In Evangelho do dia

Dezembro de 2014

01.12.14 – Mt 8, 5-11

5Apenas entrado em Cafarnaum, veio ter com Ele um centurião, que suplicava 6nestes termos: Senhor, o meu servo jaz em casa paralítico e sofre cruelmente. 7Disse-lhe Ele: Eu vou lá curá-lo. 8Tornou-Lhe o centurião: Senhor, não sou digno de que entres debaixo do meu tecto: mas dize uma só palavra e o meu servo será curado. 9Porque também eu, que sou um subalterno, tenho soldados às minhas ordens e digo a este: «vai», e ele vai; e a outro: «vem», e ele vem; e ao meu servo: «faze isto», e ele faz. 10Jesus, ao ouvi-lo, admirou-Se e disse aos que O seguiam: Em verdade vos digo que não encontrei nin­guém em Israel com tão grande fé.

Comentário

5-13. «Centurião»: Oficial do exército romano que tinha o comando sobre cem soldados. A fé exemplar deste homem atravessou os tempos. No momento solene em que o cristão vai receber o próprio Jesus na Santíssima Eucaristia, a Liturgia da Igreja, para avivar a fé, põe na sua boca e no seu coração precisamente as palavras do centurião de Cafarnaum: «Se­nhor, não sou digno…».

Segundo a mentalidade israelita da época, o facto de um judeu entrar em casa de um gentio levava consigo contrair a impureza legal (cfr Ioh 18, 28; Act 11, 2-3). O centurião tem a deferência de não colocar Jesus numa situação incômoda diante dos Seus concidadãos. Manifesta a sua firme convicção de que a doença está submetida a Jesus. Daí que proponha dar uma simples ordem, uma só palavra, que produzirá o efeito desejado, sem necessidade de entrar em sua casa. O raciocínio do centurião é simples e convincente, tomado da sua própria experiência profissional. Jesus aproveita este encontro com um crente gentio para fazer a solene profecia do destino universal do Evangelho: a ele serão chamados os homens de todas as nações, raças, idades e condições.

02.12.14 – Lc 10, 21-24

21Na mesma ocasião, estremeceu de alegria no Espírito Santo e disse: Bendigo-Te, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos hábeis, e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque isso foi do Teu agrado. 22Tudo Me foi entregue por Meu Pai. E ninguém conhece quem é o Filho senão o Pai, nem quem é o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar. 23E, voltando-Se em particular para os discípulos, disse: Felizes os olhos que veem o que estais a ver; 24pois vos digo que muitos profetas e reis quiseram ver o que estais a ver e não viram, e ouvir o que estais a ouvir e não ouviram.

Comentário

21. A este passo do Evangelho se costuma chamar «o hino de júbilo» do Senhor. Também se encontra em São Mateus (11,25-27). É um dos momentos em que Jesus manifesta a Sua alegria ao ver como os humildes entendem e aceitam a palavra de Deus.

Nosso Senhor mostra, além disso, uma consequência da humildade: a infância espiritual. Assim, diz noutro lugar: «Em verdade vos digo que, se não voltardes a ser como meninos não entrareis no Reino dos Céus» (Mt 18,3). Mas a infância espiritual não comporta debilidade, frouxidão ou ignorância: «Tenho meditado com frequência na vida de Infância espiritual, que não se contrapõe à fortaleza, porque requer uma vontade rija, uma maturidade bem temperada, tom caracter firme e aberto (…). Tornar-nos meninos… Renunciar à soberba, à autossuficiência; reconhecer que, sozinhos, nada podemos, porque necessitamos da graça, do poder do nosso Pai, Deus, para aprender a caminhar e para perseverar no caminho. Ser pequeno exige abandonar-se como se abandonam as crianças, crer como creem as crianças, pedir como pedem as crianças» (Cristo que passa, nos 10 e 143).

22. «Esta é uma expressão maravilhosa para a nossa fé — comenta Santo Ambrósio — porque quando lês ‘tudo’ compreendes que Cristo é todo-poderoso, que não é inferior ao Pai, nem menos perfeito; quando lês ‘foi-me entregue’, confessas que Cristo é o Filho, ao qual tudo pertence de direito pela consubstancialidade de natureza e não por graça de doação» (Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc.).

Cristo aparece aqui Onipotente, Senhor e Deus, consubs­tancial com o Pai, e o único que pode revelar quem é o Pai. Ao mesmo tempo só podemos conhecer a natureza divina de Jesus, se o Pai — como fez com São Pedro (cfr Mt 16,17) — nos dá a graça da fé.

23-24. Sem dúvida que o ter visto Jesus pessoalmente foi uma sorte maravilhosa para aqueles que creram n’Ele. Não obstante, o Senhor dirá a Tome: «Bem-aventurados os que sem terem visto creram» (Ioh 20,29). São Pedro, por sua parte, diz-nos: «Amai-Lo sem O terdes visto; credes n’Ele igualmente agora, ainda que não O vejais; mas porque credes, regozijar-vos-eis com júbilo indizível e cheio de glória quando alcançardes o fim da nossa fé, a salvação das almas» (1Pet 1, 8-9).

03.12.14 – Mt 15, 29-37

29Partindo daquela terra, foi Jesus para junto do mar da Galileia e, subindo ao monte, assentou-Se ali. 30Acorreu a Ele grande multidão, que trazia consigo coxos, tolhidos, cegos, mudos e muitos outros, que Lhe lançavam aos pés, e Ele curou-os, 31de modo que a gente se maravilhava, ao ver os mudos a falar, os tolhidos sãos e escorreitos, os coxos a andar, os cegos a ver. E glorificavam o Deus de Israel.

32Depois Jesus, chamando os Seus discípulos, disse-lhes: Tenho compaixão deste povo, porque há já três dias que anda comigo e não tem que comer. Ora, Eu não quero despedi-lo em jejum, para que não venha a desfalecer no caminho. 33Dizem-Lhe os dis­cípulos: E onde encontramos nós, no deserto, pão bastante, para saciar tamanha multi­dão? 34Diz-lhes Jesus: Quantos pães tendes? Responderam: Sete e alguns peixitos. “Então mandou sentar o povo no chão 36e tomando os sete pães e os peixes, deu graças, partiu-os e foi os dando aos discípulos, e os discípulos ao povo.

37Comeram todos até se saciarem e dos pedaços que sobejaram recolheram sete cabazes cheios”.

Comentário

29-31. Neste passo resume São Mateus a actividade de Jesus naquela região limítrofe da Galileia, onde viviam misturados judeus e pagãos. Como de costume, Jesus ensina e cura doentes; no relato do Evangelho é clara a ressonância da profecia de Isaías, que o próprio Cristo empregou como prova de que Ele era o Messias (Lc 7,22): «os cegos veem, os surdos ouvem…» (Is 35,5).

«Glorificavam o Deus de Israel»: Sem dúvida refere-se aos gentios que supunham que Deus podia outorgar o poder de fazer milagres unicamente aos Israelitas. Novamente a fé dos gentios supera a dos judeus.

32. Os Evangelhos falam muitas vezes da misericórdia e compaixão do Senhor diante das necessidades dos homens: agora preocupa-Se com as multidões que O seguem e não têm que comer. Sempre tem uma palavra de consolação, de alento, de perdão: nunca passa indiferente. Mas, sobretudo, causam-Lhe pena os pecadores que caminham pelo mundo sem conhecer a luz e a verdade, e aos quais espera sempre nos sacramentos do Baptismo e da Penitencia.

33-38. Como na primeira multiplicação (14, 13-20), os Apóstolos põem os pães e os peixes à disposição do Senhor. Era tudo o que tinham. Também Se serve dos Apóstolos para fazer chegar o alimento — já fruto do milagre — à gente. Na distribuição das graças de salvação Deus quer contar com a fidelidade e generosidade dos homens. «Não te esqueças: muitas coisas grandes dependem de que tu e eu vivamos como Deus quer» (Caminho, n° 755).

E de notar que nas duas multiplicações milagrosas Jesus dá o alimento em abundância, ao mesmo tempo que não se .desperdiça nada do que sobra. Os milagres de Jesus, além do facto real e concreto que cada um deles é, têm também um caracter de sinal de realidades sobrenaturais. Neste caso a abundância do alimento corporal significa ao mesmo tempo a abundância dos dons divinos no plano da graça e da glória, na ordem dos meios e na ordem do prêmio eterno: Deus dá aos homens mais graças das que estritamente necessitariam. Esta é a experiência cristã desde os primeiros tempos. São Paulo diz-nos que onde «abundou o pecado superabundou a graça» (Rom 5, 20); por isso dirá aos Efésios que «a graça superabunda em nós com toda a sabedoria» (Eph 1, 8); e ao seu discípulo Timóteo: «Superabundou a graça de Nosso Senhor com a fé e caridade que está em Cristo Jesus» (1Tim 1, 14).

04.12.14 – Mt 21.24-27

21Nem todo o que Me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos Céus, mas o que faz a vontade de Meu Pai que está nos Céus.

24Todo aquele, pois, que ouve estas Minhas palavras e as põe em prática, é semelhante a um homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha. 25E caiu a chuva, e vieram os rios, e sopraram os ventos, e precipitaram-se contra aquela casa, mas ela não desabou porque estava fundada sobre a rocha. 26E todo o que ouve estas Minhas palavras e não as põe em prática é semelhante a um homem insen­sato, que edificou a sua casa sobre a areia. 27E caiu a chuva e vieram os rios, e sopraram os ventos, e precipitaram-se contra aquela casa, e ela desabou, e a sua ruína foi grande.

Comentário

24-27. Estes versículos constituem como que a face positiva do passo anterior. Quem se esforça por levar à prática os ensinamentos de Jesus, ainda que venham as tribulações pessoais, ou períodos de confusão na vida da Igreja, ou se veja rodeado do erro, permanecerá forte na fé, como o homem sábio que edifica a sua casa sobre rocha.

Além disso, para permanecer fortes nos momentos difíceis é necessário, nos tempos de bonança, aceitar com boa cara as pequenas contrariedades, ser delicados no trato com Deus e com os outros, e cumprir com fidelidade e abnegação os próprios deveres de estado. Deste modo se vão lançando os fundamentos, fortalecendo a construção e reparando as fendas que se possam produzir.

05.12.14 – Mt 9, 27-31

27Partindo Jesus dali, seguiram-No dois cegos, que diziam aos gritos: Compadece-Te de nós, Filho de David. 28Quando entrou em casa, aproximaram-se d’Ele os cegos, e Jesus disse-lhes: Credes que vo-lo posso fazer? Dizem-lhe: Sim, Senhor. 29Entáo tocou-lhes os olhos, dizendo: Faça-se-vos segundo a vossa fé. 30E logo os olhos se lhes abriram, e Jesus disse-lhes terminantemente: Vede que ninguém o saiba. 3IEles, porém, saídos dali, espalharam a fama d’Ele por toda aquela terra.

Comentário

27-34. O Evangelista sublinha a reacção diferente que produzem os milagres. Toda a gente admite o poder divino tais factos, excepto os fariseus que, perante a evidência prodígios, atribuem estes a poderes diabólicos. A atitude farisaica endurece de tal modo o homem que a adopta, que o fecha para toda a possibilidade de salvação. Talvez o reconhecimento de Jesus como o Messias (chama-lhe: Filho de David, v. 27) por parte dos cegos tenha exasperado a paixão dos fariseus que, não obstante a doutrina sublime e os milagres de Jesus, continuam recalcitrantes na sua oposição.

Ao considerar este episódio não é difícil dar-se conta de que diante de Deus se dá este paradoxo: há cegos que veem e videntes que não veem nada.

30. Por que é que o Senhor não queria que tornassem público o milagre? Porque tinha que seguir um plano progressivo na manifestação de que era o Messias, Filho de Deus. Por isso, não queria precipitar os acontecimentos nem que as multidões entusiasmadas o proclamassem o Rei Messias, com uma mentalidade nacionalista que Ele queria evitar.

Isto não era só um risco, mas uma realidade. Noutro momento, por altura do milagre da multiplicação dos pães e dos peixes (Ioh 6, 14-15), «aqueles homens, ao ver o milagre que Jesus tinha feito, diziam: Este é verdadeiramente o Profeta que vem ao mundo. Jesus, conhecendo que viriam para O levarem e O fazerem rei, retirou-Se de novo para o monte Ele sozinho».

31. Diz São Jerônimo (cfr Comm. In Matth.,9,31)que os cegos divulgaram o acontecimento, não porque se tenham negado a obedecer a Jesus, mas porque não encontraram outro meio de exprimir a sua gratidão. 35. O Concilio Vaticano II recorre a este lugar para assinalar a mensagem de caridade cristã que a Igreja deve levar a toda a parte: «Efetivamente, a caridade cristã a todos se estende sem discriminação de raça, condição social ou religião; não espera qualquer lucro ou agradecimento. portanto, assim como Deus nos amou com um amor gratuito, assim também os fiéis, pela sua caridade, sejam solícitos para com os homens, amando-os com o mesmo zelo com que Deus veio procurá-los. E assim como Cristo percorria todas as cidades e aldeias, curando todas as doenças e todas as enfermidades, proclamando o advento do reino de Deus, do mesmo modo a Igreja, por meio dos seus filhos, estabelece relações com os homens de qualquer condição, de modo especial com os pobres e aflitos, e de bom grado por eles gasta as forças» (Adgentes, n. 12).

06.12.14 – Mt 9, 35-10, 1.6-8

35E Jesus andava por todas as cidades e aldeias, a ensinar nas sinagogas, a pregar o Evangelho do Reino e a curar todas as doenças e todas as enfermidades. 36Ao ver a multidão, condoeu-Se dela, porque anda­vam maltratados e abatidos, como ovelhas sem pastor. 37Então disse aos discípulos: A messe é grande, mas os trabalhadores, poucos. 38Rogai, pois, ao Senhor da messe que envie trabalhadores para a Sua messe.

E chamando a Si os doze discípulos, deu-lhes poder sobre os espíritos imundos, para os expulsarem e para curarem todas as doenças e todas as enfermida­des. 6Ide antes às ovelhas desgar­radas da Casa de Israel. 7Ide e pregai, dizen­do: « Está próximo o Reino dos Céus». 8Curai enfermos, ressuscitai mortos, limpai lepro­sos, expulsai Demônios. Dai de graça o que de graça recebeste.

Comentário

35. O Concilio Vaticano II recorre a este lugar para assinalar a mensagem de caridade cristã que a Igreja deve levar a toda a parte: «Efetivamente, a caridade cristã a todos se estende sem discriminação de raça, condição social ou religião; não espera qualquer lucro ou agradecimento. portanto, assim como Deus nos amou com um amor gratuito, assim também os fiéis, pela sua caridade, sejam solícitos para com os homens, amando-os com o mesmo zelo com que Deus veio procurá-los. E assim como Cristo percorria todas as cidades e aldeias, curando todas as doenças e todas as enfermidades, proclamando o advento do reino de Deus, do mesmo modo a Igreja, por meio dos seus filhos, estabelece relações com os homens de qualquer condição, de modo especial com os pobres e aflitos, e de bom grado por eles gasta as forças» (Adgentes, n. 12).

36. «Condoeu-Se dela»: O verbo grego é profundamente expressivo: «comover-se nas entranhas». Jesus, com efeito, comoveu-Se ao ver o povo, porque os seus pastores, em vez de o guiarem e cuidarem dele, o desencaminhavam, compor­tando-se mais como lobos do que como verdadeiros pastores do seu próprio rebanho. Jesus vê na situação do Seu tempo cumprida a profecia de Ez 34, em que Deus, por meio do profeta, increpa os maus pastores de Israel, em substituição dos quais enviará o Messias.

«Se fôssemos consequentes com a nossa fé, quando olhássemos à nossa volta e contemplássemos o espectáculo da História e do Mundo, não poderíamos deixar de sentir crescer nos nossos corações os mesmos sentimentos que animaram o de Jesus Cristo» (Cristo que passa, n° 133). Com efeito, a consideração das necessidades espirituais do mundo deve levar-nos a um infatigável e generoso trabalho apostólico.

37-38. À contemplação da multidão abandonada pelos seus pastores, seguem-se as palavras de Jesus que nos apre­sentam, sob a imagem da messe, essa mesma multidão preparada para que se realize nela a obra da Redenção: «Levantai os vossos olhos e vede os campos que estão dourados para a sega» (Ioh 4, 35). O campo arroteado pelos Profetas, ultimamente por São João Baptista, está já coberto de espigas maduras. Do mesmo modo que nos trabalhos do campo se não se sega no momento oportuno a colheita se perde, assim na Igreja se sente ao longo dos séculos a urgência de colher a messe, que é muita e está preparada.

A dificuldade é que agora, como nos tempos de Jesus, os obreiros são poucos em proporção com a tarefa. A solução é dada pelo próprio Senhor: orar, rogar a Deus, Dono da messe, para que envie os obreiros necessários. Será difícil que um cristão, que se ponha a rezar de verdade, não se sinta urgido a participar pessoalmente neste trabalho apostólico. Ao cumprir este mandato de Jesus Cristo, deve pedir-se de modo especial que não faltem os bons pastores, que deem aos outros operários da messe os meios de santificação necessários para a tarefa apostólica.

Na verdade, recorda-nos o Papa Paulo VI: «A responsabi­lidade da difusão do Evangelho que salva é de todos, de todos os que o receberam. O dever missionário recai sobre todo o Corpo da Igreja. De maneira e em medidas diferentes, é certo; mas todos, todos devemos ser solidários no cumprimento deste dever. Assim, pois, que a consciência de cada crente se pergunte: Tenho cumprido o meu dever missionário. A oração pelas Missões é o primeiro modo de pôr em prática este dever» (Alocução na recitação do Angelus, 23-X-1977).

1. Neste capítulo 10 São Mateus expõe como Jesus, para levar para a frente no futuro o Reino de Deus que inaugura, têm o propósito de fundar a Igreja, e para isso escolhe, dá poderes e instrui os Doze Apóstolos que são o germe da Sua Igreja.

5-15. De maneira semelhante a como na escolha dos Apóstolos (vv. 1-4) Jesus mostra a Sua vontade de fun­dar a Igreja, no presente passo (vv. 5-15) manifesta o Seu propósito de formar esses primeiros Apóstolos, já antes da Sua Morte e Ressurreição. Deste modo Jesus Cristo começou a pôr os fundamentos da Sua Igreja desde os começos do Seu ministério público.

Todos temos necessidade de uma formação doutrinal e apostólica para desempenhar a nossa vocação cristã. A Igreja tem o dever de ensinar, e os fiéis têm a obrigação de fazer seu esse ensinamento. Por conseguinte, cada cristão deve aproveitar os meios de formação que a Igreja lhe oferece, nas circunstâncias concretas em que Deus o colocou na vida.

5-6. Segundo o plano de salvação estabelecido por Deus, ao povo hebraico foram feitas as promessas (a Abraão e aos Patriarcas), conferida a Aliança, dada a Lei (Moisés) e enviados os Profetas. Deste povo, segundo a carne, nasceria o Messias. Compreende-se que o Messias e o Reino de Deus devessem ser anunciados à Casa de Israel primeiro que aos não Judeus. Por isso, nesta primeira aprendizagem de missão apostólica, Jesus restringe o campo da sua actividade só aos Judeus, sem que tal circunstância possa significar um obstáculo ao caracter universal da missão da Igreja. Com efeito, Jesus mandar-lhes-ia mais tarde: «Ide, pois, doutrinal todos os povos» (Mt 28, 19); «Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura» (Mc 16,15). Também os Apóstolos, na primeira expansão do Cristianismo, ao evangelizar uma cidade em que havia alguma comunidade de judeus, costumavam dirigir-se a estes em primeiro lugar (cfr Act 13, 46).

7-8. Até então os Profetas tinham anunciado ao povo eleito os bens messiânicos, por vezes em imagens acomodadas à sua mentalidade ainda pouco madura espiritualmente. Agora, Jesus envia os Seus Apóstolos a anunciar que esse Reino de Deus prometido está iminente, manifestando os seus aspectos espirituais. Os poderes mencionados no v. 8 são precisamente o sinal anunciado pelos Profetas acerca do Reino de Deus ou reino messiânico. Primariamente (caps. 8 e 9) estes poderes messiânicos exerce-os Jesus Cristo; agora dá-os aos Seus discípulos para mostrar que essa missão é divina (cfr Is 35, 5-6 40, 9; 52, 7; 61, 1).

07.12.14 – Mc 1, 1-8

Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus. 2Conforme está escrito no profeta Isaías:

Eis que Eu envio diante de ti o Meu mensa­geiro e ele preparar-te-á o caminho; 3voz de um que brada no deserto: preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas.

4Apareceu João a baptizar no deserto e a pregar um baptismo de penitência, para remissão dos pecados. 5E iam ter com ele toda a região da Judeia e todos os habitantes de Jerusalém, e eram por ele baptizados no rio Jordão, confessando os seus pecados. 6Andava João vestido de lã de camelo, com um cinto de coiro à volta dos rins e alimen­tava-se de gafanhotos e mel silvestre. 7E pregava assim: Depois de mim vem Aquele que é mais forte do que eu, e eu não sou digno de me inclinar para Lhe desatar as correias das sandálias. 8Eu baptizei-vos em água, mas Ele baptizar-vos-á no Espírito Santo.

Comentário

Com estas palavras São Marcos dá-nos o título do livro. Ao mesmo tempo põe em relevo que Jesus é o Messias anunciado pelos Profetas e o Filho único do Pai por natureza. Nisto fica resumido o conteúdo do segundo Evan­gelho: Jesus Cristo, Deus e Homem verdadeiro.

A palavra «evangelho» indica o feliz anúncio, a boa nova que Deus comunica aos homens por meio do Seu Filho. O conteúdo dessa boa nova é em primeiro lugar o próprio Jesus Cristo, as Suas palavras e as Suas obras. «Durante o Sínodo (refere-se ao Sínodo dos Bispos de 1974), muitas vezes os Bispos lembraram esta verdade: o próprio Jesus, ‘Evangelho de Deus’ (cfr Mc 1,1; Rom 1, 13), foi o primeiro e o maior dos evangelizadores. Ele foi isso mesmo até ao fim, até à perfeição, até ao sacrifício da Sua vida terrena» (Evangélii nuntiandi, n. 7). Os Apóstolos, escolhidos pelo Senhor para serem fundamento da Sua Igreja, cumpriram o mandato de apre­sentar a judeus e gentios, por meio da pregação oral, o testemunho do que tinham visto e ouvido: o cumprimentoem Jesus Cristo das profecias do Antigo Testamento, a remissão dos pecados, a filiação adoptiva e a herança do Céu oferecidas a todos os homens. Por isto, também a pregação apostólica pode chamar-se «evangelho».

Finalmente os evangelistas, movidos pelo Espírito Santo, puseram por escrito parte desta pregação oral. Deste modo, pela Sagrada Escritura e pela Tradição apostólica, a voz de Cristo perpetua-se por todos os séculos e faz-se ouvir em todas as gerações e em todos os povos.

A Igreja, continuadora da missão apostólica, tem a tarefa de dar a conhecer o «evangelho». Assim, por exemplo, fá-lo por meio da Catequese: «O objecto essencial e primordial da catequese é, empregando uma expressão muito familiar a São Paulo e à teologia contemporânea, ‘o Mistério de Cristo’ (…). Trata-se portanto de descobrir na Pessoa de Cristo o desígnio eterno de Deus que se realiza n’Ele. Trata-se de procurar compreender o significado dos gestos e das palavras de Cristo, os sinais realizados por Ele próprio, pois eles encerram e manifestam ao mesmo tempo o Seu Mistério. Neste sentido, o fim último da catequese é pôr cada um não só em contacto mas em comunhão, em intimidade com Jesus Cristo: só Ele pode conduzir-nos ao amor do Pai no Espírito e tornar-nos participantes da vida da Santíssima Trindade» (Catechesi tradendae, n. 5).

2-3. Talvez o Evangelho destaque Isaías por ser o profeta mais importante no anúncio dos tempos messiânicos. Por esta causa São Jerônimo chamou a Isaías o Evangelista do Antigo Testamento.

4. São João Baptista apresenta-se diante do povo depois de vários anos passados no deserto. Convida os israelitas a prepararem-se com a penitência para a vinda do Messias. A figura de João assinala a continuidade entre o Antigo e o Novo Testamento: é o último dos Profetas e a primeira das testemunhas de Jesus. A sua dignidade particular consiste em que, enquanto os outros Profetas tinham anunciado Cristo desde longe, João Baptista indica-O já com o dedo (cfr Ioh 1,29; Mt 11, 9-11).

O baptismo do Precursor não era ainda o Baptismo cristão, mas um rito de penitência; prefigurava, porém, as disposições para receber o Baptismo cristão: fé em Cristo, o Messias, fonte de toda a graça, e afastamento voluntário do pecado.

5. «Confessando os seus pecados»: O facto de aproxi­mar-se do baptismo de João supunha reconhecer a própria condição de pecador, visto que tal rito significava precisa­mente isso: anunciava, pois, o perdão dos pecados pela conversão do coração, e facilitava a remoção dos obstáculos de cada um diante do advento do Reino (Lc 3, 10-14).

Esta confissão dos pecados é diferente do sacramento cristão da Penitência. Não obstante, era agradável a Deus como sinal do arrependimento interior, acompanhado de frutos dignos de penitência (Mt 3, 7-10; Lc 3, 7-9). No sacramento da Penitência, a confissão oral dos pecados será um requisito essencial para receber o perdão de Deus. Neste sentido se pronunciava há pouco João Paulo II: «Tende presente que ainda está vigente e está-lo-á sempre na Igreja a doutrina do Concilio de Trento acerca da necessidade da confissão íntegra dos pecados mortais (sess. XIV, cap. 5 e can. 7); está vigente e está-lo-á sempre na Igreja a norma inculcada por São Paulo e pelo mesmo Concilio de Trento, em virtude da qual, para a recepção digna da Eucaristia deve preceder a confissão dos pecados, quando alguém está consciente de pecado mortal (sess. XIII, cap. 7 e can. 11)» (Discurso à Sagrada Penitenciaria Apostólica, 30-1-1981).

8. «Baptizar no Espírito Santo» refere-se ao Baptismo que Cristo vai instituir, e marca a sua diferença com o de João. No baptismo de João só era significada a graça, como nos outros ritos do Antigo Testamento. «Pelo Baptismo da Nova Lei os homens são baptizados interiormente pelo Espírito Santo, coisa que só Deus faz. Pelo contrário, pelo baptismo de João só era lavado com água o corpo» (Suma Teológica, III, q.38, a. 2 ad 1). No Baptismo cristão, instituído por Nosso Senhor, o rito baptismal não só significa a graça, mas causa-a eficazmente, isto é, confere-a.

«O sacramento do Baptismo confere a primeira graça santificante, pela qual é perdoado o pecado original, e também os actuais, se os há; remite toda a pena por eles devida; imprime o caracter de cristãos; faz-nos filhos de Deus, mem­bros da Igreja e herdeiros da glória, e habilita-nos para receber os outros sacramentos» (Catecismo Maior, n.° 553).

Como todas as realidades pertencentes à santificação das almas, os efeitos do Baptismo cristão são atribuídos ao Espírito Santo, o «Santificador». Deve advertir-se que, como todas as obras ad extra de Deus (isto é, que são exteriores à vida íntima da Santíssima Trindade), a santificação das almas é obra comum das três Pessoas Divinas.

08.12.14 – Lc 1, 26-38

26Ao sexto mês, foi o Anjo Gabriel enviado, Anunciação da parte de Deus, a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, 27a uma virgem que era noiva dum homem da casa de David, cha­mado José, e o nome da virgem era Maria. 28Ao entrar para junto dela, disse o Anjo: Salve, ó cheia de graça, o Senhor está contigo. 29A estas palavras, ela perturbou-se ficou a pensar que saudação seria aquela. 30Disse-lhe o Anjo: Não tenhas receio, Maria, pois achaste graça diante de Deus. 3lHás-de conceber e dar à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus. 32Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo; dar-Lhe-á o Senhor Deus o trono de Seu pai David, 33reinará eternamente na casa de Jacob e o Seu Reinado não terá fim.

34Disse Maria ao Anjo: Como será isso, se eu não conheço homem? 35Disse-lhe o Anjo, em resposta: Virá sobre ti o Espírito Santo, e a força do Altíssimo estenderá sobre ti a Sua sombra. Por isso mesmo é que o Santo que vai nascer há-de chamar-Se Filho de Deus. 36E também Isabel, tua parenta, concebeu um filho, na sua velhice, e é este o sexto mês dessa que chamavam estéril, 37porque, da parte de Deus, nada é impossível. 38Maria disse então: Eis a escrava do Senhor: seja-me feito segundo a tua palavra. E retirou-se o Anjo de junto dela.

