Evangelho do dia – mês de abril de 2015

Abril de 2015

01.04.2015 – Mt 26, 14-25

14Então um dos doze, chamado Judas Iscariotes, foi ter com os Príncipes dos sacer­dotes 15e disse-lhes: Que me quereis dar para eu vo-Lo entregar? E eles deram-lhe em paga trinta moedas de prata. 16E desde então buscava uma ocasião oportuna para O en­tregar.

17No primeiro dia dos ázimos, aproximaram-se de Jesus os discípulos e disseram-Lhe: Onde queres que Te façamos os prepa­rativos para comer a Páscoa? 18E Ele disse: Ide à cidade, a casa de um tal e dizei-lhe: «O Mestre manda dizer: O Meu tempo está próximo: quero celebrar a Páscoa com os Meus discípulos em tua casa». 19Fizeram os discípulos como o Senhor lhes ordenara e prepararam a Páscoa.

20Ao anoitecer, estava Jesus à mesa com os doze; 21e durante a ceia disse: Em verdade vos digo que um de vós Me há-de entregar. 22Entristeceram-se eles profundamente e ca­da um começou a perguntar-Lhe: Porventu­ra sou eu, Senhor? 23Ele respondeu: O que mete comigo a mão no prato, esse Me há-de entregar. 24O Filho do homem vai, conforme está escrito d’Ele; mas ai daquele por quem o Filho do homem vai ser entregue. Melhor lhe fora a esse homem não ter nascido. 25Tomou aqui a palavra Judas, o que O traíra, e disse: Porventura sou eu, Rabi? E Ele respondeu: Tu o disseste.

Comentário

15. Desconcerta e põe de sobreaviso pensar como Judas Iscariotes chegou a vender quem ele tinha considerado como Messias e de quem tinha recebido o chamamento para o ministério apostólico. Trinta ciclos ou moedas de prata era o preço de um escravo (cfr Ex 21, 32), a mesma quantia pela qual Judas vendeu o Mestre.

17. Ázimos são os pães sem fermento que deviam comer-se durante sete dias, em recordação do pão sem fermentar que os Israelitas tiveram de tomar apressadamente ao sair do Egipto (cfr Ex 12, 34). No tempo de Jesus a ceia de Páscoa celebrava-se no primeiro dia da semana de Ázimos.

18. Embora a expressão indique uma pessoa, cujo nome não se diz, é de supor que o Senhor o tenha designado concretamente. Em qualquer caso, sabemos pelos outros evangelistas (Mc 14, 13 Lc 22, 10) que Jesus deu indicações suficientes para que os discípulos pudessem encontrar a casa.

22. Embora não tivessem sucedido ainda os aconteci­mentos gloriosos da Páscoa, que dariam aos Apóstolos um conhecimento superior sobre Jesus, contudo, no seu convívio com o Senhor e pela graça divina, que já tinham vindo a receber (cfr Mt 16, 17), os Apóstolos, ao longo do ministério público, tinham robustecido e aprofundado a sua fé em Jesus (cfr Ioh 2,11; 6, 68-69). Neste momento estão persuadidos de que o Senhor conhece as próprias disposições interiores deles e o que vão fazer. Por isso, cada um faz-Lhe a inquietante pergunta acerca da sua própria fidelidade futura.

24. Jesus alude a que Ele próprio Se entregará volunta­riamente à Paixão e à Morte. Com isso, também cumpria a Vontade divina, anunciada desde tempos antigos (cfr Ps 41, 10; Is 53, 7). Ainda que Nosso Senhor vá para a morte por própria vontade, não por isso diminui o pecado do traidor.

25. O anúncio da traição de Judas passou despercebido aos outros apóstolos (cfr Ioh 13,26-29).

 

02.04.2015 – Jo 13, 1-15

Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a Sua hora de passar deste mundo para o Pai, Ele que amara os Seus, que estavam no mundo, levou até ao extremo o Seu amor por eles. 2E, no decorrer da ceia, como o Diabo já tivesse metido na cabeça a Judas Iscariotes, filho de Simão, que O entregasse, 3sabendo Ele que o Pai tudo Lhe pusera nas mãos, e ainda que de Deus saíra e para Deus voltava, 4levanta-Se da mesa, depõe as vestes e, tomando uma toalha, põe-na à cintura. 5A seguir, deita água numa bacia e começa a lavar os pés aos discípulos e a enxugá-los com a toalha que pusera à cintura.

6Chega então a Simão Pedro. Senhor — Lhe diz ele — Tu vai lavar-me os pés?!

7Respondeu-lhe Jesus: O que Eu estou a fazer, não o podes entender por agora, hás-de compreendê-lo depois. 8Não — diz-lhe Pedro — nunca me lavarás os pés! Respon­deu-lhe Jesus: Se não te lavar, não terás parte comigo. 9Senhor — Lhe diz Simão Pedro — então não só os pés, mas também as mãos e a cabeça! 10Jesus respondeu-lhe: Quem tomou banho não precisa de se lavar; está todo limpo. Também vós estais limpos, mas não todos! … 11 É que Ele bem sabia quem O ia entregar; por isso é que disse: «Nem todos estais limpos». 12Depois de lhes lavar os pés, de retomar as vestes e de Se pôr de novo à mesa, disse-Ihes: 13Compreendeis o que vos fiz? Vós chamais-Me Mestre e Senhor, e dizeis bem, visto que o sou. 14Ora, se Eu vos lavei os pés, sendo Senhor e Mestre, também vós deveis lavar os pés uns aos outros. 15É que Eu dei-vos o exemplo para que, assim como Eu vos fiz, vós façais também.

Comentário

1-38. São João dedica uma grande parte do seu Evangelho (caps. 13-17) a narrar os ensinamentos de Jesus aos Apóstolos durante a Última Ceia. Nesta secção relata, além disso, alguns factos que não aparecem nos Sinópticos, como o lava-pés; e omite a instituição da Eucaristia, já transmitida pelos outros Evangelhos e por São Paulo (cfr Mt 26,26-28 e 1Cor 11,23-27), e de que o próprio São João falou no cap. 6. Nos capítulos 13 a 17 o Evangelista recorda extensamente as palavras do Senhor em ocasião tão solene.

O cap. 13 começa com uma descrição da importância do momento (vv. 1-3). A seguir narra-se o lava-pés (vv 4-11), e a explicação de Jesus deste facto (vv. 12-17). Relata depois a denúncia do que O ia entregar (vv. 18-32), e termina com o ensinamento do mandamento novo (vv. 33-35) e o anúncio da negação de Pedro (vv. 36-38).

1. As famílias hebreias imolavam um cordeiro na vés­pera da Páscoa, segundo o mandato divino recebido à saída do Egipto, quando Deus os livrou da escravidão do Faraó (Ex 12,3-14; Dt 16,1-8). Esta libertação prefigurava a que Jesus Cristo viria realizar: redimir os homens da escravidão do pecado, mediante o Seu sacrifício na Cruz (cfr 1,29). Por­tanto, a celebração da Páscoa hebraica era o enquadra­mento mais adequado para instituir a nova Páscoa cristã.

Jesus sabia tudo o que ia acontecer e que a Sua Morte e Ressurreição estavam iminentes (cfr 18,4); por isso as Suas palavras adquirem um tom especial de confidencia e amor por aqueles que deixava neste mundo. Chegado este mo­mento, rodeado dos que escolheu e creram n’Ele, deixa-lhes os Seus últimos ensinamentos e institui a Eucaristia, fonte e centro da vida da Igreja. «O próprio Senhor quis dar àquela reunião tal plenitude de significado, tal riqueza de recor­dações, tal comoção de palavras e de sentimentos, tal novidade de actos e de preceitos, que nunca acabaremos de meditá-los e de explorá-los. É uma cena testamentária; é uma cena afectuosa e imensamente triste, ao mesmo tempo que misteriosamente reveladora de promessas divinas, de visões supremas. Lança-se por cima a morte, com inauditos presságios de traição, de abandono, de imolação; a conversa apaga-se a seguir, enquanto a palavra de Jesus flui contínua, nova, extremamente doce, tensa em confidencias supremas, movendo-se assim entre a vida e a morte» (Paulo VI, Homília de Quinta Feira Santa).

O que Cristo fez pelos Seus pode resumir-se na frase «amou-os até ao fim». Isto indica a intensidade do amor de Cristo, que vai até dar a Sua vida (cfr Ioh 15,13); mas esse amor não termina com a Sua morte, porque Ele vive, e desde a Sua ressurreição gloriosa continua a amar-nos infinita­mente: «Não nos amou só até aqui quem nos ama sempre e sem fim. Não se pode pensar que a morte tenha posto fim ao amor d’Aquele que não Se extinguiu com a morte» (In Ioann. Evang., 55,2).

2. Os Evangelhos relatam que a presença e a acção do diabo aparecem ao longo da actividade de Jesus (cfr Mt 4,1-11; Lc 22,3; Ioh 8,44; 12,31; etc.). Satanás é o inimigo (Mt 13,39), o Maligno (1Ioh 2,Í3). São Tomás de Aquino (cfr Comentário sobre S. João, ad loc.) faz-nos notar como, neste passo, por um lado, se põe em realce a malícia de Judas, que não se rende diante de tanta prova de amor, e, por outro, sublinha-se a bondade de Cristo, que supera essa maldade diabólica ao lavar também os pés de Judas, a quem tratará como amigo até no momento supremo da traição (Lc 22,48).

3-6. Jesus, consciente de ser o Filho de Deus, humilha-Se voluntariamente até realizar a tarefa própria dos servos da casa. Este passo recorda o hino cristológico da carta de São Paulo aos Filipenses: «Cristo Jesus, sendo de condição divina, não considerou apetecível tesouro o ser igual a Deus, mas aniquilou-Se a Si mesmo, tomando a forma de servo…» (Phil 2,6-7).

Cristo tinha dito que viera ao mundo para servir e não para ser servido (Mc 10,45). Nesta cena ensina-nos o mesmo com um facto concreto, exortando-nos assim a servirmo-nos uns aos outros com toda a humildade e simplicidade (cfr Gal 6,2; Phil 2,3). «Diante dos discípulos, que discutiam por motivos de soberba e de vangloria, Jesus inclina-se e cumpre gostosamente o trabalho próprio de um servo (…). A mim comove-me esta delicadeza do nosso Cristo, porque não afirma: se Eu faço isto, quanto mais deveis fazer vós! Coloca-Se ao mesmo nível, não coage: fustiga amorosamente a falta de generosidade daqueles homens.

«Como aos primeiros Doze, o Senhor também nos pode insinuar a nós, como de facto nos insinua continuamente: exemplum dedi vobis (Ioh XIV, 15), dei-vos exemplo de humil­dade. Converti-Me em servo, para que vós saibais, com coração manso e humilde, servir todos os homens» (Amigos de Deus, n° 103).

Pedro compreende de maneira particular o profundo da humilhação do Senhor, e rebela-se, como já o fez noutras circunstâncias, opondo-se à ideia do sofrimento de Cristo (cfr Mc 8,32 e par.). Comenta Santo Agostinho: «Quem não se enche de assombro ao ver os seus pés lavados pelo Filho de Deus? (…). Tu? A mim? Mais que explicadas merecem ser meditadas estas palavras, não aconteça que a língua não seja capaz de exprimir o pouco que a nossa mente pode compreender do seu verdadeiro sentido» (In Ioann. Evang., 56,1).

7-14. Aquele gesto do Senhor tinha um profundo signi­ficado que São Pedro não podia compreender então, como também não tinha suspeitado antes dos planos salvíficos de Deus através da imolação de Cristo (ctr Mt 16,22 ss.). Depois da Ressurreição, os Apóstolos compreenderão esse mistério do serviço do Redentor; Jesus, mediante o lava-pés, exprimia de modo simples e simbólico que não tinha «vindo para ser servido, mas para servir». O Seu serviço, como já lhes tinha dito noutra ocasião, consiste sobretudo em «dar a Sua vida em redenção por muitos» (Mt 20,28; Mc 10,45).

Diz o Senhor aos Apóstolos que já estão limpos, porque aceitaram as Suas palavras e O seguiram (cfr 15,3), excepto Judas que tinha decidido atraiçoá-Lo. Assim comenta este passo São João Crisóstomo: «Estais limpos porque recebestes a Minha palavra, recebestes a luz, estais livres dos erros judaicos. Diz o Profeta: ‘Lavai-vos, purificai-vos, arremessai das vossas almas a perversidade’ (Is 1,16) (…). Jesus Cristo chama puros aos Apóstolos, segundo o que disse o Profeta, porque já arremessaram de si toda a malícia dos seus cora­ções e viveram com o seu Mestre em pureza de espírito e de coração» (Hom. sobre S. João, 70,3).

Por outro lado, quando o Senhor fala da limpeza dos Apóstolos, neste momento imediatamente anterior à insti­tuição da Santíssima Eucaristia, está a aludir à necessidade de ter a alma limpa de pecado para O receber. São Paulo repete este ensinamento quando diz: «Quem comer ou beber o cálice do Senhor indignamente será réu do Corpo e do Sangue do Senhor» (1Cor 11,27). A Igreja, fundamentada nestes ensinamentos de Jesus e dos Apóstolos, estabelece que para comungar é preciso confessar-se previamente, se há consciência, ou dúvida positiva, de pecado grave.

 

03.04.2015 – Jo 18, 1-19,42

Dito isto, saiu Jesus com os discípulos para o outro lado da torrente do Cedron, onde havia um jardim, em que Ele entrou com os discípulos. 2Ora Judas, o que O ia entregar, conhecia também aquele sítio, por Jesus Se ter lá reunido muitas vezes com os discípulos. 3Judas, portanto, depois de tomar a coorte e alguns dos guardas dos Sumos Sacerdotes e dos Fari­seus, vem ali ter, com archotes, lanternas e armas.

4Então Jesus, que sabia tudo o que Lhe ia acontecer, adiantou-Se e disse-lhes: A quem buscais? 5Responderam-Lhe: A Jesus de Nazaré! Sou Eu! — retorquiu-lhes Jesus. Judas, o que O ia entregar, também se encontrava com eles. 6Mas quando lhes disse: «sou Eu», recuaram e caíram por terra. 7Perguntou-lhes então novamente: A quem buscais? A Jesus de Nazaré! 8Já vos disse que sou Eu, replicou-lhes Jesus; se é, pois, a Mim que buscais, deixai que estes se retirem. 9Isto, para se cumprir a palavra que havia proferido: «Daqueles que Me deste, não perdi nenhum!»

10Então Simão Pedro, que tinha uma espada, puxou dela e feriu o criado do Sumo Sacerdote, cortando-lhe a orelha direita. O criado chamava-se Malco. 11Jesus, porém, disse a Pedro: Mete a espada na bainha. Não havia de beber o cálice que o Pai Me deu?

12 Então a coorte, o tribuno e os guardas dos Judeus apoderaram-se de Jesus, e liga­ram-No.

13E levaram-No a Anás em primeiro lugar, por ser o sogro de Caifás, que era o Sumo Sacerdote desse ano. 14Tinha sido Caifás que havia dado este conselho aos Judeus: «Interessa que morra um só homem pelo povo!» 15Entretanto, Simão Pedro ia seguindo a Jesus com outro discípulo. Esse discípulo era conhecido do Sumo Sacerdote e entrou juntamente com Jesus no pátio do Sumo Sacerdote, 16enquanto Pedro ficava à porta, do lado de fora. Saiu então o outro discí­pulo, conhecido do Sumo Sacerdote, falou à porteira e levou Pedro para dentro. 17Diz a Pedro a criada que servia de porteira: Tu não és também dos discípulos desse homem? Ele responde: Não sou! 18Achavam-se ali presentes os criados e os guardas, que, por estar frio, tinham feito um brasido e esta­vam a aquecer-se. Pedro encontrava-se igualmente ali com eles a aquecer-se.

19O Sumo Sacerdote interrogou Jesus sobre os Seus discípulos e a Sua doutrina.

Comentário

1. O capítulo anterior, em que se fala da glória do Filho de Deus (cfr Ioh 17,1.4.10.22.24), é um pórtico esplêndido com que São João apresenta a Paixão e Morte do Senhor como uma glorificação: sublinha a liberdade de Jesus ao aceitar a Sua Morte (14,31) e permitir que os Seus inimigos O prendam (18,4.11). O relato mostra a superio­ridade do Senhor sobre os que O julgam (18,20-21) ou O condenam (19,8.12); e a serenidade majestosa perante a dor física, que faz pensar, mais que nos tormentos que Jesus padece, na Redenção e no triunfo da Cruz.

Os capítulos 18 e 19 narram a Paixão e Morte de Nosso Senhor. São acontecimentos tão importantes e decisivos que todos os escritos do Novo Testamento, de uma forma ou de outra, tratam deles. Assim, os Evangelhos sinópticos rela­tam-nos extensamente. No livro dos Actos, juntamente com a Ressurreição, constituem o núcleo dos discursos dos Apóstolos. São Paulo explica o valor redentor do sacrifício de Jesus Cristo, e as epístolas católicas falam da Sua Morte salvadora. O mesmo acontece no Apocalipse, onde o grande Triunfador, o que está no trono celeste, é o Cordeiro sacrifi­cado, Cristo Jesus. Há que dizer, além disso, que os escri­tores sagrados sempre que falam da Morte do Senhor se referem a seguir à Sua gloriosa Ressurreição.

No Evangelho de São João citam-se cinco lugares ou cenários dos factos passados. O primeiro (18,1-12) é Getsemani, onde prendem Jesus. Depois (18,13-27) o Senhor é levado a casa de Anás, onde começa o processo religioso, e Pedro O nega diante dos criados do Pontífice. O terceiro lugar é o Pretório (18,28-19,16), onde se desenvolve o processo diante do procurador romano, que São João narra com amplitude, pondo em realce o verdadeiro caracter da realeza de Cristo, assim como a rejeição dos judeus que pedem a crucifixão do Senhor. A seguir (19,17-37) narram-se os factos passados depois da sentença injusta do procura­dor, centrando-se nos episódios do Calvário. Por último (19,31-42), como fazem os outros Evangelhos, São João relata a sepultura do Senhor no sepulcro sem estrear, que José de Arimateia tinha próximo do Calvário.

Todos estes acontecimentos culminam com a glorifi­cação de Jesus a que Ele próprio Se tinha referido (cfr Ioh 17,1-5): a Ressurreição e a exaltação junto do Pai (caps. 20-21).

Eis os conselhos que dá Frei Luis de Granada para meditar a história da Paixão de Nosso Senhor: «Há outras cinco coisas a que podemos ter respeito quando pensamos na sagrada Paixão (…). O primeiro, aqui podemos inclinar o nosso coração para a dor e o arrependimento dos nossos pecados, para o que nos é dado um grande motivo na Paixão do Salvador, pois é certo que tudo o que padeceu pelos pecados padeceu-o, de tal maneira que, se não houvesse pecados no mundo, não seria necessário tão custoso remédio. De maneira que os pecados, tanto os teus como os meus, como os de todo o mundo, foram os verdugos que O ataram, e O açoitaram, e O coroaram de espinhos, e O puseram na Cruz. Por isto verás quanta razão tens aqui para sentir a grandeza e a malícia dos teus pecados, pois realmente eles foram a causa de tantas dores, não porque eles levassem necessariamente o Filho de Deus a padecer, mas porque deles tomou ocasião a justiça divina para pedir tão grande satisfação.

«E não só para aborrecer o pecado, mas também para o amor das virtudes, temos aqui grandes motivos nos exemplos das virtudes deste Senhor, que assinaladamente resplan­decem na Sua sagrada Paixão, nas quais também devemos pôr os olhos para nos provocarmos à imitação delas, e particularmente na grandeza da Sua humildade, obediência, mansidão e silêncio, com todas as outras, porque esta é uma das mais altas e proveitosas maneiras que há de meditar a sagrada Paixão, que é por via de imitação.

«Outras vezes devemos pôr os olhos na grandeza do benefício que o Senhor aqui nos fez, considerando o muito que nos amou, e o muito que nos deu, e o muito que Lhe custou o que nos deu (…). Outras vezes convém levantar por aqui os olhos para o conhecimento de Deus, isto é, para considerar a grandeza da Sua bondade, da Sua misericórdia, da Sua justiça e da Sua benignidade, e assinaladamente da Sua ardentíssima caridade, a qual em nenhuma outra obra resplandece mais que na Sua sagrada Paixão. Porque como é maior argumento de amor padecer males pelo amigo do que fazer-lhe bens, e Deus podia uma coisa e outra (…), aprouve à Sua divina bondade vestir-Se de natureza em que pudesse padecer males, e tão grandes males, para que ficasse o homem de todo certificado deste amor, e assim se movesse a amar quem tanto o amou.

«Outras vezes, finalmente, pode considerar por aqui a alteza do conselho divino e a conveniência deste meio, que a sabedoria de Deus escolheu, para remédio do gênero humano; isto é, para satisfazer pelas nossas culpas, para inflamar a nossa caridade, para fortalecer a nossa paciência, para confirmar a nossa esperança, para curar a nossa soberba, a nossa avareza e os nossos regalos, e para inclinar as nossas almas para a virtude da humildade (…), para o aborrecimento do pecado e para o amor da Cruz» (Vida de Jesus Cristo, 15).

1-2. «Dito isto» é uma fórmula frequente no quarto Evangelho para indicar que começa um novo episódio relacionado com o que se acaba de narrar (cfr Ioh 2,12; 3,22; 5,1:6.1; 13,21…).

O Cédron (etimologicamente turvo, negro) é o fundo de um vale que só leva água na época das chuvas; separava Jeru­salém do monte das Oliveiras, em cuja falda se encontrava o horto de Getsemani (cfr Mt 26,32; Lc 21,37; 22,39). A distância do Cenáculo ao horto de Getsemani era de uns mil e duzentos metros.

3. Como a Judeia estava sob o domínio dos Romanos, havia em Jerusalém uma guarnição, composta de uma coorte (600 soldados) aquartelada na torre Antônia, ao mando de um tribuno. O Evangelista, ao dizer que Judas tomou «a coorte», exprime-se de um modo popular, que toma o todo pela parte; não quer dizer, portanto, que os 600 soldados foram em busca do Senhor. É de supor que os judeus, que tinham a sua própria guarda do Templo — os chamados «servidores dos pontífices» —, tinham solicitado algum apoio da coorte. Judas interveio para indicar ao chefe da guarda o lugar e a pessoa que iam prender.

