Evangelho do dia – mês de agosto de 2015

Agosto de 2015

 

01.08.2015 – Mt 14, 1-12

Naquele tempo, o tetrarca Herodes ouviu falar de Jesus 2e disse para os seus cortesãos: É João Baptista. É Ele que ressuscitou dos mortos, e é por isso que as forças milagrosas operam n’Ele. 3De facto, Herodes prendera a João, pusera-o a ferros e lançara-o numa prisão, por causa de Hero­díade, mulher de Filipe, seu irmão. 4Porque João lhe dizia: «Não te é lícito tê-la». 5Quisera matá-lo, mas temia o povo, que o tinha por profeta.

6Veio, entretanto, o aniversário de Herodes, e a filha de Herodíade dançou em público e agradou a Herodes 7tanto que lhe prometeu, com juramento, dar-lhe o que pedisse. 8Ela, instigada pela mãe: Dá-me, disse, aqui, num prato, a cabeça de João Baptista. 9Entris­teceu-se o rei; porém, por causa do jura­mento e dos convivas, deu ordem para que lhe fosse entregue 10e mandou decapitar João no cárcere. 11A sua cabeça foi trazida num prato e dada à jovem que a levou à mãe. 12Os discípulos foram buscar o corpo e sepul­taram-no. Depois vieram dar a notícia a Jesus.

Comentário

1. Herodes o tetrarca, denominado «Antipas» (vid. a nota a Mt 2, 1) é o mesmo que mais tarde aparece na Paixão (cfrLc 23, 7ss.). Era filho de Herodes o Grande. Antipas governava a região da Galileia e Pereia em nome do imperador romano; estava casado, segundo atesta o historiador Flávio Josefo(Antiquitatesiud.,XVIII, 5,4), com uma filha de um rei da Arábia. Apesar deste matrimônio, convivia em concubinato com Herodíade, mulher de seu irmão. São João Baptista e o próprio Jesus Cristo repreenderam muitas vezes os costumes imorais do tetrarca, cujas relações ilícitas estavam expressamente proibidas na Lei (Lev 18,16; 20,21 ) e eram escândalo notório para o povo.

3-12. Em fins do século I Flávio Josefo dá também testemunho destes acontecimentos. Por ele sabemos outros pormenores mais, como o lugar — a fortaleza de Maqueronte — em que esteve encarcerado o Baptista, fortaleza que domina a ribeira oriental do Mar Morto e onde foi o banquete; e o nome, Salomé, da filha de Herodíade.

9. Importantes códices gregos e latinos trazem: «Entris­teceu-se o rei; mas pelo juramento e pelos comensais ordenou que lhe fosse dada ». Santo Agostinho comenta assim: «No meio dos excessos e da sensualidade dos convidados, fazem-se temerariamente juramentos, que depois se cumprem de forma ímpia» (Sermo10). Com efeito, é pecado contra o segundo Mandamento da Lei de Deus fazer um juramento faltando à justiça, como neste caso; tal juramento não obriga. Mais ainda, se se cumpre, como fez Herodes, comete-se um novo pecado. Também nos ensina o Catecismo que se peca contra este preceito se o juramento se faz contra a verdade, ou sem necessidade (cfrCatecismo Romano, III, 3, 24). Cfr a nota a Mt 5, 33-37.

02.08.2015 – Jo6, 24-35

24Quando a multidão viu que Jesus não estava lá, nem os discípulos, subiram todos para as embarca­ções e vieram para Cafarnaum, em busca de Jesus. 25E quando O encontraram do outro lado do mar, disseram-Lhe: Rabi, quando chegaste aqui?

26Respondeu-lhes Jesus, dizendo: Em verdade, em verdade vos digo: Vós procurais-Me, não porque vistes milagres, mas por haverdes comido dos pães e vos terdes saciado. 27Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela comida que se conserva até à vida eterna e que o Filho do homem vos dará; pois a Este é que o Pai, o próprio Deus, marcou com o Seu selo. 28Disseram-Lhe en­tão: Que havemos de fazer para trabalhar nas obras de Deus? 29Respondeu-lhes Jesus: É esta a obra de Deus: que acrediteis No que Ele enviou.

30Disseram-Lhe eles: Que milagre então fazes Tu, para nós vermos e acreditarmos em Ti? Que obra realizas? 31Os nossos pais, no deserto, comeram o maná, conforme está escrito: Deu-lhes a comer um pão que veio do Céu. 32Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: Não foi Moisés que vos deu o pão que vem do Céu; meu Pai é que vos dá o verdadeiro pão que vem do Céu, 33pois o pão de Deus é o que desce do Céu e dá a vida ao mundo. 34Disseram-Lhe então: Senhor, dá-nos sempre desse pão! 35Disse-lhes Jesus: Eu sou o Pão da Vida: aquele que vem a Mim nunca terá fome, e aquele que acredita em Mim nunca terá sede.

Comentário

26. O Senhor começa por corrigir a falta de rectidão de intenção que os movia a segui-Lo, preparando-os assim para compreender a doutrina do discurso eucarístico. «Procurais-Me, comenta Santo Agostinho, por motivos da carne, não do espírito. Quantos há que buscam Jesus, guiados apenas por interesses temporais! (…). Quase não se busca Jesus por Jesus»(In Ioann. Evang., 25,10).

Começa neste versículo o chamado Discurso do Pão da Vida, que se prolonga até ao versículo 59. Inicia-se com uma introdução a modo de diálogo entre Jesus e os Judeus (vv. 26-34), onde o Senhor Se revela como Aquele que vem trazer os dons messiânicos. Segue-se a primeira parte do discurso (vv. 35-47), em que Jesus Se apresenta como o Pão da Vida, enquanto a fé n’Ele é alimento para a vida eterna. Na segunda parte (vv. 48-59) Cristo revela o mistério da Eucaristia: Ele é o Pão da Vida que Se dá sacramentalmente como verdadeira comida.

27.O alimento corporal serve para a vida neste mundo, o espiritual sustenta e desenvolve a vida sobrenatural, que continua para sempre no Céu. Este alimento, que só Deus nos pode dar, consiste principalmente no dom da fé e na graça santificante. Inclusive, por infinito amor divino, na Santíssima Eucaristia é-nos dado como alimento da alma o próprio autor desses dons: Jesus Cristo.

«A Este é que o Pai marcou com o Seu selo»: Com esta frase o Senhor alude à autoridade, pela qual só Ele pode dar aos homens os dons mencionados: porque sendo Deus e homem, a natureza humana de Jesus é o instrumento pelo qual actua a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. São Tomás de Aquino comenta assim esta frase: «O que o Filho do Homem dará, possui-o enquanto supera todos os outros homens pela sua singular e eminente plenitude de graça (…). Quando um selo se imprime na cera, esta recebe toda a forma do selo. Assim o Filho recebeu toda a forma do Pai. E isto de dois modos: um eterno (geração eterna), do qual não se fala aqui porque o selo e o selado são de natureza diferente. O outro, que é o que se deve entender aqui, é o mistério da Encarnação, pela qual Deus Pai imprimiu na natureza humana o Verbo, que é resplendor e selo da Sua substância, como diz Hebreus 1,3»(Comentário sobre S. João, ad loc.).

28-34. O diálogo entre Jesus e os Seus ouvintes recorda o episódio da mulher Samaritana (cfrIoh4 ,11-15). Ali fala-se de uma água que jorra para a vida eterna; aqui de um pão que desce do Céu para dar a vida ao mundo. Ali a mulher perguntava-se se Jesus podia ser superior a Jacob, aqui as pessoas se Ele Se pode comparar com Moisés (cfrEx 16,13). «O Senhor apresentava-Se de tal forma, que aparecia superior a Moisés: jamais teve Moisés a audácia de dizer que ele dava um alimento que não perecia, que permanecia até à vida eterna. Jesus promete muito mais que Moisés. Este prometia um reino, uma terra de arroios de leite e mel, uma paz temporal, filhos numerosos, a saúde corporal e todos os outros bens temporais (…); encher o seu ventre aqui na terra, mas de manjares que perecem; Cristo, pelo contrário, pro­metia um manjar que, na verdade, não perece mas per­manece eternamente» (In Ioann. Evang., 25,12).

Os interlocutores de Jesus sabiam que o maná — alimento que os Judeus recolhiam diariamente no seu caminhar pelo deserto (cfrEx 16,13 ss. — era símbolo dos bens messiânicos; por isso pedem ao Senhor que realize um portento semelhante. Mas não podiam nem sequer suspeitar que o maná era figura de um grande dom messiânico sobrenatural que Cristo traz aos homens: a Santíssima Eucaristia. Jesus, com este diálogo e a primeira parte do discurso eucarístico (vv 35-47), procura levá-los antes de mais a um acto de fé n’Ele, para depois lhes revelar abertamente o mistério da Santíssima Eucaristia. Com efeito, Ele é o pão «que desceu do Céu e dá a vida ao mundo» (v. 33). Também São Paulo explica que o maná e os outros prodígios que aconteceram no deserto eram prefiguração clara de Jesus Cristo (cfr 1Cor 10,3-4).

A atitude incrédula daqueles judeus incapacitava-os para aceitar a revelação de Jesus. Para reconhecer o mistério da Eucaristia é necessária a fé, como voltou a pôr em realce o Papa Paulo VI: «Antes de mais, queremos recordar uma verdade, por vós bem sabida, mas muito necessária para eliminar todo o veneno de racionalismo, verdade que muitos católicos selaram com o seu próprio sangue e que célebres Padres e Doutores da Igreja professaram e ensinaram cons­tantemente, isto é, que a Eucaristia é um altíssimo mistério, mais ainda, falando com propriedade, como diz a Sagrada Liturgia, o mistério da fé (…). É, pois, necessário que nos aproximemos particularmente deste mistério, com humilde reverência, não buscando razões humanas, que devem estar caladas, mas aderindo firmemente à Revelação divina»(Mysteriumfidei).

35. Ir a Jesus é crer n’Ele, porque do Senhor aproximamo-nos pela fé. Com a imagem da comida e da bebida expressa Jesus que Ele é quem realmente sacia todas as nobres aspirações do homem: «Que bela é a nossa Fé Católica! — Dá solução a todas as nossas ansiedades, e aquieta o entendimento, e enche de esperança o coração»(Caminho, n° 582).

03.08.2015 – Mt 14, 13-21

13Jesus, ao ouvir isto, retirou-Se dali numa Multiplicação barca, a sós, para um lugar deserto. O povo, porem, soube-o e das cidades foi, por terra, em Seu seguimento. 14Ao desembarcar, viu uma grande multidão: condoeu-Se dela e curou-lhe os enfermos. 15Sobre a tarde, vieram ter com Ele os discípulos e disseram-Lhe: Este lugar é deserto, e a hora já passou. Despede, pois, as turbas para que vão às aldeias comprar comestíveis. 16Mas Jesus disse-lhes: Não precisam de ir, dai-lhes vós mesmos de comer. 17Tornaram-Lhe eles: Não temos aqui senão cinco pães e dois peixes. 18Disse Ele: Trazei-Mos cá. 19E deu ordem para que a multidão se sentasse sobre a relva. Depois tomou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos ao céu e pronunciou a fórmula da bênção, partiu os pães e deu-os aos discípulos, e os discípulos às turbas. 20Comeram todos, até se saciarem; e dos pedaços que sobejaram, levantaram doze cestos cheios. 2lOra, os que comeram eram uns cinco mil homens, afora mulheres e crianças.

Comentário

14-21. Devia serem plena Primavera porque a erva estava verde (Mc 6,40; Ioh 6,10). Os pães no próximo Oriente costumam ter a forma de tortas delgadas, que se partem facilmente com as mãos e se distribuem aos comensais. Uma e outra coisa costumava fazê-las o pai de família ou o que presidia à mesa. O Senhor segue aqui este mesmo costume. O milagre deste relato consiste em que os pedaços de pão se multiplicam nas mãos de Jesus. Logo, os discípulos distribuiam-nos à multidão.

Outra vez mais sobressai a maneira de actuar do Senhor: busca a livre cooperação do homem; no momento de fazer o milagre quer que os discípulos levem os pães e os peixes, e ofereçam a sua própria actividade.

04.08.2015 – Mt 14, 22-36

22E Ele obrigou logo os discípulos a embarcar e a ir adiante para a outra margem, enquanto despedia as turbas. 23Despedidas as turbas, subiu sozinho ao monte, a orar. Ao cair da noite, estava ali sozinho. 24Entretanto, á barca afastara-se já muitos estádios da terra, açoitada pelas ondas, porque o vento era contrário. 25Na quarta vigília da noite, veio Jesus ter com eles, caminhando sobre o mar. 26Os discípulos, vendo-O a caminhar sobre o mar, assustaram-se e dis­seram: É um fantasma! E gritaram de terror. 27Mas logo Jesus lhes falou, dizendo: Tende confiança! Sou Eu, não temais. 28Tornou-Lhe Pedro: Senhor, se és Tu, manda-me ir ter contigo, por cima das águas. 29Vem! disse Ele. Saltou Pedro da barca e começou a andar por cima das águas, dirigindo-se para Jesus. 30Vendo, porém, um vento forte, ame­drontou-se; e, começando a afundar-se, gritou: Senhor, acode-me! 31E Jesus, imediatamente, estendendo-lhe a mão, segurou-o e disse-lhe: Homem de pouca fé, porque duvidaste? 32Apenas subiram para a barca, cessou o vento. 33E os que estavam na barca adora­ram-No, exclamando: És verdadeiramente o Filho de Deus.

34Feita a travessia, saíram em terra, em Genesaré. 35Reconheceram-No os homens daquele lugar e mandaram aviso a toda a região circunvizinha: trouxeram-Lhe todos os doentes. 36E rogavam-Lhe que os deixasse tocar sequer na franja do Seu manto. E quantos tocaram cobraram perfeita saúde.

Comentário

22-23. O dia tinha sido intenso, como outros tantos de Jesus. Depois de ter leito muitas curas (14, 14), tem lugar o impressionante milagre da multiplicação dos pães e dos peixes, que é figura antecipada da Santíssima Eucaristia. Aquela multidão que O tinha seguido encontrava-se faminta de pão, de palavra e de consolação. Jesus «condoeu-Se dela» (14,14), curou os seus doentes e reconfortou a todos com a Sua palavra e com o pão. Isto não era senão uma antecipação da contínua acção amorosa de Jesus, ao longo dos séculos, com todos nós, necessitados e reconfortados com a Sua palavra e o alimento do Seu próprio Corpo. Tinham sido, pois, muitas as coisas daquele dia e muito intensa a emoção da alma de Jesus, que conhecia a acção vivificante que tinha de exercer o Santíssimo Sacramento na vida dos cristãos: Sacramento que é um mistério de vida, de fé e de amor. Por tudo isso podemos razoavelmente pensar que Jesus sentia necessidade de ter umas horas de recolhimento íntimo para talar com o Pai. A oração a sós de Jesus, entre a actividade de um trabalho e outro, ensina-nos a necessidade deste recolhimento da alma cristã, que acorre a falar com seu Pai Deus, entre os afazeres quotidianos da vida. Sobre a frequente oração pessoal de Jesus, vejam-se, entre outros: Mc 1,35;6,47; Lc5,16; 6,12.Cfr notas a Mt 6, 5-6 e Mt 7, 7-11.

24-33. O impressionante episódio de Jesus a caminhar sobre as águas deve ter feito pensar muito os Apóstolos, e ter ficado gravado vivissimamente entre as suas recordações da vida com o Mestre. Não só São Mateus, mas também São Marcos (6, 45-52), que o deve ter ouvido de São Pedro, e São João (6, 14-21) incluem-no nos seus respectivos Evangelhos.

As tempestades no lago de Genesaré são frequentes e redemoinham as águas, constituindo um grave perigo para as embarcações pesqueiras. Desde o alto do monte, Jesus em oração não esquece os Seus discípulos. Vê-os a esforçar-se na luta com o vento que lhes era contrário e com as ondas. E terminada a oração aproxima-Se deles para os ajudar.

O episódio ilumina a vida cristã. Também a Igreja, como a barca dos Apóstolos, se vê combatida. Jesus, que vela por ela, açode a salvá-la, não sem antes tê-la deixado lutar para fortalecer a tempera dos seus filhos. E anima-os: «Tende con­fiança!Sou Eu, não temais» (14,27). E vêm as provas de fé e de fidelidade: a luta do cristão por manter-se firme, e o grito de súplica do que vê que as suas próprias forças fraquejam: «Senhor, salva-me!» (14, 30); palavras de Pedro que volta a repetir toda a alma que acorre a Jesus como ao seu verdadeiro Salvador. Depois, o Senhor salva-nos. E, no fim, brota a confissão da fé, que então como agora deve proclamar: «És verdadeiramente o Filho de Deus» (14,33).

