípulos não acabam de entender os milagres de Jesus como sinais da Sua divindade. Assim acontece diante dos milagres da multiplicação dos pães e dos peixes (Mc 6, 33-44) e da segunda multiplicação dos pães (Mc 8, 17). Diante destas maravilhas sobrenaturais, os Apóstolos têm ainda o seu coração e a sua inteligência endurecidos; não chegam a descobrir em toda a sua profundidade o que Jesus lhes está a ensinar com os Seus feitos: que Ele é o Filho de Deus. Jesus Cristo é compreensivo e paciente com estes defeitos dos Seus discípulos: também não entenderão quando Jesus lhes falar da Sua própria Paixão (Lc 18, 34). O Senhor multiplicará os Seus ensinamentos e milagres para iluminar as inteligências dos discípulos, e mais tarde enviará o Espírito Santo, que lhes ensinará todas as coisas e lhes recordará os Seus ensinamentos (cfr Ioh 14,26).

São Beda o Venerável faz o seguinte comentário a todo o episódio (Mc 6, 45-52): «Em sentido místico, o trabalho dos discípulos a remar e o vento contrário assinalam os trabalhos da Igreja santa que, entre as vagas do mundo inimigo e a exalação dos espíritos imundos, se esforça por chegar ao descanso da pátria celeste. Com razão, pois, se diz que a barca estava no meio do mar e Ele só em terra, porque a Igreja nunca foi tão intensamente perseguida pelos gentios que parecesse que o Redentor a tivesse abandonado de todo. Mas o Senhor vê os Seus a lutar no mar e, para que não desfaleçam nas tribulações, fortalece-os com o seu olhar de misericórdia e algumas vezes livra-os do perigo com a Sua clara ajuda» (In Marci Evangelium expositio, ad loc.).

 

07.02.2017– Mc 7, 1-13.

Ajuntaram-se depois à volta d’Ele os Fariseus e alguns Escribas vindos de Jerusalém. 2E, vendo alguns dos Seus discípulos a comer com as mãos profanas, isto é, sem as terem lavado; 3de facto, os Fariseus, como todos os Judeus, não comem sem ter lavado as mãos cuidadosamente, seguindo a tradição dos antigos; 4e, ao voltarem da praça, não comem sem se terem lavado; há ainda muitas outras cerimônias que observam por tradição, como abluções de copos e jarros e vasos de metal. 5Perguntaram-Lhe, pois, os Fariseus e os Escribas: Porque é que os Teus discípulos não se conformam com a tradição dos antigos e comem com as mãos profanas? 6Mas Ele disse-lhes: Bem profetizou Isaías de vós, hipócritas, como está escrito:

Este povo honra-Me com os lábios, mas o seu coração está longe de Mim.

7Em vão Me prestam culto, ensinando doutrinas que são preceitos humanos.

8Desprezando o mandamento de Deus, aferrais-vos à tradição dos homens, abluções de jarros e copos e fazeis muitas outras coisas semelhantes. 9E dizia-lhes: Vós violais lindamente o mandamento de Deus, para observar a vossa tradição. 10Com efeito, disse Moisés: «Honra teu pai e tua mãe», e: «Quem amaldiçoar pai ou mãe seja punido de morte». 11Vós, porém, dizeis: Ao homem que disser ao pai ou à mãe: tudo aquilo com que podia ajudar-te é «qorban», isto é, «oferenda», I2já lhe não permitis fazer nada em favor do pai ou da mãe, 13anulando assim o mandamento de Deus com a vossa tradição, por vós transmitida. E coisas como estas fazeis muitas.

Comentário

1-2. O lavar-se as mãos não era por meros motivos de higiene ou de urbanidade, mas tinha um significado religioso de purificação. Em Ex 30,17 ss. a Lei de Deus prescrevia a purificação dos sacerdotes antes das suas funções cultuais. A tradição judaica tinha-o ampliado a todos os israelitas para antes de todas as refeições, querendo dar a estas um significado religioso que se reflectia nas bênçãos com que começavam. A purificação ritual era símbolo da pureza moral com que uma pessoa deve apresentar-se diante de Deus (Ps 24,3 ss.; 51,4-9); mas os fariseus tinham conservado o meramente exterior. Por isso Jesus restitui o sentido genuíno destes preceitos da Lei, que tendem a ensinar a verdadeira adoração a Deus (cfr Ioh 4,24).

3-5. No texto vemos com clareza que boa parte dos destinatários imediatos do Evangelho de São Marcos eram cristãos procedentes do paganismo, que desconheciam os costumes dos Judeus. Por isso o Evangelista explica-lhes, com certo pormenor, alguns destes costumes para facilitar a compreensão do sentido dos acontecimentos e dos ensinamentos da história evangélica.

De modo semelhante a pregação e ensino da Sagrada Escritura deve fazer-se de maneira que seja compreensível e acomodada às circunstâncias dos ouvintes. Por isso ensina o Concilio Vaticano II que «compete aos Bispos ensinar oportunamente os fiéis que lhes foram confiados no uso recto dos livros divinos, de modo particular do Novo Testamento, e sobretudo dos Evangelhos. E isto por meio de traduções dos textos sagrados, que devem ser acompanhadas às explicações necessárias e verdadeiramente suficientes, para que os filhos da Igreja se familiarizem dum modo seguro e útil com a Sagrada Escritura, e se penetrem do seu espírito» (Dei Verbum, n. 25).

11-13. Sobre a explicação deste texto vid. a nota a Mt 15,5-6. Jesus Cristo, que é o intérprete autêntico da Lei, porque enquanto Deus é autor dela, esclarece o verdadeiro alcance do quarto mandamento perante as explicações errôneas da casuística judaica. Em muitas outras ocasiões Nosso Senhor corrigiu as interpretações erradas dos mestres judaicos. Assim acontece, por exemplo, quando recorda aquela frase do Antigo Testamento: «Ide e aprendei que sentido tem: Quero misericórdia e não sacrifício» (Os 6,6; 1Sam 15,22; Eccli 35,4) que nos conservou São Mateus em 9,13.

 

08.02.2017– Mc 7, 14-23.

14E, chamando outra vez o povo, dizia-lhes: Ouvi-Me todos e entendei: 15Nada há fora do homem que, entrando nele, o possa tornar impuro; mas as coisas que saem do homem, essas é que tornam o homem impuro. 16Quem tem ouvidos para ouvir oiça…

17Quando, ao deixar a multidão, entrou em casa, perguntaram-Lhe os discípulos a significação da parábola. 18E Ele disse-lhes: Também vós sois assim tão pouco inteligentes?! Não compreendeis que tudo o que de fora entra no homem não o pode tornar impuro? 19Porque não entra no coração, mas no ventre, e daí sai para lugar escuso. Declarava assim puros todos os alimentos. 20E dizia: O que sai do homem, isso é que torna o homem impuro; 21porque de dentro, do coração dos homens, saem os maus pensamentos, desonestidades, furtos, homicídios, 22adultérios, ambições, maldades, fraude, impudicícia, inveja, blasfêmia, soberba, insensatez. 23Todas estas coisas más procedem do interior e tornam o homem impuro.

Comentário

  1. Alguns códices importantes acrescentam aqui: «Quem ! têm ouvidos para ouvir oiça…», que corresponderia ao v. 16, que a tradução portuguesa que transcrevemos refere.

18-19. Sabemos pela Tradição que São Marcos foi o intérprete de São Pedro e que ao escrever o seu Evangelho sob a inspiração do Espírito Santo recolheu a catequese do Príncipe dos Apóstolos em Roma.

A visão que teve São Pedro em Joppe (Act 10,10-16) fê-lo entender em toda a sua profundidade este ensinamento do Senhor acerca dos alimentos. O próprio São Pedro o narra ao voltar a Jerusalém, contando a conversão de Cornélio em Joppe: «Então recordei-me da palavra do Senhor» (Act 11,16). O caracter já não obrigatório de tais prescrições de Deus no AT (cfr Lev 11) devia ser algo que São Pedro incluía na sua pregação. Para a interpretação deste texto vid. também a nota a Mt 15,10-20.

20-23. «Na maneira de os homens se exprimirem, que a Sagrada Escritura utiliza para nos dar a entender as coisas divinas, o coração é tido por resumo e fonte, expressão e fundo íntimo dos pensamentos, das palavras, das acções» (Cristo que passa, nº 164).

A bondade ou malícia, a qualidade moral dos nossos actos não depende do seu caracter espontâneo, instintivo. O próprio Senhor diz-nos que do coração humano podem sair acções pecaminosas.

Tal possibilidade compreende-se, se temos em conta que, depois do pecado original, o homem «foi mudado para pior» segundo o corpo e a alma e, portanto, está inclinado para o mal (cfr De peccato originali). Com as palavras deste passo do Evangelho, o Senhor restitui a moral em toda a sua pureza e interioridade.

 

09.02.2017– Mc 7, 24-30.

24Levantou-se depois e partiu dali para os confins de Tiro e Sidónia; e, entrando numa casa, não queria que ninguém o soubesse; mas não conseguiu ocultar-Se, 25pois uma mulher cuja filhinha estava possessa do espírito imundo, apenas ouviu falar d’Ele, veio lançar-se-Lhe aos pés. 26Esta mulher era gentia, de origem sírio-fenícia; e suplicava-Lhe que expulsasse da sua filha o Demônio. 27Mas Ele dizia-lhe: Espera que primeiro se saciem os filhos; porque não é bonito tomar o pão dos filhos e deitá-lo aos cachorros. 28Replicou ela: É verdade, Senhor; mas os cachorrinhos debaixo da mesa comem das migalhas dos filhos. 29E Ele disse-lhe: Por essa tua palavra, vai, que o Demônio saiu da tua filha. 30E ela, voltando para casa, encontrou a menina deitada na cama, livre do Demônio.

Comentário

  1. A região de Tiro e de Sidónia corresponde à zona sul do actual país do Líbano, antiga Fenícia. Desde o lago de Genesaré à fronteira de Tiro e Sidónia não são mais de 50 km. Jesus retira-Se para fora da Palestina para evitar a perseguição das autoridades judaicas e para Se poder dedicar mais intensamente à formação dos Apóstolos.
  2. O Senhor emprega o diminutivo «cachorrinho» para Se referir aos gentios, dulcificando assim uma expressão depreciativa que os Judeus utilizavam para os designar. Sobre o episódio da cananeia cfr as notas aos passos paralelos de Mt 15,21-22. 24.25-28.

 

10.02.2017– Mc 7, 31-37.

31Deixando novamente a região de Tiro, veio por Sidónia, para o mar da Galileia, através do território da Decápole. 32Trazem-Lhe um surdo-tartamudo e pedem-Lhe que lhe imponha as mãos. 33E Ele, tomando-o consigo aparte, longe da multidão, meteu-lhe os dedos nos ouvidos e com a saliva tocou-lhe a língua. 34Depois, levantando os olhos ao céu, suspirou e disse-lhe: Effathá! — isto é — Abre-te! 35E imediatamente se lhe abriram os ouvidos e se desatou a prisão da língua e falava expeditamente. Ele mandou-lhes que o não contassem a ninguém. 36Mas quanto mais lho mandava, tanto mais eles o apregoavam 37e, fora de si de espanto, diziam: Tudo faz bem: faz ouvir os surdos e falar os mudos.

Comentário

32-33. Com alguma frequência aparece na Sagrada Escritura a imposição das mãos como gesto para transmitir poderes ou bênçãos (cfr Gen 48,14ss.; 2Reg 5.11; Lc 13,13). De todos é conhecido que a saliva tem certa eficácia para aliviar feridas leves. Os dedos simbolizavam na linguagem da Revelação uma acção divina poderosa (cfr Ex 8,19; Ps 8,4; Lc 11,20). Jesus, pois, emprega sinais que têm uma certa conaturalidade em relação com o efeito que se pretende produzir, ainda que, como vemos pelo texto, o efeito — a cura imediata do surdo-mudo — exceda completamente o sinal empregado.

No milagre do surdo-tartamudo podemos encontrar, além disso, uma imagem da actuação de Deus nas almas: para crer é necessário que Deus abra o nosso coração a fim de que possamos escutar a Sua palavra. Depois, como os Apóstolos, poderemos anunciar com a nossa língua as magnalia Dei, as grandezas divinas (cfr Act 2,11). Na Liturgia da Igreja (cfr o hino Veni Creator) o Espírito Santo é comparado ao dedo da mão direita de Deus Pai (Digitus paternae dexterae). O Consolador realiza nas nossas almas, na ordem sobrenatural, efeitos comparáveis aos que Cristo realizou no corpo do surdo-tartamudo.

 

11.02.2017– Mc 8, 1-10.

O Por aqueles dias, sendo outra vez grande a multidão e não tendo que comer, chama os discípulos e diz-lhes: 2Tenho compaixão deste povo, porque há já três dias que anda comigo e não tem que comer; 3e, se o mando para suas casas em jejum, desfalecerá no caminho, tanto mais que alguns deles são de longe. 4Responderam-Lhe os discípulos: E onde encontrar pão para os saciar aqui num deserto? 5Mas Ele perguntou: Quantos pães tendes? Sete, disseram eles. 6Mandou então sentar o povo no chão. E, tomando os sete pães, deu graças, partiu-o e foi-os dando aos discípulos, para que os servissem, e eles serviram-nos à multidão. 7Tinham também alguns peixes pequenos, e Ele pronunciou sobre eles a fórmula da bênção e mandou-os também servir. 8E eles comeram até se saciarem. E, dos pedaços que sobejaram, recolheram sete cabazes. 9Èram cerca de quatro mil, e mandou-os embora.