4-9. Só o quarto Evangelho recolhe este episódio acontecido antes da prisão, e que nos recorda aquelas palavras do Salmo: «Retrocederão os meus inimigos no dia em que eu clame» (Ps 56,10). Resplandece a majestade do Senhor que Se entrega voluntária e livremente. Isto, porém, não quer dizer que aqueles judeus fiquem isentos de culpa. Santo Agostinho comenta assim este passo: «Os perseguidores, que vinham com o traidor para prender Jesus, encon­traram O que buscavam e ouviram-No dizer Eu sou. Por que não O prenderam, mas retrocederam e caíram? Porque assim o quis quem podia fazer o que queria. Se não o tivesse permitido, nunca teriam realizado o intento de O pren­derem, mas também Ele não teria cumprido a Sua missão. Eles buscavam com ódio O que queriam matar; Jesus, pelo contrário, buscava-nos com amor querendo morrer. E assim, depois de manifestar o Seu poder àqueles que sem poderem fazê-lo queriam prendê-Lo, prendê-lo-ão e deste modo cum­prirá o Seu desejo por meio daqueles que o ignoravam» (In Ioann. Evang., 112,3).

Por outro lado, emociona contemplar Jesus com cuida­dos pelos Seus discípulos, quando era Ele quem corria perigo. Tinha prometido que nenhum dos Seus se perderia, excepto Judas Iscariotes (cfr Ioh 17,12; 6,39): ainda que aquela promessa se referisse antes a preservá-los da conde­nação eterna, o Senhor preocupa-Se aqui também da sorte imediata dos Seus discípulos, que ainda não estavam prepa­rados para enfrentar o martírio.

10-11. Uma vez mais se manifesta o temperamento impetuoso e a lealdade de Pedro que, com o risco da própria vida, defende o Mestre. Pedro, porém, não tinha compreen­dido ainda os planos salvíficos de Deus; continua a resistir à ideia do sacrifício de Cristo, como já o tinha feito no momento do primeiro anúncio da Paixão (Mt 16,21-22). Cristo não aceitou aquela defesa violenta. As Suas palavras aludem à oração no horto (cfr Mt 26,39), em que tinha aceitado livremente a Vontade do Pai, entregando-Se sem resistência para levar a cabo a Redenção pela Cruz.

Devemos acatar a Vontade de Deus com a docilidade e prontidão com que Jesus enfrenta a Paixão. «Gradação: resignar-se com a Vontade de Deus; conformar-se com a Vontade de Deus; querer á Vontade de Deus; amar a Vontade de Deus» (Caminho, n° 774).

13-18. Jesus é levado à casa de Anás, que, embora já não fosse Sumo Pontífice, conservava uma grande influência religiosa e política no povo (cfr a nota a Lc 3,2). Os dois discípulos, Simão Pedro e outro, provavelmente o próprio João, estão desconcertados; não sabem que fazer e seguem-No de longe. A sua adesão e afecto a Jesus não eram ainda suficientemente sobrenaturais; à coragem e lealdade de antes sucede agora o desânimo. Esta situação desembocará na tripla negação de Pedro. O cristão, por mais nobres que sejam os seus sentimentos, também não terá a fortaleza para ser fiel às exigências da fé se não fundamentar a sua vida numa piedade profunda.

 

04.04.2015 – Mc 16, 1-7

Terminado o sábado, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé, compraram aromas para irem embalsamar a Jesus. 2E, no primeiro dia da semana, muito cedo, foram ao sepulcro, ao nascer do Sol. 3Diziam umas às outras: Quem nos vai revolver a pedra da entrada do sepulcro? 4Mas, olhando, viram que a pedra fora já revolvida: e era muito grande. 5Entrando no sepulcro, viram um jovem vestido de túnica branca, sentado do lado direito e ficaram assustadas. 6Mas ele disse-lhes: Não vos assusteis. Procurais a Jesus Nazareno, o crucificado. Ressuscitou, não está aqui. Vede o lugar onde O tinham posto. 7Agora ide, dizei aos Seus discípulos e a Pedro que Ele vai diante de vós para a Galileia. Lá O vereis, como vos disse.

Comentário

1. Na Lei de Moisés o descanso sabático tinha-se estabelecido, com caracter religioso e em certo modo social, com o fim de que os Israelitas pudessem dedicar-se à oração e ao culto de Deus; e também como uma forma de proteger o descanso dos trabalhadores. Com o tempo, os rabinos tinham levado até ao exagero uma minuciosa casuís­tica das coisas que se podiam e não se podiam fazer. Por esta causa as santas mulheres não podiam fazer no sábado os trabalhos que requeriam o embalsamar o corpo morto do Senhor e tiveram de esperar o primeiro dia da semana.

Desde os primeiros tempos da Igreja, este primeiro dia é chamado domingo, «dies Domini» — dia do Senhor —, por­que «depois da tristeza do sábado — comenta São Jerônimo — resplandece um dia feliz, o primeiro entre todos, iluminado com a primeira das luzes, já que nele se realiza o triunfo de Cristo ressuscitado» (Comm. in Marcum, ad loc.). Esta é a razão por que a Santa Madre Igreja designou o domingo como dia especialmente consagrado ao Senhor, mediante o descanso dominical e o preceito de assistir à Santa Missa.

3.4. Sobre a forma dos sepulcros judaicos e a pedra que cobria a porta de entrada, vide a nota a Mt 27,60.

5. Este, como muitos outros passos dos Evangelhos, mostra-nos a extremada sobriedade dos evangelistas na narração dos factos históricos. Pelo passo paralelo de São Mateus (28,5) sabemos que se trata de um anjo. Mas tanto Marcos como Lucas, limitam-se a referir o que as mulheres viram, sem mais interpretação.

6. O amor delicado destas mulheres impele-as, na medida em que a Lei o permite, a ir embalsamar o corpo morto de Jesus. O mesmo amor faz com que não reparem em dificuldades. E o Senhor premeia essa delicadeza com outra maior: ser as primeiras que teriam a notícia da Sua Ressur­reição. A Igreja sempre invocou a Santíssima Virgem «pró devoto femineo sexu»: em favor da piedosa mulher cristã. Com efeito, as mulheres, nos momentos tremendos da Paixão e da Morte de Jesus, mostram-se mais fortes que os homens: «Mais forte a mulher que o homem, e mais fiel, no momento da dor. — Maria de Magdala e Maria de Clopas e Salomé!

«Com um grupo de mulheres valentes, como essas, bem unidas à Virgem Dolorosa, que labor de almas se faria no mundo» (Caminho, n.° 982).

«Jesus Nazareno, o crucificado»: O mesmo nome escrito no título da Cruz é proclamado pelo anjo para anunciar o triunfo glorioso da Sua Ressurreição. Desta forma São Marcos dá testemunho explícito da identidade do Crucifi­cado e do Ressuscitado. O corpo de Jesus, sobre o qual se enfureceram os homens, tem agora vida imortal.

«Ressuscitou»: A Ressurreição gloriosa de Jesus Cristo é o mistério central da nossa fé: «Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, é também vã a vossa fé» (1Cor 15,14).

É também o fundamento da nossa esperança: « Se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé; ainda permaneceis nos vossos pecados (…) Porque, se só para esta vida temos posta a nossa esperança em Cristo, somos os mais desgraçados de todos os homens» (1Cor 15,17.19). A Ressurreição supôs o triunfo de Jesus sobre a morte, o pecado, a dor e o poder do demônio. A Redenção que o Senhor realizou na Sua Morte è na Sua Ressurreição aplica-se ao crente por meio dos sacramentos, especialmente pelo Baptismo e pela Eucaristia: «Fomos sepultados juntamente com Ele por meio do Baptismo em ordem à morte, para que, assim como Cristo foi ressuscitado de entre os mortos pela glória do Pai, assim também nós caminhemos numa vida nova» (Rom 6,4). «Aquele que come a Minha carne e bebe o Meu sangue tem a vida eterna e Eu o ressuscitarei no último dia» (Ioh 6,54). A Ressurreição de Cristo dá também a norma da nossa vida: «Se, pois, ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus. Afeiçoai-vos às coisas lá de cima e não às da Terra» (Col 3,1-2). Ressuscitar com Cristo pela graça quer dizer que «assim como Jesus Cristo, por meio da Sua Ressurreição começou uma vida nova imortal e celeste, assim nós temos de começar uma nova vida, segundo o Espírito, renunciando totalmente e para sempre ao pecado e a tudo o que nos leva ao pecado, amando só a Deus e tudo o que nos leva a Deus» (Catecismo Maior, n.° 77).

7. A designação do apóstolo Pedro pelo seu nome, é uma maneira de destacar a figura de quem faz de cabeça no Colégio Apostólico, precisamente nuns momentos em que a perturbação e o desalento tinham feito presa neles. É também uma manifestação delicada de que Pedro foi perdoado das suas negações e uma confirmação do seu primado apos­tólico.

 

05.04.2015 – Jo 20, 1-9

No primeiro dia da semana, vem Maria de Magdala, de manhãzinha, ainda escuro, ao túmulo e vê a pedra retirada do túmulo. 2Corre então e vai ter com Simão Pedro e com o outro discípulo aquele que Jesus amava. Tiraram o Senhor do Túmulo, lhes diz ela, e não sabemos onde O puseram. 3Pedro saiu com o outro discípulo e vieram ambos ao túmulo.

4Corriam os dois juntamente, mas o outro discípulo antecipou-se, correndo mais depressa do que Pedro, e chegou primeiro ao túmulo. 5Debruçando-se, viu as ligaduras no chão, mas não entrou. 6Entretanto, chega também Simão Pedro, que o vinha seguindo, e entrando no túmulo, põe-se a observar as ligaduras que estavam no chão, 7e o lençol que estivera sobre a cabeça de Jesus, não colocado no chão com as liga­duras, mas à parte, enrolado para outro sítio. 8Nessa altura, entrou também o outro discípulo, que chegara primeiro ao túmulo: então viu e acreditou. 9De facto, ainda não tinham entendido a Escritura, segundo a qual Ele deve ressuscitar dos mortos.

Comentário

1-2. Os quatro Evangelhos narram os primeiros tes­temunhos das santas mulheres e dos discípulos acerca da Ressurreição gloriosa de Cristo. Tais testemunhos refe­rem-se, num primeiro momento, à realidade do sepulcro vazio (cfr Mt 28,1-15; Mc 16,1 ss.; Lc 24,1-12). Depois rela­tarão diversas aparições de Jesus Ressuscitado.

Maria Madalena é uma das que assistiam o Senhor nas Suas viagens (Lc 8,1-3); junto com a Virgem Maria seguiu-O corajosamente até à Cruz (Ioh 19,25), e viu onde tinham depositado o Seu Corpo (Lc 23,55). Agora, uma vez passado o repouso obrigatório do Sábado, vai visitar o túmulo. No­temos o pormenor evangélico: «De manhãzinha, ainda es­curo»: o amor e a veneração fazem-na ir sem demora junto ao Corpo do Senhor.

4. O quarto Evangelho põe em realce que, ainda que fossem as mulheres, e em concreto Maria Madalena, as primeiras a chegar ao sepulcro, são os Apóstolos os pri­meiros a entrar e a perceber os pormenores externos que mostram que Cristo ressuscitou (o sepulcro vazio, os tecidos «caídos», o sudário à parte). Dar testemunho deste facto será ponto essencial da missão que lhes confiará Cristo: «Sereis Minhas testemunhas em Jerusalém… e até aos confins da terra» (Act 1,8; cfr Act 2,32).

5-7. João, que chegou antes — quiçá porque era mais jovem —, não entrou, por deferência para com Pedro. Isto insinua que já então Pedro era considerado como cabeça dos Apóstolos.

As palavras que emprega o Evangelista para descrever o que Pedro e ele viram no sepulcro vazio exprimem com vivo realismo a impressão que lhes causou o que ali encontraram, e como ficaram gravados na sua memória alguns porme­nores à primeira vista irrelevantes. As características que apresentava o sepulcro vazio foram até tal ponto significativas que os fizeram intuir de algum modo a Ressurreição do Senhor. Alguns termos que aparecem no relato necessitam de ser explicados; a simples tradução dificilmente pode exprimir todo o conteúdo.

«As ligaduras no chão»: O particípio grego que traduzimos por «caídas» ou «no chão» parece indicar que as ligaduras tinham ficado aplanadas, como vazias ao ressuscitar e desa­parecer dali o corpo de Jesus, como se Este tivesse saído dos tecidos e das ligaduras sem ser desenroladas, passando através delas (tal como entrou mais tarde no Cenáculo «estando fechadas as portas»). Por isso, os tecidos estavam «caídos», «planos», «jacentes» segundo a tradução literal do grego, ao sair deles o Corpo de Jesus que os tinha mantido antes em forma avultada. Assim se compreende a admiração e a recordação indelével da testemunha. «O lençol… à parte, ainda enrolado para outro sítio»: A primeira observação é que o sudário, que tinha envolvido a cabeça, não estava em cima dos tecidos, mas ao lado. A se­gunda, mais surpreendente, é que, como os tecidos, conser­vava ainda a sua forma de envoltura, mas, de modo diferente daqueles, mantinha certa consistência de volume, à maneira de casquete, provavelmente devido ao endurecimento pro­duzido pelos unguentos. Tudo isso é o que parece indicar o correspondente particípio grego, que traduzimos por «en­rolado».

Destes pormenores na descrição do sepulcro vazio de­preende-se que o corpo de Jesus ressuscitou de maneira gloriosa, isto é, transcendendo as leis físicas. Não se tra­tava apenas da reanimação do corpo, como por exemplo, no caso de Lázaro, que necessitou de ser desligado das ligaduras e outros tecidos da mortalha para poder andar (cfr Ioh 11,44).

8-10. Como lhes tinha dito Maria Madalena, o Senhor não estava no sepulcro; mas os dois Apóstolos deram-se conta de que não podia tratar-se de um roubo, como ela supunha, pois viram que os tecidos e o sudário se encontravam colocados de um modo especial (cfr a nota a Ioh 20,5-7); ao vê-los assim começaram a compreender o que tantas vezes lhes tinha explicado o Mestre acerca da Sua Morte e Ressurreição (cfr Mt 16,21; Mc 8,31; Lc 9,22; etc.; cfr, além disso, as notas a Mt 12,39-40 e Lc 18,31-40).

O sepulcro vazio e os outros dados que o acompanham são sinais perceptíveis pelos sentidos; a Ressurreição, pelo contrário, ainda que possa ter efeitos comprováveis pela experiência, requer a fé para ser aceite. A Ressurreição de Cristo é um facto real e histórico: nova união do corpo e da alma de Jesus. Mas, sendo uma Ressurreição gloriosa — não como a de Lázaro—, que está muito acima do que pode­mos apreciar nesta vida, e supera, portanto, os limites da experiência sensível, requer-se uma ajuda especial de Deus — o dom da fé — para conhecer e aceitar com certeza este facto que, ao mesmo tempo que é histórico, é sobre­natural. Portanto, pode dizer-se com São Tomás de Aquino que «cada um dos argumentos de per si não bastaria para demonstrar a Ressurreição, mas, tomados em conjunto, manifestam-na suficientemente; sobretudo pelo testemunho da Sagrada Escritura (cfr especialmente Lc 24,25-27), pelo anúncio dos Anjos (cfr Lc 24,4-7) e pela palavra de Cristo confirmada com milagres» (cfr Ioh 3,13; Mt 16,21; 17,22; 20,18) (Suma Teológica, III, q. 55, a. 6 ad 1).

Além das predições de Cristo acerca da Sua Paixão, Morte e Ressurreição (cfr Ioh 2,19; Mt 16,21; Mc 9,31; Lc 9,22), já no Antigo Testamento estava anunciado o triunfo glorioso do Messias e, de certo modo, a Sua Ressurreição (cfr Ps 16,9; Is 52,13; Os 6,2). Os Apóstolos começam a com­preender o verdadeiro sentido da Sagrada Escritura depois da Ressurreição do Senhor, e mais especialmente quando recebem o Espírito Santo, que ilumina plenamente as suas inteligências para compreender o conteúdo da Palavra de Deus. É de supor a surpresa e o alvoroço de todos os discí­pulos ao ouvir contar a Pedro e a João o que tinham visto no sepulcro.

 

06.04.2015 – Mt 28, 8-15

8Elas saíram à pressa do sepulcro com medo e com grande alegria e correram a dar a notícia aos discípulos. 9E eis que Jesus lhes saiu ao encontro, dizendo: Deus vos salve. E elas aproximaram-se, abraçaram-se-Lhe aos pés e adoraram-No. 10Disse-lhes então Jesus: Não temais. Ide dar a notícia aos Meus irmãos, para que vão para a Galileia e lá Me verão.

11Enquanto iam de caminho, alguns dos soldados vieram à cidade e contaram aos Príncipes dos sacerdotes tudo o que tinha acontecido. 12Reuniram-se eles em conselho com os Anciãos e deliberaram dar uma boa soma de dinheiro aos soldados, 13ordenan-do-lhes: Dizei: Vieram de noite os Seus discípulos e roubaram-No, enquanto nós estávamos a dormir. 14E se isto chegar aos ouvidos do governador, nós o convenceremos e vos tiraremos de cuidados. 15Eles, tendo recebido o dinheiro, fizeram como lhes tinham ensinado. E esta versão divulgou-se entre os Judeus até ao dia de hoje.

Comentário

1-15. A Ressurreição de Jesus Cristo, realizada nas primeiras horas do domingo, é um facto que todos os Evangelhos afirmam de modo claro e rotundo: Umas santas mulheres comprovam com assombro que o sepulcro está aberto. Ao entrar no vestíbulo (cfr Mc 16, 5-6), veem um anjo que lhes diz: «Não está aqui, porque ressuscitou como tinha dito». Alguns guardas, os que estavam de vigia quando o anjo fez rodar a pedra, foram à cidade e comunicaram aos pontífices tudo o que tinha acontecido. Como o assunto era urgente, optaram por subornar os guardas: deram-lhes bastante dinheiro com a condição de divulgar que os Seus discípulos foram de noite e roubaram o corpo de Jesus! enquanto dormiam. «Astúcia miserável!, diz Santo Agostinho apresentas testemunhas adormecidas? Verdadeiramente estás, a dormir tu mesmo ao imaginar semelhante explicação!» (Enarrationes in Psalmos, 63, 1 5). Os Apóstolos que dias antes, tinham fugido por medo, serão agora, depois de O terem visto e de terem comido e bebido com Ele, os pregadores mais incansáveis deste facto. «Este Jesus — dirão — é quem Deus ressuscitou, do qual todos nós somos testemunhas» (Act 2,32).

Cristo, do mesmo modo que prediz a Sua subida a Jeru­salém, a Sua entrega nas mãos dos Judeus e a Sua morte, prediz a Sua Ressurreição ao terceiro dia (Mt 20, 17-19; Mc 10, 32-34; Lc 18, 31-34). Com a Ressurreição Jesus cumpre o sinal que sobre a Sua divindade tinha prometido dar aos incrédulos (Mt 12, 40).

A Ressurreição de Cristo é um dos dogmas fundamentais da nossa fé católica. Na verdade, São Paulo diz: «Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação; é também vã a vossa fé» (1Cor 15, 14). E para ratificar a afirmação de que Cristo ressuscitou diz-nos «que apareceu a Cefas, depois aos Doze. Depois apareceu uma vez a mais de quinhentos irmãos, dos quais muitos vivem ainda e alguns morreram; depois apareceu a Tiago; depois a todos os apóstolos; e depois de todos, como a um aborto, apareceu-me também a mim» (1Cor 15, 5-8). Já os primeiros Símbolos afirmam que Jesus ressuscitou ao terceiro dia (Símbolo de Niceia), pela sua própria virtude (Símbolo De Redemptione) , com uma verdadeira ressurreição da Sua carne (Símbolo de S. Leão IX), voltando a unir-Se a Sua alma com o Seu corpo (Eius exemplo), resultando este facto da ressurreição historicamente demonstrado e demonstrável (Lamentabili. n. 36).

«Pelo nome de Ressurreição não se deve entender unica­mente que Cristo ressuscitou de entre os mortos (…) mas que ressuscitou pela sua virtude e poder próprio, o que foi exclusivo e singular n’Ele (…); confirmou-o o próprio Senhor com o testemunho divino da Sua boca: ‘porque dou a Minha vida para a tomar de novo. Ninguém Ma tira mas Eu dou-a livremente. Tenho poder para a dar e tenho poder para a tomar de novo’ (Ioh 10, 17-18) (…). Igualmente disse aos Judeus, para confirmar a verdade da Sua doutrina: ‘Destruí este Templo e em três dias o levantarei… mas Ele falava do Templo do Seu corpo’ (Ioh 2, 19-21) (…). E embora leiamos alguma vez nas Escrituras que Cristo Nosso Senhor foi ressuscitado pelo Pai (cfr Act 2, 24; Rom 8, 11), isto deve ser-Lhe aplicado enquanto homem; assim como, por outra parte, se referem a Ele próprio enquanto Deus aqueles textos em que se diz que ressuscitou pela Sua própria virtude» (Catecismo Romano, 1,6, 8).

Não é uma volta ao seu anterior estado de vida terrestre, mas é Ressurreição gloriosa: isto é, plenitude de vida humana, imortal, libertado de todas as limitações de tempo e de espaço. Como consequência da Ressurreição o corpo de Cristo participa da glória que desde o princípio enchia a alma do Senhor. Aqui está a singularidade do facto histórico da Ressurreição, pelo que se constitui em objecto de fé. Nem todos podem vê-Lo, mas é uma graça que Ele concedeu a alguns, para que fossem as testemunhas dessa Ressurreição, e os outros creiam pelo testemunho deles.

A Ressurreição de Cristo foi necessária para que se completasse a obra da nossa Redenção. Porque Jesus Cristo com a Sua Morte livrou-nos dos pecados; mas com a Sua Ressurreição devolveu-nos os bens que tínhamos perdido pelo pecado e, além disso, abriu-nos as portas da vida eterna (cfr Rom 4, 25). Igualmente, o ter ressuscitado de entre os mortos pela Sua própria virtude é prova definitiva de que Cristo é o Filho de Deus e, portanto, a Sua Ressurreição confirma cumpridamente a nossa fé na Sua divindade.

A Ressurreição de Cristo, como foi indicado, é a verdade mais transcendente da nossa fé católica. Por isso Santo Agostinho exclama: «Não é grande coisa crer que Cristo morreu; porque isto também o creem os pagãos e judeus e todos os iníquos: todos creem que morreu. A fé dos cristãos é a Ressurreição de Cristo; isto é o que temos por coisa grande; o crer que ressuscitou» (Enarrationes in Psalmos, 120).