Comentário

26-38. Aqui contemplamos Nossa Senhora que, «enri­quecida, desde o primeiro instante da sua conceição, com os esplendores duma santidade singular, a Virgem de Nazaré é saudada pelo Anjo, da parte de Deus, como cheia de graça (cfr Lc 1,28); e responde ao mensageiro celeste: Eis a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra (Lc 1, 38). Deste modo, Maria, filha de Adão, dando o seu consentimento à palavra divina, tornou-se Mãe de Jesus e, não retida por .qualquer pecado, abraçou de todo o coração o desígnio salvador de Deus, consagrou-se totalmente, como escrava do Senhor, à pessoa e à obra de seu Filho, subordinada a Ele e juntamente com Ele, servindo pela graça de Deus omnipotente o mistério da Redenção. Por isso, consideram com razão os santos Padres que Maria não foi utilizada por Deus como instrumento meramente passivo, mas que cooperou livremente, pela sua fé e obediência, na salvação dos homens» (Lumen gentium, n. 56).

A Anunciação a Maria e a Encarnação do Verbo é o facto mais maravilhoso, o mistério mais entranhável das relações de Deus com os homens e o acontecimento mais transcendente da História da humanidade. Que Deus Se faça Homem e para sempre! Até onde chegou a bondade, a misericórdia e o amor de Deus por nós, por todos nós! E, não obstante, no dia em que a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade assu­miu a débil natureza humana das entranhas puríssimas de Maria Santíssima, nada extraordinário acontecia, aparentemente, sobre a face da terra.

Com grande simplicidade narra São Lucas o magno acontecimento. Com quanta atenção, reverência e amor temos de ler estas palavras do Evangelho, rezar piedosamente o Angelus cada dia, seguindo a divulgada devoção cristã, e contemplar o primeiro mistério gozoso do santo Rosário.

27. Deus quis nascer de uma mãe virgem. Assim o tinha anunciado séculos antes por meio do profeta Isaías (cfr Is 14; Mt 1, 22-23). Deus, «desde toda a eternidade, esco­lheu-A e indicou-A como Mãe para que o Seu Unigênito Filho tomasse carne e nascesse d’Ela na plenitude ditosa dos tempos; e em tal grau A amou por cima de todas as criaturas, que só n’Ela se comprazeu com assinaladíssima complacência» (Ineffabilis Deus). Este privilégio de ser virgem e mãe ao mesmo tempo, concedido a Nossa Senhora, é um dom divino, admirável e singular. Deus «engrandeceu tanto a Mãe na concepção e no nascimento do Filho, que Lhe deu fecundidade e A conservou em perpétua virgindade» (Catecismo Romano, 1,4,8). Paulo VI recordava-nos novamente esta verdade de fé: «Cremos que a bem-aventurada Maria, que permaneceu sempre Virgem, foi a Mãe do Verbo encar­nado, Deus e Salvador nosso Jesus Cristo» (Credo do Povo de Deus, n° 14).

Ainda que se tenham proposto muitos significados do nome de Maria, os autores de maior relevância parecem estar de acordo em que Maria significa Senhora. Não obstante, a riqueza que contém o nome de Maria não se esgota com um só significado.

28. «Salve!»: Literalmente o texto grego diz: alegra-te! É claro que se trata de uma alegria totalmente singular pela notícia que Lhe vai comunicar a seguir.

«Cheia de graça»: O Arcanjo manifesta a dignidade e a honra de Maria com esta saudação desusada. Os Padres e Doutores da Igreja «ensinaram que com esta singular e solene saudação, jamais ouvida, se manifestava que a Mãe de Deus era assento de todas as graças divinas e que estava adornada de todos os carismas do Espírito Santo», pelo que «jamais esteve sujeita a maldição», isto é, esteve imune de todo o pecado. Estas palavras do arcanjo constituem um dos textos em que se revela o dogma da Imaculada Conceição de Maria (cfr Ineffabilis Deus; Credo do Povo de Deus, n° 14).

«O Senhor está contigo»: Estas palavras não têm um mero sentido deprecatório (o Senhor esteja contigo), mas afirmativo (o Senhor está contigo), e em relação muito estreita com a Encarnação. Santo Agostinho glosa a frase «o Senhor está contigo» pondo na boca do arcanjo estas palavras: «Mais que comigo, Ele está no teu coração, forma-Se no teu ventre, enche a tua alma, está no teu seio» (Sermo de Nativitate Domini, 4).

Alguns importantes manuscritos gregos e versões antigas acrescentam no fim: «Bendita tu entre as mulheres»: Deus exaltá-La-ia assim sobre todas as mulheres. Mais excelente que Sara, Ana, Débora, Raquel, Judit, etc., pelo facto de que só Ela tem a suprema dignidade de ter sido escolhida para ser Mãe de Deus.

29-30. Perturbou-se Nossa Senhora pela presença do Arcanjo e pela confusão que produzem nas pessoas verdadeiramente humildes os louvores dirigidos a elas.

30. A Anunciação é o momento em que Nossa Senhora conhece com clareza a vocação a que Deus A tinha destinado desde sempre. Quando o Arcanjo A tranquiliza e Lhe diz «não temas, Maria», está a ajudá-La a superar esse temor inicial que, ordinariamente, se apresenta em toda a vocação. O facto de que isto tenha acontecido à Santíssima Virgem indica-nos que não há nisso nem sequer imperfeição: é uma reacção natural diante da grandeza do sobrenatural. Imperfeição seria não o superar, ou não nos deixarmos aconselhar por aqueles que, como São Gabriel e Nossa Senhora, podem ajudar-nos.

31-33. O arcanjo Gabriel comunica à Santíssima Virgem a sua maternidade divina, recordando as palavras de Isaias que anunciavam o nascimento virginal do Messias e que agora se cumprem em Maria Santíssima (cfr Mt 1, 22-23; Is 7, 14).

Revela-se que o Menino será «grande»: a grandeza vem-Lhe da Sua natureza divina, porque é Deus, e depois da Encarnação não deixa de sê-lo, mas assume a pequenez da humanidade. Revela-se também que Jesus será o Rei da dinastia de David, enviado por Deus segundo as promessas de Salvação; que o Seu Reino «não terá fim»; porque a Sua humanidade permanecerá para sempre indissoluvelmente unida à Sua divindade; que «chamar-se-á Filho do Altís­simo»: indica ser realmente Filho do Altíssimo e ser reconhe­cido publicamente como tal, isto é, o Menino será o Filho de Deus.

No anúncio do Arcanjo evocam-se, pois, as antigas pro­fecias que anunciavam estas prerrogativas. Maria, que conhecia as Escrituras Santas, entendeu claramente que ia ser Mãe de Deus.

34-38. O Papa João Paulo II comentava assim este passo: «Virgo fidelis, Virgem fiel. Que significa esta fidelidade de Maria? Quais são as dimensões dessa fidelidade? A primeira dimensão chama-se busca. Maria foi fiel, antes de mais, quando com amor se pôs a buscar o sentido profundo do desígnio de Deus n’Ela e para o mundo. ‘Quomodo fiet? Como acontecerá isto?’, perguntava Ela ao anjo da Anun­ciação (…). Não haverá fidelidade se não houver na raiz esta ardente, paciente e generosa busca (…).

«A segunda dimensão da fidelidade chama-se acolhimento, aceitação. O quomodo fiet transforma-se, nos lábios; de Maria, em um fiat. Que se faça, estou pronta, aceito: este é o momento crucial da fidelidade, momento em que o homem percebe que jamais compreenderá totalmente o como; que no desígnio de Deus mais zonas de mistério que de evidência; que, por mais que faça, jamais conseguirá captar tudo (…).

«Coerência é a terceira dimensão da fidelidade. Viver de acordo com o que se crê. Ajustar a própria vida ao objecto da própria adesão. Aceitar incompreensões, perseguições antes de permitir rupturas entre o que se vive e o que se crê: esta é a coerência (…).

«Mas toda a fidelidade deve passar pela prova mais exigente: a da duração. Por isso a quarta dimensão da fidelidade é a constância. É fácil de ser coerente por um dia ar alguns dias. Difícil e importante é ser coerente toda a vida. É fácil de ser coerente na hora da exaltação, difícil sê-lo na hora da tribulação. E só pode chamar-se fidelidade uma coerência que dura ao longo de toda a vida. O fiat de Maria na Anunciação encontra a sua plenitude no fiat silencioso que repete aos pés da cruz» (Homília Catedral México).

34. A fé de Maria nas palavras do Arcanjo foi absoluta; não duvida como duvidou Zacarias (cfr 1,18). A pergunta da Santíssima Virgem «como será isso» exprime a sua prontidão para cumprir a Vontade divina diante de uma situação que parece à primeira vista contraditória: por um lado Ela tinha a certeza de que Deus lhe pedia para con­servar a virgindade; por outro lado, também da parte de Deus, é-lhe anunciado que vai ser mãe. As palavras imediatas do arcanjo declaram o mistério do desígnio divino e o que parecia impossível, segundo as leis da natureza, explica-se por uma singularíssima intervenção de Deus.

O propósito de Maria de permanecer virgem foi certa­mente algo singular, que interrompia o modo ordinário de proceder dos justos do Antigo Testamento, no qual, como expõe Santo Agostinho, «atendendo de modo particularíssimo à propagação e ao crescimento do Povo de Deus, que era o que tinha de profetizar e donde havia de nascer o Prín­cipe e Salvador do mundo, os santos tiveram de usar do bem do matrimônio» (De bono matrimonii, 9,9). Houve, porém, no Antigo Testamento alguns homens que por desígnio de Deus permaneceram célibes, como Jeremias, Elias, Eliseu e João Baptista. A Virgem Santíssima, inspirada ‘de modo muito particular pelo Espírito Santo para viver plenamente a virgindade, é já uma primícia do Novo Testamento, no qual a excelência da virgindade sobre o matrimônio adqui­rirá todo o seu valor, sem diminuir a santidade da união conjugal, que é elevada à dignidade de sacramento (cfr Gaudium et spes, n. 48).

35. A «sombra» é um símbolo da presença de Deus. Quando Israel caminhava pelo deserto, a glória de Deus enchia o Tabernáculo e uma nuvem cobria a Arca da Aliança (Ex 40, 34-36). De modo semelhante quando Deus entregou a Moisés as tábuas da Lei. uma nuvem cobria a montanha do Sinai (Ex 24,15-16), e também na Transfiguração de Jesus se ouve a voz de Deus Pai no meio de uma nuvem (Lc 9, 35). No momento da Encarnação o poder de Deus enroupa com a Sua sombra Nossa Senhora. É a expressão da acção omnipotente de Deus. O Espírito de Deus — que, segundo o relato do Gênesis (1 ,2), pairava sobre as águas dando vida às coisas — desce agora sobre Maria. E o fruto do seu ventre será obra do Espírito Santo. A Virgem Maria, que foi concebida sem mancha de pecado (cfr Ineffabilis Deus), fica depois da Encarnação constituída em novo Tabernáculo de Deus. Este é o Mistério que recordamos todos os dias na recitação do Ángelus.

38. Uma vez conhecido o desígnio divino, Nossa Senhora entrega-se à Vontade de Deus com obediência pronta e sem reservas. Dá-se conta da desproporção entre o que vai ser — Mãe de Deus — e o que é — uma mulher —. Não obstante, Deus o quer e nada é impossível para Ele, e por isto ninguém é capaz de pôr dificuldades ao desígnio divino. Daí que, juntando-se em Maria a humildade e a obediência, pronun­ciará o sim ao chamamento de Deus com essa resposta perfeita: «Eis a escrava do Senhor, seja-me feito segundo a tua palavra».

«Ao encanto destas palavras virginais, o Verbo se fez carne» (Santo Rosário, primeiro mistério gozoso). Das purís­simas entranhas da Santíssima Virgem, Deus formou um corpo, criou do nada uma alma, e a este corpo e alma uniu-Se o Filho de Deus; desta sorte o que antes era apenas Deus, sem deixar de o ser, ficou feito homem. Maria já é Mãe de Deus. Esta verdade é um dogma da nossa santa fé definido no Concilio de Éfeso (ano 431). Nesse mesmo instante começa a ser também Mãe espiritual de todos os homens. O que um dia ouvirá de lábios de seu Filho moribundo, «eis aí o teu filho (…), eis aí a tua mãe» (Ioh 19, 26-27), não será senão a proclamação do que silenciosamente tinha acontecido em Nazaré. Assim, «com o seu fiat generoso converteu-se, por obra do Espírito, em Mãe de Deus e também em verdadeira Mãe dos vivos, e converteu-se também, ao acolher no seu seio o único Mediador, em verdadeira Arca da Aliança e verdadeiro Templo de Deus» (Marialis cultus, n. 6).

O Evangelho faz-nos contemplar a Virgem Santíssima como exemplo perfeito de pureza («não conheço homem»); de humildade («eis a escrava do Senhor»); de candura e simplicidade («como será isso»); de obediência e de fé viva («seja-me feito segundo a tua palavra»). «Procuremos apren­der, seguindo também o seu exemplo de obediência a Deus, numa delicada combinação de submissão e de fidalguia. Em Maria, nada existe da atitude das virgens néscias, que obe­decem, sim, mas como insensatas. Nossa Senhora ouve com atenção o que Deus quer, pondera aquilo que não entende, pergunta o que não sabe. Imediatamente a seguir, entrega-se sem reservas ao cumprimento da vontade divina: eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a Vossa palavra (Lc 1, 38). Vedes esta maravilha? Santa Maria, mestra de toda a nossa conduta, ensina-nos agora que a obediência a Deus não é servilismo, não subjuga a consciência, pois nos move interiormente a descobrir a liberdade dos filhos de Deus (cfr Rom 8, 21)» (Cristo que passa, n° 173).

09.12.14 – Mt 18, 12-14

12Que vos parece? Se alguém tiver cem ovelhas e alguma delas se desgarrar, não deixará, porventura, as noventa e nove pelos montes, para ir em busca da que se des­garrou? 13E se logra encontrá-la, em verdade vos digo que se alegra mais por via dela, do que pelas noventa e nove que se não desgar­raram. 14Assim, a vontade de vosso Pai que está nos Céus é que se não perca nem um só destes pequeninos.

Comentário

11-14. A parábola põe em relevo a solicitude amorosa do Senhor pelos pecadores. E manifesta de modo humano a alegria de Deus ao recuperar um filho querido que se tinha extraviado.

Diante do panorama de tantas almas que vivem afastadas de Deus, o Santo Padre comenta: «Infelizmente assistimos com angústia à corrupção moral que devasta a humanidade, desprezando especialmente os pequenos, de quem fala Jesus. (Que devemos fazer? Imitar o Bom Pastor e afanar-nos sem trégua pela salvação das almas. Sem esquecer a caridade material e a justiça social, devemos estar convencidos dê que a caridade mais sublime é a espiritual, ou seja, o interesse pela salvação das almas. E as almas salvam-se com a oração e o sacrifício. Esta é a missão da Igreja!» (João Paulo II, Homília às Clarissas de Albano, 14-VIII-1979).

Muitos manuscritos acrescentam, tomando-o segundo parece de Lc 19, 10,o v. 11: «Pois o Filho do Homem veio para salvar o que estava perdido».

10.12.14 – Mt 11, 28-30

28Vinde a Mim todos os que andais afadigados e sobrecarregados, e Eu vos aliviarei. 29Tomai sobre vós o Meu jugo e aprendei de Mim, porque sou manso e humilde de cora­ção, e encontrareis descanso para as vossas almas, 30pois o Meu jugo é suave, e a Minha carga é leve.

Comentário

28-30. O Senhor chama para Si todos os homens, pois andamos sob o peso das nossas fadigas, lutas e tributações, a história das almas mostra a verdade destas palavras de Jesus. Só o Evangelho apaga a sede de verdade e de justiça que desejam os corações sinceros. Só Nosso Senhor, o Mestre – e aqueles a quem Ele dá o Seu poder —, pode apaziguar o pecador ao dizer-lhe «os teus pecados te são perdoados»? (1Vít 9, 2). Neste sentido ensina o Papa Paulo VI: «Jesus diz agora e sempre: ‘Vinde a Mim todos os que andais afadigados e sobrecarregados, e Eu vos aliviarei’. Efectivamente Jesus está numa atitude de convite, de conhecimento e de compaixão por nós; mais ainda, de oferecimento, de promessa, de amizade, de bondade; de remédio para os nossos males, de confortador, e ainda mais, de alimento, de pão, de fonte de energia e de vida» (Homília Corpus Christi).

«Vinde a Mim»: O Mestre dirige-Se às multidões que O seguem, «maltratadas e abatidas, como ovelhas sem pastor» (Mt 9, 36). Os fariseus sobrecarregavam-nas com minuciosas práticas insuportáveis (cfr Act 15, 10), que em troca não lhes davam a paz do coração. Pelo contrário, Jesus fala àquelas gentes e também a nós do Seu jugo e da Sua carga: «Qualquer outra carga te oprime é esmaga, mas a carga de Cristo alivia-te o peso. Outra carga qualquer tem peso, mas a de Cristo tem asas. Se a um pássaro lhe tiras as asas, parece que o alivias do peso, mas quanto mais lhe tires este peso, tanto mais O atas à terra. Vês no solo aquele que quiseste aliviar de um peso; restitui-lhe o peso das suas asas e verás como voa» (Santo Agostinho, Sermo 126). Com um pouco de experiência na intimidade pessoal com o Senhor, Compreendemos que nos diga que «o Meu jugo é suave e a Minha carga é leve». «Como se dissesse: todos os que andais atormentados, aflitos e carregados com a carga dos vossos cuidados e apetites, saí deles, vindo a Mim, e Eu vos recrearei e achareis para as vossas almas o descanso que vos tiram os vossos apetites» (Subida ao Monte Carmelo, liv. I, cap. 7, nº 4).

 

11.12.14 – Mt 11, 11-15

11Em verdade vos digo que, entre os nasci­dos de mulher, não surgiu nenhum maior que João Baptista; contudo, o mais pequeno no Reino dos Céus é maior do que ele. 12Desde os dias de João Baptista até agora, o Reino dos Céus sofre violência, e os violentos arrebatam-no. 13Porque todos os profetas e a Lei profetizaram até Joáo. 14E,. se quereis compreender, ele é Elias, o que há-de vir. 15Quem tem ouvidos, oiça.

Comentário

11. Com João encerra-se o AT e chega-se ao umbral do Novo. A dignidade do Precursor está em apresentar Cristo, em dá-lo a conhecer aos homens. Deus tinha-lhe conferido a alta missão de preparar os seus contemporâneos para escutar O Evangelho. A fidelidade do Baptista é reconhecida e proclamada por Jesus. Este elogio é um prêmio para a humildade de João, que, consciente da sua missão, tinha dito: «Ê necessário que Ele cresça e que eu diminua» (Ioh3, 30).

São João Baptista é o maior no sentido de que recebeu um ministério único e incomparável dentro da ordem do Antigo Testamento. Pelo contrário, no Reino dos Céus (Novo Testa­mento), inaugurado por Cristo, o dom divino da graça faz que o mais pequeno dos que a recebem com uma fiel correspon­dência, seja maior que o maior na ordem precedente da promessa. Uma vez consumada a obra da Redenção, a graça divina atinge igualmente os justos da Antiga Aliança. Assim a grandeza de João Baptista, Precursor e último dos Profetas, fica sublimada com a dignidade de filho de Deus.

12. «O Reino dos Céus sofre violência»: Desde que João Baptista anuncia Cristo já presente, os poderes do inferno redobram o seu assalto desesperado, que se prolonga ao longo de todo o tempo da Igreja (cfr Eph 6,12). A situação aqui des­crita parece ser: os chefes do povo judaico e os seus cegos seguidores, esperavam o Reino de Deus como aqueles que esperam uma herança merecida; mas enquanto eles repousam nos seus pretensos direitos e méritos de raça, outros, os esforçados (literalmente: salteadores), apoderar-se-ão dele como por assalto, pela força, em luta contra os inimigos da alma: mundo, demônio e carne.

«Essa força não se manifesta na violência contra os outros; é fortaleza para combater as nossas debilidades e misérias, valentia para não mascarar as nossas infidelidades audácia para confessar a fé, mesmo quando o ambiente é contrário» (Cristo que passa, n° 82).

Tal atitude é a própria daqueles que lutando contra a; suas paixões, fazendo-se violência a si mesmos, alcançam c Reino dos Céus, e participam da união com Cristo. Come afirma Clemente de Alexandria: «O Reino dos Céus não pertence aos que dormem e vivem dando-se todos os gostos mas aos que lutam contra si mesmos»… (Quis dives salvetur, 21).

14. João Baptista é Elias, não em pessoa, mas na missão (cfr Mt 17,10-13; Mc 9,10-12).

12.12.14 – Lc 1, 39-47

39Por aqueles dias, pôs-se Maria a caminho e dirigiu-se à pressa para a serra, em direcção a uma cidade de Judá. 40Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel. 41Apenas Isabel ouviu a saudação de Maria, saltou-lhe o menino no seio; Isabel ficou cheia do Espírito Santo 42e, erguendo a voz, num grande brado, exclamou: Bendita és tu entre as mulheres e bendito o fruto do teu ventre. 43E donde me é dado que venha ter comigo a Mãe. do meu Senhor? 44Pois, logo que me chegou aos ouvidos o eco da tua saudação, saltou de alegria o menino no meu seio. 45Feliz daquela que acreditou que teriam cumprimento as coisas que lhe foram ditas da parte do Senhor!

46Maria disse então: «A minha alma enaltece ao Senhor,

47e o meu espírito exulta em Deus, meu Salvador,

Comentário

39-56. Contemplamos este episódio da visitação de Nossa Senhora a sua prima Santa Isabel no segundo mistério gozoso do santo Rosário: «(…) Acompanha alegremente José e Santa Maria… e ficarás a par das tradições da Casa de David. (…) Caminhamos apressadamente em direcção às montanhas, até uma aldeia da tribo de Judá (Lc 1, 39).

«Chegamos. — É a casa onde vai nascer João Baptista.

— Isabel aclama, agradecida, a Mãe do Redentor: Bendita és tu entre todas as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre!

— A que devo eu tamanho bem, que venha visitar-me a Mãe do meu Senhor? (Lc 1, 42-43).

«O Baptista, ainda por nascer, estremece… (Lc 1, 41). A humildade de Maria derrama-se no Magnificat… — E tu e eu, que somos — que éramos — uns soberbos, prometemos ser humildes» (Santo Rosário, segundo mistério gozoso).

39. Nossa Senhora ao conhecer pela revelação do anjo a necessidade em que se achava a sua prima Santa Isabel, próxima já do parto, apressa-se a prestar-lhe ajuda, movida pela caridade. A Santíssima Virgem não repara em dificul­dades. Embora não saibamos o lugar exacto onde se achava Isabel (hoje supõe-se que é Ayn Karim), em qualquer caso o trajecto desde Nazaré até à montanha da Judeia supunha na antiguidade uma viagem de quatro dias.

Este facto da vida da Santíssima Virgem tem um claro ensinamento para os cristãos: devemos aprender d’Ela a solicitude pelos outros. «Não podemos conviver filialmente com Maria e pensar apenas em nós mesmos, nos nossos problemas. Não se pode tratar com a Virgem e ter, egoisticamente, problemas pessoais» (Cristo que passa, n° 145).

42. Comenta São Beda que Isabel bendiz Maria com as mesmas palavras usadas pelo Arcanjo «para que se veja que deve ser honrada pelos anjos e pelos homens e que com razão se deve antepor a todas as mulheres» (In Lucae Evangelium expositio, ad loc.). Na recitação da Ave Maria repetimos estas saudações divinas com as quais «nos alegramos com Maria Santíssima pela sua excelsa dignidade de Mãe de Deus e bendizemos o Senhor e agradecemos-Lhe ter-nos dado Jesus Cristo por meio de Maria» (Catecismo Maior, n° 333).

43. Isabel, ao chamar a Maria «mãe do meu Senhor», movida pelo Espírito Santo, manifesta que a Virgem Santíssima é Mãe de Deus.

44. São João Baptista, ainda que tenha sido concebido em pecado — o pecado original — como os outros homens, todavia, nasceu sem ele, porque foi santificado nas entranhas de sua mãe Santa Isabel pela presença de Jesus Cristo (então no seio de Maria) e da Santíssima Viagem. Ao receber este benefício divino São João manifesta a sua alegria saltando de gozo no seio materno. Estes factos foram o cumprimento da profecia do arcanjo São Gabriel (cfr Lc 1, 15).

São João Crisóstomo admirava-se na contemplação desta cena do Evangelho: «Vede que novo e admirável é este mistério. Ainda não saiu do seio e já fala mediante saltos; ainda não lhe é permitido clamar e já é escutado pelos factos (…); ainda não vê a luz e já indica qual é o Sol; ainda não nasceu e já se apressa a fazer de Precursor. Estando presente o Senhor não se pode conter nem suporta esperar o» prazos da natureza, mas procura romper o cárcere do seio materno e busca dar testemunho de que o Salvador está prestes a chegar» (Sermo apud Metaphr., mense Júlio).

45. Adiantando-se ao coro de todas as gerações vin­douras, Isabel, movida pelo Espírito Santo, proclama bem-aventurada a Mãe do Senhor e louva a sua fé. Não houve fé como a de Maria; n’Ela temos o modelo mais acabado de quais devem ser as disposições da criatura diante do seu criador: submissão completa, acatamento pleno. Com a sua fé, Maria é o instrumento escolhido pelo Senhor para levar a cabo a Redenção como Mediadora universal de todas as graças. Com efeito, a Santíssima Virgem está associada à obra redentora de seu Filho: «Esta associação da mãe com o Filho na obra da Salvação, manifesta-se desde a conceição virginal de Cristo até à Sua morte. Primeiro, quando Maria, tendo partido solicitamente para visitar Isabel, foi por ela chamada bem-aventurada, por causa da fé com que acreditara na salvação prometida, e o precursor exultou no seio de sua mãe (…). Assim avançou a Virgem pelo caminho dá fé, mantendo fielmente a união com o seu Filho até à cruz. |Junto desta esteve, não sem desígnio de Deus (cfr Ioh 19,25), padecendo acerbamente com o seu Filho único, e associando-se com coração de mãe ao Seu sacrifício, consentindo com amor na imolação da vítima que d’Ela nascera» (Lúmen gentium, nn. 57-58).

O novo texto latino recolhe de modo literal o original grego ao dizer «quae crédidit», em vez de «quae credidisti», como fazia a Vulgata, que neste caso é mais fiel ao sentido que à letra. Assim traduzem a maioria dos autores e assim traduzimos nós: «Feliz daquela que acreditou».

46-55. O cântico Magnificat que Nossa Senhora pronuncia em casa de Zacarias é de uma singular beleza poética. Evoca alguns passos do Antigo Testamento que a Virgem Santíssima tinha meditado (recorda especialmente 1Sam 2, 1-10).

Neste cântico podem distinguir-se três estrofes: na pri­meira (w. 46-50) Maria glorifica a Deus por a ter feito Mãe do Salvador, faz ver o motivo pelo qual a chamarão bem-aven­turada todas as gerações e mostra como no mistério da Encarnação se manifestam o poder, a santidade e a miseri­córdia de Deus. Na segunda (vv. 51-53) a Virgem Santíssima ensina-nos como em todo o tempo o Senhor teve predilecção pelos humildes, resistindo aos soberbos e arrogantes. Na terceira (vv. 54-55) proclama que Deus, segundo a Sua promessa, teve sempre especial cuidado do povo escolhido, ao qual vai dar o maior título de glória: a Encarnação de Jesus Cristo, judeu segundo a carne (cfr Rom l ,3).

«A nossa oração pode acompanhar e imitar essa oração de Maria. Tal como Ela, sentiremos o desejo de cantar, de proclamar as maravilhas de Deus, para que a Humanidade inteira e todos os seres participem da nossa felicidade». (Cristo que passa, n° 144).

46-47. «Os primeiros frutos do Espírito Santo são a paz e a alegria. E a Santíssima Virgem tinha reunido em si toda a graça do Espírito Santo…» (In Psalmos homiliae, in Ps 32). Os sentimentos da alma de Maria derramam-se no Magnificat. A alma humilde diante dos favores de Deus sente-se movida ao gozo e ao agradecimento. Na Santíssima Virgem o benefício divino ultrapassa toda a graça concedida a qual­quer criatura. «Virgem Mãe de Deus, o que não cabe nos Céus, feito homem, encerrou-Se no teu seio» (Antífona da Missa do Comum das. festas de Santa Maria). A Virgem humilde de Nazaré vai ser a Mãe de Deus; jamais a omnipotência do Criador se manifestou de um modo tão pleno. E o Coração de Nossa Senhora manifesta de modo desbordante a sua gratidão e a sua alegria.

13.12.14 – Mt 17, 10-13

10Perguntaram-Lhe os discípulos: Porque dizem então os Escribas que primeiro deve vir Elias? 11E Ele respondeu-lhes: Elias virá certamente e restaurará todas as coisas. 12Entretanto, digo-vos que Elias já veio, e não o reconheceram, senão que lhe fizeram o que quiseram. Assim também o Filho do homem há-de padecer da parte deles. 13Então compreenderam os discípulos que lhes falava de João Baptista.