10E logo entrou na barca com os discípulos e foi para a região de Dalmanuta.

Comentário

1-9. Jesus repete o milagre da multiplicação dos pães e dos peixes: na primeira vez (Mc 6,33-44) actuou ao ver uma grande multidão que ia como «ovelhas sem pastor»; agora, quanto a multidão O seguiu durante três dias e não tem que comer.

Este milagre é uma mostra de como premeia Cristo a perseverança no Seu seguimento: a multidão esteve pendente da palavra de Jesus, esquecendo-se de tudo o resto.

Também, nós devemos estar pendentes d’Ele e cumprir o que nos manda, pondo de parte toda a preocupação vã pelo futuro, o que equivaleria a desconfiar da Providência divina.

  1. «Dalmanuta»: Esta comarca deve situar-se nas proximidades do lago de Genesaré, ainda que seja difícil de dar uma localização mais precisa. E esta a única vez que se menciona na Sagrada Escritura. No passo paralelo de São Mateus (15,39) figura umas vezes Magadan e outras Magdala.

 

12.02.2017– Mt 5, 17-37.

17Não julgueis que vim abolir a Lei ou os Profetas. Não vim abolir mas cumprir.

18Em verdade vos digo: até que passem os Céus e a Terra, nem um só jota ou um só til da Lei passará, sem que tudo se cumpra.

19Portanto, quem transgredir um só destes mandamentos mais pequenos e ensinar assim aos homens, será o mais pequeno no Reino dos Céus. Mas quem os observar e ensinar, esse será grande no Reino dos Céus.

20Porque Eu vos digo que, se a vossa justiça não sobrepujar a dos Escribas e Fariseus, não entra reis no Reino dos Céus.

21Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás, e quem matar será réu perante o tribunal. 22Eu, porém, digo-vos: Todo aquele que se irar contra seu irmão, será réu perante o tribunal. E quem chamar a seu irmão «imbecil», será réu perante o Sinédrio. E quem lhe chamar «doido», será réu da Geena do fogo. 23Portanto, se ao apresentares a tua oferenda ao altar, aí te recordares que teu irmão tem algo contra ti, 24deixa aí a tua oferenda diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão, depois vem e apresenta a tua oferenda. 25Põe-te de acordo com o teu adversário, enquanto estás com ele no caminho. Não seja caso que o adversário te entregue ao juiz, e o juiz ao guarda, e sejas metido na prisão. 26Em verdade te digo: não sairás de lá, enquanto não pagares o último ceitil.

27Ouvistes que foi dito: Não cometerás adultério. 28Eu, porém, digo-vos: Todo aquele que olhar uma mulher para a cobiçar, já com ela cometeu adultério em seu coração. 29Se o teu olho direito te faz tropeçar, arranca-o e lança-o fora, para longe de ti, porque melhor é para ti perder-se um só dos teus membros, do que ser todo o teu corpo lançado na Geena. 30E se a tua mão direita te faz tropeçar, corta-a e lança-a fora, para longe de ti, porque melhor é para ti perder-se um só dos teus membros, do que ir todo o teu corpo para a Geena.

31Também foi dito: Todo aquele que se desquitar de sua mulher, dê-lhe libelo de repúdio. 32Eu, porém, digo-vos: Todo o que se desquitar de sua mulher, excepto no caso de união ilegítima, faz com que ela venha a ser adúltera, e quem se casar com uma repudiada, comete adultério.

33Ouvistes mais que foi dito aos antigos: Não jures falso, mas cumpre os juramentos feitos ao Senhor. 34Eu, porém, digo-vos que não jureis de modo nenhum, nem pelo Céu, que é o trono de Deus, 35nem pela Terra, que é estrado dos seus pés, nem por Jerusalém, que é a cidade do Grande Rei. 36Nem jures pela tua cabeça, porque não podes tornar um só cabelo branco ou preto. 37Seja, pois, o vosso falar: sim, sim, não, não, porque tudo o que passa disto procede do Maligno.

Comentário

17-19. Jesus ensina neste passo o valor perene do Antigo Testamento, enquanto é palavra de Deus; goza, portanto, de autoridade divina e não pode desprezar-se o mínimo. Na Antiga Lei havia preceitos morais, judiciais e litúrgicos. Os preceitos morais do AT conservam no Novo o seu valor, porque são principalmente promulgações concretas, divino-positivas, da lei natural. Nosso Senhor dá-lhes, contudo, a sua significação e as suas exigências mais profundas. Os preceitos judiciais e cerimoniais, pelo contrário, foram dado por Deus para uma etapa concreta na História da Salvação, a saber, até à vinda de Cristo; a sua observância material em si não obriga os cristãos (cfr Suma Teológica, I-II, q. 108, a. 3 ad 3).

A lei promulgada por meio de Moisés e explicada pelos Profetas constituía um dom de Deus para o povo, como antecipação da Lei definitiva que daria Cristo o Messias. Na verdade, como definiu o Concilio de Trento, Jesus não só « foi dado aos homens como Redentor em quem confiem, mas também como Legislador a quem obedeçam» (De justificatione, can. 21).

  1. «Justiça»: Veja-se nota a Mt 5, 6. O versículo vem esclarecer o sentido dos precedentes. Os escribas e os fariseus tinham chegado a deformar o espírito da Lei, ficando na observância externa e ritual da mesma. Entre eles o cumprimento exacto e minucioso, mas externo, dos preceitos tinha-se transformado numa garantia de salvação do homem diante de Deus: « se eu cumpro isto sou justo, sou santo e Deus tem de me salvar». Com este modo de conceber a justificação já não é Deus no fundo quem salva, mas é o homem quem se salva pelas obras externas. A falsidade de tal concepção fica patente com a afirmação de Cristo, que poderia exprimir-se com estes termos: para entrar no Reino dos Céus é necessário superar radicalmente a concepção da justiça ou santidade a que tinham chegado os escribas e os fariseus. Por outras palavras, a justificação ou santificação é uma graça de Deus, com a qual o homem só pode colaborar secundariamente pela sua fidelidade a essa graça. Noutros lugares estes ensinamentos ficarão ainda mais claramente explicados por Jesus (cfr Lc 18, 9-14, parábola do fariseu e do publicano). Também dará lugar a Uma das grandes batalhas doutrinais de São Paulo perante os «judaizantes» (veja-se Gal 3 e Rom 2-5).

21-26. Nestes versículos temos um exemplo concreto de como Jesus leva à sua plenitude a Lei de Moisés, explicando profundamente o sentido dos mandamentos desta.

  1. Jesus ao falar em primeira pessoa («Eu, porém, digo-vos») expressa que a Sua autoridade está por cima da de Moisés e dos Profetas; quer dizer: Ele tem autoridade divina. Nenhum homem poderia falar com essa autoridade,

«Imbecil»: Muitíssimas versões deste passo mantiveram a transcrição da palavra original aramaica: «Raça», pronunciada por Cristo. Não é fácil de dar uma tradução exacta. O termo «raça» equivale ao que hoje entendemos por néscio, estúpido, imbecil. Era sinal entre os Judeus de um grande desprezo, que muitas vezes se manifestava não com palavras, mas com a acção de cuspir no chão.

«Doido», que outras versões traduzem por «fátuo», «louco», «renegado», etc., era um insulto ainda maior que «raça»: referia-se à perda do sentido moral e religioso, até ao ponto da apostasia.

Nosso Senhor indica neste texto três faltas que podemos cometer contra a caridade, nas quais se pode apreciar uma gradação, que vai desde a irritação interna até ao maior dos insultos. A propósito deste passo comenta Santo Agostinho que se devem observar três graus de faltas e de castigos. O primeiro, entrar em cólera por um movimento interno do coração, ao que corresponde o castigo do juízo; o segundo, dizer alguma palavra de desprezo, que leva consigo o castigo do Conselho; o terceiro, quando deixando-nos levar pela ira até à obcecação, injuriamos despiedadamente os nossos irmãos, que é castigado com o fogo do inferno (cfr De Semi. Dom. in monte II, 9).

«Geena do fogo», frase que na linguagem judaica daqueles tempos significava o castigo eterno, o fogo do inferno.

Daqui a gravidade dos pecados externos contra a caridade: murmuração, injúria, calúnia, etc. Não obstante, devemos dar-nos conta de que estes brotam do coração; o Senhor chama a atenção em primeiro lugar para os pecados internos: rancor, ódio, etc., para fazer ver que aí está a raiz, e quanto nos convém refrear os primeiros movimentos da ira.

23-24. O Senhor encontra-Se com umas práticas judaicas do Seu tempo, e em tal ocasião dará uma doutrina de valor moral altíssimo e perene. Naturalmente que no cristianismo estamos noutra situação diferente das práticas cultuais judaicas. Para nós o mandato do Senhor tem uns caminhos determinados por Ele mesmo. Em concreto, na Nova e definitiva Aliança, fundada por Cristo, reconciliar-nos é aproximar-nos do sacramento da Penitência. Neste os fiéis «obtêm da misericórdia de Deus o perdão da ofensa feita a Ele, e ao mesmo tempo reconciliam-se com a Igreja, à qual feriram pelo pecado» (Lumen gentium, n. 11).

Do mesmo modo, no Novo Testamento, a oferenda por excelência é a Eucaristia. Ainda que à Santa Missa se deva assistir sempre nos dias de preceito, é sabido que para a recepção da Sagrada Comunhão se requer como condição imprescindível estar em graça de Deus.

Nosso Senhor não quer dizer nestes versículos que se tenha de antepor o amor do próximo ao amor de Deus. A caridade tem uma ordem: amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças. Este é o maior e primeiro mandamento (cfr Mt 22, 37-38). O amor ao próximo, que é o segundo mandamento em importância (cfr Mt 22, 39), recebe o seu sentido do primeiro. Não é concebível fraternidade sem paternidade. A ofensa contra a caridade é, antes de mais, ofensa a Deus.

27-30. Refere-se ao olhar pecaminoso dirigido a toda a mulher, casada ou não. Nosso Senhor leva à sua plenitude o preceito da Antiga Lei. Neste só se considerava pecado o adultério e o desejo da mulher do próximo.

O desejo: uma coisa é sentir e outra consentir. O consentimento supõe a advertência da maldade desses actos (olhares, imaginações, desejos impuros), e a voluntariedade que livremente os admite.

A proibição dos vícios implica sempre um aspecto positivo, que é a virtude contrária. A santa pureza é, como toda a virtude, eminentemente positiva; nasce do primeiro mandamento e para ele se ordena: «Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração e com toda a tua alma e com toda a tua mente» (Mt 22, 37). «A pureza é consequência do amor com que entregamos ao Senhor a alma e o corpo, as potências e os sentidos. Não é uma negação: é uma alegre afirmação» (Cristo que passa, nº5). Esta virtude exige pôr todos os meios e, se for necessário, heroicamente.

Por olho direito e mão direita entende-se o que é para nós de maior estima. Este modo de falar do Senhor, tão forte, não deve ser rebaixado na sua exigência moral. É claro que não significa que nos devemos mutilar fisicamente, mas lutar sem concessões, estando dispostos a sacrificar tudo aquilo que possa ser ocasião clara de ofensa a Deus. As palavras do Senhor, tão gráficas, previnem principalmente acerca de uma das mais frequentes ocasiões: o cuidado que devemos ter com os olhares. O rei David começou deixando-se levar pela curiosidade e isto conduziu-o ao adultério e ao crime. Depois chorou os seus pecados e teve uma vida santa na presença de Deus (cfr 2Sam 11 e 12).

«Os olhos! Por eles entram na alma muitas iniquidades. — Quantas experiências como a de David!… — Se guardardes a vista, tereis assegurado a guarda do vosso coração» (Caminho, n° 183).

Entre os meios ascéticos que servem para salvaguardar a virtude da santa pureza podem enumerar-se: Confissão e Comunhão frequentes; devoção à Santíssima Virgem; espírito de oração e mortificação; guarda dos sentidos; fuga das ocasiões, e esforço por evitar a ociosidade, estando sempre ocupados em coisas úteis. Há também outros dois meios que têm hoje uma particular importância: «O pudor e a modéstia são os irmãos pequenos da pureza» (Caminho, nº 128). Pudor e modéstia são expressão de bom gosto, de respeito pelos outros e pela dignidade humana e cristã. Por isso o cristão, consequente com esta doutrina do Senhor, há-de lutar opondo-se a um ambiente paganizado, para influir nele e tratar de mudá-lo.

«É necessária uma cruzada de virilidade e de pureza que contrarie e anule o trabalho selvagem daqueles que pensam que o homem é uma besta. E esta cruzada é obra vossa» (Caminho, nº 121).

31-32. A Lei de Moisés (Dt 24, 1), dada em tempos antigos, tinha tolerado o divórcio pela dureza de coração dos Hebreus. Mas não tinha indicado de maneira clara os motivos para chegar a ele. Por isso os rabinos tinham dado uma série de interpretações diversas, segundo as escolas a que pertencessem, que iam de posições muito laxas a outras mais rígidas. Em qualquer dos casos, só o marido podia repudiar a mulher. A condição de inferioridade da mulher tinha sido de algum modo suavizada pela acta ou libelo de repúdio, escrito pelo qual o marido declarava a liberdade da mulher repudiada para que pudesse contrair novas núpcias. Contra tais interpretações rabínicas, Jesus restabelece a originária indissolubilidade do matrimônio tal como Deus o tinha instituído (Gen 1, 27; 2, 24; cfr Mt 19, 4-6; Eph 1, 31; 1Cor 7,10).

