Evangelho do dia – mês de abril de 2013

Abril de 2013

 

01.04.2013 – Mt 28, 8-15

8Elas saíram à pressa do sepulcro com medo e com grande alegria e correram a dar a notícia aos discípulos. 9E eis que Jesus lhes saiu ao encontro, dizendo: Deus vos salve. E elas aproximaram-se, abraçaram-se-Lhe aos pés e adoraram-No. 10Disse-lhes então Jesus: Não temais. Ide dar a notícia aos Meus irmãos, para que vão para a Galileia e lá Me verão.

11Enquanto iam de caminho, alguns dos soldados vieram à cidade e contaram aos Príncipes dos sacerdotes tudo o que tinha acontecido. 12Reuniram-se eles em conselho com os Anciãos e deliberaram dar uma boa soma de dinheiro aos soldados, 13ordenan-do-lhes: Dizei: Vieram de noite os Seus discípulos e roubaram-No, enquanto nós estávamos a dormir. 14E se isto chegar aos ouvidos do governador, nós o convenceremos e vos tiraremos de cuidados. 15Eles, tendo recebido o dinheiro, fizeram como lhes tinham ensinado. E esta versão divulgou-se entre os Judeus até ao dia de hoje.

Comentário

1-15. A Ressurreição de Jesus Cristo, realizada nas primeiras horas do domingo, é um facto que todos os Evangelhos afirmam de modo claro e rotundo: Umas santas mulheres comprovam com assombro que o sepulcro está aberto. Ao entrar no vestíbulo (cfr Mc 16, 5-6), veem um anjo que lhes diz: «Não está aqui, porque ressuscitou como tinha dito». Alguns guardas, os que estavam de vigia quando o anjo fez rodar a pedra, foram à cidade e comunicaram aos pontífices tudo o que tinha acontecido. Como o assunto era urgente, optaram por subornar os guardas: deram-lhes bastante dinheiro com a condição de divulgar que os Seus discípulos foram de noite e roubaram o corpo de Jesus enquanto dormiam. «Astúcia miserável!, diz Santo Agostinho apresentas testemunhas adormecidas? Verdadeiramente estás, a dormir tu mesmo ao imaginar semelhante explicação!» (Enarrationes in Psalmos, 63, 1 5). Os Apóstolos que dias antes, tinham fugido por medo, serão agora, depois de O terem visto e de terem comido e bebido com Ele, os pregadores mais incansáveis deste facto. «Este Jesus — dirão — é quem Deus ressuscitou, do qual todos nós somos testemunhas» (Act 2,32).

Cristo, do mesmo modo que prediz a Sua subida a Jeru­salém, a Sua entrega nas mãos dos Judeus e a Sua morte, prediz a Sua Ressurreição ao terceiro dia (Mt 20, 17-19; Mc 10, 32-34; Lc 18, 31-34). Com a Ressurreição Jesus cumpre o sinal que sobre a Sua divindade tinha prometido dar aos incrédulos (Mt 12, 40).

A Ressurreição de Cristo é um dos dogmas fundamentais da nossa fé católica. Na verdade, São Paulo diz: «Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação; é também vã a vossa fé» (l Cor 15, 14). E para ratificar a afirmação de que Cristo ressuscitou diz-nos «que apareceu a Cefas, depois aos Doze. Depois apareceu uma vez a mais de quinhentos irmãos, dos quais muitos vivem ainda e alguns morreram; depois apareceu a Tiago; depois a todos os apóstolos; e depois de todos, como a um aborto, apareceu-me também a mim» (1Cor 15, 5-8). Já os primeiros Símbolos afirmam que Jesus ressuscitou ao terceiro dia (Símbolo de Niceia), pela sua própria virtude (Símbolo De Redemptione) , com uma verdadeira ressurreição da Sua carne (Símbolo de S. Leão IX), voltando a unir-Se a Sua alma com o Seu corpo (Eius exemplo), resultando este facto da ressurreição historicamente demonstrado e demonstrável (Lamentabili. n. 36).

«Pelo nome de Ressurreição não se deve entender unica­mente que Cristo ressuscitou de entre os mortos (…) mas que ressuscitou pela sua virtude e poder próprio, o que foi exclusivo e singular n’Ele (…); confirmou-o o próprio Senhor com o testemunho divino da Sua boca: ‘porque dou a Minha vida para a tomar de novo. Ninguém Ma tira mas Eu dou-a livremente. Tenho poder para a dar e tenho poder para a tomar de novo’ (Ioh 10, 17-18) (…). Igualmente disse aos Judeus, para confirmar a verdade da Sua doutrina: ‘Destruí este Templo e em três dias o levantarei… mas Ele falava do Templo do Seu corpo’ (Ioh 2, 19-21) (…). E embora leiamos alguma vez nas Escrituras que Cristo Nosso Senhor foi ressuscitado pelo Pai (cfr Act 2, 24; Rom 8, 11), isto deve ser-Lhe aplicado enquanto homem; assim como, por outra parte, se referem a Ele próprio enquanto Deus aqueles textos em que se diz que ressuscitou pela Sua própria virtude» (Catecismo Romano, 1,6, 8).

Não é uma volta ao seu anterior estado de vida terrestre, mas é Ressurreição gloriosa: isto é, plenitude de vida humana, imortal, libertado de todas as limitações de tempo e de espaço. Como consequência da Ressurreição o corpo de Cristo participa da glória que desde o princípio enchia a alma do Senhor. Aqui está a singularidade do facto histórico da Ressurreição, pelo que se constitui em objecto de fé. Nem todos podem vê-Lo, mas é uma graça que Ele concedeu a alguns, para que fossem as testemunhas dessa Ressurreição, e os outros creiam pelo testemunho deles.

A Ressurreição de Cristo foi necessária para que se completasse a obra da nossa Redenção. Porque Jesus Cristo com a Sua Morte livrou-nos dos pecados; mas com a Sua Ressurreição devolveu-nos os bens que tínhamos perdido pelo pecado e, além disso, abriu-nos as portas da vida eterna (cfr Rom 4, 25). Igualmente, o ter ressuscitado de entre os mortos pela Sua própria virtude é prova definitiva de que Cristo é o Filho de Deus e, portanto, a Sua Ressurreição confirma cumpridamente a nossa fé na Sua divindade.

A Ressurreição de Cristo, como foi indicado, é a verdade mais transcendente da nossa fé católica. Por isso Santo Agostinho exclama: «Não é grande coisa crer que Cristo morreu; porque isto também o creem os pagãos e judeus e todos os iníquos: todos crêem que morreu. A fé dos cristãos é a Ressurreição de Cristo; isto é o que temos por coisa grande; o crer que ressuscitou» (Enarrationes in Psalmos, 120).

O mistério redentor do Senhor, que compreende a Sua Morte e a Sua Ressurreição, aplica-se a todo o homem pelo Baptismo e pelos outros sacramentos, mediante os quais fica o crente como que submerso em Cristo e na Sua morte, isto é, misticamente compenetrado, morto e ressuscitado com Cristo: «Pois fomos sepultados juntamente com Ele por meio do Baptismo em ordem à morte, para que, assim como Cristo foi ressuscitado de entre os mortos para a glória do Pai, assim também nós caminhemos numa vida nova» (Rom 6,4).

Sinais da nossa ressurreição com Cristo são o desejo ardente de buscar as coisas de Deus e, além disso, o gosto interior da alma por elas (cfr Col 3, 1-3)

02.04.2013 – Jo 20, 11-18

11Entretanto, Maria estava cá fora a chorar, junto do túmulo. Enquanto chorava, debruçou-se para dentro do túmulo e viu dois Anjos vestidos de branco, sen­tados, um à cabeceira e outro aos pés, onde jazera o corpo de Jesus. 13Mulher, pergunta­ram-lhe eles, porque choras? Porque tira­ram o meu Senhor, lhes diz ela, e não sei onde O puseram.

14Dito isto, voltou-se para trás e viu Jesus ali de pé. Não sabia, porém, que era Jesus. Mulher, diz-lhe Jesus, porque choras? A quem procuras? Ela supondo que era o jardineiro, respondeu-Lhe: Senhor, se foste Tu que O levaste, diz-me onde O puseste, para eu O ir buscar. 16Maria! diz-lhe Jesus. Ela, voltando-se, diz-Lhe em hebraico: Rabbuni que quer dizer: «Mestre!» 17Não Me prendas, responde-lhe Jesus, que ainda não subi para o Pai; mas vai ter com Meus irmãos e diz-lhes que vou subir para Meu Pai e vosso Pai, Meu Deus e vosso Deus. 18Maria de Magdala parte, para ir anunciar aos discípulos: Vi o Senhor! ajuntando o que Este lhe havia dito.

Comentário

11-18. São comovedores o carinho e a delicadeza desta mulher preocupada pela sorte do Corpo morto de Jesus. Leal na Paixão, o amor da que esteve possessa por sete demônios (cfr Lc 8,2) continua a ser grande e inflamado. O Senhor tinha-a livrado do Maligno, e aquela graça frutificou em correspondência humilde e generosa.

Depois de consolar a Madalena, Jesus dá-lhe uma men­sagem para os Apóstolos, a quem chama com o apelativo entranhável de «irmãos». Tal mensagem supõe um Pai comum, ainda que seja de modo essencialmente diferente: «Vou subir para Meu Pai — por natureza — e vosso Pai» — que o é pela adopção que ganhei para vós com a Minha morte —. É grande a misericórdia e a compreensão de Jesus que, como Bom Pastor, cuida de recolher os discípulos que O tinham abandonado na Paixão e que estavam escondidos por medo aos judeus (Ioh 20.19).

O exemplo de Maria Madalena, que persevera na fide­lidade ao Senhor em momentos difíceis, ensina-nos que quem busca com sinceridade e constância a Jesus Cristo acaba por O encontrar. O gesto familiar de Jesus que chama «irmãos» aos Seus discípulos, apesar de O terem abando­nado, deve encher-nos de esperança no meio das nossas infidelidades.

15. O diálogo de Jesus com a Madalena reflecte o estado de ânimo de todos os discípulos, que não esperavam a Ressurreição do Senhor.

17. «Não Me prendas»: No texto original esta frase está construída em imperativo presente, que indica continuidade da acção que se realiza. A frase negativa do texto grego, reflectida na Neo-vulgata («noli me tenere»), indica que o Senhor manda à Madalena que deixe de O reter, que O solte, pois ainda terá ocasião de O ver antes da Ascensão aos céus.

03.04.2013 – Lc 24, 13-35

13Ora, no mesmo dia, iam dois deles a caminho duma povoação, que dista cento e sessenta estádios de Jerusalém, chamada Emaús, 14e conversavam entre si sobre tudo o que havia acontecido. 15Enquanto eles conversavam e discutiam, acercou-Se o pró­prio Jesus e pôs-Se com eles a caminho. 16Os seus olhos, porém, estavam impedidos de O reconhecerem. 17Disse-lhes Ele: Que palavras são essas que trocais entre vós, a andar? Estacaram acabrunhados. 18E um deles, cha­mado Cléopas, disse-Lhe em resposta: Tu és o único forasteiro em Jerusalém a não saber o que lá se passou nestes dias! 19Disse-lhes Ele: Que foi? Eles retorquiram-Lhe: O que se refere a Jesus de Nazaré, que foi um profeta poderoso em obras e palavras, diante de Deus e de todo o povo; 20como O entregaram os Sumos Sacerdotes e os nossos chefes, para ser condenado à morte, e O fizeram crucificar. 21Nós esperávamos que Ele fosse o futuro Libertador de Israel. Mas, com tudo isto, lá vai o terceiro dia desde que se deram estas coisas. 22Certo é que algumas mulheres do nosso grupo nos sobressaltaram: indo de madrugada ao túmulo 23e, não Lhe achando o corpo, vieram dizer que tinham tido, além disso, a visão duns Anjos, que afirmavam que Ele vivia. 24Foram então alguns dos nossos companheiros ao túmulo e acharam as coisas como as mulheres haviam decla­rado; mas a Ele não O viram.