O mistério redentor do Senhor, que compreende a Sua Morte e a Sua Ressurreição, aplica-se a todo o homem pelo Baptismo e pelos outros sacramentos, mediante os quais fica o crente como que submerso em Cristo e na Sua morte, isto é, misticamente compenetrado, morto e ressuscitado com Cristo: «Pois fomos sepultados juntamente com Ele por meio do Baptismo em ordem à morte, para que, assim como Cristo foi ressuscitado de entre os mortos para a glória do Pai, assim também nós caminhemos numa vida nova» (Rom 6,4).

Sinais da nossa ressurreição com Cristo são o desejo ardente de buscar as coisas de Deus e, além disso, o gosto interior da alma por elas (cfr Col 3, 1-3).

07.04.2015 – Jo 20, 11-18

11Entretanto, Maria estava cá fora a chorar, junto do túmulo. Enquanto chorava, debruçou-se para dentro do túmulo e viu dois Anjos vestidos de branco, sen­tados, um à cabeceira e outro aos pés, onde jazera o corpo de Jesus. 13Mulher, pergunta­ram-lhe eles, porque choras? Porque tira­ram o meu Senhor, lhes diz ela, e não sei onde O puseram.

14Dito isto, voltou-se para trás e viu Jesus ali de pé. Não sabia, porém, que era Jesus. Mulher, diz-lhe Jesus, porque choras? A quem procuras? Ela supondo que era o jardineiro, respondeu-Lhe: Senhor, se foste Tu que O levaste, diz-me onde O puseste, para eu O ir buscar. 16Maria! diz-lhe Jesus. Ela, voltando-se, diz-Lhe em hebraico: Rabbuni que quer dizer: «Mestre!» 17Não Me prendas, responde-lhe Jesus, que ainda não subi para o Pai; mas vai ter com Meus irmãos e diz-lhes que vou subir para Meu Pai e vosso Pai, Meu Deus e vosso Deus. 18Maria de Magdala parte, para ir anunciar aos discípulos: Vi o Senhor! ajuntando o que Este lhe havia dito.

Comentário

11-18. São comovedores o carinho e a delicadeza desta mulher preocupada pela sorte do Corpo morto de Jesus. Leal na Paixão, o amor da que esteve possessa por sete demônios (cfr Lc 8,2) continua a ser grande e inflamado. O Senhor tinha-a livrado do Maligno, e aquela graça frutificou em correspondência humilde e generosa.

Depois de consolar a Madalena, Jesus dá-lhe uma men­sagem para os Apóstolos, a quem chama com o apelativo entranhável de «irmãos». Tal mensagem supõe um Pai comum, ainda que seja de modo essencialmente diferente: «Vou subir para Meu Pai — por natureza — e vosso Pai» — que o é pela adopção que ganhei para vós com a Minha morte —. É grande a misericórdia e a compreensão de Jesus que, como Bom Pastor, cuida de recolher os discípulos que O tinham abandonado na Paixão e que estavam escondidos por medo aos judeus (Ioh 20.19).

O exemplo de Maria Madalena, que persevera na fide­lidade ao Senhor em momentos difíceis, ensina-nos que quem busca com sinceridade e constância a Jesus Cristo acaba por O encontrar. O gesto familiar de Jesus que chama «irmãos» aos Seus discípulos, apesar de O terem abando­nado, deve encher-nos de esperança no meio das nossas infidelidades.

15. O diálogo de Jesus com a Madalena reflecte o estado de ânimo de todos os discípulos, que não esperavam a Ressurreição do Senhor.

17. «Não Me prendas»: No texto original esta frase está construída em imperativo presente, que indica continuidade da acção que se realiza. A frase negativa do texto grego, reflectida na Neo-vulgata («noli me tenere»), indica que o Senhor manda à Madalena que deixe de O reter, que O solte, pois ainda terá ocasião de O ver antes da Ascensão aos céus.

08.04.2015 – Lc 24, 13-35

13Ora, no mesmo dia, iam dois deles a caminho duma povoação, que dista cento e sessenta estádios de Jerusalém, chamada Emaús, 14e conversavam entre si sobre tudo o que havia acontecido. 15Enquanto eles conversavam e discutiam, acercou-Se o pró­prio Jesus e pôs-Se com eles a caminho. 16Os seus olhos, porém, estavam impedidos de O reconhecerem. 17Disse-lhes Ele: Que palavras são essas que trocais entre vós, a andar? Estacaram acabrunhados. 18E um deles, cha­mado Cléopas, disse-Lhe em resposta: Tu és o único forasteiro em Jerusalém a não saber o que lá se passou nestes dias! 19Disse-lhes Ele: Que foi? Eles retorquiram-Lhe: O que se refere a Jesus de Nazaré, que foi um profeta poderoso em obras e palavras, diante de Deus e de todo o povo; 20como O entregaram os Sumos Sacerdotes e os nossos chefes, para ser condenado à morte, e O fizeram crucificar. 21Nós esperávamos que Ele fosse o futuro Libertador de Israel. Mas, com tudo isto, lá vai o terceiro dia desde que se deram estas coisas. 22Certo é que algumas mulheres do nosso grupo nos sobressaltaram: indo de madrugada ao túmulo 23e, não Lhe achando o corpo, vieram dizer que tinham tido, além disso, a visão duns Anjos, que afirmavam que Ele vivia. 24Foram então alguns dos nossos companheiros ao túmulo e acharam as coisas como as mulheres haviam decla­rado; mas a Ele não O viram.

25Então, Ele disse-lhes: Ó homens sem compreensão e lentos de espírito em crer em tudo o que disseram os Profetas. 26Não tinha o Messias de sofrer essas coisas, para entrar na Sua glória? 27Depois, começando por Moisés e seguindo por todos os profetas, explicou-lhes em todas as Escrituras o que Lhe dizia respeito. 28Ao chegarem junto da povoação para onde iam, fez menção de seguir mais para a frente. 29Mas os outros fizeram pressão sobre Ele: Fica connosco — diziam — porque está a entardecer e o dia já declinou. Entrou, então, para ficar com eles. 30Quando Se pôs com eles à mesa, tomou o pão, pronunciou a bênção e depois de o partir, entregou-lho. 31Abriram-se-lhes os olhos e reconheceram-No; mas Ele desapa­receu da presença deles. 32Disseram então um para o outro: Não estava a arder cá dentro o nosso coração, quando Ele nos falava no caminho e nos desvendava as Escrituras? 33Partindo no mesmo instante, voltaram para Jerusalém e acharam reu­nidos os onze e os seus companheiros, 34que diziam: Realmente o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão. 35E eles puseram-se a contar o que se tinha passado no caminho e como Jesus Se lhes dera a conhecer ao partir do pão.

Comentário

13-35. Ao longo da conversa com Jesus os discípulos passam da tristeza à alegria, recuperam a esperança e com isso o afã de comunicar o gozo que há nos seus corações, tornando-se deste modo anunciadores e testemunhas de Cristo ressuscitado.

Esta é uma das cenas exclusivas de São Lucas, descrita com grande mestria literária. Apresenta-nos o zelo apostó­lico do Senhor. «Jesus caminha junto daqueles dois homens que perderam quase toda a esperança, de modo que a vida começa a parecer-lhes sem sentido. Compreende a sua dor, penetra nos seus corações, comunica-lhes algo da vida que Nele habita.

«Quando, ao chegar àquela aldeia, Jesus faz menção de seguir para diante, os dois discípulos retêm-No e quase O forçam a ficar com eles. Reconhecem-No depois ao partir o pão: — O Senhor, exclamam, esteve connosco! Então disseram um para o outro: Não é verdade que sentíamos abrasar-se-nos o coração dentro de nós, enquanto nos falava no caminho e nos explicava as Escrituras? (Lc XXIV, 32). Cada cristão deve tornar Cristo presente entre os homens; deve viver de tal maneira que todos com quem contacte sintam o bônus odor Christi (cfr 2Cor 11,15), o bom odor de Cristo, deve actuar de forma que, através das acções do discípulo, se possa descobrir o rosto do Mestre» (Cristo que passa, n.° 105).

13-27. A conversa dos dois discípulos com Jesus a caminho de Emaús resume perfeitamente a desilusão dos que tinham seguido o Senhor, diante do aparente fracasso que representava para eles a Sua morte. Nas palavras de Cléofas está recolhida a vida e a missão de Cristo f v. 19), a Sua Paixão e Morte (v. 20), o desalento destes discípulos ao cabo de três dias (v. 21), e os factos acontecidos na manhã do domingo (v. 22).

Já antes Jesus tinha dito aos Judeus: «Investigai as Escrituras, já que vós pensais ter nelas a vida eterna: elas são as que dão testemunho de Mim» (Ioh 5,39). Dá-nos assim um caminho seguro para O conhecermos. O Papa Paulo VI assi­nala que também hoje o uso frequente e a devoção à Sagrada Escritura é uma moção clara do Espírito Santo: «O progresso dos estudos bíblicos, a crescente difusão da Sagrada Escri­tura e, sobretudo, o exemplo da Tradição e a moção íntima do Espírito orientam os cristãos do nosso tempo a servir-se cada vez mais da Bíblia como do livro fundamental de oração, e a buscar nela inspiração genuína e modelos insuperáveis» (Marialis cultus, n. 30).

Jesus, em resposta ao desalento dos discípulos, vai pacientemente descobrindo-lhes o sentido de toda a Sagrada Escritura acerca do Messias: «Não era preciso que o Cristo padecesse estas coisas e assim entrasse na Sua glória?». Com estas palavras o Senhor desfaz a ideia que ainda poderiam ter de um Messias terreno e político, fazendo-lhes ver que a missão de Cristo é sobrenatural: a Salvação do gênero humano.

Na Sagrada Escritura estava anunciado que o plano salvador de Deus se realizaria por meio da Paixão e Morte redentora do Messias. A Cruz não é um fracasso, mas o caminho querido por Deus para o triunfo definitivo de Cristo sobre o pecado e sobre a morte (cfr 1Cor 1,23-24). Muitos contemporâneos do Senhor não compreenderam a Sua missão sobrenatural por não terem interpretado correctamente os textos do AT. Ninguém como Jesus pode conhecer o verdadeiro sentido das Escrituras Santas. E, depois d’Ele, só a Igreja tem a missão e o ofício de as interpretar autentica­mente: «Com efeito, tudo quanto diz respeito à interpre­tação da Escritura, está sujeito ao juízo último da Igreja, que tem o divino mandato e o ministério de guardar e interpretar a palavra de Deus» (Dei Verbum, n. 12).

28-35. A presença e a palavra do Mestre recupera estes discípulos desalentados, e acende neles uma esperança nova e definitiva: «Iam os dois discípulos para Emaús. O seu caminhar era normal, como o de tantas outras pessoas que transitavam por aquelas paragens. E aí, com naturalidade, aparece-lhes Jesus e vai com eles, com uma conversa que diminui a fadiga. Imagino a cena: já bem adiantada a tarde, sopra uma brisa suave; de um lado e de outro, campos semeados de trigo já crescido e as velhas oliveiras com os ramos prateados pela luz indecisa…

«Jesus, no caminho! Senhor, que grande és Tu sempre! Mas comoves-me quando Te rebaixas para nos acompanhares, para nos procurares na nossa lida diária. Senhor, concede-nos a ingenuidade de espírito, o olhar limpo, a mente clara, que permitem entender-Te, quando vens sem nenhum sinal externo da Tua glória!

«Termina o trajecto ao chegar à aldeia e aqueles dois que, sem o saberem, tinham sido feridos no fundo do coração pela palavra e pelo amor de Deus feito homem, têm pena de que Ele se vá embora. Porque Jesus despede-Se como quem vai para mais longe (Lc 24, 28). Nosso Senhor nunca Se impõe. Quer que O chamemos livremente, desde que entre­vimos a pureza do Amor que nos meteu na alma. Temos de O deter à força e pedir-Lhe: fica connosco, porque é tarde e já o dia está no ocaso (Lc 24,29), faz-se de noite.

«Somos assim: sempre pouco atrevidos, talvez por falta de sinceridade, talvez por pudor. No fundo pensamos: fica connosco, porque as trevas nos rodeiam a alma e só Tu és luz, só Tu podes acalmar esta ânsia que nos consome! Porque entre as coisas belas, honestas, não ignoramos qual é a primeira: possuir sempre Deus (São Gregório Nazianzeno, Epistulae, 212).

«E Jesus fica. Abrem-se os nossos olhos como os de Cléofas e do seu companheiro, quando Cristo parte o pão; e, mesmo que Ele volte a desaparecer da nossa vista, também seremos capazes de empreender de novo a marcha — anoitece — para falar d’Ele aos outros; porque tanta alegria não cabe num só coração…

«Caminho de Emaús… O nosso Deus encheu de doçura este nome. E Emaús é o mundo inteiro, porque o Senhor abriu os caminhos divinos da terra» (Amigos de Deus, n.os 313-314).

30-31. Muitos Santos Padres viram nesta acção do Senhor uma consagração do pão como na Última Ceia. O modo peculiar com que abençoa e parte o pão fá-los ver que é Ele.

Na vida da Igreja a liturgia sempre teve uma grande importância como culto a Deus, como expressão da fé e como catequese eficaz das verdades reveladas. Por isso, os gestos externos — as cerimônias litúrgicas — hão-de ser observados com a maior fidelidade: «Regular a sagrada Liturgia compete unicamente à autoridade da Igreja, a qual reside na Sé Apostólica e, segundo as normas do direito, no Bispo (…). Por isso, ninguém mais, mesmo que seja sacerdote, ouse, por sua iniciativa, acrescentar, suprimir ou mudar seja o que for em matéria litúrgica» (Sacrosanctum Concilium, n 221) Tem veneração e respeito pela santa Liturgia da Igreja e por cada uma das suas cerimônias. — Cumpre-as fielmente. — Não vês que nós, os pobrezitos dos homens, necessitamos que até as coisas mais nobres e grandes entrem pelos sentidos?» (Caminho, n° 522).

32. «Estas palavras dos discípulos de Emaús deviam sair espontaneamente dos lábios dos teus companheiros de profissão, depois de te encontrarem a ti no caminho da vida» (Caminho, n° 917).

33-35. Os discípulos de Emaús sentem agora a urgência de voltar a Jerusalém, onde os Apóstolos e alguns outros discípulos se encontram reunidos com Pedro, a quem Jesus apareceu.

Na História Sagrada, Jerusalém foi o lugar onde Deus quis ser louvado de modo particular, e ali os profetas exerceram o seu principal ministério. Por vontade divina Jesus Cristo padeceu, morreu e ressuscitou em Jerusalém, e a partir dali começará a estender-se o Reino de Deus (cfr Lc 24,47; Act 1,8). No Novo Testamento a Igreja de Cristo é denominada «a Jerusalém do alto» (Gal 4,26), «a Jerusalém celeste» (Heb 12,22), «a nova Jerusalém» (Apc 21,2).

Na Cidade Santa também começa a Igreja. Mais tarde São Pedro, não sem uma especial Providência divina, transfere-se para Roma que, deste modo, se converte no centro da Igreja. Como aqueles discípulos são confirmados na fé por São Pedro, os cristãos de todos os séculos acorrem à Sé de Pedro para confirmar a sua fé, e manter assim a unidade da Igreja: «Sem o Papa a Igreja Católica já não seria a Igreja Católica, e, faltando na Igreja de Cristo o ofício pastoral supremo, eficaz e decisivo de Pedro, a unidade desmoronar-se-ia, e em vão se intentaria reconstruí-la depois com critérios substitutivos daquele autêntico estabelecido pelo próprio Cristo (…). Queremos, além disso, considerar que esse gonzo central da Santa Igreja não pretende constituir uma supremacia de orgulho espiritual ou de domínio humano, mas um primado de serviço, de ministério e de amor. Não é vã retórica a que atribui ao Vigário de Cristo o título de servus servorum Dei» (Ecclesiam suam, n. 83).

 

09.04.2015 – Lc 24, 35-48

35E eles puseram-se a contar o que se tinha passado no caminho e como Jesus Se lhes dera a conhecer ao partir do pão.

36Enquanto diziam isto, apresentou-Se Ele próprio no meio deles e disse-lhes: A paz seja convosco. 37Eles ficaram aturdidos e cheios de medo, e julgavam estar a ver um espírito. 38Disse-lhes então: Porque estais perturbados e por que motivo surgem tais hesitações no vosso íntimo? 39Vede as Minhas mãos e os Meus pés; sou Eu mesmo. Palpai-Me e olhai que um espírito não tem carne nem ossos, como verificais que Eu tenho. 40E, dizendo isto, mostrou-lhes as mãos e os pés. 41Estando eles ainda sem querer acreditar, com a alegria, e cheios de pasmo, perguntou-lhes: Tendes aí alguma coisa que se coma? 42Eles passa­ram-Lhe uma posta de peixe assado. 43Tomando-a, pôs-Se a comer à vista deles.

44Depois disse-lhes: Foram estas as palavras que vos disse, quando ainda Me achava entre vós: «Tem de cumprir-se tudo o que está escrito a Meu respeito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos». 45Abriu-lhes então o entendimento, para compreenderem as Escrituras, 46e disse-lhes: Assim está es­crito que o Messias havia de sofrer e ressus­citar dos mortos ao terceiro dia 47e que se havia de pregar, em Seu nome, o arrepen­dimento e a remissão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém. 48Vós sois as testemunhas destas coisas! 49E olhai que Eu vou mandar sobre vós o Prometido por Meu Pai. Entretanto, ficai na cidade até serdes revestidos com a força lá do Alto.

50Depois, levou-os até junto de Betânia e, erguendo as mãos, abençoou-os. 51Enquanto os abençoava, separou-Se deles e foi levado até ao Céu. 52Eles, tendo-se prostrado diante d’Ele, voltaram para Jerusalém com grande alegria 53e estavam continuamente no Tem­plo a bendizer a Deus.

Comentário

36-43. Esta aparição de Jesus ressuscitado é referida por São Lucas e São João (cfr Ioh 20,19-23). São João recolhe a instituição do sacramento da Penitência, ao mesmo tempo que São Lucas sublinha a dificuldade dos discípulos para aceitar o milagre da Ressurreição, apesar do testemunho dos anjos às mulheres (cfr Mt 28,5-7; Mc 16,5-7; Lc 24,4-11) e daqueles que já tinham visto o Senhor ressuscitado (cfr Mt 28,9-10; Mc 16,9-13; Lc 24,13 ss.; Ioh 20,11-18).

Jesus aparece-lhes de improviso, estando as portas fecha­das (cfr Ioh 20,19), o que explica a sua surpresa e a sua reacção. Santo Ambrósio comenta que «penetrou no recinto fechado não porque a sua natureza fosse incorpórea, mas porque tinha a qualidade de um corpo ressuscitado» (Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc.). Entre essas qualidades do corpo glorioso, a subtileza faz que «o corpo esteja totalmente submetido ao império da alma» (Catecismo Romano, I, 12,13), de modo que pode atravessar os obstáculos materiais sem nenhuma resistência.

A cena reveste-se de um encanto especial quando o Evan­gelista descreve os pormenores de condescendência divina para os confirmar na verdade da Sua Ressurreição.

41-43. Ainda que o corpo ressuscitado seja impassível e, por conseguinte, não necessite já de alimentos para se nutrir, o Senhor confirma os discípulos na verdade da Sua Ressurreição com estas duas provas: convidando-os a que O toquem e comendo na sua presença. «Eu, por minha parte, confessa Santo Inácio de Antioquia, sei muito bem e nisto ponho a minha fé que, depois da Sua Ressurreição, o Senhor permaneceu na Sua carne. E assim, quando Se apresentou a Pedro e aos seus companheiros, disse-lhes: Tocai-Me, palpai-Me e compreendei que não sou um espírito incorpóreo. E prontamente tocaram-No e acreditaram, ficando persua­didos da Sua carne e do Seu espírito (…). Mais ainda, depois da Sua Ressurreição comeu e bebeu com eles, como homem de carne que era, embora espiritualmente estivesse feito uma coisa com Seu Pai» (Carta aos de Esmirna, III, 1-3).

44-49. São Mateus insiste no cumprimento em Cristo das profecias do AT, porque os primeiros destinatários do seu Evangelho eram judeus, para quem isto constituía uma prova manifesta de que Jesus era o Messias prometido e esperado. São Lucas não utiliza habitualmente este argu­mento, porque escreve para os gentios; não obstante, neste epílogo recolhe sumariamente a advertência de Cristo que declara ter-se cumprido tudo o que estava predito acerca d’Ele. Sublinha-se assim a unidade dos dois Testamentos e que Jesus é verdadeiramente o Messias.

Por outro lado, São Lucas refere a promessa do Espírito Santo (cfr Ioh 14,16-17.26; 15,26; 16,7 ss.), cujo cumprimento no dia de Pentecostes narrará com pormenor no livro dos Actos (cfr Act 2,1-4).

46. São Lucas pôs em realce a falta de inteligência dos Apóstolos quando Jesus anuncia a Sua Morte e Ressurreição (cfr 9,45; 18,34). Agora, cumprida a profecia, recorda a necessidade de que Cristo padecesse e ressuscitasse de entre os mortos (cfr 24,25-27).

A Cruz é um mistério não só na vida de Cristo mas também na nossa: «Jesus sofre para cumprir a Vontade do Pai… E tu, que também queres cumprir a Santíssima Vontade de Deus, seguindo os passos do Mestre, poderás queixar-te se encontrares por companheiro de caminho o sofrimento?» (Caminho, n° 213).

10.04.2015 – Jo 21, 1-14

Depois disso, voltou Jesus a manifestar-Se aos discípulos, à beira do mar de Tiberíade. Manifestou-Se deste modo: 2Estavam Simão Pedro, Tome, a quem chamavam Dídimo, e Natanael, que era de Cana da Galileia, bem como os filhos de Zebedeu e mais dois dos Seus discípulos. 3Diz-lhes Simão Pedro: Vou pescar. Eles respondem-Lhe: Nós também vamos con­tigo. Saíram, pois, e subiram para o barco, mas naquela noite não apanharam nada. 4 Já ia a amanhecer quando Jesus Se apre­sentou na margem. Os discípulos, porém, não sabiam que era Ele. 5Diz-lhes então Jesus: Rapazes, tendes algum peixe que se coma? Não — responderam-Lhe. 6Ele retorquiu-lhes: Lançai a rede para o lado direito do barco e haveis de encontrar. Lançaram-na, pois, e já não a podiam arrastar, devido à grande quantidade de peixe. 7Diz então a Pedro aquele discípulo que Jesus amava: É o Senhor! Simão Pedro, ao ouvir dizer que era o Senhor, apertou o blusão à cintura, pois estava despido, e lançou-se ao mar. 8Entretanto, os outros discípulos, visto não estarem longe da terra senão uns duzentos côvados, vieram no barco, puxando a rede com peixes.