«Excepto no caso de união ilegítima» ou «fora do caso de fornicação» não pode tomar-se como uma excepção do princípio da absoluta indissolubilidade do matrimônio que Jesus acaba de restabelecer. Quase com toda a certeza, a mencionada cláusula refere-se a uniões admitidas como matrimônio entre alguns povos pagãos, mas proibidas, por incestuosas, na Lei mosaica (cfr Lev 18) e na tradição rabínica. Trata-se, pois, de uniões inválidas desde a sua raiz por algum impedimento. Quando tais pessoas se convertiam à verdadeira fé, não é que pudesse dissolver-se a sua união, mas declarava-se que não tinham estado nunca unidas em verdadeiro matrimônio. Portanto, esta cláusula não vai contra a indissolubilidade do matrimônio, mas reafirma-a. A Igreja, a partir dos ensinamentos de Jesus, e guiada pelo Espírito Santo, concretizou a solução do caso especialmente grave do adultério, estabelecendo a liceidade da separação dos cônjuges, mas sem dissolubilidade do vínculo matrimonial e, portanto, sem possibilidade de contrair novo matrimônio.

A indissolubilidade do matrimônio foi ensinada pela Igreja desde o princípio sem a menor dúvida, e urgiu na prática o cumprimento moral e jurídico desta doutrina, exposta com toda a autoridade por Jesus (Mt 19, 3-9; Mc 10, 1-12; Lc 16, 18) e pelos Apóstolos (1Cor 6, 16; 7, 10-11.39; Rom 7,2-3; Eph 5,31 s.). Entre os muitos textos do Magistério que se poderiam citar, eis aqui só alguns a modo de exemplo:

«É atribuído um triplo bem ao matrimônio (…). O terceiro é a indissolubilidade do matrimônio, porque significa a união invisível de Cristo e da Igreja. E ainda que por motivo de fornicação seja lícito fazer separação do leito, não o é, contudo, contrair outro matrimônio, uma vez que o vínculo do matrimônio legitimamente contraído é perpétuo» (Pró Armeniis).

«Se alguém disser que, por causa de heresia, ou por coabitação molesta, ou por ausência culpável do cônjuge, o vínculo do matrimônio pode ser dissolvido, seja anátema» (De Sacram. matr., can. 5).

«Se alguém disser que a Igreja erra quando ensinou e ensina que, de acordo com a doutrina do Evangelho e dos Apóstolos, não se pode desatar o vínculo do matrimônio por razão de adultério de um dos cônjuges; e que nenhum dos dois, nem sequer o inocente que não deu causa para o adultério, pode contrair novo matrimônio enquanto viva o outro cônjuge, e que adultera na mesma o que depois de repudiar a adúltera se casa com outra, como a que depois de repudiar o adúltero se casa com outro, seja anátema» (De Sacram. matr., can. 7).

«Fique assente, antes de mais, como fundamento inamovível e inviolável, que o matrimônio não foi instituído nem estabelecido por obra dos homens, mas por obra de Deus; que foi protegido, confirmado e elevado não com leis dos homens, mas do próprio autor da natureza, Cristo Senhor; leis, portanto, que não podem estar sujeitas ao arbítrio dos homens, nem sequer ao acordo contrário dos mesmos cônjuges. Esta é a doutrina das Sagradas Letras; esta a constante e universal Tradição da Igreja; esta a solene definição do sagrado Concilio de Trento, que confirma e precisa com as mesmas palavras da Sagrada Escritura que o perpétuo e indissolúvel vínculo do matrimônio e a sua unidade e firmeza têm Deus por autor» (Casti connubii).

«Assim pois, apesar de antes de Cristo, de tal modo se ter temperado a sublimidade e serenidade da lei primitiva que Moisés permitiu aos cidadãos do mesmo povo de Deus, por causa da dureza do seu coração, dar libelo de repúdio por determinadas causas; não obstante, Cristo, no uso do Seu poder de legislador supremo, revogou esta permissão de maior licença, e restabeleceu inteiramente a lei primitiva por aquelas palavras que nunca se devem esquecer: ‘o que Deus uniu, não o separe o homem’» (Casti connubii).

«Em vista do bem tanto dos esposos e da prole como da sociedade, este sagrado vínculo não está ao arbítrio da vontade humana. O próprio Deus é o autor do matrimônio… Esta união íntima, já que é o dom recíproco de duas pessoas, exige, do mesmo modo que o bem dos filhos, a inteira fidelidade dos cônjuges e a indissolubilidade da sua união» (Gaudium et Spes, n. 48).

33-37. A Lei de Moisés proibia taxativamente o perjúrio ou violação de juramento (Ex 20, 7; Num 30,3; Dt 23,22). Em tempos de Cristo, a prática do juramento tinha caído num abuso até ridículo pela sua frequência e pela casuística à volta dele. Segundo numerosos documentos rabínicos da época, jurava-se pelos motivos mais fúteis. Juntamente com o abuso do juramento, tinha surgido outro, não menos ridículo, para legitimar o seu não cumprimento. Tudo isso constituía uma falta de respeito ao nome de Deus. Não obstante, pela mesma Sagrada Escritura sabemos que o juramento é lícito e bom nalgumas ocasiões: «se juras pela vida de Yahwéh com verdade, com direito e com justiça, serão em ti abençoados os povos e em ti se gloriarão» (Ier 4,2).

Jesus estabelece o princípio que hão-de seguir os Seus discípulos nesta matéria. Funda-se num restabelecimento da confiança mútua, da hombridade de bem e da sinceridade. O demônio é o «pai da mentira» (Ioh 8, 44). Portanto, na Igreja de Cristo não podem tolerar-se umas relações humanas baseadas no engano, na hipocrisia. Deus é a verdade, e os filhos do Reino têm, pois, que fundamentar as suas relações na verdade. Jesus conclui com uma exaltação da sinceridade. Ao longo de todo o seu ensino a hipocrisia é um dos vícios mais combatidos (veja-se, por exemplo, Mt 23, 13-32), enquanto que a sinceridade constitui uma das mais belas virtudes (veja-se Ioh 1, 47).

 

13.02.2017– Mc 8, 11-13.

11Vieram os Fariseus e começaram a disputar com Ele, pedindo-Lhe, para O tentarem, um sinal do céu. 12Ele, arrancando um suspiro do íntimo da alma, disse: Porque é que esta geração pede um sinal? Digo-vos, em verdade, que não se dará nenhum sinal a esta geração. 13E, deixando-os, embarcou outra vez e foi para a margem oposta.

Comentário

11-12. Jesus exprime assim a profunda tristeza que Lhe causava o endurecimento do coração dos fariseus: estes permanecem cegos e incrédulos diante da luz que brilhava na sua presença e dos prodígios que Cristo realiza. Para o homem que rejeita os milagres que Deus já lhe ofereceu, será inútil que exija novos sinais, porque esse pedido não procede de uma busca sincera da verdade mas de uma malevolência, que no fundo o que pretende é tentar Deus (cfr Lc 16,27-31). A exigência de novos milagres para crer, sem aceitar os realizados na História da Salvação, é pedir contas a Deus, a Quem se cita diante do tribunal dos homens (cfr Rom 2,1-11): o homem constitui-se em juiz, e o Senhor é demandado para que Se defenda. Esta atitude repete-se, infelizmente, na vida de muitos homens. Só se pode encontrar Deus quando temos uma disposição aberta e humilde. «Não necessito de milagres; bastam-me os que há na Escritura. — Pelo contrário, faz-me falta o teu cumprimento do dever, a tua correspondência à graça» (Caminho, n° 362).

  1. A geração a que alude Jesus não inclui todos os homens do Seu tempo, mas refere-se aos fariseus e aos seus sequazes (cfr Mc 8,38; 9,19; Mt 11,16), que não querem ver nos milagres o sinal e a garantia da missão e dignidade messiânicas de Jesus, mas inclusivamente os atribuem ao poder de Satanás (Mt 12,28).

Se não aceitam os sinais que lhes são dados, não lhes será dado nenhum outro, tão espectacular como o que eles buscam, porque o Reino de Deus não vem aparatosamente (Lc 17,20-21) e porque inclusivamente poderiam continuar a interpretar torcidamente esse novo sinal (Lc 16,31). Segundo Mt 12,38-42 e Lc 11,29-32, é-lhes oferecido ainda outro sinal, único: o milagre de Jonas, sinal da Morte e da Ressurreição de Jesus Cristo; mas diante desta prova excepcional os fariseus também não deporão a sua soberba.

 

14.02.2017– Mc 8, 14-21.

14Ora os discípulos esqueceram-se de levar pão e não tinham consigo no barco mais que um. 15E Ele recomendava-lhes: Olhai: Cuidado com o fermento dos Fariseus e com o fermento de Herodes! 16E eles começaram a discorrer uns com os outros que não tinham pão. 17Ele percebeu e disse-lhes: Porque estais a discorrer que não tendes pães? Não compreendeis ainda nem reflectis? Tendes a inteligência embotada? 18Tendo olhos, não vedes; tendo ouvidos, não ouvis? Nem vos lembrais 19de quantos cestos cheios de pedaços recolhestes, quando parti os cinco pães para aqueles cinco mil? Responderam-Lhe: Doze. 20E quando parti os sete para os quatro mil, quantos cabazes cheios de pedaços recolhestes? Sete, responderam. 21E dizia-lhes: Ainda não compreendeis?

Comentário

15-16. Noutro passo dos Evangelhos — Lc 13,20-21; Mt 13,33 — a imagem do fermento foi empregada por Jesus para significar a força que encerrava a Sua doutrina. Aqui a palavra «fermento» é utilizada no sentido de má disposição. Com efeito, na elaboração do pão, como é sabido, o fermento é que faz levedar a massa. A hipocrisia farisaica e a vida dissoluta de Herodes, que só se movia por ambições pessoais, eram o «fermento» que contagiava desde dentro a «massa» de Israel, para acabar por corrompê-la. Jesus quer prevenir os Seus discípulos contra esses perigos, e fazê-los compreender que para receber a Sua doutrina se necessita de um coração puro e simples.

Mas os discípulos não compreendem. «Não eram cultos. nem sequer muito inteligentes, pelo menos no que diz respeito às realidades sobrenaturais. Até os exemplos e as comparações mais simples lhes eram incompreensíveis e pediam ao Mestre: Domine, edissere nobis sparabolam, Senhor explica-nos a parábola. Quando Jesus, com uma imagem, alude ao fermento dos fariseus, supõem que os está a recriminar por não terem comprado pão (…). Eram estes os Discípulos escolhidos pelo Senhor; assim os escolhe Cristo; assim se comportavam antes de que, cheios do Espírito Santo, se tornassem colunas da Igreja. São homens correntes, com defeitos, com debilidades, com palavras maiores do que as suas obras. E, contudo, Jesus chama-os para fazer deles pescadores de homens, corredentores, administradores da graça de Deus» (Cristo que passa, n° 2). Isto mesmo é o que nos pode acontecer a nós. Ainda que não tenhamos grandes dotes nem qualidades, o Senhor chama-nos, e o amor de Deus e a docilidade às Suas palavras farão brotar nas nossas almas frutos imprevisíveis de santidade e de eficácia sobrenatural. nem sequer muito inteligentes, pelo menos no que diz respeito às realidades sobrenaturais. Até os exemplos e as comparações mais simples lhes eram incompreensíveis e pediam ao Mestre: Domine, edissere nobis parabolam, Senhor explica-nos a parábola. Quando Jesus, com uma imagem, alude ao fermento dos fariseus, supõem que os está a recriminar por não terem comprado pão (…). Eram estes os Discípulos escolhidos pelo Senhor; assim os escolhe Cristo; assim se comportavam antes de que, cheios do Espírito Santo, se tornassem colunas da Igreja. São homens correntes, com defeitos, com debilidades, com palavras maiores do que as suas obras. E, contudo, Jesus chama-os para fazer deles pescadores de homens, corredentores, administradores da graça de Deus» (Cristo que passa, n° 2). Isto mesmo é o que nos pode acontecer a nós. Ainda que não tenhamos grandes dotes nem qualidades, o Senhor chama-nos, e o amor de Deus e a docilidade às Suas palavras farão brotar nas nossas almas frutos imprevisíveis de santidade e de eficácia sobrenatural.

 

15.02.2017– Mc 8, 22-26.

22Chegam a Betsaida; e lá trazem-Lhe um cego e pedem-Lhe que o toque. 23Ele, tomando o cego pela mão, levou-o para fora da povoação. Pôs-lhe saliva nos olhos, impôs-lhe as mãos e perguntou-lhe: Vês alguma coisa? 24Levantou ele os olhos e disse: Vejo os homens; vejo-os andar semelhantes a árvores.

25Impôs-lhe de novo as mãos sobre os olhos, e ele começou a ver distintamente e ficou curado, tanto que de longe via bem e claramente todas as coisas. 26Mandou-o então para sua casa e disse-lhe: Nem sequer entres na povoação.