25Então, Ele disse-lhes: Ó homens sem compreensão e lentos de espírito em crer em tudo o que disseram os Profetas. 26Não tinha o Messias de sofrer essas coisas, para entrar na Sua glória? 27Depois, começando por Moisés e seguindo por todos os profetas, explicou-lhes em todas as Escrituras o que Lhe dizia respeito. 28Ao chegarem junto da povoação para onde iam, fez menção de seguir mais para a frente. 29Mas os outros fizeram pressão sobre Ele: Fica connosco — diziam — porque está a entardecer e o dia já declinou. Entrou, então, para ficar com eles. 30Quando Se pôs com eles à mesa, tomou o pão, pronunciou a bênção e depois de o partir, entregou-lho. 31Abriram-se-lhes os olhos e reconheceram-No; mas Ele desapa­receu da presença deles. 32Disseram então um para o outro: Não estava a arder cá dentro o nosso coração, quando Ele nos falava no caminho e nos desvendava as Escrituras? 33Partindo no mesmo instante, voltaram para Jerusalém e acharam reu­nidos os onze e os seus companheiros, 34que diziam: Realmente o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão. 35E eles puseram-se a contar o que se tinha passado no caminho e como Jesus Se lhes dera a conhecer ao partir do pão.

Comentário

13-35. Ao longo da conversa com Jesus os discípulos passam da tristeza à alegria, recuperam a esperança e com isso o afã de comunicar o gozo que há nos seus corações, tornando-se deste modo anunciadores e testemunhas de Cristo ressuscitado.

Esta é uma das cenas exclusivas de São Lucas, descrita com grande mestria literária. Apresenta-nos o zelo apostó­lico do Senhor. «Jesus caminha junto daqueles dois homens que perderam quase toda a esperança, de modo que a vida começa a parecer-lhes sem sentido. Compreende a sua dor, penetra nos seus corações, comunica-lhes algo da vida que Nele habita.

«Quando, ao chegar àquela aldeia, Jesus faz menção de seguir para diante, os dois discípulos retêm-No e quase O forçam a ficar com eles. Reconhecem-No depois ao partir o pão: — O Senhor, exclamam, esteve connosco! Então disseram um para o outro: Não é verdade que sentíamos abrasar-se-nos o coração dentro de nós, enquanto nos falava no caminho e nos explicava as Escrituras? (Lc 24, 32). Cada cristão deve tornar Cristo presente entre os homens; deve viver de tal maneira que todos com quem contacte sintam o bônus odor Christi (cfr 2Cor 11,15), o bom odor de Cristo, deve actuar de forma que, através das acções do discípulo, se possa descobrir o rosto do Mestre» (Cristo que passa, n° 105).

13-27. A conversa dos dois discípulos com Jesus a caminho de Emaús, resume perfeitamente a desilusão dos que tinham seguido o Senhor, diante do aparente fracasso que representava para eles a Sua morte. Nas palavras de Cléofas está recolhida a vida e a missão de Cristo f v. 19), a Sua Paixão e Morte (v. 20), o desalento destes discípulos ao cabo de três dias (v. 21), e os factos acontecidos na manhã do domingo (v. 22).

Já antes Jesus tinha dito aos Judeus: «Investigai as Escrituras, já que vós pensais ter nelas a vida eterna: elas são as que dão testemunho de Mim» (Ioh 5,39). Dá-nos assim um caminho seguro para O conhecermos. O Papa Paulo VI assi­nala que também hoje o uso frequente e a devoção à Sagrada Escritura é uma moção clara do Espírito Santo: «O progresso dos estudos bíblicos, a crescente difusão da Sagrada Escri­tura e, sobretudo, o exemplo da Tradição e a moção íntima do Espírito orientam os cristãos do nosso tempo a servir-se cada vez mais da Bíblia como do livro fundamental de oração, e a buscar nela inspiração genuína e modelos insuperáveis» (Marialis cultus, n 30).

Jesus, em resposta ao desalento dos discípulos, vai pacientemente descobrindo-lhes o sentido de toda a Sagrada Escritura acerca do Messias: «Não era preciso que o Cristo padecesse estas coisas e assim entrasse na Sua glória?». Com estas palavras o Senhor desfaz a ideia que ainda poderiam ter de um Messias terreno e político, fazendo-lhes ver que a missão de Cristo é sobrenatural: a Salvação do gênero humano.

Na Sagrada Escritura estava anunciado que o plano salvador de Deus se realizaria por meio da Paixão e Morte redentora do Messias. A Cruz não é um fracasso, mas o caminho querido por Deus para o triunfo definitivo de Cristo sobre o pecado e sobre a morte (cfr 1Cor 1,23-24). Muitos contemporâneos do Senhor não compreenderam a Sua missão sobrenatural por não terem interpretado correctamente os textos do AT. Ninguém como Jesus pode conhecer o verdadeiro sentido das Escrituras Santas. E, depois d’Ele, só a Igreja tem a missão e o ofício de as interpretar autentica­mente: «Com efeito, tudo quanto diz respeito à interpre­tação da Escritura, está sujeito ao juízo último da Igreja, que tem o divino mandato e o ministério de guardar e interpretar a palavra de Deus» (Dei Verbum, n 12).

28-35. A presença e a palavra do Mestre recupera estes discípulos desalentados, e acende neles uma esperança nova e definitiva: «Iam os dois discípulos para Emaús. O seu caminhar era normal, como o de tantas outras pessoas que transitavam por aquelas paragens. E aí, com naturalidade, aparece-lhes Jesus e vai com eles, com uma conversa que diminui a fadiga. Imagino a cena: já bem adiantada a tarde, sopra uma brisa suave; de um lado e de outro, campos semeados de trigo já crescido e as velhas oliveiras com os ramos prateados pela luz indecisa…

«Jesus, no caminho! Senhor, que grande és Tu sempre! Mas comoves-me quando Te rebaixas para nos acompanhares, para nos procurares na nossa lida diária. Senhor, concede-nos a ingenuidade de espírito, o olhar limpo, a mente clara, que permitem entender-Te, quando vens sem nenhum sinal externo da Tua glória!

«Termina o trajecto ao chegar à aldeia e aqueles dois que, sem o saberem, tinham sido feridos no fundo do coração pela palavra e pelo amor de Deus feito homem, têm pena de que Ele se vá embora. Porque Jesus despede-Se como quem vai para mais longe (Lc 24, 28). Nosso Senhor nunca Se impõe. Quer que O chamemos livremente, desde que entre­vimos a pureza do Amor que nos meteu na alma. Temos de O deter à força e pedir-Lhe: fica connosco, porque é tarde e já o dia está no ocaso (Lc 24,29), faz-se de noite.

«Somos assim: sempre pouco atrevidos, talvez por falta de sinceridade, talvez por pudor. No fundo pensamos: fica connosco, porque as trevas nos rodeiam a alma e só Tu és luz, só Tu podes acalmar esta ânsia que nos consome! Porque entre as coisas belas, honestas, não ignoramos qual é a primeira: possuir sempre Deus (São Gregório Nazianzeno, Epistulae, 212).

«E Jesus fica. Abrem-se os nossos olhos como os de Cléofas e do seu companheiro, quando Cristo parte o pão; e, mesmo que Ele volte a desaparecer da nossa vista, também seremos capazes de empreender de novo a marcha — anoitece — para falar d’Ele aos outros; porque tanta alegria não cabe num só coração…

«Caminho de Emaús… O nosso Deus encheu de doçura este nome. E Emaús é o mundo inteiro, porque o Senhor abriu os caminhos divinos da terra» (Amigos de Deus, nos 313-314).

30-31. Muitos Santos Padres viram nesta acção do Senhor uma consagração do pão como na Última Ceia. O modo peculiar com que abençoa e parte o pão fá-los ver que é Ele.

Na vida da Igreja a liturgia sempre teve uma grande importância como culto a Deus, como expressão da fé e como catequese eficaz das verdades reveladas. Por isso, os gestos externos — as cerimônias litúrgicas — hão-de ser observados com a maior fidelidade: «Regular a sagrada Liturgia compete unicamente à autoridade da Igreja, a qual reside na Sé Apostólica e, segundo as normas do direito, no Bispo (…). Por isso, ninguém mais, mesmo que seja sacerdote, ouse, por sua iniciativa, acrescentar, suprimir ou mudar seja o que for em matéria litúrgica» (Sacrosanctum Concilium, n 221) Tem veneração e respeito pela santa Liturgia da Igreja e por cada uma das suas cerimônias. — Cumpre-as fielmente. — Não vês que nós, os pobrezitos dos homens, necessitamos que até as coisas mais nobres e grandes entrem pelos sentidos?» (Caminho, n° 522).

32. «Estas palavras dos discípulos de Emaús deviam sair espontaneamente dos lábios dos teus companheiros de profissão, depois de te encontrarem a ti no caminho da vida» (Caminho, n° 917).

33-35. Os discípulos de Emaús sentem agora a urgência de voltar a Jerusalém, onde os Apóstolos e alguns outros discípulos se encontram reunidos com Pedro, a quem Jesus apareceu.

Na História Sagrada, Jerusalém foi o lugar onde Deus quis ser louvado de modo particular, e ali os profetas exerceram o seu principal ministério. Por vontade divina Jesus Cristo padeceu, morreu e ressuscitou em Jerusalém, e a partir dali começará a estender-se o Reino de Deus (cfr Lc 24,47; Act 1,8). No Novo Testamento a Igreja de Cristo é denominada «a Jerusalém do alto» (Gal 4,26), «a Jerusalém celeste» (Heb 12,22), «a nova Jerusalém» (Apc 21,2).

Na Cidade Santa também começa a Igreja. Mais tarde São Pedro, não sem uma especial Providência divina, transfere-se para Roma que, deste modo, se converte no centro da Igreja. Como aqueles discípulos são confirmados na fé por São Pedro, os cristãos de todos os séculos acorrem à Sé de Pedro para confirmar a sua fé, e manter assim a unidade da Igreja: «Sem o Papa a Igreja Católica já não seria a Igreja Católica, e, faltando na Igreja de Cristo o ofício pastoral supremo, eficaz e decisivo de Pedro, a unidade desmoronar-se-ia, e em vão se intentaria reconstruí-la depois com critérios substitutivos daquele autêntico estabelecido pelo próprio Cristo (…). Queremos, além disso, considerar que esse gonzo central da Santa Igreja não pretende constituir uma supremacia de orgulho espiritual ou de domínio humano, mas um primado de serviço, de ministério e de amor. Não é vã retórica a que atribui ao Vigário de Cristo o título de servus servorum Dei» (Ecclesiam suam, n 83).

 

04.04.2013 – Lc 24, 35-48

35E eles puseram-se a contar o que se tinha passado no caminho e como Jesus Se lhes dera a conhecer ao partir do pão.