9Depois de virem para terra, veem um monte de brasas no solo, com peixe em cima, e pão. 10Diz-lhes Jesus: Trazei dos peixes que apanhastes agora. 11Então Simão Pedro subiu ao barco e arrastou a rede para terra, cheia com cento e cinquenta e três grandes peixes. E, sendo tantos, não se rompeu a rede. 12Diz-lhes Jesus: Vinde almoçar. E nenhum dos dis­cípulos se atrevia a perguntar-Lhe: Tu quem és? por saberem que era o Senhor.

13Jesus aproxima-Se, toma o pão e dá-lho, o mesmo fazendo com o peixe. 14Com esta, era já a terceira vez que Jesus se mani­festava aos discípulos, depois de ressuscitar dos mortos.

Comentário

1-3. Há vários dados significativos nesta cena: os discípulos encontram-se «junto ao mar de Tiberíades». na Galileia. cumprindo assim o mandato de Jesus ressuscitado (cfr Mt 28,7); estão juntos porque os laços de fraternidade que os unem são muito fortes; Pedro toma a iniciativa manifestando de alguma maneira a sua autori­dade; por último, vemo-los dedicados de novo ao seu ofício de pescadores, provavelmente à espera de novas instruções do Senhor.

Ao ler este episódio vem-nos à memória a primeira pesca milagrosa (ctr Lc 5,1-11), em que o Senhor prometeu a Pedro fazê-lo pescador de homens; aqui vai confirmá-lo na sua missão de Cabeça visível da Igreja.

4-8. Jesus ressuscitado vai em busca dos Seus discípulos para os animar e continuar a explicar-lhes a grande missão que lhes confiou. O relato descreve uma cena íntima do Senhor com os Seus: «Passa ao lado dos Seus Apóstolos, junto daquelas almas que se Lhe entregaram… E eles não se dão conta disso! Quantas vezes está Cristo, não perto de nós. mas dentro de nós, e temos uma vida tão humana! (…). Recordam o que tinham ouvido tantas vezes dos lábios do Mestre: pescadores de homens, apóstolos!… E compreen­dem que tudo é possível, porque é Ele quem dirige a pesca.

«Então aquele discípulo que Jesus amava disse a Pedro: É o Senhor! O amor vê. E de longe. O amor é o primeiro a captar aquela delicadeza. O Apóstolo adolescente, com o firme carinho que sentia por Jesus, pois amava Cristo com toda a pureza e toda a ternura de um coração que nunca se corrompera, exclamou: É o Senhor!

«Simão Pedro, mal ouviu dizer que era o Senhor, cingiu a túnica e lançou-se ao mar. Pedro é a fé. E lança-se ao mar, com uma audácia maravilhosa. Com o amor de João e a fé de Pedro, aonde podemos nós chegar!?» (Amigos de Deus, n. 265-266).

9-14. Fica reflectida a profunda impressão que deve ter causado aos Apóstolos esta aparição de Jesus Ressuscitado e a recordação íntima que dela guardava São João. Jesus manifesta depois da Ressurreição a mesma delicadeza que tinha tido durante a Sua vida pública. Usa os meios mate­riais — as brasas, o peixe, etc. —, que põem em realce o realismo da Sua presença e continuam a dar o tom familiar costumado na convivência com os discípulos.

Os Santos Padres e Doutores da Igreja comentaram com frequência este episódio em sentido místico: a barca é a Igreja cuja unidade está simbolizada pela rede que não se rompe, o mar é o mundo, Pedro na barca simboliza a suprema autoridade na Igreja, o número de peixes significa o número dos escolhidos (cfr Comentário sobre S. João, ad hoc.).

 

11.04.2015 – Mc 16, 9-15

9Tendo ressuscitado de manhãzinha, no Aparição primeiro dia da semana, apareceu primeiro? Maria Madalena, da qual tinha expulsado sete Demônios. 10Ela partiu a anunciar aos que tinham vivido com Ele e que estavam imersos em tristeza e pranto. 11Mas eles, ouvindo dizer que vivia e que ela O tinha visto, não acreditaram.

12Depois disto, manifestou-Se noutra forma a dois deles que iam de caminho, dirigindo-se para o campo. 13E eles correram a anunciar aos outros, mas também lhes não deram crédito.

14Mais tarde, estando os onze à mesa, manifestou-Se-lhes e repreendeu-os da sua incredulidade e dureza de coração, porque não tinham dado crédito àqueles que O tinham visto ressuscitado dos mortos, 15e disse-lhes Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura.

Comentário

11-14. São Marcos realça a incredulidade dos discí­pulos e a sua dureza de entendimento para aceitar o facto da Ressurreição, ainda que Jesus o tenha predito (cfr Mc 8,31; 9,31; 10,34). Fica, pois, muito patente a atitude desconfiada dos discípulos, diante das primeiras aparições de Jesus ressuscitado. Esta resistência dos Apóstolos constitui para nós mais uma garantia da veracidade do facto da Ressur­reição de Jesus. Eles, que estavam destinados a ser teste­munhas directas e autorizadas do Ressuscitado, resistem a aceitar o conteúdo do que há-de ser o seu testemunho diante de todos os homens, até que não o comprovem de uma maneira imediata e palpável.

Não obstante, o Senhor dirá: «Bem-aventurados os que sem terem visto acreditaram» (Ioh 20,29). No caso dos Após­tolos era preciso que, além da fé em Cristo ressuscitado, tivessem uma clara evidência da Ressurreição, visto que tinham de ser as testemunhas oculares que anunciassem com especial conhecimento de causa esse facto irrefutável. Neste sentido comenta São Gregório Magno: «A razão de que os discípulos tardassem em crer na Ressurreição do Senhor, não foi tanto pela sua fraqueza como pela nossa futura firmeza na fé; pois a própria Ressurreição demonstrada com muitos argumentos aos que duvidavam, que outra coisa significa senão que a nossa fé se fortalece pela sua dúvida?» (In Evangelia homiliae, 16).

12. A aparição do Senhor a estes dois discípulos é relatada amplamente por São Lucas (cfr 24,13-35).

15. Este versículo contém o chamado mandato apostó­lico universal, que é paralelo ao de Mt 28,19-20 e ao de Lc 24,46-48. É um mandato imperativo de Cristo aos Seus Após­tolos para que preguem o Evangelho a todas as nações. Essa mesma missão apostólica incumbe, de modo especial, aos sucessores dos Apóstolos, que são os Bispos em comunhão com o Papa, sucessor de Pedro.

Não só eles, porém, mas toda «a Igreja nasceu para tornar todos os homens participantes da redenção salvadora e, por eles, ordenar efectivamente a Cristo o universo inteiro, dilatando pelo mundo o Seu Reino para glória de Deus Pai. Toda a actividade do Corpo místico que a este fim se oriente, chama-se apostolado. A Igreja exerce-o de diversas maneiras, por meio de todos os seus membros, já que a vocação cristã é também, por sua própria natureza, vocação ao apostolado. (…). Existe na Igreja diversidade de funções, mas unidade de missão. Aos Apóstolos e seus sucessores, confiou Cristo a missão de ensinar, santificar e governar em Seu nome e com o Seu poder. Mas os leigos, dado que são participantes do múnus sacerdotal, profético e real de Cristo, têm um papel próprio a desempenhar na missão do inteiro Povo de Deus, na Igreja e no mundo» (Apostolicam actuositatem, n. 2).

É verdade que Deus actua directamente na alma de cada pessoa por meio da Sua graça, mas, ao mesmo tempo, deve afirmar-se que é vontade de Cristo, expressa neste e noutros textos, que os homens sejam instrumento ou veículo de salvação para os outros homens.

Neste sentido também o Concilio Vaticano II ensina: «A todos os fiéis incumbe, portanto, o glorioso encargo de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens em toda a terra» (Ibid., n. 3).

 

12.04.2015 – Jo 20, 19-31

19Na tarde deste dia, o primeiro da semana, estando, por medo dos Judeus, fechadas as portas no lugar onde se encon­travam os discípulos, veio Jesus colocar-Se no meio deles e disse-lhes: A paz seja convosco! 20Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos ficaram cheios de ale­gria, ao verem o Senhor. 21Jesus então dis­se-lhes de novo: A paz seja convosco! Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos mando a vós. 22Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo. 23Àqueles a quem perdoardes os pecados, ficar-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ficar-lhes-ão retidos.

24Ora Tome, um dos doze, a quem chama­vam Dídimo, não estava com eles quando veio Jesus. 25Diziam-lhe os outros discí­pulos: Vimos o Senhor! Ele, porém, respon­deu-lhes: Se não Lhe vir nas mãos a marca dos cravos, se não chegar com o dedo ao sítio dos ‘cravos e levar a mão ao Seu lado, não acreditarei.

26Oito dias depois, estavam os discípulos novamente lá dentro, e Tome com eles. Veio Jesus, com as portas fechadas, colocou-Se no meio deles e disse: A paz seja convosco! 27A seguir, disse a Tome: Chega aqui o teu dedo e vê as Minhas mãos, aproxima a tua mão e chega com ela ao Meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente. 28Respondeu-Lhe Tome, dizendo: Meu Senhor e meu Deus! 29Jesus replicou-lhe: Porque Me viste acreditaste? Felizes os que, sem terem visto, acreditam!

30Muitos outros milagres fez Jesus na pre­sença dos discípulos, os quais não estão escritos neste livro. 31 Estes, porém, estão escritos para que acrediteis que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, e para que, acre­ditando, tenhais a Vida em Seu nome.

Comentário

19-20. Jesus aparece aos Apóstolos na própria tarde do Domingo em que ressuscitou. Apresenta-Se no meio deles sem necessidade de abrir as portas, já que goza das quali­dades do corpo glorioso; mas para desfazer a possível im­pressão de que é só um espírito, mostra-lhes as mãos e o lado: não fica nenhuma dúvida de que é o próprio Jesus e de que verdadeiramente ressuscitou. Além disso, saúda-os por duas vezes com a fórmula usual entre os Judeus, com o acento entranhável que noutras ocasiões poria nessa sau­dação. Com essas palavras amigáveis ficavam dissipados o temor e a vergonha que teriam os Apóstolos por se terem comportado deslealmente durante a Paixão. Desta forma voltou a criar-se o ambiente de intimidade, em que Jesus lhes vai comunicar poderes transcendentes.

21. O Papa Leão XIII explicava como Cristo transferiu a Sua própria missão aos Apóstolos: «Que quis e que procurou ao fundar e conservar a Igreja? Isto: transmitir a mesma missão e o mesmo mandato que tinha recebido do Pai para que Ela os continue. Isto é claramente o que Se tinha proposto fazer e isto é o que fez: ‘Como o Pai Me enviou assim Eu vos envio’ (Ioh 20,21). ‘Como Tu Me enviaste ao mundo, assim os enviei Eu ao mundo’ (Ioh 17,18) (…). Momentos antes de retornar ao Céu envia os Apóstolos com o mesmo poder com que o Pai O tinha enviado; ordenou-lhes que estendessem e semeassem por todo o mundo a Sua doutrina (cfr Mt 28,18). Todos os que obedecerem aos Apóstolos salvar-se-ão; os que não lhes obedecerem perecerão (cfr Mc 16,16) (…). Por isso manda aceitar religiosamente e guardar santamente a doutrina dos Apóstolos como Sua: ‘Quem vos ouve a vós, ouve-Me a Mim; quem vos despreza a vós, des­preza-Me a Mim’ (Lc 10,16). Em conclusão, os Apóstolos são enviados por Jesus Cristo da mesma forma que Ele foi enviado pelo Pai» (Satis cognitum). Nesta missão os Bispos são sucessores dos Apóstolos: «Cristo, através dos mesmos Apóstolos, tornou participantes da sua consagração e missão os sucessores deles, os Bispos, cujo cargo ministerial, em grau subordinado, foi confiado aos presbíteros, para que, constituídos na Ordem do presbiterado, fossem cooperadores da Ordem do episcopado para o desempenho perfeito da missão apostólica confiada por Cristo» (Presbytemrorum ordinis, n. 2).

22-23. A Igreja compreendeu sempre — e assim o de­finiu — que Jesus Cristo com estas palavras conferiu aos Apóstolos o poder de perdoar os pecados, poder que se exerce no sacramento da Penitência. «O Senhor, principalmente então, instituiu o sacramento da Penitência, quando, ressus­citado de entre os mortos, soprou sobre os Seus discípulos dizendo: ‘Recebei o Espírito Santo…’. Por este facto tão insigne e por tão claras palavras, o sentir comum de todos os Padres entendeu sempre que foi comunicado aos Apóstolos e aos seus legítimos sucessores o poder de perdoar e reter os pecados para reconciliar os fiéis caídos em pecado depois do Baptismo» (De Paenitentia, cap. 1).

O sacramento da Penitência é a expressão mais sublime do amor e da misericórdia de Deus com os homens, como ensina Jesus na parábola do filho pródigo (cfr Lc 15,11-32). O Senhor espera sempre com os braços abertos que voltemos arrependidos, para nos perdoar e nos devolver a nossa digni­dade de filhos Seus.

Os Papas têm recomendado com insistência que nós, os cristãos, saibamos apreciar e aproveitemos com fruto este Sacramento: «Para progredir mais rapidamente no cami­nho da virtude, recomendamos vivamente o pio uso, intro­duzido pela Igreja sob a inspiração do Espírito Santo, da confissão frequente, que aumenta o conhecimento próprio, desenvolve a humildade cristã, desarraiga os maus cos­tumes, combate a negligência e tibieza espiritual, purifica a consciência, fortifica a vontade, presta-se à direcção espiritual, e por virtude do mesmo sacramento aumenta a graça» (Mystici Corporis).

24-28. A dúvida do Apóstolo Tome leva o Senhor a dar-lhe uma prova especial da realidade do Seu corpo ressus­citado. Assim confirma, ao mesmo tempo, a fé daqueles que mais tarde haviam de crer n’Ele. «Será que pensais — comenta São Gregório Magno — que aconteceu por pura casualidade que estivesse ausente então aquele discípulo escolhido, que ao voltar ouvisse relatar a aparição, e que ao ouvir duvidasse, duvidando palpasse e palpando cresse? Não foi por casualidade, mas por disposição de Deus. A divina clemência actuou de modo admirável para que tocando o discípulo duvidador as feridas da carne no seu Mestre, sarasse em nós as feridas da incredulidade (…). Assim o discípulo, duvidando e palpando, converteu-se em teste­munha da verdadeira ressurreição» (In Evangelia homiliae, 26,7).

A resposta de Tome não é uma simples exclamação, é uma afirmação: um maravilhoso acto de fé na Divindade de Jesus Cristo: «Meu Senhor e meu Deus!». Estas palavras constituem uma jaculatória que repetiram com frequência os cristãos, especialmente como acto de fé na presença real de Jesus Cristo na Santíssima Eucaristia.

29. O mesmo São Gregório Magno explica estas palavras do Senhor: « São Paulo ao dizer que ‘a fé é o fundamento das coisas que se esperam e uma convicção das que não se veem’ (Heb 11,1), torna evidente que a fé versa sobre as coisas que não se veem, pois as que se veem já não são objecto da fé, mas da experiência. Ora bem, por que é dito a Tome quando viu e tocou: Porque viste, acreditaste? Porque uma coisa é o que se viu e outra o que se creu. É certo que o homem mortal não pode ver a divindade; portanto, ele viu o Homem e reconhe­ceu-O como Deus, dizendo: ‘Meu Senhor e meu Deus’. Em conclusão, vendo creu, porque contemplando atentamente este homem verdadeiro exclamou que era Deus, a quem não podia ver» (In Evangelia homiliae, 27,8).

Tomé, como todos os homens, necessitou da graça de Deus para crer, mas, além disso, recebeu uma prova singular; teria sido mais meritória a sua fé se tivesse aceitado o testemunho dos Apóstolos. As verdades reveladas transmitem-se normalmente pela palavra, pelo testemunho de outros homens que, enviados por Cristo e assistidos pelo Espírito Santo, pregam o depósito da fé (cfr Mc 16,15-16). «Por conseguinte a fé vem pela pregação e a pregação pela palavra de Cristo» (Rom 10,17). A pregação, pois, do Evangelho tem as garantias suficientes de credibilidade, e o homem ao aceitá-lo «oferece a Deus a homenagem total da sua inteligência e da sua vontade prestando voluntário assentimento à Sua revelação» (Dei Verbum, n. 5).

«Alegra-nos muito o que se segue: ‘Bem-aventurados os que sem ter visto creram’. Sentença na qual, sem dúvida, estamos assinalados nós, que confessamos com a alma o que não vimos na carne. Alude-se a nós, desde que vivamos de acordo com a fé; porque só crê de verdade aquele que pratica o que crê» (In Evangelia homiliae, 26,9).

30-31. Temos aqui como um primeiro epílogo ou con­clusão do Evangelho de São João. Segundo a opinião mais comum, o evangelista acrescentaria mais tarde o capítulo 21, onde narra acontecimentos tão importantes como a tríplice confissão de São Pedro, a sua confirmação no Primado e também a profecia do Senhor acerca da morte do discípulo amado. Aqui nestes vv 30-31 manifesta-se a fina­lidade que perseguia o autor inspirado ao escrever o seu Evangelho: que os homens creiam que Jesus é o Messias, o Cristo anunciado no Antigo Testamento pelos profetas, o Filho de Deus, e que, ao crer esta verdade salvadora, centro da Revelação, possam participar já aqui da vida eterna (cfr Ioh 1,12;2,23; 3,18; 14,13; 15,16; 16,23-26).

 

13.04.2102 – Jo 3, 1-8

Havia, entre os Fariseus, um homem visita chamado Nicodemos, um dos principais dos Judeus. 2Veio ele ter com Jesus. e disse-Lhe: Rabi, sabemos que vieste da parte de Deus, como mestre, pois ninguém pode fazer esses milagres que Tu fazes, se Deus não estiver com ele. 3Respondeu-lhe Jesus: Em verdade, em verdade te digo: Quem não nascer de novo não pode ver o Reino de Deus. 4Disse-Lhe Nicodemos: Como pode um homem nascer, sendo velho? Po­derá entrar segunda vez no seio de sua mãe e renascer? 5Jesus retorquiu: Em verdade, em verdade te digo: Quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus. 6Aquilo que nasceu da carne é carne, e aquilo que nasceu do Espírito é espírito. 7Não te admires de Eu te haver dito: «Vós tendes de nascer de novo». 8O vento sopra onde quer, e tu ouves a sua voz, mas não sabes donde vem nem para onde vai. Assim é todo aquele que nasceu do Espírito.

Comentário

1-21. Nicodemos era membro do Sinédrio de Jerusalém (cfr Ioh 7,50). Devia ser também homem culto, provavelmente escriba ou doutor da Lei: Jesus dirigindo-Se a ele, chama-lhe mestre em Israel. Poderíamos qualificá-lo, portanto, como intelectual: é um homem que raciocina, que indaga, que busca a verdade como uma das tarefas fundamentais da sua vida. Fá-lo naturalmente, movendo-se dentro das proposições próprias da mentalidade judaica do seu tempo. Para entender as coisas divinas, porém, faz falta a humildade, não basta a razão. Cristo vai, em primeiro lugar, elevar Nicodemos ao plano dessa virtude; por isso Jesus não responde imediatamente às suas perguntas, mas faz-lhe ver quão longe está ainda da verdadeira sabedoria: «Tu és mestre em Israel e não o sabes?». Nicodemos deve reco­nhecer que, não obstante os seus estudos, é ainda ignorante nas coisas de Deus. Como comenta São Tomás de Aquino, «o Senhor não o repreende para o injuriar, mas porque con­fiava ainda na sua ciência; por isso quis, fazendo-o passar pela humilhação, convertê-lo em morada do Espírito Santo» (Comentário sobre S. João, ad loc.). Pelo desenvolvimento da conversa é evidente que Nicodemos deu esse passo de humil­dade, e colocou-se diante de Jesus como um discípulo diante do Mestre. Então o Senhor descobre-lhe os mistérios da fé. Nicodemos seria desde esse momento muito mais sábio que todos os seus colegas que não deram esse passo.

A ciência humana, por muito grande que seja, é minúscula diante das verdades — simplesmente enunciadas mas pro­fundíssimas — dos artigos da fé (cfr Eph 3,15-19; 1Cor 2;9). As verdades divinas devem ser recebidas com a simplicidade de uma criança (sem a qual não podemos entrar no Reino dos Céus), para depois serem meditadas durante toda a vida, e estudadas com a admiração do que sabe que a realidade divina sempre supera a nossa pobre inteligência.

1-2. Ao longo do diálogo íntimo daquela noite, Nico­demos mostra grande delicadeza: dirige-se a Jesus com respeito e chama-Lhe Rabbi, meu Mestre. Possivelmente tinha sido movido pelos milagres e pela pregação de Cristo, e tinha necessidade de saber. Diante do ensinamento do Senhor, a sua maneira de reflectir e de pensar é ainda pouco sobrenatural, mas é humanamente nobre. A sua visita de noite,«por temor dos judeus» (Ioh 19,39), é muito compreen­sível dada a sua condição de membro do Sinédrio; de todos os modos, arrisca-se e vai.

Quando os fariseus tentaram deter Jesus (Ioh 7,32), fra­cassando no seu propósito por causa da admiração do povo, Nicodemos opôs-se àquela maneira injusta de actuar, que condenava um homem antes de o julgar, e opôs-se com fortaleza de ânimo aos outros (Ioh 7,50-53); também não teve medo, na hora mais difícil, de honrar o Corpo morto do Senhor (Ioh19,39).

3-8. A pergunta inicial de Nicodemos, que mostra ainda a sua dúvida acerca de Jesus (um profeta ou o Messias?), o Senhor responde-lhe de maneira inesperada: Nicodemos espe­rava que lhe falasse d’Ele, da Sua missão, e, pelo contrário, Jesus revela-lhe uma verdade assombrosa: há que nascer de novo. Trata-se de um nascimento espiritual pela água e pelo Espírito Santo: é um mundo novo que se abre diante dos olhos de Nicodemos.