Comentário

  1. Cfr a nota a Mc 7,32-33.

22-25. As curas que fez Jesus costumavam ser instantâneas. Esta, porém, teve um breve processo. Por quê? Porque a fé do cego era muito débil, segundo parece, num princípio. Antes de curar os olhos do corpo, Jesus quis que tosse crescendo a fé daquele homem: à medida que a sua fé crescia e aumentava a sua confiança, o Senhor foi-lhe dando a visão corporal. Assim, pois, Jesus seguiu o Seu modo habitual de proceder: não fazer milagres se não havia uma disposição adequada, mas ao mesmo tempo suscitar essa disposição e ir aumentando a graça quando esta é correspondida.

É necessária a graça de Deus, inclusive para desejar os bens divinos: «Dá-nos, Senhor, luz; olhai que é mais necessário que para o cego (…), que este desejava ver a luz e não podia; agora, Senhor, não se quer ver. Oh, que mal incurável! Aqui, meu Deus, se deve mostrar o Vosso poder, aqui a Vossa misericórdia» (Exclamações, n° 8).

 

16.02.2017– Mc 8, 27-33.

27Partiu dali Jesus com os discípulos para as aldeias de Cesareia de Filipe e, no caminho, perguntava aos discípulos: Quem dizem os homens que Eu sou? 28Responderam-Lhe eles: João Baptista, outros Elias, outros que um dos profetas. 29E Ele perguntou-lhes: E vós quem dizeis que Eu sou? Respondeu Pedro e disse-Lhe: Tu és o Cristo. 30E Ele intimou-lhes que não dissessem nada d’Ele a ninguém.

31E começou a ensinar-lhes que o Filho do homem tinha de padecer muito, e ser rejeitado pelos Anciãos e Príncipes dos sacerdotes e Escribas, e ser morto, e ressuscitar depois de três dias. 32Falava com toda a clareza. Então Pedro, tomando-O à parte, começou a estranhar-Lho. 33Voltou-Se Ele e, olhando para os discípulos, repreendeu a Pedro, dizendo: Tira-te de diante de Mim, satanás, pois não aprecias as coisas de Deus, mas só as dos homens.

Comentário

  1. A profissão de fé de Pedro é relatada aqui de uma maneira mais breve que em Mt 16,18-19. Pedro parece limitar-se a afirmar que Jesus é o Cristo, o Messias. Já Eusébio de Cesareia, no s. IV, explicava a sobriedade do Evangelista pela sua condição de intérprete de São Pedro, que na sua pregação costumava omitir tudo o que pudesse aparecer como louvor próprio. O Espírito Santo, ao inspirar São Marcos, quis que ficasse reflectida no seu Evangelho a pregação do Príncipe dos Apóstolos, deixando para outros Evangelhos o completar alguns pormenores importantes do mesmo episódio da confissão de Pedro nos confins de Cesareia de Filipe.

Dentro da simplicidade do relato fica claro o papel de Pedro: adianta-se a todos os outros afirmando o messianismo de Jesus. Esta pergunta do Senhor, «e vós quem dizeis que Eu sou?», assinala o que Jesus pede aos Apóstolos: não uma opinião, mais ou menos-favorável, mas a firmeza da fé. São Pedro é quem manifesta esta fé (cfr a nota a Mt 16,13-20).

31-33. Esta é a primeira ocasião em que Jesus anuncia aos discípulos os sofrimentos e a morte que terá de padecer. Mais tarde fá-lo-á outras duas vezes (cfr Mc 9,31 e 10,32). Perante esta revelação os Apóstolos ficam surpreendidos, porque não podem nem querem compreender que o Messias tenha de passar pelo sofrimento e pela morte, e muito menos que isto Lhe seja imposto «pelos Anciãos e Príncipes dos sacerdotes e Escribas». Pedro, com a sua espontaneidade habitual, levanta imediatamente um protesto. E Jesus responde-lhe usando as mesmas palavras que dirigiu ao diabo quando este O tentou (cfr Mt 4,10) para afirmar/uma vez mais, que a Sua missão não é terrena mas espiritual, e que por isso não pode ser compreendida com meros critérios humanos, mas segundo os desígnios de Deus. Estes eram que Jesus Cristo nos redimisse mediante a Sua Paixão e Morte. Por sua vez, o sofrimento do cristão, unido ao de Cristo, é também meio de salvação.

 

17.02.2017– Mc 8, 34-9, 1.

34E, chamando o povo com os Seus discípulos, disse-lhes: Se alguém quer vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me. 35Porque quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas quem perder a sua vida por causa de Mim e do Evangelho, salvá-la-á. 36Pois de que serve ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? 37Ou que pode o homem dar para resgate da sua alma? 38Pois quem se envergonhar de Mim e das Minhas palavras nesta geração adúltera e pecadora, também dele Se há-de envergonhar o Filho do homem, quando vier na glória de Seu Pai, com os Anjos santos.

E dizia-lhes: Em verdade vos digo: há alguns aqui presentes que não experimentarão a morte sem ter visto o Reino de Deus vindo já com pujança.

Comentário

  1. Quando Jesus disse « se alguém quer vir após Mim…», tinha presente que o cumprimento da Sua missão O levaria à morte de cruz; por isso fala claramente da Sua Paixão (vv. 31-32). Mas também a vida cristã, vivida como se deve viver, com todas as suas exigências, é uma cruz que se deve levar em seguimento de Cristo.

As palavras de Jesus, que devem ter parecido assustadoras àqueles que as escutavam, dão a medida do que Cristo exige para O seguir. Jesus não pede um entusiasmo passageiro, nem uma dedicação momentânea; o que pede é a renúncia de si mesmo, o carregar cada um com a sua cruz e o segui-Lo, Porque a meta que o Senhor quer para os homens é a vida eterna. Todo este passo evangélico está contemplando precisamente o destino eterno do homem. À luz dessa vida eterna é que deve ser avaliada a vida presente: esta não tem um caracter definitivo nem absoluto, mas é transitória, relativa; é um meio para conseguir aquela vida definitiva do Céu. «Tudo isso, que te preocupa de momento, é mais ou menos importante. — O que importa acima de tudo é que sejas feliz, que te salves» (Caminho, n.° 297).

«Há no ambiente uma espécie de medo da Cruz, da Cruz do Senhor. Tudo porque começaram a chamar cruzes a todas as coisas desagradáveis que acontecem na vida, e não sabem aceitá-las com sentido de filhos de Deus, com visão sobrenatural. Até tiram as cruzes que os nossos avós levantaram nos caminhos!…

« Na Paixão, a Cruz deixou de ser símbolo de castigo para se converter em sinal de vitória. A Cruz é o emblema do Redentor, in quo est salus, vita et resurrectio nostra, ali está a nossa salvação, a nossa vida e a nossa ressurreição» (Via Sacra, II, n° 5).

  1. «Vida»; O texto original e a Neo-vulgata dizem literalmente «alma». Mas neste, como noutros muitos casos, «alma» e «vida» são equivalentes. A palavra «vida» é empregada, como é claro, num duplo significado: vida terrena e vida eterna, a vida do homem aqui na terra, e a felicidade eterna do homem no Céu. A morte pode pôr fim à vida terrena, mas não pode destruir a vida eterna (cfr Mt 10,28), a vida que só pode dar Aquele que vivifica os mortos.

Entendido isto capta-se bem o sentido paradoxal da frase do Senhor: quem quiser salvar a sua vida (terrena), perderá a sua vida (eterna). Mas quem perder a sua vida (terrena) por Mim e pelo Evangelho, salvá-la-á (a eterna). Que significa, pois, salvar a vida (terrena)? Significa viver esta vida como se tudo acabasse aqui na terra: deixando-se dominar pela concupiscência da carne, pela concupiscência dos olhos, e pela soberba da vida (cfr 1Ioh2,16). Por contraposição, compreende-se bem que significa «perder a vida» (terrena): fazer morrer, por meio de uma luta ascética continuada, aquela tripla concupiscência — isto é tomar sobre si a cruz (v. 34) — e viver, por conseguinte, buscando e saboreando as coisas que são de Deus e não as da terra (cfr Col 3,1-2).

36-37. Jesus garante a vida eterna aos que estão dispostos a perder por Ele a vida terrena. Ele deu-nos o exemplo: é o Bom Pastor que deu a vida pelas suas ovelhas Ioh10,15); e que cumpriu em Si próprio as palavras que disse aos Apóstolos na noite antes de morrer: «Ninguém tem amor maior que o de quem der a própria vida pelos seus amigos» (Ioh15,13).

  1. O destino eterno de cada homem será decidido por Jesus Cristo. Ele é o Juiz que há-de vir julgar vivos e mortos (Mt 16,27). A sentença será ditada segundo a fidelidade no cumprimento dos preceitos do Senhor: do amor a Deus e do amor, por Deus, ao próximo. Quem se envergonhar de imitar a humildade e o exemplo de Jesus, de seguir os preceitos do Evangelho por temor a desagradar ao mundo ou às pessoas mundanas que o rodeiam, não será reconhecido por Cristo naquele dia como Seu discípulo, pois não confessou com a sua vida a fé que diz professar. O cristão, pois, nunca se deve envergonhar do Evangelho (Rom 1,16), deixando-se arrastar pelo ambiente de mundanismo que o rodeie; mas influir com decisão para transformar esse ambiente contando para isso, além disso, com a graça de Deus. Os primeiros cristãos transformaram o antigo mundo pagão. O braço de Deus não empequeneceu agora (cfr Is 59,1). Cfr Mt 10,32-33 e a nota correspondente.
  2. A vinda do Reino de Deus com poder não parece referir-se à segunda vinda gloriosa de Jesus no fim dos tempos ou Parusia, mas indica a expansão admirável da Igreja já na época apostólica. Desse desenvolvimento, com efeito, serão testemunhas alguns dos ali presentes. O crescimento e a dilatação da Igreja no mundo não se pode explicar senão pelo poder divino que Deus dá ao Corpo Místico de Cristo. A Transfiguração do Senhor, que se relata imediatamente, é um sinal, dado aos Apóstolos, da divindade de Jesus e dos poderes divinos que daria à Sua Igreja.

 

18.02.2017– Mc 9, 2-13

2Seis dias depois, tomou Jesus consigo a Pedro, Tiago e João e levou-os só a eles à parte a um monte alto e transfigurou-Se diante deles. 3Os vestidos tornaram-se resplandecentes e alvíssimos, tanto que nenhuma lavadeira sobre a Terra os poderia assim branquear. 4E apareceu-lhes Elias com Moisés, que estavam a conversar com Jesus. 5Tomando Pedro a palavra, disse a Jesus: Rabi, bom é estarmos aqui. Façamos três guaridas, uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias; 6pois não sabia o que havia de dizer, visto estarem tomados de medo. 7Formou-se então uma nuvem que os envolveu, e da nuvem saiu uma voz: Este é o Meu Filho amado. Ouvi-O. 8E, de repente, olhando à volta de si, não viram a mais ninguém, senão só a Jesus com eles.

9Ao descerem do monte, ordenou-lhes que a ninguém contassem o que tinham visto, senão depois de o Filho do homem ter ressuscitado dos mortos. 10Eles guardaram o facto para si, mas perguntavam-se que seria aquilo de: «ressuscitar dos mortos». 11Por fim interrogaram-No: Porque dizem então os Escribas que primeiro deve vir Elias? 12E Ele disse-lhes: Sim, Elias vem primeiro e restaura todas as coisas. Mas como está escrito do Filho do homem que há-de sofrer muito e ser desprezado? 13Eu, porém, digo-vos que Elias veio è fizeram dele quanto quiseram, conforme dele está escrito.

Comentário

2-10. Contemplamos admirados esta manifestação da glória do Filho de Deus a três dos Seus discípulos. Desde a Encarnação, a Divindade de Nosso Senhor estava habitualmente oculta por detrás da Humanidade. Mas Cristo quis manifestar precisamente a estes três discípulos predilectos, que iam ser colunas da Igreja, o esplendor da Sua glória divina com o fim de que se animassem a seguir o caminho difícil e áspero que lhes restava para percorrer, fixando o olhar na meta gozosa que os esperava no fim. Por esta razão, como comenta São Tomás (cfr Suma Teológica, III, q. 45, &. 1), foi conveniente que Cristo tenha manifestado a clareza da sua glória. As circunstâncias da Transfiguração imediatamente depois do primeiro anúncio da Sua Paixão, e das palavras proféticas de que os Seus seguidores também teriam de tomar a Sua Cruz, fazem-nos compreender que «precisamos de passar por meio de muitas tribulações para entrar no Reino de Deus» (Act 14,22).

Em que consistiu a Transfiguração do Senhor? Para poder compreender de algum modo este facto miraculoso da vida de Cristo deve ter-se em conta que o Senhor, para nos redimir com a Sua Paixão e Morte, renunciou voluntariamente à glória divina e encarnou com carne passível, não gloriosa, fazendo-se semelhante em tudo a nós menos no pecado (cfr Heb 4,15). Neste momento da Transfiguração, Jesus Cristo quer que a glória que Lhe correspondia por ser Deus, e que a Sua alma tinha desde o momento da Encarnação, apareça miraculosamente no Seu corpo. «Aprendamos desta atitude de Jesus: durante a Sua vida na Terra, não quis sequer a glória que Lhe pertencia, pois, tendo direito a ser tratado como Deus, assumiu a forma de servo, de escravo (cfr Phil II. 6)» (Cristo que. passa, n.° 62). Tendo em conta Quem encarna (a dignidade da pessoa e a glória da Sua alma), era conveniente a glória do corpo de Jesus. Mas tendo em conta para que encarna (a finalidade da Encarnação), não era conveniente, de modo habitual, tal glória. Cristo mostra a Sua glória na Transfiguração para nos mover ao desejo da glória divina que nos será dada, e assim, com esta esperança, compreendamos «que os padecimentos do tempo presente não são comparáveis com a glória futura que se há-de manifestar em nós» (Rom 8,18).