36Enquanto diziam isto, apresentou-Se Ele próprio no meio deles e disse-lhes: A paz seja convosco. 37Eles ficaram aturdidos e cheios de medo, e julgavam estar a ver um espírito. 38Disse-lhes então: Porque estais perturbados e por que motivo surgem tais hesitações no vosso íntimo? 39Vede as Minhas mãos e os Meus pés; sou Eu mesmo. Palpai-Me e olhai que um espírito não tem carne nem ossos, como verificais que Eu tenho. 40E, dizendo isto, mostrou-lhes as mãos e os pés. 41Estando eles ainda sem querer acreditar, com a alegria, e cheios de pasmo, perguntou-lhes: Tendes aí alguma coisa que se coma? 42Eles passa­ram-Lhe uma posta de peixe assado. 43To-mando-a, pôs-Se a comer à vista deles.

44Depois disse-lhes: Foram estas as palavras que vos disse, quando ainda Me achava entre vós: «Tem de cumprir-se tudo o que está escrito a Meu respeito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos». 45Abriu-lhes então o entendimento, para compreenderem as Escrituras, 46e disse-lhes: Assim está es­crito que o Messias havia de sofrer e ressus­citar dos mortos ao terceiro dia 47e que se havia de pregar, em Seu nome, o arrepen­dimento e a remissão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém

Comentário

36-43. Esta aparição de Jesus ressuscitado é referida por São Lucas e São João (cfr Ioh 20,19-23). São João recolhe a instituição do sacramento da Penitência, ao mesmo tempo que São Lucas sublinha a dificuldade dos discípulos para aceitar o milagre da Ressurreição, apesar do testemunho dos anjos às mulheres (cfr Mt 28,5-7; Mc 16,5-7; Lc 24,4-11) e daqueles que já tinham visto o Senhor ressuscitado (cfr Mt 28,9-10; Mc 16,9-13; Lc 24,13 ss.; Ioh 20,11-18).

Jesus aparece-lhes de improviso, estando as portas fecha­das (cfr Ioh 20,19), o que explica a sua surpresa e a sua reacção. Santo Ambrósio comenta que «penetrou no recinto fechado não porque a sua natureza fosse incorpórea, mas porque tinha a qualidade de um corpo ressuscitado» (Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc.). Entre essas qualidades do corpo glorioso, a subtileza faz que «o corpo esteja totalmente submetido ao império da alma» (Catecismo Romano, I, 12,13), de modo que pode atravessar os obstáculos materiais sem nenhuma resistência.

A cena reveste-se de um encanto especial quando o Evan­gelista descreve os pormenores de condescendência divina para os confirmar na verdade da Sua Ressurreição.

41-43. Ainda que o corpo ressuscitado seja impassível e, por conseguinte, não necessite já de alimentos para se nutrir, o Senhor confirma os discípulos na verdade da Sua Ressurreição com estas duas provas: convidando-os a que O toquem e comendo na sua presença. «Eu, por minha parte, confessa Santo Inácio de Antioquia, sei muito bem e nisto ponho a minha fé que, depois da Sua Ressurreição, o Senhor permaneceu na Sua carne. E assim, quando Se apresentou a Pedro e aos seus companheiros, disse-lhes: Tocai-Me, palpai-Me e compreendei que não sou um espírito incorpóreo. E prontamente tocaram-No e acreditaram, ficando persua­didos da Sua carne e do Seu espírito (…). Mais ainda, depois da Sua Ressurreição comeu e bebeu com eles, como homem de carne que era, embora espiritualmente estivesse feito uma coisa com Seu Pai» (Carta aos de Esmirna, III, 1-3).

44-49. São Mateus insiste no cumprimento em Cristo das profecias do AT, porque os primeiros destinatários do seu Evangelho eram judeus, para quem isto constituía uma prova manifesta de que Jesus era o Messias prometido e esperado. São Lucas não utiliza habitualmente este argu­mento, porque escreve para os gentios; não obstante, neste epílogo recolhe sumariamente a advertência de Cristo que declara ter-se cumprido tudo o que estava predito acerca d’Ele. Sublinha-se assim a unidade dos dois Testamentos e que Jesus é verdadeiramente o Messias.

Por outro lado, São Lucas refere a promessa do Espírito Santo (cfr Ioh 14,16-17.26; 15,26; 16,7 ss.), cujo cumprimento no dia de Pentecostes narrará com pormenor no livro dos Actos(cfr Act 2,1-4).

46. São Lucas pôs em realce a falta de inteligência dos Apóstolos quando Jesus anuncia a Sua Morte e Ressurreição (cfr 9,45; 18,34). Agora, cumprida a profecia, recorda a necessidade de que Cristo padecesse e ressuscitasse de entre os mortos (cfr 24,25-27).

A Cruz é um mistério não só na vida de Cristo mas também na nossa: «Jesus sofre para cumprir a Vontade do Pai… E tu, que também queres cumprir a Santíssima Vontade de Deus, seguindo os passos do Mestre, poderás queixar-te se encontrares por companheiro de caminho o sofrimento?» (Caminho, n° 213).

05.04.2013 – Jo 21, 1-14

Depois disso, voltou Jesus a manifestar-Se aos discípulos, à beira do mar de Tiberíade. Manifestou-Se deste modo: 2Estavam Simão Pedro, Tome, a quem chamavam Dídimo, e Natanael, que era de Cana da Galileia, bem como os filhos de Zebedeu e mais dois dos Seus discípulos. 3Diz-lhes Simão Pedro: Vou pescar. Eles respondem-Lhe: Nós também vamos con­tigo. Saíram, pois, e subiram para o barco, mas naquela noite não apanharam nada. 4 Já ia a amanhecer quando Jesus Se apre­sentou na margem. Os discípulos, porém, não sabiam que era Ele. 5Diz-lhes então Jesus: Rapazes, tendes algum peixe que se coma? Não — responderam-Lhe. 6Ele retorquiu-lhes: Lançai a rede para o lado direito do barco e haveis de encontrar. Lançaram-na, pois, e já não a podiam arrastar, devido à grande quantidade de peixe. 7Diz então a Pedro aquele discípulo que Jesus amava: É o Senhor! Simão Pedro, ao ouvir dizer que era o Senhor, apertou o blusão à cintura, pois estava despido, e lançou-se ao mar. 8Entretanto, os outros discípulos, visto não estarem longe da terra senão uns duzentos côvados, vieram no barco, puxando a rede com peixes.

9Depois de virem para terra, vêem um monte de brasas no solo, com peixe em cima, e pão. 10Diz-lhes Jesus: Trazei dos peixes que apanhastes agora. 11Então Simão Pedro subiu ao barco e arrastou a rede para terra, cheia com cento e cin­qüenta e três grandes peixes. E, sendo tantos, não se rompeu a rede. 12Diz-lhes Jesus: Vinde almoçar. E nenhum dos dis­cípulos se atrevia a perguntar-Lhe: Tu quem és? por saberem que era o Senhor.

13Jesus aproxima-Se, toma o pão e dá-lho, o mesmo fazendo com o peixe. 14Com esta, era já a terceira vez que Jesus se mani­festava aos discípulos, depois de ressuscitar dos mortos.

Comentário

1-3. Há vários dados significativos nesta cena: os discípulos encontram-se «junto ao mar de Tiberíades». na Galileia. cumprindo assim o mandato de Jesus ressuscitado (cfr Mt 28,7); estão juntos porque os laços de fraternidade que os unem são muito fortes; Pedro toma a iniciativa manifestando de alguma maneira a sua autori­dade; por último, vemo-los dedicados de novo ao seu ofício de pescadores, provavelmente à espera de novas instruções do Senhor.

Ao ler este episódio vem-nos à memória a primeira pesca milagrosa (ctr Lc 5,1-11), em que o Senhor prometeu a Pedro fazê-lo pescador de homens; aqui vai confirmá-lo na sua missão de Cabeça visível da Igreja.

4-8. Jesus ressuscitado vai em busca dos Seus discípulos para os animar e continuar a explicar-lhes a grande missão que lhes confiou. O relato descreve uma cena íntima do Senhor com os Seus: «Passa ao lado dos Seus Apóstolos, junto daquelas almas que se Lhe entregaram… E eles não se dão conta disso! Quantas vezes está Cristo, não perto de nós, mas dentro de nós, e temos uma vida tão humana! (…). Recordam o que tinham ouvido tantas vezes dos lábios do Mestre: pescadores de homens, apóstolos!… E compreen­dem que tudo é possível, porque é Ele quem dirige a pesca.

«Então aquele discípulo que Jesus amava disse a Pedro: É o Senhor! O amor vê. E de longe. O amor é o primeiro a captar aquela delicadeza. O Apóstolo adolescente, com o firme carinho que sentia por Jesus, pois amava Cristo com toda a pureza e toda a ternura de um coração que nunca se corrompera, exclamou: É o Senhor!

«Simão Pedro, mal ouviu dizer que era o Senhor, cingiu a túnica e lançou-se ao mar. Pedro é a fé. E lança-se ao mar, com uma audácia maravilhosa. Com o amor de João e a fé de Pedro, aonde podemos nós chegar!?» (Amigos de Deus, nº 265-266).

9-14. Fica reflectida a profunda impressão que deve ter causado aos Apóstolos esta aparição de Jesus Ressuscitado e a recordação íntima que dela guardava São João. Jesus manifesta depois da Ressurreição a mesma delicadeza que tinha tido durante a Sua vida pública. Usa os meios materiais — as brasas, o peixe, etc. —, que põem em realce o realismo da Sua presença e continuam a dar o tom familiar costumado na convivência com os discípulos.

Os Santos Padres e Doutores da Igreja comentaram com frequência este episódio em sentido místico: a barca é a Igreja cuja unidade está simbolizada pela rede que não se rompe, o mar é o mundo, Pedro na barca simboliza a suprema autoridade na Igreja, o número de peixes significa o número dos escolhidos (cfr Comentário sobre S. João, ad loc.).

06.04.2013 – Mc 16, 9-15

9Tendo ressuscitado de manhãzinha, no Aparição primeiro dia da semana, apareceu primeiro? Maria Madalena, da qual tinha expulsado sete Demônios. 10Ela partiu a anunciar aos que tinham vivido com Ele e que estavam imersos em tristeza e pranto. 11Mas eles, ouvindo dizer que vivia e que ela O tinha visto, não acreditaram.

12Depois disto, manifestou-Se noutra forma a dois deles que iam de caminho, dirigindo-se para o campo. 13E eles correram a anunciar aos outros, mas também lhes não deram crédito.

14Mais tarde, estando os onze à mesa, manifestou-Se-lhes e repreendeu-os da sua incredulidade e dureza de coração, porque não tinham dado crédito àqueles que O tinham visto ressuscitado dos mortos, 15e disse-lhes Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura.

Comentário

11-14. São Marcos realça a incredulidade dos discí­pulos e a sua dureza de entendimento para aceitar o facto da Ressurreição, ainda que Jesus o tenha predito (cfr Mc 8,31; 9,31; 10,34). Fica, pois, muito patente a atitude desconfiada dos discípulos, diante das primeiras aparições de Jesus ressuscitado. Esta resistência dos Apóstolos constitui para nós mais uma garantia da veracidade do facto da Ressur­reição de Jesus. Eles, que estavam destinados a ser teste­munhas directas e autorizadas do Ressuscitado, resistem a aceitar o conteúdo do que há-de ser o seu testemunho diante de todos os homens, até que não o comprovem de uma maneira imediata e palpável.