Comentário

10-13. Em Malaquias 3, 23 fala-se da vinda do profeta Elias antes da chegada do «dia do Senhor, grande e terrível», o dia do Juízo. Jesus ao dizer que Elias já veio refere-Se a São João Baptista, que levou a cabo a missão de preparar a primeira vinda do Senhor, de modo semelhante a como Elias terá uma missão na vinda definitiva de Cristo. Os escribas não tinham compreendido o sentido da profecia de Mala­quias: pensavam que se referia, sem mais, à vinda do Mes­sias, à primeira vinda de Cristo.

14.12.14 – Jo 1, 6-8.19-28

6Surgiu um homem enviado de Deus, cujo nome era João.

7Veio como testemunha, para dar testemunho da Luz, a fim de todos crerem por seu intermédio.

8Ele não era a Luz, mas devia dar testemunho da Luz.

19Foi este o testemunho de João, quando os Judeus lhe enviaram, de Jerusalém, sacerdotes e levitas, para lhe perguntarem: Tu quem és? 20Ele confessou e não negou: Eu não sou o Messias — confessou. 21Quem és então? — perguntaramlhe. — És Elias? Não sou — respondeu ele. És o Profeta? Ele retorquiu: Não! 22Disseram-lhe então: Quem és tu?… É para darmos resposta aos que nos enviaram: Que dizes de ti mesmo? 23Ele declarou:

Sou a voz de um que brada no deserto: «Endireitai o caminho do Senhor», como disse o profeta Isaías.

24Tinham sido enviados alguns dos Fari­seus. 25Interrogaram-no eles, nestes termos: Então porque é que baptizas, se não és o Messias, nem Elias, nem o Profeta? 26Res­pondeu-lhes João, dizendo: Eu baptizo em água; mas no meio de vós se encontra quem vós não conheceis,27Aquele que vem depois de mim; a quem eu não sou digno de desatar as correias das sandálias. 28Deram-se estes factos em Betânia, além-Jordão, onde João estava a baptizar.

Comentário

6-8. Depois de considerar a divindade do Verbo, passa-se a tratar da Encarnação, e começa-se por falar de João Baptista, que aparece num momento histórico concreto como a testemunha directa de Jesus Cristo diante dos homens (Ioh 1,15.19-36; 3,22 ss.). Assim dirá Santo Agosti­nho: «Porque (o Verbo Encarnado) era homem e ocultava a Sua divindade, precedeu-O um grande homem com a missão de dar testemunho a favor daquele que era mais que homem» (In Ioann. Evang., 2,5).

Todo o Antigo Testamento é uma preparação para a vinda de1 Cristo. Assim os Patriarcas e os Profetas anunciaram de diversas maneiras a salvação que viria pelo Messias. Mas João Baptista, o maior dos nascidos de mulher (cfr Mt 11,11), pôde indicar com o dedo q próprio Messias (cfr Ioh 1 ,29), sendo o testemunho do Baptista a culminação de todas as profecias anteriores.

A missão de João Baptista como testemunha de Jesus Cristo é tão importante que os Evangelhos Sinópticos começam a narração do ministério público de Jesus por esse testemunho. Os discursos de São Pedro e de São Paulo, recolhidos nos Actos dos Apóstolos, também aludem ao testemunho de João (Act 1,22; 10,37; 12,24). O quarto Evangelho menciona-o sete vezes (1,6.15.19.29.35; 3,27; 5,33). Sabemos além disso, “que o apóstolo São João tinha sido discípulo do Baptista antes de o ser do Senhor, e que precisa-mente o Baptista foi quem o encaminhou para Cristo (,cfr 1,37ss.).

O Novo Testamento, pois, ensina-nos a transcendência da missão do Baptista, ao mesmo tempo que a clara consciência de este não ser senão o Precursor imediato do Messias, ao qual não é digno de desatar as correias das Suas sandálias (cfr Mc 1 ,7); por isso o Baptista insiste no seu papel de testemunha de Cristo e na sua missão de preparar o caminho ao Messias (cfr Lc 1,15-17; Mt 3,3-12). O testemunho de João Baptista permanece através dos tempos, convidando todos os homens a abraçar a fé em Jesus, a Luz verdadeira.

19-34. Este passo constitui uma unidade, que começa e termina a falar do testemunho do Baptista. Assim se sublinha a missão que Deus lhe confiou de testemunhar, com a sua vida e com a sua palavra, que Jesus Cristo é o Messias e Filho de Deus. O Precursor exorta à penitência vivendo ele próprio esse espírito de austeridade que pregava; indica Jesus como Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, e proclama-O com coragem diante dos judeus. A figura grave do Baptista é modelo da fortaleza com que devemos confessar Cristo: «Com efeito, todos os fiéis cristãos, onde quer que vivam, têm obrigação de manifestar, pelo exemplo da vida e pelo testemunho da palavra, o homem novo de que se revestiram pelo Baptismo…» (Ad gentes, n. 11).

19-24. Num ambiente de intensa expectativa messiâ­nica, o Baptista aparece como uma figura rodeada de um prestígio extraordinário; prova disso é que as autoridades judaicas enviam personagens qualificadas (sacerdotes e levitas de Jerusalém) a perguntar-lhe se é o Messias.

Chama a atenção a grande humildade de João: adianta-se aos seus interlocutores afirmando: «Não sou o Cristo». Considera-se tão pequeno diante do Senhor que dirá: «Não sou digno de desatar a correia das Suas sandálias» (v. 27). Toda a fama de que desfrutava põe-na ao serviço da sua missão de Precursor do Messias e, com esquecimento total de si mesmo, afirma que «é necessário que Ele cresça e que eu diminua» (Ioh 3,30).

25-26. «Baptizar»: Significava originariamente sub­mergir na água, banhar. O rito da imersão exprimia entre os Judeus a purificação legal daqueles que tivessem contraído alguma impureza prevista pela Lei. Existia também o baptismo dos prosélitos, que era um dos ritos de incorporação dos gentios no povo judeu. Nos manuscritos do Mar Morto fala-se de um baptismo como rito de iniciação e purificação dos adeptos à seita judaica de Qumrán, que existia em tempos de Nosso Senhor.

O baptismo de João tinha um marcado caracter de con­versão interior. As palavras de exortação que pronunciava o Baptista e o reconhecimento humilde dos pecados por parte ]. dos que acorriam a ele dispunham para receber a graça de Cristo. O baptismo de João constituía, pois, um rito de penitência muito apto para preparar o povo para a vinda do Messias, cumprindo-se com isso as profecias que falavam j precisamente de uma purificação pela água perante o advento do Reino de Deus nos tempos messiânicos (cfr Zach 13,1; Ez 36,25; 37,23; ler 4,14). O baptismo de João, todavia, não tinha poder para limpar a alma dos pecados, como faz o Baptismo cristão (cfr Mt 3,11; Mc 1,4). «Quem vós não conheceis»: Com efeito, Jesus ainda não Se tinha manifestado publicamente como o Messias e Filho de Deus; ainda que alguns O conhecessem enquanto homem, São João Baptista pode afirmar que realmente não O conhe­ciam.

27. O Baptista declara a primazia de Cristo sobre ele por meio da comparação do escravo que desata a correia das sandálias do seu senhor. Para nos aproximarmos de Cristo, que João anuncia, é preciso imitar o Baptista. Como diz Santo Agostinho: «Entenderá estas palavras quem imite a humildade do Precursor… O mérito maior de João é, meus irmãos, este acto de humildade» (In Ioann. Evang., 4,7).

28. Refere-se à cidade de Betânia que estava situada na margem oriental do Jordão, em frente de Jerico, diferente da Betânia onde vivia a família de Lázaro, próximo de Jeru­salém (cfr Ioh 11,18).

15.12.14 – Mt 21, 23-27

23Naquele mesmo dia, foram ter com Ele os Saduceus, que negam a ressurreição, e perguntaram-Lhe: 24Mestre, Moisés disse-nos: «Se alguém morrer sem filhos, case o seu irmão com a mulher dele e suscite descen­dência ao irmão». 25Ora havia entre nós sete irmãos. O primeiro casou e morreu. Como não tinha descendência, deixou a mulher ao irmão. 26Do mesmo modo, o segundo e o terceiro, até ao sétimo. 27Por fim, morreu a mulher.

Comentário

23-33. Os saduceus argumentam contra a fé na ressur­reição dos mortos apoiando-se numa lei judaica, a lei do levirato (Dt 25, 5-10). Esta mandava que quando um homem casado morria sem deixar sucessão, um dos seus irmãos, segundo uma ordem estabelecida, devia casar-se com a viúva, e ao primeiro dos filhos que tivesse devia ser-lhe imposto o nome do defunto. Os saduceus põem em ridículo a lei e a fé na ressurreição, relatando um caso pitoresco. Jesus Cristo responde mostrando claramente a frivolidade dos objectores. Responde ao que eles perguntaram afirmando rotundamente a ressurreição dos mortos.

 

16.12.14 – Mt 21, 28-32

28Mas que vos parece? Certo homem tinha dois filhos. Chegou-se ao primeiro e disse-lhe «Filho, vai hoje trabalhar na vinha». 29Ele respondeu: Vou sim, senhor»; mas não foi. 30Chegou depois ao segundo e disse-lhe a mesma coisa. Ele respondeu: «Não quero»; mas depois arrependeu-se e foi. 31Qual destes dois fez a vontade do pai? O último, respon­deram eles. Disse-lhes Jesus: Em verdade vos digo que os publicanos e as meretrizes entram adiante de vós no Reino de Deus. 32Porque veio a vós João, no caminho da justiça, e não crestes nele. Os publicanos, porém, e as meretrizes creram nele, E vós, vendo isto, nem assim vos arrependestes depois, crendo nele.

Comentário

32. São João Baptista tinha ensinado o caminho da santidade, anunciando o Reino de Deus e pregando a conversão. Os escribas e fariseus não o tinham crido, apesar de se gloriarem de uma atitude oficial de fidelidade aos planos de Deus. Estavam representados pelo filho que diz «vou» e depois não vai. Pelo contrário, os publicanos e as meretrizes que se arrependerem e rectificarem a sua vida precedê-los-ão no Reino: vêm a ser o filho que diz «não vou», mas depois vai. O Senhor põe em relevo que a penitência e a conversão podem orientar e situar a todos no caminho da santidade, ainda que tenham vivido muito tempo afastados de Deus.

17.12.14 – Mt 1, 1-17

Genealogia de Jesus Cristo, filho de David, filho de Abraão.

2Abraão gerou a Isaac, Isaac gerou a Jacob, Jacob gerou a Judas e seus irmãos. 3Judas gerou a Fares e a Zara, de Tamar. Fares gerou a Esron, Esron gerou a Arão. 4Arão gerou a Aminabad, Aminabad gerou a Naás­son, Naásson gerou a Salmon. 5Salmon gerou a Booz, de Raab. Booz gerou a Obed, de Rute. Obed gerou a Jessé, Jessé gerou a el-rei David.

6David gerou a Salomão, da que fora mulher de Urias. 7Salomão gerou a Roboão, Roboão gerou a Abias, Abias gerou a Asa. 8Asa gerou a Josafá, Josafá gerou a Jorão; Jorão gerou a Ozias. 9Ozias gerou a Joatã, Joatã gerou a Acaz, Acaz gerou a Ezequias. 10Ezequias gerou a Manasses, Manasses gerou a Amos, Amos gerou a Josias. 11Josias gerou a Jeconias e seus irmãos, no tempo da deportação para Babilônia.

l2Depois da deportação para Babilônia, Jeconias gerou a Salatiel, Salatiel gerou a Zorobabel. 13Zorobabel gerou a Abiud, Abiud gerou a Eliacim, Eliacim gerou a Azor. l4Azor gerou a Sadoc, Sadoc gerou a Aquim, Aquim gerou a Eliud. 15Eliud gerou a Eléazar, Eléazar gerou a Mata, Mata gerou a Jacob. l6Jacob gerou a José, o esposo de Maria da qual nasceu Jesus, que se chama Cristo. 17Portanto, as gerações são ao todo: desde Abraão até David catorze gerações; desde David até à deportação para Babilônia, catorze gerações; e desde a deportação para Babilônia até Cristo, catorze gerações.

Comentário

1. Este versículo vem a ser como que o título de todo o Evangelho. Em Jesus Cristo cumprem-se as promessas divinas de salvação feitas a Abraão em favor de toda a humanidade (Gen 12, 3). Igualmente se cumpre a profecia de um reino eterno dada por meio do profeta Natan ao rei David (2Sam 7, 12-16).

A genealogia que introduz São Mateus, no começo do seu Evangelho, mostra a ascendência de Jesus Cristo segundo a Sua humanidade, ao mesmo tempo que dá uma indicação da plenitude a que chega a História da Salvação com a Encarnação do Filho de Deus, por obra do Espírito Santo. Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, é o Messias esperado.

A genealogia está apresentada segundo uma estrutura de três grupos. Cada grupo consta de catorze elos que mostram o desenvolvimento progressivo da história sagrada.

Entre os Judeus (como entre outros povos orientais de origem nômada) a árvore genealógica tinha uma importância capital. Há que ter em conta que, precisamente por essa origem seminômade, a identidade de uma pessoa estava especialmente ligada à família e tribo, sendo menos signifi­cativo o lugar. No povo hebreu a essas circunstâncias acrescentava-se o significado religioso de pertencer pelo sangue ao povo eleito.

Ainda na época de Jesus a árvore genealógica se conservava nas famílias judaicas com todo o cuidado, pois segundo essa árvore as pessoas constituíam-se em sujeitos de direitos e obrigações.

6. Nas genealogias nomeiam-se quatro mulheres: Tamar (cfr Gen 38; 1 Chr 2, 4), Rahab (cfr Ios 2; 6, 17), Betsabé (cfr 2Sam 11; 12, 24) e Rut (cfr livro de Rut). Estas quatro mulheres estrangeiras, que de um ou outro modo se incorporam na história de Israel, são um símbolo, entre muitos outros, da salvação divina que abarca toda a humanidade.

Ao citar também outros personagens pecadores, mostra-se como os caminhos de Deus são diferentes dos caminhos humanos. Através de homens cujo comportamento não foi recto Deus vai realizar os Seus planos de salvação. Ele salva-nos, santifica-nos e escolhe-nos para fazer o bem, apesar dos nossos pecados e infidelidades. Tal é o realismo que Deus quis fazer constar na história da nossa salvação.

11. Sobre a deportação para Babilônia fala-se em 2Reg 24-25. Com este facto cumpre-se a ameaça dos profetas ao povo de Israel e aos seus reis, como castigo da sua infidelidade aos mandamentos da Lei de Deus, especialmente ao primeiro.

16. Entre os Hebreus as genealogias faziam-se por via masculina. José, como esposo de Maria, era o pai legal de Jesus. A figura do pai legal é equivalente quanto a direitos e obrigações à do verdadeiro pai. Neste facto se fundamenta solidamente a doutrina e a devoção ao Santo Patriarca como padroeiro universal da Igreja, visto que foi escolhido para desempenhar uma função muito singular no plano divino da nossa salvação: pela paternidade legal de São José é Jesus Cristo Messias descendente de David.

Do costume ordinário de celebrar os desposórios entre os membros de uma mesma estirpe, deduz-se que Maria pertencia à casa de David. Neste sentido falam também antigos Padres da Igreja. Assim Santo Inácio de Antioquia, Santo Ireneu, São Justino e Tertuliano, os quais fundamentam o seu testemunho numa tradição oral constante.

É de assinalar que São Mateus, para indicar o nascimento de Jesus, usa uma fórmula completamente diversa da aplicada aos demais personagens da genealogia. Com estas palavras o texto ensina positivamente a conceição virginal de Jesus, sem intervenção de varão.

18.12.14 – Mt 1, 18-24

18Ora o nascimento de Jesus foi assim: Estando Maria, sua Mãe, desposada com José, antes de morarem juntos, notou-se que tinha concebido por virtude do Espírito Santo. 19José, seu esposo, como era justo e não a queria infamar, resolveu deixá-la secretamente. 20Mas, andando ele com este pensamento, apareceu-lhe, em sonhos, um anjo do Senhor, que lhe disse:

— José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou, é obra do Espírito Santo. 21Ela dará à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus, porque Ele salvará o seu povo dos seus pecados.

22Ora tudo isto aconteceu para se cumprir o que o Senhor tinha anunciado pelo profeta, que disse: 23«Eis que uma Virgem conceberá e dará à luz um filho, a quem será dado o nome de Emanuel», que quer dizer «Deus connosco».

24E José, despertando do sono, fez como lhe ordenara o anjo do Senhor e recebeu a sua esposa; 25a qual, sem ele a conhecer, deu à luz um filho, e ele pôs-Lhe o nome de Jesus.

Comentário

18. São Mateus narra aqui como foi a conceição de Cristo (cfr Lc l, 25-38): «(…) verdadeiramente celebramos e veneramos por Mãe de Deus (Maria), por ter dado à luz uma pessoa que é juntamente Deus e homem (…)» (Catecismo Romano, l, 4, 7).

Segundo as disposições da Lei de Moisés, aproxima­damente um ano antes do casamento realizavam-se os desposórios. Estes tinham praticamente já o valor jurídico do matrimônio. O casamento propriamente dito consistia, entre outras cerimônias, na condução solene e festiva da esposa para casa do esposo (cfr Dt 20,7).

Já desde os desposórios era preciso o libelo de repúdio, no caso de ruptura das relações.

Todo o relato do nascimento de Jesus ensina através do cumprimento da profecia de Isaías 7, 14 (que citará expres­samente nos versículos 22-23): 1.° Jesus é descendente de David pela via legal de José; 2.° Maria é a Virgem que dá à luz segundo a profecia; 3.° o caracter miraculoso da con­ceição do Menino sem intervenção de varão.

19. «José era efectivamente um homem corrente, em quem Deus confiou para operar coisas grandes. Soube viver, tal como o Senhor queria, todos e cada um dos aconteci­mentos que compuseram a sua vida. Por isso, a Escritura Santa louva José, afirmando que era justo. E, na linguagem hebraica, justo quer dizer piedoso, servidor irrepreensível de Deus, cumpridor da Vontade divina (cfr Gen 7, 1; 23-32; Ez 18, 5 ss; Pry 12, 10); outras vezes significa bom e caritativo com o próximo (cfr Tob 7, 6; 9, 6). Numa palavra, o justo é o que ama a Deus e demonstra esse amor, cumprindo os Seus manda­mentos e orientando toda a sua vida ao serviço dos irmãos, os outros homens» (Cristo que passa, n° 40).

José considerava santa a sua esposa não obstante os sinais da sua maternidade. Por isso se encontrava perante uma situação inexplicável para ele. Procurando precisamente actuar de acordo com a vontade de Deus sentia-se obrigado a repudiá-la, mas, com o fim de evitar a infâmia pública de Maria, decide deixá-la privadamente.

É admirável o silêncio de Maria. A sua entrega perfeita a Deus leva-a inclusivamente a não defender a sua honra e a sua inocência. Prefere que caia sobre Ela a suspeita e a infâmia, a manifestar o profundo mistério da Graça. Perante um facto inexplicável por razões humanas, abandona-se confiadamente no amor e providência de Deus.

Devemos contemplar a magnitude da prova a que Deus submeteu estas duas almas santas: José e Maria. Não nos pode causar estranheza que também nós sejamos submetidos por vezes, ao longo da vida, a provas duras; nelas temos de confiar em Deus e permanecer-Lhe fiéis, a exemplo de José e Maria.

20. Deus ilumina oportunamente o homem que actua com rectidão e confia no poder e sabedoria divina, perante situações que superam a compreensão da razão humana. O anjo recorda neste momento a José, ao chamar-lhe filho de David, que é o elo providencial que une Jesus com a estirpe de David, segundo a profecia messiânica de Natan (cfr 2Sam 7, 12). Corno diz São João Crisóstomo: «Antes de mais recorda-lhe David, de quem tinha de vir Cristo, e não lhe consente estar perturbado desde o momento que, pelo nome do mais glorioso dos seus antepassados, lhe traz à memória a promessa feita a toda a sua linhagem» (Hom. sobre S. Mateus, 4).

«Jesus Cristo, único Senhor, nosso, Filho de Deus, quando tomou por nós carne humana no ventre da Virgem, foi con­cebido não por obra de varão, como os outros homens, mas, sobre toda a ordem natural, por virtude do Espírito Santo; de tal maneira que a mesma pessoa (do Verbo), permanecendo Deus, como o era desde a eternidade, se fizesse homem, o qual não era antes» (Catecismo Romano, 1,4,1).

21. Segundo a raiz hebraica, o nome de Jesus significa «salvador». Depois da Virgem Santa Maria, José é o primeiro homem que recebe esta declaração divina do facto da salvação, que já se estava a realizar.

«Jesus é o nome exclusivo do que é Deus e homem, o qual significa salvador, imposto a Cristo não casualmente nem por ditame ou disposição humana, mas por conselho e mandato de Deus.

(…) Os nomes profetizados (…) o Admirável, o Conselheiro, Deus, o Forte, o Pai do século vindouro, o Príncipe da paz, cfr Is 9, 6), que se deviam dar por disposição divina ao Filho de Deus, resumem-se no nome de Jesus, porque, enquanto os outros se referem apenas sob algum aspecto à salvação que nos devia dar, este compendiou em si mesmo a realidade e a causa da salvação de todos os homens» (Catecismo Romano I, 3, 5 e 6).

23. «Emanuel»: A profecia de Isaías 7, 14 citada neste versículo, preanunciava, já desde há uns sete séculos, que o sinal da salvação divina ia ser o acontecimento extraor­dinário de uma virgem que vai dar à luz um filho. O Evan­gelho revela-nos, pois, neste passo duas verdades:

A primeira que, na verdade, Jesus é o Deus connosco preanunciado pelo profeta. Assim o sentiu sempre a tradição cristã. Inclusivamente o Magistério da Igreja (no Breve Divina de Pio VI, 1779) condenou uma interpretação que negava o sentido messiânico do texto de Isaías. Cristo é, pois, verdadeiramente Deus connosco, não só pela Sua missão divina mas porque é Deus feito homem (cfr Jo 1, 14).Não quer dizer que Jesus Cristo tenha de ser normalmente chamado Emanuel: este nome refere-se mais directamente ao Seu mistério de Verbo Encarnado. O anjo da anunciação indicou que Lhe fosse posto o nome de Jesus, que significa Salvador. Assim o fez São José.

A segunda verdade que nos revela o texto sagrado é que Santa Maria, em quem se cumpre a profecia de Is 7, 14, permanece virgem antes do parto e no próprio parto. Preci­samente o sinal miraculoso que dá Deus de que chegou a salvação é que uma mulher que é virgem, sem deixar de o ser, é também mãe.

«Jesus Cristo saiu do seio materno sem detrimento algum da virgindade de Sua Mãe; assim pois, com louvores merecidíssimos, celebramos a sua imaculada e perpétua virgindade. E isto em verdade operou-se por virtude do Espírito Santo, que tanto engrandeceu a Mãe na conceição e no nascimento do Filho, que lhe deu a ela fecundidade e conservou ao mesmo tempo a sua perpétua virgindade» (Catecismo Romano, 1,4,8).

19.12.14 – Lc 1, 5-25

5Nos dias de Herodes, rei da Judéia, existiu um sacerdote de nome Zacarias, da turma de Abias, cuja esposa era da descen­dência de Aarão e se chamava Isabel. 6Eram ambos justos diante de Deus, cumprindo irrepreensivelmente todos os preceitos e regulamentos do Senhor. 7E não tinham filhos, pelo facto de Isabel ser estéril e ambos de idade avançada.

8Estando ele a exercer as funções sacerdotais diante de Deus, na ordem da sua turma, 9coube-lhe, por sorte, segundo o costume sacerdotal, entrar no Santuário do Senhor, para queimar o incenso. 10E toda a multidão estava de fora a rezar, à hora do incenso. 11Apareceu-lhe então o Anjo do Senhor, de pé, à direita do altar do incenso. 12Zacarias, ao vê-lo, ficou perturbado e encheu-se de temor.

13Mas o Anjo disse-lhe: Não tenhas receio, Zacarias, porque foi atendida a tua súplica. Tua esposa Isabel dar-te-á um filho, ao qual porás o nome de João. 14Terás alegria e júbilo, e muitos se hão-de regozijar pelo seu nascimento. 15De facto, ele será grande aos olhos do Senhor, não beberá vinho nem outra bebida alcoólica, será cheio do Espírito Santo já desde o ventre materno 16e recon­duzirá ao Senhor seu Deus a muitos dos filhos de Israel. 17Irá diante d’Ele, com o espírito e a força de Elias, para reconduzir os corações dos pais a seus filhos e os rebeldes aos sentimentos dos justos, a fim de proporcionar ao Senhor um povo pre­parado. 18Zacarias disse ao Anjo: Como hei-de verificá-lo, se eu estou velho, e minha esposa, avançada em anos? 19Disse-lhe o Anjo, em resposta: Eu sou Gabriel, que estou presente diante de Deus e fui enviado para te falar e te dar estas boas novas. 20Mas olha que vais ficar calado e sem poder falar, até ao dia em que elas se realizarem, pelo facto de não teres acreditado nas minhas palavras, que se hão-de cumprir a seu tempo.

21Entretanto, o povo esperava Zacarias e admirava-se de ele se demorar no Santuário. 22Mas, ao sair, não lhes podia falar, e eles perceberam que havia tido uma visão no Santuário. Fazia-lhes sinais e continuava mudo.

23Ao terminarem os dias do seu serviço, retirou-se para casa. 24Passados estes dias, sua esposa Isabel concebeu e, por cinco meses, permaneceu oculta. 25«Assim pro­cedeu o Senhor para comigo, dizia ela, nos dias em que se dignou tirar-me a ignomínia entre os homens».

Comentário

5ss. São Lucas e São Mateus dedicam os dois primeiros capítulos dos seus respectivos Evangelhos a narrar alguns episódios da infância do Senhor (Anunciação, Nascimento, meninice, vida oculta em Nazaré) dos quais não se ocupam os outros Evangelhos. Devido a esta temática, esses dois primeiros capítulos de Mateus e de Lucas costumam cha­mar-se evangelho da infância de Jesus. A primeira caracte­rística que se observa é que São Mateus e São Lucas não narram os mesmos acontecimentos.

O evangelho da infância segundo São Lucas compreende seis episódios estruturados de dois em dois e relativos à infância de João Baptista e à de Jesus: duas anunciações, dois nascimentos e circuncisões e duas cenas no Templo; e contém também uns episódios só relativos à infância do Senhor: revelação aos pastores e adoração destes, purifi­cação da Santíssima Virgem e apresentação do Menino no Templo, vida escondida em Nazaré.

As narrações de Lucas adquirem um elevado tom lírico, simples e grandioso ao mesmo tempo, que surpreende, enamora e arrasta à contemplação íntima do mistério da Encarnação do Salvador: Anunciação do anjo a Zacarias (1 ,5-17); saudação e Anunciação do anjo a Maria Santíssima (1, 26-38); visitação de Nossa Senhora a sua prima Santa Isabel (1, 39-56); Nascimento de Jesus em Belém (2, 1-7); adoração dos pastores (2, 8-20); apresentação do Menino no Templo e bênção do velho Simeão à Virgem Santíssima (2,22-38); o Menino perdido e achado no Templo (2, 41-52). São Lucas recolhe também quatro profecias em forma versificada, a modo de cânticos: Magnificat de Maria Santíssima (1, 46-55), Benedictus de Zacarias (1, 67-79), Glória dos anjos (2, 14) e Nunc dimittis de Simeão (2, 29-32). Estes cânticos estão entretecidos de palavras e frases que recordam, mais ou menos à letra, diversos passos do Antigo Testamento (em concreto de Gen, Lev, Num, Ide, 1Sam, Is, ler, Mich e Mal): esta circunstância é absolutamente normal, já que naquela época todo o judeu culto e piedoso rezava de ordinário repetindo de memória ou lendo os livros sagrados, e esse é o caso de Nossa Senhora e de Zacarias, de Simeão e de Ana. Além disso, foi o próprio Espírito Santo que inspirou os autores humanos do Antigo Testamento a escrever, e que moveu a falar os justos que contemplaram com os seus próprios olhos como no Menino Jesus se cumpriam os antigos anúncios proféticos. Essas características linguísticas reflectem a louçania das palavras tal como saíram daqueles que as pronunciaram. ,

6. Depois de ter falado da nobreza de sangue de Zaca­rias e de Isabel, o Evangelista alude agora a outra nobreza superior, a da virtude: «Eram ambos justos diante de Deus ». «Porque nem todo o que é justo diante dos homens é também justo diante de Deus; porque uma é a maneira de olhar dos homens e outra a de Deus: os homens veem no exterior, mas Deus vê no coração. Pode acontecer que alguém pareça justo por falsa virtude e diante da gente, e não o seja diante de Deus se a sua justiça não nasce da simplicidade de alma mas se simula para parecer bem.

«O perfeito louvor consiste em ser justo diante de Deus, porque só pode chamar-se perfeito aquele que é provado por quem não pode enganar-se» (Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc.).