  1. Segundo o Deuteronómio (19,15), para atestar um facto eram necessárias duas ou três testemunhas. Talvez por isso Jesus Cristo quis que estivessem presentes três Apóstolos. Deve notar-se que estes três Apóstolos foram os predilectos, que O acompanharam também na ressurreição da filha de Jairo (Mc 5,37), e estiveram mais perto d’Ele nos momentos tremendos de Getsémani (Mc 14,33). Cfr a nota a Mt 17,1-13.
  2. Deste modo explica São Tomás o significado da Transfiguração: «Assim como no baptismo de Jesus, onde foi declarado o mistério da primeira regeneração, se mostrou a acção de toda a Trindade, já que ali esteve o Filho Encarnado, apareceu o Espírito Santo em forma de pomba, e ali se escutou a voz do Pai; assim também na Transfiguração, que é como que o sacramento da segunda regeneração (a ressurreição), apareceu toda a Trindade: o Pai na voz, o Filho no homem, e o Espírito Santo na claridade da nuvem; porque assim como Deus Trino dá a inocência no Baptismo, da mesma maneira dará aos Seus eleitos o fulgor da glória e o alívio de todo o mal na Ressurreição…» (Suma Teológica, III, q. 45, a.4 ad 2). Porque, na verdade, a Transfiguração foi um certo sinal ou antecipação não só da glorificação de Cristo, mas também da nossa. Pois, como diz São Paulo: «O próprio Espírito dá testemunho juntamente com o nosso espírito de que somos filhos de Deus. E se somos filhos, também herdeiros: herdeiros de Deus, co-herdeiros de Cristo; desde que padeçamos com Ele, para sermos com Ele também glorificados» (Rom 8,16-17).

«O Amado»: Com esta expressão revela-se que Cristo é o Filho Unigênito do Pai, cumprindo as profecias do Antigo Testamento. Frei Luís de León comenta: « É Cristo O Amado, isto é, o que antes foi, e agora é e será para sempre a coisa mais amada de todas (…) porque nem uma criatura sozinha, nem as criaturas todas juntas, são de Deus tão amadas, e porque só Ele é o que tem verdadeiros adoradores de Si» (Os nomes de Cristo, livro 3, Amado).

  1. A verdade da ressurreição dos mortos estava já revelada no Antigo Testamento (cfr Dan 12,2-3; 2Mach 7,9; 12,43), e os judeus piedosos criam nela (cfr Ioh11,23-25). Não obstante, não eram capazes de compreender a verdade profunda da Morte e Ressurreição do Senhor, porque apenas consideravam o aspecto glorioso e triunfador do Messias, apesar de que também estavam profetizados os Seus sofrimentos e a Sua morte (cfr Is 53). Daí as disquisições dos Apóstolos que não se atrevem a perguntar directamente ao Senhor pela Sua Ressurreição.

11-13. Os escribas e os fariseus interpretavam a profecia messiânica de Malaquias (3,1-2), no sentido de uma aparição ostentosa de Elias em pessoa, a que se seguiria o Messias definitivamente triunfante, sem sombra de dor nem de humilhação. Jesus Cristo faz-lhes ver que verdadeiramente Elias já veio na pessoa de João Baptista (Mt 17,13) e que preparou os caminhos do Messias, que são caminhos de dor e de sofrimento.

O v. 12 constitui uma pergunta que Jesus Se faz diante dos Seus discípulos. Esta pergunta devia ter sido feita pelos discípulos, se tivessem caído na conta de que a Ressurreição de Cristo supunha os sofrimentos e a morte do Messias. Ao não a fazerem, Jesus adianta-Se para os ensinar que tanto Ele como Elias (isto é, João Baptista) deveriam passar pelo caminho do sofrimento antes de chegar à glória.

 

19.02.2017– Mt 5, 38-48.

38Ouvistes que foi dito: Olho por olho, dente por dente. 39Eu, porém, digo-vos que não resistais ao mau; mas, se alguém te ferir na face direita oferece-lhe também a outra. 40E a quem quiser pleitear contigo para te tirar a túnica, larga-lhe também a capa. 41E se alguém te requisitar por uma milha, vai com ele duas. 42Dá a quem te pede e não voltes as costas a quem te pede emprestado.

43Ouvistes que foi dito: Ama o teu próximo e odeia o teu inimigo. 44Eu, porém, digo-vos: Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; 45para serdes filhos de vosso Pai que está nos Céus, o qual faz nascer o sol sobre maus e bons, e chover sobre justos e injustos. 46Porque, se amais os que vos amam, que recompensa mereceis? Porventura não fazem o mesmo também os publicanos? 47E se saudais só os vossos irmãos, que fazeis nisso de extraordinário? Porventura não fazem o mesmo também os gentios? 48Sede, pois, vós perfeitos como é perfeito vosso Pai celeste.

Comentário

38-42. Entre os antigos semitas, dos quais procede o povo hebraico, imperava a lei da vingança. Isto dava lugar a intermináveis lutas e crimes. A lei de talião constituiu naqueles primeiros séculos do povo eleito um avanço ético, social e jurídico notório. Esse avanço consistia em que o castigo não podia ser maior que o delito, e que cortava pela raiz toda a reiteração punitiva. Com isso, por um lado, ficava satisfeito o sentido da honra dos clãs e famílias e, por outro, cortava-se a interminável cadeia de vinganças.

Na moral do Novo Testamento Jesus dá o avanço definitivo, no que desempenha um papel fundamental o sentido do perdão e a superação do orgulho. Sobre estas bases morais e a defesa razoável dos direitos pessoais deve estabelecer-se todo o ordenamento jurídico para combater o mal no mundo. Os três últimos versículos referem-se à caridade mútua entre os filhos do Reino; caridade que pressupõe e impregna a justiça.

  1. A primeira parte do versículo «ama p teu próximo», está em Levítico 19, 18. A segunda parte «odeia o teu inimigo», não vem na Lei de Moisés. As palavras de Jesus, contudo, aludem a uma interpretação generalizada entre os rabinos da Sua época, os quais entendiam por próximo só os Israelitas. O Senhor corrige esta falsa interpretação da Lei, entendendo por próximo todo o homem (cfr a parábola do bom samaritano em Lc 10,25-37). 43-47. O passo recapitula os ensinamentos anteriores. O Senhor chega a estabelecer que o cristão não tem inimigos pessoais. O seu único inimigo é o mal em si, o pecado, mas não o pecador. Esta doutrina foi levada à prática pelo próprio Jesus Cristo com os que O crucificaram, e é a que segue todos os dias com os pecadores que se rebelam contra Ele e O desprezam. Por isso os santos seguiram o exemplo do Senhor, como o primeiro mártir Santo Estêvão, que orava pelos que lhe estavam a dar a morte. Chegou-se ao cume da perfeição cristã: amar e rezar até pelos que nos persigam e caluniem.

Este é o distintivo dos filhos de Deus.

  1. «Publicanos»: Eram os cobradores de impostos. O Império Romano não tinha funcionários próprios para este serviço, mas entregava-o a determinadas pessoas do país respectivo. Estas podiam ter empregados subalternos (daí que por vezes se fale de «chefe de publicanos», como é o caso dê Zaqueu; cfr Lc 19, 2). A quantidade genérica do imposto para cada região era determinada pela autoridade romana. Os publicanos cobravam uma sobretaxa, da qual viviam, e que se prestava a arbitrariedade; por isso normalmente eram Odiados pelo povo. Além disso, no caso dos Judeus, agregava-se a nota infamante de espoliar o povo eleito em favor dos gentios. 48. O versículo 48 resume, de algum modo, todos os ensinamentos do capítulo, incluídas as Bem-aventuranças. Em sentido estrito é impossível que a criatura tenha a perfeição de Deus. Portanto, o Senhor quer dizer aqui que a perfeição divina deve ser o modelo para o qual há-de tender o fiel cristão, sabendo que há uma distância infinita em relação ao seu Criador. Isto, porém, não rebaixa nada a força deste mandamento, mas, pelo contrário, ilumina-o. Juntamente com a exigência deste mandato de Jesus Cristo, há que considerar a magnitude da graça que promete, para que sejamos capazes de tender, nada menos, que à perfeição divina. De qualquer modo a perfeição que havemos de imitar não se refere ao poder e à sabedoria de Deus, que superam por completo as nossas possibilidades, mas nesta passagem, pelo contexto, parece referir-se sobretudo ao amor e à misericórdia. Neste sentido São Lucas refere-nos as seguintes palavras do Senhor: «Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso» (Lc 6, 36; cfr nota a Lc 6, 20-49,).

Como se vê, a «chamada universal à santidade» não é uma sugestão, mas um mandamento de Jesus Cristo: «Tens obrigação de te santificar. — Tu, também. — Quem pensa que é tarefa exclusiva de sacerdotes e religiosos?

A todos, sem excepção, disse o Senhor: ‘Sede perfeitos, como Meu Pai Celestial é perfeito’» (Caminho, nº 291). Doutrina que o Concilio Vaticano II sanciona no cap. 5 da Const. Lumen gentium, n. 40, donde tiramos estas palavras: «Jesus, mestre e modelo divino de toda a perfeição, pregou a santidade de vida, de que Ele é autor e consumador, a todos e a cada um dos Seus discípulos, de qualquer condição: ‘sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito’ (…). É, pois, claro a todos, que os cristãos de qualquer estado ou condição de Vida, são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade. Na própria sociedade terrena, esta santidade promove um modo de vida mais humano».

 

20.02.2017– Mc 9, 14-29.

14Ao chegarem junto dos discípulos, viram uma grande multidão que os rodeava e uns escribas a disputarem com eles. 15Apenas, porém, aquela multidão O viu, ficou surpreendida e correu a saudá-Lo. 16E Ele perguntou-lhes: Que estais a discutir com eles? 17 Respondeu-Lhe um da multidão: Mestre, trouxe-Te o meu filho, que tem um espírito mudo: 18onde quer que dele se apodera, lança-o por terra, e ele espuma e range os dentes e fica hirto. Disse aos Teus discípulos que o expulsassem, mas não puderam. 19Respondeu-lhes Ele e disse: Ó geração incrédula! Até quando estarei convosco? Até quando vos hei-de suportar? Trazei-Mo! 20Trouxeram-Lho. Mal ele viu a Jesus, logo o espírito o agitou com violência, até o fazer cair por terra, e começou a rebolar espumando. 21Perguntou Jesus ao pai: Há quanto tempo é que isto lhe acontece? Desde a infância — respondeu ele — 22e muitas vezes o tem atirado ao fogo e à água para o matar; mas, se podes alguma coisa, tem compaixão de nós e ajuda-nos! 23Disse-lhe Jesus: Se podes!… Tudo é possível a quem crê. 24Imediatamente o pai do pequeno gritou: Creio! Ajuda a minha pouca fé! 25Vendo Jesus que nova gente acorria, imperou ao espírito imundo e disse-lhe: Espírito mudo e surdo, Eu te mando, sai desse pequeno e não tornes a entrar nele. 26E o espírito, gritando e contorcendo-o violentamente, saiu. O pequeno ficou como morto, tanto que muitos diziam: Morreu. 27Mas Jesus, pegando-lhe na mão, levantou-o, e ele pôs-se em pé.

28Quando entrou em casa, perguntaram-Lhe em particular os discípulos: Porque é que nós o não pudemos expulsar? 29Respondeu-lhes: Esta casta de Demônios com nada se pode expulsar, a não ser com oração e jejum.

Comentário

  1. O demônio que possuía este rapaz é qualificado como «espírito mudo», por ser a mudez a manifestação principal desta possessão. Sobre a possessão diabólica cfr a nota a Mt 12,22-24.

19-24. Como noutras ocasiões, antes de realizar o milagre, Jesus exige uma fé submissa. O texto original possui um matiz muito difícil de traduzir e que requer uma explicação; a expressão «se podes» do v. 23 literalmente deveria traduzir-se por «o se podes!». Trata-se de uma exclamação de Jesus relativa à petição do pai do rapaz (v. 22), a qual supunha uma certa dúvida sobre a omnipotência de Cristo. O Senhor corrige este modo de pedir e exige-lhe uma fé sólida. No v. 24 vê-se como o pai do menino mudou profundamente as suas disposições de fé: o Senhor faz então o milagre. Esta fé robustecida converteu-se em omnipotente, porque o homem de fé não se apoia em si mesmo mas em Jesus Cristo. Deste modo, pela fé, tornamo-nos participantes da omnipotência divina. Mas a fé é um dom de Deus, que o homem, sobretudo nos seus momentos de vacilação, deve pedir com humildade e constância, como o pai do menino endemoninhado: «Creio, Senhor; ajuda a minha incredulidade», e como os Apóstolos: «Aumenta-nos a fé!» (Lc 17,5).

28-29. «O Senhor, ao ensinar aos Apóstolos como deve ser expulso este demônio tão maligno, ensina-nos a todos como devemos viver, e que a oração é o meio de que temos de nos valer para superar mesmo as maiores tentações dos espíritos imundos ou dos homens. A oração não consiste apenas nas palavras com que invocamos a clemência divina, mas também em tudo o que fazemos em obséquio do nosso Criador movidos pela fé. Disso é testemunha o Apóstolo quando diz: ‘Orai sem cessar’ (1Thes 5,17)» (In Marci Evangelium expositio, ad loc.).