29-31. São João Crisóstomo(Hom. sobre S. Mateus, 50) comenta que neste episódio Jesus ensinou a Pedro a conhecer, por experiência própria, que toda a sua fortaleza lhe vinha do Senhor, enquanto de si mesmo só podia esperar fraqueza e miséria. Por outro lado, o Crisóstomo chega a dizer que «quando falta a nossa cooperação cessa também a ajuda de Deus». Daí a repreensão «homem de pouca fé» (14,31). Por isso quando Pedro começou a temer e a duvidar, começou também a afundar-se até que, de novo, cheio de fé, gritou: «Senhor, salva-me!».

Se como Pedro fraquejamos nalgum momento, esforcemo-nos também como ele na nossa fé e gritemos a Jesus para que venha salvar-nos.

34-36. Com a fé com que aqueles homens da ribeira do lago de Genesaré se aproximavam de Jesus, deve aproximar-se todo o cristão da Humanidade adorável do Salvador. Cristo, Deus e Homem, é acessível para nós no Sacramento da Eucaristia.

«Quando te aproximes do Sacrário, pensa que Ele…há vinte séculos que te espera» (Caminho, n° 537).

05.08.2015 – Mt 15, 21-28

21Saindo dali, retirou-Se Jesus para os lados de Tiro e Sidónia. 22Ora uma mulher cananeia, vinda daqueles arredores, come­çou a bradar: Senhor, Filho de David, tem compaixão de mim! A minha filha é cruel­mente atormentada do Demônio. 23Mas Ele não lhe respondeu palavra. Aproximando-se então os discípulos, começaram a pedir-Lhe: Despacha-a, porque nos persegue com os seus gritos. 24Respondeu Ele: Não fui enviado senão às ovelhas desgarradas da Casa de Israel. 25Mas ela veio, prostrou-se por terra e exclamou: Vale-me, Senhor! 26Respondeu-lhe Ele: Não é bonito tomar o pão dos filhos e deitá-lo aos cachorros. 27E ela: É verdade, Senhor; mas os cachorrinhos também comem das migalhas que caem da mesa dos donos. 28Então Jesus disse-lhe: Ó mulher, é grande a tua fé! Faça-se como desejas. E, desde aquela hora, ficou a filha curada.

Comentário

21-22. Tiro e Sidónia são duas cidades fenícias, na costa do Mediterrâneo, actualmente pertencentes ao Líbano. Nunca fizeram parte da Galileia, mas encontram-se perto da fronteira noroeste desta região. Portanto, no tempo de Jesus estavam fora dos domínios de Herodes Antipas (vid. a nota a Mt 2,1). Para ali Se retira o Senhor para evitar a perseguição deste e dos judeus, e atender de modo mais intenso à formação dos Seus Apóstolos.

Na região de Tiro e Sidónia a maioria dos habitantes eram pagãos. São Mateus chama a esta mulher «cananeia»; segundo o Gênesis (10, 15) esta zona foi uma das primeiras colônias dos Cananeus; São Marcos chama sirio-fenícia a esta mulher (Mc 7, 26). Ambos os Evangelhos põem em realce a sua condição de paga, com o que adquire maior relevo a sua fé no Senhor, como aconteceu também no caso do centurião (Mt 8, 5-13).

A oração da cananeia é perfeita: reconhece Jesus como Messias (Filho de David) perante a incredulidade dos judeus, expõe a sua necessidade com palavras claras e simples, insiste sem desanimar diante dos obstáculos e exprime humildemente a sua petição: Tem compaixão de mim.

A nossa oração também deve ir acompanhada destas quali­dades: fé, confiança, perseverança e humildade.

24. Esta frase não é contrária à universalidade da doutrina de Jesus (cfrMt 28, 19-20; Mc 16, 15-16). O Senhor veio trazer o Seu Evangelho ao mundo inteiro, mas directamente Ele só pregaria aos judeus; os Apóstolos, por mandato de Cristo, encarregar-se-ão mais tarde de evangelizar os pagãos. O próprio São Paulo, nas suas frequentes correrias, pregou primeiro aos judeus (Act 13,46).

25-28. O diálogo é de uma beleza incomparável. Com aparente dureza Jesus consegue assegurar a fé da Cananeia, que chega a merecer um dos maiores elogios que saíram da boca de Jesus: «é grande a tua fé!». Assim deve ser o nosso diálogo com o Senhor: «Persevera na oração. — Persevera, ainda que o teu esforço pareça estéril. — A oração é sempre fecunda»(Caminho, n° 101).

06.08.2015 – Mc 9, 2-10

2Seis dias depois, tomou Jesus consigo a Pedro, Tiago e João e levou-os só a eles à parte a um monte alto e transfigurou-Se diante deles. 3Os vestidos tornaram-se resplan­decentes e alvíssimos, tanto que nenhuma lavadeira sobre a Terra os poderia assim branquear. 4E apareceu-lhes Elias com Moisés, que estavam a conversar com Jesus. 5Tomando Pedro a palavra, disse a Jesus: Rabi, bom é estarmos aqui. Façamos três guaridas, uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias; 6pois não sabia o que havia de dizer, visto estarem tomados de medo. 7Formou-se então uma nuvem que os envolveu, e da nuvem saiu uma voz: Este é o Meu Filho amado. Ouvi-O. 8E, de repente, olhando à volta de si, não viram a mais ninguém, senão só a Jesus com eles.

9Ao descerem do monte, ordenou-lhes que a ninguém contassem o que tinham visto, senão depois de o Filho do homem ter ressuscitado dos mortos. 10Eles guardaram o facto para si, mas perguntavam-se que seria aquilo de: «ressuscitar dos mortos».

Comentário

2-10. Contemplamos admirados esta manifestação da glória do Filho de Deus a três dos Seus discípulos. Desde a Encarnação, a Divindade de Nosso Senhor estava habitual­mente oculta por detrás da Humanidade. Mas Cristo quis manifestar precisamente a estes três discípulos predilectos, que iam ser colunas da Igreja, o esplendor da Sua glória divina com o fim de que se animassem a seguir o caminho difícil e áspero que lhes restava para percorrer, fixando o olhar na meta gozosa que os esperava no fim. Por esta razão, como comenta São Tomás (cfrSuma Teológica, III, q. 45, &. 1), foi conveniente que Cristo tenha manifestado a clareza da sua glória. As circunstâncias da Transfiguração imediata­mente depois do primeiro anúncio da Sua Paixão, e das palavras proféticas de que os Seus seguidores também teriam de tomar a Sua Cruz, fazem-nos compreender que «precisamos de passar por meio de muitas tribulações para entrar no Reino de Deus» (Act 14,22).

Em que consistiu a Transfiguração do Senhor? Para poder compreender de algum modo este facto miraculoso da vida de Cristo deve ter-se em conta que o Senhor, para nos redimir com a Sua Paixão e Morte, renunciou volunta­riamente à glória divina e encarnou com carne passível, não gloriosa, fazendo-se semelhante em tudo a nós menos no pecado (cfrHeb 4,15). Neste momento da Transfiguração, Jesus Cristo quer que a glória que Lhe correspondia por ser Deus, e que a Sua alma tinha desde o momento da Encarnação, apareça miraculosamente no Seu corpo. «Apren­damos desta atitude de Jesus: durante a Sua vida na Terra, não quis sequer a glória que Lhe pertencia, pois, tendo direito a ser tratado como Deus, assumiu a forma de servo, de escravo (cfr Phil 2. 6)» (Cristo que. passa, n° 62). Tendo em conta Quem encarna (a dignidade da pessoa e a glória da Sua alma), era conveniente a glória do corpo de Jesus. Mas tendo em conta para que encarna (a finalidade da Encarnação), não era conveniente, de modo habitual, tal glória. Cristo mostra a Sua glória na Transfiguração para nos mover ao desejo da glória divina que nos será dada, e assim, com esta esperança, compreendamos «que os padecimentos do tempo presente não são comparáveis com a glória futura que se há-de manifestar em nós» (Rom 8,18).

2. Segundo o Deuteronómio (19,15), para atestar um facto eram necessárias duas ou três testemunhas. Talvez por isso Jesus Cristo quis que estivessem presentes três Após­tolos. Deve notar-se que estes três Apóstolos foram os predilectos, que O acompanharam também na ressurreição da filha de Jairo (Mc 5,37), e estiveram mais perto d’Ele nos momentos tremendos de Getsémani (Mc 14,33). Cfr a nota a Mt 17,1-13.

7. Deste modo explica São Tomás o significado da Transfiguração: «Assim como no baptismo de Jesus, onde foi declarado o mistério da primeira regeneração, se mostrou a acção de toda a Trindade, já que ali esteve o Filho Encarnado, apareceu o Espírito Santo em forma de pomba, e ali se escutou a voz do Pai; assim também na Transfiguração, que é como que o sacramento da segunda regeneração (a ressur­reição), apareceu toda a Trindade: o Pai na voz, o Filho no homem, e o Espírito Santo na claridade da nuvem; porque assim como Deus Trino dá a inocência no Baptismo, da mesma maneira dará aos Seus eleitos o fulgor da glória e o alívio de todo o mal na Ressurreição…» (Suma Teológica, III, q. 45, a.4 ad 2). Porque, na verdade, a Transfiguração foi um certo sinal ou antecipação não só da glorificação de Cristo, mas também da nossa. Pois, como diz São Paulo: «O próprio Espírito dá testemunho juntamente com o nosso espírito de que somos filhos de Deus.E se somos filhos, também herdeiros: herdeiros de Deus, coerdeiros de Cristo; desde que padeçamos com Ele, para sermos com Ele também glorificados» (Rom 8,16-17).

«O Amado»: Com esta expressão revela-se que Cristo é o Filho Unigênito do Pai, cumprindo as profecias do Antigo Testamento. Frei Luís de León comenta: «É Cristo O Amado, isto é, o que antes foi, e agora é e será para sempre a coisa mais amada de todas (…) porque nem uma criatura sozinha, nem as criaturas todas juntas, são de Deus tão amadas, e porque só Ele é o que tem verdadeiros adoradores de Si» (Os nomes de Cristo, livro 3, Amado).

10. A verdade da ressurreição dos mortos estava já revelada no Antigo Testamento (cfr Dan 12,2-3; 2Mach 7,9; 12,43), e os judeus piedosos criam nela (cfr Ioh11,23-25). Não obstante, não eram capazes de compreender a verdade profunda da Morte e Ressurreição do Senhor, porque apenas consideravam o aspecto glorioso e triunfador do Messias, apesar de que também estavam profetizados os Seus sofri­mentos e a Sua morte (cfrIs 53). Daí as disquisições dos Apóstolos que não se atrevem a perguntar directamente ao Senhor pela Sua Ressurreição.

07.08.2015 – Mt 16, 24-28

24Jesus disse então aos discípulos: Se alguém quer vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me. 25Porque, quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas quem perder a sua vida por minha causa, encontrá-la-á. 26Pois, de que servirá ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder a sua alma? Ou que dará o homem em resgate da sua alma? 27Porque o Filho do homem há-de vir na glória de Seu Pai, com os Seus Anjos, e então remunerará a cada um segundo as suas obras. 28Em verdade vos digo: há alguns aqui que não experimen­tarão a morte, antes de verem o Filho do homem no Seu Reino.

Comentário

24. «O amor de Deus que ‘foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado’ (Rom 5, 5), torna os leigos capazes de exprimir em verdade, na própria vida, o espírito das Bem-aventuranças. Seguindo a Cristo pobre, nem se deixam abater com a falta dos bens temporais nem se exaltam com a sua abundância; imitando a Cristo humilde, não são cobiçosos da glória vã (cfr Gal 5, 26), mas procuram mais agradar a Deus que aos homens, sempre dispostos a deixar tudo por Cristo (cfrLc 14, 25) e a sofrer perseguição pela justiça (cfr 15,10), lembrados da palavra do Senhor: ‘se alguém quiser seguir-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me’ (Mt 16, 24)» (Apostolicamactuositatem, n. 4).

25. O cristão não pode passar por alto estas palavras de Jesus Cristo. Deve arriscar-se, jogar a vida presente em troca de conseguir a eterna. «Que pouco é uma vida para oferecê-la a Deus!…» (Caminho, n°420).

A exigência do Senhor inclui renunciar à própria vontade para a identificar com a de Deus, não aconteça que, como comenta São João da Cruz, tenhamos a sorte de muitos «que queriam que Deus quisesse o que eles querem, e entristecem-se de querer o que Deus quer, e têm repugnância em acomodar a sua vontade à de Deus. Disto vem que muitas vezes, no que não acham a sua vontade e gosto, pensam não ser da vontade de Deus e, pelo contrário, quando se satisfazem, creem que Deus Se satisfaz, medindo também a Deus por si, e não a si mesmos por Deus»(Noite Escura, liv. I, cap. 7, nº3).

26-27. As palavras de Cristo são de uma clareza meridiana: situam cada homem, individualmente, diante do Juízo Final. A salvação tem, pois, um caracter radicalmente pessoal: «remunerará a cada um segundo as suas obras» (v. 27).

O fim do homem não é ganhar os bens temporais deste mundo, que são apenas meios ou instrumentos; o fim último do homem é o próprio Deus, que é possuído como antecipação aqui na terra pela graça, e plenamente e para sempre na Glória. Jesus indica qual é o caminho para conseguir esse fim: negar-se a si mesmo (isto é, tudo o que é comodidade, egoísmo, apego aos bens temporais) e levar a cruz. Porque nenhum bem terreno, que é caduco, é comparável à salvação eterna da alma. Como explica com precisão teológica São Tomás, «o menor bem da graça é superior a todo o bem do universo» (Suma Teológica, I-II, q.113, a. 9).

28. Ao dizer isto, Jesus não se refere à Sua última vinda de que fala no versículo anterior, mas está a referir-Se a outros factos que aconteceriam antes e que constituiriam um sinal da Sua glorificação depois da morte. Assim, a vinda de que fala aqui o Senhor pode referir-se em primeiro lugar à Sua Ressurreição e aparições. Também poderia estar relacionada com a Transfiguração, que mostra já a glória de Cristo. Finalmente, essa vinda de Cristo no Seu Reino poderia ver-se manifestada na destruição de Jerusalém, em que é significado o fim do antigo povo de Israel como realização do Reino de Deus e a sua substituição pela Igreja, novo Reino.

08.08.2015 – Mt 17, 14-20

14Ao chegarem junto do povo, acercou-se Cura d’Ele um homem, que, lançando-se de joelhos diante d’Ele, 15disse: Senhor, tem com­paixão de meu filho, que é lunático e está muito mal; pois muitas vezes se atira ao fogo e outras à água.16Apresentei-o aos Teus discí­pulos, e não puderam curá-lo. 17Respondeu-lhe Jesus: Ó geração incrédula e perversa! Até quando estarei convosco! Até quando vos hei-de suportar? Trazei-Mo cá. 18E Jesus imperou ao Demônio, que saiu dele; e, desde aquele momento, ficou o pequeno curado. 19Êntáo chegaram-se os discípulos a Jesus, em particular, e disseram-Lhe: Porque é que nós não o pudemos expulsar? 20EEle disse-lhes: Por causa da vossa pouca fé. Em verdade vos digo que, se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: «mu­da-te daqui para ali», e ele mudar-se-á e nada vos será impossível.

Comentário

14-21. No episódio da cura deste rapaz manifesta-se, por um lado, a omnipotência de Jesus Cristo, e, por outro, o poder da oração feita com fé. O cristão, em virtude da união profunda com Cristo, pela fé participa, de alguma maneira, da própria Omnipotência de Deus, até ao ponto de Jesus chegar a dizer noutra ocasião: «Quem acredita em Mim fará também as obras que Eu faço e fá-las-á maiores do que estas, porque Eu vou para o Pai» (Ioh 14,12).

O Senhor diz aos Apóstolos que se tivessem fé realizariam prodígios, mudariam as montanhas do seu lugar. Ao falar de «mudar de lugar as montanhas» provavelmente empregava uma maneira de dizer já proverbial. Deus concederia sem dúvida ao crente mudar de lugar uma montanha se tal facto fosse necessário para a Sua glória e para a edificação do próximo; mas entretanto, a palavra de Cristo cumpre-se todos os dias num sentido muito superior. Alguns Padres da Igreja (São Jerônimo, Santo Agostinho) indicaram que se cumpre o facto de « mudar de lugar uma montanha », sempre que alguém por virtude divina chega onde as forças humanas não chegam. Tal sucede, de modo claro, na obra da nossa santificação pessoal, que o Paráclito vai realizando na alma quando somos dóceis e recebemos com espírito de fé e de amor a graça que nos é dada nos sacramentos: estes podem ser aproveitados em maior ou menor grau segundo as disposições com que são recebidos, isto é, na medida da nossa fé e do nosso amor. É um facto muito mais sublime que o de mudar de lugar montanhas e que se opera cada dia em tantas almas santas, ainda que passe inadvertido à maioria.