Não obstante, o Senhor dirá: «Bem-aventurados os que sem terem visto acreditaram» (Ioh 20,29). No caso dos Após­tolos era preciso que, além da fé em Cristo ressuscitado, tivessem uma clara evidência da Ressurreição, visto que tinham de ser as testemunhas oculares que anunciassem com especial conhecimento de causa esse facto irrefutável. Neste sentido comenta São Gregório Magno: «A razão de que os discípulos tardassem em crer na Ressurreição do Senhor, não foi tanto pela sua fraqueza como pela nossa futura firmeza na fé; pois a própria Ressurreição demonstrada com muitos argumentos aos que duvidavam, que outra coisa significa senão que a nossa fé se fortalece pela sua dúvida?» (In Evangelia homiliae, 16).

12. A aparição do Senhor a estes dois discípulos é relatada amplamente por São Lucas (cfr 24,13-35).

15. Este versículo contém o chamado mandato apostó­lico universal, que é paralelo ao de Mt 28,19-20 e ao de Lc 24,46-48. É um mandato imperativo de Cristo aos Seus Após­tolos para que preguem o Evangelho a todas as nações. Essa mesma missão apostólica incumbe, de modo especial, aos sucessores dos Apóstolos, que são os Bispos em comunhão com o Papa, sucessor de Pedro.

Não só eles, porém, mas toda «a Igreja nasceu para tornar todos os homens participantes da redenção salvadora e, por eles, ordenar efectivamente a Cristo o universo inteiro, dilatando pelo mundo o Seu Reino para glória de Deus Pai. Toda a actividade do Corpo místico que a este fim se oriente, chama-se apostolado. A Igreja exerce-o de diversas maneiras, por meio de todos os seus membros, já que a vocação cristã é também, por sua própria natureza, vocação ao apostolado. (…). Existe na Igreja diversidade de funções, mas unidade de missão. Aos Apóstolos e seus sucessores, confiou Cristo a missão de ensinar, santificar e governar em Seu nome e com o Seu poder. Mas os leigos, dado que são participantes do múnus sacerdotal, profético e real de Cristo, têm um papel próprio a desempenhar na missão do inteiro Povo de Deus, na Igreja e no mundo» (Apostolicam actuositatem, n. 2).

É verdade que Deus actua directamente na alma de cada pessoa por meio da Sua graça, mas, ao mesmo tempo, deve afirmar-se que é vontade de Cristo, expressa neste e noutros textos, que os homens sejam instrumento ou veículo de salvação para os outros homens.

Neste sentido também o Concilio Vaticano II ensina: «A todos os fiéis incumbe, portanto, o glorioso encargo de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens em toda a terra» (Ibid., n. 3).

07.04.2013 – Jo 20, 19-31

19Na tarde deste dia, o primeiro da semana, estando, por medo dos Judeus, fechadas as portas no lugar onde se encon­travam os discípulos, veio Jesus colocar-Se no meio deles e disse-lhes: A paz seja convosco! 20Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos ficaram cheios de ale­gria, ao verem o Senhor. 21Jesus então dis­se-lhes de novo: A paz seja convosco! Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos mando a vós. 22Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo. 23Àqueles a quem perdoardes os pecados, ficar-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ficar-lhes-ão retidos.

24Ora Tome, um dos doze, a quem chama­vam Dídimo, não estava com eles quando veio Jesus. 25Diziam-lhe os outros discí­pulos: Vimos o Senhor! Ele, porém, respon­deu-lhes: Se não Lhe vir nas mãos a marca dos cravos, se não chegar com o dedo ao sítio dos ‘cravos e levar a mão ao Seu lado, não acreditarei.

26Oito dias depois, estavam os discípulos novamente lá dentro, e Tome com eles. Veio Jesus, com as portas fechadas, colocou-Se no meio deles e disse: A paz seja convosco! 27A seguir, disse a Tome: Chega aqui o teu dedo e vê as Minhas mãos, aproxima a tua mão e chega com ela ao Meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente. 28Respondeu-Lhe Tome, dizendo: Meu Senhor e meu Deus! 29Jesus replicou-lhe: Porque Me viste acreditaste? Felizes os que, sem terem visto, acreditam!

30Muitos outros milagres fez Jesus na pre­sença dos discípulos, os quais não estão escritos neste livro. 31 Estes, porém, estão escritos para que acrediteis que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, e para que, acre­ditando, tenhais a Vida em Seu nome.

Comentário

19-20. Jesus aparece aos Apóstolos na própria tarde do Domingo em que ressuscitou. Apresenta-Se no meio deles sem necessidade de abrir as portas, já que goza das quali­dades do corpo glorioso; mas para desfazer a possível im­pressão de que é só um espírito, mostra-lhes as mãos e o lado: não fica nenhuma dúvida de que é o próprio Jesus e de que verdadeiramente ressuscitou. Além disso, saúda-os por duas vezes com a fórmula usual entre os Judeus, com o acento entranhável que noutras ocasiões poria nessa sau­dação. Com essas palavras amigáveis ficavam dissipados o temor e a vergonha que teriam os Apóstolos por se terem comportado deslealmente durante a Paixão. Desta forma voltou a criar-se o ambiente de intimidade, em que Jesus lhes vai comunicar poderes transcendentes.

21. O Papa Leão XIII explicava como Cristo transferiu a Sua própria missão aos Apóstolos: «Que quis e que procurou ao fundar e conservar a Igreja? Isto: transmitir a mesma missão e o mesmo mandato que tinha recebido do Pai para que Ela os continue. Isto é claramente o que Se tinha proposto fazer e isto é o que fez: ‘Como o Pai Me enviou assim Eu vos envio’ (Ioh 20,21). ‘Como Tu Me enviaste ao mundo, assim os enviei Eu ao mundo’ (Ioh 17,18) (…). Momentos antes de retornar ao Céu envia os Apóstolos com o mesmo poder com que o Pai O tinha enviado; ordenou-lhes que estendessem e semeassem por todo o mundo a Sua doutrina (cfr Mt 28,18). Todos os que obedecerem aos Apóstolos salvar-se-ão; os que não lhes obedecerem perecerão (cfr Mc 16,16) (…). Por isso manda aceitar religiosamente e guardar santamente a doutrina dos Apóstolos como Sua: ‘Quem vos ouve a vós, ouve-Me a Mim; quem vos despreza a vós, des­preza-Me a Mim’ (Lc 10,16). Em conclusão, os Apóstolos são enviados por Jesus Cristo da mesma forma que Ele foi enviado pelo Pai» (Satis cognitum). Nesta missão os Bispos são sucessores dos Apóstolos: «Cristo, através dos mesmos Apóstolos, tornou participantes da sua consagração e missão os sucessores deles, os Bispos, cujo cargo ministerial, em grau subordinado, foi confiado aos presbíteros, para que, constituídos na Ordem do presbiterado, fossem cooperadores da Ordem do episcopado para o desempenho perfeito da missão apostólica confiada por Cristo» (Presbytemrorum ordinis, n. 2).

22-23. A Igreja compreendeu sempre — e assim o de­finiu — que Jesus Cristo com estas palavras conferiu aos Apóstolos o poder de perdoar os pecados, poder que se exerce no sacramento da Penitência. «O Senhor, principalmente então, instituiu o sacramento da Penitência, quando, ressus­citado de entre os mortos, soprou sobre os Seus discípulos dizendo: ‘Recebei o Espírito Santo…’. Por este facto tão insigne e por tão claras palavras, o sentir comum de todos os Padres entendeu sempre que foi comunicado aos Apóstolos e aos seus legítimos sucessores o poder de perdoar e reter os pecados para reconciliar os fiéis caídos em pecado depois do Baptismo» (De Paenitentia, cap. 1).

O sacramento da Penitência é a expressão mais sublime do amor e da misericórdia de Deus com os homens, como ensina Jesus na parábola do filho pródigo (cfr Lc 15,11-32). O Senhor espera sempre com os braços abertos que voltemos arrependidos, para nos perdoar e nos devolver a nossa digni­dade de filhos Seus.

Os Papas têm recomendado com insistência que nós, os cristãos, saibamos apreciar e aproveitemos com fruto este Sacramento: «Para progredir mais rapidamente no cami­nho da virtude, recomendamos vivamente o pio uso, intro­duzido pela Igreja sob a inspiração do Espírito Santo, da confissão frequente, que aumenta o conhecimento próprio, desenvolve a humildade cristã, desarraiga os maus cos­tumes, combate a negligência e tibieza espiritual, purifica a consciência, fortifica a vontade, presta-se à direcção espiritual, e por virtude do mesmo sacramento aumenta a graça» (Mystici Corporis).

24-28. A dúvida do Apóstolo Tome leva o Senhor a dar-lhe uma prova especial da realidade do Seu corpo ressus­citado. Assim confirma, ao mesmo tempo, a fé daqueles que mais tarde haviam de crer n’Ele. «Será que pensais — comenta São Gregório Magno — que aconteceu por pura casualidade que estivesse ausente então aquele discípulo escolhido, que ao voltar ouvisse relatar a aparição, e que ao ouvir duvidasse, duvidando palpasse e palpando cresse? Não foi por casualidade, mas por disposição de Deus. A divina clemência actuou de modo admirável para que tocando o discípulo duvidador as feridas da carne no seu Mestre, sarasse em nós as feridas da incredulidade (…). Assim o discípulo, duvidando e palpando, converteu-se em teste­munha da verdadeira ressurreição» (In Evangelia homiliae, 26,7).

A resposta de Tome não é uma simples exclamação, é uma afirmação: um maravilhoso acto de fé na Divindade de Jesus Cristo: «Meu Senhor e meu Deus!». Estas palavras constituem uma jaculatória que repetiram com frequência os cristãos, especialmente como acto de fé na presença real de Jesus Cristo na Santíssima Eucaristia.

29. O mesmo São Gregório Magno explica estas palavras do Senhor: « São Paulo ao dizer que ‘a fé é o fundamento das coisas que se esperam e uma convicção das que não se veem’ (Heb 11,1), torna evidente que a fé versa sobre as coisas que não se veem, pois as que se veem já não são objecto da fé, mas da experiência. Ora bem, por que é dito a Tome quando viu e tocou: Porque viste, acreditaste? Porque uma coisa é o que se viu e outra o que se creu. É certo que o homem mortal não pode ver a divindade; portanto, ele viu o Homem e reconhe­ceu-O como Deus, dizendo: ‘Meu Senhor e meu Deus’. Em conclusão, vendo creu, porque contemplando atentamente este homem verdadeiro exclamou que era Deus, a quem não podia ver» (In Evangelia homiliae, 27,8).

Tomé, como todos os homens, necessitou da graça de Deus para crer, mas, além disso, recebeu uma prova singular; teria sido mais meritória a sua fé se tivesse aceitado o testemunho dos Apóstolos. As verdades reveladas transmitem-se normalmente pela palavra, pelo testemunho de outros homens que, enviados por Cristo e assistidos pelo Espírito Santo, pregam o depósito da fé (cfr Mc 16,15-16). «Por conseguinte a fé vem pela pregação e a pregação pela palavra de Cristo» (Rom 10,17). A pregação, pois, do Evangelho tem as garantias suficientes de credibilidade, e o homem ao aceitá-lo «oferece a Deus a homenagem total da sua inteligência e da sua vontade prestando voluntário assentimento à Sua revelação» (Dei Verbum, n. 5).

«Alegra-nos muito o que se segue: ‘Bem-aventurados os que sem ter visto creram’. Sentença na qual, sem dúvida, estamos assinalados nós, que confessamos com a alma o que não vimos na carne. Alude-se a nós, desde que vivamos de acordo com a fé; porque só crê de verdade aquele que pratica o que crê» (In Evangelia homiliae, 26,9).