 

21.02.2017– Mc 9, 30-37.

30Partindo dali, iam a atravessar a Galileia, e Ele não queria que ninguém o soubesse, 31porque entretanto ia instruindo os discípulos e dizia-lhes: O Filho do homem vai ser entregue nas mãos dos homens que O hão-de matar, mas três dias depois de morto ressuscitará. 32Eles, porém, não compreendiam estas palavras e tinham medo de O interrogar.

33Chegaram a Cafarnaum . Quando estava já em casa, perguntou-lhes: Que é que discutíeis no caminho? 34Mas eles calaram-se, porque tinham discutido uns com os outros sobre qual deles era o maior. 35Então, assentando-Se, chamou os doze e disse-lhes: Se alguém quer ser o primeiro há-de ser o último de todos e o servo de todos. 36E, tomando um menino, pô-lo em frente deles e, estreitando-o nos braços disse-lhes: 37Quem receber um destes meninos em Meu nome, é a Mim que recebe; e quem Me receber, não Me recebe a Mim, mas sim Aquele que Me enviou.

Comentário

30-32. Jesus Cristo, que Se comove ao ver as multidões como ovelhas sem pastor (Mt 9,36), deixa-as, porém, para Se dedicar a uma instrução esmerada dos Apóstolos. Retira-Se com eles para lugares afastados e ali, pacientemente, explica-lhes aqueles pontos que não tinham compreendido na pregação ao povo (Mt 13,36). Concretamente aqui, pela segunda vez, anuncia-lhes o acontecimento próximo da Sua Morte redentora na Cruz, seguida da Sua Ressurreição. Na Sua convivência com as almas Jesus actua da mesma forma: chama o homem ao retiro da oração e, ali, instrui-o sobre os Seus desígnios mais íntimos e sobre os aspectos mais exigentes da vida cristã. Depois, como os Apóstolos, os cristãos terão de semear esta doutrina até aos confins da terra.

34-35. Partindo de uma discussão mantida atrás de Si, Jesus Cristo doutrina os discípulos sobre o modo de exercer a autoridade na Igreja não como quem domina, mas como quem serve. Ele, no desempenho da Sua missão de fundar a Igreja de que é Cabeça e Legislador supremo, veio servir e não ser servido (Mt 20,28).

Quem não busca esta atitude de serviço abnegado, além de carecer de uma das melhores disposições para o recto exercício da autoridade, expõe-se a ser arrastado pela ambição do poder, pela soberba e pela tirania. «Estar à frente de uma obra de apostolado é o mesmo que estar disposto a sofrer tudo de todos, com infinita caridade». (Caminho, n° 951).

36-37. Jesus, para ensinar graficamente aos Seus Apóstolos a abnegação e a humildade de que necessitam no exercício do seu ministério, toma uma criança, abraça-a e explica-lhes o significado deste gesto: acolher em nome e por amor de Cristo os que, como essa criança, não têm relevo aos olhos do mundo, é acolher o próprio Cristo e o Pai que O enviou. Nessa criança que Jesus abraça estão representadas todas as crianças do mundo, e também todos os homens necessitados, desprotegidos, pobres, doentes, nos quais nada há de brilhante e destacado para admirar.

 

22.02.2017– Mt 16, 13-19

13Em seguida, foi Jesus para os lados de Cesareia de Filipe e perguntou aos discípulos: Quem dizem os homens que é o Filho do homem? 14Responderam-Lhe: Uns, João Baptista: outros, Elias; outros, Jeremias ou algum dos profetas. 15Disse-lhes Jesus: E quem dizeis vós que Eu sou? 16Respondeu Simão Pedro, dizendo: Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo. 17E Jesus, respondendo-lhe, disse: Bem-aventurado és tu, Simão, Barjona, porque não foi a carne e o sangue que to revelaram, mas Meu Pai que,está nos Céus. 18E Eu digo-te a ti que tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a Minha Igreja, e as portas do Inferno não prevalecerão contra ela. 19Dar-te-ei as chaves do Reino dos Céus, e tudo o que ligares na terra, será ligado nos Céus; e tudo o que desligares na terra, será desligado nos Céus. 20Entáo intimou aos discípulos que não dissessem a ninguém que Ele era o Cristo.

Comentário

13-20. Neste passo promete-se a São Pedro o Primado sobre toda a Igreja. Primado que Jesus lhe conferirá, depois da Sua Ressurreição, segundo nos relata o Evangelho de São João (cfr Ioh21, 15-18). Os poderes supremos são dados a Pedro para bem da Igreja. Como esta há-de durar até ao fim dos tempos, esses poderes transmitir-se-ão àqueles que sucedam a Pedro ao longo da história. O Romano Pontífice é em concreto o sucessor de São Pedro.

A doutrina sobre o Primado de Pedro e dos seus sucessores foi definida como dogma de fé pelo Magistério solene da Igreja no Concilio Vaticano I, nos seguintes termos: «Ensinamos, pois, e declaramos que, segundo os testemunhos do Evangelho, o primado de jurisdição sobre a Igreja universal de Deus foi prometido e conferido, imediata e directamente, ao bem-aventurado Pedro por Cristo Nosso Senhor. Porque só a Simão — a quem já antes tinha dito: ‘Tu chamar-te-ás Cefas’ (Ioh 1, 42) —, depois de pronunciar a sua confissão: ‘Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo’, se dirigiu o Senhor com estas solenes palavras: ‘Bem-aventurado és, Simão filho de João, porque não foi a carne nem o sangue que te revelaram isso, mas Meu Pai que está nos Céus. E Eu digo-te, que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a Minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Dar-te-ei as chaves do Reino dos Céus; e tudo o que ligares na terra ficará ligado nos Céus, e tudo o que desligares na terra, ficará desligado nos Céus’ (Mt 16, 16 ss.). E só a Simão Pedro conferiu Jesus, depois da Sua Ressurreição, a jurisdição de pastor e chefe supremo de todo o Seu rebanho, dizendo: ‘Apascenta os Meus cordeiros. Apascenta as Minhas ovelhas’ (Ioh 21, 15 ss.)… (Canon). Se alguém disser que o bem-aventurado Pedro Apóstolo não foi constituído por Cristo Senhor príncipe de todos os Apóstolos e cabeça visível de toda a Igreja militante, ou que recebeu directa e imediatamente do próprio Jesus Cristo Senhor Nosso somente o primado de honra, mas não de verdadeira e própria jurisdição, seja anátema».

Ora bem, «o que Cristo Senhor, príncipe dos pastores e grão pastor das ovelhas, instituiu no bem-aventurado Apóstolo Pedro para perpétua salvação e bem perene da Igreja, é mister que dure perpetuamente por obra do mesmo Senhor na Igreja que, fundada sobre a pedra, tem de permanecer firme até à consumação dos séculos. ‘Para ninguém, na verdade, é duvidoso, antes, pára todos os séculos é notório, que o santo e beatíssimo Pedro, príncipe e cabeça dos Apóstolos, coluna da fé e fundamento da Igreja Católica, recebeu as chaves do Reino das mãos de Nosso Senhor Jesus Cristo, Salvador e Redentor do gênero humano; e até ao tempo presente e sempre continua a viver, preside e exerce o juízo nos seus sucessores’ (cfr Concilio de Efeso), os bispos da santa Sé Romana, por ele fundada e pelo seu sangue consagrada. Donde se segue que seja quem for o que sucede a Pedro nesta cátedra, esse, segundo a instituição do próprio Cristo, obtém o Primado de Pedro sobre a Igreja universal…

«Por esta causa, foi sempre necessário que a esta Igreja Romana, ‘pela sua mais poderosa principalidade, se unisse toda a Igreja, isto é, quantos fiéis há, de onde quer que sejam’…

«(Canon.) Se alguém disser que não é de instituição do próprio Cristo, isto é, de direito divino, que o bem-aventurado Pedro tenha perpétuos sucessores no primado sobre a Igreja universal; ou que o Romano Pontífice não é sucessor do bem-aventurado Pedro no mesmo primado, seja anátema.

«…Julgamos que é absolutamente necessário afirmar solenemente a prerrogativa que o Unigênito Filho de Deus se dignou juntar com o supremo dever pastoral.

«Assim, pois, Nós, seguindo a tradição recolhida fielmente desde o princípio da fé cristã, para glória de Deus Salvador. Nosso, para exaltação da fé católica e salvação dos povos cristãos, com aprovação do sagrado concilio, ensinamos e definimos ser dogma divinamente revelado: Que o Romano Pontífice, quando fala ex cathedra — isto é, quando cumprindo o seu cargo de pastor e doutor de todos os cristãos, define pela sua suprema autoridade apostólica que uma doutrina sobre a fé e costumes deve ser definida pela Igreja universal —, pela assistência divina que lhe foi prometida na pessoa do bem-aventurado Pedro, goza daquela infalibilidade de que o Redentor divino quis que estivesse prevista a Sua Igreja na definição da doutrina sobre a fé e os costumes; e, por isso, que as definições do Romano Pontífice são irreformáveis por si mesmas e não pelo consentimento da Igreja.

«(Canon.) E se alguém tivesse a ousadia, o que Deus não permita, de contradizer essa definição nossa, seja anátema» (Pastor aeternus, caps l, 2 e 4).

 

23.02.2017– Mc 9, 41-50.

. 41E quem vos der um copo de água a beber, a título de que sois de Cristo, digo-vos em verdade que náo perderá a sua recompensa.

42E quem escandalizar um destes pequeninos que crêem em Mim, a esse é melhor que lhe ponham ao pescoço a mo de uma atafona e o lancem ao mar.

43E, se a tua mão é para ti ocasião de escândalo, corta-a, porque é melhor entrares na vida mutilado, do que ires com ambas as mãos para a Geena, para o fogo inextinguível, 44onde o seu verme não morre e o fogo não se extingue.

45E, se o teu pé é para ti ocasião de escândalo, corta-o, porque melhor é entrares na vida coxo, do que com ambos os pés seres lançado na Geena, 46onde o seu verme não morre e o seu fogo não se extingue.

47E, se algum dos teus olhos é para ti ocasião de escândalo, deita-o fora, porque melhor é entrares no Reino de Deus com uma só vista, do que com ambos os olhos seres lançado na Geena, 48onde o seu verme não morre e o fogo não se extingue. 49Pois todos serão salgados com fogo, e todas as vítimas serão salgadas com sal. 50Bom é o sal; mas, se o sal se tornar ensosso, com que o haveis de temperar? Tende sal em vós mesmos e tende paz uns com os outros.

Comentário

  1. O valor e o mérito das obras boas está principalmente no amor a Deus com que se realizam: «Um pequeno acto, feito por Amor, quanto não vale!» (Caminho, n.° 814). Deus recompensa, sobretudo, as acções de serviço aos outros, por pequenas que pareçam: «Vês esse copo de água ou esse pedaço de pão que uma mão caritativa dá a um pobre por amor de Deus? Pouca coisa é na realidade e quase não estimável para o juízo humano; mas Deus recompensa-o e concede imediatamente por isso aumento de caridade» (Tratado do amor de Deus, livro 3, cap. 2).
  2. «Escândalo é qualquer dito, facto ou omissão que dá ocasião a outro de cometer pecados» (Catecismo Maior, n.° 417). Chama-se diabólico, e é-o, quando o fim intentado por quem produz o escândalo é o pecado do próximo, enquanto ofensa a Deus. Por ser o pecado o maior de todos os males, compreende-se a gravidade do escândalo e, portanto, a decidida condenação de Cristo. Reveste-se de particular gravidade escandalizar as crianças, porque estão mais indefesas contra o mal. A advertência de Cristo vale para todos, mas de modo especial para os pais e educadores, que são responsáveis diante do tribunal de Deus pela alma dos pequenos.
  3. «Geena» ou Ge-hinnom, era um pequeno vale ao sul de Jerusalém, fora das muralhas e mais baixo do que a cidade. Durante séculos este lugar foi utilizado para depositar o lixo da povoação. Habitualmente esse lixo era queimado para evitar o foco de infecção que constituía e a acumulação do mesmo. Era proverbial como lugar imundo e doentio. Nosso Senhor serve-Se deste facto conhecido para explicar, de modo gráfico, o fogo inextinguível do inferno.

43-48. Jesus, depois de ter ensinado a obrigação de evitar o escândalo aos outros, assenta agora as bases da doutrina moral cristã sobre a ocasião de pecado; a doutrina do Senhor é imperiosa: o homem está obrigado a afastar e evitar a ocasião próxima de pecado, como o próprio pecado, segundo o que já tinha dito Deus no AT: «O que ama o perigo cairá nele» (Eccli 3,26-27). O bem eterno da nossa alma é superior a qualquer estima de bens temporais. Portanto, tudo aquilo que nos põe em perigo próximo de pecado deve ser cortado e arrancado de nós. Esta forma de falar — tão gráfica — do Senhor deixa bem assente a gravidade desta obrigação.

Os Santos Padres, sob a imagem dos membros corporais, veem aquelas pessoas que obstinadas no mal nos induzem irremediavelmente às más obras ou à má doutrina. É a estes que devemos afastar de nós para que cheguemos à vida, antes que ir com eles para o inferno (De consensu Evangelistarum, IV, 16; Hom. sobre S. Mateus, 60).