De facto, os Apóstolos e muitos santos ao longo dos séculos fizeram milagres admiráveis na ordem física; mas os milagres maiores e mais importantes foram, são e serão os das almas que, tendo estado sumidas na morte do pecado e da ignorância, renascem e crescem na nova vida dos filhos de Deus.

20. A força da comparação, aqui como na parábola de Mt 13, 31-32, estriba-se em que a semente de mostarda é um grãozinho sumamente pequeno e, não obstante, produz uma grande planta que chega a atingir mais de três metros de altura. Assim, o actomais pequeno de fé verdadeira pode produzir efeitos surpreendentes.

09.08.2015 – Jo, 6 41-51

41Puseram-se então os Judeus a murmurar a Seu respeito, por ter dito: «Eu sou o pão que desceu do Céu», 42e diziam: Não é Ele Jesus, o filho de José, de quem conhecemos o pai e a mãe? Como é que diz agora:« Eu desci do Céu?». 43Respondeu-lhes Jesus: Não murmureis entre vós. 44Ninguém pode vir a Mim, se o Pai, que Me enviou, o não atrair; e Eu ressuscitá-lo-ei no último dia. 45Está escrito nos Profetas: Serão todos instruídos por Deus. Todo aquele que ouviu e aprendeu do Pai vem a Mim. 46Não é que alguém tenha visto o Pai, senão Aquele que vem de Deus; Esse é que viu o Pai. 47Em verdade, em verdade vos digo: Aquele que acredita possui a vida eterna! 48Eu sou o Pão da Vida. 49Vossos pais, no deserto, comeram o maná, e morreram. 50Tal é o pão que desce do Céu: quem dele comer não morrerá. 5lEu sou o pão vivo que desceu do Céu. Se alguém comer este pão, viverá eternamente; e o pão que Eu hei-de dar é a Minha carne pela vida do mundo.

Comentário

42. E a segunda e a última vez que São João menciona São José no seu Evangelho, deixando notícia da opinião comum, ainda que errada, dos que conheciam Jesus e O consideravam filho de José (cfrIoh 1,45; Lc 3,23; 4,22; Mt 13,55). O Senhor, concebido por obra do Espírito Santo no seio virginal de Maria, só tem como Pai o próprio Deus (cfr a nota a Ioh 5,18). Não obstante, São José fez as vezes de pai de Jesus na terra, segundo os planos divinos (cfr as notas a Mt 1,16.18). Por isso se chama a José pai de Jesus e, certamente, cumpriu a sua missão de cuidar do Senhor com singular fidelidade. Santo Agostinho explica assim a pater­nidade de José: «A José não só é devido o nome de pai, mas é-lhe devido mais que a outro qualquer. Como era pai? Tanto mais profundamente pai quanto mais casta foi a sua pater­nidade. Alguns pensavam que era pai de Nosso Senhor Jesus Cristo da mesma forma que são pais os outros, que geram segundo a carne, e não só recebem os seus filhos como fruto do seu afecto espiritual. Por isso diz São Lucas: ‘pensava-se que era pai de Jesus’. Por que diz apenas pensa­va-se? Porque o pensamento e o juízo humanos referem-se ao que costuma suceder entre os homens. E o Senhor não nasceu do sêmen de José. Não obstante, à piedade e à caridade de José nasceu-lhes um filho da Virgem Maria, que era Filho de Deus»(Sermo51,20).

Neste versículo, como em algumas outras ocasiões (cfrIoh7,42; 4,29), São João anota a ignorância da gente, ao mesmo tempo que ele e os leitores do seu Evangelho conhecem a verdade acerca de Jesus. No nosso caso, à objecção dos Judeus não é directamente rebatida, mas fica simplesmente anotada, contando com que para o leitor cristão — a quem dirige o Evangelho — já não constitui dificuldade alguma.

44-45. O ir a Cristo até O encontrar é um dom gratuito que nenhum homem pode conseguir só com as suas próprias forças, embora todos devam estar bem dispostos para O receber. O Magistério da Igreja voltou a recordar esta doutrina no Concilio Vaticano II: «Para prestar esta adesão da fé, são necessários a prévia e concomitante ajuda da graça divina e os interiores auxílios do Espírito Santo, o qual move e converte a Deus o coração, abre os olhos do entendimento, e dá ‘a todos a suavidade em aceitar e crer a verdade’» (Dei Verbum, n. 5).

Jesus ao dizer que «serão todos instruídos por Deus», evoca Is 54,13 e ler 31,33 ss., onde ambos os profetas se referem à futura Aliança que Deus estabelecerá com o Seu povo quando chegar o Messias, com cujo Sangue ficará selada para sempre, e que Deus escreverá nos seus corações (cfrIs 53,10-12; ler 31,31-34).

«Que ouviu e aprendeu do Pai»: Pode traduzir-se também «o que vem do Pai». Refere-se à Revelação de Deus pelos profetas e especialmente por Jesus Cristo.

46. Nós, os homens, só podemos conhecer a Deus Pai através de Jesus Cristo, porque Ele é o único que O viu e veio para no-Lo revelar. Já tinha dito São João no prólogo: «A Deus ninguém O viu jamais; o Deus Unigênito, O que está no seio do Pai, Ele mesmo O deu a conhecer» (Ioh 1,18). Mais tarde dirá Jesus a Filipe na Última Ceia: «Aquele que Me viu a Mim viu o Pai» (Ioh14,9), porque Cristo é o Caminho, a Verdade e a Vida, e ninguém vai ao Pai senão por Ele (cfr Ioh14,6).

Com efeito, em Jesus Cristo culmina a Revelação de Deus aos homens: «Pois enviou o Seu Filho, isto é, o Verbo eterno, que ilumina todos os homens, para habitar entre os homens e manifestar-lhes a vida íntima de Deus (cfrIoh 1,1-18). Jesus Cristo, Verbo feito carne, enviado ‘como homem para os homens’, ‘fala, portanto, as palavras de Deus’ (Ioh3,34) e consuma a obra de salvação que o Pai Lhe mandou realizar (cfr Ioh5,36; 17,4). Por isso, Quem vê a Jesus Cristo vê o Pai (cfrIoh 14,9)»(Dei Verbum, n. 4).

48. Com esta solene declaração repetida diante das dúvidas dos ouvintes (cfrIoh6,35.41.48), Jesus começa a segunda parte do Seu discurso, em que directamente revela o grande mistério da Santíssima Eucaristia. As palavras de Cristo são de um realismo tão forte que excluem qualquer interpretação em sentido figurado: se Cristo não estivesse realmente presente sob as espécies do pão e do vinho, este discurso careceria absolutamente de sentido e de força. Por outro lado, aceite pela fé a presença real de Cristo na Euca­ristia, as Suas palavras são inequívocas e mostram o infinito e íntimo amor de Cristo por nós.

É tão grande este mistério que foi sempre pedra de toque da fé cristã. «Eis o mistério da fé», proclama-se imediatamente depois da Consagração na Santa Missa. Já para certos ouvintes directos de Jesus este discurso foi motivo de escân­dalo (cfr vv. 60-66). Ao longo da história alguns procuraram mitigar o sentido óbvio das palavras do Senhor. O Magis­tério da Igreja voltou nos nossos dias a expor a doutrina sobre este excelso mistério: «Realizada a transubstanciacão, as espécies de pão e de vinho adquirem sem dúvida um novo significado e um novo fim, visto que já não são o pão ordinário e a bebida ordinária, mas o sinal de uma coisa sagrada, sinal de um alimento espiritual; mas adquirem um novo significado e um novo fim enquanto contêm uma ‘realidade’, que com razão denominamos antológica; porque debaixo de tais espécies já não existe o que havia antes, mas uma coisa completamente diversa (…), visto que convertida a substância ou natureza do pão e do vinho no Corpo e no Sangue de Cristo, não fica já nada do pão e do vinho, mas apenas as espécies: debaixo delas Cristo todo inteiro está presente na Sua ‘realidade’ física, mesmo corporalmente, ainda que não do mesmo modo como os corpos estão num lugar.

«Por isso os Padres tiveram grande cuidado em advertir os fiéis que ao considerar este augustíssimo Sacramento, confiassem não nos sentidos que se fixam nas propriedades do pão e do vinho, mas nas palavras de Cristo, que têm tal força que mudam, transformam, ‘transelementam’ o pão e o vinho no Seu Corpo e no Seu Sangue; porque, como mais de uma vez o afirmam os mesmos Padres, o poder que realiza isto é a própria força de Deus omnipotente que no princípio do tempo criou o universo do nada» (Mysteriumfidei).

Sobre a Santíssima Eucaristia vejam-se também as notas a Mt 26,26-29; Mc 14,22.24.25 e Lc 22,16-20.

49-51. O maná do Êxodo era figura deste Pão — o próprio Jesus Cristo — que alimenta os cristãos no seu peregrinar por este mundo. A comunhão é o maravilhoso ban­quete em que Cristo Se nos dá a Si mesmo: «O pão que Eu hei-de dar é a Minha carne pela vida do mundo». Estas palavras são a promessa da instituição da Eucaristia na Última Ceia: «Isto é o Meu Corpo que é entregue por vós» (1Cor 11,22). As expressões «pela vida do mundo», «por vós» aludem ao valor redentor da imolação de Cristo na Cruz. Já em alguns sacrifícios do Antigo Testamento, que eram figura do de Cristo, parte da carne oferecida servia de alimento e significava a participação no rito sagrado (cfrEx 11,3-4). Assim, quando comungamos, participamos do sacri­fício de Jesus Cristo. Por isso canta a Igreja na Liturgia das Horas na festa do Corpus Chrísti: «Oh banquete sagrado em que Cristo é nossa comida, se celebra o memorial da Paixão, a alma se enche de graça e nos é dado um penhor da futura glória» (Antífona do ‘Magnificat’ nas Segundas Vésperas).

10.08.2015 – Jo 12, 24-26

24Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo, caído na terra, não morrer, fica ele só. Mas, se morrer, dá muito fruto. 25Quem tem amor à sua vida perde-a; e quem odeia a sua vida neste mundo conser­vá-la-á para a vida eterna. 26Se alguém está ao Meu serviço, que Me siga; e onde Eu estou, lá estará também o Meu servidor. Se alguém está ao Meu serviço, o Pai há-de honrá-lo.

Comentário

24-25. Lemos aqui o aparente paradoxo entre a humi­lhação de Cristo e a Sua exaltação. Assim «foi conveniente que se manifestasse a exaltação da Sua glória de tal maneira, que estivesse unida à humildade da Sua paixão» (In Ioann. Evang.,51,8).

É a mesma ideia que ensina São Paulo ao dizer que Cristo Se humilhou e Se fez obediente até à morte e morte de Cruz, e que por isso Deus Pai O exaltou sobre toda a criatura (cfr Phil 2,8-9). Constitui uma lição e um estímulo para o cristão, que há-de ver em todo o sofrimento e contrariedade uma participação na Cruz de Cristo que nos redime e nos exalta. Para ser sobrenaturalmente eficaz, deve cada um morrer para si mesmo, esquecendo-se por completo da sua como­didade e do seu egoísmo. «Se o grão de trigo não morre, permanece infecundo. — Não queres ser grão de trigo, morrer pela mortificação e dar espigas bem gradas? — Que Jesus abençoe o teu trigal!» (Caminho, n° 199).

26. O Senhor falou do Seu sacrifício como condição para entrar na glória. E o que vale para o Mestre, também se aplica aos Seus discípulos (cfrMt 10,24; Lc 6,40). Jesus Cristo quer que cada um de nós O sirva. É um mistério dos desígnios divinos que Ele — que é tudo, que tem tudo e não necessita de nada nem de ninguém — queira necessitar do nosso serviço para que a Sua doutrina e a salvação operada por Ele cheguem a todos os homens.

«Seguir Cristo: este é o segredo. Acompanhá-Lo tão de perto, que vivamos com Ele, como os primeiros Doze; tão de perto, que com Ele nos identifiquemos: Se não levantarmos obstáculos à graça, não tardaremos a afirmar que nos reves­timos de Nosso Senhor Jesus Cristo (cfrRom 13, 14) (…).

«Neste esforço por nos identificarmos com Cristo, costumo falar de quatro degraus: procurá-Lo, encontrá-Lo, conhecê-Lo, amá-Lo. Talvez vos pareça que estais na pri­meira etapa… Procurai-O com fome, procurai-O em vós mesmos com todas as vossas forças! Se o fazeis com este empenho, atrevo-me a garantir que já O encontrastes e que já começastes a conhecê-Lo e a amá-Lo e a ter a vossa conversa nos céus (cfr Phil III, 20)»(Amigos de Deus, nos 299-300).

11.08.2015 – Mt 18, 1-5.10.12-14

Naquela mesma hora, chegaram-se os discípulos a Jesus e disseram-Lhe: Quem é, pois, o maior no Reino dos Céus? 2Chamou Ele um menino, pô-lo no meio deles 3e disse: Em verdade vos digo que, se não voltardes a ser, como meninos, não entrareis no Reino dos Céus. 4Todo aquele, pois, que se fizer pequeno como este menino, esse é o maior no Reino dos Céus. 5E quem receber um menino como este em Meu nome, é a Mim que recebe.

10Vede lá não desprezeis um só destes : pequeninos, pois Eu vos digo que os seus Anjos, nos Céus, estão incessantemente a contemplar a face de Meu Pai que está nos Céus.

12Que vos parece? Se alguém tiver cem ovelhas e alguma delas se desgarrar, não deixará, porventura, as noventa e nove pelos montes, para ir em busca da que se des­garrou? 13E se logra encontrá-la, em verdade vos digo que se alegra mais por via dela, do que pelas noventa e nove que se não desgar­raram. 14Assim, a vontade de vosso Pai que está nos Céus é que se não perca nem um só destes pequeninos.

Comentário

1-6. É claro que os discípulos ainda abrigavam ambi­ções terrenas ao pedir o primeiro lugar para quando Cristo instaure na terra o Seu Reino (cfrAct1 ,6). Para corrigir o seu orgulho, o Senhor coloca diante deles um menino, exigindo-lhes que se querem entrar no Reino dos Céus, sejam por vontade o que as crianças são por idade. As crianças caracterizam-se pela sua incapacidade de ódio, e vê-se nelas uma total inocência no que diz respeito aos vícios, e principalmente ao orgulho, que é o maior de todos. São simples e abandonam-se confiadamente.

A humildade é um dos pilares mestres da vida cristã: «Se me perguntais — dizia Santo Agostinho — que é o mais essencial na religião e na disciplina de Jesus Cristo, responder-vos-ei: o primeiro a humildade, o segundo a humildade e o terceiro a humildade» (Epístola 118).

3-4. Aplicando estas palavras às virtudes de Nossa Senhora, Frei Luís de Granada sublinha que a humildade é mais excelente que a virgindade: «Se não podes imitar a virgindade da humilde, imita a humildade da virgem. Lou­vável é a virgindade, mas mais necessária é a humildade. Aquela nos aconselham, a esta nos obrigam; àquela nos convidam, a esta nos forçam (…). De maneira que aquela é galardoada como sacrifício voluntário, esta pedida como sacrifício obrigatório. Finalmente, podes salvar-te sem vir­gindade, mas não sem humildade»(Suma da vida cristã, livro 3, parte 2, cap. 10).

5. Acolher um menino em nome de Jesus é acolher o próprio Jesus. Porque as crianças são reflexo da inocência, da simplicidade, da pureza, da ternura do Senhor; «para uma alma enamorada, as crianças e os doentes são Ele» (Caminho, n° 419).

10. Dar escândalo aos pequenos é coisa grave: Jesus adverte-o com energia. Pois estes pequenos têm os seus anjos que os guardam e defendem, e que acusarão diante de Deus aqueles que os tenham induzido ao pecado.

No contexto fala-se dos anjos da guarda dos pequenos, visto que é a estes que se está a referir o passo. Mas todos os homens, grandes ou pequenos, têm o seu anjo da guarda. «A Providência de Deus deu aos anjos a missão de guardar a linhagem humana, e de socorrer cada homem (…).O Nosso Pai deu-nos, a cada um de nós, anjos para que sejamos fortalecidos com o seu poder e auxílio»(Catecismo Romano, IV, 9,4).

Esta doutrina deve levar-nos a uma intimidade confiante com o nosso anjo da guarda. «Tem confiança com o teu Anjo da Guarda. — Trata-o como amigo íntimo — é-o efectivamente — e ele saberá prestar-te mil e um serviços nos assuntos correntes de cada dia»(Caminho, n° 562).

11-14. A parábola põe em relevo a solicitude amorosa do Senhor pelos pecadores. E manifesta de modo humano a alegria de Deus ao recuperar um filho querido que se tinha extraviado.