As palavras do Senhor também constituem um horizonte sem limites para o progresso espiritual de qualquer alma cristã, que se deixa documente conduzir pela graça divina e pelos dons do Espírito Santo, infundidos no Baptismo e corroborados pelos Sacramentos; junto com a aber­tura da alma a Deus, o cristão deve igualmente afastar as apetências egoístas e as inclinações da soberba, para poder ir entendendo o que Deus lhe ensina no seu interior. «Por isso há-de desnudar-se a alma (…) do seu entender, saborear e sentir, para que arremessado tudo o que é dissimil e desconforme com Deus, venha a receber semelhança de Deus (…); e assim se transforma em Deus. Porque, ainda que seja verdade que, como dissemos, Deus está sempre na alma dando e conservando nela o ser natural com a Sua assis­tência, todavia nem sempre lhe comunica o ser sobrenatural. Porque este não se comunica senão por amor e graça, na qual nem todas as almas estão; e ainda essas não estão em igual grau, porque umas (estão) em maior, outras em menor grau de amor. Donde Deus comunica-se mais àquela alma que está mais avantajada em amor, o que é ter mais con­forme a sua vontade com a de Deus. E a que totalmente a tem conforme e semelhante, totalmente está unida e transformada em Deus sobrenaturalmente» (Subida ao Monte Carmelo, liv. 2, cap. 5).

Jesus sublinha com força a nova condição do homem: já não se trata de nascer da carne, da linhagem de Abraão (cfr Ioh1,13), mas de renascer por obra do Espírito Santo, por meio da água. O Senhor fala aqui pela primeira vez do Baptismo cristão, confirmando a profecia de João Baptista (cfr Mt 3,11; Ioh 1,33): veio para instituir um Baptismo no Espírito Santo.

«Nicodemos — diz Santo Agostinho — não saboreava ainda nem este espírito nem esta vida (…). Não conhece outro nascimento senão o de Adão e Eva, e ignora o que se origina de Cristo e da Igreja. Só entende da paternidade que gera para a vida. Existem dois nascimentos; mas ele só tem notícia de um. Um é da terra e outro é do Céu; um da carne e outro do Espírito; um da mortalidade, outro da eternidade; um de homem e mulher, e outro de Cristo e da Igreja. Os dois são únicos. Nem um nem outro se podem repetir» (In Ioann. Evang., 11,6).

O Senhor fala dos efeitos maravilhosos que a força do Espírito Santo produz na alma do baptizado. Assim como quando sopra o vento nos damos conta da sua presença, ouvimos o seu silvo mas não sabemos donde surgiu nem onde terminará, assim sucede também com o Espírito Santo, que é «sopro» (pneuma) divino, e que nos é dado no novo nascimento do Baptismo: não se sabe por que caminho o Espírito penetra, no coração, mas dá a conhecer a Sua presença pela mudança no comportamento do que O recebe.

 

14.04.2015 – Jo 3, 7b-15

«Vós tendes de nascer de novo». 8O vento sopra onde quer, e tu ouves a sua voz, mas não sabes donde vem nem para onde vai. Assim é todo aquele que nasceu do Espírito. 9Nicodemos interveio, para Lhe dizer: Como pode ser isso? 10Respondeu-lhe Jesus, di­zendo: Tu és mestre em Israel e não o sabes?! 11Em verdade, em verdade te digo: Nós fa­lamos do que sabemos e damos testemunho do que vimos, mas vós não recebeis o Nosso testemunho. 12Se vos disse coisas da Terra e as não acreditais, como haveis de acreditar, se vos disser coisas do Céu? 13Ninguém subiu ao Céu, a não ser Aquele que do Céu desceu, o Filho do homem. 14Do mesmo modo que Moisés elevou a serpente no deserto, assim tem de ser elevado o Filho do homem, 15para que todo aquele que acredita tenha, por Ele, a vida eterna.

Comentário

10-12. Ante a perplexidade de Nicodemos, Jesus ratifica o valor das Suas palavras, e explica-lhe que fala das coisas do Céu porque procede do Céu, e para Se fazer compreender usa comparações e imagens terrenas. Não obstante, esta lin­guagem não é suficiente para aqueles que adoptam uma posição de incredulidade.

Comenta o Crisóstomo: «Com razão Cristo não disse: não compreendeis, mas: não credes. Porque se alguém não quer admitir aquilo que se pode perceber com a mente, este seria acusado com razão de estupidez; contudo, se alguém não admite aquilo que não se percebe com a mente mas com a fé, este já não pecapor estupidez, mas por incredulidade» (Hom. sobre S. João, 27,1).

13. Afirmação solene da divindade de Jesus. Ninguém sobe ao Céu e, portanto, ninguém pode conhecer perfeita­mente os segredos de Deus, senão o próprio Deus que en­carnou e desceu do Céu: Jesus, segunda Pessoa da Santíssima Trindade, o Filho do Homem profetizado no Antigo Testa­mento (cfr Dn 7,13), ao qual foi concedido senhorio eterno sobre todos os povos, nações e línguas.

Ao encarnar o Verbo não deixa de ser Deus. E assim, ainda que esteja na terra enquanto homem, nem por isso deixa de estar no Céu enquanto Deus. Só depois da Ressur­reição e da Ascensão, Jesus Cristo está no Céu também enquanto homem.

14-15. A serpente de bronze, alçada por Moisés num mastro, era o remédio indicado por Deus para curar aqueles que eram mordidos pelas serpentes venenosas do deserto (cfr Num 21,8-9). Jesus Cristo compara este facto com a Sua Crucifixão, para explicar assim o valor da Sua exaltação na Cruz, que é salvação para todos os que O fixem com fé. Neste sentido podemos dizer que no bom ladrão se cumpre já o poder salvífico de Cristo na Cruz: esse homem descobriu no Crucificado o Rei de Israel, o Messias, que imediatamente lhe promete o Paraíso para aquele mesmo dia (cfr Lc 23,39-43).

O Filho de Deus tomou a nossa natureza humana para dar a conhecer os mistérios ocultos da vida divina (cfr Mc 4,11; Ioh 1,18; 3,1-13; Eph 3,9) e para livrar do pecado e da morte aqueles que O fixem com fé e amor (cfr Ioh 19,37; Gal 3,1) e aceitem a cruz de cada dia.

A fé de que nos fala o Senhor não se reduz simplesmente à aceitação intelectual das verdades que Ele nos ensinou, mas inclui reconhecê-Lo como Filho de Deus (cfr 1 Ioh5,1), parti­cipar da Sua própria Vida (cfr Ioh 1,12), e entregarmo-nos por amor, tornando-nos assim semelhantes a Ele (cfr Ioh 10,27; 1Ioh 3,2). Mas esta fé constitui um dom de Deus (cfr Ioh 3,3.5-8), a quem devemos pedir que a fortaleça e acres­cente, como fizeram os Apóstolos: Senhor, «aumenta-nos a fé» (Lc 17,5). Sendo a fé um dom divino, sobrenatural e gratuito, é, ao mesmo tempo, uma virtude, um hábito bom, susceptível de ser exercitado pessoalmente e, portanto, robustecido através desse exercício. Daí que o cristão, que já possui o dom divino da fé, ajudado pela graça deva fazer actos explícitos de fé para que esta virtude cresça nele.

 

15.04.2015 – Jo 3, 16-21

16De facto, Deus amou de tal maneira o mundo que deu o Seu Filho único, para que todo o que n’Ele acredita náo pereça, mas tenha a vida eterna. 17É que Deus não enviou o Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para o mundo ser salvo por Seu inter­médio. 18Quem n’Ele acredita não é condenado; mas quem não acredita já está conde­nado, porque não acreditou no nome do Filho único de Deus. 19É esta a causa da con­denação: veio a Luz ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a Luz, pois eram más as suas obras. 20E que todo aquele que pratica más acções odeia a Luz e não se aproxima da Luz, para não serem postas a descoberto as suas obras. 21Quem pratica a verdade aproxima-se da Luz, para se tornar bem claro que as suas obras estão realizadas em Deus.

Comentário

16-21. Com estas palavras carregadas de sentido sinte­tiza-se como a Morte de Jesus Cristo é a manifestação suprema do amor de Deus pelos homens (cfr Introdução ao Evangelho segundo São João, parágrafo sobre A caridade, pp 1101-1105). «De tal maneira Deus amou o mundo que lhe entregou Seu Filho Unigênito para a sua salvação. Toda a nossa religião é uma revelação da bondade, da misericórdia, do amor de Deus por nós. ‘Deus é amor’ (cfr 1Ioh4,16), isto é, amor que se difunde e se prodigaliza; e tudo se resume nesta grande verdade que tudo explica e tudo ilumina. É neces­sário ver a história de Jesus a esta luz. ‘Ele amou-me’, escreve São Paulo, e cada um de nós pode e deve repeti-lo a si mesmo: Ele amou-me, e sacrificou-Se por mim (Gal 2,20)» (Homília do Corpus Christi).

A entrega de Cristo constitui o chamamento mais pre­mente a corresponder ao Seu grande amor: «Se Deus nos criou, se nos redimiu, se nos ama ao ponto de entregar por nós o Seu Filho Unigênito (Ioh 3, 16), se nos espera — todos os dias! — como aquele pai da parábola esperava o filho pródigo (cfr Lc 15, 11-32). como não há-de desejar que O tratemos com amor? O que seria estranho era não falar com Deus, afastar-se d’Ele, esquecê-Lo, dedicar-se a actividades estranhas a esses toques ininterruptos da graça» (Amigos de Deus, n.° 251).

«O homem não pode viver sem amor. Ele permanece para si próprio um ser incompreensível e a sua vida é destituída de sentido, se não lhe for revelado o amor, se ele não se encontra com o amor, se o não experimenta e se o não torna algo seu próprio, se nele não participa vivamente. E por isto precisamente Cristo Redentor (…) revela plena­mente o homem ao próprio homem. Esta é — se assim é lícito exprimir-se — a dimensão humana do mistério da Redenção. Nesta dimensão o homem reencontra a grandeza, a dignidade e o valor próprios da sua humanidade (…). O homem que quiser compreender-se a si mesmo profun­damente (…) deve, com a sua inquietude, incerteza e também fraqueza e pecaminosidade, com a sua vida e com a sua morte, aproximar-se de Cristo. Ele deve, por assim dizer, entrar n’Ele com tudo o que é em si mesmo, deve ‘apro­priar-se’ e assimilar toda a realidade da Encarnação e da Redenção, para se encontrar a si mesmo. Se no homem se actuar este processo profundo, então ele produz frutos, não somente de adoração de Deus, mas também de profunda maravilha perante si próprio. Que grande valor deve ter o homem aos olhos do Criador, se ‘mereceu ter um tal e tão grande Redentor’ (Missal Romano, Hino Exultet da Vigília Pascal), se ‘Deus deu o Seu Filho’, para que ele, o homem, ‘não pereça, mas tenha a vida eterna’.

«(…) A Igreja, que não cessa de contemplar o conjunto do mistério de Cristo, sabe com toda a certeza da fé, que a Redenção que se verificou por meio da Cruz, restituiu defini­tivamente ao homem a dignidade e o sentido da sua existência no mundo, sentido que ele havia perdido em consi­derável medida por causa do pecado. E por isso a Redenção realizou-se no mistério pascal, que, através da cruz e da morte, conduz à ressurreição» (Redemptor hominis, n. 10). Jesus Cristo exige como primeiro requisito para parti­cipar do Seu amor a fé n’Ele. Com ela passamos das trevas para a luz e entramos em caminho de salvação. «Quem não acredita já está condenado» (v. 18). «As palavras de Cristo são, ao mesmo tempo, palavras de juízo e de graça, de morte e de vida. É que só infligindo a morte ao que é velho podemos ter acesso à novidade de vida: e isto, que vale, em primeiro lugar, das pessoas, vale também dos diversos bens deste mundo que estão marcados tanto pelo pecado do homem como pela bênção de Deus (…). Por si mesmo e pelas próprias forças não há ninguém que se liberte do pecado e se eleve acima de si mesmo, ninguém absolutamente que se liberte a si mesmo da sua enfermidade, da sua solidão ou da sua escravidão, mas todos precisam de Cristo como modelo, mestre, libertador, salvador, vivificador. De facto, na história humana, mesmo sob o ponto de vista temporal, o Evangelho foi um fermento de liberdade e de progresso e apresenta-se sempre como fermento de fraternidade, de unidade e de paz» (Ad gentes, n. 8).

16.04.2015 – Jo 3, 31-36

31Aquele que vem do Alto está acima de todos; aquele que é da terra, à terra pertence e da terra fala. Aquele que vem do Céu está acima de todos. 32Ele dá testemunho do que viu e ouviu, mas ninguém recebe o Seu testemunho. 33Quem recebe o Seu testemu­nho atesta que Deus é verídico. 34Aquele que Deus enviou refere as palavras de Deus, pois Este não dá o Espírito por medida. 35O Pai ama o Filho e tudo entregou na Sua mão. 36Quem acredita no Filho tem a vida eterna. Quem se nega a crer no Filho não verá a Vida, mas a ira de Deus sobre ele permanece.

Comentário

31-36. Este parágrafo revela-nos a divindade de Cristo, a Sua relação com o Pai e com o Espírito Santo, e a partici­pação na vida eterna e divina dos que creem em Jesus Cristo. Fora da fé não há vida nem margem para a esperança.

 

17.04.2015 – Jo 6, 1-15

Depois disto, retirou-Se Jesus para outro lado do Mar da Galileia, ou de Tiberiade. 2Seguia-O numerosa multidão, por ver os milagres que fazia nos enfermos. 3Jesus subiu ao monte e lá Se sentou com os discípulos. 4Estava próxima a Páscoa, a festa dos Judeus. 5Erguendo então os olhos e vendo que vinha ter com Ele numerosa multidão, Jesus diz a Filipe: Onde havemos de com­prar pão para eles comerem? 6Dizia isto para o experimentar, pois bem sabia o que ia fazer. 7Respondeu-Lhe Filipe: Não lhes chegam duzentos denários de pão, para receber cada qual um poucochinho. 8Disse-Lhe um dos discípulos, André, irmão de Simão Pedro: 9Está aqui um pequeno que tem cinco pães de cevada e dois peixinhos; mas que é isso para tanta gente? 10Jesus, porém, respondeu: Fazei com que eles se recostem. Ora havia muita erva no local. Recostaram-se, pois, os homens, em número de cerca de cinco mil. 11Então, Jesus tomou os pães, e, depois de dar graças, distribuiu-os aos convivas; e o mesmo fez dos peixes, tanto quanto lhes apetecia. 12Quando ficaram saciados, disse aos discípulos: Recolhei os pedaços que so­braram, para que nada se perca. 13Recolhe­ram-nos, pois, e encheram doze cestos de pedaços dos cinco pães de cevada, que haviam sobrado aos que tinham estado a comer.

14Ao verem aqueles homens o milagre que Ele fizera, começaram a dizer: Este é, na verdade, o Profeta que está para vir ao mundo. 15Mas Jesus, percebendo que viriam arrebatá-Lo, para O fazerem rei, retirou-Se novamente, sozinho para o monte.

Comentário

1. Refere-se ao segundo lago formado pelo Jordão. Nos Evangelhos costuma chamar-se-lhe umas vezes «Lago de Genesaré» (Lc 5,1), pela localidade do mesmo nome situada na margem Noroeste do lago; outras, «Mar da Galileia» (Mt 4,18; 15,29; Mc 1,16; 7,31), pelo nome da região em que se encontra. São João chama-lhe também «Mar de Tiberíades» (cfr 21,1), devido à cidade desse nome fundada por Herodes Antipas em honra do imperador Tibério. No tempo de Jesus Cristo havia à volta deste lago várias cidades: Tiberíades, Magdala, Cafarnaum, Betsaida, etc.; as suas margens foram com frequência cenário da pregação do Senhor.

2. Ainda que São João não refira mais que sete milagres e não mencione outros que narram os Sinópticos, neste versículo, e mais expressamente no fim do seu Evangelho (20,30; 21,25), diz que foram muitos os milagres realizados pelo Senhor; a selecção desses sete é devida a que o Evange­lista, querendo mostrar algumas facetas do mistério de Cristo, escolhe — inspirado por Deus — aqueles que estão mais em harmonia com o seu propósito. Narra agora o milagre da multiplicação dos pães e dos peixes, que está em relação directa com os discursos de Cafarnaum, em que Jesus Se apresenta a Si mesmo como «o pão da vida» (6,35.48).

4. O Evangelho de São João costuma mencionar as festas judaicas quando refere muitos dos acontecimentos do ministério público do Senhor. Aqui estamos diante de um destes casos (cfr Duração do Ministério Público, pp. 81 s.; Introdução ao Evangelho segundo São João, pp. 1088 s.). Pouco antes desta Páscoa, Jesus realiza o milagre da multiplicação dos pães e dos peixes, prefigurando a Páscoa cristã e o mistério da Santíssima Eucaristia, como Ele próprio explica no discurso que começa no v. 26, onde promete dar-Se como alimento da nossa alma.

5-9. Jesus é sensível às necessidades espirituais e mate­riais dos homens. Aqui vemo-Lo a tomar a iniciativa para satisfazer a fome daquela multidão que O segue.

Com estes diálogos e o milagre que vai realizar, Jesus ensina também aos Seus discípulos a confiar n’Ele perante as dificuldades que encontrarão nas suas futuras tarefas apostólicas, empreendendo-as com os meios que tiverem, ainda que sejam insuficientes, como neste caso o eram os cinco pães e os dois peixes. Ele entrará com o que falta. Na vida cristã há que pôr ao serviço do Senhor o que temos, ainda que nos pareça muito pouco. O Senhor saberá multi­plicar a eficácia desses meios tão insignificantes.

«Tenhamos, pois, Fé, sem permitir que o desalento nos domine; sem nos determos em cálculos meramente humanos. Para superar os obstáculos, há que começar a trabalhar, metendo-nos em cheio,nessa tarefa, de maneira que o nosso próprio esforço nos leve a abrir novos caminhos» (Cristo que passa, n.° 160).

10. O Evangelista transmite um pormenor à primeira vista intranscendente: «Naquele lugar havia muita erva». Isto indica que o milagre aconteceu em plena Primavera da Palestina, em dias muito próximos da Páscoa, como disse no v. 4. Ainda que na Palestina sejam muito escassos os prados, existe, mesmo hoje, uma verdadeira pradaria na margem oriental do lago de Genesaré, chamada el-Batihah, onde podiam sentar-se os cinco mil homens e onde, portanto, pode ter-se verificado este milagre.

11. O relato do milagre começa quase com as mesmas palavras com que os Sinópticos e São Paulo narram a instituição da Eucaristia (cfr Mt 26,26; Mc 14,22; Lc 22,19; 1Cor 11,25). Tal coincidência indica que o milagre, além de ser uma manifestação da misericórdia de Jesus para com os necessitados, é figura da Santíssima Eucaristia, da qual o Senhor falará pouco depois (cfr Ioh 6,26-59).

12-13. A abundância de pormenores reflecte o realismo da narração: o nome dos Apóstolos que falam com o Senhor (vv 5.8), a espécie dos pães que eram de cevada (v. 9), o rapaz que levava essas provisões (v. 9) e, por último, Jesus que manda recolher os pedaços.

O milagre denota o poder divino de Jesus sobre a matéria, e a liberalidade com que o realiza evoca a abun­dância dos bens messiânicos que os profetas tinham predito (cfr. ler 31,14).

O mandato de recolher os pedaços que sobram ensina que os bens materiais, por serem dons de Deus, não se devem desperdiçar, mas hão-de ser usados com espírito de pobreza (cfr a nota a Mc 6,42). Neste sentido explica Paulo VI que «depois de ter alimentado com liberalidade a multidão, o Senhor recomenda aos Seus discípulos que recolham o que sobrou para que nada se perca (cfr Ioh 6,12). Que formosa lição de economia, no sentido mais nobre e mais pleno da palavra, para a nossa época dominada pelo esban­jamento! Além disso, leva consigo a condenação de toda uma concepção da sociedade em que até o próprio consumo tende a converter-se no seu próprio bem, desprezando os que se veem necessitados e em detrimento, em última análise, dos que julgam ser os seus beneficiários, incapazes já de per­ceber que o homem é chamado a um destino mais alto» (Discurso aos participantes na Conferência mundial da Alimen­tação, 9-XI-1974).

14-15. A fé que o milagre suscita naqueles homens é ainda muito imperfeita: reconhecem-No como o Messias prometido no Antigo Testamento (cfr Dt 18,15), mas pensam num messianismo terreno e nacionalista, querem fazê-Lo rei porque consideram que o Messias os há-de livrar da domi­nação romana.

O Senhor, que mais adiante (vv 26-27) explicará o verda­deiro sentido da multiplicação dos pães e dos peixes, limi­ta-Se a fugir daquele lugar, para evitar uma proclamação popular alheia à Sua verdadeira missão. No diálogo com Pilatos (cfr Ioh 18,36) explicará que o Seu Reino « não é deste mundo».

«Os Evangelhos mostram claramente como para Jesus era uma tentação o que alterasse a Sua missão de Servidor de Yahwéh (cfr Mt 4,8; Lc 4,5). Não aceita a posição daqueles que misturavam as coisas de Deus com atitudes meramente políticas (cfr Mt 22,21; Mc 12,17; Ioh18,36) (…). A perspec­tiva da Sua missão é muito mais profunda. Consiste na salvação integral por um amor transformante, pacificador, de perdão e de reconciliação. Não há dúvida, por outro lado, que tudo isto é muito exigente para a atitude do cristão que quer servir de verdade os irmãos mais pequenos, os pobres, os necessitados, os marginalizados; numa palavra, todos os que reflectem nas suas vidas o rosto dorido do Senhor (cfr Lumen gentium, n. 8)» (Discurso episcopado latino americano. n° 1,4).

Não se pode, pois, confundir o cristianismo com uma ideologia social ou política, por mais nobre que seja. «Não penso na tarefa dos cristãos na Terra como o nascer duma corrente político-religiosa — seria uma loucura — nem mesmo com o bom propósito de difundir o espírito de Cristo em todas as actividades dos homens. O que é preciso é pôr em Deus o coração de cada um, seja ele quem for. Procuremos falar a todos os cristãos, para que no lugar onde estiverem (…) saibam dar testemunho, com o exemplo e com a palavra, da fé que professam.