Em última análise, o que importa ao cristão é ser justo diante de Deus. Um bom exemplo desta conduta é-nos oferecido por São Paulo quando escreve aos Coríntios: «Quanto a mim, importa-me pouco ser julgado por vós ou por qualquer juízo humano; nem sequer eu mesmo me julgo… Porque quem me julga é o Senhor. Portanto, não queirais julgar antes de tempo até que venha o Senhor, que porá a descoberto as coisas escondidas nas trevas e descobrirá as intenções dos corações. E então Deus dará a cada um o louvor que lhe corresponde» (1Cor 4,3 ss.). Sobre o conceito de homem justo equivalente a santo veja-se a nota a Mt 1, 19.

8. Havia vinte e quatro grupos ou turnos sacerdotais, entre os quais eram sorteadas as funções que deviam exercer no Templo; o oitavo grupo era o da família de Abias (cfr l Chr 24,7-19). Zacarias era deste oitavo turno. 9-10. Dentro do recinto sagrado, delimitado por uma muralha, estava o edifício que constituía propriamente o Templo. Este, de forma rectangular, tinha uma primeira grande estância que se chamava o « Sanctus», onde estava o altar do incenso, a que alude o v. 9. Depois do «Sanctus» estava a segunda estância, mais interior, chamada o «Sancta Sanctorum», onde se tinha guardado a Arca da Aliança com as tábuas da Lei; era o mais sagrado do Templo, onde não tinha acesso senão o Sumo Sacerdote. Entre ambas as estân­cias estava pendurado o grande véu do Templo. Rodeando o edifício sagrado havia um primeiro átrio, chamado dos sacerdotes e junto a ele, em frente da fachada principal, encontrava-se o chamado átrio dos israelitas, em que per­manecia o povo durante a incensação.

10. Enquanto o sacerdote oferecia a Deus o incenso, o povo, desde o átrio do Templo, unia-se-lhe espiritualmente. Já no Antigo Testamento todo o acto de culto externo devia ser acompanhado pela disposição interior de oferecimento a Deus.

Com maior razão se deve dar esta união nos ritos litúrgicos da Nova Aliança (cfr Mediator Dei, n. 8). Na Liturgia da Igreja, com efeito, aparecem unidos os dois elementos do culto, interno e externo, o que está em conformidade com a natureza do homem, composto de alma e corpo.

11. Os anjos são espíritos puros, não têm corpo; por­tanto « não aparecem aos homens tal como são, mas manifes­tando-se nas formas que Deus dispõe para que possam ser vistos por aqueles a quem os envia» (De Fide orthodoxa, 2,3).

Os espíritos angélicos, além de adorar e de servir a Deus, são mensageiros divinos e instrumentos da Providência de Deus em favor dos homens; por isso na História da Salvação intervém tão frequentemente e a Sagrada Escritura faz constar isso em numerosos passos (cfr, entre outros muitos lugares, Heb 1, 14).

O nascimento de Cristo é tão importante que à volta dele a intervenção dos anjos se mostra de modo singular. Neste caso concreto, como no da Anunciação a Maria, será o arcanjo São Gabriel o encarregado de transmitir a mensa­gem divina.

«Não sem razão apareceu o anjo no templo, porque com isso se anunciava a próxima vinda do Verdadeiro Sacerdote e se preparava o Sacrifício Celeste ao qual haviam de servir os anjos. Não se duvide, pois, que os anjos assistirão quando Cristo for imolado» (Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc.).

12. «Não pode o homem por mais justo que seja ver um anjo sem temor: por isso Zacarias se perturba, não podendo resistir à presença do anjo nem suportar aquele resplendor que o acompanha» (De incomprehensibili Dei natura, 2). A razão está não tanto na superioridade do anjo sobre o homem como em que naquele transparece a grandeza da Majestade divina: «E disse-me então: ‘Escreve: Felizes os que foram convidados para o banquete de núpcias do Cordeiro’. Dis­se-me ainda: ‘Estas são as verdadeiras palavras de Deus’. Prostrei-me aos seus pés para o adorar, mas ele disse-me: ‘Não faças isso; sou um servo como tu e como os teus irmãos que têm o testemunho de Jesus. Adora a Deus» (Apc 19,9-10).

13. Por meio do arcanjo Deus intervém de forma extraor­dinária na vida de Zacarias e de Isabel. Mas o que é anun­ciado ultrapassa o âmbito da intimidade familiar. Isabel, já idosa, vai ter um filho que se chamará João e será o Pre­cursor do Messias. João significa «Yahwéh é favorável». Este facto é a manifestação clara de que está já iminente «a plenitude dos tempos» (Gal 4, 4), pela qual tinham suspirado os justos de Israel (cfr Ioh 8, 56; Heb 11, 13).

«Foi atendida a tua súplica». Comenta São Jerónimo: «Isto é, é-te outorgado mais do que pediste. Tinhas rogado pela salvação do povo e foi-te dado o Precursor» (Expositio in Evangelium sec. Lucam, ad loc.). Também a nós o Senhor nos dá por vezes mais do que pedimos: «Conta-se que, certo dia, um mendigo saiu ao encontro de Alexandre Magno, pedindo uma esmola. Alexandre parou e ordenou que o fizessem senhor de cinco cidades. O pobre, confundido e atordoado, exclamou: eu não pedia tanto! E Alexandre respondeu: tu pediste como quem és; eu dou-te como quem sou» (Cristo que passa, nº 160). Quando Deus responde tão generosamente, por cima dos nossos pedidos, não nos podemos acobardar mesquinhamente com medo das dificuldades.

14-17. O arcanjo São Gabriel anuncia a Zacarias os três motivos de alegria pelo nascimento do menino: primeiro, porque Deus lhe concederá uma santidade extraordinária (v. 15); segundo, porque será instrumento para a salvação de muitos (v. 16); e terceiro, porque toda a sua vida e actividade serão uma preparação para a vinda do Messias esperado (v. 17).

Em São João Baptista cumprem-se dois anúncios profé­ticos de Malaquias, nos quais se nos diz que Deus enviará um mensageiro diante d’Ele para Lhe preparar o caminho (Mal 3, 1; 4, 5-6). João prepara a primeira vinda do Messias, de maneira semelhante a como Elias o fará quando se apro­ximar a segunda (cfr Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc. Comentário sobre S. Mateus, 17, 11, ad loc.). Por isso Cristo dirá: «Que fostes então ver? Um profeta? Sim, vo-lo digo, e mais que profeta. É aquele de quem está escrito: Vou mandar à Tua frente o Meu mensageiro, que há-de preparar-Te o caminho diante de Ti» (Lc 7,26-27).

18. A incredulidade de Zacarias e o seu pecado não consiste em duvidar de que o anúncio Vem da parte de Deus, mas em considerar somente a incapacidade sua e de sua mulher, esquecendo-se da omnipotência divina. O mesmo arcanjo explicará à Santíssima Virgem, referindo-se à con­cepção do Baptista, que «da parte de Deus nada é impossível» (Lc 1,37). Quando Deus pede a nossa colaboração numa empresa Sua temos de contar mais com a Sua omnipotência do que com as nossas escassas forças. Cfr a nota a Mt 10,9-10.

19-20. «Gabriel» significa «fortaleza de Deus». Ao ar­canjo São Gabriel Deus encomendou o anúncio dos acontecimentos relativos à Encarnação do Verbo. Assim, já no Antigo Testamento, este arcanjo anuncia ao profeta Daniel o tempo da vinda do Messias (Dan 8, 15-26; 9, 20-27). No passo que comentamos recolhe-se o anúncio da concepção e do nascimento do Precursor de Cristo. E, por fim, será o mesmo arcanjo que comunicará à Santíssima Virgem o mistério da Encarnação que se vai realizar n’Ela.

21. Cfr a nota aos w. 9-10. 0 rito da incensação requeria pouco tempo. O povo ao ouvir o sinal convencionado, que indicava o momento exacto da oferenda, unia-se ao sacerdote oficiante. Este, que oficiava dentro do «Sanctus», ficava oculto ao povo. Estas circunstâncias explicam a estranheza de que Zacarias tardasse tanto a sair esta vez.

24. Ocultava-se tanto pelo impróprio da idade, como pelo pudor santo de não manifestar antes de tempo os dons divinos.

25. Aqueles casais aos quais Deus ainda não concedeu os filhos que desejariam ter, têm em Zacarias e Isabel um bom exemplo e uns bons intercessores no Céu. Aos casais que se encontram em tais circunstâncias recomendava Mons. J. Escrivá de Balaguer que, além de pôr os meios humanos pertinentes, «não devem dar-se por vencidos com demasiada facilidade. É preciso pedir a Deus que lhes conceda descen­dência, que os abençoe — sé for essa a Sua vontade — como abençoou os patriarcas do Antigo Testamento. Depois, é conveniente que recorram a um bom médico, elas e eles. Se, apesar de tudo, o Senhor não lhes dá filhos, não devem ver nisso nenhuma frustração, devem ficar satisfeitos,— descobrindo nesse facto precisamente a Vontade de Deus em relação a eles. Muitas vezes, o Senhor não dá filhos porque pede mais. Pede que se tenha o mesmo esforço e a mesma entrega delicada ajudando o próximo, sem o júbilo bem humano de ter tido filhos. Não há, pois, motivo para se sentirem fracassados nem para dar lugar à tristeza» (Temas Actuais do Cristianismo, n° 96). Recentemente o Papa João Paulo II ensinava com autoridade:

«Não deve, todavia esquecer-se que, mesmo quando a procriação não é possível, nem por isso a vida conjugal perde o seu valor. A esterilidade física pode, de facto, ser para os esposos ocasião de outros serviços importantes à vida da pessoa humana, tais como a adopção, as várias obras educa­tivas, a ajuda a outras famílias, às crianças pobres ou defi­cientes» (Familiarís consortio, n. 14).

20.12.14 – Lc 1, 26-38

26Ao sexto mês, foi o Anjo Gabriel enviado, Anunciação da parte de Deus, a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, 27a uma virgem que era noiva dum homem da casa de David, cha­mado José, e o nome da virgem era Maria. 28Ao entrar para junto dela, disse o Anjo: Salve, ó cheia de graça, o Senhor está contigo. 29A estas palavras, ela perturbou-se ficou a pensar que saudação seria aquela. 30Disse-lhe o Anjo: Não tenhas receio, Maria, pois achaste graça diante de Deus. 3lHás-de conceber e dar à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus. 32Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo; dar-Lhe-á o Senhor Deus o trono de Seu pai David, 33reinará eternamente na casa de Jacob e o Seu Reinado não terá fim.

34Disse Maria ao Anjo: Como será isso, se eu não conheço homem? 35Disse-lhe o Anjo, em resposta: Virá sobre ti o Espírito Santo, e a força do Altíssimo estenderá sobre ti a Sua sombra. Por isso mesmo é que o Santo que vai nascer há-de chamar-Se Filho de Deus. 36E também Isabel, tua parenta, concebeu um filho, na sua velhice, e é este o sexto mês dessa que chamavam estéril, 37porque, da parte de Deus, nada é impossível. 38Maria disse então: Eis a escrava do Senhor: seja-me feito segundo a tua palavra. E retirou-se o Anjo de junto dela.

Comentário

26-38. Aqui contemplamos Nossa Senhora que, «enri­quecida, desde o primeiro instante da sua conceição, com os esplendores duma santidade singular, a Virgem de Nazaré é saudada pelo Anjo, da parte de Deus, como cheia de graça (cfr Lc 1,28); e responde ao mensageiro celeste: Eis a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra (Lc 1, 38). Deste modo, Maria, filha de Adão, dando o seu consentimento à palavra divina, tornou-se Mãe de Jesus e, não retida por qualquer pecado, abraçou de todo o coração o desígnio salvador de Deus, consagrou-se totalmente, como escrava do Senhor, à pessoa e à obra de seu Filho, subordinada a Ele e juntamente com Ele, servindo pela graça de Deus omnipotente o mistério da Redenção. Por isso, consideram com razão os santos Padres que Maria não foi utilizada por Deus como instrumento meramente passivo, mas que cooperou livremente, pela sua fé e obediência, na salvação dos homens» (Lumen gentium, n. 56).

A Anunciação a Maria e a Encarnação do Verbo é o facto mais maravilhoso, o mistério mais entranhável das relações de Deus com os homens e o acontecimento mais transcendente da História da humanidade. Que Deus Se faça Homem e para sempre! Até onde chegou a bondade, a misericórdia e o amor de Deus por nós, por todos nós! E, não obstante, no dia em que a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade assu­miu a débil natureza humana das entranhas puríssimas de Maria Santíssima, nada extraordinário acontecia, aparentemente, sobre a face da terra.

Com grande simplicidade narra São Lucas o magno acontecimento. Com quanta atenção, reverência e amor temos de ler estas palavras do Evangelho, rezar piedosamente o Angelus cada dia, seguindo a divulgada devoção cristã, e contemplar o primeiro mistério gozoso do santo Rosário.

27. Deus quis nascer de uma mãe virgem. Assim o tinha anunciado séculos antes por meio do profeta Isaías (cfr Is 14; Mt 1, 22-23). Deus, «desde toda a eternidade, esco­lheu-A e indicou-A como Mãe para que o Seu Unigênito Filho tomasse carne e nascesse d’Ela na plenitude ditosa dos tempos; e em tal grau A amou por cima de todas as criaturas, que só n’Ela se comprazeu com assinaladíssima complacência» (Ineffabilis Deus). Este privilégio de ser virgem e mãe ao mesmo tempo, concedido a Nossa Senhora, é um dom divino, admirável e singular. Deus «engrandeceu tanto a Mãe na concepção e no nascimento do Filho, que Lhe deu fecundidade e A conservou em perpétua virgindade» (Catecismo Romano, 1, 4,8). Paulo VI recordava-nos novamente esta verdade de fé: «Cremos que a bem-aventurada Maria, que permaneceu sempre Virgem, foi a Mãe do Verbo encar­nado, Deus e Salvador nosso Jesus Cristo» (Credo do Povo de Deus, n° 14).

Ainda que se tenham proposto muitos significados do nome de Maria, os autores de maior relevância parecem estar de acordo em que Maria significa Senhora. Não obstante, a riqueza que contém o nome de Maria não se esgota com um só significado.

28. «Salve!»: Literalmente o texto grego diz: alegra-te! É claro que se trata de uma alegria totalmente singular pela notícia que Lhe vai comunicar a seguir.

«Cheia de graça»: O Arcanjo manifesta a dignidade e a honra de Maria com esta saudação desusada. Os Padres e Doutores da Igreja «ensinaram que com esta singular e solene saudação, jamais ouvida, se manifestava que a Mãe de Deus era assento de todas as graças divinas e que estava adornada de todos os carismas do Espírito Santo», pelo que «jamais esteve sujeita a maldição», isto é, esteve imune de todo o pecado. Estas palavras do arcanjo constituem um dos textos em que se revela o dogma da Imaculada Conceição de Maria (cfr Ineffabilis Deus; Credo do Povo de Deus, n° 14).

«O Senhor está contigo»: Estas palavras não têm um mero sentido deprecatório (o Senhor esteja contigo), mas afirmativo (o Senhor está contigo), e em relação muito estreita com a Encarnação. Santo Agostinho glosa a frase «o Senhor está contigo» pondo na boca do arcanjo estas palavras: «Mais que comigo, Ele está no teu coração, forma-Se no eu ventre, enche a tua alma, está no teu seio» (Sermo de Nativitate Domini, 4).

Alguns importantes manuscritos gregos e versões antigas acrescentam no fim: «Bendita tu entre as mulheres»: Deus exaltá-La-ia assim sobre todas as mulheres. Mais excelente que Sara, Ana, Débora, Raquel, Judit, etc., pelo facto de que só Ela tem a suprema dignidade de ter sido escolhida para ser Mãe de Deus.

29-30. Perturbou-se Nossa Senhora pela presença do Arcanjo e pela confusão que produzem nas pessoas verdadeiramente humildes os louvores dirigidos a elas.

30. A Anunciação é o momento em que Nossa Senhora conhece com clareza a vocação a que Deus A tinha destinado desde sempre. Quando o Arcanjo A tranquiliza e Lhe diz «não temas, Maria», está a ajudá-La a superar esse temor inicial que, ordinariamente, se apresenta em toda a vocação. O facto de que isto tenha acontecido à Santíssima Virgem indica-nos que não há nisso nem sequer imperfeição: é uma reacção natural diante da grandeza do sobrenatural. Imperfeição seria não o superar, ou não nos deixarmos aconselhar por aqueles que, como São Gabriel e Nossa Senhora, podem ajudar-nos.

31-33. O arcanjo Gabriel comunica à Santíssima Virgem a sua maternidade divina, recordando as palavras de Isaias que anunciavam o nascimento virginal do Messias e que agora se cumprem em Maria Santíssima (cfr Mt 1, 22-23; Is 7, 14).

Revela-se que o Menino será «grande»: a grandeza vem-Lhe da Sua natureza divina, porque é Deus, e depois da Encarnação não deixa de sê-lo, mas assume a pequenez da humanidade. Revela-se também que Jesus será o Rei da dinastia de David, enviado por Deus segundo as promessas de Salvação; que o Seu Reino «não terá fim»; porque a Sua humanidade permanecerá para sempre indissoluvelmente unida à Sua divindade; que «chamar-se-á Filho do Altís­simo»: indica ser realmente Filho do Altíssimo e ser reconhe­cido publicamente como tal, isto é, o Menino será o Filho de Deus.

No anúncio do Arcanjo evocam-se, pois, as antigas pro­fecias que anunciavam estas prerrogativas. Maria, que conhecia as Escrituras Santas, entendeu claramente que ia ser Mãe de Deus.

34-38. O Papa João Paulo II comentava assim este passo: «Virgo fidelis, Virgem fiel. Que significa esta fidelidade de Maria? Quais são as dimensões dessa fidelidade? A primeira dimensão chama-se busca. Maria foi fiel, antes de mais, quando com amor se pôs a buscar o sentido profundo do desígnio de Deus n’Ela e para o mundo. ‘Quomodo fiet? Como acontecerá isto?’, perguntava Ela ao anjo da Anun­ciação (…). Não haverá fidelidade se não houver na raiz esta ardente, paciente e generosa busca (…).

«A segunda dimensão da fidelidade chama-se acolhimento, aceitação. O quomodo fiet transforma-se, nos lábios; de Maria, em um fiat. Que se faça, estou pronta, aceito: este é o momento crucial da fidelidade, momento em que o homem percebe que jamais compreenderá totalmente o como; que no desígnio de Deus mais zonas de mistério que de evidência; que, por mais que faça, jamais conseguirá captar tudo (…).

«Coerência é a terceira dimensão da fidelidade. Viver de acordo com o que se crê. Ajustar a própria vida ao objecto da própria adesão. Aceitar incompreensões, perseguições antes de permitir rupturas entre o que se vive e o que se crê: esta é a coerência (…).

«Mas toda a fidelidade deve passar pela prova mais exigente: a da duração. Por isso a quarta dimensão da fidelidade é a constância. É fácil de ser coerente por um dia ar alguns dias. Difícil e importante é ser coerente toda a vida. É fácil de ser coerente na hora da exaltação, difícil sê-lo na hora da tribulação. E só pode chamar-se fidelidade uma coerência que dura ao longo de toda a vida. O fiat de Maria na Anunciação encontra a sua plenitude no fiat silencioso que repete aos pés da cruz» (Homília Catedral México).

34. A fé de Maria nas palavras do Arcanjo foi absoluta; não duvida como duvidou Zacarias (cfr 1,18). A pergunta da Santíssima Virgem «como será isso» exprime a sua prontidão para cumprir a Vontade divina diante de uma situação que parece à primeira vista contraditória: por um lado Ela tinha a certeza de que Deus lhe pedia para con­servar a virgindade; por outro lado, também da parte de Deus, é-lhe anunciado que vai ser mãe. As palavras imediatas do arcanjo declaram o mistério do desígnio divino e o que parecia impossível, segundo as leis da natureza, explica-se por uma singularíssima intervenção de Deus.

O propósito de Maria de permanecer virgem foi certa­mente algo singular, que interrompia o modo ordinário de proceder dos justos do Antigo Testamento, no qual, como expõe Santo Agostinho, «atendendo de modo particularíssimo à propagação e ao crescimento do Povo de Deus, que era o que tinha de profetizar e donde havia de nascer o Prín­cipe e Salvador do mundo, os santos tiveram de usar do bem do matrimônio» (De bono matrimonii, 9,9). Houve, porém, no Antigo Testamento alguns homens que por desígnio de Deus permaneceram célibes, como Jeremias, Elias, Eliseu e João Baptista. A Virgem Santíssima, inspirada ‘de modo muito particular pelo Espírito Santo para viver plenamente a virgindade, é já uma primícia do Novo Testamento, no qual a excelência da virgindade sobre o matrimônio adqui­rirá todo o seu valor, sem diminuir a santidade da união conjugal, que é elevada à dignidade de sacramento (cfr Gaudium et spes, n. 48).

35. A «sombra» é um símbolo da presença de Deus. Quando Israel caminhava pelo deserto, a glória de Deus enchia o Tabernáculo e uma nuvem cobria a Arca da Aliança (Ex 40, 34-36). De modo semelhante quando Deus entregou a Moisés as tábuas da Lei. uma nuvem cobria a montanha do Sinai (Ex 24,15-16), e também na Transfiguração de Jesus se ouve a voz de Deus Pai no meio de uma nuvem (Lc 9,35). No momento da Encarnação o poder de Deus enroupa com a Sua sombra Nossa Senhora. É a expressão da acção omnipotente de Deus. O Espírito de Deus — que, segundo o relato do Gênesis (1, 2) pairava sobre as águas dando vida às coisas — desce agora sobre Maria. E o fruto do seu ventre será obra do Espírito Santo. A Virgem Maria, que foi concebida sem mancha de pecado (cfr Ineffabilis Deus), fica depois da Encarnação constituída em novo Tabernáculo de Deus. Este é o Mistério que recordamos todos os dias na recitação do Ángelus.

38. Uma vez conhecido o desígnio divino, Nossa Senhora entrega-se à Vontade de Deus com obediência pronta e sem reservas. Dá-se conta da desproporção entre o que vai ser — Mãe de Deus — e o que é — uma mulher —. Não obstante, Deus o quer e nada é impossível para Ele, e por isto ninguém é capaz de pôr dificuldades ao desígnio divino. Daí que, juntando-se em Maria a humildade e a obediência, pronun­ciará o sim ao chamamento de Deus com essa resposta perfeita: «Eis a escrava do Senhor, seja-me feito segundo a tua palavra».

«Ao encanto destas palavras virginais, o Verbo se fez carne» (Santo Rosário, primeiro mistério gozoso). Das purís­simas entranhas da Santíssima Virgem, Deus formou um corpo, criou do nada uma alma, e a este corpo e alma uniu-Se o Filho de Deus; desta sorte o que antes era apenas Deus, sem deixar de o ser, ficou feito homem. Maria já é Mãe de Deus. Esta verdade é um dogma da nossa santa fé definido no Concilio de Éfeso (ano 431). Nesse mesmo instante começa a ser também Mãe espiritual de todos os homens. O que um dia ouvirá de lábios de seu Filho moribundo, «eis aí o teu filho (…), eis aí a tua mãe» (Ioh 19, 26-27), não será senão a proclamação do que silenciosamente tinha acontecido em Nazaré. Assim, «com o seu fiat generoso converteu-se, por obra do Espírito, em Mãe de Deus e também em verdadeira Mãe dos vivos, e converteu-se também, ao acolher no seu seio o único Mediador, em verdadeira Arca da Aliança e verdadeiro Templo de Deus» (Marialis cultus, n. 6).

O Evangelho faz-nos contemplar a Virgem Santíssima como exemplo perfeito de pureza («não conheço homem»); de humildade («eis a escrava do Senhor»); de candura e simplicidade («como será isso»); de obediência e de fé viva («seja-me feito segundo a tua palavra»). «Procuremos apren­der, seguindo também o seu exemplo de obediência a Deus, numa delicada combinação de submissão e de fidalguia. Em Maria, nada existe da atitude das virgens néscias, que obe­decem, sim, mas como insensatas. Nossa Senhora ouve com atenção o que Deus quer, pondera aquilo que não entende, pergunta o que não sabe. Imediatamente a seguir, entrega-se sem reservas ao cumprimento da vontade divina: eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a Vossa palavra (Lc 1, 38). Vedes esta maravilha? Santa Maria, mestra de toda a nossa conduta, ensina-nos agora que a obediência a Deus não é servilismo, não subjuga a consciência, pois nos move interiormente a descobrir a liberdade dos filhos de Deus (cfr Rom 8, 21)» (Cristo que passa, n° 173).

21.12.14 – Lc 1, 26-38

26Ao sexto mês, foi o Anjo Gabriel enviado, Anunciação da parte de Deus, a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, 27a uma virgem que era noiva dum homem da casa de David, cha­mado José, e o nome da virgem era Maria. 28Ao entrar para junto dela, disse o Anjo: Salve, ó cheia de graça, o Senhor está contigo. 29A estas palavras, ela perturbou-se ficou a pensar que saudação seria aquela. 30Disse-lhe o Anjo: Não tenhas receio, Maria, pois achaste graça diante de Deus. 3lHás-de conceber e dar à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus. 32Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo; dar-Lhe-á o Senhor Deus o trono de Seu pai David, 33reinará eternamente na casa de Jacob e o Seu Reinado não terá fim.

34Disse Maria ao Anjo: Como será isso, se eu não conheço homem? 35Disse-lhe o Anjo, em resposta: Virá sobre ti o Espírito Santo, e a força do Altíssimo estenderá sobre ti a Sua sombra. Por isso mesmo é que o Santo que vai nascer há-de chamar-Se Filho de Deus. 36E também Isabel, tua parenta, concebeu um filho, na sua velhice, e é este o sexto mês dessa que chamavam estéril, 37porque, da parte de Deus, nada é impossível. 38Maria disse então: Eis a escrava do Senhor: seja-me feito segundo a tua palavra. E retirou-se o Anjo de junto dela.

Comentário

26-38. Aqui contemplamos Nossa Senhora que, «enri­quecida, desde o primeiro instante da sua conceição, com os esplendores duma santidade singular, a Virgem de Nazaré é saudada pelo Anjo, da parte de Deus, como cheia de graça (cfr Lc 1,28); e responde ao mensageiro celeste: Eis a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra (Lc 1,38). Deste modo, Maria, filha de Adão, dando o seu consentimento à palavra divina, tornou-se Mãe de Jesus e, não retida por qualquer pecado, abraçou de todo o coração o desígnio salvador de Deus, consagrou-se totalmente, como escrava do Senhor, à pessoa e à obra de seu Filho, subordinada a Ele e juntamente com Ele, servindo pela graça de Deus omnipotente o mistério da Redenção. Por isso, consideram com razão os santos Padres que Maria não foi utilizada por Deus como instrumento meramente passivo, mas que cooperou livremente, pela sua fé e obediência, na salvação dos homens» (Lumen gentium, n. 56).

A Anunciação a Maria e a Encarnação do Verbo é o facto mais maravilhoso, o mistério mais entranhável das relações de Deus com os homens e o acontecimento mais transcendente da História da humanidade. Que Deus Se faça Homem e para sempre! Até onde chegou a bondade, a misericórdia e o amor de Deus por nós, por todos nós! E, não obstante, no dia em que a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade assu­miu a débil natureza humana das entranhas puríssimas de Maria Santíssima, nada extraordinário acontecia, aparentemente, sobre a face da terra.

Com grande simplicidade narra São Lucas o magno acontecimento. Com quanta atenção, reverência e amor temos de ler estas palavras do Evangelho, rezar piedosamente o Angelus cada dia, seguindo a divulgada devoção cristã, e contemplar o primeiro mistério gozoso do santo Rosário.

27. Deus quis nascer de uma mãe virgem. Assim o tinha anunciado séculos antes por meio do profeta Isaías (cfr Is 14; Mt 1,22-23). Deus, «desde toda a eternidade, esco­lheu-A e indicou-A como Mãe para que o Seu Unigênito Filho tomasse carne e nascesse d’Ela na plenitude ditosa dos tempos; e em tal grau A amou por cima de todas as criaturas, que só n’Ela se comprazeu com assinaladíssima complacência» (Ineffabilis Deus). Este privilégio de ser virgem e mãe ao mesmo tempo, concedido a Nossa Senhora, é um dom divino, admirável e singular. Deus «engrandeceu tanto a Mãe na concepção e no nascimento do Filho, que Lhe deu fecundidade e A conservou em perpétua virgindade» (Catecismo Romano, 1,4,8). Paulo VI recordava-nos novamente esta verdade de fé: «Cremos que a bem-aventurada Maria, que permaneceu sempre Virgem, foi a Mãe do Verbo encar­nado, Deus e Salvador nosso Jesus Cristo» (Credo do Povo de Deus, n° 14).