Diante do panorama de tantas almas que vivem afastadas de Deus, o Santo Padre comenta: «Infelizmente assistimos com angústia à corrupção moral que devasta a humanidade, desprezando especialmente os pequenos, de quem fala Jesus.(Que devemos fazer? Imitar o Bom Pastor e afanar-nos sem trégua pela salvação das almas. Sem esquecer a caridade material e a justiça social, devemos estar convencidos dê que a caridade mais sublime é a espiritual, ou seja, o interesse pela salvação das almas. E as almas salvam-se com a oração e o sacrifício. Esta é a missão da Igreja!» (João Paulo II, Homília às Clarissas de Albano, 14-VIII-1979).

Muitos manuscritos acrescentam, tomando-o segundo parece de Lc 19, 10,o v. 11: «Pois o Filho do Homem veio para salvar o que estava perdido».

12.08.2015 – Mt 18, 15-20

15Se teu irmão cometer alguma falta contra ti, vai erepreende-o, a sós, entre ti e ele. Se te ouvir, terás ganho o teu irmão. 16Mas se não te ouvir, toma contigo mais um ou dois, para que toda a questão se ajuste sob a palavra de duas ou três testemunhas. 17Se, porém, os não ouvir, diz à Igreja. E se nem sequer ouvir a Igreja, seja para ti como o gentio e o publicano. 18Em verdade vos digo que tudo o que ligardes na Terra, será ligado no Céu; e tudo o que desligardes na Terra, será desligado no Céu.

19Outra vez vos digo em verdade que, se dois de vós sobre a Terra concordarem em pedir alguma coisa, ser-lhes-á concedido por Meu Pai que está nos Céus. 20Porque, onde estão dois reunidos em Meu nome, aí estou Eu no meio deles.

Comentário

15-17. O Senhor faz-nos aqui urna chamada a cooperar com Ele na santificação dos outros através da correcção fraterna, entre outros possíveis meios. Às fortes palavras com que o Senhor condenava o escândalo, seguem-se agora estas outras, não menos fortes, contra o pecado da negligência (cfrHom. sobre S. Mateus, 61).

Existe obrigação de corrigir. O Senhor indica três graus de correcção: 1) a sós, 2) diante de uma ou duas testemunhas, e 3) diante da Igreja. A primeira refere-se aos escânda­los e pecados secretos ou particulares. Deve fazer-se a sós, com o fim de não proclamar sem necessidade o que é privado; também para não ferir o corrigido e facilitar a sua rectificação. Se esta correcção não desse o resultado que se busca, e a causa fosse grave, há-de recorrer-se ao segundo momento: buscar um ou dois amigos, cuja intervenção pode ser mais persuasiva. Por último vem a correcção jurídica, que se faz oficialmente diante da autoridade eclesiástica. Se o pecador assim advertido não admite a correcção, deve ser excomun­gado, isto é, afastado da comunhão da Igreja e dos seus sacramentos.

18. E preciso compreender este versículo em relação com o poder prometido antes a Pedro (cfrMt 16,13-19). Será, pois, a hierarquia da Igreja quem vai exercer este poder outorgado por Cristo a Pedro, aos Apóstolos e aos seus legítimos sucessores: o Papa e os Bispos.

19-20. «Ubi caritas et amor, Deus ibi est», «onde há caridade e amor, aí está Deus», canta a liturgia da Quinta-Feira Santa, inspirada no texto sagrado de 1Ioh4, 12. Pois, com efeito, o amor não se concebe onde há um só, mas supõe duas ou mais pessoas (cfrComentário sobre S. Mateus, 18, 19-20). Assim, quando vários cristãos se reúnem em nome de Cristo para orar, entre eles está presente o Senhor, que escuta com agrado essa oração unânime dos seus: «Todos eles se entregavam assiduamente à oração numa só alma, com algumas mulheres, incluindo Maria, mãe de Jesus» (Act 1, 14). Por isso, a Igreja viveu desde o princípio a prática da oração em comum (cfrAct 12, 5). «Há práticas de piedade — poucas, breves e habituais — que sempre se viveram nas famílias cristãs, e entendo que são maravilhosas: a bênção da mesa, a oração antes e depois das refeições, a recitação do Terço juntos — apesar de não faltar, nestes tempos, quem ataque essa solidíssima devoção mariana —, as orações pessoais ao levantar e ao deitar. Tratar-se-á de costumes diversos segun­do os lugares, mas penso que sempre se deve fomentar algum acto de piedade, que os membros da família realizem juntos, de forma simples e natural, sem beatices»(Temas Actuais do Cristianismo, n° 103).

13.08.2102 – Mt 18, 21-19.1

21Então aproximou-se Pedro e disse-Lhe: Perdão Senhor, se meu irmão pecar contra mim, quantas vezes lhe devo perdoar? Ate sete vezes? 22Disse-lhe Jesus: Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete. 23Por isso, é semelhante o Reino dos Céus a um rei que quis ajustar contas com os seus servos. 24 Logo ao começar, foi-lhe apresentado um que devia dez mil talentos. 25Ecomo não tivesse com que pagar, mandou o senhor que o vendessem a ele e à mulher e aos filhos e a tudo quanto tinha e que assim se pagasse a dívida. 26Lançou-se o servo por terra e, prostrando-se diante dele, disse-lhe: «Senhor, tem paciência comigo e pagar-te-ei tudo». 27E o senhor, compadecido daquele servo, mandou-o embora e perdoou-lhe a dívida. 28Ao sair, encontrou-se o servo com um dos seus companheiros que lhe devia cem dinheiros e, aferrando-o pelo pescoço afo­gava-o, dizendo: Paga o que deves. 29Lançou-se-lhe o companheiro aos pés e começou a suplicar-lhe: Tem paciência comigo e pagar-te-ei.30Ele, porém, não quis, mas foi metê-lo na cadeia até que pagasse a dívida. 31Os outros servos, ao verem o que se passava, ficaram muito magoados e foram contar tudo ao senhor. 32Entào o senhor chamou-o e disse-lhe: Servo perverso, perdoei-te toda aquela dívida, porque mo pediste.33Não devias tu compadecer-te do teu compa­nheiro, como eu me compadeci de ti? 34E, indignado, o senhor entregou-o aos algozes até que pagasse toda a dívida. 35Assim vos fará também o Meu Pai celeste, se não perdoardes, cada um a seu irmão, do íntimo dos vossos corações.

E aconteceu que, tendo Jesus acabado estes discursos, partiu da Galileia e foi para os confins da Judeia, por além do Jordão.

Comentário

21-35. A pergunta de Pedro e, sobretudo, a resposta de Jesus dão-nos a pauta do espírito de compreensão e miseri­córdia que deve presidir à actuação dos cristãos.

A cifra de setenta vezes sete na linguagem hebraica equivale ao advérbio «sempre» (cfrGen 4,24): « De modo que não encerrou o Senhor o perdão num número determinado, mas deu a entender que se tem de perdoar continuamente e sempre» (Hom. sobre S. Mateus, 6). Também se pode observar aqui um contraste entre a atitude mesquinha dos homens em perdoar com cálculo e a misericórdia infinita de Deus. Por outro lado, a nossa situação de devedores relativamente a Deus fica muito bem reflectida na parábola. Um talento equivalia a seis mil denarios e um denário era o jornal diário de um trabalhador. A dívida de dez mil talentos é uma quantidade exorbitante que nos dá ideia do valor imenso que tem o perdão que recebemos de Deus. Contudo, o ensinamen­to final da parábola é o de perdoar sempre e do íntimo do coração aos nossos irmãos. «Esforça-te, se é preciso, por perdoar sempre aos que te ofenderem, desde o primeiro instante, já que, por maior que seja o prejuízo ou a ofensa que te façam, mais te tem perdoado Deus a ti» (Caminho, n° 452).

14.08.2015 – Mt 19, 3-12

3Aproximaram-se d’Ele uns Fariseus, para O tentarem, e disseram-Lhe: É lícito repudiar a própria mulher por qualquer motivo? 4Respondeu Ele: Não lestes que o Criador, desde o princípio, os fez homem e mulher e disse: 5«Por isso deixará o homem pai e mãe e unir-se-á com sua mulher e formarão os dois uma só carne?». 6Portanto, já não são dois, mas uma carne só. Não separe, pois, o homem o que Deus ajuntou. 7Replicaram eles: Então, porque é que Moisés mandou dar-lhe libelo de repúdio e desquitá-la? 8Respondeu-lhes: Moisés, por causa da dureza do vosso coração, permitiu-vos repudiar as vossas mulheres. Mas, ao prin­cípio, não era assim. 9Ora Eu digo-vos que todo o que se desquitar de sua mulher, excepto no caso de união ilegítima, e casar com outra, comete adultério. E quem casar com uma desquitada, comete adultério.

10Dizem-Lhe os discípulos: Se tal é a condição do homem com a sua mulher, mais vale não casar. 11Respondeu-lhes Ele: Nem todos compreendem esta palavra, mas só aqueles a quem foi concedido. 12Porque há eunucos de nascença, e há eunucos que foram feitos tais pelos homens, e há eunucos que tais se fizeram a si mesmos, por amor do Reino dos Céus. Quem pode compreender, compreenda.

Comentário

4-5. «O matrimônio e o amor conjugai destinam-se por sua própria natureza à geração e educação da prole. Os filhos são, sem dúvida, o maior dom do matrimônio e contribuem muito para o bem dos próprios pais. O mesmo Deus que disse ‘não é bom que o homem esteja só’ (Gen 2,18) e que ‘desde a origem fez o homem varão e mulher’ (Mt 19, 4), querendo comunicar-lhe uma participação especial na Sua obra criadora, abençoou o homem e a mulher dizendo: ‘sede fecundos e multiplicai-vos’ (Gen 1, 28). Por isso, o autêntico culto do amor conjugai, e toda a vida familiar que dele nasce, sem pôr de lado os outros fins do matrimônio, tendem a que os esposos, com fortaleza de ânimo, estejam dispostos a colaborar com o amor do criador e salvador, que por meio deles aumenta cada dia mais e enriquece a sua família (Gaudium et spes, n. 50).

9. Em todo este passo predomina o ensinamento do Senhor acerca da unidade e da indissolubilidade do matrimônio. Como diz São João Crisóstomo, comentando este passo, o matrimônio é um com uma e para sempre (cfrHom. sobre S. Mateus, 62). Sobre o sentido da frase «a não ser por fornicação» veja-se a nota a Mt 5,31-32).

11. «Nem todos são capazes de compreender esta dou­trina»: O Senhor sabe bem que as exigências dos Seus ensinamentos à volta do matrimônio e a Sua recomendação do celibato por amor de Deus chocam com o egoísmo humano. Por isso afirma que compreender esta doutrina é dom de Deus.

12. Com este modo figurado de falar refere-Se o Senhor aos que por Seu amor renunciam ao matrimônio e Lhe oferecem totalmente a sua vida. A virgindade por amor de Deus é um dos carismas mais estimados na Igreja (cfr1Cor 7); mostra-se com a própria vida o estado dos bem-aventurados, que no Céu são como anjos (Mt 22, 30). Daqui que o Magistério da Igreja tenha declarado a superioridade do estado de virgindade por amor do Reino dos Céus, sobre o estado matrimonial (cfrDe Sacram. matr.,can. 10; cfr também Sacra virginitas). Sobre a virgindade e o celibato ensina o Concilio Vaticano II: «A santidade da Igreja é também especialmente favorecida pelos múltiplos conselhos que o Senhor propõe no Evangelho aos Seus discípulos. Entre eles sobressai o de, com o coração mais facilmente indiviso, se consagrarem só a Deus, na virgindade ou no celibato, dom da graça divina que o Pai concede a alguns (cfrMt 19, 11; 1Cor 7, 7). Esta continência perfeita, abraçada pelo reino dos céus, foi sempre tida em grande estima pela Igreja, como sinal e incentivo do amor e ainda como fonte privilegiada de fecundidade espiritual no mundo»(Lumen gentium, n. 42; cfrPerfectaecaritatis, n. 12). E em concreto, com relação ao celibato sacerdotal, cfr o Decr. Presbyterorumordinisn. 16 e o Decr. Optatamtotius, n. 10.

Mas tanto a virgindade como o matrimônio são necessários para o crescimento da Igreja, e ambos supõem uma vocação específica da parte do Senhor: «O celibato é exactamente ‘dom do Espírito’. Um dom semelhante, muito embora diverso, está contido na vocação para o verdadeiro e fiel amor conjugal, ordenado para a procriação segundo a carne no contexto tão sublime do sacramento do Matrimônio. É conhe­cido que este dom é algo fundamental para construir a grande comunidade da Igreja, Povo de Deus. Entretanto, se esta comunidade quiser corresponder plenamente à sua vocação em Jesus Cristo, é necessário que nela se realize, em proporção adequada, também aquele outro ‘dom’, o dom do celibato ‘por amor do reino dos Céus’»(Carta a todos os sacerdotes, n° 8).

15.08.2015 – Mt 19, 13-15

13Então apresentaram-Lhe umas criancinhas, para que impusesse as mãos sobre elas e orasse. Os discípulos ralhavam com elas. 14Jesus, porém, disse-lhes: Deixai as criancinhas e não as estorveis de virem a Mim, porque dos que são como elas é o Reino dos Céus. 15E impôs-lhes as mãos. Depois partiu dali.

Comentário

13-34. Uma vez mais (vid. Mt 18, 1-6) mostra Jesus a sua predilecção pelas crianças, acolhendo-as e abençoando-as. Também a Igreja deu às crianças um lugar importante urgindo a necessidade do Baptismo: «Todas as crianças devem ser baptizadas. O sentir comum e a autoridade dos Santos Padres, prova que esta lei deve entender-se não só dos que estão em idade adulta, mas também das crianças na infância, e que a Igreja recebeu esta lei por Tradição apostólica. Deve crer-se, além disso, que Cristo Nosso Senhor não quis que se negasse o Sacramento e a Graça do Baptismo às crianças, das quais dizia: ‘deixai as crianças e não as impeçais de vir a Mim, porque destas é o Reino dos Céus’: as quais estreitava entre os Seus braços, punha sobre elas as mãos e as abençoava» (Catecismo Romano, II, 2,32).

16.08.2015 – Lc1, 39-56

39Por aqueles dias, pôs-se Maria a caminho e dirigiu-se à pressa para a serra, em direcção a uma cidade de Judá. 40Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel. 41Apenas Isabel ouviu a saudação de Maria, saltou-lhe o menino no seio; Isabel ficou cheia do Espírito Santo 42e, erguendo a voz, num grande brado, exclamou: Bendita és tu entre as mulheres e bendito o fruto do teu ventre. 43E donde me é dado que venha ter comigo a Mãe. do meu Senhor? 44Pois, logo que me chegou aos ouvidos o eco da tua saudação, saltou de alegria o menino no meu seio. 45Feliz daquela que acreditou que teriam cumprimento as coisas que lhe foram ditas da parte do Senhor!

46Maria disse então: «A minha alma enaltece ao Senhor, 47e o meu espírito exulta em Deus, meu Salvador, 48porque olhou para a humilde condição da suaserva. De facto, desde agora, me hão-de chamar ditosa todas as gerações, 49porque me fez grandes coisas o Omnipotente. E santo o Seu Nome, 50e a Sua misericórdia vai de geração em geração para aqueles que O temem. 51Exerceu a força com o Seu braço, dispersou os que se elevavam no seu próprio conceito.

52Derrubou os poderosos de seus tronos, e exaltou os humildes. 53Encheu de bens os famintos, e aos ricos despediu-os sem nada. 54Tornou a Seu cuidado Israel, Seu servo, recordando a Sua misericórdia 55conforme tinha dito a nossos pais em favor de Abraão e sua descendência, para sempre».

56Ficou Maria com Isabel uns três meses, voltando depois para sua casa.

Comentário

39-56. Contemplamos este episódio da visitação de Nossa Senhora a sua prima Santa Isabel no segundo mistério gozoso do santo Rosário: «(…) Acompanha alegremente José e Santa Maria…e ficarás a par das tradições da Casa de David. (…) Caminhamos apressadamente em direcção às montanhas, até uma aldeia da tribo de Judá (Lc 1,39).

«Chegamos. — É a casa onde vai nascer João Baptista. — Isabel aclama, agradecida, a Mãe do Redentor: Bendita és tu entre todas as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre! — A que devo eu tamanho bem, que venha visitar-me a Mãe do meu Senhor? (Lc 1, 42-43).

«O Baptista, ainda por nascer, estremece… (Lc 1,41). A humildade de Maria derrama-se no Magnificat… — E tu e eu, que somos — que éramos — uns soberbos, prometemos ser humildes» (Santo Rosário, segundo mistério gozoso).