«O cristão vive no mundo com pleno direito, por ser homem. Se aceita que no seu coração habite Cristo, que reine Cristo, em todo o seu trabalho humano encontrar-se-á — bem forte — a eficácia salvadora do Senhor» (Cristo que passa, n° 183).

 

18.04.2015 – Jo 6, 16-21

16Quando entardeceu, desceram os discí­pulos ao mar 17e, subindo para um barco, puseram-se a caminho para o outro lado do mar, em direcção a Cafarnaum. Já estava a escurecer e ainda Jesus não tinha ido ter com eles; 18e, como soprasse forte ventania, o mar ia-se encrespando. 19Quando eles tinham uns vinte e cinco ou trinta estádios de avanço, veem Jesus a andar sobre o mar e a aproximar-Se do barco; e tiveram medo. 20Mas Ele diz-lhes: Sou Eu, não tenhais medo! 21Quiseram então recebê-Lo no barco, e logo o barco chegou à terra para onde iam.

Comentário

16-21. Parece que os discípulos estavam desconcerta­dos porque tinha escurecido, o mar ia-se agitando, e Jesus não chegava. Contudo, o Senhor não os abandona, mas quando já tinham remado uns cinco quilômetros, Jesus chega inesperadamente andando sobre as águas para robustecer a sua fé ainda débil (cfr as notas a Mt 14,22-23 e a Mc 6,48.52).

Ao meditar este episódio, a tradição cristã viu na barca uma figura da Igreja, que terá de suportar muitas dificul­dades e à qual o Senhor prometeu a Sua assistência ao longo dos séculos (cfr Mt 28,20); por isso a Igreja permanecerá firme e segura para sempre. São Tomás de Aquino comenta: «Aquele vento é figura das tentações e da perseguição que padecerá a Igreja por falta de amor. Porque, como diz Santo Agostinho, quando se esfria o amor, aumentam as ondas e a nave soçobra. Contudo, o vento, a tempestade, as ondas e as trevas não conseguirão que a nave se afaste do seu rumo e fique destroçada» (Comentário sobre S. João, ad loc.)

 

19.04.2015 – Lc 24, 35-48

35E eles puseram-se a contar o que se tinha passado no caminho e como Jesus Se lhes dera a conhecer ao partir do pão.

36Enquanto diziam isto, apresentou-Se Ele próprio no meio deles e disse-lhes: A paz seja convosco. 37Eles ficaram aturdidos e cheios de medo, e julgavam estar a ver um espírito. 38Disse-lhes então: Porque estais perturbados e por que motivo surgem tais hesitações no vosso íntimo? 39Vede as Minhas mãos e os Meus pés; sou Eu mesmo. Palpai-Me e olhai que um espírito não tem carne nem ossos, como verificais que Eu tenho. 40E, dizendo isto, mostrou-lhes as mãos e os pés. 41Estando eles ainda sem querer acreditar, com a alegria, e cheios de pasmo, perguntou-lhes: Tendes aí alguma coisa que se coma? 42Eles passa­ram-Lhe uma posta de peixe assado. 43To-mando-a, pôs-Se a comer à vista deles.

44Depois disse-lhes: Foram estas as palavras que vos disse, quando ainda Me achava entre vós: «Tem de cumprir-se tudo o que está escrito a Meu respeito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos». 45Abriu-lhes então o entendimento, para compreenderem as Escrituras, 46e disse-lhes: Assim está es­crito que o Messias havia de sofrer e ressus­citar dos mortos ao terceiro dia 47e que se havia de pregar, em Seu nome, o arrepen­dimento e a remissão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém. 48Vós sois as testemunhas destas coisas!

Comentário

36-43. Esta aparição de Jesus ressuscitado é referida por São Lucas e São João (cfr Ioh 20,19-23). São João recolhe a instituição do sacramento da Penitência, ao mesmo tempo que São Lucas sublinha a dificuldade dos discípulos para aceitar o milagre da Ressurreição, apesar do testemunho dos anjos às mulheres (cfr Mt 28,5-7; Mc 16,5-7; Lc 24,4-11) e daqueles que já tinham visto o Senhor ressuscitado (cfr Mt 28,9-10; Mc 16,9-13; Lc 24,13 ss.; Ioh 20,11-18).

Jesus aparece-lhes de improviso, estando as portas fecha­das (cfr Ioh 20,19), o que explica a sua surpresa e a sua reacção. Santo Ambrósio comenta que «penetrou no recinto fechado não porque a sua natureza fosse incorpórea, mas porque tinha a qualidade de um corpo ressuscitado» (Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc.). Entre essas qualidades do corpo glorioso, a subtileza faz que «o corpo esteja totalmente submetido ao império da alma» (Catecismo Romano, I, 12,13), de modo que pode atravessar os obstáculos materiais sem nenhuma resistência.

A cena reveste-se de um encanto especial quando o Evan­gelista descreve os pormenores de condescendência divina para os confirmar na verdade da Sua Ressurreição.

41-43. Ainda que o corpo ressuscitado seja impassível e, por conseguinte, não necessite já de alimentos para se nutrir, o Senhor confirma os discípulos na verdade da Sua Ressurreição com estas duas provas: convidando-os a que O toquem e comendo na sua presença. «Eu, por minha parte, confessa Santo Inácio de Antioquia, sei muito bem e nisto ponho a minha fé que, depois da Sua Ressurreição, o Senhor permaneceu na Sua carne. E assim, quando Se apresentou a Pedro e aos seus companheiros, disse-lhes: Tocai-Me, palpai-Me e compreendei que não sou um espírito incorpóreo. E prontamente tocaram-No e acreditaram, ficando persua­didos da Sua carne e do Seu espírito (…). Mais ainda, depois da Sua Ressurreição comeu e bebeu com eles, como homem de carne que era, embora espiritualmente estivesse feito uma coisa com Seu Pai» (Carta aos de Esmirna, III, 1-3).

44-49. São Mateus insiste no cumprimento em Cristo das profecias do AT, porque os primeiros destinatários do seu Evangelho eram judeus, para quem isto constituía uma prova manifesta de que Jesus era o Messias prometido e esperado. São Lucas não utiliza habitualmente este argu­mento, porque escreve para os gentios; não obstante, neste epílogo recolhe sumariamente a advertência de Cristo que declara ter-se cumprido tudo o que estava predito acerca d’Ele. Sublinha-se assim a unidade dos dois Testamentos e que Jesus é verdadeiramente o Messias.

Por outro lado, São Lucas refere a promessa do Espírito Santo (cfr Ioh 14,16-17.26; 15,26; 16,7 ss.), cujo cumprimento no dia de Pentecostes narrará com pormenor no livro dos Actos (cfr Act 2,1-4).

46. São Lucas pôs em realce a falta de inteligência dos Apóstolos quando Jesus anuncia a Sua Morte e Ressurreição (cfr 9,45; 18,34). Agora, cumprida a profecia, recorda a necessidade de que Cristo padecesse e ressuscitasse de entre os mortos (cfr 24,25-27).

A Cruz é um mistério não só na vida de Cristo mas também na nossa: «Jesus sofre para cumprir a Vontade do Pai… E tu, que também queres cumprir a Santíssima Vontade de Deus, seguindo os passos do Mestre, poderás queixar-te se encontrares por companheiro de caminho o sofrimento?» (Caminho, n° 213).

 

20.04.2015 – Jo 6, 22-29

22No dia seguinte, a multidão que se encontrava. do outro lado do mar verificou que ali não estivera outra embarcação além duma só e que Jesus não entrara no barco com os discípulos, mas só estes se haviam retirado. 23Todavia, tinham vindo outras embarcações de Tiberíade para junto do local em que haviam comido o pão, depois de o Senhor ter dado graças. 24Quando a multidão viu que Jesus não estava lá, nem os discípulos, subiram todos para as embarca­ções e vieram para Cafarnaum, em busca de Jesus. 25E quando O encontraram do outro lado do mar, disseram-Lhe: Rabi, quando chegaste aqui?

26Respondeu-lhes Jesus, dizendo: Em verdade, em verdade vos digo: Vós procurais-Me, não porque vistes milagres, mas por haverdes comido dos pães e vos terdes saciado. 27Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela comida que se conserva até à vida eterna e que o Filho do homem vos dará; pois a Este é que o Pai, o próprio Deus, marcou com o Seu selo. 28Disseram-Lhe en­tão: Que havemos de fazer para trabalhar nas obras de Deus? 29Respondeu-lhes Jesus: É esta a obra de Deus: que acrediteis No que Ele enviou.

Comentário

26. O Senhor começa por corrigir a falta de rectidão de intenção que os movia a segui-Lo, preparando-os assim para compreender a doutrina do discurso eucarístico. «Procurais-Me, comenta Santo Agostinho, por motivos da carne, não do espírito. Quantos há que buscam Jesus, guiados apenas por interesses temporais! (…). Quase não se busca Jesus por Jesus» (In Ioann. Evang., 25,10).

Começa neste versículo o chamado Discurso do Pão da Vida, que se prolonga até ao versículo 59. Inicia-se com uma introdução a modo de diálogo entre Jesus e os Judeus (vv. 26-34), onde o Senhor Se revela como Aquele que vem trazer os dons messiânicos. Segue-se a primeira parte do discurso (vv. 35-47), em que Jesus Se apresenta como o Pão da Vida, enquanto a fé n’Ele é alimento para a vida eterna. Na segunda parte (vv. 48-59) Cristo revela o mistério da Eucaristia: Ele é o Pão da Vida que Se dá sacramentalmente como verdadeira comida.

27. O alimento corporal serve para a vida neste mundo, o espiritual sustenta e desenvolve a vida sobrenatural, que continua para sempre no Céu. Este alimento, que só Deus nos pode dar, consiste principalmente no dom da fé e na graça santificante. Inclusive, por infinito amor divino, na Santíssima Eucaristia é-nos dado como alimento da alma o próprio autor desses dons: Jesus Cristo.

«A Este é que o Pai marcou com o Seu selo»: Com esta frase o Senhor alude à autoridade, pela qual só Ele pode dar aos homens os dons mencionados: porque sendo Deus e homem, a natureza humana de Jesus é o instrumento pelo qual actua a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. São Tomás de Aquino comenta assim esta frase: «O que o Filho do Homem dará, possui-o enquanto supera todos os outros homens pela sua singular e eminente plenitude de graça (…). Quando um selo se imprime na cera, esta recebe toda a forma do selo. Assim o Filho recebeu toda a forma do Pai. E isto de dois modos: um eterno (geração eterna), do qual não se fala aqui porque o selo e o selado são de natureza diferente. O outro, que é o que se deve entender aqui, é o mistério da Encarnação, pela qual Deus Pai imprimiu na natureza humana o Verbo, que é resplendor e selo da Sua substância, como diz Hebreus 1,3» (Comentário sobre S. João, ad loc.).

 

21.04.2015 – Jo 6, 30-35

30Disseram-Lhe eles: Que milagre então fazes Tu, para nós vermos e acreditarmos em Ti? Que obra realizas? 31Os nossos pais, no deserto, comeram o maná, conforme está escrito: Deu-lhes a comer um pão que veio do Céu. 32Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: Não foi Moisés que vos deu o pão que vem do Céu; meu Pai é que vos dá o verdadeiro pão que vem do Céu, 33pois o pão de Deus é o que desce do Céu e dá a vida ao mundo. 34Disseram-Lhe então: Senhor, dá-nos sempre desse pão! 35Disse-lhes Jesus: Eu sou o Pão da Vida: aquele que vem a Mim nunca terá fome, e aquele que acredita em Mim nunca terá sede.

Comentário

28-34. O diálogo entre Jesus e os Seus ouvintes recorda o episódio da mulher Samaritana (cfr Ioh4,11-15). Ali fala-se de uma água que jorra para a vida eterna; aqui de um pão que desce do Céu para dar a vida ao mundo. Ali a mulher perguntava-se se Jesus podia ser superior a Jacob, aqui as pessoas se Ele Se pode comparar com Moisés (cfr Ex 16,13). «O Senhor apresentava-Se de tal forma, que aparecia superior a Moisés: jamais teve Moisés a audácia de dizer que ele dava um alimento que não perecia, que permanecia até à vida eterna. Jesus promete muito mais que Moisés. Este prometia um reino, uma terra de arroios de leite e mel, uma paz temporal, filhos numerosos, a saúde corporal e todos os outros bens temporais (…); encher o seu ventre aqui na terra, mas de manjares que perecem; Cristo, pelo contrário, pro­metia um manjar que, na verdade, não perece mas per­manece eternamente» (In Ioann. Evang., 25,12).

Os interlocutores de Jesus sabiam que o maná — alimento que os Judeus recolhiam diariamente no seu caminhar pelo deserto (cfr Ex 16,13 ss. — era símbolo dos bens messiânicos; por isso pedem ao Senhor que realize um portento semelhante. Mas não podiam nem sequer suspeitar que o maná era figura de um grande dom messiânico sobrenatural que Cristo traz aos homens: a Santíssima Eucaristia. Jesus, com este diálogo e a primeira parte do discurso eucarístico (vv 35-47), procura levá-los antes de mais a um acto de fé n’Ele, para depois lhes revelar abertamente o mistério da Santíssima Eucaristia. Com efeito, Ele é o pão «que desceu do Céu e dá a vida ao mundo» (v. 33). Também São Paulo explica que o maná e os outros prodígios que aconteceram no deserto eram prefiguração clara de Jesus Cristo (cfr 1Cor 10,3-4).

A atitude incrédula daqueles judeus incapacitava-os para aceitar a revelação de Jesus. Para reconhecer o mistério da Eucaristia é necessária a fé, como voltou a pôr em realce o Papa Paulo VI: «Antes de mais, queremos recordar uma verdade, por vós bem sabida, mas muito necessária para eliminar todo o veneno de racionalismo, verdade que muitos católicos selaram com o seu próprio sangue e que célebres Padres e Doutores da Igreja professaram e ensinaram cons­tantemente, isto é, que a Eucaristia é um altíssimo mistério, mais ainda, falando com propriedade, como diz a Sagrada Liturgia, o mistério da fé (…). É, pois, necessário que nos aproximemos particularmente deste mistério, com humilde reverência, não buscando razões humanas, que devem estar caladas, mas aderindo firmemente à Revelação divina» (Mysterium fidei).

35. Ir a Jesus é crer n’Ele, porque do Senhor aproximamo-nos pela fé. Com a imagem da comida e da bebida expressa Jesus que Ele é quem realmente sacia todas as nobres aspirações do homem: «Que bela é a nossa Fé Católica! — Dá solução a todas as nossas ansiedades, e aquieta o entendimento, e enche de esperança o coração» (Caminho, n.° 582).

 

22.04.2015 – Jo 6, 35-40

35Disse-lhes Jesus: Eu sou o Pão da Vida: aquele que vem a Mim nunca terá fome, e aquele que acredita em Mim nunca terá sede. 36No entanto, Eu bem vos disse: Vós vedes-Me, e não acreditais. 37Tudo o que o Pai Me dá há-de vir a Mim, e aquele que vem a Mim não o hei-de repelir, 38porque desci do Céu, não para fazer a Minha vontade, mas a vontade d’Aquele que Me enviou. 39Ora é esta a vontade d’Aquele que Me enviou: que daquilo que Me deu, Eu nada perca, mas o ressuscite no último dia. 40De facto, é esta a vontade de Meu Pai: que todo aquele que vê o Filho e acredita n’Ele tenha a vida eterna; e Eu ressuscitá-lo-ei no último dia.

Comentário

35. Ir a Jesus é crer n’Ele, porque do Senhor aproximamo-nos pela fé. Com a imagem da comida e da bebida expressa Jesus que Ele é quem realmente sacia todas as nobres aspirações do homem: «Que bela é a nossa Fé Católica! — Dá solução a todas as nossas ansiedades, e aquieta o entendimento, e enche de esperança o coração» (Caminho, n.° 582).

37-40. Jesus revela com clareza que Ele é o Enviado do Pai. Já antes o tinha anunciado São João Baptista (Ioh3,33-36), e o próprio Jesus o afirmou no diálogo com Nicodemos (Ioh3,17-21) e o proclamou diante dos Judeus em Jerusalém (Ioh 5,20-30). Visto que Jesus é o enviado do Pai, o pão da vida que desceu do Céu para dar a vida ao mundo, todo aquele que acreditar n’Ele tem a vida eterna, pois a Vontade de Deus é que todos se salvem por meio de Jesus Cristo. Nas palavras de Jesus estão contidos três mistérios: 1) o da fé em Jesus Cristo, que é ir a Jesus aceitando os Seus milagres (sinais) e as Suas palavras; 2) o da ressurreição dos crentes, que se inicia nesta vida pela fé e se cumprirá plenamente no Céu; 3) o da predestinação, que é o desígnio da Vontade de nosso Pai do Céu, de que todos os homens possam salvar-se. Estas palavras solenes do Senhor enchem de esperança o crente.

Santo Agostinho, comentando os vv 37 e 38, exalta o valor da humildade de Jesus, modelo perfeito da humildade do cristão, ao não querer fazer a Sua vontade, mas a do Pai que O enviou: «Que mistério há aqui tão grande! (…). Eu vim humilde, Eu vim ensinar a humildade; Eu sou o mestre da humildade. Aquele que vem a Mim, incorpora-se a Mim; aquele que vem a Mim torna-se humilde, e aquele que adere a Mim será humilde, porque não faz a sua vontade, mas a de Deus» (In Ioann. Evang., 25,15 e 16).

 

23.04.2015 – Jo 6, 44-51

44Ninguém pode vir a Mim, se o Pai, que Me enviou, o não atrair; e Eu ressuscitá-lo-ei no último dia. 45Está escrito nos Profetas: Serão todos instruídos por Deus. Todo aquele que ouviu e aprendeu do Pai vem a Mim. 46Não é que alguém tenha visto o Pai, senão Aquele que vem de Deus; Esse é que viu o Pai. 47Em verdade, em verdade vos digo: Aquele que acredita possui a vida eterna! 48Eu sou o Pão da Vida. 49Vossos pais, no deserto, comeram o maná, e morreram. 50Tal é o pão que desce do Céu: quem dele comer não morrerá. 5lEu sou o pão vivo que desceu do Céu. Se alguém comer este pão, viverá eternamente; e o pão que Eu hei-de dar é a Minha carne pela vida do mundo.

Comentário

44-45. O ir a Cristo até O encontrar é um dom gratuito que nenhum homem pode conseguir só com as suas próprias forças, embora todos devam estar bem dispostos para O receber. O Magistério da Igreja voltou a recordar esta doutrina no Concilio Vaticano II: «Para prestar esta adesão da fé, são necessários a prévia e concomitante ajuda da graça divina e os interiores auxílios do Espírito Santo, o qual move e converte a Deus o coração, abre os olhos do entendimento, e dá ‘a todos a suavidade em aceitar e crer a verdade’» (Dei Verbum, n. 5).

Jesus ao dizer que «serão todos instruídos por Deus», evoca Is 54,13 e ler 31,33 ss., onde ambos os profetas se referem à futura Aliança que Deus estabelecerá com o Seu povo quando chegar o Messias, com cujo Sangue ficará selada para sempre, e que Deus escreverá nos seus corações (cfr Is 53,10-12; ler 31,31-34).

«Que ouviu e aprendeu do Pai»: Pode traduzir-se também «o que vem do Pai». Refere-se à Revelação de Deus pelos profetas e especialmente por Jesus Cristo.

46. Nós, os homens, só podemos conhecer a Deus Pai através de Jesus Cristo, porque Ele é o único que O viu e veio para no-Lo revelar. Já tinha dito São João no prólogo: «A Deus ninguém O viu jamais; o Deus Unigênito, O que está no seio do Pai, Ele mesmo O deu a conhecer» (Ioh1,18). Mais tarde dirá Jesus a Filipe na Última Ceia: «Aquele que Me viu a Mim viu o Pai» (Ioh 14,9), porque Cristo é o Caminho, a Verdade e a Vida, e ninguém vai ao Pai senão por Ele (cfr Ioh 14,6).

Com efeito, em Jesus Cristo culmina a Revelação de Deus aos homens: «Pois enviou o Seu Filho, isto é, o Verbo eterno, que ilumina todos os homens, para habitar entre os homens e manifestar-lhes a vida íntima de Deus (cfr Ioh 1,1-18). Jesus Cristo, Verbo feito carne, enviado ‘como homem para os homens’, ‘fala, portanto, as palavras de Deus’ (Ioh 3,34) e consuma a obra de salvação que o Pai Lhe mandou realizar (cfr Ioh5,36; 17,4). Por isso, Quem vê a Jesus Cristo vê o Pai (cfr Ioh14,9)» (Dei Verbum, n. 4).

48. Com esta solene declaração repetida diante das dúvidas dos ouvintes (cfr Ioh 6,35.41.48), Jesus começa a segunda parte do Seu discurso, em que directamente revela o grande mistério da Santíssima Eucaristia. As palavras de Cristo são de um realismo tão forte que excluem qualquer interpretação em sentido figurado: se Cristo não estivesse realmente presente sob as espécies do pão e do vinho, este discurso careceria absolutamente de sentido e de força. Por outro lado, aceite pela fé a presença real de Cristo na Euca­ristia, as Suas palavras são inequívocas e mostram o infinito e íntimo amor de Cristo por nós.

É tão grande este mistério que foi sempre pedra de toque da fé cristã. «Eis o mistério da fé», proclama-se imediatamente depois da Consagração na Santa Missa. Já para certos ouvintes directos de Jesus este discurso foi motivo de escân­dalo (cfr vv. 60-66). Ao longo da história alguns procuraram mitigar o sentido óbvio das palavras do Senhor. O Magis­tério da Igreja voltou nos nossos dias a expor a doutrina sobre este excelso mistério: «Realizada a transubstanciação, as espécies de pão e de vinho adquirem sem dúvida um novo significado e um novo fim, visto que já não são o pão ordinário e a bebida ordinária, mas o sinal de uma coisa sagrada, sinal de um alimento espiritual; mas adquirem um novo significado e um novo fim enquanto contêm uma ‘realidade’, que com razão denominamos antológica; porque debaixo de tais espécies já não existe o que havia antes, mas uma coisa completamente diversa (…), visto que convertida a substância ou natureza do pão e do vinho no Corpo e no Sangue de Cristo, não fica já nada do pão e do vinho, mas apenas as espécies: debaixo delas Cristo todo inteiro está presente na Sua ‘realidade’ física, mesmo corporalmente, ainda que não do mesmo modo como os corpos estão num lugar.