Ainda que se tenham proposto muitos significados do nome de Maria, os autores de maior relevância parecem estar de acordo em que Maria significa Senhora. Não obstante, a riqueza que contém o nome de Maria não se esgota com um só significado.

28. «Salve!»: Literalmente o texto grego diz: alegra-te! É claro que se trata de uma alegria totalmente singular pela notícia que Lhe vai comunicar a seguir.

«Cheia de graça»: O Arcanjo manifesta a dignidade e a honra de Maria com esta saudação desusada. Os Padres e Doutores da Igreja «ensinaram que com esta singular e solene saudação, jamais ouvida, se manifestava que a Mãe de Deus era assento de todas as graças divinas e que estava adornada de todos os carismas do Espírito Santo», pelo que «jamais esteve sujeita a maldição», isto é, esteve imune de todo o pecado. Estas palavras do arcanjo constituem um dos textos em que se revela o dogma da Imaculada Conceição de Maria (cfr Ineffabilis Deus; Credo do Povo de Deus, n° 14).

«O Senhor está contigo»: Estas palavras não têm um mero sentido deprecatório (o Senhor esteja contigo), mas afirmativo (o Senhor está contigo), e em relação muito (estreita com a Encarnação. Santo Agostinho glosa a frase «o Senhor está contigo» pondo na boca do arcanjo estas palavras: «Mais que comigo, Ele está no teu coração, forma-Se no eu ventre, enche a tua alma, está no teu seio» (Sermo de Nativitate Domini, 4).

Alguns importantes manuscritos gregos e versões antigas acrescentam no fim: «Bendita tu entre as mulheres»: Deus exaltá-La-ia assim sobre todas as mulheres. Mais excelente que Sara, Ana, Débora, Raquel, Judit, etc., pelo facto de que só Ela tem a suprema dignidade de ter sido escolhida para ser Mãe de Deus.

29-30. Perturbou-se Nossa Senhora pela presença do Arcanjo e pela confusão que produzem nas pessoas verdadeiramente humildes os louvores dirigidos a elas.

30. A Anunciação é o momento em que Nossa Senhora conhece com clareza a vocação a que Deus A tinha destinado desde sempre. Quando o Arcanjo A tranquiliza e Lhe diz «não temas, Maria», está a ajudá-La a superar esse temor inicial que, ordinariamente, se apresenta em toda a vocação. O facto de que isto tenha acontecido à Santíssima Virgem indica-nos que não há nisso nem sequer imperfeição: é uma reacção natural diante da grandeza do sobrenatural. Imperfeição seria não o superar, ou não nos deixarmos aconselhar por aqueles que, como São Gabriel e Nossa Senhora, podem ajudar-nos.

31-33. O arcanjo Gabriel comunica à Santíssima Virgem a sua maternidade divina, recordando as palavras de Isaias que anunciavam o nascimento virginal do Messias e que agora se cumprem em Maria Santíssima (cfr Mt 1,22-23; Is 7,14).

Revela-se que o Menino será «grande»: a grandeza vem-Lhe da Sua natureza divina, porque é Deus, e depois da Encarnação não deixa de sê-lo, mas assume a pequenez da humanidade. Revela-se também que Jesus será o Rei da dinastia de David, enviado por Deus segundo as promessas de Salvação; que o Seu Reino «não terá fim»; porque a Sua humanidade permanecerá para sempre indissoluvelmente unida à Sua divindade; que «chamar-se-á Filho do Altís­simo»: indica ser realmente Filho do Altíssimo e ser reconhe­cido publicamente como tal, isto é, o Menino será o Filho de Deus.

No anúncio do Arcanjo evocam-se, pois, as antigas pro­fecias que anunciavam estas prerrogativas. Maria, que conhecia as Escrituras Santas, entendeu claramente que ia ser Mãe de Deus.

34-38. O Papa João Paulo II comentava assim este passo: «Virgo fidelis, Virgem fiel. Que significa esta fidelidade de Maria? Quais são as dimensões dessa fidelidade? A primeira dimensão chama-se busca. Maria foi fiel, antes de mais, quando com amor se pôs a buscar o sentido profundo do desígnio de Deus n’Ela e para o mundo. ‘Quomodo fiet? Como acontecerá isto?’, perguntava Ela ao anjo da Anun­ciação (…). Não haverá fidelidade se não houver na raiz esta ardente, paciente e generosa busca (…).

«A segunda dimensão da fidelidade chama-se acolhimento, aceitação. O quomodo fiet transforma-se, nos lábios de Maria, em um fiat. Que se faça, estou pronta, aceito: este é o momento crucial da fidelidade, momento em que o homem percebe que jamais compreenderá totalmente o como; que no desígnio de Deus mais zonas de mistério que de evidência; que, por mais que faça, jamais conseguirá captar tudo (…).

«Coerência é a terceira dimensão da fidelidade. Viver de acordo com o que se crê. Ajustar a própria vida ao objecto da própria adesão. Aceitar incompreensões, perseguições antes de permitir rupturas entre o que se vive e o que se crê: esta é a coerência (…).

«Mas toda a fidelidade deve passar pela prova mais exigente: a da duração. Por isso a quarta dimensão da fidelidade é a constância. É fácil de ser coerente por um dia ou por alguns dias. Difícil e importante é ser coerente toda a vida. É fácil de ser coerente na hora da exaltação, difícil sê-lo na hora da tribulação. E só pode chamar-se fidelidade uma coerência que dura ao longo de toda a vida. O fiat de Maria na Anunciação encontra a sua plenitude no fiat silencioso que repete aos pés da cruz» (Homilia Catedral México).

34. A fé de Maria nas palavras do Arcanjo foi absoluta; não duvida como duvidou Zacarias (cfr 1,18). A pergunta da Santíssima Virgem «como será isso» exprime a sua prontidão para cumprir a Vontade divina diante de uma situação que parece à primeira vista contraditória: por um lado Ela tinha a certeza de que Deus lhe pedia para con­servar a virgindade; por outro lado, também da parte de Deus, é-lhe anunciado que vai ser mãe. As palavras imediatas do arcanjo declaram o mistério do desígnio divino e o que parecia impossível, segundo as leis da natureza, explica-se por uma singularíssima intervenção de Deus.

O propósito de Maria de permanecer virgem foi certa­mente algo singular, que interrompia o modo ordinário de proceder dos justos do Antigo Testamento, no qual, como expõe Santo Agostinho, «atendendo de modo particularíssimo à propagação e ao crescimento do Povo de Deus, que era o que tinha de profetizar e donde havia de nascer o Prín­cipe e Salvador do mundo, os santos tiveram de usar do bem do matrimônio» (De bono matrimonii, 9,9). Houve, porém, no Antigo Testamento alguns homens que por desígnio de Deus permaneceram célibes, como Jeremias, Elias, Eliseu e João Baptista. A Virgem Santíssima, inspirada ‘de modo muito particular pelo Espírito Santo para viver plenamente a virgindade, é já uma primícia do Novo Testamento, no qual a excelência da virgindade sobre o matrimônio adqui­rirá todo o seu valor, sem diminuir a santidade da união conjugal, que é elevada à dignidade de sacramento (cfr Gaudium et spes, n. 48).

35. A «sombra» é um símbolo da presença de Deus. Quando Israel caminhava pelo deserto, a glória de Deus enchia o Tabernáculo e uma nuvem cobria a Arca da Aliança (Ex 40,34-36). De modo semelhante quando Deus entregou a Moisés as tábuas da Lei uma nuvem cobria a montanha do Sinai (Ex 24,15-16), e também na Transfiguração de Jesus se ouve a voz de Deus Pai no meio de uma nuvem (Lc 9,35). No momento da Encarnação o poder de Deus enroupa com a Sua sombra Nossa Senhora. É a expressão da acção omnipotente de Deus. O Espírito de Deus — que, segundo o relato do Gênesis (1 ,2), pairava sobre as águas dando vida às coisas — desce agora sobre Maria. E o fruto do seu ventre será obra do Espírito Santo. A Virgem Maria, que foi concebida sem mancha de pecado (cfr Ineffabilis Deus), fica depois da Encarnação constituída em novo Tabernáculo de Deus. Este é o Mistério que recordamos todos os dias na recitação do Ángelus.

38. Uma vez conhecido o desígnio divino, Nossa Senhora entrega-se à Vontade de Deus com obediência pronta e sem reservas. Dá-se conta da desproporção entre o que vai ser — Mãe de Deus — e o que é — uma mulher —. Não obstante, Deus o quer e nada é impossível para Ele, e por isto ninguém é capaz de pôr dificuldades ao desígnio divino. Daí que, juntando-se em Maria a humildade e a obediência, pronun­ciará o sim ao chamamento de Deus com essa resposta perfeita: «Eis a escrava do Senhor, seja-me feito segundo a tua palavra».

«Ao encanto destas palavras virginais, o Verbo se fez carne» (Santo Rosário, primeiro mistério gozoso). Das purís­simas entranhas da Santíssima Virgem, Deus formou um corpo, criou do nada uma alma, e a este corpo e alma uniu-Se o Filho de Deus; desta sorte o que antes era apenas Deus, sem deixar de o ser, ficou feito homem. Maria já é Mãe de Deus. Esta verdade é um dogma da nossa santa fé definido no Concilio de Éfeso (ano 431). Nesse mesmo instante começa a ser também Mãe espiritual de todos os homens. O que um dia ouvirá de lábios de seu Filho moribundo, «eis aí o teu filho (…), eis aí a tua mãe» (Ioh 19,26-27), não será senão a proclamação do que silenciosamente tinha acontecido em Nazaré. Assim, «com o seu fiat generoso converteu-se, por obra do Espírito, em Mãe de Deus e também em verdadeira Mãe dos vivos, e converteu-se também, ao acolher no seu seio o único Mediador, em verdadeira Arca da Aliança e verdadeiro Templo de Deus» (Marialis cultus, n. 6).

O Evangelho faz-nos contemplar a Virgem Santíssima como exemplo perfeito de pureza («não conheço homem»); de humildade («eis a escrava do Senhor»); de candura e simplicidade («como será isso»); de obediência e de fé viva («seja-me feito segundo a tua palavra»). «Procuremos apren­der, seguindo também o seu exemplo de obediência a Deus, numa delicada combinação de submissão e de fidalguia. Em Maria, nada existe da atitude das virgens néscias, que obe­decem, sim, mas como insensatas. Nossa Senhora ouve com atenção o que Deus quer, pondera aquilo que não entende, pergunta o que não sabe. Imediatamente a seguir, entrega-se sem reservas ao cumprimento da vontade divina: eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a Vossa palavra (Lc I, 38). Vedes esta maravilha? Santa Maria, mestra de toda a nossa conduta, ensina-nos agora que a obediência a Deus não é servilismo, não subjuga a consciência, pois nos move interiormente a descobrir a liberdade dos filhos de Deus (cfr Rom VIII, 21)» (Cristo que passa, n° 173).

22.12.14 – Lc 1, 46-56

46Maria disse então: «A minha alma enaltece ao Senhor, 47e o meu espírito exulta em Deus, meu Salvador, 48porque olhou para a humilde condição da sua serva. De facto, desde agora, me hão-de chamar ditosa todas as gerações, 49porque me fez grandes coisas o Omnipotente. E santo o Seu Nome, 50e a Sua misericórdia vai de geração em geração para aqueles que O temem. 51Exerceu a força com o Seu braço, dispersou os que se elevavam no seu próprio conceito.

52Derrubou os poderosos de seus tronos, e exaltou os humildes. 53Encheu de bens os famintos, e aos ricos despediu-os sem nada. 54Tornou a Seu cuidado Israel, Seu servo, recordando a Sua misericórdia 55conforme tinha dito a nossos pais em favor de Abraão e sua descendência, para sempre».

56Ficou Maria com Isabel uns três meses, voltando depois para sua casa.

Comentário

46-55. O cântico Magnificat que Nossa Senhora pronuncia em casa de Zacarias é de uma singular beleza poética. Evoca alguns passos do Antigo Testamento que a Virgem Santíssima tinha meditado (recorda especialmente 1Sam 2,1-10).

Neste cântico podem distinguir-se três estrofes: na pri­meira (vv. 46-50) Maria glorifica a Deus por a ter feito Mãe do Salvador, faz ver o motivo pelo qual a chamarão bem-aven­turada todas as gerações e mostra como no mistério da Encarnação se manifestam o poder, a santidade e a miseri­córdia de Deus. Na segunda (vv. 51-53) a Virgem Santíssima ensina-nos como em todo o tempo o Senhor teve predilecção pelos humildes, resistindo aos soberbos e arrogantes. Na terceira (vv. 54-55) proclama que Deus, segundo a Sua promessa, teve sempre especial cuidado do povo escolhido, ao qual vai dar o maior título de .glória: a Encarnação de Jesus Cristo, judeu segundo a carne (cfr Rom 1,3).

«A nossa oração pode acompanhar e imitar essa oração de Maria. Tal como Ela, sentiremos o desejo de cantar, de proclamar as maravilhas de Deus, para que a Humanidade inteira e todos os seres participem da nossa felicidade». (Cristo que passa, n° 144).

46-47. «Os primeiros frutos do Espírito Santo são a paz e a alegria. E a Santíssima Virgem tinha reunido em si toda a graça do Espírito Santo…» (In Psalmos homiliae, in Ps 32). Os sentimentos da alma de Maria derramam-se no Magnificat. A alma humilde diante dos favores de Deus sente-se movida ao gozo e ao agradecimento. Na Santíssima Virgem o benefício divino ultrapassa toda a graça concedida a qual­quer criatura. «Virgem Mãe de Deus, o que não cabe nos Céus, feito homem, encerrou-Se no teu seio» (Antífona da Missa do Comum das. festas de Santa Maria). A Virgem humilde de Nazaré vai ser a Mãe de Deus; jamais a omnipotência do Criador se manifestou de um modo tão pleno. E o Coração de Nossa Senhora manifesta de modo desbordante a sua gratidão e a sua alegria.

48-49. Diante desta manifestação de humildade de Nossa Senhora, exclama São Beda: «Convinha, pois, que assim como tinha entrado a morte no mundo pela soberba dos nossos primeiros pais, se manifestasse a entrada da Vida pela humildade de Maria» (In Lucae Evangelium expositio, ad loc.).

«Que grande é o valor da humildade! — ‘Quia respexit humilitatem…’. Acima da fé, da caridade, da pureza ima­culada, reza o hino jubiloso da nossa Mãe em casa de Zacarias:

«’Porque viu a minha humildade, eis que por isto me chamarão bem-aventurada todas as gerações’» (Caminho, n° 598).

Deus premeia a humildade da Virgem Santíssima com o reconhecimento por parte de todos os homens da sua grandeza: «Me hão-de chamar ditosa todas as gerações». Isto cumpre-se sempre que alguém pronuncia as pala­vras da Ave Maria. Este clamor de louvor à Nossa Mãe é ininterrupto em toda a terra. O Concilio Vaticano II recorda estas palavras da Virgem Santíssima ao falar-nos do culto a Nossa Senhora: «Desde os tempos mais antigos a Santíssima Virgem é honrada com o título de ‘Mãe de Deus’, e sob a sua protecção se acolhem os fiéis, em todos os perigos e necessi­dades. Foi sobretudo a partir do Concilio de Éfeso que o culto do Povo de Deus para com Maria cresceu admiravelmente, na veneração e no amor, na invocação e na imitação, segundo as suas proféticas palavras: ‘Todas as gerações me proclamarão bem-aventurada, porque realizou em mim grandes coisas Aquele que é poderoso’» (Lumen gentium, n. 66).

50. «A sua misericórdia vai de geração em geração». Estas palavras, «já desde o momento da Encarnação, abrem nova perspectiva da história da salvação. Após a ressurreição de Cristo, esta nova perspectiva passa para ó plano histórico e, ao mesmo tempo, reveste-se de sentido escatológico novo. Desde então sucedem-se sempre novas gerações de homens na imensa família humana, em dimensões sempre crescen­tes; sucedem-se também novas gerações do Povo de Deus, assinaladas pelo sinal da Cruz e da Ressurreição e ‘seladas’ com o sinal do mistério pascal de Cristo, revelação absoluta daquela misericórdia que Maria proclamou à entrada da casa da sua parente: ‘A sua misericórdia estende-se de geração em geração’ (…).

«Maria, portanto, é aquela que conhece mais profunda­mente o mistério da misericórdia divina. Conhece o seu preço e sabe quanto é elevado. Neste sentido chamamos-lhe Mãe da misericórdia, Nossa Senhora da Misericórdia, ou Mãe da divina misericórdia. Em cada um destes títulos há um profundo significado teológico, porque exprimem a particular preparação da sua alma e de toda a sua pessoa, para torná-la capaz de descobrir, primeiro, através dos complexos acontecimentos de Israel e, depois, daqueles que dizem respeito a cada um dos homens e à humanidade inteira, a misericórdia da qual todos se tornam participantes, segundo o eterno desígnio da Santíssima Trindade, ‘de geração em geração’» (Dives in misericórdia, n. 9).

51. «Os que se elevavam no seu próprio conceito»: São os que querem aparecer como superiores aos outros, a quem desprezam. E também alude à condição daqueles que na sua arrogância projectam planos de ordenação da sociedade e do mundo de costas ou contra a Lei de Deus. Embora possa parecer que de momento têm êxito, no fim cumprem-se estas palavras do cântico da Virgem Santíssima, pois Deus disper­sá-los-á como já fez com os que tentaram edificar a torre de Babel, que pretendiam chegasse até ao Céu (cfr Gen 11,4).

«Quando o orgulho se apodera da alma, não é estranho que atrás dele, como pela arreata, venham todos os vícios: a avareza, as intemperanças, a inveja, a injustiça. O soberbo procura inutilmente arrancar Deus — que é misericordioso com todas as criaturas — do Seu trono para se colocar lá ele, que actua com entranhas de crueldade.

«Temos de pedir ao Senhor que não nos deixe cair nesta tentação. A soberba é o pior dos pecados e o mais ridículo. (…) A soberba é desagradável, mesmo humanamente, porque o que se considera superior a todos e a tudo está continua­mente a contemplar-se a si mesmo e a desprezar os outros, que lhe pagam na mesma moeda, rindo-se da sua fatuidade» (Amigos de Deus, n° 100).

53. Esta Providência divina manifestou-se muitíssimas vezes ao longo da História. Assim, Deus alimentou com o maná o povo de Israel na sua peregrinação pelo deserto durante quarenta anos (Ex 16,4-35); igualmente Elias por meio de um anjo (1Reg 19, 5-8); Daniel no fosso dos leões (Dan 14,31-40); a viúva de Sarepta com o azeite que miraculosamente não se esgotava (1Reg 17,8 ss.). Assim também culminou as ânsias de santidade da Virgem Santíssima com a Encarnação do Verbo.

Deus tinha alimentado com a Sua Lei e a pregação dos Seus Profetas o povo eleito, mas o resto da humanidade sentia a necessidade da palavra de Deus. Agora, com a Encarnação do Verbo, Deus satisfaz a indigência da humani­dade inteira. Serão os humildes que acolherão este oferecimento de Deus; os autossuficientes, ao não desejarem os bens divinos, ficarão privados deles (cfr In P salmos homiliae in Ps 33).

54. Deus conduziu o povo israelita como uma criança, como Seu filho a quem amava ternamente: «Yahwéh, teu Deus, conduziu-te por todo o caminho que tendes percorrido, como um homem conduz o seu filho…» (Dt 1,31). Isto fê-lo Deus muitas vezes, valendo-se de Moisés, de Josué, de Samuel, de David, etc., e agora conduz o Seu povo de maneira definitiva enviando o Messias. A origem última deste proceder divino é a grande misericórdia de Deus que Se compadeceu da miséria de Israel e de todo o gênero humano.

55. A misericórdia de Deus foi prometida desde tempos antigos aos Patriarcas. Assim, a Adão (Gen 3,15), a Abraão (Gen 22,18), a David (2 Sam 7,12), etc. A Encarnação de Cristo tinha sido preparada e decretada por Deus desde a eternidade para a salvação da humanidade inteira. Tal é o amor que Deus tem aos homens; o próprio Filho de Deus Encarnado o declarará: «De facto, Deus amou de tal maneira o mundo que lhe deu o Seu Filho Unigênito, para que todo o que n’Ele acredita não pereça, mas tenha a vida eterna» (Ioh3,16).

23.12.14 – Lc 1, 57-66

57Entretanto, chegou o tempo de Isabel Nascimento dar à luz e teve um filho. 58E souberam os vizinhos e parentes que o Senhor havia tido para com ela grande misericórdia e com ela se congratulavam. 59Ao oitavo dia, vieram circuncidar o menino e iam dar-lhe o nome do pai, Zacarias. 60Mas a mãe interveio, dizendo: Não, João é que há-de chamar-se. 61Disseram-lhe eles: Não há ninguém da tua família que tenha esse nome. 62E pergun­tavam ao pai por sinais como queria que se chamasse. 63Ele, pedindo uma placa, respondeu por escrito: João é que é o seu nome. E ficaram todos admirados. 64Imediatamente se lhe abriu a boca e se lhe soltou a língua e pôs-se a falar, bendizendo a Deus. 65Encheram-se de temor todos os que eram seus vizinhos e na Judeia, por toda a serra, se divulgaram todos aqueles factos. 66Quantos os ouviam conservavam-nos na memória e diziam: Quem virá então a ser este menino? E, de facto, a mão do Senhor estava com ele!

Comentário

59. No Antigo Testamento a circuncisão era um rito instituído por Deus para assinalar como com uma marca e contrassenha os que pertenciam ao povo eleito. Deus mandou a circuncisão a Abraão como sinal da Aliança que estabelecia com ele e com toda a sua descendência (cfr Gen 17, 10-14), e prescreveu que se realizasse no oitavo dia do nascimento. O rito realizava-se na casa paterna ou na sinagoga, e além da operação sobre o corpo do menino, incluía bênçãos e a imposição do nome.

Com a instituição do Baptismo cristão cessou o manda­mento da circuncisão. Os Apóstolos, no concilio de Jerusalém (cfr Act 15,1 ss.), declararam definitivamente abolida a necessidade do antigo rito para os que se incorporassem na Igreja.

E bem eloquente o ensinamento de São Paulo (Gal 5, 2 ss.; 6, 12 ss.; Col 2, 11 ss.) acerca da inutilidade da circuncisão depois da Nova Aliança estabelecida por Cristo.

60-63. Com a imposição do nome de João cumpriu-se o que tinha mandado Deus a Zacarias por meio do anjo e que nos relatou São Lucas pouco antes (1,13).

64. Neste facto miraculoso cumpriu-se exactamente o que tinha profetizado o anjo Gabriel a Zacarias quando lhe anunciou à concepção e o nascimento do Baptista (Lc 1, 19-20). Observa Santo Ambrósio: «Com razão se soltou em seguida a sua língua, porque a fé desatou o que tinha atado u incredulidade» (Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc.),

É um caso semelhante ao do apóstolo São Tome, que tinha resistido a crer na Ressurreição do Senhor, e acreditou depois das provas evidentes que lhe deu Jesus ressuscitado (cfr Ioh 20,24-29). Com estes dois homens Deus faz o milagre e vence a sua incredulidade; mas ordinariamente Deu» exige-nos fé e obediência sem realizar novos milagres. Por isso repreendeu e castigou Zacarias, e censurou o apóstolo Tome: «Porque Me viste acreditaste; bem-aventurados oi que sem ter visto acreditaram» (Ioh 20, 29). 67. Zacarias, que era um homem justo (cfr v. 6), no nascimento de seu filho João recebeu, além disso, a graça especial da profecia. Em virtude desta, pronuncia o cântico chamado Benedictus, tão cheio de fé, reverência e devoção que a Igreja estabeleceu que se recite diariamente na Liturgia das Horas.

Profetizar significa não só predizer coisas futuras, mas também louvar a Deus movido pelo Espírito Santo. Ambos os aspectos se encontram no cântico do Benedictus.

24.12.14 – Lc 1, 67-79

67Zacarias, seu pai, cheio do Santo profetizou, dizendo:

68«Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, porque visitou e trouxe a liberdade ao Seu povo,

69e nos suscitou um Salvador poderoso, na casa de Seu servo David, 70conforme tinha dito pela boca de Seus santos profetas de outrora; 71salvando-nos dos nossos inimigos e da mão de todos os que nos odeiam, 72para ter misericórdia com os nossos pais e lembrar-Se da Sua santa Aliança, 73juramento que fez a Abraão, nosso pai, de nos conceder 74que, libertos da mão dos inimigos, 75sem receio, O sirvamos em santidade e justiça, na Sua presença, em todos os nossos dias. 76E tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo: pois irás adiante do Senhor, a preparar os Seus caminhos,77para dar a conhecer ao Seu povo a salvação pela remissão dos seus pecados, 78graças aos misericordiosos sentimentos do nosso Deus, com que nos há-de visitar do alto como astro ao nascer, 79para iluminar os que se encontram nas trevas e na sombra da morte, a fim de orientar os nossos passos no caminho da paz»

Comentário

68-79. O Benedictus pode dividir-se em duas partes: na primeira (vv. 68-75) dá graças a Deus porque enviou o Messias Salvador, segundo tinha prometido aos Patriarcas e aos Profetas de Israel desde tempos antigos.

Na segunda parte (vv. 76-79) profetiza a missão de seu filho como arauto do Altíssimo e precursor do Messias, manifestando a misericórdia de Deus que se revela na vinda de Cristo.

72-75. Deus tinha prometido repetidas vezes aos Patriarcas do Antigo Testamento a sua especial protecção divina, a posse de uma terra para sempre e uma numerosa descendência em que seriam abençoados todos os povos. Essa promessa foi ratificada por meio da instituição do pacto ou aliança, costumada por aqueles séculos no próximo Oriente entre reis e vassalos: Deus, como senhor, protegerá os Patriarcas e os seus descendentes, e estes mostrarão o seu acatamento a Deus oferecendo-Lhe certos sacrifícios e servindo-O. Cfr entre outros passos: Gen 12, 1-3; 17, 1-8; 22, 16-18 (promessa, aliança e juramento de Deus a Abraão); Gen 35, 11-12 (reiteração dessas promessas a Jacob). Agora, Zacarias vê que essas promessas divinas vão ter completo cumprimento depois dos acontecimentos que se seguirão ao nascimento do seu filho João, o Precursor do Messias.

78-79. O «Sol nascente» é o Messias, Jesus Cristo, descido do céu para nos iluminar com a Sua luz, «sol de justiça, que trará nos seus raios a salvação» (Mal 4, 2). Já no Antigo Testamento se nos fala da Glória de Yahwéh, reflexo da Sua presença, como de algo relacionado intimamente com a luz. Assim, por exemplo, quando Moisés, volta ao acampamento depois de ter estado a falar com Deus, tem tal resplendor no seu rosto que os israelitas «tiveram medo de se aproximar dele» (Ex 34, 30). Neste sentido São João afirma que «Deus é luz e n’Ele não há treva alguma» (1Ioh 1, 5), de modo que no Céu não haverá nunca noite porque o Senhor iluminará a todos (cfr Apc 21, 23; 22, 5).

Deste resplendor divino participam os anjos (cfr Apc 1, 11) e os santos (cfr Sap 3, 7; Dan 2, 3); de modo particular a Santíssima Virgem, figura da Igreja, que se nos revela no Apocalipse «vestida de sol, com a lua debaixo dos pés, c sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas» (12, 1).

Esta luz divina chega a nós, enquanto vivemos neste mundo, através de Jesus Cristo que, por ser Deus, é a luz verdadeira, que ilumina todo o homem» (Ioh 1, 9). Efectivamente, o Senhor diz-nos: «Eu sou a luz do mundo; aquele que Me seguir não andará em trevas» (Ioh 8, 12).

Nós os cristãos participamos da luz divina, de tal modo que o Senhor possa dizer: «Vós sois a luz do mundo» (Mt 5, 14). Há que viver, pois, como filhos da luz (cfr Lc 16,8), cujo fruto consiste «em toda a bondade, justiça e verdade» (Eph 5,9). Assim a vida do cristão é um resplendor contínuo, que ajudará os homens a conhecer a Deus e a glorificá-Lo (cfr Mt 5,16).

25.12.14 – Jo 1, 1-18

No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus! 2Ele estava, no princípio, com Deus. 3Tudo, por meio d’Ele, começou a existir e, sem Ele, coisa alguma começou a existir. 4N’Ele, o que existe era Vida e a Vida era a Luz dos homens. 5A Luz brilha nas trevas e as trevas não A dominaram.

6Surgiu um homem enviado de Deus, cujo nome era João.

7Veio como testemunha, para dar testemunho da Luz, a fim de todos crerem por seu intermédio.

8Ele não era a Luz, mas devia dar testemunho da Luz.

9O Verbo era a Luz verdadeira, que a todo o homem ilumina, vindo ao mundo.

10Estava no mundo, e o mundo, por meio d’Ele, começou a existir, mas o mundo não O conheceu.

11Veio para o que era Seu, e os Seus não O acolheram.