39. Nossa Senhora ao conhecer pela revelação do anjo a necessidade em que se achava a sua prima Santa Isabel, próxima já do parto, apressa-se a prestar-lhe ajuda, movida pela caridade. A Santíssima Virgem não repara em dificuldades. Embora não saibamos o lugar exacto onde se achava Isabel (hoje supõe-se que é AynKarim), em qualquer caso o trajecto desde Nazaré até à montanha da Judeia supunha na antiguidade uma viagem de quatro dias.

Este facto da vida da Santíssima Virgem tem um claro ensinamento para os cristãos: devemos aprender d’Ela a solicitude pelos outros. «Não podemos conviver filialmente com Maria e pensar apenas em nós mesmos, nos nossos problemas.Não se pode tratar com a Virgem e ter, egoisticamente, problemas pessoais»(Cristo que passa, n° 145).

42. Comenta São Beda que Isabel bendiz Maria com as mesmas palavras usadas pelo Arcanjo «para que se veja que deve ser honrada pelos anjos e pelos homens e que com razão se deve antepor a todas as mulheres» (In LucaeEvangeliumexpositio, ad loc.). Na recitação da Ave Maria repetimos estas saudações divinas com as quais «nos alegramos com Maria Santíssima pela sua excelsa dignidade de Mãe de Deus e bendizemos o Senhor e agradecemos-Lhe ter-nos dado Jesus Cristo por meio de Maria» (Catecismo Maior, n° 333).

43. Isabel, ao chamar a Maria «mãe do meu Senhor», movida pelo Espírito Santo, manifesta que a Virgem Santíssima é Mãe de Deus.

44. São João Baptista, ainda que tenha sido concebido em pecado — o pecado original — como os outros homens, todavia, nasceu sem ele, porque foi santificado nas entranha» de sua mãe Santa Isabel pela presença de Jesus Cristo (então no seio de Maria) e da Santíssima Viagem. Ao receber este benefício divino São João manifesta a sua alegria saltando de gozo no seio materno. Estes factos foram o cumprimento da profecia do arcanjo São Gabriel (cfrLc 1,15).

São João Crisóstomo admirava-se na contemplação desta cena do Evangelho: «Vede que novo e admirável é este mistério. Ainda não saiu do seio e já fala mediante saltos; ainda não lhe é permitido clamar e já é escutado pelos factos (…); ainda não vê a luz e já indica qual é o Sol; ainda não nasceu e já se apressa a fazer de Precursor. Estando presente o Senhor não se pode conter nem suporta esperar o» prazos da natureza, mas procura romper o cárcere do seio materno e busca dar testemunho de que o Salvador está prestes a chegar» (Sermo apud Metaphr., mense Júlio).

45. Adiantando-se ao coro de todas as gerações vin­douras, Isabel, movida pelo Espírito Santo, proclama bem-|’-aventurada a Mãe do Senhor e louva a sua fé. Não houve fé como a de Maria; n’Ela temos o modelo mais acabado de quais devem ser as disposições da criatura diante do seu criador: submissão completa, acatamento pleno. Com a sua fé, Maria é o instrumento escolhido pelo Senhor para levar a cabo a Redenção como Mediadora universal de todas as graças. Com efeito, a Santíssima Virgem está associada à obra redentora de seu Filho: «Esta associação da mãe com o Filho na obra da Salvação, manifesta-se desde a conceição virginal de Cristo até à Sua morte. Primeiro, quando Maria, tendo partido solicitamente para visitar Isabel, foi por ela chamada bem-aventurada, por causa da fé com que acreditara na salvação prometida, e o precursor exultou no seio de suamãe (…). Assim avançou a Virgem pelo caminho dá fé, mantendo fielmente a união com o seu Filho até à cruz. |Junto desta esteve, não sem desígnio de Deus (cfrIoh 19,25), padecendo acerbamente com o seu Filho único, e associando-se com coração de mãe ao Seu sacrifício, consentindo com amor na imolação da vítima que d’Ela nascera»(Lúmen gentium, nn. 57-58).

O novo texto latino recolhe de modo literal o original grego ao dizer «quaecrédidit», em vez de «quaecredidisti», como fazia a Vulgata, que neste caso é mais fiel ao sentido que à letra. Assim traduzem a maioria dos autores e assim traduzimos nós: «Feliz daquela que acreditou».

46-55. O cântico Magnificat que Nossa Senhora pronuncia em casa de Zacarias é de uma singular beleza poética. Evoca alguns passos do Antigo Testamento que a Virgem Santíssima tinha meditado (recorda especialmente 1Sam 2,1-10).

Neste cântico podem distinguir-se três estrofes: na pri­meira (vv. 46-50) Maria glorifica a Deus por a ter feito Mãe do Salvador, faz ver o motivo pelo qual a chamarão bem-aven­turada todas as gerações e mostra como no mistério da Encarnação se manifestam o poder, a santidade e a miseri­córdia de Deus. Na segunda (vv. 51-53) a Virgem Santíssima ensina-nos como em todo o tempo o Senhor teve predilecção pelos humildes, resistindo aos soberbos e arrogantes. Na terceira (vv. 54-55) proclama que Deus, segundo a Sua promessa, teve sempre especial cuidado do povo escolhido, ao qual vai dar o maior título de .glória: a Encarnação de Jesus Cristo, judeu segundo a carne (cfr Rom 1,3).

«A nossa oração pode acompanhar e imitar essa oração de Maria.Tal como Ela, sentiremos o desejo de cantar, de proclamar as maravilhas de Deus, para que a Humanidade inteira e todos os seres participem da nossa felicidade». (Cristo que passa,n° 144).

46-47. «Osprimeiros frutos do Espírito Santo são a paz e a alegria.E a Santíssima Virgem tinha reunido em si toda a graça do Espírito Santo…»(In Psalmoshomiliae, in Ps 32). Os sentimentos da alma de Maria derramam-se no Magnificat. A alma humilde diante dos favores de Deus sente-se movida ao gozo e ao agradecimento. Na Santíssima Virgem o benefício divino ultrapassa toda a graça concedida a qual­quer criatura. «Virgem Mãe de Deus, o que não cabe nos Céus, feito homem, encerrou-Se no teu seio» (Antífona da Missa do Comum das festas de Santa Maria). A Virgem humilde de Nazaré vai ser a Mãe de Deus; jamais a omnipotência do Criador se manifestou de um modo tão pleno. E o Coração de Nossa Senhora manifesta de modo desbordante a sua gratidão e a sua alegria.

48-49. Diante desta manifestação de humildade de Nossa Senhora, exclama São Beda: «Convinha, pois, que assim como tinha entrado a morte no mundo pela soberba dos nossos primeiros pais, se manifestasse a entrada da Vida pela humildade de Maria» (In LucaeEvangeliumexpositio, ad loc.).

«Que grande é o valor da humildade! — ‘Quiarespexithumilitatem…’. Acima da fé, da caridade, da pureza ima­culada, reza o hino jubiloso da nossa Mãe em casa de Zacarias:

«’Porque viu a minha humildade, eis que por isto me chamarão bem-aventurada todas as gerações’» (Caminho, n° 598).

Deus premeia a humildade da Virgem Santíssima com o reconhecimento por parte de todos os homens da sua grandeza: «Me hão-de chamar ditosa todas as gerações». Isto cumpre-se sempre que alguém pronuncia as pala­vras da Ave Maria. Este clamor de louvor à Nossa Mãe é ininterrupto em toda a terra. O Concilio Vaticano II recorda estas palavras da Virgem Santíssima ao falar-nos do culto a Nossa Senhora: « Desde os tempos mais antigos a Santíssima Virgem é honrada com o título de ‘Mãe de Deus’, e sob a sua protecção se acolhem os fiéis, em todos os perigos e necessi­dades. Foi sobretudo a partir do Concilio de Éfeso que o culto do Povo de Deus para com Maria cresceu admiravelmente, na veneração e no amor, na invocação e na imitação, segundo as suas proféticas palavras: ‘Todas as gerações me proclamarão bem-aventurada, porque realizou em mim grandes coisas Aquele que é poderoso’» (Lumen gentium, n. 66).

50. «A sua misericórdia vai de geração em geração». Estas palavras, «já desde o momento da Encarnação, abrem nova perspectiva da história da salvação. Após a ressurreição de Cristo, esta nova perspectiva passa para ó plano histórico e, ao mesmo tempo, reveste-se de sentido escatológico novo. Desde então sucedem-se sempre novas gerações de homens na imensa família humana, em dimensões sempre crescen­tes; sucedem-se também novas gerações do Povo de Deus, assinaladas pelo sinal da Cruz e da Ressurreição e ‘seladas’ com o sinal do mistério pascal de Cristo, revelação absoluta daquela misericórdia que Maria proclamou à entrada da casa da sua parente: ‘A sua misericórdia estende-se de geração em geração’ (…).

«Maria, portanto, é aquela que conhece mais profunda­mente o mistério da misericórdia divina.Conhece o seu preço e sabe quanto é elevado. Neste sentido chamamos-lhe Mãe da misericórdia, Nossa Senhora da Misericórdia, ou Mãe da divina misericórdia. Em cada um destes títulos há um profundo significado teológico, porque exprimem a particular preparação da sua alma e de toda a sua pessoa, para torná-la capaz de descobrir, primeiro, através dos complexos acontecimentos de Israel e, depois, daqueles que dizem respeito a cada um dos homens e à humanidade inteira, a misericórdia da qual todos se tornam participantes, segundo o eterno desígnio da Santíssima Trindade, ‘de geração em geração’»(Dives in misericórdia, n. 9).

51. «Os que se elevavam no seu próprio conceito»: São os que querem aparecer como superiores aos outros, a quem desprezam. E também alude à condição daqueles que na sua arrogância projectam planos de ordenação da sociedade e do mundo de costas ou contra a Lei de Deus. Embora possa parecer que de momento têm êxito, no fim cumprem-se estas palavras do cântico da Virgem Santíssima, pois Deus disper­sá-los-á como já fez com os que tentaram edificar a torre de Babel, que pretendiam chegasse até ao Céu (cfrGen 11,4).

«Quando o orgulho se apodera da alma, não é estranho que atrás dele, como pela arreata, venham todos os vícios: a avareza, as intemperanças, a inveja, a injustiça. O soberbo procura inutilmente arrancar Deus — que é misericordioso com todas as criaturas — do Seu trono para se colocar lá ele, que actua com entranhas de crueldade.

«Temos de pedir ao Senhor que não nos deixe cair nesta tentação. A soberba é o pior dos pecados e o mais ridículo. (…) A soberba é desagradável, mesmo humanamente, porque o que se considera superior a todos e a tudo está continua­mente a contemplar-se a si mesmo e a desprezar os outros, que lhe pagam na mesma moeda, rindo-se da sua fatuidade»(Amigos de Deus, n° 100).

53. Esta Providência divina manifestou-se muitíssimas vezes ao longo da História. Assim, Deus alimentou com o maná o povo de Israel na sua peregrinação pelo deserto durante quarenta anos (Ex 16,4-35); igualmente Elias por meio de um anjo (1Reg 19, 5-8); Daniel no fosso dos leões (Dan 14,31-40); a viúva de Sarepta com o azeite que miraculosamente não se esgotava (1Reg 17,8 ss.). Assim também culminou as ânsias de santidade da Virgem Santíssima com a Encarnação do Verbo.

Deus tinha alimentado com a Sua Lei e a pregação dos Seus Profetas o povo eleito, mas o resto da humanidade sentia a necessidade da palavra de Deus. Agora, com a Encarnação do Verbo, Deus satisfaz a indigência da humani­dade inteira. Serão os humildes que acolherão este ofereci­mento de Deus; os autossuficientes, ao não desejarem os bens divinos, ficarão privados deles (cfrIn Psalmoshomiliaein Ps 33).

54. Deus conduziu o povo israelita como uma criança, como Seu filho a quem amava ternamente: «Yahwéh, teu Deus, conduziu-te por todo o caminho que tendes percorrido, como um homem conduz o seu filho…» (Dt 1,31). Isto fê-lo Deus muitas vezes, valendo-se de Moisés, de Josué, de Samuel, de David, etc., e agora conduz o Seu povo de maneira definitiva enviando o Messias. A origem última deste proceder divino é a grande misericórdia de Deus que Se compadeceu da miséria de Israel e de todo o gênero humano.

55. A misericórdia de Deus foi prometida desde tempos antigos aos Patriarcas. Assim, a Adão (Gen 3,15), a Abraão (Gen 22,18), a David (2 Sam 7,12), etc. A Encarnação de Cristo tinha sido preparada e decretada por Deus desde a eternidade para a salvação da humanidade inteira. Tal é o amor que Deus tem aos homens; o próprio Filho de Deus Encarnado o declarará: «De facto, Deus amou de tal maneira o mundo que lhe deu o Seu Filho Unigênito, para que todo o que n’Ele acredita não pereça, mas tenha a vida eterna» (Ioh 3,16).

17.08.2015 – Mt 19, 16-22

16Senão quando, aproxima-se um que Lhe diz: Mestre, que hei-de fazer de bom para obter a vida eterna? 17Respondeu-lhe Ele: Porque Me interrogas sobre o que é bom? Bom é um só. Mas se queres entrar na vida, guarda os mandamentos. l8Diz-Lhe: Quais? Jesus respondeu: Não matar, não adulterar, não roubar, não levantar falso testemunho, 19honrar pai e mãe e amar o próximo como a ti mesmo. 20Disse-Lhe o jovem: Tudo isso tenho eu observado desde a minha mocidade. Que me falta ainda? 21Respondeu-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens e dá-o aos pobres e terás um tesouro nos Céus. Depois, vem e segue-Me. 22O jovem, ao ouvir estas palavras, afastou-se triste, pois tinha muitos haveres.

Comentário

17. A Vulgata e outras versões, apoiadas em bastantes códices gregos, esclarecem esta frase completando-a: «Um só é o bom.Deus».

20-22. «Que me falta ainda?»: O jovem guardava já os mandamentos necessários para a salvação. Mas há mais. Por isso o Senhor responde: «se queres ser perfeito…», isto é, se queres adquirir o que ainda te falta. Trata-se de um novo chamamento de Jesus: «Depois, vem e segue-Me…». Com estas palavras o Senhor manifesta que quer fazê-lo Seu «discípulo», e por isso lhe exige, como fez com os outros (cfrMt 4,19-22), que abandone tudo o que possa ser obstáculo para uma plena dedicação ao Reino de Deus.

A cena termina de forma melancólica: o jovem afasta-se triste. O apego às suas coisas prevalece sobre o convite carinhoso de Jesus. É a tristeza que se segue à falta de coragem para responder à chamada do Senhor com a entrega pessoal.

Os evangelistas ao narrar este acontecimento transcendem o mero episódio para nos situarem diante de um caso tipo: descreve-se uma situação, formula-se uma lei: a da vocação divina, específica, para entregar-se ao Seu serviço e ao de todos os homens.

Este jovem ficou como figura do cristão a quem a sua mediocridade e a curteza de vista impedem de converter a sua vida numa entrega gozosa e fecunda ao serviço de Deus e do próximo.

Se tivesse sido suficientemente generoso para responder ao chamamento divino, que teria chegado a ser? Um grande apóstolo, sem dúvida.

18.08.2015 – Mt 19, 23-30

23Jesus disse então aos discípulos: Em verdade vos digo que um rico dificilmente cristasentrará no Reino dos Céus. 24Torno a dizer: É mais fácil entrar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico no Reino de Deus.

25Os discípulos, ao ouvirem isto, ficaram muito admirados e diziam: Se é assim, quem se poderá salvar? 26Jesus fitou-os e disse: Aos homens é impossível, mas a Deus tudo é possível. 27Então Pedro, tomando a palavra, disse-Lhe: Nós deixamos tudo e seguimos-Te; qual será, logo a nossa recom­pensa?

28E Jesus disse-lhes: Em verdade vos digo que vós, os que Me tendes seguido, na regeneração, quando o Filho do homem Se sentar no Seu trono de glória, sentar-vos-eis vós sobre doze tronos, a julgar as doze tribos de Israel. 29E todo aquele que deixar casas, irmãos, irmãs, pai, mãe, mulher, filhos ou campos por causa do Meu nome, receberá cem por um e receberá em herança a vida eterna. 30Muitas vezes, porém, os primeiros serão os últimos e os últimos primeiros.

Comentário

24-26. Com esta comparação expõe Jesus a impossibi­lidade que têm de participar no Reino de Deus os que põem o seu coração nos bens deste mundo.

«A Deus tudo é possível»: Isto é, com a graça divina o homem pode ter a fortaleza e a generosidade suficientes para fazer das riquezas um instrumento de serviço a Deus e aos homens. Esta é a razão pela qual no capítulo 5 de São Mateus se precisa que são bem-aventurados os pobres de espírito (Mt 5, 3).

28. Por «regeneração» entende-se aqui a renovação de todas as coisas quando Jesus Cristo vier para julgar os vivos e os mortos. Parte integrante desta renovação será a ressurrei­ção dos corpos.