30-31. Temos aqui como um primeiro epílogo ou con­clusão do Evangelho de São João. Segundo a opinião mais comum, o evangelista acrescentaria mais tarde o capítulo 21, onde narra acontecimentos tão importantes como a tríplice confissão de São Pedro, a sua confirmação no Primado e também a profecia do Senhor acerca da morte do discípulo amado. Aqui nestes vv 30-31 manifesta-se a fina­lidade que perseguia o autor inspirado ao escrever o seu Evangelho: que os homens creiam que Jesus é o Messias, o Cristo anunciado no Antigo Testamento pelos profetas, o Filho de Deus, e que, ao crer esta verdade salvadora, centro da Revelação, possam participar já aqui da vida eterna (cfr Ioh 1,12;2,23; 3,18; 14,13; 15,16; 16,23-26).

08.04.2013 – Lc 1, 26-38

26Ao sexto mês, foi o Anjo Gabriel enviado, Anunciação da parte de Deus, a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, 27a uma virgem que era noiva dum homem da casa de David, cha­mado José, e o nome da virgem era Maria. 28Ao entrar para junto dela, disse o Anjo: Salve, ó cheia de graça, o Senhor está contigo. 29A estas palavras, ela perturbou-se ficou a pensar que saudação seria aquela. 30Disse-lhe o Anjo: Não tenhas receio, Maria, pois achaste graça diante de Deus. 3lHás-de conceber e dar à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus. 32Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo; dar-Lhe-á o Senhor Deus o trono de Seu pai David, 33reinará eternamente na casa de Jacob e o Seu Reinado não terá fim.

34Disse Maria ao Anjo: Como será isso, se eu não conheço homem? 35Disse-lhe o Anjo, em resposta: Virá sobre ti o Espírito Santo, e a força do Altíssimo estenderá sobre ti a Sua sombra. Por isso mesmo é que o Santo que vai nascer há-de chamar-Se Filho de Deus. 36E também Isabel, tua parenta, concebeu um filho, na sua velhice, e é este o sexto mês dessa que chamavam estéril, 37porque, da parte de Deus, nada é impossível. 38Maria disse então: Eis a escrava do Senhor: seja-me feito segundo a tua palavra. E retirou-se o Anjo de junto dela.

Comentário

26-38. Aqui contemplamos Nossa Senhora que, «enri­quecida, desde o primeiro instante da sua conceição, com os esplendores duma santidade singular, a Virgem de Nazaré é saudada pelo Anjo, da parte de Deus, como cheia de graça (cfr Lc 1,28); e responde ao mensageiro celeste: Eis a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra (Lc 1,38). Deste modo, Maria, filha de Adão, dando o seu consentimento à palavra divina, tornou-se Mãe de Jesus e, não retida por qualquer pecado, abraçou de todo o coração o desígnio salvador de Deus, consagrou-se totalmente, como escrava do Senhor, à pessoa e à obra de seu Filho, subordinada a Ele e juntamente com Ele, servindo pela graça de Deus omnipotente o mistério da Redenção. Por isso, consideram com razão os santos Padres que Maria não foi utilizada por Deus como instrumento meramente passivo, mas que cooperou livremente, pela sua fé e obediência, na salvação dos homens» (Lumen gentium, n. 56).

A Anunciação a Maria e a Encarnação do Verbo é o facto mais maravilhoso, o mistério mais entranhável das relações de Deus com os homens e o acontecimento mais transcendente da História da humanidade. Que Deus Se faça Homem e para sempre! Até onde chegou a bondade, a misericórdia e o amor de Deus por nós, por todos nós! E, não obstante, no dia em que a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade assu­miu a débil natureza humana das entranhas puríssimas de Maria Santíssima, nada extraordinário acontecia, aparentemente, sobre a face da terra.

Com grande simplicidade narra São Lucas o magno acontecimento. Com quanta atenção, reverência e amor temos de ler estas palavras do Evangelho, rezar piedosamente o Angelus cada dia, seguindo a divulgada devoção cristã, e contemplar o primeiro mistério gozoso do santo Rosário.

27. Deus quis nascer de uma mãe virgem. Assim o tinha anunciado séculos antes por meio do profeta Isaías (cfr Is 14; Mt 1,22-23). Deus, «desde toda a eternidade, esco­lheu-A e indicou-A como Mãe para que o Seu Unigênito Filho tomasse carne e nascesse d’Ela na plenitude ditosa dos tempos; e em tal grau A amou por cima de todas as criaturas, que só n’Ela se comprazeu com assinaladíssima complacência» (Ineffabilis Deus). Este privilégio de ser virgem e mãe ao mesmo tempo, concedido a Nossa Senhora, é um dom divino, admirável e singular. Deus «engrandeceu tanto a Mãe na concepção e no nascimento do Filho, que Lhe deu fecundidade e A conservou em perpétua virgindade» (Catecismo Romano, 1,4,8). Paulo VI recordava-nos novamente esta verdade de fé: «Cremos que a bem-aventurada Maria, que permaneceu sempre Virgem, foi a Mãe do Verbo encar­nado, Deus e Salvador nosso Jesus Cristo» (Credo do Povo de Deus, n° 14).

Ainda que se tenham proposto muitos significados do nome de Maria, os autores de maior relevância parecem estar de acordo em que Maria significa Senhora. Não obstante, a riqueza que contém o nome de Maria não se esgota com um só significado.

28. «Salve!»: Literalmente o texto grego diz: alegra-te! É claro que se trata de uma alegria totalmente singular pela notícia que Lhe vai comunicar a seguir.

«Cheia de graça»: O Arcanjo manifesta a dignidade e a honra de Maria com esta saudação desusada. Os Padres e Doutores da Igreja «ensinaram que com esta singular e solene saudação, jamais ouvida, se manifestava que a Mãe de Deus era assento de todas as graças divinas e que estava adornada de todos os carismas do Espírito Santo», pelo que «jamais esteve sujeita a maldição», isto é, esteve imune de todo o pecado. Estas palavras do arcanjo constituem um dos textos em que se revela o dogma da Imaculada Conceição de Maria (cfr Ineffabilis Deus; Credo do Povo de Deus, n° 14).

«O Senhor está contigo»: Estas palavras não têm um mero sentido deprecatório (o Senhor esteja contigo), mas afirmativo (o Senhor está contigo), e em relação muito (estreita com a Encarnação. Santo Agostinho glosa a frase «o Senhor está contigo» pondo na boca do arcanjo estas palavras: «Mais que comigo, Ele está no teu coração, forma-Se no eu ventre, enche a tua alma, está no teu seio» (Sermo de Nativitate Domini, 4).

Alguns importantes manuscritos gregos e versões antigas acrescentam no fim: «Bendita tu entre as mulheres»: Deus exaltá-La-ia assim sobre todas as mulheres. Mais excelente que Sara, Ana, Débora, Raquel, Judit, etc., pelo facto de que só Ela tem a suprema dignidade de ter sido escolhida para ser Mãe de Deus.

29-30. Perturbou-se Nossa Senhora pela presença do Arcanjo e pela confusão que produzem nas pessoas verdadeiramente humildes os louvores dirigidos a elas.

30. A Anunciação é o momento em que Nossa Senhora conhece com clareza a vocação a que Deus A tinha destinado desde sempre. Quando o Arcanjo A tranquiliza e Lhe diz «não temas, Maria», está a ajudá-La a superar esse temor inicial que, ordinariamente, se apresenta em toda a vocação. O facto de que isto tenha acontecido à Santíssima Virgem indica-nos que não há nisso nem sequer imperfeição: é uma reacção natural diante da grandeza do sobrenatural. Imperfeição seria não o superar, ou não nos deixarmos aconselhar por aqueles que, como São Gabriel e Nossa Senhora, podem ajudar-nos.

31-33. O arcanjo Gabriel comunica à Santíssima Virgem a sua maternidade divina, recordando as palavras de Isaias que anunciavam o nascimento virginal do Messias e que agora se cumprem em Maria Santíssima (cfr Mt 1,22-23; Is 7,14).

Revela-se que o Menino será «grande»: a grandeza vem-Lhe da Sua natureza divina, porque é Deus, e depois da Encarnação não deixa de sê-lo, mas assume a pequenez da humanidade. Revela-se também que Jesus será o Rei da dinastia de David, enviado por Deus segundo as promessas de Salvação; que o Seu Reino «não terá fim»; porque a Sua humanidade permanecerá para sempre indissoluvelmente unida à Sua divindade; que «chamar-se-á Filho do Altís­simo»: indica ser realmente Filho do Altíssimo e ser reconhe­cido publicamente como tal, isto é, o Menino será o Filho de Deus.

No anúncio do Arcanjo evocam-se, pois, as antigas pro­fecias que anunciavam estas prerrogativas. Maria, que conhecia as Escrituras Santas, entendeu claramente que ia ser Mãe de Deus.

34-38. O Papa João Paulo II comentava assim este passo: «Virgo fidelis, Virgem fiel. Que significa esta fidelidade de Maria? Quais são as dimensões dessa fidelidade? A primeira dimensão chama-se busca. Maria foi fiel, antes de mais, quando com amor se pôs a buscar o sentido profundo do desígnio de Deus n’Ela e para o mundo. ‘Quomodo fiet? Como acontecerá isto?’, perguntava Ela ao anjo da Anun­ciação (…). Não haverá fidelidade se não houver na raiz esta ardente, paciente e generosa busca (…).

«A segunda dimensão da fidelidade chama-se acolhimento, aceitação. O quomodo fiet transforma-se, nos lábios de Maria, em um fiat. Que se faça, estou pronta, aceito: este é o momento crucial da fidelidade, momento em que o homem percebe que jamais compreenderá totalmente o como; que no desígnio de Deus mais zonas de mistério que de evidência; que, por mais que faça, jamais conseguirá captar tudo (…).

«Coerência é a terceira dimensão da fidelidade. Viver de acordo com o que se crê. Ajustar a própria vida ao objecto da própria adesão. Aceitar incompreensões, perseguições antes de permitir rupturas entre o que se vive e o que se crê: esta é a coerência (…).

«Mas toda a fidelidade deve passar pela prova mais exigente: a da duração. Por isso a quarta dimensão da fidelidade é a constância. É fácil de ser coerente por um dia ou por alguns dias. Difícil e importante é ser coerente toda a vida. É fácil de ser coerente na hora da exaltação, difícil sê-lo na hora da tribulação. E só pode chamar-se fidelidade uma coerência que dura ao longo de toda a vida. O fiat de Maria na Anunciação encontra a sua plenitude no fiat silencioso que repete aos pés da cruz» (Homilia Catedral México).

34. A fé de Maria nas palavras do Arcanjo foi absoluta; não duvida como duvidou Zacarias (cfr 1,18). A pergunta da Santíssima Virgem «como será isso» exprime a sua prontidão para cumprir a Vontade divina diante de uma situação que parece à primeira vista contraditória: por um lado Ela tinha a certeza de que Deus lhe pedia para con­servar a virgindade; por outro lado, também da parte de Deus, é-lhe anunciado que vai ser mãe. As palavras imediatas do arcanjo declaram o mistério do desígnio divino e o que parecia impossível, segundo as leis da natureza, explica-se por uma singularíssima intervenção de Deus.