«Por isso os Padres tiveram grande cuidado em advertir os fiéis que ao considerar este augustíssimo Sacramento, confiassem não nos sentidos que se fixam nas propriedades do pão e do vinho, mas nas palavras de Cristo, que têm tal força que mudam, transformam, ‘transelementam’ o pão e o vinho no Seu Corpo e no Seu Sangue; porque, como mais de uma vez o afirmam os mesmos Padres, o poder que realiza isto é a própria força de Deus omnipotente que no princípio do tempo criou o universo do nada» (Mysterium fidei).

Sobre a Santíssima Eucaristia vejam-se também as notas a Mt 26,26-29; Mc 14,22.24.25 e Lc 22,16-20.

49-51. O maná do Êxodo era figura deste Pão — o próprio Jesus Cristo — que alimenta os cristãos no seu peregrinar por este mundo. A comunhão é o maravilhoso ban­quete em que Cristo Se nos dá a Si mesmo: «O pão que Eu hei-de dar é a Minha carne pela vida do mundo». Estas palavras são a promessa da instituição da Eucaristia na Última Ceia: «Isto é o Meu Corpo que é entregue por vós» (1Cor 11,22). As expressões «pela vida do mundo», «por vós» aludem ao valor redentor da imolação de Cristo na Cruz. Já em alguns sacrifícios do Antigo Testamento, que eram figura do de Cristo, parte da carne oferecida servia de alimento e significava a participação no rito sagrado (cfr Ex 11,3-4). Assim, quando comungamos, participamos do sacri­fício de Jesus Cristo. Por isso canta a Igreja na Liturgia das Horas na festa do Corpus Chrísti: «Oh banquete sagrado em que Cristo é nossa comida, se celebra o memorial da Paixão, a alma se enche de graça e nos é dado um penhor da futura glória» (Antífona do ‘Magnificat’ nas Segundas Vésperas).

 

24.04.2015 – Jo 6, 52-59

52Puseram-se então os Judeus a disputar entre si, dizendo: Como pode Ele dar-nos a carne a comer? 53Jesus disse-lhes então: Em verdade, em verdade vos digo: Se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o Seu sangue, não tereis a vida em vós. 54Quem come a Minha carne e bebe o Meu sangue tem a vida eterna, e Eu ressuscitá-lo-ei no último dia. 55É que a Minha carne é verdadeiramente uma comida, e o Meu sangue é verdadeiramente uma bebida. 56Quem come a Minha carne e bebe o Meu sangue fica em Mim e Eu nele. 57Assim como o Pai, que vive, Me enviou e Eu vivo pelo Pai, também o que Me come viverá por Mim, 58Tal é o pão que desceu do Céu: não é como aquele que os nossos pais comeram, e mor­reram; quem come deste pão viverá eterna­mente.

59Isto disse Ele, estando a ensinar na sina­goga, em Cafarnaum.

Comentário

52. Os ouvintes compreendem perfeitamente o sentido próprio e directo das palavras do Senhor; mas não creem que tal afirmação possa ser verdade; se as tivessem enten­dido em sentido figurado ou simbólico não lhes teria causado tão grande estranheza nem se teria produzido a discussão. Jesus depois insistirá na Sua afirmação confir­mando o que eles tinham entendido (cfr vv 54-56).

53. Jesus reitera com grande força a necessidade de O receber na Eucaristia para participar na vida divina, para que cresça e se desenvolva a vida da graça recebida no Baptismo. Nenhum pai se contenta com dar a existência aos seus filhos, mas proporciona-lhes alimentos e meios para que possam chegar à maturidade. «Recebemos Jesus Cristo na Sagrada Comunhão para que seja alimento das nossas almas, nos aumente a graça e nos dê a vida eterna» (Catecismo da Doutrina Cristã, n.° 289).

54. Jesus afirma claramente que o Seu Corpo e o Seu Sangue são penhor da vida eterna e garantia da ressurreição corporal. São Tomás de Aquino dá esta explicação: «O Verbo dá a vida às almas, mas o Verbo feito carne vivifica os corpos. Neste Sacramento não se contém só o Verbo com a Sua divindade mas também com a Sua humanidade; portanto, não é causa da glorificação das almas, mas também dos corpos» (Comentário sobre S. João, ad loc.).

O Senhor emprega uma expressão mais forte que o mero comer (o verbo original poderia traduzir-se por « mastigar»), exprimindo assim o realismo da Comunhão: trata-se de uma verdadeira refeição. Não há lugar, pois, para uma interpre­tação simbólica, como se participar na Eucaristia fosse apenas uma metáfora, e não o comer e beber realmente o Corpo e o Sangue de Cristo.

«Estes convites, estas promessas e estas ameaças nascem todas do grande desejo que tem (Jesus) de Se unir a nós neste Sacramento. Mas, por que deseja tanto Jesus Cristo que vamos recebê-Lo na sagrada Comunhão? Eis a razão: o amor (…) sempre aspira e tende à união e, como diz São Tomás, ‘os amigos que se amam de coração quereriam estar de tal modo unidos que não formassem mais que um só’. Isto passou com o imenso amor de Deus aos homens, que não esperou para Se dar por completo no Reino dos Céus, mas ainda nesta terra deixou-Se possuir pelos homens com a mais íntima posse que se possa imaginar, ocultando-Se sob as aparências de pão no Santíssimo Sacramento. Ali está como detrás de um muro, e dali nos contempla como através de gelosias (cfr Cant 2,9). Ainda que nós não O vejamos, Ele olha para nós dali, e ali Se encontra realmente presente, para permitir que o possuamos, embora Se oculte para que O desejemos. E até que cheguemos à pátria celeste, Jesus quer deste modo entregar-Se-nos completamente e viver assim unido connosco» (Prática do amor a Jesus Cristo, cap. 2).

55. Assim como o alimento corporal é necessário para a vida terrena, a sagrada Comunhão é necessária para manter a vida da alma. Por isto a Igreja exortou sempre a receber este Sacramento com frequência: «Diariamente, como é de desejar, os fiéis em grande número participem activamente no Sacrifício da Missa, alimentem-se com coração puro e santo da sagrada Comunhão, e deem graças a Cristo Nosso Senhor por tão grande dom. Recordem estas palavras: ‘O desejo de Jesus e da Igreja de que todos os fiéis se aproximem diariamente do sagrado banquete consiste sobre­tudo nisto: que os fiéis, unidos a Deus em virtude do sacra­mento, tirem dele força para dominar a sensualidade, para se purificarem das culpas leves quotidianas e para evitar os pecados graves, a que está sujeita a “humana fragilidade” (Decr. da S. Congregação do Concilio de 20-XII-1905)» (Mysterium fidei).

«O Salvador instituiu o Santíssimo Sacramento da Eucaristia, que contém realmente a Sua Carne e o Seu Sangue, para que aquele que comer d’Ele viva eternamente; por isso, todo aquele que usa devota e frequentemente deste Sacra­mento assegura de tal maneira a salvação da sua alma, que é quase impossível que qualquer sorte de má afeição lhe ocasione a morte. Não se pode estar alimentado por esta carne de vida e viver dos afectos da morte (…). Os cristãos que se condenarem ficarão sem saber que replicar quando o justo Juiz lhes fizer ver o insensatos que foram morrer espiritualmente, podendo ter conservado com tanta facili­dade a saúde da alma comendo do Corpo que Ele lhes deixou para este fim. Miseráveis, dir-lhes-á, como é que estais mortos, tendo-vos mandado comer o fruto e manjar da vida?» (Introdução à vida devota, p. II, c. 20,1).

56. O efeito mais importante da Santíssima Eucaristia é a união íntima com Jesus Cristo. O próprio nome de Comunhão indica esta participação unitiva na Vida do Senhor: se em todos os sacramentos, por meio da graça que nos conferem, se consolida a nossa união com Jesus, esta é mais intensa na Eucaristia, visto que não só nos dá a graça, mas o próprio Autor da graça: «Participando realmente do Corpo do Senhor na fracção do pão eucarístico, somos elevados a uma comunhão com Ele e entre nós.’ Porque o pão é um, somos muitos um só corpo, pois todos participamos de um único pão’ (1Cor 10,17)» (Lumen gentium, n. 7). Precisa­mente por ser a Eucaristia o sacramento que melhor significa a nossa união com Cristo, é ao mesmo tempo onde toda a Igreja mostra e leva a cabo a sua unidade: Jesus Cristo «instituiu na Sua Igreja o admirável sacramento da Euca­ristia, pelo qual se significa e se realiza a unidade da Igreja» (Unitatis redintegratio, n. 2).

57. Em Cristo, o Verbo encarnado e enviado ao mundo «habita toda a plenitude da divindade corporalmente» (Col 2,9) pela inefável união da Sua natureza humana com a é natureza divina na Pessoa do Verbo. Ao recebermos neste sacramento a Carne e o Sangue de Cristo indissoluvelmente unidos à Sua divindade, participamos na própria vida divina da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Nunca apreciaremos suficientemente a intimidade e a proximidade com o próprio Deus — Pai, Filho e Espírito Santo —, que Se nos oferece no banquete eucarístico.

«Sendo isto assim, devíamos confessar que a alma não pode fazer nem pensar coisa mais agradável a Jesus Cristo do que hospedar no seu coração, com as devidas disposições, hóspede de tanta majestade, porque desta maneira se une a Jesus Cristo, que tal é o desejo de tão enamorado Senhor. Disse que se deve receber a Jesus não com as disposições dignas, mas com as devidas, porque, se fosse necessário ser digno deste sacramento, quem jamais poderia comungar? Só um Deus poderia ser digno de receber um Deus. Digo dignas no sentido em que convém à mísera criatura vestida da pobre carne de Adão. Ordinariamente falando, basta que a alma se encontre em graça de Deus e com vivo desejo de aumentar nela o amor a Jesus Cristo» (Prática do amor a Jesus Cristo, cap. 2).

58. Pela terceira vez (cfr 6,31-32 e 6,49) Jesus compara o verdadeiro pão da vida, o Seu próprio Corpo, com o maná, com que Deus tinha alimentado os Hebreus diariamente durante quarenta anos no deserto. Assim, faz um convite a alimentar frequentemente a nossa alma com o manjar do Seu Corpo.

«Quantos anos a comungar diariamente! — Outro seria santo — disseste-me — e eu, sempre na mesma! «— Filho — respondi-te — continua com a Comunhão diária, e pensa: que seria de mim, se não tivesse comun­gado?» (Caminho, n° 534).

 

25.04.2015 – Mc 16, 15-20

15E disse-lhes Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura. 16Quem acre­ditar e for baptizado será salvo, mas quem não crer será condenado. 17Aos que crerem acompanhá-los-ão estes milagres: em Meu nome expulsarão Demônios, falarão novas línguas, 18pegarão em serpentes e, se beberem peçonha, não lhes fará mal, imporão as mãos aos doentes, e eles recobrarão saúde.

19E assim o Senhor Jesus, depois de ter falado com eles, foi assumido ao Céu e sentou-Se à direita de Deus.

20Eles partiram a pregar por toda a parte, cooperando o Senhor com eles e confirmando a sua palavra com os milagres que a acom­panhavam.

Comentário

15. Este versículo contém o chamado mandato apostó­lico universal, que é paralelo ao de Mt 28,19-20 e ao de Lc 24,46-48. É um mandato imperativo de Cristo aos Seus Após­tolos para que preguem o Evangelho a todas as nações. Essa mesma missão apostólica incumbe, de modo especial, aos sucessores dos Apóstolos, que são os Bispos em comunhão com o Papa, sucessor de Pedro.

Não só eles, porém, mas toda «a Igreja nasceu para tornar todos os homens participantes da redenção salvadora e, por eles, ordenar efectivamente a Cristo o universo inteiro, dilatando pelo mundo o Seu Reino para glória de Deus Pai. Toda a actividade do Corpo místico que a este fim se oriente, chama-se apostolado. A Igreja exerce-o de diversas maneiras, por meio de todos os seus membros, já que a vocação cristã é também, por sua própria natureza, vocação ao apostolado. (…). Existe na Igreja diversidade de funções, mas unidade de missão. Aos Apóstolos e seus sucessores, confiou Cristo a missão de ensinar, santificar e governar em Seu nome e com o Seu poder. Mas os leigos, dado que são participantes do múnus sacerdotal, profético e real de Cristo, têm um papel próprio a desempenhar na missão do inteiro Povo de Deus, na Igreja e no mundo» (Apostolicam actuositatem, n. 2).

É verdade que Deus actua directamente na alma de cada pessoa por meio da Sua graça, mas, ao mesmo tempo, deve afirmar-se que é vontade de Cristo, expressa neste e noutros textos, que os homens sejam instrumento ou veículo de salvação para os outros homens.

Neste sentido também o Concilio Vaticano II ensina: «A todos os fiéis incumbe, portanto, o glorioso encargo de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens em toda a terra» (Ibid., n. 3).

16. Como consequência da proclamação da Boa Nova ensina-se neste versículo que a fé e o Baptismo são requisitos indispensáveis para alcançar a salvação. A conversão à fé de Jesus Cristo há-de levar directamente ao Baptismo, que nos «confere a primeira graça santificante, pela qual se perdoa o pecado original e também os actuais, se os houver; remete toda a pena por eles devida; imprime o caracter de cristãos; faz-nos filhos de Deus, membros da Igreja e herdeiros da glória, e habilita-nos para receber os outros sacramentos» (Catecismo Maior, n° 553).

O Baptismo é absolutamente necessário para o homem se salvar, como se depreende destas palavras do Senhor. Mas a impossibilidade física do rito baptismal pode ser suprida ou pelo martírio, que é chamado baptismo de sangue, ou por um acto perfeito de amor de Deus ou de contrição, unidos ao desejo, pelo menos implícito, de ser baptizado; a isto chama-se baptismo de desejo (cfr Ibid., nos 567-568).

Relativamente ao Baptismo das crianças, já Santo Agos­tinho ensinava que «de nenhum modo se pode rejeitar nem considerar como desnecessário o costume da Santa Madre Igreja de baptizar as crianças; antes pelo contrário, há que admiti-lo forçosamente por ser tradição apostólica» (De Gen. ad litt., 10,23,39). O novo Código de Direito Canônico assinala a necessidade de que as crianças sejam baptizadas: «Os pais têm obrigação de procurar que as crianças sejam baptizadas dentro das primeiras semanas; logo após o nascimento, ou até antes deste, vão ter com o pároco, peçam-lhe o sacramente para o filho e preparem-se devidamente para ele» (cân. 867 § 1).

Outra consequência ligada intimamente à anterior é a necessidade da Igreja, como declara o Concilio Vaticano II: «Com efeito, só Cristo é mediador e caminho de salvação e Ele torna-Se-nos presente no Seu corpo, que é a Igreja; ao inculcar expressamente a necessidade da fé e do Baptismo (cfr Mc 16,16; Ioh 3,5), confirmou simultaneamente a necessidade da Igreja, para a qual os homens entram pela porta do Baptismo. Pelo que, não se poderiam salvar aqueles que, não ignorando ter sido a Igreja católica fundada por Deus, por meio de Jesus Cristo, como necessária, contudo, ou não querem entrar nela ou nela não querem perseverar» (Lumen gentium, n. 14; cfr Presbyterorum ordinis, n. 4; Ad gentes, nn. 1.3; Dignitatis humanae, n. 11).

17-18. Nos primeiros tempos da expansão da Igreja, estes factos miraculosos que Jesus anuncia cumpriram-se de modo frequente e visível. Os testemunhos históricos destes acontecimentos são abundantíssimos no Novo Testamento (cfr, p. ex. Act 3,1-11; 28,3-6) e noutros escritos cristãos antigos. Era muito conveniente que assim sucedesse para mostrar ao mundo de uma maneira palpável a verdade do cristianismo. Mais tarde, continuaram a realizar-se milagres deste tipo, mas em menor número, como casos excepcionais. Também é conveniente que assim seja porque, por um lado, a verdade do Cristianismo está já suficientemente atestada; e, por outro, para dar lugar ao mérito da fé. «Os milagres — comenta São Jerônimo — foram precisos ao princípio para confirmar com eles a fé. Mas, uma vez que a fé da Igreja está confirmada, os milagres não são necessários» (Comm. in Marcum, ad loc.). De qualquer modo, Deus continua a realizar milagres através dos santos de todos os tempos, também dos actuais.

19. A Ascensão do Senhor aos Céus e o estar sentado à direita do Pai constituem o sexto artigo da Fé que recitamos no Credo. Jesus Cristo subiu ao Céu em corpo e alma para tomar posse do Reino alcançado com a Sua morte, para nos preparar o nosso lugar na glória (cfr Apc 3,21), e para enviar o Espírito Santo à Sua Igreja (cfr Catecismo Maior, n° 123).

A afirmação «sentou-se à direita de Deus» significa que Jesus Cristo, também na Sua Humanidade, tomou posse eterna da glória e que, sendo igual ao Pai enquanto Deus, ocupa junto d’Ele o lugar de honra sobre todas as criaturas enquanto homem (cfr Catecismo Romano, I, 7,2-3). Já no Antigo Testamento se diz que o Messias estará sentado à direita do Todo-poderoso, exprimindo assim a suprema dignidade do Ungido de Yahwéh (cfr Ps 110,1). O NT recolhe aqui esta verdade, e também noutros muitos lugares (cfr Eph 1, 20-22; Heb 1,13).

Segundo amplia o Catecismo Romano, Jesus subiu aos Céus pela Sua própria virtude e não por poder estranho a Ele. Também não ascendeu aos Céus apenas como Deus, mas também como homem.

20. O Evangelista, movido pelo Espírito Santo, dá tes­temunho de que as palavras de Cristo já se tinham começado a cumprir no tempo em que escrevia o seu Evangelho. Os Apóstolos, com efeito, souberam realizar com fidelidade a missão que o Senhor lhes tinha confiado. Começaram a pregar por todo o mundo então conhecido a Boa Nova da Salvação. A palavra dos Apóstolos era acompanhada pelos sinais e prodígios que o Senhor lhes tinha prometido, dando assim autoridade ao seu testemunho e à sua doutrina. Mas já sabemos que o trabalho apostólico foi sempre duro, cheio de fadigas, perigos, incompreensão, perseguições e até do próprio martírio, seguindo em tudo isso os rastos do Senhor.

Graças a Deus e também aos Apóstolos, chegou até nós a força e a alegria de Cristo Senhor Nosso. Mas cada geração cristã, cada homem, tem de receber essa pregação do Evan­gelho e por sua vez transmiti-lo. A graça do Senhor não faltará nunca: «Non est abbreviata manus Domini» (Is 59,1), o poder do Senhor não diminuiu.

 

26.04.2015 – Jo 10, 11-18

11Eu sou o bom Pastor. O bom pastor dá a vida pelas ovelhas. 12O que é mercenário e não é pastor, ao qual não pertencem as ovelhas, vê vir o lobo, abandona as ovelhas e foge, enquanto o lobo as arrebata e dispersa, 13porque é mercenário e não se importa com as ovelhas. 14Eu sou o bom Pastor: conheço as que são Minhas e elas conhecem-Me, 15assim como o Pai Me conhece e Eu conheço o Pai; e Eu dou a vida pelas Minhas ovelhas. 16Tenho ainda outras ovelhas, que não são deste aprisco. A essas, também, tenho Eu de conduzir, e elas hão-de ouvir a Minha voz. Então passará a haver um só rebanho, um só Pastor. 17É por isto que Meu Pai Me ama: por Eu dar a Minha vida, para retomá-la. 18Nin­guém Ma tira; sou Eu que a dou por Mim mesmo. Tenho o poder de a dar e o poder de a retomar; foi esta a ordem que recebi de Meu Pai.

Comentário

11-15. «O Bom Pastor dá a vida pelas ovelhas»: «Fala aqui Jesus ;— .comenta São João Crisóstomo — da Sua Paixão, e mostra que ia acontecer para salvação do mundo, e que a sofreria voluntária e livremente» (Hom. sobre S. João, 59,3). Antes o Senhor falou de pastos abundantes, agora de dar a Sua própria vida: «Fez o que tinha dito — comenta São Gregório —, deu a Sua vida pelas Suas ovelhas, e entregou o Seu Corpo e Sangue no Sacramento para alimen­tar com a Sua carne as ovelhas que tinha redimido» (In Evangelia homiliae, 14, ad loc.). Os assalariados, pelo con­trário, fogem diante do perigo, e deixam que o rebanho se perca. «Quem é o mercenário? O que vê vir o lobo e foge. O que busca a sua glória, não a glória de Cristo; o que não se atreve a reprovar com liberdade de espírito os pecadores (…) porque te calaste; e calaste-te, porque tiveste medo» (In Ioann. Evang., 46,8).

«Recordem-se estes de que o seu ministério sacerdotal (…) está — de modo particular — ordenado para a grande solicitude do Bom Pastor, que é a solicitude pela salvação de todos os homens. E todos devemos recordar bem isto: que não é lícito a nenhum de nós merecer-se o nome de ‘merce­nário’, ou seja, de alguém ‘a quem as ovelhas não perten­cem’, de alguém que ‘ao ver chegar o lobo, abandona as ovelhas e foge; e assim o lobo as arrebata e dispersa; porque é mercenário, não se preocupa em nada com as ovelhas’. A solicitude de todo o bom Pastor é por que os homens ‘tenham a vida, e a tenham em abundância’, a fim de que nenhum deles se perca, mas tenham a vida eterna. Façamos com que uma tal solicitude penetre profundamente nas nossas almas: procuremos vivê-la. Que ela caracterize a nossa personalidade e esteja sempre na base da nossa identidade sacerdotal» (Carta a todos os sacerdotes, n° 7)

O Bom Pastor conhece cada uma das suas ovelhas, cha­ma-as pelo seu nome. Nesta comovente figura entrevê-se uma exortação aos futuros pastores da Igreja, como mais tarde explicará São Pedro: «Que apascenteis a grei de Deus posta ao vosso cuidado, velando sobre ela com afectuosa vontade, segundo Deus-, não por sórdido interesse, mas gratuitamente» (1Pet 5,2).