O antigo povo de Deus, Israel, estava constituído por doze tribos. O novo Povo de Deus, que é a Igreja, a que estão chamados todos os homens, está fundada por Jesus Cristo sobre os Doze Apóstolos sob o primado de Pedro.

29. Encontramo-nos perante umas expressões muito gráficas que não devem ser atenuadas. É significado nelas que o amor a Jesus Cristo e ao Seu Evangelho deve estar por cima de tudo. Estas frases não devem interpretar-se de forma contraditória com a Vontade do próprio Deus, que instituiu e santificou os laços familiares.

19.08.2015 – Mt 20, 1-16

Com efeito, o Reino dos Céus é semelhante a um proprietário que saiu de manhã cedo a contratar trabalhadores para da vinha a sua vinha. 2E, tendo ajustado com os trabalhadores a um dinheiro por dia, mandou-os para a sua vinha. 3Saindo depois, cerca da terceira hora, viu outros que estavam na praça ociosos 4e disse-lhes: «Ide também vós para a minha vinha, e dar-vos-ei o que for; justo». 5E eles foram. Tornando a sair, certa da hora sexta e da nona, fez na mesma. 6Enfim, cerca da undécima, saindo, encon­trou lá outros parados e disse-lhes: «Porque estais aqui todo o dia sem fazer nada?» 7Responderam-lhe: «Porque ninguém nos falou». Disse-lhes: «Ide também vós para a minha vinha». 8Ao anoitecer, diz o dono da vinha ao feitor: «Chama os trabalhadores e paga-lhes a jorna, a começar pelos últimos até aos primeiros». 9E, chegando-se os da undécima hora, receberam cada qual um dinheiro. 10Quando chegaram os primeiros, julgaram que receberiam mais, mas rece­beram também eles cada qual um dinheiro. 11E, ao recebê-lo, murmuravam contra o proprietário 12e diziam: «Estes últimos tra­balharam só uma hora e igualaste-los a nós que aguentamos o peso do dia e a calma!» 13Ele, porém, respondendo a um deles, disse: «Meu amigo, não te faço nenhuma injus­tiça? Não ajustaste comigo por um dinheiro? 14Toma o que é teu e vai-te. Quero dar a este último tanto como a ti.15Ou não me será lícito fazer o que quero do que é meu? Serão maus os teus olhos porque eu sou bom?» 16Assim, os últimos serão primeiros e pri­meiros os últimos. Pois muitos são chamados e poucos escolhidos.

Comentário

1-16. A parábola refere-se directamente ao povo judaico. Deus chamou-o na primeira hora, desde há séculos. Ultimamente chamou também os gentios. Todos são chamados com o mesmo direito a fazer parte do novo Povo de Deus, que é a Igreja. Para todos o convite é gratuito. Por isso, os Judeus, que foram chamados primeiro, não teriam razão ao murmurar contra Deus pela escolha dos últimos, que têm o mesmo prêmio: fazer parte do Seu Povo. À primeira vista, o protesto dos jornaleiros da primeira hora parece justo. E parece-o, porque não compreendem que poder trabalhar na vinha do Senhor é um dom divino. Jesus deixa claro com a parábola que são diversos os caminhos pelos quais chama, mas que o prêmio é sempre o mesmo: o Céu.

2. «Denario» era uma moeda de prata com inscrição e imagem de César Augusto (Mt 22,19-21) e, como se vê aqui, equivalia ao jornal de um operário agrícola.

3. Os judeus calculavam o tempo de modo diferente ao nosso. Dividiam a totalidade do dia em oito partes, quatro para a noite, que chamavam vigílias (Lc 12,38), e quatro para o tempo compreendido entre o nascer e o pôr do sol, que chamavam horas: hora de prima, de tércia, de sextae de noa.

A hora de prima começava ao nascer do sol e terminava pelas nove; a de tércia abarcava até às doze; a de sexta até às três da tarde e a de noa até ao pôr do sol. Por isso a duração das horas de prima e de noa era instável: minguava durante o Outono e o Inverno, e crescia durante a Primavera e o Verão; ao invés acontecia com as vigílias primeira e quarta.

Convém notar que por vezes se contavam as horas intermédias como aparece no v. 6, onde se fala da hora undécima talvez para recalcar o pouco tempo que faltava já para o pôr do sol, fim do trabalho.

16. A Vulgata, outras versões e bastantes códices gregos acrescentam: «Porque muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos» (cfrMt 22,14).

20.08.2015 – Mt 22, 1-14

E Jesus, continuando, tornou a falar-lhes em parábolas, e disse: 2O Reino dos céus é semelhante a um rei que celebrou as bodas de seu filho, 3emandou os servos bodas chamar os convidados para as bodas, mas eles não quiseram vir. 4Tornou a mandar outros servos com este recado: «Dizei aos convidados: Vede que o meu banquete está preparado, abatidos os meus novilhos e animais cevados, e tudo pronto. Vinde para as bodas.»5Eles, porém, não fizeram caso e foram um para o seu campo, outro para o seu negócios; 6os outros lançaram mão dos servos, ultrajaram-nos e mataram-nos. 7O rei, encolerizado, enviou os seus exércitos 8Disse então aos servos: «As bodas estão preparadas, mas os convi­dados não eram dignos. 9Ide, pois, às encru­zilhadas dos caminhos e convidai quantos encontrardes.» 10Saíram os servos pelos caminhos e ajuntaram quantos encontraram, maus e bons, e encheu-se o salão de convivas. 11Entrando o rei, para ver os convivas, repa­rou num homem que não estava vestido com o traje de boda 12e disse-lhe: «Amigo, como entraste aqui sem o traje de boda?» Ele emudeceu. 13Disse então o rei aos ser­ventes: «Atai-o de pés e mãos e lançai-o nas trevas exteriores. Aí haverá choro e ranger de dentes.»14Pois muitos são chamados, mas poucos escolhidos.

Comentário

1-14. Nesta parábola Jesus Cristo põe em realce a insistente Vontade de Deus Pai que chama todos os homens à salvação — o banquete que é o Reino dos Céus —, e a misteriosa malícia que se encerra na rejeição voluntária deste convite: tão grave, que merece um castigo definitivo. Diante da chamada de Deus à conversão, à aceitação da fé e das suas consequências, não há interesses humanos que se possam opor razoavelmente. Não admite desculpas.

Os Santos Padres viram nos primeiros convidados o povo judaico. Efectivamente, no curso da História da Salvação, Deus dirigiu-Se primeiro aos Israelitas, depois a todos os gentios (Act 13,46).

A repulsa da chamada amorosa de Deus por parte dos Israelitas, devida a indiferença ou a hostilidade, levou-os à perdição. Mas também os gentios devem corresponder fielmente à sua chamada para não serem arrojados «às trevas exteriores».

«As bodas, diz São Gregório Magno (In Evangeliahomiliae, 36), são as bodas de Cristo com a Sua Igreja, e o traje é a virtude da caridade: entra portanto nas bodas, mas sem o vestido, quem tem fé na Igreja, mas não possui a caridade».

O traje de bodas indica, em geral, as disposições com que se há-de entrar no Reino dos Céus. Se alguém não as possui, mesmo pertencendo à Igreja, será condenado no diaem que Deusjulgar cada um. Estas disposições são, em resumo, a correspondência à graça.

13. O Concilio Vaticano II recorda a verdade dos novís­simos, um de cujos aspectos declara este versículo. Ao falar da índole escatológica da Igreja, invoca a advertência do Senhor de que estejamos vigilantes contra as arremetidas do demônio, para poder resistir no dia mau (cfrEph6, 11-13). «Mas, como não sabemos o dia nem a hora, é preciso que, segundo a recomendação do Senhor, vigiemos continuamente, a fim de que no termo da nossa vida sobre a terra, que é só uma (cfrHeb 9, 27), mereçamos entrar com Ele para o banquete de núpcias e ser contados entre os eleitos (cfrMt 25, 31 -46), e não sejamos lançados, como servos maus e preguiçosos (cfrMt 25, 26), no fogo eterno (cfrMt 25, 41), nas trevas exteriores, onde ‘haverá choro e ranger de dentes’» (Lumen gentium, n. 48).

14. Estas palavras não contradizem, de modo algum, a vontade salvífica universal de Deus (cfr 1Tim 2,4). Com efeito, Cristo, no Seu Amor pelos homens, busca a conversão de cada alma com infinita paciência, até ao extremo de morrer na cruz (cfrMt 23, 37; Lc 15, 4-7). E a doutrina que ensina o apóstolo São Paulo, quando diz que Cristo nos amou e « Se entregou a Si mesmo por nós como oblação e vítima» (Eph 5, 2). Cada um de nós pode afirmar com o Apóstolo que Cristo «me amou e Se entregou a Si mesmo por mim» (Gal 2, 20). Não obstante, Deus, na Sua infinita sabedoria, respeita a liberdade do homem, que tem a tremenda possibilidade de rejeitar a graça (cfrMt 7,13-14).

21.08.2015 – Mt 22, 34-40

34Mas os Fariseus, ao saberem que fizera calar os Saduceus, juntaram-se num corpo, 35e um deles, que era doutor da lei, para O tentar, interrogou-O: 36Mestre, qual é o maior mandamento da Lei? 37Respondeu Ele: Ama o Senhor teu Deus, com todo o teu coração e com toda a tua alma e com todo o teu entendimento. 38Este é o maior e o primeiro mandamento. 39E o segundo é semelhante a este: Ama o teu próximo como a ti mesmo. 40 Destes dois mandamentos depende toda a Lei e os Profetas.

Comentário

34-40. Diante da pergunta, o Senhor põe em relevo que toda a Lei se condensa em dois mandamentos: o primeiro e mais importante consiste no amor incondicional a Deus; o segundo é consequência e efeito do primeiro: porque quando é amado o homem, diz São Tomás, é amado Deus já que o homem é imagem de Deus (cfrComentário sobre S. Mateus, 22,4).

Quem ama deveras Deus ama também os seus iguais, porque verá neles os seus irmãos, filhos do mesmo Pai, redimidos pelo mesmo sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo: «Temos este mandamento de Deus: que o que ame a Deus ame também o seu irmão» (1Ioh 4, 21). Há, porém, um perigo: se amamos o homem pelo homem, sem referência a Deus, este amor converte-se em obstáculo que impede o cumprimento do primeiro preceito; e então deixa também de ser verdadeiro amor ao próximo. Mas o amor ao próximo por Deus é prova patente de que amamos a Deus: «se alguém diz: amo a Deus, mas despreza o seu irmão, é um mentiroso» (1Ioh 4,20).

«Amarás o teu próximo como a ti mesmo»: Estabelece aqui o Senhor que a medida prática do amor ao próximo há-de ser o amor a si mesmo; tanto o amor aos outros como o amor a si mesmo fundamentam-se no amor a Deus. Daí que, nuns casos, o amor de Deus exigirá pôr uma necessidade do próximo por diante da nossa e, noutros casos, não: depende do diverso valor que tenham, à luz do amor de Deus, os bens espirituais e materiais que estejam em jogo.

É evidente que os bens do espírito têm uma precedência absoluta sobre os bens materiais, inclusive o da própria vida. Daí que sempre há que salvar, antes de mais, os bens espirituais, quer sejam próprios ou do próximo. Quando se trata do supremo bem espiritual, que é a salvação da alma, de nenhum modo se pode correr o perigo certo de condenar-se para salvar outro, porque, dada a liberdade humana, nunca podemos estar seguros da decisão pessoal que possa tomar o próximo: é a situação que reflecte a parábola das virgens néscias e prudentes (cfrMt 25, 1-13) ao negar-se estas a dar-lhes o azeite; no mesmo sentido diz São Paulo que se faria anátema para salvar os seus irmãos (cfr Rom 9, 3), numa frase condicional irreal. Não obstante, é claro que temos de fazer tudo o possível para salvar os nossos irmãos, conscientes de que quem contribui para que o pecador se converta do seu extravio salvar-se-á ele mesmo da morte eterna e cobrirá a multidão dos seus pecados (Iac 5, 20). De tudo isso se deduz que o próprio amor recto de si, fundado no Amor de Deus ao homem, traz como consequência as exigências radicais do esquecimento de si para amar a Deus e ao próximo por Deus.

37-38. O mandamento do amor é o mais importante porque nele alcança o homem a sua perfeição (cfrCol 3, 14). «Quanto mais uma alma ama, escreve São João da Cruz, tanto mais perfeita é naquilo que ama; daí resulta que esta alma que já está perfeita, toda é amor e todas as suas acções são amor, e emprega todas as suas potências e riquezas em amar dando todas as suas coisas, como o sábio mercador (Mt 13, 46), por este tesouro de amor que achou escondido em Deus (…). Porque, assim como a abelha tira de todas as ervas o mel que ali há e não se serve delas senão para isto, assim também de todas as coisas que passam pela alma, com grande facilidade ela tira a doçura de amor que contém; que amar a Deus nelas, ora seja saboroso, ora desabrido, estando ela informada e amparada pelo amor como está, não o sente, nem o goza, nem o sabe, porque, como dissemos, a alma não sabe senão amor, e o seu gosto em todas as coisas e tratos, é sempre deleite de amor de Deus» (Cântico espiritual, canção 27).

23.08.2015 – Jo6, 60-69

60Muitos dos discípulos disseram, depois de O ouvirem: É dura esta linguagem; quem pode escutá-la? 61Conhecendo Jesus interior­mente que os discípulos murmuravam do assunto, perguntou-lhes: Isto fere-vos? 62E se virdes o Filho do homem a subir para onde estava anteriormente? 63O espírito que dá vida, a carne não serve de nada. As palavras que Eu vos disse são espírito e vida. 64Mas há alguns dentre vós que não acre­ditam. De facto, Jesus bem sabia desde o início quem eram os que não acreditavam e quem era aquele que O havia de entregar. 65E foi acrescentando: Por isso é que vos disse: «Ninguém pode vir a Mim, se isso lhe não está concedido pelo Pai». 66A partir de então, muitos dos discípulos se retiraram e já não andavam com Ele.

67Disse então Jesus aos doze: Também vós quereis partir? 68Respondeu-Lhe Simão Pe­dro: Para quem iremos nós, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna! 69E nós acreditamos e sabemos que Tu és o Santo de Deus!

Comentário

60-62. O mistério eucarístico aparece incompreensível para muitos dos ouvintes. Jesus Cristo exige dos Seus discípulos que aceitem as Suas palavras por ser Ele quem as diz. Nisto consiste o acto sobrenatural da fé: «em que, com inspiração e ajuda da graça de Deus, cremos ser verdadeiro o que por Ele foi revelado, não pela verdade intrínseca das coisas percebidas pela luz natural da razão, mas pela autori­dade do próprio Deus que revela, o qual não pode nem enganar-Se nem enganar-nos» (Dei Filius, cap. 3).

Como noutras ocasiões, Jesus Cristo fala de aconteci­mentos futuros, preparando assim a fé dos Seus discípulos: «Disse-vo-lo agora, antes que suceda, para que quando acontecer creiais» (Ioh14,29).

63. Jesus diz que não podemos aceitar este mistério pensando de modo carnal, isto é atendendo exclusivamente ao que apreciam os nossos sentidos ou partindo de uma visão das coisas meramente natural. Só quem escuta as Suas Palavras e as recebe como revelação de Deus, que é «espírito e vida», está disposto a aceitá-las.

66. A promessa da Eucaristia, que tinha provocado naqueles ouvintes de Cafarnaum discussões (v. 52) e escân­dalo (v. 61), acaba por produzir o abandono de muitos que O tinham seguido. Jesus tinha exposto uma verdade maravilhosa e salvífica, mas aqueles discípulos fechavam-se à graça divina, não estavam dispostos a aceitar algo que supe­rava a sua mentalidade estreita. O mistério da Eucaristia exige um especial acto de fé. Por isso, já São João Crisóstomo aconselhava: «Inclinemo-nos diante de Deus; não O contra­digamos, mesmo quando o que Ele diz possa parecer con­trário à nossa razão e à nossa inteligência (…). Observemos esta mesma conduta relativamente ao mistério (eucarístico), não considerando somente o que cai debaixo dos sentidos, mas atendendo às Suas palavras. Porque a Sua palavra não pode enganar»(Hom. sobre S. Mateus, 82).

67-71. Este passo é parecido ao da confissão de Pedro em Cesareia de Filipe (cfrMt 16,13-20; Mc 8,27-30), onde também o Príncipe dos Apóstolos se adianta em nome dos Doze a expressar a sua fé em que Jesus é o Messias. Perante a incredulidade de outros ouvintes, os Apóstolos não se escan­dalizam do que o Senhor disse, mas mostram ter já uma confiança muito arraigada no Mestre, a quem não querem abandonar. As palavras de Simão Pedro (v. 68) não só são uma adesão humana, mas uma verdadeira fé sobrenatural, embora ainda imperfeita, fruto de uma moção interna da graça divina (cfrMt 16,17).