O propósito de Maria de permanecer virgem foi certa­mente algo singular, que interrompia o modo ordinário de proceder dos justos do Antigo Testamento, no qual, como expõe Santo Agostinho, «atendendo de modo particularíssimo à propagação e ao crescimento do Povo de Deus, que era o que tinha de profetizar e donde havia de nascer o Prín­cipe e Salvador do mundo, os santos tiveram de usar do bem do matrimônio» (De bono matrimonii, 9,9). Houve, porém, no Antigo Testamento alguns homens que por desígnio de Deus permaneceram célibes, como Jeremias, Elias, Eliseu e João Baptista. A Virgem Santíssima, inspirada ‘de modo muito particular pelo Espírito Santo para viver plenamente a virgindade, é já uma primícia do Novo Testamento, no qual a excelência da virgindade sobre o matrimônio adqui­rirá todo o seu valor, sem diminuir a santidade da união conjugal, que é elevada à dignidade de sacramento (cfr Gaudium et spes, n. 48).

35. A «sombra» é um símbolo da presença de Deus. Quando Israel caminhava pelo deserto, a glória de Deus enchia o Tabernáculo e uma nuvem cobria a Arca da Aliança (Ex 40,34-36). De modo semelhante quando Deus entregou a Moisés as tábuas da Lei uma nuvem cobria a montanha do Sinai (Ex 24,15-16), e também na Transfiguração de Jesus se ouve a voz de Deus Pai no meio de uma nuvem (Lc 9,35). No momento da Encarnação o poder de Deus enroupa com a Sua sombra Nossa Senhora. É a expressão da acção omnipotente de Deus. O Espírito de Deus — que, segundo o relato do Gênesis (1 ,2), pairava sobre as águas dando vida às coisas — desce agora sobre Maria. E o fruto do seu ventre será obra do Espírito Santo. A Virgem Maria, que foi concebida sem mancha de pecado (cfr Ineffabilis Deus), fica depois da Encarnação constituída em novo Tabernáculo de Deus. Este é o Mistério que recordamos todos os dias na recitação do Ángelus.

38. Uma vez conhecido o desígnio divino, Nossa Senhora entrega-se à Vontade de Deus com obediência pronta e sem reservas. Dá-se conta da desproporção entre o que vai ser — Mãe de Deus — e o que é — uma mulher —. Não obstante, Deus o quer e nada é impossível para Ele, e por isto ninguém é capaz de pôr dificuldades ao desígnio divino. Daí que, juntando-se em Maria a humildade e a obediência, pronun­ciará o sim ao chamamento de Deus com essa resposta perfeita: «Eis a escrava do Senhor, seja-me feito segundo a tua palavra».

«Ao encanto destas palavras virginais, o Verbo se fez carne» (Santo Rosário, primeiro mistério gozoso). Das purís­simas entranhas da Santíssima Virgem, Deus formou um corpo, criou do nada uma alma, e a este corpo e alma uniu-Se o Filho de Deus; desta sorte o que antes era apenas Deus, sem deixar de o ser, ficou feito homem. Maria já é Mãe de Deus. Esta verdade é um dogma da nossa santa fé definido no Concilio de Éfeso (ano 431). Nesse mesmo instante começa a ser também Mãe espiritual de todos os homens. O que um dia ouvirá de lábios de seu Filho moribundo, «eis aí o teu filho (…), eis aí a tua mãe» (Ioh 19,26-27), não será senão a proclamação do que silenciosamente tinha acontecido em Nazaré. Assim, «com o seu fiat generoso converteu-se, por obra do Espírito, em Mãe de Deus e também em verdadeira Mãe dos vivos, e converteu-se também, ao acolher no seu seio o único Mediador, em verdadeira Arca da Aliança e verdadeiro Templo de Deus» (Marialis cultus, n. 6).

O Evangelho faz-nos contemplar a Virgem Santíssima como exemplo perfeito de pureza («não conheço homem»); de humildade («eis a escrava do Senhor»); de candura e simplicidade («como será isso»); de obediência e de fé viva («seja-me feito segundo a tua palavra»). «Procuremos apren­der, seguindo também o seu exemplo de obediência a Deus, numa delicada combinação de submissão e de fidalguia. Em Maria, nada existe da atitude das virgens néscias, que obe­decem, sim, mas como insensatas. Nossa Senhora ouve com atenção o que Deus quer, pondera aquilo que não entende, pergunta o que não sabe. Imediatamente a seguir, entrega-se sem reservas ao cumprimento da vontade divina: eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a Vossa palavra (Lc I, 38). Vedes esta maravilha? Santa Maria, mestra de toda a nossa conduta, ensina-nos agora que a obediência a Deus não é servilismo, não subjuga a consciência, pois nos move interiormente a descobrir a liberdade dos filhos de Deus (cfr Rom VIII, 21)» (Cristo que passa, n° 173).

09.04.2013 – Jo 3, 7b-15

«Vós tendes de nascer de novo». 8O vento sopra onde quer, e tu ouves a sua voz, mas não sabes donde vem nem para onde vai. Assim é todo aquele que nasceu do Espírito. 9Nicodemos interveio, para Lhe dizer: Como pode ser isso? 10Respondeu-lhe Jesus, di­zendo: Tu és mestre em Israel e não o sabes?! 11Em verdade, em verdade te digo: Nós fa­lamos do que sabemos e damos testemunho do que vimos, mas vós não recebeis o Nosso testemunho. 12Se vos disse coisas da Terra e as não acreditais, como haveis de acreditar, se vos disser coisas do Céu? 13Ninguém subiu ao Céu, a não ser Aquele que do Céu desceu, o Filho do homem. 14Do mesmo modo que Moisés elevou a serpente no deserto, assim tem de ser elevado o Filho do homem, 15para que todo aquele que acredita tenha, por Ele, a vida eterna.

Comentário

10-12. Ante a perplexidade de Nicodemos, Jesus ratifica o valor das Suas palavras, e explica-lhe que fala das coisas do Céu porque procede do Céu, e para Se fazer compreender usa comparações e imagens terrenas. Não obstante, esta lin­guagem não é suficiente para aqueles que adoptam uma posição de incredulidade.

Comenta o Crisóstomo: «Com razão Cristo não disse: não compreendeis, mas: não credes. Porque se alguém não quer admitir aquilo que se pode perceber com a mente, este seria acusado com razão de estupidez; contudo, se alguém não admite aquilo que não se percebe com a mente mas com a fé, este já não pecapor estupidez, mas por incredulidade» (Hom. sobre S. João, 27,1).

13. Afirmação solene da divindade de Jesus. Ninguém sobe ao Céu e, portanto, ninguém pode conhecer perfeita­mente os segredos de Deus, senão o próprio Deus que en­carnou e desceu do Céu: Jesus, segunda Pessoa da Santíssima Trindade, o Filho do Homem profetizado no Antigo Testa­mento (cfr Dn 7,13), ao qual foi concedido senhorio eterno sobre todos os povos, nações e línguas.

Ao encarnar o Verbo não deixa de ser Deus. E assim, ainda que esteja na terra enquanto homem, nem por isso deixa de estar no Céu enquanto Deus. Só depois da Ressur­reição e da Ascensão, Jesus Cristo está no Céu também enquanto homem.

14-15. A serpente de bronze, alçada por Moisés num mastro, era o remédio indicado por Deus para curar aqueles que eram mordidos pelas serpentes venenosas do deserto (cfr Num 21,8-9). Jesus Cristo compara este facto com a Sua Crucifixão, para explicar assim o valor da Sua exaltação na Cruz, que é salvação para todos os que O fixem com fé. Neste sentido podemos dizer que no bom ladrão se cumpre já o poder salvífico de Cristo na Cruz: esse homem descobriu no Crucificado o Rei de Israel, o Messias, que imediatamente lhe promete o Paraíso para aquele mesmo dia (cfr Lc 23,39-43).

O Filho de Deus tomou a nossa natureza humana para dar a conhecer os mistérios ocultos da vida divina (cfr Mc 4,11; Ioh 1,18; 3,1-13; Eph 3,9) e para livrar do pecado e da morte aqueles que O fixem com fé e amor (cfr Ioh 19,37; Gal 3,1) e aceitem a cruz de cada dia.

A fé de que nos fala o Senhor não se reduz simplesmente à aceitação intelectual das verdades que Ele nos ensinou, mas inclui reconhecê-Lo como Filho de Deus (cfr 1Ioh 5,1), parti­cipar da Sua própria Vida (cfr Ioh 1,12), e entregarmo-nos por amor, tornando-nos assim semelhantes a Ele (cfr Ioh 10,27; 1Ioh3,2). Mas esta fé constitui um dom de Deus (cfr Ioh 3,3.5-8), a quem devemos pedir que a fortaleça e acres­cente, como fizeram os Apóstolos: Senhor, «aumenta-nos a fé» (Lc 17,5). Sendo a fé um dom divino, sobrenatural e gratuito, é, ao mesmo tempo, uma virtude, um hábito bom, susceptível de ser exercitado pessoalmente e, portanto, robustecido através desse exercício. Daí que o cristão, que já possui o dom divino da fé, ajudado pela graça deva fazer actos explícitos de fé para que esta virtude cresça nele.

10.04.2013 – Jo 3, 16-21

16De facto, Deus amou de tal maneira o mundo que deu o Seu Filho único, para que todo o que n’Ele acredita náo pereça, mas tenha a vida eterna. 17É que Deus não enviou o Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para o mundo ser salvo por Seu inter­médio. 18Quem n’Ele acredita não é conde­nado; mas quem não acredita já está conde­nado, porque não acreditou no nome do Filho único de Deus. 19É esta a causa da con­denação: veio a Luz ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a Luz, pois eram más as suas obras. 20E que todo aquele que pratica más acções odeia a Luz e não se aproxima da Luz, para não serem postas a descoberto as suas obras. 21Quem pratica a verdade aproxima-se da Luz, para se tornar bem claro que as suas obras estão realizadas em Deus.

Comentário

16-21. Com estas palavras carregadas de sentido sinte­tiza-se como a Morte de Jesus Cristo é a manifestação suprema do amor de Deus pelos homens (cfr Introdução ao Evangelho segundo São João, parágrafo sobre A caridade, pp 1101-1105). «De tal maneira Deus amou o mundo que lhe en­tregou Seu Filho Unigênito para a sua salvação. Toda a nossa religião é uma revelação da bondade, da misericórdia, do amor de Deus por nós. ‘Deus é amor’ (cfr 1Ioh4,16), isto é, amor que se difunde e se prodigaliza; e tudo se resume nesta grande verdade que tudo explica e tudo ilumina. É necessário ver a história de Jesus a esta luz. ‘Ele amou-me’, escreve São Paulo, e cada um de nós pode e deve repeti-lo a si mesmo: Ele amou-me, e sacrificou-Se por mim (Gal 2,20)» (Homília do Corpus Christi).

A entrega de Cristo constitui o chamamento mais pre­mente a corresponder ao Seu grande amor: «Se Deus nos criou, se nos redimiu, se nos ama ao ponto de entregar por nós o Seu Filho Unigênito (Ioh III, 16), se nos espera — todos os dias! — como aquele pai da parábola esperava o filho pródigo (cfr Lc XV, 11-32). como não há-de desejar que O tratemos com amor? O que seria estranho era não falar com Deus, afastar-se d’Ele, esquecê-Lo, dedicar-se a actividades estranhas a esses toques ininterruptos da graça» (Amigos de Deus, n° 251).