  1. «Onde o seu verme não morre e o fogo não se extingue»: Esta frase não aparece nos melhores manuscritos. São palavras que, tomadas do profeta Isaías (66,24), se repetem a modo de estribilho nos vv. 46 (omitido pela mesma razão que no v. 44) e 48. Com elas o Senhor refere-Se aos tormentos do inferno. Com frequência, o verme que não morre foi aplicado aos remorsos eternos que atormentam os condenados; e o fogo inextinguível à pena de sentido corporal. Os Santos Padres dizem também que ambas as coisas se podem referir aos tormentos corporais. Em qualquer caso significam um castigo horrível e eterno.

49-50. «Todos serão salgados com fogo». Assim comenta São Beda este passo: «Todo o homem será salgado com o fogo, diz Jesus, porque todos os eleitos devem ser purificados de toda a corrupção de concupiscência carnal com a sabedoria espiritual. Ou talvez fale do fogo da tribulação, com a qual se exercita a paciência dos fiéis para que possam chegar à perfeição» (In Marci Evangelium expositio, ad loc.).

Alguns códices acrescentam: «Toda a vítima será salgada com sal». Esta frase, no Levítico (2,13), prescrevia que as carnes destinadas ao sacrifício fossem temperadas com sal para que não se corrompessem. Emprega-se esta prescrição do Antigo Testamento para ensinar que os cristãos devem oferecer-se a Deus como vítimas agradáveis, impregnadas do espírito do Evangelho simbolizado pelo sal. O discurso do Senhor que tinha começado por ocasião de uma disputa sobre quem era o maior, termina com uma lição acerca da paz e da caridade fraternas. Sobre o sal desvirtuado vid. a nota a Mt 5, 13.

 

24.02.2017– Mc 10, 1-12.

Depois, partindo dali, foi para os confins da Judeia e de Além Jordão, e de novo concorreram a Ele as multidões e, como costumava, pôs-Se outra vez a ensiná-las. 2Aproximaram-se uns Fariseus e perguntaram-Lhe, para O tentarem: É lícito ao marido repudiar a mulher? 3Respondeu-lhes Ele: Que vos ordenou Moisés? 4Disseram: Moisés permitiu escrever um libelo de repúdio e desquitá-la. 5Disse-lhes Jesus: Por causa da dureza do vosso coração vos escreveu ele essa lei. 6Mas, desde o princípio da criação, fê-los Deus homem e mulher. 7Por isso deixará o homem pai e mãe e unir-se-á com sua mulher e 8formarão os dois uma só carne. Portanto, já não são dois, mas uma só carne. 9Não separe, pois, o homem o que Deus juntou. 10Depois, em casa, interrogaram-No os discípulos sobre este assunto, 11e Ele disse-lhes: Todo o que se desquitar de sua mulher e casar com outra, comete adultério contra ela. t2E, se a mulher se desquitar de seu marido e casar com outro, comete adultério.

Comentário

1-12. O enquadramento em que se situa a cena é frequente no Evangelho. A atitude mal-intencionada dos fariseus contrasta com a simplicidade da multidão que escuta com atenção os ensinamentos de Jesus. A pergunta dos fariseus pretendia armar-Lhe uma cilada, enfrentando Jesus com a Lei de Moisés. Mas Jesus Cristo, Messias e Filho de Deus, é o que conhece perfeitamente o sentido de tal Lei. Moisés tinha permitido o divórcio condescendendo com a dureza daquele antigo povo: a condição da mulher era ignominiosa naquelas tribos bárbaras — era considerada quase um animal ou um escravo — e por isso Moisés protege contra estes abusos a dignidade da mulher, conseguindo o avanço social de um documento que a tutelava (o libelo de repúdio). Era este um escrito pelo qual o marido declarava a rejeição e, portanto, a liberdade da mulher repudiada. Jesus devolve à sua pureza original a dignidade do homem e da mulher no matrimônio, segundo o instituirá Deus no princípio da criação: «Deixará o homem seu pai e sua mãe e unir-se-á à sua mulher e serão uma só carne» (Gen 2,24). Por isso Deus estabeleceu no princípio a unidade e a indissolubilidade do matrimônio. O Magistério da Igreja, único intérprete autorizado do Evangelho e da lei natural, guardou e defendeu constantemente esta doutrina (pense-se, por exemplo, nos casos da história, quando se negou a admitir o divórcio de Henrique VIII de Inglaterra), e ensinou-a solenemente em inumeráveis documentos (Pró Armeniis; De Sacram. matr.; Casti connubii; Gaudium et spes, n. 48).

Um bom resumo desta doutrina são as seguintes palavras: «A indissolubilidade do matrimônio não é um capricho da Igreja e nem sequer uma mera lei positiva eclesiástica. É de lei natural, de direito divino, e responde perfeitamente à nossa natureza e à ordem sobrenatural da graça» (Temas Actuais do Cristianismo, n° 97). Cfr a nota a Mt 5,31-32.

5-9. O cristão não se deve deixar impressionar, no momento de recordar o valor perene e universal desta doutrina, pelas dificuldades ou inclusive as mofas que possa encontrar no ambiente. «É dever fundamental da Igreja reafirmar vigorosamente (…) a doutrina da indissolubilidade do matrimônio. A quantos, nos nossos dias, consideram difícil ou mesmo impossível ligar-se a uma pessoa por toda a vida, a quantos, subvertidos por uma cultura que rejeita a indissolubilidade matrimonial e que ridiculariza abertamente o compromisso de fidelidade dos esposos, é necessário reafirmar o alegre anúncio do caracter definitivo do amor conjugai, que encontra em Jesus Cristo o seu fundamento e a sua força (cfr Eph 5,25).

«Enraizada na doação pessoal e total dos esposos e exigida pelo bem dos filhos, a indissolubilidade do matrimônio encontra a sua verdade definitiva no desígnio que Deus manifestou na Revelação. É Ele que quer e concede a indissolubilidade matrimonial como fruto, sinal e exigência do amor absolutamente fiel que Deus Pai tem pelo homem e que Cristo manifesta para com a Igreja.

«Cristo renova o desígnio primitivo que o Criador inscreveu no coração do homem e da mulher, e, na celebração do sacramento do matrimônio, oferece-lhes um ‘coração novo’. Assim os esposos podem não só superar a ‘dureza do coração’ (cfr Mt 19,8), mas também e sobretudo podem partilhar o amor pleno e definitivo de Cristo, nova e eterna Aliança feita carne. Assim como o Senhor Jesus é a ‘testemunha fiel’ (Apc 3,14), é o ‘sim’ das promessas de Deus (cfr 2 Cor 1,20) e, portanto, a realização suprema da fidelidade incondicional com que Deus ama o Seu povo, da mesma forma os esposos cristãos são chamados a uma participação real na indissolubilidade irrevogável, que liga Cristo à Igreja, Sua esposa, por Ele amada até ao fim (cfr Ioh13,1) (…). «Testemunhar o valor inestimável da indissolubilidade e da fidelidade matrimonial é uma das tarefas mais preciosas e mais urgentes dos casais cristãos do nosso tempo» (Familiaris consortio, n. 20).

 

25.02.2017 – Mc 10, 13-16

13Apresentaram-Lhe umas criancinhas para que as tocasse. Mas os discípulos ralhavam com elas. 14Quando Jesus advertiu, indignou-Se e disse-lhes: Deixai vir a Mim as criancinhas; não as estorveis, porque dos que são como elas é o Reino de Deus. 15Em verdade vos digo: quem não receber o Reino de Deus como uma criancinha, não entrará nele. 16E, estreitando-as nos braços, abençoava-as, impondo-lhes as mãos.

Comentário

13-16. O relato evangélico reflecte uma espontaneidade e uma vivacidade que enamora o leitor e que se pode relacionar com a figura de São Pedro, a quem Marcos o teria ouvido contar. É uma das poucas ocasiões em que se diz nos Santos Evangelhos que Cristo Se indignou. A causa foi a intolerância dos discípulos, que consideravam inoportuna a pretensão daqueles que apresentavam as crianças para que o Senhor as abençoasse, como uma perda de tempo e uma circunstância aborrecida para o Mestre: Cristo tem coisas mais graves em que pensar para Se ocupar destas crianças, talvez tenham podido pensar. O comportamento dos discípulos não é mal-intencionado; simplesmente deixam-se levar por critérios humanos, querendo evitar um aborrecimento ao Senhor. Não penetraram no que lhes disse pouco antes: «Quem receber um destes meninos em Meu nome, é a Mim que recebe; e quem Me receber, não Me recebe a Mim, mas sim Aquele que Me enviou» (Mc 9,37).

Por outro lado, o Senhor põe em realce com toda a clareza a necessidade que tem o cristão de se tornar como uma criança para entrar no Reino dos Céus: «Para ser pequeno é preciso crer como os meninos creem, amar como os meninos amam, abandonar-se como os meninos se abandonam…, rezar como os meninos rezam» (Santo Rosário, Prólogo). Em última análise, as palavras do Senhor são outra maneira, simples e gráfica, de explicar a doutrina essencial da filiação divina: Deus é nosso Pai e nós Seus filhos; toda a religião se resume na relação de um bom filho com um bom Pai. Esse espírito de filiação divina tem com qualidades: o sentido da dependência do nosso Pai do Céu e o abandono confiante na Sua providência amorosa, do mesmo modo que uma criança confia no seu pai; a humildade de reconhecer que por nós nada podemos; a simplicidade e a| sinceridade, que nos levam a mostrar-nos tal como somos.

 

26.01.2017 – Mt 6, 24-34

24Ninguém pode servir a dois senhores, porque, ou há-de aborrecer um e amar o outro, ou ser dedicado a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e à riqueza.

25Por isso vos digo: Não vos preocupeis pela vossa vida: que haveis de comer ou que haveis de beber; nem pelo vosso corpo: que haveis de vestir. Porventura não vale mais a vida do que o alimento, e o corpo mais do que o vestido? 26Vede as aves do céu, que não semeiam nem ceifam nem enceleiram, e, contudo, vosso Pai celeste as sustenta. Não sois vós, porventura, muito mais do que elas? 27E quem de vós, com todas as suas preocupações, poderá acrescentar um côvado à sua vida? 28E quanto ao vestido, porque vos preocupais? Reparai nos lírios do Campo: como crescem!… e não trabalham nem fiam. 29Ora Eu vos digo que nem Salomão, em toda a sua magnificência, se vestiu como um deles. 30Pois, se à erva do campo que hoje é e amanhã se lança no forno, Deus a. veste, quanto mais a vos, homens de pouca fé? 31Náo andeis, pois, preocupados, dizendo: que havemos de comer ou que havemos de beber ou que havemos de vestir? 32Os gentios é que se afanam por estas coisas; bem sabe vosso Pai celeste que vós precisais de todas elas.

33Buscai primeiramente o Reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas se vos darão por acréscimo. 34Por isso, não vos preocupeis com o dia de amanhã, pois que o dia de amanhã se preocupará de si mesmo. Basta a cada dia o seu afã.

Comentário

  1. O fim último do homem é Deus. Por este fim o homem deve entregar todo o seu ser. De facto, porém, há quem não ponha em Deus o seu fim último, mas nas riquezas. Neste caso, as riquezas convertem-se no seu deus. O homem não pode dividir-se entre dois fins absolutos e contrários.

25-32. Nesta belíssima página Jesus põe em relevo o valor das realidades correntes da vida. Ao mesmo tempo ensina-nos a pôr a nossa confiança na providência paternal de Deus. Com exemplos e comparações simples, tomados da vida quotidiana, inculca o abandono sereno nas mãos de Deus.

  1. Onde se diz «vida», pode dizer-se também «estatura», mas seria versão mais afastada do texto (cfr Lc 12,25). A palavra «côvado» significa uma medida de espaço aplicável também ao tempo metaforicamente.
  2. Uma vez mais a justiça do Reino de Deus aparece como a vida de graça no homem; o que leva consigo todo um conjunto de atitudes espirituais e morais, e pode resumir-se no conceito de «santidade». A busca da santidade é a primeira coisa que se deve intentar nesta vida. De novo Jesus insiste na primazia das exigências espirituais. Afirma Sua Santidade o Papa Paulo VI, comentando este passo: «Porquê a pobreza? Para dar a Deus, ao Reino de Deus o primeiro lugar na escala de valores que são objecto das aspirações humanas. Diz Jesus: ‘Buscai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça’; e di-lo em comparação com todos os outros bens temporais, inclusive necessários e legítimos, que normalmente empenham os desejos humanos. A pobreza de Cristo torna possível este desprendimento afectivo das coisas terrenas para pôr à frente das aspirações humanas a relação com Deus» (Audiência geral Paulo VI, 5-1-1977).
  3. O Senhor exorta-nos a viver com serenidade cada dia, eliminando preocupações inúteis pelo que aconteceu ontem ou pelo que possa acontecer amanhã. É a sabedoria que se apoia na providência paternal de Deus e na própria experiência quotidiana: «O que observa o vento não semeia; é O que examina as nuvens não cega» (Eccl 11,4).

O importante, o que está nas nossas mãos, é viver diante de Deus e com intensidade o momento presente: «Porta-te bem ‘agora’, sem te lembrares de ‘ontem’, que já passou, e sem te preocupares com o ‘amanhã’, que não sabes se chegará para ti» (Caminho, n.°253).

 

27.02.2017 –Mc 10, 17-27

17Ao sair para Se pôr a caminho, correu a Ele um que, de joelhos, Lhe perguntou: Bom Mestre, que hei-de fazer para alcançar a vida eterna? 18Respondeu-lhe Jesus: Porque Me chamas bom? Ninguém é bom senão só Deus. 19Sabes os mandamentos: Não matar, não adulterar, não roubar, não levantar falsos testemunhos, não defraudar, honrar pai e mãe.