Ainda que os Doze assintam então, mais tarde Judas atraiçoaria o Mestre. A previsão por parte de Jesus desta futura infidelidade ensombra a alegria da adesão dos Doze. Nós cristãos devemos ter a humildade de nos reconhecermos capazes de atraiçoar o Senhor se abandonamos os meios que nos deixou para permanecer unidos a Ele. As palavras de Pedro (v. 68) são uma formosa jaculatória para repetir na hora da provação.

68. Simão Pedro exprimiu os sentimentos dos Após­tolos, que, ao perseverarem junto do Mestre, O iam conhecendo mais profundamente e iam unindo as suas vidas à d’Ele. « Buscai a Jesus esforçando-vos por conseguir uma fé pessoal profunda que informe e oriente toda a vossa vida; mas sobretudo que seja o vosso compromisso e o vosso programa amar Jesus, com um amor sincero, autêntico e pessoal. Ele deve ser vosso amigo e vosso apoio no caminho da vida. Só Ele tem palavras de vida eterna» (João Paulo II, Discurso aos estudantes).

69. «O Santo de Deus»: Assim parece ser a frase original, segundo consta na maioria dos códices gregos e versões antigas mais importantes. «O Santo» é uma das expressões que designam o Messias (cfr Mc 1,24; Lc 1,35; 4,34; Act 2,27; Ps 16,10),ou o próprio Deus (cfrIs 6,3;43.15; 1Pet1,15; 1Ioh 2,20; etc.). A leitura «o Cristo, o Filho de Deus» de algumas versões, entre elas a Vulgata, está apoiada em manuscritos gregos menos importantes, e seria uma explicação do signi­ficado messiânico da frase original.

24.08.2015 – Jo1, 45-51

45Encontra Filipe a Natanael e diz-lhe: Aquele de quem Moisés escreveu na Lei, bem como os profetas, aca­bamos de encontrá-Lo. É Jesus de Nazaré, filho de José. 46Diz-lhe Natanael: De Nazaré pode vir alguma coisa boa? Vem ver — res­ponde-lhe Filipe.

47Jesus, vendo Natanael, que vinha ao Seu encontro, diz acerca dele: Aí está um autên­tico israelita, em quem não há fingimento! 48Diz-Lhe Natanael: Donde me conheces? Respondeu-lhe Jesus, dizendo: Antes de Fi­lipe te haver chamado, quando estavas de­baixo da figueira, Eu vi-te! 49Volveu-Lhe Natanael: Rabi, Tu és o Filho de Deus, Tu és o Rei de Israel. 50Retorquiu-lhe Jesus, nestes termos: Porque te disse: «Eu vi-te debaixo da figueira», acreditas? Verás coisas maiores do que estas. 51E acrescentou: Em verdade, em verdade vos digo: Heis-de ver o Céu aberto e os Anjos de Deus subir e descer por sobre o Filho do homem.

Comentário

45-51. O apóstolo Filipe não pode deixar de transmitir ao seu amigo Natanael (Bartolomeu) a alegria da sua desco­berta, cheio de emoção (v. 45). «Natanael (…) tinha ouvido pelas Escrituras que o Cristo devia vir de Belém, da aldeia de David. Assim o criam os judeus e o tinha anunciado, tempo atrás, o profeta: ‘E tu, Belém, não és certamente a menor entre as principais cidades de Judá; pois de ti sairá um chefe, que apascentará o Meu povo, Israel’ (Mich 5,2). Portanto, ao escutar que provinha de Nazaré turvou-se e duvidou por não ver como compaginar as palavras de Filipe com a predição profética»(Hom. sobre S. João, 20,1).

Pense o cristão que ao transmitir a sua fé a outros, estes podem apresentar-lhe dificuldades. Que deve fazer? O que fez Filipe: não confiar nas suas próprias explicações, mas convidá-los a vir pessoalmente até Jesus: «Vem ver» (v. 46). O cristão, pois, deve pôr os seus irmãos os homens diante do Senhor através dos meios da graça que Ele próprio deu e a Igreja administra: frequência de Sacramentos e prática da piedade cristã.

Natanael, homem sincero (v. 47), acompanha Filipe até Jesus. Estabelece-se o contacto pessoal com o Senhor (v. 48). E o resultado é a fé do novo discípulo, fruto do seu bom acolhimento da graça, que lhe chega através da Humani­dade de Cristo (v. 49).

Segundo podemos deduzir dos Evangelhos, Natanael é o primeiro Apóstolo que faz uma confissão explícita de fé em Jesus como Messias e como Filho de Deus. Mais tarde São Pedro, de modo mais solene, reconhecerá a divindade do Senhor (cfrMt 16,16). Aqui (v. 51) Jesus evoca um texto de Daniel (7,13) para confirmar e dar profundidade às palavras que pronunciou o novo discípulo.

25.08.2015 – Mt 23, 23-26

23Ai de vós, Escribas e Fariseus hipócritas, que pagais os dízimos da hortelã, do endro e dos cominhos e deixais o que é de maior importância na Lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade. Estas são as coisas que devíeis praticar sem omitir aquelas. 24Guias cegos, que filtrais o mosquito e engulis o camelo.

25Ai de vós Escribas e Fariseus hipócritas, que limpais por fora o copo e o prato quando, por dentro, estão cheios de rapina e de cobiça. 26Fariseu cego, começa por limpar o interior do copo e do prato para que o exterior fique limpo!

Comentário

23. A hortelã, o endro (ou anis) e o cominho são ervas que os Judeus cultivavam e empregavam para aromatizar as casas ou para condimentar a comida. Sendo produtos insigni­ficantes não entravam no preceito moisaico do pagamento dos dízimos (Lev 27, 30-33; Dt 14, 22 ss.); este dizia respeito aos animais domésticos e a alguns dos produtos mais correntes do campo: trigo, vinho, azeite, etc. Não obstante, os fariseus, para ostentar o seu respeito escrupuloso pela Lei, pagavam os dízimos inclusive daquelas ervas. Era uma falsa manifestação de generosidade e de acatamento da Lei: o Senhor não a despreza nem a rejeita, apenas restabelece a ordem das coisas. E inútil cuidar os pormenores secundários, se não se cuidam as coisas fundamentais e verdadeiramente importantes: a justiça, a misericórdia e a fidelidade.

24. Por escrúpulo de não se exporem a tragar algum insecto declarado impuro pela Lei, os fariseus chegavam a filtrar as bebidas através de um lenço. Nosso Senhor reprova-os por esse modo ridículo de se comportarem: filtrar cuidadosamente um mosquito, ter escrúpulo da menor coisa e tragar sem vacilação de nenhuma espécie o camelo: cometer grandes pecados.

25-26. Antes o Senhor tinha reprovado os fariseus pela sua hipocrisia nas práticas de piedade; aqui lança-lhes à cara a sua simulação no terreno moral. Os Judeus faziam nume­rosas abluções de pratos, copos e objectos de mesa, segundo as condições requeridas sobre a pureza legal (cfr Mc 7,1-4).

A imagem utilizada aponta para um nível mais profundo: o cuidado da pureza moral que está no interior do homem. Esta é a que primordialmente interessa: limpeza de coração, rectidão de intenção, coerência entre palavras e obras, etc.

26.08.2015 – Mt 23, 27-32

27Ai de vós, Escribas e Fariseus hipócritas, que sois semelhantes a sepulcros branqueados, que por fora parecem belos; dentro, porém, estão cheios de ossos de mortos e de toda a imundice. 28Assim também vós, por fora pareceis justos aos homens, mas, por dentro, estais cheios de hipocrisia e de iniquidade.

29Ai de vós, Escribas e Fariseus hipócritas, que construís os sepulcros dos profetas, adornais os monumentos dos justos 30e dizeis: « Se vivêssemos nos dias dos nossos pais, não teríamos sido seus cúmplices no sangue dos profetas.» 31Assim testemunhais contra vós mesmos que sois filhos dos que mataram os profetas. 32Acabai, também vós, de encher a medida de vossos pais!

Comentário

27-28. Era costume entre os Judeus branquear com cal os sepulcros todos os anos, um pouco antes da festa da Páscoa. Assim se podiam ver bem e evitar roçar por eles, o que era causa de impureza durante sete dias (Num 19,16; cfrLc 1,44).

À plena luz do sol os sepulcros apareciam brancos e radiantes, enquanto no seu interior se ocultava a podridão.

29-32. O Senhor faz-lhes ver que são da mesma ralé que os seus antepassados, não porque construam mausoléus aos profetas e justos, mas porque continuam a imitar a maldade daqueles que os mataram. Aí está a sua hipocrisia, que os levará a ser piores que seus pais. Com ironia cheia de dor, Jesus Cristo diz-lhes que acabem de encher a medida dos seus antepassados.

Sem dúvida, refere-Se à Sua Paixão e Morte: se os antigos mataram os profetas, os contemporâneos do Senhor, fazendo-O padecer e morrer, acabarão de encher a medida dessa crueldade.

27.08.2015 – Lc7, 11-17

11Em seguida, dirigiu-Se a uma cidade chamada Naim, indo com Ele os Seus discípulos e grande multidão. 12Quando Se aproximava da porta da cidade, traziam um defunto a enterrar, filho único de sua mãe. Esta era viúva, e vinha a acompanhá-la bastante gente da cidade. 13Ao vê-la, o Senhor compadeceu-Se dela e disse-lhe: Não chores. 14Aproximando-Se, tocou no caixão e estacaram os que o transportavam. Depois disse: Meu rapaz, Eu to digo, levan­ta-te. I5O morto sentou-se e começou a falar; e Ele entregou-o à mãe. 16Encheram-se todos de temor e davam glória a Deus, dizendo: Surgiu entre nós um grande profeta, e Deus visitou o Seu povo. 17Divulgou-se este dito a Seu respeito na Judeia inteira e em toda a região circunvizinha.

Comentário

11-17.«Jesus vê a angústia daquelas pessoas com quem Se cruza ocasionalmente. Podia ter passado de lado ou ter esperado que O chamassem e Lhe fizessem um pedido. Mas não Se afasta, nem fica na expectativa. Toma Ele próprio a iniciativa, movido pela aflição de uma viúva que perdera a única coisa que lhe restava —o filho.

«Explica o evangelista que Jesus Se compadeceu- talvez a Sua comoção tivesse também sinais externos, como pela morte de Lázaro. Jesus não era, nem é, insensível ao padecimento que nasce do amor, nem sente prazer em separar os filhos dos pais. Supera a morte, para dar a vida, para que aqueles que se amam convivam, exigindo, antes e ao mesmo tempo, a preeminência do Amor divino que deve informar a autêntica existência cristã.

Cristo sabe que O rodeia uma grande multidão, a quem o milagre encherá de pasmo e que há-de ir apregoando o sucedido por toda aquela região. Mas o Senhor não actua com artificialismo, só para praticar um ‘feito’; sente-Se singelamente afectado pelo sofrimento daquela mulher; não pode deixar de a consolar. Então, aproximou-Se e disse-lhe: não chores (Lc 7, 13). Que é como se lhe dissesse: hão te quero ver desfeita em lágrimas, pois Eu vim trazer à Terra a alegria e a paz. E imediatamente se dá o milagre, manifes­tação do poder de Cristo, Deus. Mas antes já se dera a comoção da Sua alma, manifestação evidente da ternura do coração de Cristo, Homem»(Cristo que passa, n° 166).

15. A alegria da mãe ao recuperar vivo o seu filho recorda a alegria da Santa Madre Igreja pelos seus filhos pecadores regressados à vida da graça. «A mãe viúva — comenta Santo Agostinho — alegra-se com o seu filho ressus­citado. A Mãe Igreja alegra-se diariamente com os homens que ressuscitam na sua alma. Aquele, morto quanto ao corpo; estes, quanto ao seu espírito. Aquela morte visível chora-se visivelmente; a morte invisível destes nem se chora nem se vê. Busca estes mortos o que os conhece, o que os pode fazer regressar à vida»(Sermo98,2).

28.08.2015 – Mt 25, 1-13

Então será semelhante o Reino dos Céus a dez virgens que, tomando as suas lâmpadas, saíram ao encontro do esposo. Cinco delas eram loucas e cinco prudentes. 3 As loucas, tomando as lâmpadas, não tomaram consigo azeite. 4As prudentes, porém, tomaram azeite nas almotolias, junta­mente com as lâmpadas. 5Ora, como o esposo tardasse, começaram todas a cabecear e adormeceram. 6À meia-noite, ouviu-se um clamor: « Aí vem o esposo, saí-lhe ao encontro». 7Então todas aquelas virgens se levantaram e aprontaram as lâmpadas. 8As loucas, porém, disseram às prudentes: «Dai-nos do vosso azeite, que as nossas lâmpadas estão a apagar-se». 9Responderam as prudentes: «Não seja caso que não chegue para nós e para vós, ide antes comprá-lo aos vendeiros ». 10Enquanto o iam comprar, chegou o esposo. As que estavam preparadas entraram com ele para as bodas, e fechou-se a porta. 11Por fim, chegam também as outras virgens e dizem: «Senhor, Senhor, abre-nos!» 12Mas ele respondeu: «Em verdade vos digo que não vos conheço». 13Portanto, vigiai, porque não sabeis o dia nem a hora.

Comentário

1-13. O ensinamento principal da parábola é a exortação à vigilância: na prática é ter a luz da fé, que se mantém viva com o azeite da caridade. Entre os Hebreus as bodas celebravam-se em casa do pai da desposada. As virgens são as jovens não casadas, damas de honra da noiva, que esperam em casa desta a vinda do esposo. A atenção da parábola centra-se na atitude que se deve adoptar até à chegada do esposo. Com efeito, não é suficiente saber-se dentro do Reino, a Igreja, mas é preciso estar vigilantes e prevenir com boas obras a vinda de Cristo.

Essa vigilância há-de ser contínua, perseverante, porque contínuo é o ataque do demônio que, «como leão rugidor, vagueia à busca de quem devorar» (1Pet 5, 8). «Vela com ó coração, vela com a fé, com a caridade, com as obras (…); prepara as lâmpadas, cuida de que não se apaguem (…), alimenta-as com o azeite interior de uma recta consciência; permanece unido ao Esposo pelo Amor, para que Ele te introduza na sala do banquete, onde a tua lâmpada nunca se extinguira» (S. Agostinho, Sermo93).

29.08.2015 – Mc 6, 17-29

17De facto, Herodes mandara prender a João e pusera-o a ferros numa prisão por causa de Herodiade, mulher de seu irmão

Filipe, com a qual tinha casado. 18Porque João dizia a Herodes: Não te é lícito ter a mulher de teu irmão. 19Herodíade perseguia-o e queria fazê-lo condenar à morte, mas não podia. 20É que Herodes, sabendo que João era homem justo e santo, temia-o e protegia-o e, quando o ouvia, ficava muito perplexo, mas escutava-o com prazer. 21Chegou enfim um dia favorável, quando Herodes, no seu aniversário natalício, deu um banquete aos grandes da sua corte e aos oficiais e aos principais da Galileia. 22A filha da mesma Herodíade apresentou-se a dançar e agradou a Herodes e aos convivas, tanto que o rei disse à moça: Pede-me o que quiseres e dar-to-ei. 23E jurou-lhe: Tudo o que me pedires te darei, ainda que seja metade do meu reino. 24Ela saiu a perguntar à mãe: Que hei-de pedir? Respondeu-lhe: A cabeça de João Baptista. 25Voltou ela, a correr, à pre­sença do rei e fez-lhe assim o pedido: Quero que me dês agora mesmo, num prato, a cabeça de João Baptista. 26Entristeceu-se muito o rei, mas, por causa do juramento e dos convivas, não quis faltar-lhe à palavra. 27E logo o rei mandou um guarda com ordem de trazer a cabeça dele. Este foi e decapitou-o no cárcere; 28e trouxe a cabeça num prato e deu-a à moça, e a moça deu-a à mãe. 29Ao saberem disso, os seus discípulos vieram e levaram o corpo e depuseram-no num sepulcro.

Comentário

16-29. E de notar que se intercala no relato evangélico o extenso episódio da morte de João Baptista. A razão é que São João Baptista tem relevância especial na História da Salvação, porque é o Precursor, encarregado de preparar os caminhos do Messias. Por outro lado, João Baptista tinha um grande prestígio entre o povo: consideravam-no profeta (Mc 11,32) e alguns inclusivamente o Messias (Lc 3, 15; Ioh 1, 20) e acorriam a ele de muitos lugares (Mc 1, 5). O próprio Jesus chegou a dizer: «Entre os nascidos de mulher, não surgiu nenhum maior que João Baptista» (Mt 11,11). Mais tarde, o apóstolo São João voltaria a falar dele no seu Evangelho: « Houve um homem enviado por Deus, que se chamava João» (Ioh 1, 6). Mas no texto sagrado esclarece-se, não obstante, que o Baptista, apesar de tanto, não era a luz, mas a testemunha da luz (Ioh1, 6-8). Propriamente apenas era a lâmpada que levava a luz (Ioh 5,35).