«O homem não pode viver sem amor. Ele permanece para si próprio um ser incompreensível e a sua vida é destituída de sentido, se não lhe for revelado o amor, se ele não se encontra com o amor, se o não experimenta e se o não torna algo seu próprio, se nele não participa vivamente. E por isto precisamente Cristo Redentor (…) revela plena­mente o homem ao próprio homem. Esta é — se assim é lícito exprimir-se — a dimensão humana do mistério da Redenção. Nesta dimensão o homem reencontra a grandeza, a dignidade e o valor próprios da sua humanidade (…). O homem que quiser compreender-se a si mesmo profun­damente (…) deve, com a sua inquietude, incerteza e também fraqueza e pecaminosidade, com a sua vida e com a sua morte, aproximar-se de Cristo. Ele deve, por assim dizer, entrar n’Ele com tudo o que é em si mesmo, deve ‘apro­priar-se’ e assimilar toda a realidade da Encarnação e da Redenção, para se encontrar a si mesmo. Se no homem se actuar este processo profundo, então ele produz frutos, não somente de adoração de Deus, mas também de profunda maravilha perante si próprio. Que grande valor deve ter o homem aos olhos do Criador, se ‘mereceu ter um tal e tão grande Redentor’ (Missal Romano, Hino Exultei da Vigília Pascal), se ‘Deus deu o Seu Filho’, para que ele, o homem, ‘não pereça, mas tenha a vida eterna’.

«(…) A Igreja, que não cessa de contemplar o conjunto do mistério de Cristo, sabe com toda a certeza da fé, que a Redenção que se verificou por meio da Cruz, restituiu defini­tivamente ao homem a dignidade e o sentido da sua existência no mundo, sentido que ele havia perdido em consi­derável medida por causa do pecado. E por isso a Redenção realizou-se no mistério pascal, que, através da cruz e da morte, conduz à ressurreição» (Redemptor hominis, n. 10). Jesus Cristo exige como primeiro requisito para parti­cipar do Seu amor a fé n’Ele. Com ela passamos das trevas para a luz e entramos em caminho de salvação. «Quem não acredita já está condenado» (v. 18). «As palavras de Cristo são, ao mesmo tempo, palavras de juízo e de graça, de morte e de vida. É que só infligindo a morte ao que é velho podemos ter acesso à novidade de vida: e isto, que vale, em primeiro lugar, das pessoas, vale também dos diversos bens deste mundo que estão marcados tanto pelo pecado do homem como pela bênção de Deus (…). Por si mesmo e pelas próprias forças não há ninguém que se liberte do pecado e se eleve acima de si mesmo, ninguém absolutamente que se liberte a si mesmo da sua enfermidade, da sua solidão ou da sua escravidão, mas todos precisam de Cristo como modelo, mestre, libertador, salvador, vivificador. De facto, na história humana, mesmo sob o ponto de vista temporal, o Evangelho foi um fermento de liberdade e de progresso e apresenta-se sempre como fermento de fraternidade, de unidade e de paz» (Ad gentes, n. 8).

11.04.2013 – Jo 3, 31-36

31Aquele que vem do Alto está acima de todos; aquele que é da terra, à terra pertence e da terra fala. Aquele que vem do Céu está acima de todos. 32Ele dá testemunho do que viu e ouviu, mas ninguém recebe o Seu testemunho. 33Quem recebe o Seu testemu­nho atesta que Deus é verídico. 34Aquele que Deus enviou refere as palavras de Deus, pois Este não dá o Espírito por medida. 35O Pai ama o Filho e tudo entregou na Sua mão. 36Quem acredita no Filho tem a vida eterna. Quem se nega a crer no Filho não verá a Vida, mas a ira de Deus sobre ele permanece.

Comentário

31-36. Este parágrafo revela-nos a divindade de Cristo, a Sua relação com o Pai e com o Espírito Santo, e a partici­pação na vida eterna e divina dos que creem em Jesus Cristo. Fora da fé não há vida nem margem para a esperança.

12.04.2013 – Jo 6, 1-15

Depois disto, retirou-Se Jesus para outro lado do Mar da Galileia. ou de Tiberiade. 2Seguia-O numerosa multidão, por ver os milagres que fazia nos enfermos. 3Jesus subiu ao monte e lá Se sentou com os discípulos. 4Estava próxima a Páscoa, a festa dos Judeus. 5Erguendo então os olhos e vendo que vinha ter com Ele numerosa multidão, Jesus diz a Filipe: Onde havemos de com­prar pão para eles comerem? 6Dizia isto para o experimentar, pois bem sabia o que ia fazer. 7Respondeu-Lhe Filipe: Não lhes chegam duzentos denários de pão, para receber cada qual um poucochinho. 8Disse-Lhe um dos discípulos, André, irmão de Simão Pedro: 9Está aqui um pequeno que tem cinco pães de cevada e dois peixinhos; mas que é isso para tanta gente? 10Jesus, porém, respondeu: Fazei com que eles se recostem. Ora havia muita erva no local. Recostaram-se, pois, os homens, em número de cerca de cinco mil. 11Então, Jesus tomou os pães, e, depois de dar graças, distribuiu-os aos convivas; e o mesmo fez dos peixes, tanto quanto lhes apetecia. 12Quando ficaram saciados, disse aos discípulos: Recolhei os pedaços que so­braram, para que nada se perca. 13Recolhe­ram-nos, pois, e encheram doze cestos de pedaços dos cinco pães de cevada, que haviam sobrado aos que tinham estado a comer.

14Ao verem aqueles homens o milagre que Ele fizera, começaram a dizer: Este é, na verdade, o Profeta que está para vir ao mundo. 15Mas Jesus, percebendo que viriam arrebatá-Lo, para O fazerem rei, retirou-Se novamente, sozinho para o monte.

Comentário

1. Refere-se ao segundo lago formado pelo Jordão. Nos Evangelhos costuma chamar-se-lhe umas vezes «Lago de Genesaré» (Lc 5,1), pela localidade do mesmo nome situada na margem Noroeste do lago; outras, «Mar da Galileia» (Mt4,18; 15,29; Mc 1,16; 7,31), pelo nome da região em que se encontra. São João chama-lhe também «Mar de Tiberíades» (cfr 21,1), devido à cidade desse nome fundada por Herodes Antipas em honra do imperador Tibério. No tempo de Jesus Cristo havia à volta deste lago várias cidades: Tiberíades, Magdala, Cafarnaum, Betsaida, etc.; as suas margens foram com frequência cenário da pregação do Senhor.

2. Ainda que São João não refira mais que sete milagres e não mencione outros que narram os Sinópticos, neste versículo, e mais expressamente no fim do seu Evangelho (20,30; 21,25), diz que foram muitos os milagres realizados pelo Senhor; a selecção desses sete é devida a que o Evange­lista, querendo mostrar algumas facetas do mistério de Cristo, escolhe — inspirado por Deus — aqueles que estão mais em harmonia com o seu propósito. Narra agora o milagre da multiplicação dos pães e dos peixes, que está em relação directa com os discursos de Cafarnaum, em que Jesus Se apresenta a Si mesmo como «o pão da vida» (6,35.48).

4. O Evangelho de São João costuma mencionar as festas judaicas quando refere muitos dos acontecimentos do ministério público do Senhor. Aqui estamos diante de um destes casos (cfr Duração do Ministério Público, pp. 81 s.; Introdução ao Evangelho segundo São João, pp. 1088 s.). Pouco antes desta Páscoa, Jesus realiza o milagre da multiplicação dos pães e dos peixes, prefigurando a Páscoa cristã e o mistério da Santíssima Eucaristia, como Ele próprio explica no discurso que começa no v. 26, onde promete dar-Se como alimento da nossa alma.

5-9. Jesus é sensível às necessidades espirituais e mate­riais dos homens. Aqui vemo-Lo a tomar a iniciativa para satisfazer a fome daquela multidão que O segue.

Com estes diálogos e o milagre que vai realizar, Jesus ensina também aos Seus discípulos a confiar n’Ele perante as dificuldades que encontrarão nas suas futuras tarefas apostólicas, empreendendo-as com os meios que tiverem, ainda que sejam insuficientes, como neste caso o eram os cinco pães e os dois peixes. Ele entrará com o que falta. Na vida cristã há que pôr ao serviço do Senhor o que temos, ainda que nos pareça muito pouco. O Senhor saberá multi­plicar a eficácia desses meios tão insignificantes.

«Tenhamos, pois, Fé, sem permitir que o desalento nos domine; sem nos determos em cálculos meramente humanos. Para superar os obstáculos, há que começar a trabalhar, metendo-nos em cheio nessa tarefa, de maneira que o nosso próprio esforço nos leve a abrir novos caminhos» (Cristo que passa, n° 160).

10. O Evangelista transmite um pormenor à primeira vista intranscendente: «Naquele lugar havia muita erva». Isto indica que o milagre aconteceu em plena Primavera da Palestina, em dias muito próximos da Páscoa, como disse no v. 4. Ainda que na Palestina sejam muito escassos os prados, existe, mesmo hoje, uma verdadeira pradaria na margem oriental do lago de Genesaré, chamada el-Batihah, onde podiam sentar-se os cinco mil homens e onde, portanto, pode ter-se verificado este milagre.

11. O relato do milagre começa quase com as mesmas palavras com que os Sinópticos e São Paulo narram a instituição da Eucaristia (cfr Mt 26,26; Mc 14,22; Lc 22,19; 1Cor 11,25). Tal coincidência indica que o milagre, além de ser uma manifestação da misericórdia de Jesus para com os necessitados, é figura da Santíssima Eucaristia, da qual o Senhor falará pouco depois (cfr Ioh 6,26-59).

12-13. A abundância de pormenores reflecte o realismo da narração: o nome dos Apóstolos que falam com o Senhor (vv 5.8), a espécie dos pães que eram de cevada (v. 9), o rapaz que levava essas provisões (v. 9) e, por último, Jesus que manda recolher os pedaços.

O milagre denota o poder divino de Jesus sobre a matéria, e a liberalidade com que o realiza evoca a abun­dância dos bens messiânicos que os profetas tinham predito (cfr. ler 31,14).

O mandato de recolher os pedaços que sobram ensina que os bens materiais, por serem dons de Deus, não se devem desperdiçar, mas hão-de ser usados com espírito de pobreza (cfr a nota a Mc 6,42). Neste sentido explica Paulo VI que «depois de ter alimentado com liberalidade a multidão, o Senhor recomenda aos Seus discípulos que recolham o que sobrou para que nada se perca (cfr Ioh 6,12). Que formosa lição de economia, no sentido mais nobre e mais pleno da palavra, para a nossa época dominada pelo esban­jamento! Além disso, leva consigo a condenação de toda uma concepção da sociedade em que até o próprio consumo tende a converter-se no seu próprio bem, desprezando os que se vêem necessitados e em detrimento, em última análise, dos que julgam ser os seus beneficiários, incapazes já de per­ceber que o homem é chamado a um destino mais alto» (Discurso aos participantes na Conferência mundial da Alimen­tação, 9-XI-1974).

14-15. A fé que o milagre suscita naqueles homens é ainda muito imperfeita: reconhecem-No como o Messias prometido no Antigo Testamento (cfr Dt 18,15), mas pensam num messianismo terreno e nacionalista, querem fazê-Lo rei porque consideram que o Messias os há-de livrar da domi­nação romana.

O Senhor, que mais adiante (vv 26-27) explicará o verda­deiro sentido da multiplicação dos pães e dos peixes, limi­ta-Se a fugir daquele lugar, para evitar uma proclamação popular alheia à Sua verdadeira missão. No diálogo com Pilatos (cfr Ioh 18,36) explicará que o Seu Reino «não é deste mundo».