«A santidade da Esposa de Cristo sempre se provou — e continua a provar-se actualmente — pela abundância de bons pastores. Mas a fé cristã, que nos ensina a ser simples, não nos leva a ser ingênuos. Há mercenários que se calam e há mercenários que pregam uma doutrina que não é de Cristo. Por isso, se porventura o Senhor permite que fique­mos às escuras, inclusivamente em coisas de pormenor, se sentimos falta de firmeza na fé, recorramos ao bom pastor, àquele que entra pela porta com toda a legitimidade, àquele que — dando a vida pelos outros — quer ser, na palavra e na conduta, uma alma movida pelo amor; àquele que talvez seja também um pecador, mas que confia sempre no perdão e na misericórdia de Cristo» (Cristo que passa, n° 34).

16. «Um só rebanho, um só pastor»: A missão de Cristo é universal ainda que a Sua pregação se dirigisse de facto, numa primeira etapa, às ovelhas da casa de Israel, como Ele mesmo manifestou à mulher cananeia (cfr Mt 15,24), e enviasse os Apóstolos, na sua primeira missão (cfr Mt 1(X6), a pregar aos israelitas. Agora, porém, pensando nos frutos da Sua morte redentora (v. 15), revela que estes se aplicarão a «outras ovelhas que não são deste aprisco», isto é, de Israel. Na verdade, os Apóstolos, depois da Ressurreição, serão enviados por Cristo a todas as gentes (cfr Mt 28,19) para pregar o Evangelho a todas as criaturas (cfr Mc 16,15), começando por Jerusalém e continuando pela Judeia, Samaria e até aos confins da terra (cfr Act 1,8). Deste modo se cumprirão as antigas promessas sobre o reinado universal do Messias (cfr Ps 2,7; Is 2,2-6; 66,17-19). A universalidade da salvação faz exclamar a São Paulo: «Recordai como noutro tempo vós… estáveis longe de Cristo, excluídos da cidadania de Israel e estranhos às alianças da promessa, sem esperança e sem Deus no mundo. Mas agora, em Cristo Jesus, vós, os que noutro tempo estáveis longe, tornastes-vos próximos pelo sangue de Cristo» (Eph 2,11-13; cfr Gal 3,27-28; Rom 3,22).

A unidade da Igreja dá-se sob uma só cabeça visível porque «o Senhor confiou todos os bens da nova Aliança — ensina o Concilio Vaticano II — ao único colégio apostólico, a cuja cabeça está Pedro, com o fim de constituir na terra um só Corpo de Cristo. É necessário que a ele se incorporem plenamente todos os que de alguma forma pertencem ao Povo de Deus» (Unitatis redintegratio, n. 3). O desejo cons­tante dos católicos é que todos os homens cheguem à verdadeira Igreja, que sendo «a única grei de Deus, como um sinal levantado entre as nações, peregrina cheia de esperança para a pátria celestial oferecendo o Evangelho da paz a todo o gênero humano» (Ibid., n. 2).

17-18. Jesus explica agora a vontade livre com que Se entrega à morte para bem do Seu rebanho (cfr Ioh 6,51). Cristo, por ter recebido pleno poder, tem liberdade para Se oferecer em sacrifício expiatório, e submete-Se voluntariamente ao mandato do Pai num acto de perfeita obe­diência.

«Nunca poderemos entender perfeitamente a liberdade de Jesus Cristo, imensa, infinita, como o Seu amor. Mas o tesouro preciosíssimo do Seu generoso holocausto deve le­var-nos a pensar: porque me deste, Senhor, este privilégio com que sou capaz de seguir os Teus passos, mas também de Te ofender? E assim acabamos por avaliar o recto uso da liberdade, quando se decide em função do bem; e a sua errada orientação, quando, com essa faculdade, o homem se esquece e se afasta do Amor dos amores» (Amigos de Deus, n° 26).

 

27.04.2015 – Jo 10, 1-10

Em verdade, em verdade vos digo: Aquele que não entra pela porta no recinto das ovelhas, mas sobe por outro lado, esse é ladrão e salteador. 2Mas aquele que entra pela porta é o pastor das ovelhas. 3É a esse que o porteiro abre, e as ovelhas ouvem a sua voz. Ele chama as suas ovelhas pelos nomes e leva-as para fora. 4Depois de fazer sair todas as que lhe pertencem, põe-se a caminho à sua frente e as ovelhas seguem-no, porque lhe conhecem a voz. 5A um estranho, porém, não o seguirão, mas hão-de fugir dele, porque não conhecem a voz dos estranhos.

6Tal foi o paralelo que Jesus lhes expôs. Eles, porém, não entenderam o que lhes estava a dizer.

7Jesus continuou: Em verdade, em verdade vos digo: Eu sou a porta das ovelhas. 8Todos quantos vieram antes de Mim são ladrões e salteadores, mas as ovelhas não os escutaram. 9 Eu sou a porta. Se alguém entrar por Mim, estará salvo; há-de entrar e sair, e achará pastagem. 10O ladrão não vem senão para roubar, matar e destruir. Eu vim para terem a vida e a terem abundantemente.

Comentário

1-18. A imagem do Bom Pastor evoca um tema preferido da pregação profética no Antigo Testamento: o povo escolhido é chamado o rebanho, e Yahwéh é seu pastor (cfr Ps 23). O nome de pastores aplicava-se também aos reis e aos sacerdotes. Jeremias dirige uma dura ameaça a estes pastores que deixam que se percam as ovelhas, e promete em nome de Deus novos pastores que de verdade apascentem as ovelhas de modo que nunca mais sejam angustiadas nem afligidas (cfr 23,1-6; cfr também 2,8; 3,15; 10,21; Is 40,1-11). Ezequiel censura os pastores pelos seus delitos e pela sua preguiça, pela avidez e pelo esquecimento dos seus próprios deveres: Yahwéh tirar-lhes-á o rebanho e Ele mesmo cuidará das Suas ovelhas. Mais ainda: suscitará um Pastor único, descendente de David, que as apascentará, e estarão seguras (Ez 34). Jesus apresenta-Se como esse Bom Pastor que cuida das Suas ovelhas, busca a extraviada, cura a ferida e carrega aos ombros a extenuada (cfr Mt 18,12-14; Lc 15,4-7), cumprindo-se n’Ele as antigas profecias.

A arte cristã inspirou-se cedo nesta figura comovente do Bom Pastor e deixou assim representado o amor de Cristo por cada um de nós.

Além do título de Bom Pastor, Cristo aplica-Se a Si mesmo a imagem da porta pela qual se entra no aprisco das ovelhas que é a Igreja. «A Igreja — ensina o Concilio Vati­cano II — é o redil, cuja única porta e necessário pastor é Cristo (cfr Ioh 10,1-10). É também o rebanho do qual o próprio Deus predisse que seria o pastor (cfr Is 40,11; Ez 34,11-15), e cujas ovelhas, ainda que governadas por pastores humanos, são contudo guiadas e alimentadas sem cessar pelo próprio Cristo, bom pastor e príncipe dos pastores (cfr Ioh 10,11; l Pet 5,4), o qual deu a vida pelas Suas ovelhas (cfr Ioh 10,11-15)» (Lumen gentium, n. 6).

1-2. Pode prejudicar-se o rebanho caladamente e às escondidas, ou então de forma descarada e com abuso de poder. Os inimigos do rebanho de Cristo — assim o atesta a História da Igreja — empregaram ambos os sistemas: umas vezes introduzem-se no redil ocultando-se para fazer mal a partir de dentro; outras fazem-no de fora, aberta e violentamente. «Quem é o bom pastor? O que entra pela porta da fidelidade à doutrina da Igreja; o que não se comporta como um mercenário, que, ao ver vir o lobo, deixa as ovelhas e foge; e o lobo arrebata-as e faz dispersar o rebanho» (Cristo que passa, n.° 34).

3-5. Naqueles tempos era costume reunir ao escurecer vários rebanhos num mesmo recinto. Ali permaneciam toda a noite sob a custódia de um guarda. Ao amanhecer, cada pastor abria-lhe a porta e chamava as suas ovelhas, que se incorporavam e saiam do aprisco atrás dele; fazia-lhes ouvir frequentemente a sua voz para que não se perdessem, e caminhava à frente para as conduzir aos pastos. O Senhor faz uso desta imagem, tão familiar aos Seus ouvintes, para lhes mostrar um ensinamento divino: diante de vozes estranhas, é necessário reconhecer a voz de Cristo — actualizada continuamente pelo Magistério da Igreja — e segui-Lo, para encontrar o alimento abundante das nossas almas. «Cristo deu à Sua Igreja a segurança da doutrina, a corrente de graça dos Sacramentos; e providenciou para que haja pessoas que nos orientem, que nos conduzam, que nos recordem constantemente o caminho. Dispomos de um tesouro infinito de ciência: a Palavra de Deus, guardada pela Igreja; a graça de Cristo, que se administra nos Sacramentos; o testemunho e o exemplo dos que vivem com rectidão ao nosso lado e sabem fazer das suas vidas um caminho de fidelidade a Deus» (Cristo que passa, n° 34).

6. Cristo, com pedagogia divina, desenvolve e inter­preta a imagem do pastor e do rebanho, para que todos os homens, se têm boas disposições, possam chegar a entender. Mas os judeus não entenderam o alcance das palavras do Senhor, como aconteceu quando lhes prometeu a Eucaristia (Ioh 6,41-43) ou lhes falou da «água viva» (Ioh 7,40-43), ou por ocasião da ressurreição de Lázaro (Ioh 11,45-46).

7. Depois de ter prefigurado a Igreja como um redil, Jesus desenvolve a comparação e chama-Se a Si mesmo «porta das ovelhas». No redil entram os pastores e as ovelhas. Tanto uns como outras hão-de entrar pela porta, que é Cristo. «Eu — pregava Santo Agostinho — querendo chegar até vós, isto é, ao vosso coração, prego-vos Cristo: se pregasse outra coisa, quereria entrar por outro lado. Cristo é para mim a porta para entrar em vós: por Cristo entro não nas vossas, casas, mas nos vossos corações. Por Cristo entro gozosamente e escutais-me ao falar d’Ele. Por quê? Porque sois ovelhas de Cristo e fostes compradas com o Seu Sangue» (In Ioann. Evang., 47,2.3).

8. A severa censura que Jesus faz a quantos vieram antes d’Ele não inclui Moisés, nem os profetas (cfr Ioh 5,39. .45; 8,56; 12,41), nem o Baptista (cfr Ioh 5,33), porque estes anunciaram o futuro Messias e prepararam-Lhe o caminho. A quem alude é aos falsos profetas e enganadores do povo, entre eles alguns doutores da Lei, cegos e guias de cegos (cfr Mt 23,16-24), que impediam ao povo o acesso a Cristo, como o tinham mostrado pouco antes quando da cura do cego de nascença (cfr Ioh 9).

 

28.04.2015 – Jo 10, 22-30

22Celebrou-se então, em Jerusalém, a festa da Dedicação. Era Inverno, 23e Jesus andava a passear no Templo, no pórtico de Salomão. Ora os Judeus rodearam-No e começaram a perguntar-Lhe: Até quando nos trarás em suspenso? Se Tu és o Messias, dize-no-lo abertamente! 25Respondeu-lhes Jesus: Já vo-lo disse, e não acreditais!… As obras que Eu faço em nome de Meu Pai é que dão testemunho de Mim; 26mas vós não acreditais, porque não sois das Minhas ovelhas. 27As Minhas ovelhas ouvem a Minha voz; Eu conheço-as, e elas seguem-Me. 28Dou-lhes a vida eterna, e elas não perecerão nunca, nem ninguém as há-de arrebatar da Minha mão. 29Meu Pai, que foi quem Mas deu, é maior do que todos, e ninguém as pode arrebatar da mão de Meu Pai. 30Eu e o Pai somos um só.

Comentário

22. Esta festa comemora um episódio da história de Israel (cfr 1Mach 4,36-59; 2 Mach 1-2,19; 10,1-8). Judas Macabeu, no ano 165 a.C., depois de ter libertado Jerusalém da dominação dos reis da dinastia Selêucida da Síria, puri­ficou o Templo das profanações de Antíoco Epifanes (l Mach 1,54). Desde então, no dia 25 do mês de Kisleu (Novembro-Dezembro) e durante a semana seguinte, celebrava-se em toda a Judeia o aniversário da dedicação do altar. Costu­mava chamar-se também «Festa das luzes» porque era cos­tume acender lâmpadas, símbolo da Lei, e pô-las nas janelas das casas (cfr 2 Mach 1,18).

24-25. Quando aqueles judeus perguntaram a Jesus se é o Messias, «falavam assim, comenta Santo Agostinho, não pelo desejo de conhecer a verdade, mas para preparar o caminho da calúnia» (In Ioann. Evang., 48,3). Já noutras ocasiões Jesus Se tinha manifestado com as Suas palavras e com as Suas obras como o Filho Único de Deus (5,19 ss; 7,16 ss.; 8,25 ss.). Também Se tinha dado a conhecer explicita­mente como Messias e Salvador à samaritana (4,26) e ao cego de nascença (9,37) diante das boas disposições destes. Agora repreende os Seus interlocutores por resistirem a reconhecer as obras que Ele realiza de parte de Seu Pai (cfr 5,36; 10,38). Outras vezes Jesus Cristo tinha aludido às obras como meio para distinguir os verdadeiros profetas dos falsos: «Pelas suas obras os conhecereis» (Mt 7,16; cfr Mt 12,33).

26-29. É certo que a fé e a vida eterna não se podem merecer só pelas forcas naturais do homem: são um dom gratuito de Deus. Mas o Senhor a ninguém nega a Sua graça para crer e para se salvar, porque «quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade» (l Tim 2,4). Ora bem, se alguém põe obstáculos ao dom da fé, é culpável da sua incredulidade. A este propósito ensina São Tomás de Aquino: «Posso ver graças à luz do sol; mas se fecho os olhos, não vejo: isto não é por culpa do sol mas por minha culpa, porque ao fechar os olhos impeço que me chegue a luz solar» (Comentário sobre S. João, ad loc.).

Pelo contrário, os que não opõem resistência à graça divina chegam a crer em Jesus, são conhecidos e amados pelo Senhor, entram sob a Sua protecção e permanecem fiéis ajudados pela Sua graça, penhor da vida eterna que finalmente receberão do Bom Pastor. É verdade que neste mundo terão de lutar e sofrerão feridas; mas se se mantêm unidos ao Bom Pastor ninguém nem nada arrebatará das mãos de Cristo as Suas ovelhas, porque mais forte que o Maligno é o nosso Pai Deus. A esperança de que o Senhor nos concederá a perseverança final baseia-se não nas nossas próprias forças mas na misericórdia divina; tal esperança deve constituir um motivo contínuo de luta para corresponder à graça e ser fiéis cada dia às exigências da nossa fé.

30. Jesus manifesta a identidade substancial entre Ele e o Pai. Antes tinha proclamado Deus como Seu Pai «tornando-Se igual a Deus»; por isto os judeus tinham pensado várias vezes em dar-Lhe morte (cfr 5,18; 8,59). Agora fala acerca do mistério de Deus, que nós os homens só podemos conhecer por revelação. Depois voltará a desvelar esse mistério, sobretudo na Última Ceia (14,10; 17,21-22). O Evan­gelista já o contempla no começo do Prólogo (cfr Ioh 1,1 e nota).

«Escuta — convida-nos Santo Agostinho — o próprio Filho: ‘Eu e o Pai somos um’. Não disse ‘Eu sou o Pai’, nem ‘Eu e o Pai é um mesmo’. Mas na expressão ‘Eu e o Pai somos um’ há que fixar-se nas duas palavras: ‘somos’ e ‘um’ (…). Porque se são um então não são diversos, e se ‘somos’, então há um Pai e um Filho» (In Ioann. Evang., 36,9). Jesus revela a Sua unidade substancial com o Pai quanto à essência ou natureza divina, mas ao mesmo tempo manifesta a distinção pessoal entre o Pai e o Filho. «Cremos, pois, em Deus. que desde toda a eternidade gera o Filho; cremos no Filho, Verbo de Deus, que é gerado desde a eternidade; cremos no Espírito Santo, Pessoa incriada, que procede do Pai e do Filho como Amor sempiterno deles. Assim, nas três Pessoas divinas, que são eternas entre si e iguais entre si, a vida e felicidade de Deus inteiramente uno abundam sobremaneira e çonsumam-se com excelência máxima e glória própria da Essência incriada; e sempre há que venerar a unidade na Trindade e a Trindade na unidade» (Credo do Povo de Deus, n° 10).

 

29.04.2015 – Jo 12, 44-50

44Jesus ergueu a voz e disse: Quem acredita em Mim não é em Mim que acredita, mas n’Aquele que Me enviou; 45e quem Me vê vê Aquele que Me enviou. 46Eu vim como luz ao mundo, a fim de que todo aquele que acredita em Mim não fique nas trevas. 47Se alguém ouve as Minhas palavras e as não guarda, não sou Eu que o condeno, que Eu não vim para condenar o mundo, mas para o salvar. 48Quem Me rejeita e não acolhe as Minhas palavras tem quem o condene. A palavra que eu anunciei é que há-de condená-lo no último dia. 49De facto, Eu não falei por Mim mesmo; foi o Pai, que Me enviou, que Me deu pessoalmente uma ordem sobre o que hei-de dizer e anunciar. 50E Eu sei que a Sua ordem é vida eterna! Portanto, as coisas que digo, digo-as como o Pai Mas disse a Mim.

Comentário

44-50. Com estes versículos termina São João o relato da pregação pública do Senhor. Recopila alguns temas fundamentais desenvolvidos em capítulos anteriores: neces­sidade da fé em Cristo (v. 44); unidade e distinção entre o Pai e o Filho (v. 45); Jesus como Luz e Vida do mundo (vv 46-50); julgamento dos homens segundo a sua aceitação ou rejeição do Filho de Deus (vv 47-49). Nos capítulos seguintes recolhe os ensinamentos de Jesus aos Seus Apóstolos na Última Ceia, e os relatos da Paixão e da Ressurreição.

45. Cristo, o Verbo Encarnado, é um com o Pai (cfr Ioh 10,30); é «o esplendor da Sua glória» (Heb 1,3), «a imagem perfeita do Deus invisível» (Col 1,15). Em Ioh 14,9 Jesus exprime-Se quase com as mesmas palavras ao dizer: «Aquele que Me viu a Mim viu o Pai». Ao mesmo tempo que fala da unidade com o Pai, aparece de forma clara a distinção entre as Pessoas divinas: o Pai, que envia, e o Filho, que é enviado.

Na Santíssima Humanidade de Cristo está como que escondida a Sua Divindade, que possui com o Pai na uni­dade do Espírito Santo (cfr Ioh 14,7-11). Em teologia costuma chamar-se «circuminsessão» a realidade divina pela qual, em virtude da unidade entre as três Pessoas da Santíssima Trindade, «o Pai está todo no Filho, todo no Espírito Santo; o Filho está todo no Pai, todo no Espírito Santo; o Espírito Santo está todo no Pai, todo no Filho» (Pró Iacobitis, Dz-Sch, n. 1331).

47. Cristo veio salvar o mundo oferecendo-Se em sacri­fício pelos nossos pecados e trazendo-nos a vida sobrenatural (cfr Ioh 3,17). Mas, ao mesmo tempo, foi constituído Juiz de vivos e mortos (cfr Act 10,42): dá a Sua sentença no juízo particular que acontece imediatamente depois da morte, e no fim dos tempos; na Sua segunda vinda ou Parusia, no juízo universal (cfr Ioh 5,22; 8,15-16 e a nota a Ioh 15,22-25).

 

30.04.2015 – Jo 13, 16-20

16Em verdade, em verdade vos digo: Não é o servo maior que o seu senhor, nem o enviado maior do que aquele que o mandou. 17Uma vez que sabeis isto, felizes sereis, se o puserdes em prática.

18Não o digo de vós todos, — Eu conheço os que escolhi, — mas é para se cumprir a Escritura: O que come do Meu pão levantou contra Mim o calcanhar. 19Desde já vo-lo digo antes que aconteça, para, quando acontecer, acreditardes que Eu sou. 20Em verdade, em ver­dade vos digo: Quem acolhe aquele que Eu enviar é a Mim que acolhe; e quem Me acolhe acolhe Aquele que Me enviou.

Comentário

15-17. Toda a vida de Jesus foi exemplo de serviço aos homens, cumprindo a Vontade do Pai até à morte na Cruz. Aqui o Senhor promete-nos que, imitando-O a Ele, o Mestre, num serviço desinteressado que sempre implica sacrifício encontraremos a verdadeira felicidade que ninguém nos poderá arrebatar (cfr 16,22; 17,13). «Dei-vos o exemplo, insiste Jesus, falando aos Seus discípulos na noite da Ceia, depois de lhes ter lavado os pés. Afastemos do coração o orgulho, a ambição, os desejos de domínio e, à nossa volta e dentro de nós, reinarão a paz e a alegria, enraizadas no sacrifício pessoal» (Cristo que passa, n.° 94).

18. Levantar o calcanhar ou talão do pé indica a acção de bater brutalmente. Daí o sentido metafórico de inimizade violenta. Na traição de Judas cumprem-se as palavras do Ps 41,10, onde o salmista se queixa amargamente da traição de um amigo. Uma vez mais o Antigo Testamento prefigura as realidades que têm a sua plenitude no Novo.

O cristão, pelo Baptismo, foi feito filho de Deus e cha­mado a compartilhar os bens divinos, não só no Céu, mas já na Terra: recebeu a graça, participa do Banquete eucarístico… compartilha com os seus irmãos, os cristãos, a amizade de Jesus. Por isso, o pecado de quem foi regenerado pelo Bap­tismo não deixa de ser em certo modo uma traição seme­lhante à de Judas. Resta-nos, porém, o arrependimento, que, confiando na misericórdia divina, nos encaminhará para recobrar a amizade de Deus perdida.

«Reage. — Ouve o que te diz o Espírito Santo: ‘Si inimicus meus maledixisset mihi, sustinuissem utique’ — que o meu inimigo me ofenda, não é estranho, e é mais tolerável. Mas, tu… ‘tu vero homo unanimis, dux meus, et notus meus, quisimul mecum dulces capiebas cibos’ — tu, meu amigo, meu apóstolo, que te sentas à minha mesa e comes comigo doces manjares!» (Caminho, n.°244).

19. Jesus anuncia de antemão aos Apóstolos a traição de Judas. Assim eles, quando viram verificadas as predições de Cristo, puderam compreender que tinha ciência divina e que, efectivamente, n’Ele se tinham cumprido as Escrituras do Antigo Testamento (cfr Ioh 2,22). Sobre a expressão «Eu sou» veja-se a nota a Ioh 8,21-24.