12Mas a quantos O receberam deu-lhes poder de se tornarem filhos de Deus, a eles que creem no Seu nome, 13que nasceram, não do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas sim de Deus.

14E o Verbo fez-Se carne e habitou entre nós. E nós vimos a Sua glória, glória como de um Filho único que vem do Pai, cheio de graça e de verdade.

15João dá testemunho d’Ele e clama, nestes termos:

«Era d’Este que eu dizia: O que vem depois de mim

Passou à minha frente, porque era antes de mim».

16E da Sua plenitude todos nós recebemos, graça por graça.

17É que a Lei foi dada por meio de Moisés, a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo.

18A Deus ninguém jamais O viu. Um Deus, Filho único, que está no seio do Pai, é que O deu a conhecer.

Comentário

1-18. Estes versículos constituem o prólogo ou intro­dução ao quarto Evangelho; são um belo canto que, antes do relato da vida terrena de Jesus Cristo, engrandece e proclama a Sua divindade e eternidade. Jesus é o Verbo Incriado, o Deus Unigénito que assume a nossa condição humana e nos oferece a possibilidade de ser filhos de Deus, isto é, de participar real e sobrenaturalmente da própria vida divina.

O apóstolo João sublinha particularmente em todo o seu Evangelho a divindade do Senhor: não começou a existir ao fazer-Se homem, mas antes de tomar carne nas entranhas virginais de Maria, antes de todas as criaturas, existia na eternidade divina como Verbo consubstancial ao Pai e ao Espírito Santo. Esta é a verdade luminosa, graças à qual se podem apreciar as palavras e os factos de Jesus recolhidos ao longo do quarto Evangelho.

São João chega a contemplar a divindade de Jesus Cristo e a exprimi-la como o Verbo de Deus, depois de ter sido testemunha do Seu ministério público e das Suas aparições depois da Ressurreição. Ao pôr este poema como prólogo do Evangelho, o Apóstolo oferece-nos a chave para compreen­der com profundidade tudo quanto vai escrever a seguir; tem uma função semelhante aos dois primeiros capítulos dos Evangelhos de São Mateus e São Lucas, que nos introduzem na contemplação da vida de Jesus, narrando o nascimento virginal e alguns episódios relevantes da Sua infância, embora se pareça mais, pela sua estrutura e conteúdo, com os passos introdutórios de outros livros do NT como Col 1, 15-20, Eph 1, 3-14 e 1Ioh 1, 1-4.

É evidente que o prólogo constitui um grandioso hino a Cristo. Não sabemos se São João o compôs quando escreveu o Evangelho, ou se se serviu de algum hino litúrgico existente, que adaptaria para que servisse de introdução ao seu livro. O certo é que na documentação cristã só aparece como prólogo do quarto Evangelho.

O prólogo de São João recorda-nos o primeiro capítulo do Gênesis por vários motivos: 1) a coincidência nas primeiras palavras, No princípio…, que no Evangelho se referem ao princípio absoluto, isto é, à eternidade, enquanto no Gênesis se referem ao princípio concreto da Criação e do tempo. 2) O paralelismo na função que desempenha o Verbo: no Gênesis Deus vai criando todos os seres mediante a Sua palavra; no Evangelho diz-se que tudo foi feito pelo Verbo (Palavra) de Deus. 3) No Gênesis a obra criadora de Deus culmina com a criação do homem à imagem e semelhança de Deus; no Evangelho, a obra do Verbo Encarnado culmina na elevação do homem — como uma nova criação — à dignidade de filho de Deus.

Como ensinamentos principais que aparecem no prólogo podem apreciar-se: 1) a divindade e eternidade do Verbo; 2) a Encarnação do Verbo e a Sua manifestação como homem; 3) a intervenção do Verbo na Criação e na obra salvífica da humanidade; 4) o comportamento diverso dos homens diante da vinda do Salvador: uns aceitam-No com fé e outros rejeitam-No; 5) por último, João Baptista é a teste­munha da presença do Verbo no mundo.

A Igreja deu sempre especial importância a este prólogo. Foram muitos os Santos Padres e escritores da antiguidade cristã que o comentaram amplamente, e durante séculos leu-se no fim da Santa Missa, como instrução e meditação permanentes,

Este prólogo tem forma de poema. A doutrina vai-se expondo em versos, agrupados em estrofes (vv. 1-5; 6-8; 9-13; 14-18). Como uma pedra lançada a um tanque produz umas ondas que se vão ampliando, assim a ideia expressada ao princípio de cada estrofe costuma ir-se ampliando nos ,versos sucessivos sem perder o ponto de partida. É um modo de explicar as coisas muito típico dos antigos povos, que favorece a compreensão progressiva dos conceitos, e que Deus quis utilizar para nos facilitar a penetração nestes mistérios centrais da nossa fé.

1. O texto sagrado chama Verbo ao Filho de Deus. Uma analogia ou comparação com as coisas humanas pode ajudar-nos a compreender a noção de «Verbo» ou «Palavra»: ,assim como um homem ao conhecer-se forma na sua mente uma imagem de si mesmo, assim Deus Pai ao conhecer-Se gera o Verbo Eterno. Este Verbo de Deus é um e único, não pode existir outro porque n’Ele se exprime toda a essência de Deus. Por isso o Evangelho não Lhe chama simplesmente «Verbo», mas «o Verbo». Do Verbo afirmam-se três verda­des: que é eterno, que é diferente do Pai, e que é Deus. «Afirmar que existia no princípio equivale a dizer que existia antes de todas as coisas» (De Trinitate, 6,2). Por outro lado, ao assinalar que estava junto de Deus, isto é, junto do Pai, ensina-nos que a pessoa do Verbo é diferente da do Pai, e indica, ao mesmo tempo, a Sua relação de intimidade com Ele, tão grande que tem a mesma natureza divina: é consubstancial ao Pai (cfr Símbolo Niceno).

O Papa Paulo VI, por ocasião do Ano da Fé (1967-1968), resumiu a verdade acerca da Santíssima Trindade no cha­mado Credo do Povo de Deus (n° 11) com estas palavras: «Cremos em Nosso Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus. Ele é o Verbo Eterno, nascido do Pai antes de todos os séculos e consubstancial ao Pai, isto é, homoousios to Patrí; por Quem foram feitas todas as coisas. E encarnou por obra do Espírito Santo, de Maria Virgem, e Se fez homem: portanto, igual ao Pai segundo a divindade, menor que o Pai segundo a huma­nidade, completamente um não por confusão da substância (que não pode fazer-se), mas pela unidade da pessoa».

«No princípio»: «Não significa senão que foi sempre e é eterno (…). Porque se é Deus, como de verdade o é, não há nada antes d’Ele; se é Criador de todas as coisas, então Ele mesmo é o primeiro; se é Dominador e Senhor de tudo, tudo é posterior a Ele: as criaturas e os séculos» (Hom. sobre S. João, 2,4).

3. O prólogo, depois de mostrar que o Verbo está no seio do Pai, passa a tratar da Sua relação com as criaturas. Já no Antigo Testamento a Palavra de Deus aparece como força criadora (cfr Is 55,10-11), como Sabedoria que estava pre­sente na criação do mundo (cfr Prv 8,22-26). Aqui dá-se um progresso na Revelação divina: é-nos manifestado que a Criação foi realizada pelo Verbo; isto não quer dizer que o Verbo seja um instrumento subordinado e inferior ao Pai, mas que é princípio activo juntamente com o Pai e o Espírito Santo. A acção criadora é comum às três Pessoas divinas da Santíssima Trindade: «O Pai que gera, o Filho que nasce, e o Espírito Santo que procede são consubstanciais, co-iguais e co-eternos: são um só princípio de todas as coisas; Criador de todas as coisas, das visíveis e das invisíveis, das espirituais e das corporais» (IV Concilio de Latrão, De fide catholica, Dz-Sch, n. 800). Disso se deduzem, entre outras coisas, os vestígios da Trindade na criação e, portanto, a bondade radical das coisas criadas.

4. A seguir expõem-se as verdades fundamentais sobre o Verbo: que é a Vida e que é a Luz. Aqui trata-se da vida divina, fonte primeira de toda a vida, da natural e da sobre­natural. E essa Vida é luz dos homens, porque recebemos de Deus a luz da razão, a luz da fé e a luz da glória, que são participação da Inteligência divina. Só a criatura racional é capaz de conhecer Deus neste mundo, e de O contemplar depois gozosamente no Céu por toda a eternidade. Também a Vida (o Verbo) é luz dos homens enquanto os ilumina tiran­do-os das trevas, isto é, do mal e do erro (cfr Is 8, 23; 9, 1.2; Mt 4, 15-16; Lc 1, 74). Jesus dirá mais adiante: «Eu sou a luz do mundo; aquele que Me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida» (Ioh 8, 12; cfr 12, 46).

Os versículos 3 e 4 podem ler-se com outra pontuação, hoje geralmente abandonada, ainda que na antiguidade tenha tido bastantes defensores. Segundo essa pontuação poderia traduzir-se assim:

«3Tudo foi feito por Ele e sem Ele não se fez nada;

4tudo o que foi feito n’Ele, era vida, e a vida era luz dos homens».

Esta leitura indicaria que tudo o que foi criado é vida no Verbo, isto é, que todos os seres recebem o ser e o operar, o viver, pelo Verbo, não sendo possível sem Ele a existência.

5. «Dominaram»: O verbo original grego, que o texto latino traduz por comprehenderunt, significa abraçar ou abarcar uma coisa como que rodeando-a com os braços; mas este acto pode fazer-se com intenção de bom acolhimento (abraço amigável), ou de hostilidade (acção de sufocar ou asfixiar outro apertando-o). Há, pois, lugar para duas pos­síveis traduções do versículo: a de ‘receberam’, ou a que expressaria que as trevas não puderam apagar ou sufocar a luz, que a tradução portuguesa por nós adoptada exprime com a palavra ‘dominaram’. Com esta última interpretação indicar-se-ia que Cristo e o Seu Evangelho continuam a brilhar entre os homens apesar da oposição do mundo, ven­cendo-o, segundo as palavras de Jesus: «Confiai: Eu venci o mundo» (Ioh 16, 33; cfr 12, 31; 1Ioh 5, 4). Em qualquer caso, o versículo exprime a resistência, a luta das trevas contra a luz. Que coisa sejam a luz e as trevas São João i-lo-á indicando ao longo do Evangelho; para já, nos versículos 9 a 11 refere-se à luta entre ambas; e posteriormente por trevas designará o mal e as potências do maligno, que obscurecem a mente do homem e obstaculizam o conheci­mento de Deus (cfr Ioh 12, 15-46; 1Ioh 5, 6).

Santo Agostinho (In Ioann. Evang. 1,19) comenta assim este passo: «Pode ser que haja uns corações insensatos, ainda incapazes de receber essa Luz, porque o peso dos seus pecados os impede de vê-la; que não pensem, porém, que a Luz não existe por não a poderem ver: é que eles mesmos, pelos seus pecados, tornaram-se trevas. Meus irmãos, é como se um cego estivesse diante do sol. O sol está presente, mas o cego está ausente do sol. Assim todo o homem néscio, todo o homem iníquo, todo o homem sem religião, tem um coração cego. Que pode fazer? Que se limpe, e verá Deus; verá a Sabedoria presente, porque Deus é a própria Sabe­doria, e está escrito: ‘Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus’». Não há dúvida que o pecado entenebrece o olhar espiritual do homem, incapacitando-o para ver e apreciar as coisas de Deus.

6-8. Depois de considerar a divindade do Verbo, passa-se a tratar da Encarnação, e começa-se por falar de João Baptista, que aparece num momento histórico concreto como a testemunha directa de Jesus Cristo diante dos homens (Ioh 1,15.19-36; 3,22 ss.). Assim dirá Santo Agosti­nho: «Porque (o Verbo Encarnado) era homem e ocultava a Sua divindade, precedeu-O um grande homem com a missão de dar testemunho a favor daquele que era mais que homem» (In Ioann. Evang., 2,5).

Todo o Antigo Testamento é uma preparação para a vinda de Cristo. Assim os Patriarcas e os Profetas anunciaram de diversas maneiras a salvação que viria pelo Messias. Mas João Baptista, o maior dos nascidos de mulher (cfr Mt 11, 11), pôde indicar com o dedo q próprio Messias (cfr Ioh 1, 29), sendo o testemunho do Baptista a culminação de todas as profecias anteriores.

A missão de João Baptista como testemunha de Jesus Cristo é tão importante que os Evangelhos Sinópticos começam a narração do ministério público de Jesus por esse testemunho. Os discursos de São Pedro e de São Paulo, recolhidos nos Actos dos Apóstolos, também aludem ao testemunho de João (Act 1, 22; 10, 37; 12, 24). O quarto Evan­gelho menciona-o sete vezes (1, 6.15.19.29.35; 3, 27; 5, 33). Sabemos, além disso, “que o apóstolo São João tinha sido discípulo do Baptista antes de o ser do Senhor, e que precisamente o Baptista foi quem o encaminhou para Cristo” (cfr 1,37ss.).

O Novo Testamento, pois, ensina-nos a transcendência da missão do Baptista, ao mesmo tempo que a clara consciência de este não ser senão o Precursor imediato do Messias, ao qual não é digno de desatar as correias das Suas sandálias (cfr Mc 1, 7); por isso o Baptista insiste no seu papel de testemunha de Cristo e na sua missão de preparar o caminho ao Messias (cfr Lc 1, 15-17; Mt 3, 3-12). O testemunho de João Baptista permanece através dos tempos, convi­dando todos os homens a abraçar a fé em Jesus, a Luz verdadeira.

9. «Era a luz verdadeira»: Os Santos Padres, as versões antigas e a maioria dos comentadores actuais entendem que o sujeito de «era» é «o Verbo». Neste caso, a frase poderia traduzir-se: «o Verbo era a luz verdadeira». Outra interpre­tação, pela qual se inclinam bastantes autores modernos, põe como sujeito de «era» a Luz. Deste modo, a tradução seria: «Existia a Luz verdadeira». Em última análise, o con­teúdo é quase o mesmo.

«Vindo ao mundo»: Segundo o texto grego não está claro a que se referem estas palavras. Podem aplicar-se quer à «luz», quer a «todo o homem». No primeiro caso, é a Luz (o Verbo) que vindo a este mundo ilumina todos os homens. No segundo caso, são os homens que ao virem a este mundo, ao nascerem, são iluminados pelo Verbo. O texto latino da Neo-vulgata optou pela primeira interpretação.

Chama-se ao Verbo «a luz verdadeira» porque é a luz originária da qual procede toda a outra luz ou revelação de Deus. Ao vir o Verbo ao mundo, este fica plenamente iluminado pela autêntica Luz. Os profetas e todos os outros enviados de Deus, incluído João Baptista, não eram a verda­deira luz, mas o reflexo, as testemunhas da Luz do Verbo. Perante a plenitude desta luz que é o Verbo, interroga-se São João Crisóstomo: «Como é que tantos homens permanecem envoltos em trevas? Porque nem todos os homens creem em Jesus Cristo nem Lhe rendem o culto augusto que Lhe é devido. Como, pois, pode dizer-se que ilumina todo o homem? Sim. Ele ilumina todos segundo a disposição e a vontade de cada um. Na medida em que depende do Verbo, ilumina todos. Mas se livremente os homens fecham os olhos da sua alma a esta luz, se rejeitam os seus raios, então o facto de permanecerem em trevas não se deve à natureza da luz, mas à maldade de coração de quem se priva deste dom da graça» (Hom. sobre S. João, 8,1).

10. O Verbo está no mundo como o artífice que governa o que fez (cfr In loann. Evang., 2,10). O termo «mundo» no Evangelho de São João indica, além de tudo o que foi criado, o conjunto dos homens; assim Cristo veio para salvar a humanidade inteira; «Deus amou de tal maneira o mundo que lhe entregou o Seu Filho Unigénito, para que todo o que crê n’Ele não pereça mas tenha a vida eterna. Pois Deus não enviou Seu Filho ao mundo para julgar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele» (Ioh 3, 16-17). Mas enquanto uma grande parte dos homens rejeitaram a Luz, isto é. Cristo, « mundo» significa também tudo aquilo que se opõe a Deus (cfr Ioh 17, 14-15). Os homens que, obcecados pelas suas culpas, não reconhecem no mundo a obra do Criador (cfr Rom 1, 18-20; Sap 13, 1-15), ficam apegados só ao mundo e gostam exclusivamente das coisas que são do mundo» (Hom. sobre S. João, 7). Mas o Verbo, «luz verdadeira», veio para nos revelar a verdade acerca do mundo (cfr Ioh 1, 3; 18, 37) e para nos salvar.

11. Pelos « Seus » entende-se, em primeiro lugar, o povo judaico, que tinha sido escolhido por Deus como povo da Sua propriedade (Dt 7, 6-7) para que nele nascesse Cristo. Também pode entender-se toda a humanidade, pois perten­ce-Lhe por ter sido criada por Ele e Ele ter estendido a ela a Sua obra redentora. Daí que a censura por não receber o Verbo feito homem há-de entender-se não só dirigida aos judeus mas também a todos os que, chamados por Deus à Sua amizade, O rejeitam. «Cristo veio; mas por uma misteriosa e terrível infelicidade nem todos O conheceram, nem todos O aceitaram (…). É o quadro da humanidade tal como, depois de vinte séculos de cristianismo, se abre diante de nós. Como é possível? Que quer dizer? Não pretenderemos verificar uma realidade imersa em mistérios que nos transcendem: o mistério do bem e do mal. Mas podemos recordar que a economia de Cristo, para que a sua luz se difunda, deve desdobrar-se numa subalterna, mas necessária, cooperação humana: a da evangelização, a da Igreja apostólica e missio­nária, que se registra resultados incompletos, é mais uma razão para ser ajudada e integrada por todos» (Audiência geral Paulo VI, 4-XII-1974).

12. Receber o Verbo é aceitá-Lo pela fé, porque pela fé Cristo habita em nossos corações (cfr Eph 3, 17). Crer no Seu Nome significa crer na Sua Pessoa, em Jesus como o Cristo, o Filho de Deus. Isto é, «os que creem no Seu nome são aqueles que guardam íntegro o nome de Cresto, de tal maneira que não diminuem nada da Sua divindade ou da Sua humani­dade» (Comentário sobre S. João, ad loc.).

«Deu-lhes poder» equivale a «concedeu-lhes» através de um dom: a graça santificante; «porque não está no nosso poder tornar-nos filhos de Deus» (ibid.). Este dom estende-se pelo Baptismo a todos os homens sem limite de raça, idade, cultura, etc. (cfr. Act 10, 45; Gal 3, 28). A única condição exigida é a fé.

«O Filho de Deus fez-Se homem — explica Santo Atanásio — para que os filhos do homem, os filhos de Adão, se tornassem filhos de Deus (…). Ele é Filho de Deus por natureza; nós, por graça» (De Incarnatione contra arríanos, 8). Trata-se do nascimento para a vida sobrenatural, na qual «todos gozamos da mesma dignidade: escravos e livres, gregos, bárbaros e asiáticos, sábios e incultos, homens e mulheres, crianças e velhos, ricos e pobres… Tão grande é a força da fé em Cristo, tão poderosa a graça!» (Hom. sobre S. João, 10,2).

«A união de Cristo com o homem é a força e a nascente da força, segundo a incisiva expressão de São João no prólogo do seu Evangelho: ‘O Verbo deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus’. É esta força que transforma interiormente o homem, qual princípio de uma vida nova que não fenece nem passa, mas dura para a vida eterna (cfr Ioh 4, 14)» (Redemptor hominis, n. 18).

13. O nascimento de que se fala aqui é uma verdadeira geração espiritual que se realiza no Baptismo (cfr Ioh 3,6 ss.). Em vez do texto no plural adoptado, que se refere ao nascimento sobrenatural dos homens, alguns Santos Padres e versões antigas apresentam a leitura no singular: «o que não nasceu do sangue…, mas nasceu de Deus». Neste caso, o texto referir-se-ia à geração eterna do Verbo e ao nascimento virginal de Jesus, por obra do Espírito Santo, das entranhas puríssimas de Maria, isto é, falaria da virgindade de Maria no parto. Ainda que a segunda leitura seja muito sugestiva, contudo a documentação (manuscritos gregos, versões an­tigas, referências dos escritores eclesiásticos, etc.) mostra que o texto no plural foi o mais comum, impondo-se desde o século IV. Além disso, nos escritos de São João diz-se com frequência que os crentes nasceram de Deus (cfr Ioh 3, 3-6; 1Ioh 2, 29; 3, 9; 4, 7; 5, 1.4.18).

O contraste entre o nascimento natural dos homens (que é pelo sangue e pelo querer humano) e o sobrenatural (que vem de Deus) faz ver que os que creem em Jesus Cristo são constituídos filhos de Deus não só enquanto criaturas, mas sobretudo pelo dom gratuito da fé e da graça.

14. Este é um texto central acerca do mistério de Cristo. Nele se exprime de maneira concentrada a realidade insondável da Encarnação do Filho de Deus. «Ao chegar a pleni­tude dos tempos, enviou Deus o Seu Filho, nascido de mulher» (Gal 4, 4).

A palavra «carne» designa o homem na sua totalidade (cfr Ioh 3, 6; 17, 2; Gen 6, 3; Ps 56, 5); de modo que a frase «e o Verbo fez-Se carne» é igual a «e o Verbo fez-Se homem». Precisamente o termo teológico «Encarnação» surgiu sobre­tudo a partir deste texto. O substantivo carne tem uma poderosa força expressiva perante aquelas heresias que negam a verdadeira natureza humana de Cristo. Por outro lado, «carne» acentua a condição passível e mortal do Salvador, que habitou entre nós tomando a nossa natureza, e evoca o chamado «Canto da consolação» (Is 40, 1-11), onde se contrapõe a caducidade da carne à perenidade do Verbo de Deus: «Toda a carne é erva / e todo o seu esplendor como flor do campo /… a erva seca, a flor murcha, / mas a palavra do nosso Deus / permanece eternamente» (Is 40,7-8). Isto não significa que a assunção da Humanidade pelo Verbo seja precária e provisória.

«E habitou entre nós»: O verbo grego que emprega São João correspondente a «habitou» significa etimologicamente «fixar a tenda de campanha» e, daí, habitar num lugar. O leitor atento da Escritura recorda espontaneamente o tabernáculo dos tempos da saída do Egipto, em que Yahwéh mostrava a Sua presença no meio do povo de Israel mediante certos sinais da Sua glória, como a nuvem pousada sobre a tenda (cfr, p. ex., Ex 25, 8; 40, 34-35). Em muitíssimos passos do Antigo Testamento anuncia-se que Deus «habitará no meio do povo» (cfr, p. ex., ler 7, 3; Ez 43, 9; Eccli 24, 8). Aos sinais da presença de Deus, primeiro na Tenda do Santuário peregrinante no deserto e depois no Templo de Jerusalém, segue-se a prodigiosa presença de Deus entre nós: Jesus, perfeito Deus e perfeito homem, em Quem se cumpre a antiga promessa mais além do que os homens podiam esperar. Também a promessa feita por meio de Isaías acerca do «Emanuel» ou «Deus-connosco» (Is 7, 14; cfr Mt 1, 23) se cumpre plenamente neste habitar do Filho de Deus Encar­nado entre os homens. Por isso, ao ler com religiosa admi­ração as palavras do Evangelho «e habitou entre nós », ou, ao rezar o Angelus, é boa ocasião para fazer um acto de fé profundo e agradecido, e de adorar a Humanidade Santís­sima do Senhor.

«Ao recordar que ‘o Verbo Se fez carne’, isto é, que o Filho de Deus Se fez homem, devemos tomar consciência do grande que se torna todo o homem através deste mistério; isto é, através da Encarnação do Filho de Deus! Cristo, efectivamente, foi concebido no seio de Maria e fez-Se homem para revelar o amor eterno do Criador e Pai, assim como para manifestar a dignidade de cada um de nós» (João Paulo II, Alocução na recitação do Angelus, Santuário de Jasna Gora, 5-VI-1979).

Ainda que o aniquilamento do Verbo ao tomar a natureza humana ocultasse em certo modo a Sua natureza divina, de que nunca Se despojou, todavia os Apóstolos viram a glória da Sua divindade através da Sua Santíssima Humanidade, pois manifestou-se na Transfiguração (Lc 9, 32-35), nos mila­gres (Ioh 2, 11; 11, 40) e especialmente na Ressurreição (cfr Ioh 3, 11; 1Ioh 1, 1). A glória de Deus, que resplandecia no antigo Santuário do deserto ou no Templo de Jerusalém, não eram senão uma antecipação imperfeita da realidade da glória divina manifestada através da Santíssima Humani­dade do Unigénito do Pai. O apóstolo São João fala com sole­nidade na primeira pessoa do plural: «vimos a Sua glória», pois conta-se entre as testemunhas que presenciaram a vida de Cristo e, em particular, a Sua Transfiguração e a glória da Sua Ressurreição.

A palavra «Unigénito» exprime adequadamente a geração eterna e única do Verbo pelo Pai. Os três primeiros Evange­lhos tinham sublinhado o nascimento temporal de Cristo; pelo contrário, São João completa a visão pondo em relevo a geração eterna.

Os termos «graça e verdade» são sinônimos de «bondade e fidelidade», dois atributos que no Antigo Testamento se aplicam constantemente a Yahwéh (cfr, p. ex., Ex 34, 6; Ps 117; Ps 136; Os 2, 16-22). Assim, a graça é a manifestação do amor de Deus pelos homens, da Sua bondade, da Sua mise­ricórdia, da Sua piedade. A verdade implica a permanência, a lealdade, a constância, a fidelidade. Jesus, que é o Verbo de Deus feito homem, isto é, o próprio Deus, é por isso «o Unigénito do Pai cheio de graça e de verdade»; é «o pontífice misericordioso e fiel» (Heb 2, 17). Estas duas qualidades, o ser bom e fiel, são como o compêndio e a síntese da grandeza de Cristo. E são também, de forma correlativa, ainda que em grau infinitamente menor, as qualidades primordiais de todo o cristão, como expressamente o disse o Senhor quando louvou o «servo bom e fiel» (Mt 25, 21).

Como explica o Crisóstomo: «O evangelista, depois de ter dito que aqueles que O receberam nasceram de Deus e são filhos de Deus, indica a causa dessa honra inefável: que o Verbo Se fez carne, e o Senhor tomou a forma de servo. Porque sendo verdadeiro Filho de Deus, fez-Se Filho do Homem, para tornar os homens filhos de Deus» (Hom. sobre S. João, 2,1).

O profundo mistério de Cristo foi expressado pelo Magis­tério da Igreja mediante uma definição solene, no ano 451, no célebre texto do Concilio Ecumênico de Calcedónia: «Se­guindo, pois, os Santos Padres, todos a uma só voz ensinamos que se deve confessar um só e o próprio Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, perfeito na divindade e perfeito na humanidade, Deus verdadeiramente, e verdadeiramente homem, de alma racional e corpo, consubstancial com o Pai quanto à divin­dade, e consubstancial connosco quanto à humanidade — semelhante em tudo a nós, menos no pecado (Heb 4, 15) —; gerado do Pai antes dos séculos quanto à divindade, e nos últimos dias, por nós e pela nossa salvação, gerado de Maria Virgem, Mãe de Deus, quanto à humanidade» (Dz-Sch, n. 301).

15. Mais adiante (Ioh 1, 19-36) dá-se a conhecer no Evangelho a missão de João Baptista como testemunha do messianismo e da divindade de Jesus, que aqui se resume de modo muito concentrado. Segundo os planos de Deus, assim como os Apóstolos darão teste munho de Jesus depois da Ressurreição, o Baptista será a testemunha escolhida para anunciar Cristo no momento de iniciar o ministério público (cfr a nota a Ioh 1, 6-8).

16. «Graça por graça»: Pode entender-se, com São João Crisóstomo e outros Santos Padres, como a substituição da economia salvífica do Antigo Testamento, pela nova economia da graça trazida por Cristo. Também pode indicar uma superabundância de dons outorgados por Jesus: a umas graças acrescentam-se outras, e todas brotam da fonte inesgotável que é Cristo, cuja plenitude de graça nunca acaba. «Ele não tem o dom recebido por participação, mas é a própria fonte, a própria raiz de todos os bens: a própria Vida, a própria Luz, a própria Verdade. E não retém em Si mesmo as riquezas dos Seus bens, mas entrega-os a todos os outros; e tendo-os dispensado permanece cheio; não diminui em nada por tê-los distribuído a outros, mas enchendo e fazendo participar a todos destes bens, permanece na mesma perfeição» (Hom. sobre S. João, 14,1).

17. Aparece aqui, pela primeira vez no Evangelho de São João, o nome de Jesus Cristo, identificado com o Verbo de que nos tem vindo a falar.

Enquanto a Lei dada por Moisés se limitava a indicar o caminho que o homem devia seguir (cfr Rom 8, 7-10), a Graça trazida por Jesus Cristo tem o poder de salvar aqueles que a recebem (cfr Rom 7, 25). «O pecado não terá domínio sobre vós, pois não estais sob a Lei mas sob a graça» (Rom 6, 14). Pela «graça tornámo-nos agradáveis a Deus não já somente como servos, mas também como filhos e amigos» (Hom. sobre S. João, 14, 2).