De João Baptista é-nos dito aqui que era justo e que pregava a cada qual aquilo de que necessitava: à multidão do povo, aos publicanos, aos soldados (Lc 3,10-14); aos fariseus e aos saduceus (Mt 3, 7-12), ao próprio rei Herodes (Mc 6, 18-20). Este homem humilde, íntegro e austero, garante com a sua vida o testemunho que davam as suas palavras sobre o Messias Jesus (Ioh 1, 29.36-37).

26. Os juramentos e as promessas de conteúdo imoral não se devem fazer. E, se se fizeram, não se devem cumprir. Esta é a doutrina da Igreja, resumida pelo Catecismo Maior de São Pio X, n° 383, da seguinte maneira: «Estamos obrigados a manter o juramento de fazer coisas injustas ou ilícitas?Não só não estamos obrigados, mas, pelo contrário, pecamos ao fazê-las, como coisas proibidas pela Lei de Deus ou da Igreja».

30.08.2015 – Mc 7, 1-8.14-15.21-23

Ajuntaram-se depois à volta d’Ele os Fariseus e alguns Escribas vindos de Jerusalém. 2E, vendo alguns dos Seus discí­pulos a comer com as mãos profanas, isto é, sem as terem lavado; 3de facto, os Fariseus, como todos os Judeus, não comem sem ter lavado as mãos cuidadosamente, seguindo a tradição dos antigos; 4e, ao voltarem da praça, não comem sem se terem lavado; há ainda muitas outras cerimônias que observam por tradição, como abluções de copos e jarros e vasos de metal. 5Perguntaram-Lhe, pois, os Fariseus e os Escribas: Porque é que os Teus discípulos não se conformam com a tradição dos antigos e comem com as mãos profanas? 6Mas Ele disse-lhes: Bem profe­tizou Isaías de vós, hipócritas, como está escrito:

Este povo honra-Me com os lábios, mas o seu coração está longe de Mim.

7Em vão Me prestam culto, ensinando doutrinas que são preceitos humanos.

8Desprezando o mandamento de Deus, aferrais-vos à tradição dos homens, abluções de jarros e copos e fazeis muitas outras coisas semelhantes.

14E, chamando outra vez o povo, dizia-lhes: Ouvi-Me todos e entendei: 15Nada há fora do homem que, entrando nele, o possa tornar impuro; mas as coisas que saem do homem, essas é que tornam o homem impuro.

21Porque de dentro, do coração dos homens, saem os maus pensa­mentos, desonestidades, furtos, homicídios, 22adultérios, ambições, maldades, fraude, impudicícia, inveja, blasfêmia, soberba, insensatez. 23Todas estas coisas más procedem do interior e tornam o homem impuro.

Comentário

1-2. O lavar-se as mãos não era por meros motivos de higiene ou de urbanidade, mas tinha um significado religioso de purificação. Em Ex 30,17 ss. a Lei de Deus prescrevia a purificação dos sacerdotes antes das suas funções cultuais. A tradição judaica tinha-o ampliado a todos os israelitas para antes de todas as refeições, querendo dar a estas um significado religioso que se reflectia nas bênçãos com que começavam. A purificação ritual era símbolo da pureza moral com que uma pessoa deve apresen­tar-se diante de Deus (Ps 24,3 ss.; 51,4-9); mas os fariseus tinham conservado o meramente exterior. Por isso Jesus restitui o sentido genuíno destes preceitos da Lei, que tendem a ensinar a verdadeira adoração a Deus (cfrIoh4,24).

3-5. No texto vemos com clareza que boa parte dos destinatários imediatos do Evangelho de São Marcos eram cristãos procedentes do paganismo, que desconheciam os costumes dos Judeus. Por isso o Evangelista explica-lhes, com certo pormenor, alguns destes costumes para facilitar a compreensão do sentido dos acontecimentos e dos ensina­mentos da história evangélica.

De modo semelhante a pregação e ensino da Sagrada Escritura deve fazer-se de maneira que seja compreensível e acomodada às circunstâncias dos ouvintes. Por isso ensina o Concilio Vaticano II que «compete aos Bispos ensinar oportunamente os fiéis que lhes foram confiados no uso rectodos livros divinos, de modo particular do Novo Testamento, e sobretudo dos Evangelhos. E isto por meio de traduções dos textos sagrados, que devem ser acompanhadas às explicações necessárias e verdadeiramente suficientes, para que os filhos da Igreja se familiarizem dum modo seguro e útil com a Sagrada Escritura, e se penetrem do seu espírito»(Dei Verbum, n. 25).

15. Alguns códices importantes acrescentam aqui: «Quem !têm ouvidos para ouvir oiça…», que corresponderia ao v. 16, que a tradução portuguesa que transcrevemos refere.

20-23. «Na maneira de os homens se exprimirem, que a Sagrada Escritura utiliza para nos dar a entender as coisas divinas, o coração é tido por resumo e fonte, expressão e fundo íntimo dos pensamentos, das palavras, das acções» (Cristo que passa, nº164).

A bondade ou malícia, a qualidade moral dos nossos actos não depende do seu caracter espontâneo, instintivo. O próprio Senhor diz-nos que do coração humano podem sair acções pecaminosas.

Tal possibilidade compreende-se, se temos em conta que, depois do pecado original, o homem «foi mudado para pior» segundo o corpo e a alma e, portanto, está inclinado para o mal (cfrDe peccatooriginali). Com as palavras deste passo do Evangelho, o Senhor restitui a moral em toda a sua pureza e interioridade.

31.08.2015 – Lc4, 16-30

16Veio a Nazaré, onde Se tinha criado. Segundo o Seu costume, entrou em dia de sábado na sinagoga e levantou-Se para ler. 17Foi-Lhe entregue o Livro do Profeta Isaías e, ao abri-lo, deparou com a passagem em que estava escrito:

18OEspírito do Senhor está sobre Mim, por isso que Me ungiu.

A anunciar a Boa. Nova aos pobres Me enviou, a proclamar a libertação aos cativos e o recobrar da vista aos cegos, a mandar em liberdade os oprimidos, 19a proclamar um ano de graça do Senhor.

20E, depois de enrolar o livro, entregou-o ao empregado e sentou-Se. Estavam cra­vados n’Ele os olhos de quantos se encontra­vam na sinagoga. 21Começou então a dizer-lhes: Cumpriu-se hoje este passo da Escritura que acabais de ouvir. 22Todos davam testemunho em favor d’Ele e admiravam-se com as graciosas palavras que saíam da Sua boca. Não é Este — diziam — o filho de José? 23Disse-lhes Ele: Dir-Me-eis por certo este provérbio: Médico, cura-te a ti mesmo. Quanto ouvimos que se realizou em Cafarnaum, fá-lo aqui também na Tua terra. 24E continuou: Em verdade vos digo: Nenhum profeta é bem recebido na sua terra; 25mas, na realidade, vos digo Eu, muitas viúvas havia em Israel no tempo de Elias, quando o céu se fechou por três anos e seis meses e houve uma grande fome em toda a Terra, 26e a nenhuma delas foi mandado Elias, senão a uma viúva em Sarepta de Sidónia. 27E muitos leprosos havia em Israel, no tempo do Profeta Eliseu, mas nenhum deles foi limpo senão o sírio Naamã.

28Todos na sinagoga se encheram de furor, ao ouvirem estas coisas. 29Ergueram-se então, lançaram-No fora da cidade e levaram-No até a uma escarpa do outeiro em que estava construída a cidade, a fim de O precipitarem. 30Mas Jesus, passando pelo meio deles, seguiu o Seu caminho.

Comentário

16-30. O sábado era o dia de descanso e de oração para os Judeus, por mandamento de Deus (Ex 20,8-11). Neste dia reuniam-se para se instruírem na Sagrada Escritura. Começava a reunião recitando todos juntos a Shemá, resumo dos preceitos do Senhor, e as dezoito bênçãos. Depois lia-se um passo do livro da Lei — o Pentateuco —- e outro dos Profetas, O presidente convidava algum dos presentes que conhecesse bem as Escrituras a dirigir a palavra ao auditório. Por vezes levantava-se algum voluntariamente e solicitava a honra dei cumprir este encargo. Assim deve ter acontecido nesta ocasião. Jesus busca a oportunidade de instruir o povo (cfrLc 4,16 ss.), e o mesmo farão depois os Apóstolos (cfrAct13,5.14.42.44; 14,1, etc.). A reunião judaica terminava com a bênção sacerdotal, que recitava o presidente ou um sacerdote se o havia, à qual todos respondiam: «Amen» (cfr Num 6,22 ss.).

18-21. Jesus leu o passo de Isaías 61,1-2, onde o profeta anuncia a chegada do Senhor que libertará o povo das suas aflições. N’Ele se cumpre essa profecia, já que é o Ungido, o Messias que Deus enviou ao Seu povo atribulado. Jesus j recebe a unção do Espírito Santo para a missão que o Pai Lhe confia. «Segundo São Lucas (vv. 18-19), estas afirmações são a Sua primeira declaração messiânica, à qual se seguem os factos e as palavras conhecidos por intermédio do Evangelho.Mediante tais factos e palavras, Cristo torna o Pai presente no meio dos homens»(Dives in misericórdia n. 3).

As promessas anunciadas nos vv. 18 e 19 constituem o conjunto de bens que Deus enviaria ao Seu povo por meio do Messias. Por «pobres» deve entender-se, segundo a tradição do AT e a pregação de Jesus (cfr a nota a Mt 5,3), não tanta! uma determinada condição social mas antes a atitude religiosa de indigência e de humildade diante de Deus dos que, em vez de confiar nos seus próprios bens e méritos, confiam na bondade e misericórdia divinas. Por isso evangelizar os! pobres é anunciar-lhes a «boa notícia» de que Deus Se compadeceu deles. Do mesmo modo, a Redenção, a que alude o texto, tem sobretudo um sentido espiritual e trans­cendente: Cristo vem livrar-nos da cegueira e da opressão do pecado, que são, em última análise, a escravidão a que nos submeteu o demônio. «O cativeiro é sensível — ensina São João Crisóstomo num comentário ao Salmo 126 — quando procede de inimigos corporais; mas pior é o cati­veiro espiritual a que se refere aqui, já que o pecado produz a mais dura tirania, manda o mal e confunde os que lhe obedecem: deste cárcere espiritual nos tirou Jesus Cristo» (Catena Áurea). Não obstante, este passo cumpre-se, além disso, na preocupação que Jesus manifesta pelos mais neces­sitados. «De igual modo, a Igreja abraça com amor todos os afligidos pela enfermidade humana; mais ainda, reconhece nos pobres e nos que sofrem a imagem do seu Fundador, pobre e sofredor, procura aliviar as suas necessidades, e intenta servir neles a Cristo»(Lumengentiiim, n. 8).

18-19. As palavras de Isaías, que Cristo leu nesta ocasião, descrevem de modo gráfico a finalidade para que Deus enviou o Seu Filho: a redenção do pecado, a libertação da escravidão do demônio e da morte eterna. É certo que Cristo durante o Seu ministério público, movido pela Sua miseri­córdia, fez algumas curas, livrou alguns endemoninhados, etc. Mas não curou todos os doentes do mundo, nem suprimiu todas as penalidades desta vida, porque a dor, introduzida no mundo pelo pecado, tem um irrenunciável valor redentor unida aos sofrimentos de Jesus. Por isso, o Senhor realizou alguns milagres, que constituem não tanto o remédio das dores em tais casos concretos, mas a mostra da Sua missão divina de redenção universal e eterna.

A Igreja continua esta missão de Cristo: «Ide, pois, e fazei discípulos todas as gentes, baptizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo; e ensinando-as a observar tudo o que vos mandei.E sabei que Eu estou convosco todos os dias até ao fim do mundo» (Mt 28,19-20). São as palavras simples e sublimes do fim do Evangelho de São Mateus: aí está assinalada «a obrigação de pregar as verdades de fé, a urgência da vida sacramentai, a promessa da assistência contínua de Cristo à Sua Igreja. Não se é fiel ao Senhor se se desatendem essas realidades sobrenaturais: a instrução na fé e na moral cristãs, a prática dos sacramentos. Com este mandato Cristo funda a Sua Igreja (…). E a Igreja só pode dar a salvação às almas se permanece fiel a Cristo na sua consti­tuição, nos seus dogmas, na sua moral.

«Rejeitemos, portanto, o pensamento de que a Igreja — esquecendo o Sermão da Montanha — busca a felicidade humana na terra, porque sabemos que a sua única tarefa consiste em levar as almas à glória eterna do paraíso; rejei­temos qualquer solução naturalista, que não aprecie o papel primordial da graça divina; rejeitemos as opiniões materia­listas, que procuram fazer perder a sua importância aos valores espirituais na vida do homem; rejeitemos de igual modo as teorias secularizantes, que pretendem identificar os fins da Igreja de Deus com os dos Estados terrenos: confundindo a essência, as instituições, a actividade, com características semelhantes às da sociedade temporal» (J. Escrivá de Balaguer, Hom. O fim sobrenatural da Igreja).

18. Os Santos Padres veem designadas neste versículo as três Pessoas da Santíssima Trindade: o Espírito (Espírito Santo) do Senhor (o Pai) está sobre Mim (o Filho) (cfr Orígenes, Homília 32). O Espírito Santo habitava na alma de Cristo desde o instante da Encarnação, e desceu visível mente em forma de pomba quando foi baptizado por João (cfrLc 3,21-22).

«Por isso que Me ungiu»: Refere-se à unção que Jesus Cristo recebeu no momento da Encarnação, principalmente pela graça da união hipostática. «Esta unção de Jesus Cristo não foi corporal, como a dos antigos reis, sacerdotes e profetas, mas toda espiritual e divina, porque a plenitude da divindade habita n’Ele substancialmente» (Catecismo Maior, n° 77). Desta união hipostática deriva a plenitude de todas as graças. Para a significar diz-se que Jesus Cristo foi ungido pelo próprio Espírito Santo, e não só recebeu as graças e os dons do Espírito Santo, como os santos.

19. «Ano de graça»: Alude ao ano jubilar dos judeus, estabelecido pela Lei de Deus (Lev 25,8 ss.) cada cinquenta anos, para simbolizar a época de redenção e liberdade que trará o Messias. A época inaugurada por Cristo, o tempo da Nova Lei até ao fim deste mundo, é o «ano de graça», o tempo da misericórdia e da redenção, que se alcançarão completamente na vida eterna.

De maneira semelhante, a instituição do Ano Santo na Igreja Católica tem este sentido de anúncio e recordação da Redenção trazida por Cristo e da sua plenitude na vida futura.

20-22. As palavras dó versículo 21 mostram-nos a auto­ridade com que Cristo falava e explicava as Escrituras: «Cumpriu-se hoje este passo da Escritura que acabais de ouvir». Jesus ensina que esta profecia, como as principais do AT, se referem a Ele e n’Ele têm o seu cumprimento (cfrLc 24,44 ss.). Por isso, o AT não pode ser rectamente entendido senão à luz do NT: nisto consiste a inteligência para entender as Escrituras que Cristo Ressuscitado deu aos Apóstolos (cfrLc 24,45) e que o Espírito Santo completou no dia de Pentecostes (cfrAct 2,4).

22-29. Os habitantes de Nazaré escutam ao princípio com agrado as palavras cheias de sabedoria de Jesus. Mas a visão destes homens é muito superficial. Com um orgulho mesquinho sentem-se feridos pelo facto de Jesus, seu con­cidadão, não ter feito em Nazaré os prodígios que fez noutras cidades. Levados por uma confiança mal entendida, exigem-Lhe com insolência que faça ali milagres para agradar à sua vaidade, mas não para se converterem. Diante desta atitude Jesus não faz nenhum prodígio, seguindo o Seu modo habitual de proceder (veja-se, por exemplo, o encontro com Herodes em Lc 23,7-11); inclusivamente censura a sua posi­ção, explicando-lhes com dois exemplos tomados do AT (cfr1Reg 17,9 e 2Reg 5,14) a necessidade de uma boa disposição a fim de que os milagres possam dar origem à fé. A atitude de Cristo fere-os no seu orgulho até ao ponto de O quererem matar. Todo o episódio é uma boa lição para entender de veras a Jesus: só pode ser entendido na humildade e na séria resolução de nos pormos nas Suas mãos.

30. Jesus não foge precipitadamente, mas vai-Se reti­rando por entre a turba agitada com uma majestade que os deixou paralisados. Como noutras ocasiões, os homens não podem nada contra Jesus: o decreto divino era que o Senhor morresse crucificado (cfrIoh 18,32) quando chegasse a Sua hora.