20Mas ele respondeu-Lhe: Mestre, tudo isso tenho eu observado desde a minha mocidade.21 Jesus fitou-o com amor e disse-lhe: Uma só coisa te falta. Vai, vende quanto tens e dá-o aos pobres e terás um tesouro no Céu. Depois vem e segue-Me, tomando a cruz. 22Ouvindo ele estas palavras, anuviou-se-lhe o rosto e afastou-se triste, porque tinha muitos haveres.

23Então Jesus, volvendo em torno o olhar, disse aos discípulos: Quão dificilmente entrarão no Reino de Deus os que tem riquezas! 24Ficaram os discípulos pasmados com as Suas palavras. Mas Jesus tornou a repetir: Meus filhos, como é difícil entrarem no Reino de Deus os que confiam nas riquezas! 25É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no Reino de Deus! 26Eles mais assombrados ficaram e diziam uns para os outros: Então quem se pode salvar?27Jesus olhou para eles e disse: Aos homens é impossível, mas a Deus não; pois a Deus tudo é possível.

Comentário

17-18. O jovem — assim o especifica Mt 19,16 — recorre a Jesus como a um mestre autorizado na vida espiritual, com a esperança de que o guie para a vida eterna. Não é que Jesus Cristo rejeite o louvor de que é objecto, mas explica a causa profunda dessas palavras do jovem: Ele é bom, não como o é um homem bom, mas por ser Deus, que é a própria bondade. Portanto, o moço disse uma verdade, mas uma verdade a meias. Aí está o enigmático da resposta de Jesus e a sua profundidade absoluta. Jesus trata, portanto, de fazer remontar o jovem desde uma consideração honesta, mas humana, a uma visão inteiramente sobrenatural. Para que este homem consiga realmente a vida eterna tem de ver em Jesus Cristo, não só um bom mestre, mas o Salvador divino, o único Mestre, o único que, como Deus, é a própria Bondade. Vid. a nota a Mt 19,16-22.

  1. O Senhor não veio abolir a Lei, mas dar-lhe plenitude (Mt 5,17). Os mandamentos são o núcleo fundamental da Lei. O cumprimento destes preceitos é necessário para alcançar a vida eterna. Cristo dá plenitude a estes mandamentos num duplo sentido. Primeiro, porque nos ajuda a descobrir todas as exigências que estes têm na vida dos homens. A luz da revelação leva-nos ao conhecimento fácil e seguro dos preceitos do Decálogo, que a razão humana pelas suas próprias forças muito dificilmente conseguiria alcançar. Em segundo lugar, a sua graça põe em nós a fortaleza para fazer frente à inclinação má que é fruto do pecado original. Os mandamentos conservam, pois, na vida cristã toda a sua vigência e são como os marcos que assinalam o caminho que conduz ao Céu.

21-22. O Senhor sabe que no coração daquele jovem há um fundo de generosidade, de entrega. Por isso olha-o com amor, com um amor de predilecção que leva consigo o convite a viver numa maior intimidade com Deus. Isto exige uma renúncia que o Senhor concretiza: abandonar todas as suas riquezas, para entregar o coração todo inteiro a Jesus. Deus chama todos os homens à santidade. Mas são muitos os caminhos que a ela conduzem. A cada homem toca pôr os meios para descobrir qual é, segundo a vontade de Deus, o seu concreto. O Senhor, nos Seus desígnios, semeia na alma de cada pessoa a semente da vocação, que indica o caminho peculiar pelo qual há-de chegar à meta comum da santidade.

Com efeito, se o homem não põe obstáculos, se responde com generosidade a essa semente, sente um desejo de ser melhor, de se entregar de um modo mais generoso. Como fruto desse desejo, busca, pergunta a Deus na oração, às pessoas que o possam guiar. A essa busca sincera Deus responde sempre servindo-Se de instrumentos muito variados. Ao homem parece-lhe que vê claro o caminho que Deus lhe assinala, mas duvida na decisão, sente-se sem fortaleza para empreender este caminho que exige sempre renúncias. São momentos de oração, de mortificação, para que triunfe a luz, o convite divino, por cima dos cálculos humanos. Porque o homem, diante da chamada de Deus, permanece sempre livre. Por isso pode responder com generosidade, ou ser cobarde, como o jovem de que nos fala o Evangelho. A falta de generosidade para seguir a própria vocação produz sempre tristeza.

  1. «Na sua concisa eloquência — assinala João Paulo II comentando este passo—, este acontecimento profundamente penetrante exprime uma grande lição em poucas palavras: toca problemas substanciais e questões de fundo que não perderam, de modo algum, a sua importância. Em toda a parte os jovens se propõem problemas importantes: problemas sobre o significado da vida, sobre o modo recto de viver, sobre a verdadeira escala de valores: ‘Que hei-de fazer? Que hei-de fazer para conseguir a vida eterna?’ (…) Por isto vos digo a cada um de vós: escutai o chamamento de Cristo quando sentis que vos diz: ‘Segue-Me’. Caminha sobre os Meus passos. Vem ao Meu lado! Permanece no Meu amor! É uma opção que se faz: a opção por Cristo e pelo Seu modelo de vida, pelo Seu mandamento de amor!

«A mensagem de amor que Cristo traz é sempre importante, sempre interessante. Não é difícil de ver como o mundo de hoje, apesar da sua beleza e grandeza, apesar das conquistas da ciência e da tecnologia, apesar dos refinados e abundantes bens materiais que oferece, está ávido de mais verdade, de mais amor, de mais alegria. E tudo isto se encontra em Cristo e no Seu modelo de vida (…). Diante destes problemas e destas desilusões, muitos tratarão de fugir das próprias responsabilidades, refugiando-se no egoísmo, nos prazeres sexuais, na droga, na violência, no indiferentismo ou numa atitude de cinismo. Mas hoje eu proponho-vos a opção do amor, que é o contrário da fuga. Se vós aceitais realmente este amor que vem de Cristo, este conduzir-vos-á a Deus. Talvez no sacerdócio ou na vida religiosa; talvez em algum serviço especial que presteis a vossos irmãos e irmãs, especialmente aos necessitados, aos pobres, a quem se sente só, aos marginalizados, àqueles cujos direitos foram conculcados, àqueles cujas exigências fundamentais não foram satisfeitas. Qualquer coisa que façais da vossa vida, fazei que seja um reflexo do amor de Cristo» (Homília Boston Common).

  1. «A tristeza deste jovem leva-nos a reflectir. Poderemos ter a tentação de pensar que possuir muitas coisas, muitos bens deste mundo, pode fazer-nos felizes. Pelo contrário, vemos no caso do jovem do Evangelho que as muitas riquezas se converteram em obstáculo para aceitar o chamamento de Jesus a segui-Lo. Não estava disposto a dizer sim a Jesus, e não a si mesmo, a dizer sim ao amor, e não à fuga! O amor verdadeiro é exigente. Não cumpriria a minha missão se não vo-lo tivesse dito com toda a clareza. Porque foi Jesus — o nosso próprio Jesus — quem disse: ‘Vós sois Meus amigos se fizerdes o que vos mando’ (Ioh 15,14). O amor exige esforço e compromisso pessoal para cumprir a vontade de Deus. Significa disciplina e sacrifício, mas significa também alegria e realização humana. Queridos jovens, não tenhais medo a um esforço honesto e a um trabalho honesto; não tenhais medo à verdade. Com a ajuda de Cristo e através da oração, vós podeis responder ao Seu chamamento, resistindo às tentações, aos entusiasmos passageiros e a toda a forma de manipulação de massas. Abri os vossos corações a este Cristo do Evangelho, ao Seu amor, à Sua verdade, à Sua alegria. Não vos vades tristes! (…).

«Segui a Cristo! Vós, esposos, tornai-vos participantes reciprocamente, do vosso amor e das vossas cargas, respeitai a dignidade humana do vosso cônjuge; aceitai com alegria a vida que Deus vos confia; tornai estável e seguro o vosso matrimônio por amor aos vossos filhos.

«Segui a Cristo! Vós, ainda solteiros, ou que vos estais a preparar para o matrimônio, segui a Cristo! Vós, jovens ou velhos, segui a Cristo! Vós, doentes ou anciãos; vós, os que sofreis ou estais aflitos; os que notais a necessidade de cuidados, a necessidade de amor, a necessidade de um amigo: segui a Cristo!

«Em nome de Cristo estendo a todos vós o chamamento, o convite, a vocação: Vem e segue-Me!» (Homília Boston Common).

23-27. O comportamento do jovem rico dá ocasião a Nosso Senhor para expor uma vez mais a doutrina sobre o uso dos bens materiais. Não os condena por si mesmos; são meios que Deus pôs à disposição do homem para o seu desenvolvimento em sociedade com os outros. O apego indevido a eles é o que faz que se convertam em ocasião pecaminosa. O pecado consiste em «confiar» neles, como solução única da vida, voltando as costas à divina Providência. Idolatria chama São Paulo à avareza (Col 3,5). Cristo exclui do Reino de Deus a quem cai nesse apego às riquezas, constituindo-as em centro da sua vida. Ou melhor dito, ele mesmo se exclui.

As riquezas podem seduzir tanto aqueles que já dispõem delas, como aqueles que desejam ardentemente dispor. Por isso há — paradoxalmente — pobres ricos e ricos pobres. Como a inclinação para o apego ou para a confiança nas riquezas é universal, os discípulos desconfiam da salvação: «Então, quem se pode salvar?». Com meios humanos, impossível. Com a graça de Deus, tudo é possível. Cfr a nota a Mt 6,11.

Por outro lado, não pôr a confiança nas riquezas supõe que o que tem bens neste mundo deve empregá-los a ajudar os mais necessitados. Isso exige «muita generosidade, inumeráveis sacrifícios e um esforço sem descanso. A cada um toca examinar a sua consciência, que tem uma nova voz para a nossa época. Está disposto a sustentar com o seu dinheiro as obras e as empresas organizadas a favor dos mais pobres? A pagar mais impostos para que os poderes públicos intensifiquem o seu esforço para o desenvolvimento?» (Populorum progressio, n. 47).

 

04.03.14 – Mc 10, 28-31

28Começou Pedro a dizer-Lhe: Nós deixamos tudo e seguimos-Te. 29E Jesus: Em verdade vos digo que não há ninguém que tenha deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos ou campos por Minha causa e por causa do Evangelho, 30que não receba o cêntuplo já no tempo presente, em casas, irmãos, irmãs, mães, pais, filhos e campos, juntamente com perseguições, e no século futuro a vida eterna.31 Mui tos, porém, dos primeiros serão últimos, e os últimos primeiros.

Comentário

28-30. Jesus Cristo exige a virtude da pobreza a todo o cristão; também exige a austeridade real e efectiva na posse e uso dos bens materiais. Mas aos que receberam um chamamento específico para o apostolado — como é aqui o caso dos Doze—, exige um desprendimento absoluto de bens. riquezas, tempo, família, etc., em razão da sua disponibilidade para o serviço apostólico, à imitação de Jesus Cristo que, sendo o Senhor de todo o universo, Se fez pobre até não ter onde reclinar a cabeça (cfr Mt 8,20). A entrega de todos esses bens pelo Reino dos Céus, traz consigo a libertação do peso deles: é como o soldado que se despoja de um impedimento ao entrar em combate para estar mais ágil de movimentos. Isto produz um certo domínio sobre todas as coisas: já se não é escravo delas e experimenta-se aquela sensação a que aludia São Paulo: «como nada tendo, mas possuindo tudo» (2 Cor 6,10). O cristão que dessa maneira se despojou do egoísmo, adquiriu a caridade, e com ela todas as coisas são suas: «Tudo é vosso, vós sois de Cristo e Cristo de Deus» (1Cor 3,22-23).

Todavia, o prêmio de tudo pôr em Cristo, não será recebido plenamente só na vida eterna, mas já nesta vida. Jesus Cristo fala de uma maneira simples do cem por um, que já receberá aqui quem abandone generosamente as suas coisas.

O Senhor acrescenta «com perseguições» (v. 30), porque estas também são recompensa da fé com que abandonamos as coisas por amor de Jesus Cristo; pois a glória de um cristão é a de se conformar com a imagem do Filho de Deus, tomando parte na Sua Cruz para participar depois da Sua glória: «Desde que padeçamos com Ele, para sermos com Ele também glorificados» (Rom 8,17); «porque todos os que querem viver com piedade em Cristo Jesus terão de sofrer perseguições» (2 Tim 3,12).

  1. Estas palavras do Senhor cumprem-se especialmente naqueles que por vocação divina abraçam o celibato, renunciando a constituir uma família na terra. Jesus, ao dizer «por Minha causa e por causa do Evangelho», está a indicar que o Seu exemplo e as exigências da Sua doutrina dão pleno sentido a este modo de vida: « É, pois, o mistério da novidade de Cristo, de tudo o que Ele é e significa; é a suma dos mais altos ideais do Evangelho e do Reino; é uma manifestação especial da graça que brota do mistério pascal do Redentor, que torna desejável e digna a escolha da virgindade por parte dos chamados pelo Senhor Jesus, com a intenção não só de participar do Seu ofício sacerdotal, mas também de compartilhar com Ele o Seu próprio estado de vida» (Sacerdotalis caelibatus, n. 23).