Sobre «a graça e a verdade» pode ver-se a nota a 1,14.

18. «A Deus ninguém jamais O viu»: Todas as visões que os homens tiveram de Deus neste mundo foram indirectas, já que apenas contemplaram a glória divina, isto é, o resplendor da Sua grandeza: por exemplo, Moisés viu a sarça ardente (Ex 3, 6); Elias sentiu a brisa no monte Horeb (l Reg 19, 11-13); Isaías contemplou o esplendor da Sua majestade (Is 6, 1-3). Mas, ao chegar a plenitude dos tempos, essa manifestação de Deus torna-se mais próxima e quase directa, já que Jesus Cristo é a imagem visível do Deus invisível (cfr Col 1, 15); é a revelação máxima de Deus neste Mim viu o Pai» (Ioh 14, 9). «Porém, a verdade profunda tanto a respeito de Deus como a respeito da salvação dos homens, manifesta-se-nos, por esta revelação, em Cristo, que é, simultaneamente, o mediador e a plenitude de toda a reve­lação» (Dei Verbum, n. 2).

Nenhuma Revelação mais perfeita pode fazer Deus de Si mesmo que a Encarnação do Seu Verbo Eterno. Por isso escreve admiravelmente São João da Cruz: «Em dar-nos, como nos deu, Seu Filho, que é a Sua única Palavra, que não tem outra, tudo nos disse juntamente e de uma vez nesta única Palavra, e não tem mais que falar» (Subida ao Monte Carmelo, liv. 2, cap. 22).

«Um Deus, Filho único»: Alguns manuscritos gregos e versões trazem a leitura «o Filho Unigénito», ou também «o Unigénito». A primeira leitura é preferível por estar melhor apoiada nos códices. Além disso, ainda que o sentido não mude substancialmente, o texto adoptado tem um conteúdo mais rico, pois manifesta de novo explicitamente a divin­dade de Cristo.

26.12.14 – Mt 10, 17-22

17Acautelai-vos, porém, dos ho­mens, pois hão-de entregar-vos aos Sinédrios e açoitar-vos nas sinagogas. 18E sereis, por Minha causa, levados à presença dos governadores e à dos reis, para dardes teste­munho diante deles e dos gentios. 19Mas, quando vos entregarem, não vos dê cuidado como ou o que haveis de dizer, pois ser-vos-á dado nessa hora o que haveis de dizer, 20porque não sois vós que falais, mas o Espírito de vosso Pai, que fala em vós. 210 irmão há-de entregar à morte o irmão, e o pai, ao filho. E levantar-se-ão os filhos contra os pais e far-lhe-ão dar a morte. 22E sereis odiados de todos, por causa do Meu nome; mas aquele que perseverar até ao fim, esse será salvo.

Comentário

16-23. Jesus Cristo dá aqui uma série de instruções e advertências, que terão aplicação constante ao longo de toda a história da Igreja. Dificilmente o espírito do mundo compreenderá os caminhos de Deus. Quando não forem as perseguições, será a indiferença e a incompreensão do ambiente. Mas seguir a Cristo de perto será sempre custoso: não se pode estranhar que seja assim, visto que o próprio Jesus foi sinal de contradição; mais ainda, se na vida do cristão não aparecesse esta, haveria que perguntar-se se não está a acontecer que o cristão se mundanizou. O discípulo de Cristo não pode transigir com certas manifestações mun­danas, por muito em moda que estejam. Por isso, a vida cristã levará consigo, necessariamente, uma inconformidade diante de tudo o que atente contra a fé e a moral (cfr Rom 12, 2). Não Se pode estranhar que a vida do cristão se mova, não poucas vezes, entre o heroísmo ou a traição. Perante estas dificul­dades não se deve ter medo: não estamos sós, contamos com a ajuda poderosa do nosso Pai Deus, que nos fará ser valentes e audazes.

20. Com estas palavras Jesus ensina o caracter comple­tamente sobrenatural do testemunho que pede aos Seus discípulos. O comportamento de tantos mártires cristãos, conservado documentalmente, prova como se cumpre na vida dos fiéis a promessa de Jesus; é impressionante ao ler esses documentos comprovar a serenidade e a sabedoria de pessoas de escassa cultura, por vezes quase crianças.

A doutrina deste versículo fundamenta a fortaleza e confiança que o cristão deve ter nas situações mais variadas e difíceis da vida, nas quais seja necessário confessar a fé. Não estará só, mas o Espírito Santo porá nele palavras cheias de sabedoria divina.

27.12.14 – Jo 20, 2-8

2Corre então e vai ter com Simão Pedro e com o outro discípulo aquele que Jesus amava. Tiraram o Senhor do Túmulo, lhes diz ela, e não sabemos onde O puseram. 3Pedro saiu com o outro discípulo e vieram ambos ao túmulo.

4Corriam os dois juntamente, mas o outro discípulo antecipou-se, correndo mais depressa do que Pedro, e chegou primeiro ao túmulo. 5Debruçando-se, viu as ligaduras no chão, mas não entrou. 6Entretanto, chega também Simão Pedro, que o vinha seguindo, e entrando no túmulo, põe-se a observar as ligaduras que estavam no chão, 7e o lençol que estivera sobre a cabeça de Jesus, não colocado no chão com as liga­duras, mas à parte, enrolado para outro sítio. 8Nessa altura, entrou também o outro discípulo, que chegara primeiro ao túmulo: então viu e acreditou.

Comentário

1-2. Os quatro Evangelhos narram os primeiros tes­temunhos das santas mulheres e dos discípulos acerca da Ressurreição gloriosa de Cristo. Tais testemunhos refe­rem-se, num primeiro momento, à realidade do sepulcro vazio (cfr Mt 28, 1-15; Mc 16, 1 ss.; Lc 24, 1-12). Depois rela­tarão diversas aparições de Jesus Ressuscitado.

Maria Madalena é uma das que assistiam o Senhor nas Suas viagens (Lc 8, 1-3); junto com a Virgem Maria seguiu-O corajosamente até à Cruz (Ioh 19, 25), e viu onde tinham depositado o Seu Corpo (Lc 23, 55). Agora, uma vez passado o repouso obrigatório do Sábado, vai visitar o túmulo. No­temos o pormenor evangélico: «De manhãzinha, ainda es­curo»: o amor e a veneração fazem-na ir sem demora junto ao Corpo do Senhor.

4. O quarto Evangelho põe em realce que, ainda que fossem as mulheres, e em concreto Maria Madalena, as primeiras a chegar ao sepulcro, são os Apóstolos os pri­meiros a entrar e a perceber os pormenores externos que mostram que Cristo ressuscitou (o sepulcro vazio, os tecidos «caídos», o sudário à parte). Dar testemunho deste facto será ponto essencial da missão que lhes confiará Cristo: «Sereis Minhas testemunhas em Jerusalém… e até aos confins da terra» (Act 1, 8; cfr Act 2, 32).

5-7. João, que chegou antes — quiçá porque era mais jovem —, não entrou, por deferência para com Pedro. Isto insinua que já então Pedro era considerado como cabeça dos Apóstolos.

As palavras que emprega o Evangelista para descrever o que Pedro e ele viram no sepulcro vazio exprimem com vivo realismo a impressão que lhes causou o que ali encontraram, e como ficaram gravados na sua memória alguns porme­nores à primeira vista irrelevantes. As características que apresentava o sepulcro vazio foram até tal ponto significativas que os fizeram intuir de algum modo a Ressurreição do Senhor. Alguns termos que aparecem no relato necessitam de ser explicados; a simples tradução dificilmente pode exprimir todo o conteúdo.

«As ligaduras no chão»: O particípio grego que traduzimos por «caídas» ou «no chão» parece indicar que as ligaduras tinham ficado aplanadas, como vazias ao ressuscitar e desa­parecer dali o corpo de Jesus, como se Este tivesse saído dos tecidos e das ligaduras sem ser desenroladas, passando através delas (tal como entrou mais tarde no Cenáculo «estando fechadas as portas»). Por isso, os tecidos estavam «caídos», «planos», «jacentes» segundo a tradução literal do grego, ao sair deles o Corpo de Jesus que os tinha mantido antes em forma avultada. Assim se compreende a admiração e a recordação indelével da testemunha. «O lençol… à parte, ainda enrolado para outro sítio»: A primeira observação é que o sudário, que tinha envolvido a cabeça, não estava em cima dos tecidos, mas ao lado. A se­gunda, mais surpreendente, é que, como os tecidos, conser­vava ainda a sua forma de envoltura, mas, de modo diferente daqueles, mantinha certa consistência de volume, à maneira de casquete, provavelmente devido ao endurecimento pro­duzido pelos unguentos. Tudo isso é o que parece indicar o correspondente particípio grego, que traduzimos por «en­rolado».

Destes pormenores na descrição do sepulcro vazio de­preende-se que o corpo de Jesus ressuscitou de maneira gloriosa, isto é, transcendendo as leis físicas. Não se tra­tava apenas da reanimação do corpo, como por exemplo, no caso de Lázaro, que necessitou de ser desligado das ligaduras e outros tecidos da mortalha para poder andar (cfr Ioh 11, 44).

28.12.14 – Lc 2, 22-40

22Quando chegaram os dias da purificação, de segundo a Lei de Moisés, levaram-No a Jerusalém para O apresentarem ao Senhor, do Menino conforme está escrito na Lei do Senhor, que todo o primogênito do sexo masculino será consagrado ao Senhor, 24e para oferecerem em sacrifício, segundo o que se diz na lei, um par de rolas ou duas pombinhas. 25Vivia então em Jerusalém um homem chamado Simeão; esse homem, justo e piedoso, esperava a consolação de Israel, e o Espírito Santo estava nele. 26Revelara-lhe o Espírito Santo que não veria a morte antes de ter visto o Messias do Senhor; 27e veio ao Templo, movido pelo Espírito. Quando os pais trouxeram o Menino Jesus, a fim de procederem conforme o uso da Lei que Lhe dizia respeito, 28ele recebeu-O nos braços e bendisse a Deus, exclamando:

29«Agora, Senhor, podes despedir o Teu servo em paz segundo a Tua palavra, 30porque viram os meus olhos a Salvação 3lque preparaste ao alcance de todos os povos:

32luz para se revelar aos pagãos e glória de Israel, Teu povo».

33Seu pai e Sua mãe estavam admirados com as coisas que d’Ele se diziam. 34Simeão abençoou-os e disse a Maria, Sua mãe: Olha que Ele está aqui para a queda e o ressurgi­mento de muitos em Israel e para ser sinal de contradição — 35uma espada te há-de traspassar a tua própria alma — a fim de se revelarem os pensamentos de muitos espí­ritos.

36Havia também uma profetisa, Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser. Era de idademuito avançada e tinha vivido casada sete anos, após o seu tempo de donzela, 37e viúva, até aos oitenta e quatro. Não se afastava do Templo, servindo a Deus noite e dia, com jejuns e orações. 38Vindo nessa mesma oca­sião, pôs-se a louvar a Deus por sua vez e a falar do Menino a todos os que esperavam a libertação de Jerusalém. 39Depois de terem cumprido tudo o que infância ordenava a Lei do Senhor, voltaram para a de Jesus Galileia, para a sua cidade de Nazaré. 40Entretanto, o Menino crescia e robustecia-Se, enchendo-Se de sabedoria, e a graça de Deus estava n’Ele.

Comentário

22-24. A Sagrada família sobe a Jerusalém com o fim de dar cumprimento a duas prescrições da Lei de Moisés: purificação da mãe, e apresentação e resgate do primogênito. Segundo Lev 12,2-8, a mulher ao dar à luz ficava impura. A mãe de filho varão aos quarenta dias do nascimento terminava o tempo de impureza legal com o rito da purifi­cação. Maria Santíssima, sempre virgem, de facto não estava compreendida nestes preceitos da Lei porque nem tinha concebido por obra de varão, nem Cristo ao nascer rompeu a integridade virginal de Sua Mãe. Não obstante, Maria Santíssima quis submeter-se à Lei, embora não estivesse obrigada.

«Aprenderás com este exemplo, meu pateta, a cumprir a Santa Lei de Deus, apesar de todos os sacrifícios pessoais?

«Purificação! Tu e eu, sim; nós realmente é que preci­samos de purificação! — Expiação, e, além da expiação, o Amor. — Um amor que seja cautério, que abrase a sujidade da nossa alma, que incendeie com chamas divinas a miséria do nosso coração» (Santo Rosário, quarto mistério gozoso).

Igualmente, em Ex 13,2.12-13 indica-se que todo o primogênito pertence a Deus e deve ser-Lhe consagrado, isto é, dedicado ao culto divino. Não obstante, desde que este foi reservado à tribo de Levi, aqueles primogênitos que não pertenciam a esta tribo não eram dedicados ao culto e para mostrar que continuavam a ser propriedade especial de Deus, realizava-se o rito do resgate.

A Lei mandava também que os israelitas oferecessem para os sacrifícios uma rês menor, por exemplo, um cordeiro, ou se eram pobres um par de rolas ou dois pombinhos. O Senhor que «sendo rico Se fez pobre por nós, para nos enriquecer com a Sua pobreza» (2Cor 8,9), quis que fosse (oferecida por Ele a oferenda dos pobres.

25-32. Simeão, qualificado como homem justo e temente a Deus, atento à vontade divina, dirige-se ao Senhor na sua oração como um vassalo ou servidor leal que depois de ter estado vigilante durante toda a sua vida, à espera da vinda do seu Senhor, vê agora por fim chegado esse momento, que deu sentido à sua existência. Ao ter o Menino nos seus braços, conhece não por razão humana mas por graça especial de Deus, que esse Menino é o Messias prometido, a Consolação de Israel, a Luz dos povos.

O cântico de Simeão (vv. 29-32) é, além disso, uma verda­deira profecia. Tem este cântico duas estrofes: a primeira (vv. 29-30) é uma acção de graças a Deus, trespassada de profundo gozo, por ter visto o Messias. A segunda (vv. 31-32) acentua o caracter profético e canta os benefícios divinos que o Messias traz a Israel e a todos os homens. O cântico realça o caracter universal da Redenção de Cristo, anunciada por muitas profecias do AT (cfr Gen 22,18; Is 42,6; Is 60,3; Ps 98,2).

Podemos compreender o gozo singular de Simeão ao considerar que muitos patriarcas, profetas e reis de Israel anelaram ver o Messias e não O viram, e ele, pelo contrário, tem-No nos seus braços (cfr Lc 10,24; 1Pet 1,10). 33. A Virgem Santíssima e São José admiravam-se não porque desconhecessem o mistério de Cristo, mas pelo modo como Deus o ia revelando. Uma vez mais nos ensinam a saber contemplar os mistérios divinos no nascimento de Cristo.

34-35. Depois de os abençoar, Simeão, movido pelo Espírito Santo, profetiza de novo sobre o futuro do Menino e de Sua Mãe. As palavras de Simeão tornaram-se mais claras para nós ao cumprirem-se na Vida e na Morte do Senhor.

Jesus, que veio para a salvação de todos os homens, não obstante, será sinal de contradição porque alguns obstinar-se-ão em rejeitá-Lo, e para estes Jesus será a sua ruína. Para outros, porém, ao aceitá-Lo com fé, Jesus será a sua salvação, livrando-os do pecado nesta vida e ressuscitando-os para a vida eterna.

As palavras dirigidas à Santíssima Virgem anunciam que Maria teria de estar intimamente unida à obra redentora do seu Filho. A espada de que fala Simeão expressa a participação de Maria nos sofrimentos do Filho; é uma dor inenarrável, que traspassa a alma. O Senhor sofreu na Cruz pelos nossos pecados; também são os pecados de cada um de nós que forjaram a espada de dor da nossa Mãe. Por conseguinte, temos um dever de desagravo não só com Deus, mas também com a Sua Mãe, que é igualmente nossa Mãe. As últimas palavras da profecia, «a fim de se revelarem os pensamentos de muitos espíritos», enlaçam com o v. 34: na aceitação ou rejeição de Cristo manifesta-se a rectidão ou a perversão dos corações.

36-38. O testemunho de Ana é muito parecido ao de Simeão: como este, também ela tinha estado à espera da vinda do Messias durante a sua longa vida, num serviço fiel à Deus; e também é premiada com o gozo de O ver. «Pôs-se a falar», isto é, do Menino: louvava a Deus em oração pessoal, e exortava os outros a que cressem que aquele Menino era o Messias.

Assim, pois, o nascimento de Cristo manifesta-se por três espécies de testemunhas e de três modos diferentes: primeiro, pelos pastores, depois do anúncio do anjo; segundo, pelos Magos, guiando-os a estrela; terceiro, por Simeão e Ana, movidos pelo Espírito S Quem, como Simeão e Ana, persevera na piedade e no serviço a Deus, por muito pouca valia que pareça ter a sua vida aos olhos dos homens, converte-se em instrumento apto do Espírito Santo para dar a conhecer Cristo aos outros. Nos Seus planos redentores, Deus vaie-Se destas almas simples para conceder muitos bens à humanidade.

39. Antes da volta a Nazaré aconteceram os factos da fuga e permanência no Egipto que São Mateus relata em 2,13-23.

40. «Nosso Senhor Jesus Cristo enquanto criança, isto é, revestido da fragilidade da natureza humana, devia crescer e fortalecer-Se; mas enquanto Verbo eterno de Deus não necessitava de Se fortalecer nem de crescer. Donde muito bem é descrito cheio de sabedoria e de graça» (In Lucae Evangelium expositio, ad loc.).

29.12.14 – Lc 2, 22-35

22Quando chegaram os dias da purificação, de segundo a Lei de Moisés, levaram-No a Jerusalém para O apresentarem ao Senhor, do Menino conforme está escrito na Lei do Senhor, que todo o primogênito do sexo masculino será consagrado ao Senhor, 24e para oferecerem em sacrifício, segundo o que se diz na lei, um par de rolas ou duas pombinhas. 25Vivia então em Jerusalém um homem chamado Simeão; esse homem, justo e piedoso, esperava a consolação de Israel, e o Espírito Santo estava nele. 26Revelara-lhe o Espírito Santo que não veria a morte antes de ter visto o Messias do Senhor; 27e veio ao Templo, movido pelo Espírito. Quando os pais trouxeram o Menino Jesus, a fim de procederem conforme o uso da Lei que Lhe dizia respeito, 28ele recebeu-O nos braços e bendisse a Deus, exclamando:

29«Agora, Senhor, podes despedir o Teu servo em paz segundo a Tua palavra, 30porque viram os meus olhos a Salvação 3lque preparaste ao alcance de todos os povos:

32luz para se revelar aos pagãos e glória de Israel, Teu povo».

33Seu pai e Sua mãe estavam admirados com as coisas que d’Ele se diziam. 34Simeão abençoou-os e disse a Maria, Sua mãe: Olha que Ele está aqui para a queda e o ressurgi­mento de muitos em Israel e para ser sinal de contradição — 35uma espada te há-de traspassar a tua própria alma — a fim de se revelarem os pensamentos de muitos espí­ritos.

Comentário

22-24. A Sagrada família sobe a Jerusalém com o fim de dar cumprimento a duas prescrições da Lei de Moisés: purificação da mãe, e apresentação e resgate do primogênito. Segundo Lev 12,2-8, a mulher ao dar à luz ficava impura. A mãe de filho varão aos quarenta dias do nascimento terminava o tempo de impureza legal com o rito da purifi­cação. Maria Santíssima, sempre virgem, de facto não estava compreendida nestes preceitos da Lei porque nem tinha concebido por obra de varão, nem Cristo ao nascer rompeu a integridade virginal de Sua Mãe. Não obstante, Maria Santíssima quis submeter-se à Lei, embora não estivesse obrigada.

«Aprenderás com este exemplo, meu pateta, a cumprir a Santa Lei de Deus, apesar de todos os sacrifícios pessoais?

«Purificação! Tu e eu, sim; nós realmente é que preci­samos de purificação! — Expiação, e, além da expiação, o Amor. — Um amor que seja cautério, que abrase a sujidade da nossa alma, que incendeie com chamas divinas a miséria do nosso coração» (Santo Rosário, quarto mistério gozoso).

Igualmente, em Ex 13,2.12-13 indica-se que todo o primogênito pertence a Deus e deve ser-Lhe consagrado, isto é, dedicado ao culto divino. Não obstante, desde que este foi reservado à tribo de Levi, aqueles primogênitos que não pertenciam a esta tribo não eram dedicados ao culto e para mostrar que continuavam a ser propriedade especial de Deus, realizava-se o rito do resgate.

A Lei mandava também que os israelitas oferecessem para os sacrifícios uma rês menor, por exemplo, um cordeiro, ou se eram pobres um par de rolas ou dois pombinhos. O Senhor que «sendo rico Se fez pobre por nós, para nos enriquecer com a Sua pobreza» (2Cor 8,9), quis que fosse (oferecida por Ele a oferenda dos pobres.

25-32. Simeão, qualificado como homem justo e temente a Deus, atento à vontade divina, dirige-se ao Senhor na sua oração como um vassalo ou servidor leal que depois de ter estado vigilante durante toda a sua vida, à espera da vinda do seu Senhor, vê agora por fim chegado esse momento, que deu sentido à sua existência. Ao ter o Menino nos seus braços, conhece não por razão humana mas por graça especial de Deus, que esse Menino é o Messias prometido, a Consolação de Israel, a Luz dos povos.

O cântico de Simeão (vv. 29-32) é, além disso, uma verda­deira profecia. Tem este cântico duas estrofes: a primeira (vv. 29-30) é uma acção de graças a Deus, trespassada de profundo gozo, por ter visto o Messias. A segunda (vv. 31-32) acentua o caracter profético e canta os benefícios divinos que o Messias traz a Israel e a todos os homens. O cântico realça o caracter universal da Redenção de Cristo, anunciada por muitas profecias do AT (cfr Gen 22,18; Is 42,6; Is 60,3; Ps 98,2).

Podemos compreender o gozo singular de Simeão ao considerar que muitos patriarcas, profetas e reis de Israel anelaram ver o Messias e não O viram, e ele, pelo contrário, tem-No nos seus braços (cfr Lc 10,24; 1Pet 1,10). 33. A Virgem Santíssima e São José admiravam-se não porque desconhecessem o mistério de Cristo, mas pelo modo como Deus o ia revelando. Uma vez mais nos ensinam a saber contemplar os mistérios divinos no nascimento de Cristo.

34-35. Depois de os abençoar, Simeão, movido pelo Espírito Santo, profetiza de novo sobre o futuro do Menino e de Sua Mãe. As palavras de Simeão tornaram-se mais claras para nós ao cumprirem-se na Vida e na Morte do Senhor.

Jesus, que veio para a salvação de todos os homens, não obstante, será sinal de contradição porque alguns obstinar-se-ão em rejeitá-Lo, e para estes Jesus será a sua ruína. Para outros, porém, ao aceitá-Lo com fé, Jesus será a sua salvação, livrando-os do pecado nesta vida e ressuscitando-os para a vida eterna.

As palavras dirigidas à Santíssima Virgem anunciam que Maria teria de estar intimamente unida à obra redentora do seu Filho. A espada de que fala Simeão expressa a participação de Maria nos sofrimentos do Filho; é uma dor inenarrável, que traspassa a alma. O Senhor sofreu na Cruz pelos nossos pecados; também são os pecados de cada um de nós que forjaram a espada de dor da nossa Mãe. Por conseguinte, temos um dever de desagravo não só com Deus, mas também com a Sua Mãe, que é igualmente nossa Mãe. As últimas palavras da profecia, «a fim de se revelarem os pensamentos de muitos espíritos», enlaçam com o v. 34: na aceitação ou rejeição de Cristo manifesta-se a rectidão ou a perversão dos corações.

30.12.14 – Lc 2, 36-40

36Havia também uma profetisa, Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser. Era de idademuito avançada e tinha vivido casada sete anos, após o seu tempo de donzela, 37e viúva, até aos oitenta e quatro. Não se afastava do Templo, servindo a Deus noite e dia, com jejuns e orações. 38Vindo nessa mesma oca­sião, pôs-se a louvar a Deus por sua vez e a falar do Menino a todos os que esperavam a libertação de Jerusalém. 39Deppis de terem cumprido tudo o que infância ordenava a Lei do Senhor, voltaram para a de Jesus Galileia, para a sua cidade de Nazaré. 40Entretanto, o Menino crescia e robustecia-Se, enchendo-Se de sabedoria, e a graça de Deus estava n’Ele.

Comentário

36-38. O testemunho de Ana é muito parecido ao de Simeão: como este, também ela tinha estado à espera da vinda do Messias durante a sua longa vida, num serviço fiel a Deus; e também é premiada com o gozo de O ver. «Pôs-se a falar», isto é, do Menino: louvava a Deus em oração pessoal, e exortava os outros a que cressem que aquele Menino era o Messias.

Assim, pois, o nascimento de Cristo manifesta-se por três espécies de testemunhas e de três modos diferentes: primeiro, pelos pastores, depois do anúncio do anjo; segundo, pelos Magos, guiando-os a estrela; terceiro, por Simeão e Ana, movidos pelo Espírito S Quem, como Simeão e Ana, persevera na piedade e no serviço a Deus, por muito pouca valia que pareça ter a sua vida aos olhos dos homens, converte-se em instrumento apto do Espírito Santo para dar a conhecer Cristo aos outros. Nos Seus planos redentores, Deus vaie-Se destas almas simples para conceder muitos bens à humanidade.

39. Antes da volta a Nazaré aconteceram os factos da fuga e permanência no Egipto que São Mateus relata em 2, 13-23.

40. «Nosso Senhor Jesus Cristo enquanto criança, isto é, revestido da fragilidade da natureza humana, devia crescer e fortalecer-Se; mas enquanto Verbo eterno de Deus não necessitava de Se fortalecer nem de crescer. Donde muito bem é descrito cheio de sabedoria e de graça» (In Lucae Evangelium expositio, ad loc.).

31.12.14 – Jo 1, 1-18

No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus! 2Ele estava, no princípio, com Deus. 3Tudo, por meio d’Ele, começou a existir e, sem Ele, coisa alguma começou a existir. 4N’Ele, o que existe era Vida e a Vida era a Luz dos homens. 5A Luz brilha nas trevas e as trevas não A dominaram.

6Surgiu um homem enviado de Deus, cujo nome era João.

7Veio como testemunha, para dar testemunho da Luz, a fim de todos crerem por seu intermédio.

8Ele não era a Luz, mas devia dar testemunho da Luz.

9O Verbo era a Luz verdadeira, que a todo o homem ilumina, vindo ao mundo.

10Estava no mundo, e o mundo, por meio d’Ele, começou a existir, mas o mundo não O conheceu.

11Veio para o que era Seu, e os Seus não O acolheram.

12Mas a quantos O receberam deu-lhes poder de se tornarem filhos de Deus, a eles que creem no Seu nome, 13que nasceram, não do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas sim de Deus.

14E o Verbo fez-Se carne e habitou entre nós. E nós vimos a Sua glória, glória como de um Filho único que vem do Pai, cheio de graça e de verdade.

15João dá testemunho d’Ele e clama, nestes termos:

«Era d’Este que eu dizia: O que vem depois de mim

Passou à minha frente, porque era antes de mim».

16E da Sua plenitude todos nós recebemos, graça por graça.

17É que a Lei foi dada por meio de Moisés, a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo.

18A Deus ninguém jamais O viu. Um Deus, Filho único, que está no seio do Pai, é que O deu a conhecer.

Comentário

1-18. Estes versículos constituem o prólogo ou intro­dução ao quarto Evangelho; são um belo canto que, antes do relato da vida terrena de Jesus Cristo, engrandece e proclama a Sua divindade e eternidade. Jesus é o Verbo Incriado, o Deus Unigénito que assume a nossa condição humana e nos oferece a possibilidade de ser filhos de Deus, isto é, de participar real e sobrenaturalmente da própria vida divina.

O apóstolo João sublinha particularmente em todo o seu Evangelho a divindade do Senhor: não começou a existir ao fazer-Se homem, mas antes de tomar carne nas entranhas virginais de Maria, antes de todas as criaturas, existia na eternidade divina como Verbo consubstancial ao Pai e ao Espírito Santo. Esta é a verdade luminosa, graças à qual se podem apreciar as palavras e os factos de Jesus recolhidos ao longo do quarto Evangelho.

São João chega a contemplar a divindade de Jesus Cristo e a exprimi-la como o Verbo de Deus, depois de ter sido testemunha do Seu ministério público e das Suas aparições depois da Ressurreição. Ao pôr este poema como prólogo do Evangelho, o Apóstolo oferece-nos a chave para compreen­der com profundidade tudo quanto vai escrever a seguir; tem uma função semelhante aos dois primeiros capítulos dos Evangelhos de São Mateus e São Lucas, que nos introduzem na contemplação da vida de Jesus, narrando o nascimento virginal e alguns episódios relevantes da Sua infância, embora se pareça mais, pela sua estrutura e conteúdo, com os passos introdutórios de outros livros do NT, como Col 1, 15-20, Eph 1, 3-14 e 1Ioh 1, 1-4.

É evidente que o prólogo constitui um grandioso hino a Cristo. Não sabemos se São João o compôs quando escreveu o Evangelho, ou se se serviu de algum hino litúrgico existente, que adaptaria para que servisse de introdução ao seu livro. O certo é que na documentação cristã só aparece como prólogo do quarto Evangelho.

O prólogo de São João recorda-nos o primeiro capítulo do Gênesis por vários motivos: 1) a coincidência nas primeiras palavras, No princípio…, que no Evangelho se referem ao princípio absoluto, isto é, à eternidade, enquanto no Gênesis se referem ao princípio concreto da Criação e do tempo. 2) O paralelismo na função que desempenha o Verbo: no Gênesis Deus vai criando todos os seres mediante a Sua palavra; no Evangelho diz-se que tudo foi feito pelo Verbo (Palavra) de Deus. 3) No Gênesis a obra criadora de Deus culmina com a criação do homem à imagem e semelhança de Deus; no Evangelho, a obra do Verbo Encarnado culmina na elevação do homem — como uma nova criação — à dignidade de filho de Deus.

Como ensinamentos principais que aparecem no prólogo podem apreciar-se: 1) a divindade e eternidade do Verbo; 2) a Encarnação do Verbo e a Sua manifestação como homem; 3) a intervenção do Verbo na Criação e na obra salvífica da humanidade; 4) o comportamento diverso dos homens diante da vinda do Salvador: uns aceitam-No com fé e outros rejeitam-No; 5) por último, João Baptista é a teste­munha da presença do Verbo no mundo.

A Igreja deu sempre especial importância a este prólogo. Foram muitos os Santos Padres e escritores da antiguidade cristã que o comentaram amplamente, e durante séculos leu-se no fim da Santa Missa, como instrução e meditação permanentes,

Este prólogo tem forma de poema. A doutrina vai-se expondo em versos, agrupados em estrofes (vv. 1-5; 6-8; 9-13; 14-18). Como uma pedra lançada a um tanque produz umas ondas que se vão ampliando, assim a ideia expressada ao princípio de cada estrofe costuma ir-se ampliando nos ,versos sucessivos sem perder o ponto de partida. É um modo de explicar as coisas muito típico dos antigos povos, que favorece a compreensão progressiva dos conceitos, e que Deus quis utilizar para nos facilitar a penetração nestes mistérios centrais da nossa fé.

1. O texto sagrado chama Verbo ao Filho de Deus. Uma analogia ou comparação com as coisas humanas pode ajudar-nos a compreender a noção de «Verbo» ou «Palavra»: ,assim como um homem ao conhecer-se forma na sua mente uma imagem de si mesmo, assim Deus Pai ao conhecer-Se gera o Verbo Eterno. Este Verbo de Deus é um e único, não pode existir outro porque n’Ele se exprime toda a essência de Deus. Por isso o Evangelho não Lhe chama simplesmente «Verbo», mas «o Verbo». Do Verbo afirmam-se três verda­des: que é eterno, que é diferente do Pai, e que é Deus. «Afirmar que existia no princípio equivale a dizer que existia antes de todas as coisas» (De Trinitate, 6,2). Por outro lado, ao assinalar que estava junto de Deus, isto é, junto do Pai, ensina-nos que a pessoa do Verbo é diferente da do Pai, e indica, ao mesmo tempo, a Sua relação de intimidade com Ele, tão grande que tem a mesma natureza divina: é consubstanciai ao Pai (cfr Símbolo Niceno).

O Papa Paulo VI, por ocasião do Ano da Fé (1967-1968), resumiu a verdade acerca da Santíssima Trindade no cha­mado Credo do Povo de Deus (n° 11) com estas palavras: «Cremos em Nosso Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus. Ele é o Verbo Eterno, nascido do Pai antes de todos os séculos e consubstanciai ao Pai, isto é, homoousios to Patrí; por Quem foram feitas todas as coisas. E encarnou por obra do Espírito Santo, de Maria Virgem, e Se fez homem: portanto, igual ao Pai segundo a divindade, menor que o Pai segundo a huma­nidade, completamente um não por confusão da substância (que não pode fazer-se), mas pela unidade da pessoa».

«No princípio»: «Não significa senão que foi sempre e é eterno (…). Porque se é Deus, como de verdade o é, não há nada antes d’Ele; se é Criador de todas as coisas, então Ele mesmo é o primeiro; se é Dominador e Senhor de tudo, tudo é posterior a Ele: as criaturas e os séculos» (Hom. sobre S. João, 2,4).

3. O prólogo, depois de mostrar que o Verbo está no seio do Pai, passa a tratar da Sua relação com as criaturas. Já no Antigo Testamento a Palavra de Deus aparece como força criadora (cfr Is 55, 10-11), como Sabedoria que estava pre­sente na criação do mundo (cfr Prv 8, 22-26). Aqui dá-se um progresso na Revelação divina: é-nos manifestado que a Criação foi realizada pelo Verbo; isto não quer dizer que o Verbo seja um instrumento subordinado e inferior ao Pai, mas que é princípio activo juntamente com o Pai e o Espírito Santo. A acção criadora é comum às três Pessoas divinas da Santíssima Trindade: «O Pai que gera, o Filho que nasce, e o Espírito Santo que procede são consubstanciais, co-iguais e co-eternos: são um só princípio de todas as coisas; Criador de todas as coisas, das visíveis e das invisíveis, das espirituais e das corporais» (IV Concilio de Latrão, De fide catholica, Dz-Sch, n. 800). Disso se deduzem, entre outras coisas, os vestígios da Trindade na criação e, portanto, a bondade radical das coisas criadas.

4. A seguir expõem-se as verdades fundamentais sobre o Verbo: que é a Vida e que é a Luz. Aqui trata-se da vida divina, fonte primeira de toda a vida, da natural e da sobre­natural. E essa Vida é luz dos homens, porque recebemos de Deus a luz da razão, a luz da fé e a luz da glória, que são participação da Inteligência divina. Só a criatura racional é capaz de conhecer Deus neste mundo, e de O contemplar depois gozosamente no Céu por toda a eternidade. Também a Vida (o Verbo) é luz dos homens enquanto os ilumina tiran­do-os das trevas, isto é, do mal e do erro (cfr Is 8, 23; 9, 1.2; Mt 4, 15-16; Lc 1, 74). Jesus dirá mais adiante: «Eu sou a luz do mundo; aquele que Me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida» (Ioh 8,12; cfr 12,46).

Os versículos 3 e 4 podem ler-se com outra pontuação, hoje geralmente abandonada, ainda que na antiguidade tenha tido bastantes defensores. Segundo essa -pontuação poderia traduzir-se assim:

«3Tudo foi feito por Ele e sem Ele não se fez nada;

4tudo o que foi feito n’Ele, era vida, e a vida era luz dos homens».

Esta leitura indicaria que tudo o que foi criado é vida no Verbo, isto é, que todos os seres recebem o ser e o operar, o viver, pelo Verbo, não sendo possível sem Ele a existência.

5. «Dominaram»: O verbo original grego, que o texto latino traduz por comprehenderunt, significa abraçar ou abarcar uma coisa como que rodeando-a com os braços; mas este acto pode fazer-se com intenção de bom acolhimento (abraço amigável), ou de hostilidade (acção de sufocar ou asfixiar outro apertando-o). Há, pois, lugar para duas pos­síveis traduções do versículo: a de ‘receberam’, ou a que expressaria que as trevas não puderam apagar ou sufocar a luz, que a tradução portuguesa por nós adoptada exprime com a palavra ‘dominaram’. Com esta última interpretação indicar-se-ia que Cristo e o Seu Evangelho continuam a brilhar entre os homens apesar da oposição do mundo, ven­cendo-o, segundo as palavras de Jesus: «Confiai: Eu venci o mundo» (Ioh 16, 33; cfr 12, 31; 1Ioh 5, 4). Em qualquer caso, o versículo exprime a resistência, a luta das trevas contra a luz. Que coisa sejam a luz e as trevas São João i-lo-á indicando ao longo do Evangelho; para já, nos versículos 9 a 11 refere-se à luta entre ambas; e posteriormente por trevas designará o mal e as potências do maligno, que obscurecem a mente do homem e obstaculizam o conheci­mento de Deus (cfr Ioh 12, 15-46; 1Ioh 5, 6).

Santo Agostinho (In Ioann. Evang. 1, 19) comenta assim este passo: «Pode ser que haja uns corações insensatos, ainda incapazes de receber essa Luz, porque o peso dos seus pecados os impede de vê-la; que não pensem, porém, que a Luz não existe por não a poderem ver: é que eles mesmos, pelos seus pecados, tornaram-se trevas. Meus irmãos, é como se um cego estivesse diante do sol. O sol está presente, mas o cego está ausente do sol. Assim todo o homem néscio, todo o homem iníquo, todo o homem sem religião, tem um coração cego. Que pode fazer? Que se limpe, e verá Deus; verá a Sabedoria presente, porque Deus é a própria Sabe­doria, e está escrito: ‘Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus’». Não há dúvida que o pecado entenebrece o olhar espiritual do homem, incapacitando-o para ver e apreciar as coisas de Deus.

6-8. Depois de considerar a divindade do Verbo, passa-se a tratar da Encarnação, e começa-se por falar de João Baptista, que aparece num momento histórico concreto como a testemunha directa de Jesus Cristo diante dos homens (Ioh 1,15.19-36; 3,22 ss.). Assim dirá Santo Agosti­nho: «Porque (o Verbo Encarnado) era homem e ocultava a Sua divindade, precedeu-O um grande homem com a missão de dar testemunho a favor daquele que era mais que homem» (In Ioann. Evang., 2,5).

Todo o Antigo Testamento é uma preparação para a vinda de Cristo. Assim os Patriarcas e os Profetas anunciaram de diversas maneiras a salvação que viria pelo Messias. Mas João Baptista, o maior dos nascidos de mulher (cfr Mt 11,11), pôde indicar com o dedo q próprio Messias (cfr Ioh 1, 29), sendo o testemunho do Baptista a culminação de todas as profecias anteriores.

A missão de João Baptista como testemunha de Jesus Cristo é tão importante que os Evangelhos Sinópticos começam a narração do ministério público de Jesus por esse testemunho. Os discursos de São Pedro e de São Paulo, recolhidos nos Actos dos Apóstolos, também aludem ao testemunho de João (Act 1, 22; 10, 37; 12, 24). O quarto Evan­gelho menciona-o sete vezes (1, 6.15.19.29.35; 3, 27; 5, 33). Sabemos além disso, “que o apóstolo São João tinha sido discípulo do Baptista antes de o ser do Senhor, e que precisamente o Baptista foi quem o encaminhou para Cristo (cfr 1,37ss.).

O Novo Testamento, pois, ensina-nos a transcendência da missão do Baptista, ao mesmo tempo que a clara consciência de este não ser senão o Precursor imediato do Messias, ao qual não é digno de desatar as correias das Suas sandálias (cfr Mc 1, 7); por isso o Baptista insiste no seu papel de testemunha de Cristo e na sua missão de preparar o caminho ao Messias (cfr Lc 1, 15-17; Mt 3, 3-12). O testemunho de João Baptista permanece através dos tempos, convi­dando todos os homens a abraçar a fé em Jesus, a Luz verdadeira.

9. «Era a luz verdadeira»: Os Santos Padres, as versões antigas e a maioria dos comentadores actuais entendem que o sujeito de «era» é «o Verbo». Neste caso, a frase poderia traduzir-se: «o Verbo era a luz verdadeira». Outra interpre­tação, pela qual se inclinam bastantes autores modernos, põe como sujeito de «era» a Luz. Deste modo, a tradução seria: «Existia a Luz verdadeira». Em última análise, o con­teúdo é quase o mesmo.

«Vindo ao mundo»: Segundo o texto grego não está claro a que se referem estas palavras. Podem aplicar-se quer à «luz», quer a «todo o homem». No primeiro caso, é a Luz (o Verbo) que vindo a este mundo ilumina todos os homens. No segundo caso, são os homens que ao virem a este mundo, ao nascerem, são iluminados pelo Verbo. O texto latino da Neo-vulgata optou pela primeira interpretação.

Chama-se ao Verbo «a luz verdadeira» porque é a luz originária da qual procede toda a outra luz ou revelação de Deus. Ao vir o Verbo ao mundo, este fica plenamente iluminado pela autêntica Luz. Os profetas e todos os outros enviados de Deus, incluído João Baptista, não eram a verda­deira luz, mas o reflexo, as testemunhas da Luz do Verbo. Perante a plenitude desta luz que é o Verbo, interroga-se São João Crisóstomo: «Como é que tantos homens permanecem envoltos em trevas? Porque nem todos os homens creem em Jesus Cristo nem Lhe rendem o culto augusto que Lhe é devido. Como, pois, pode dizer-se que ilumina todo o homem? Sim. Ele ilumina todos segundo a disposição e a vontade de cada um. Na medida em que depende do Verbo, ilumina todos. Mas se livremente os homens fecham os olhos da sua alma a esta luz, se rejeitam os seus raios, então o facto de permanecerem em trevas não se deve à natureza da luz, mas à maldade de coração de quem se priva deste dom da graça» (Hom. sobre S. João, 8, 1).

10. O Verbo está no mundo como o artífice que governa o que fez (cfr In loann. Evang., 2,10). O termo «mundo» no Evangelho de São João indica, além de tudo o que foi criado, o conjunto dos homens; assim Cristo veio para salvar a humanidade inteira; «Deus amou de tal maneira o mundo que lhe entregou o Seu Filho Unigénito, para que todo o que crê n’Ele não pereça mas tenha a vida eterna. Pois Deus não enviou Seu Filho ao mundo para julgar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele» (Ioh 3, 16-17). Mas enquanto uma grande parte dos homens rejeitaram a Luz, isto é. Cristo, « mundo» significa também tudo aquilo que se opõe a Deus (cfr Ioh 17, 14-15). Os homens que, obcecados pelas suas culpas, não reconhecem no mundo a obra do Criador (cfr Rom 1, 18-20; Sap 13, 1-15), ficam apegados só ao mundo e gostam exclusivamente das coisas que são do mundo» (Hom. sobre S. João, 7). Mas o Verbo, «luz verdadeira», veio para nos revelar a verdade acerca do mundo (cfr Ioh 1,3; 18,37) e para nos salvar.

11. Pelos « Seus » entende-se, em primeiro lugar, o povo judaico, que tinha sido escolhido por Deus como povo da Sua propriedade (Dt 7, 6-7) para que nele nascesse Cristo. Também pode entender-se toda a humanidade, pois perten­ce-Lhe por ter sido criada por Ele e Ele ter estendido a ela a Sua obra redentora. Daí que a censura por não receber o Verbo feito homem há-de entender-se não só dirigida aos judeus mas também a todos os que, chamados por Deus à Sua amizade, O rejeitam. «Cristo veio; mas por uma misteriosa e terrível infelicidade nem todos O conheceram, nem todos O aceitaram (…). É o quadro da humanidade tal como, depois de vinte séculos de cristianismo, se abre diante de nós. Como é possível? Que quer dizer? Não pretenderemos verificar uma realidade imersa em mistérios que nos transcendem: o mistério do bem e do mal. Mas podemos recordar que a economia de Cristo, para que a sua luz se difunda, deve desdobrar-se numa subalterna, mas necessária, cooperação humana: a da evangelização, a da Igreja apostólica e missio­nária, que se registra resultados incompletos, é mais uma razão para ser ajudada e integrada por todos» (Audiência geral Paulo VI, 4-XII-1974).

12. Receber o Verbo é aceitá-Lo pela fé, porque pela fé Cristo habita em nossos corações (cfr Eph 3,17). Crer no Seu Nome significa crer na Sua Pessoa, em Jesus como o Cristo, o Filho de Deus. Isto é, «os que creem no Seu nome são aqueles que guardam íntegro o nome de Cresto, de tal maneira que não diminuem nada da Sua divindade ou da Sua humani­dade» (Comentário sobre S. João, ad loc.).

«Deu-lhes poder» equivale a «concedeu-lhes» através de um dom: a graça santificante; «porque não está no nosso poder tornar-nos filhos de Deus» (ibid.). Este dom estende-se pelo Baptismo a todos os homens sem limite de raça, idade, cultura, etc. (cfr. Act 10, 45; Gal 3, 28). A única condição exigida é a fé.

«O Filho de Deus fez-Se homem — explica Santo Atanásio — para que os filhos do homem, os filhos de Adão, se tornassem filhos de Deus (…). Ele é Filho de Deus por natureza; nós, por graça» (De Incarnatione contra arríanos, 8). Trata-se do nascimento para a vida sobrenatural, na qual «todos gozamos da mesma dignidade: escravos e livres, gregos, bárbaros e asiáticos, sábios e incultos, homens e mulheres, crianças e velhos, ricos e pobres… Tão grande é a força da fé em Cristo, tão poderosa a graça!» (Hom. sobre S. João, 10, 2).

«A união de Cristo com o homem é a força e a nascente da força, segundo a incisiva expressão de São João no prólogo do seu Evangelho: ‘O Verbo deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus’. É esta força que transforma interiormente o homem, qual princípio de uma vida nova que não fenece nem passa, mas dura para a vida eterna (cfr Ioh 4,14)» (Redemptor hominis, n. 18).

13. O nascimento de que se fala aqui é uma verdadeira geração espiritual que se realiza no Baptismo (cfr Ioh 3,6 ss.). Em vez do texto no plural adoptado, que se refere ao nascimento sobrenatural dos homens, alguns Santos Padres e versões antigas apresentam a leitura no singular: «o que não nasceu do sangue…, mas nasceu de Deus». Neste caso, o texto referir-se-ia à geração eterna do Verbo e ao nascimento virginal de Jesus, por obra do Espírito Santo, das entranhas puríssimas de Maria, isto é, falaria da virgindade de Maria no parto. Ainda que a segunda leitura seja muito sugestiva, contudo a documentação (manuscritos gregos, versões an­tigas, referências dos escritores eclesiásticos, etc.) mostra que o texto no plural foi o mais comum, impondo-se desde o século IV. Além disso, nos escritos de São João diz-se com frequência que os crentes nasceram de Deus (cfr Ioh 3, 3-6; 1Ioh 2, 29; 3, 9; 4, 7; 5, 1.4.18).

O contraste entre o nascimento natural dos homens (que é pelo sangue e pelo querer humano) e o sobrenatural (que vem de Deus) faz ver que os que creem em Jesus Cristo são constituídos filhos de Deus não só enquanto criaturas, mas sobretudo pelo dom gratuito da fé e da graça.

14. Este é um texto central acerca do mistério de Cristo. Nele se exprime de maneira concentrada a realidade insondável da Encarnação do Filho de Deus. «Ao chegar a pleni­tude dos tempos, enviou Deus o Seu Filho, nascido de mulher» (Gal 4, 4).

A palavra «carne» designa o homem na sua totalidade (cfr Ioh 3, 6; 17, 2; Gen 6, 3; Ps 56, 5); de modo que a frase «e o Verbo fez-Se carne» é igual a «e o Verbo fez-se homem». Precisamente o termo teológico «Encarnação» surgiu sobre­tudo a partir deste texto. O substantivo carne tem uma poderosa força expressiva perante aquelas heresias que negam a verdadeira natureza humana de Cristo. Por outro lado, «carne» acentua a condição passível e mortal do Salvador, que habitou entre nós tomando a nossa natureza, e evoca o chamado «Canto da consolação» (Is 40, 1-11), onde se contrapõe a caducidade da carne à perenidade do Verbo de Deus: «Toda a carne é erva / e todo o seu esplendor como flor do campo /… a erva seca, a flor murcha, / mas a palavra do nosso Deus / permanece eternamente» (Is 40, 7-8). Isto não significa que a assunção da Humanidade pelo Verbo seja precária e provisória.

«E habitou entre nós»: O verbo grego que emprega São João correspondente a «habitou» significa etimologicamente «fixar a tenda de campanha» e, daí, habitar num lugar. O leitor atento da Escritura recorda espontaneamente o tabernáculo dos tempos da saída do Egipto, em que Yahwéh mostrava a Sua presença no meio do povo de Israel mediante certos sinais da Sua glória, como a nuvem pousada sobre a tenda (cfr, p. ex., Ex 25, 8; 40, 34-35). Em muitíssimos passos do Antigo Testamento anuncia-se que Deus «habitará no meio do povo» (cfr, p. ex., ler 7, 3; Ez 43, 9; Eccli 24, 8). Aos sinais da presença de Deus, primeiro na Tenda do Santuário peregrinante no deserto e depois no Templo de Jerusalém, segue-se a prodigiosa presença de Deus entre nós: Jesus, perfeito Deus e perfeito homem, em Quem se cumpre a antiga promessa mais além do que os homens podiam esperar. Também a promessa feita por meio de Isaías acerca do «Emanuel» ou «Deus-connosco» (Is 7, 14; cfr Mt 1, 23) se cumpre plenamente neste habitar do Filho de Deus Encar­nado entre os homens. Por isso, ao ler com religiosa admi­ração as palavras do Evangelho « e habitou entre nós », ou, ao rezar o Angelus, é boa ocasião para fazer um acto de fé profundo e agradecido, e de adorar a Humanidade Santís­sima do Senhor.

«Ao recordar que ‘o Verbo Se fez carne’, isto é, que o Filho de Deus Se fez homem, devemos tomar consciência do grande que se torna todo o homem através deste mistério; isto é, através da Encarnação do Filho de Deus! Cristo, efectivamente, foi concebido no seio de Maria e fez-Se homem para revelar o amor eterno do Criador e Pai, assim como para manifestar a dignidade de cada um de nós» (João Paulo II, Alocução na recitação do Angelus, Santuário de Jasna Gora, 5-VI-1979).

Ainda que o aniquilamento do Verbo ao tomar a natureza humana ocultasse em certo modo a Sua natureza divina, de que nunca Se despojou, todavia os Apóstolos viram a glória da Sua divindade através da Sua Santíssima Humanidade, pois manifestou-se na Transfiguração (Lc 9, 32-35), nos mila­gres (Ioh 2, 11; 11, 40) e especialmente na Ressurreição (cfr Ioh 3, 11; 1Ioh 1, 1). A glória de Deus, que resplandecia no antigo Santuário do deserto ou no Templo de Jerusalém, não eram senão uma antecipação imperfeita da realidade da glória divina manifestada através da Santíssima Humani­dade do Unigénito do Pai. O apóstolo São João fala com sole­nidade na primeira pessoa do plural: «vimos a Sua glória», pois conta-se entre as testemunhas que presenciaram a vida de Cristo e, em particular, a Sua Transfiguração e a glória da Sua Ressurreição.

A palavra «Unigénito» exprime adequadamente a geração eterna e única do Verbo pelo Pai. Os três primeiros Evange­lhos tinham sublinhado o nascimento temporal de Cristo; pelo contrário, São João completa a visão pondo em relevo a geração eterna.

Os termos «graça e verdade» são sinônimos de «bondade e fidelidade», dois atributos que no Antigo Testamento se aplicam constantemente a Yahwéh (cfr, p. ex., Ex 34, 6; Ps 117; Ps 136; Os 2, 16-22). Assim, a graça é a manifestação do amor de Deus pelos homens, da Sua bondade, da Sua mise­ricórdia, da Sua piedade. A verdade implica a permanência, a lealdade, a constância, a fidelidade. Jesus, que é o Verbo de Deus feito homem, isto é, o próprio Deus, é por isso «o Unigénito do Pai cheio de graça e de verdade»; é «o pontífice misericordioso e fiel» (Heb 2, 17). Estas duas qualidades, o ser bom e fiel, são como o compêndio e a síntese da grandeza de Cristo. E são também, de forma correlativa, ainda que em grau infinitamente menor, as qualidades primordiais de todo o cristão, como expressamente o disse o Senhor quando louvou o «servo bom e fiel» (Mt 25, 21).

Como explica o Crisóstomo: «O evangelista, depois de ter dito que aqueles que O receberam nasceram de Deus e são filhos de Deus, indica a causa dessa honra inefável: que o Verbo Se fez carne, e o Senhor tomou a forma de servo. Porque sendo verdadeiro Filho de Deus, fez-Se Filho do Homem, para tornar os homens filhos de Deus» (Hom. sobre S. João, 2, 1).

O profundo mistério de Cristo foi expressado pelo Magis­tério da Igreja mediante uma definição solene, no ano 451, no célebre texto do Concilio Ecumênico de Calcedónia: «Se­guindo, pois, os Santos Padres, todos a uma só voz ensinamos que se deve confessar um só e o próprio Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, perfeito na divindade e perfeito na humanidade, Deus verdadeiramente, e verdadeiramente homem, de alma racional e corpo, consubstancial com o Pai quanto à divin­dade, e consubstancial connosco quanto à humanidade — semelhante em tudo a nós, menos no pecado (Heb 4,15) —; gerado do Pai antes dos séculos quanto à divindade, e nos últimos dias, por nós e pela nossa salvação, gerado de Maria Virgem, Mãe de Deus, quanto à humanidade» (Dz-Sch, n. 301).

15. Mais adiante (Ioh 1,19-36) dá-se a conhecer no Evangelho a missão de João Baptista como testemunha do messianismo e da divindade de Jesus, que aqui se resume de modo muito concentrado. Segundo os planos de Deus, assim como os Apóstolos darão testemunho de Jesus depois da Ressurreição, o Baptista será a testemunha escolhida para anunciar Cristo no momento de iniciar o ministério público (cfr a nota a Ioh 1, 6-8).

16. «Graça por graça»: Pode entender-se, com São João Crisóstomo e outros Santos Padres, como a substituição da economia salvífica do Antigo Testamento, pela nova economia da graça trazida por Cristo. Também pode indicar uma superabundância de dons outorgados por Jesus: a umas graças acrescentam-se outras, e todas brotam da fonte inesgotável que é Cristo, cuja plenitude de graça nunca acaba. «Ele não tem o dom recebido por participação, mas é a própria fonte, a própria raiz de todos os bens: a própria Vida, a própria Luz, a própria Verdade. E não retém em Si mesmo as riquezas dos Seus bens, mas entrega-os a todos os outros; e tendo-os dispensado permanece cheio; não diminui em nada por tê-los distribuído a outros, mas enchendo e fazendo participar a todos destes bens, permanece na mesma perfeição» (Hom. sobre S. João, 14, 1).

17. Aparece aqui, pela primeira vez no Evangelho de São João, o nome de Jesus Cristo, identificado com o Verbo de que nos tem vindo a falar.

Enquanto a Lei dada por Moisés se limitava a indicar o caminho que o homem devia seguir (cfr Rom 8, 7-10), a Graça trazida por Jesus Cristo tem o poder de salvar aqueles que a recebem (cfr Rom 7, 25). «O pecado não terá domínio sobre vós, pois não estais sob a Lei mas sob a graça» (Rom 6, 14). Pela «graça tornámo-nos agradáveis a Deus não já somente como servos, mas também como filhos e amigos» (Hom. sobre S. João, 14, 2).

Sobre «a graça e a verdade» pode ver-se a nota a 1,14.

18. «A Deus ninguém jamais O viu»: Todas as visões que os homens tiveram de Deus neste mundo foram indirectas, já que apenas contemplaram a glória divina, isto é, o resplendor da Sua grandeza: por exemplo, Moisés viu a sarça ardente (Ex 3,6); Elias sentiu a brisa no monte Horeb (1Reg 19,11-13); Isaías contemplou o esplendor da Sua majestade (Is 6,1-3). Mas, ao chegar a plenitude dos tempos, essa manifestação de Deus torna-se mais próxima e quase directa, já que Jesus Cristo é a imagem visível do Deus invisível (cfr Col 1,15); é a revelação máxima de Deus neste Mim viu o Pai» (Ioh 14,9). «Porém, a verdade profunda tanto a respeito de Deus como a respeito da salvação dos homens, manifesta-se-nos, por esta revelação, em Cristo, que é, simultaneamente, o mediador e a plenitude de toda a reve­lação» (Dei Verbum, n. 2).

Nenhuma Revelação mais perfeita pode fazer Deus de Si mesmo que a Encarnação do Seu Verbo Eterno. Por isso escreve admiravelmente São João da Cruz: «Em dar-nos, como nos deu, Seu Filho, que é a Sua única Palavra, que não tem outra, tudo nos disse juntamente e de uma vez nesta única Palavra, e não tem mais que falar» (Subida ao Monte Carmelo, liv. 2, cap. 22).

«Um Deus, Filho único»: Alguns manuscritos gregos e versões trazem a leitura «o Filho Unigénito», ou também «o Unigénito». A primeira leitura é preferível por estar melhor apoiada nos códices. Além disso, ainda que o sentido não mude substancialmente, o texto adoptado tem um conteúdo mais rico, pois manifesta de novo explicitamente a divin­dade de Cristo.

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