«Os Evangelhos mostram claramente como para Jesus era uma tentação o que alterasse a Sua missão de Servidor de Yahwéh (cfr Mt 4,8; Lc 4,5). Não aceita a posição daqueles que misturavam as coisas de Deus com atitudes meramente políticas (cfr Mt 22,21; Mc 12,17; Ioh18,36) (…). A perspec­tiva da Sua missão é muito mais profunda. Consiste na salvação integral por um amor transformante, pacificador, de perdão e de reconciliação. Não há dúvida, por outro lado, que tudo isto é muito exigente para a atitude do cristão que quer servir de verdade os irmãos mais pequenos, os pobres, os necessitados, os marginalizados; numa palavra, todos os que reflectem nas suas vidas o rosto dorido do Senhor (cfr Lumen gentium, n. 8)» (Discurso episcopado latinoamericano. n.° 1,4).

Não se pode, pois, confundir o cristianismo com uma ideologia social ou política, por mais nobre que seja. «Não penso na tarefa dos cristãos na Terra como o nascer duma corrente político-religiosa — seria uma loucura — nem mesmo com o bom propósito de difundir o espírito de Cristo em todas as actividades dos homens. O que é preciso é pôr em Deus o coração de cada um, seja ele quem for. Procuremos falar a todos os cristãos, para que no lugar onde estiverem (…) saibam dar testemunho, com o exemplo e com a palavra, da fé que professam.

«Q cristão vive no mundo com pleno direito, por ser homem. Se aceita que no seu coração habite Cristo, que reine Cristo, em todo o seu trabalho humano encontrar-se-á — bem forte — a eficácia salvadora do Senhor» (Cristo que passa, n° 183).

13.04.2013 – Jo 6, 16-21

16Quando entardeceu, desceram os discí­pulos ao mar 17e, subindo para um barco, puseram-se a caminho para o outro lado do mar, em direcção a Cafarnaum. Já estava a escurecer e ainda Jesus não tinha ido ter com eles; 18e, como soprasse forte ventania, o mar ia-se encrespando. 19Quando eles ti­nham uns vinte e cinco ou trinta estádios de avanço, vêem Jesus a andar sobre o mar e a aproximar-Se do barco; e tiveram medo. 20Mas Ele diz-lhes: Sou Eu, não tenhais medo! 21Quiseram então recebê-Lo no barco, e logo o barco chegou à terra para onde iam.

Comentário

16-21. Parece que os discípulos estavam desconcerta­dos porque tinha escurecido, o mar ia-se agitando, e Jesus não chegava. Contudo, o Senhor não os abandona, mas quando já tinham remado uns cinco quilômetros, Jesus chega inesperadamente andando sobre as águas para robustecer a sua fé ainda débil (cfr as notas a Mt 14,22-23 e a Mc 6,48.52).

Ao meditar este episódios, a tradição cristã viu na barca uma figura da Igreja, que terá de suportar muitas dificul­dades e à qual o Senhor prometeu a Sua assistência ao longo dos séculos (cfr Mt 28,20); por isso a Igreja permanecerá firme e segura para sempre. São Tomás de Aquino comenta: «Aquele vento é figura das tentações e da perseguição que padecerá a Igreja por falta de amor. Porque, como diz Santo Agostinho, quando se esfria o amor, aumentam as ondas e a nave soçobra. Contudo, o vento, a tempestade, as ondas e as trevas não conseguirão que a nave se afaste do seu rumo e fique destroçada» (Comentário sobre S. João, ad loc).

14.04.2013 – Jo 21, 1-19

Depois disso, voltou Jesus a manifestar-Se aos discípulos, à beira do mar de Tiberíade. Manifestou-Se deste modo: 2Estavam Simão Pedro, Tome, a quem chamavam Dídimo, e Natanael, que era de Cana da Galileia, bem como os filhos de Zebedeu e mais dois dos Seus discípulos. 3Diz-lhes Simão Pedro: Vou pescar. Eles respondem-Lhe: Nós também vamos con­tigo. Saíram, pois, e subiram para o barco, mas naquela noite não apanharam nada. 4 Já ia a amanhecer quando Jesus Se apre­sentou na margem. Os discípulos, porém, não sabiam que era Ele. 5Diz-lhes então Jesus: Rapazes, tendes algum peixe que se coma? Não — responderam-Lhe. 6Ele retorquiu-lhes: Lançai a rede para o lado direito do barco e haveis de encontrar. Lançaram-na, pois, e já não a podiam arrastar, devido à grande quantidade de peixe. 7Diz então a Pedro aquele discípulo que Jesus amava: É o Senhor! Simão Pedro, ao ouvir dizer que era o Senhor, apertou o blusão à cintura, pois estava despido, e lançou-se ao mar. 8Entretanto, os outros discípulos, visto não estarem longe da terra senão uns duzentos côvados, vieram no barco, puxando a rede com peixes.

9Depois de virem para terra, vêem um monte de brasas no solo, com peixe em cima, e pão. 10Diz-lhes Jesus: Trazei dos peixes que apanhastes agora. 11Então Simão Pedro subiu ao barco e arrastou a rede para terra, cheia com cento e cin­qüenta e três grandes peixes. E, sendo tantos, não se rompeu a rede. 12Diz-lhes Jesus: Vinde almoçar. E nenhum dos dis­cípulos se atrevia a perguntar-Lhe: Tu quem és? por saberem que era o Senhor.

13Jesus aproxima-Se, toma o pão e dá-lho, o mesmo fazendo com o peixe. 14Com esta, era já a terceira vez que Jesus se mani­festava aos discípulos, depois de ressuscitar dos mortos.

15No fim do almoço, pergunta Jesus ao Simão Pedro: Simão, filho de João, amas-Me tu mais do que estes? Sim, Senhor, responde-Lhe ele. Tu sabes que Te amo! Diz-lhe Jesus: Apascenta os Meus cordeiros. 16Volta a perguntar-Lhe segunda vez: Simão, filho de João, tu amas-Me? Sim, Senhor, responde-Lhe ele. Tu sabes que Te amo. Diz-Lhe Jesus: Apascenta as Minhas ovelhas. I7Pergunta-Lhe terceira vez: Simão, filho de João, tu amas-Me? Pedro entriste­ce-se por lhe ter perguntado pela terceira vez: «Tu amas-me?» E responde-Lhe: Tu sabes tudo, Senhor, Tu bem sabes que Te amo. Diz-lhe Jesus: Apascenta as minhas ovelhas. 18Em verdade, em verdade te digo: Quando eras mais novo, tu mesmo te cingias e andavas por onde querias. Mas, quando fores velho, estenderás as tuas mãos e outro é que há-de cingir-te e levar-te para onde não queres. 19Disse-o para indicar por que morte ele havia de glorificar a Deus. Dito isto, acrescenta: Segue-Me.

Comentário

1-3. Há vários dados significativos nesta cena: os discípulos encontram-se «junto ao mar de Tiberíades», na Galileia, cumprindo assim o mandato de Jesus ressuscitado (cfr Mt 28,7); estão juntos porque os laços de fraternidade que os unem são muito fortes; Pedro toma a iniciativa manifestando de alguma maneira a sua autori­dade; por último, vemo-los dedicados de novo ao seu ofício de pescadores, provavelmente à espera de novas instruções do Senhor.

Ao ler este episódio vem-nos à memória a primeira pesca milagrosa (ctr Lc 5,1-11), em que o Senhor prometeu a Pedro fazê-lo pescador de homens; aqui vai confirmá-lo na sua missão de Cabeça visível da Igreja.

4-8. Jesus ressuscitado vai em busca dos Seus discípulos para os animar e continuar a explicar-lhes a grande missão que lhes confiou. O relato descreve uma cena íntima do Senhor com os Seus: «Passa ao lado dos Seus Apóstolos, junto daquelas almas que se Lhe entregaram… E eles não se dão conta disso! Quantas vezes está Cristo, não perto de nós, mas dentro de nós, e temos uma vida tão humana! (…). Recordam o que tinham ouvido tantas vezes dos lábios do Mestre: pescadores de homens, apóstolos!… E compreen­dem que tudo é possível, porque é Ele quem dirige a pesca.

«Então aquele discípulo que Jesus amava disse a Pedro: É o Senhor! O amor vê. E de longe. O amor é o primeiro a captar aquela delicadeza. O Apóstolo adolescente, com o firme carinho que sentia por Jesus, pois amava Cristo com toda a pureza e toda a ternura de um coração que nunca se corrompera, exclamou: É o Senhor!

«Simão Pedro, mal ouviu dizer que era o Senhor, cingiu a túnica e lançou-se ao mar. Pedro é a fé. E lança-se ao mar, com uma audácia maravilhosa. Com o amor de João e a fé de Pedro, aonde podemos nós chegar!?» (Amigos de Deus, n.º 265-266).

9-14. Fica reflectida a profunda impressão que deve ter causado aos Apóstolos esta aparição de Jesus Ressuscitado e a recordação íntima que dela guardava São João. Jesus manifesta depois da Ressurreição a mesma delicadeza que tinha tido durante a Sua vida pública. Usa os meios materiais — as brasas, o peixe, etc. —, que põem em realce o realismo da Sua presença e continuam a dar o tom familiar costumado na convivência com os discípulos.

Os Santos Padres e Doutores da Igreja comentaram com frequência este episódio em sentido místico: a barca é a Igreja cuja unidade está simbolizada pela rede que não se rompe, o mar é o mundo, Pedro na barca simboliza a suprema autoridade na Igreja, o número de peixes significa o número dos escolhidos (cfr Comentário sobre S. João, ad loc.).

15-17. Jesus Cristo tinha prometido a Pedro o primado da Igreja (cfr Mt 16,16-19ea nota correspondente). Apesar das três negações do Apóstolo durante a Paixão, confere-lhe agora o Primado prometido. «Jesus Cristo interroga Pedro, por três vezes, como se lhe quisesse dar a oportunidade de reparar a sua tripla negação. Pedro já aprendeu, escarmentado com a sua própria miséria: está profundamente con­vencido de que são inúteis aqueles seus alardes temerários; tem consciência da sua debilidade. Por isso, põe tudo nas mãos de Cristo. Senhor, Tu sabes que eu Te amo» (Amigos de Deus, n° 267). A entrega do Primado a Pedro foi directa e imediata. Assim o entendeu sempre a Igreja e o definiu o Concilio Vaticano I: «Ensinamos, pois, e declaramos que, segundo os testemunhos do Evangelho, o primado de juris­dição sobre a Igreja universal de Deus foi prometido e conferido imediata e directamente ao bem-aventurado Pedro por Cristo Nosso Senhor (…). Porque só a Simão Pedro conferiu Jesus depois da Sua Ressurreição a jurisdição de pastor e reitor supremo sobre todo o Seu rebanho, dizendo: ‘Apascenta os Meus cordeiros’. ‘Apascenta as Minhas ovelhas’» (Pastor aeternus, cap. 1).

O Primado é uma graça que é conferida a Pedro e aos seus sucessores os Papas; é um dos elementos fundacionais da Igreja para guardar e proteger a sua unidade: «Para que o episcopado fosse uno e indiviso e a multidão universal dos crentes se conservasse na unidade da fé e da comunhão (…) ao preferir o bem-aventurado Pedro aos outros Apóstolos, nele instituiu um princípio perpétuo de uma e de outra unidade, e um fundamento visível» (Pastor aeternus, Dz-Sch 3051; cfr Lumen gentium, n. 18). Portanto, o Primado de Pedro perpetua-se em todos e em cada um dos seus sucessores por disposição de Cristo, não por costume ou legislação humana.

Em razão do Primado, Pedro, e cada um dos seus suces­sores, é Pastor de toda a Igreja e Vigário de Cristo na terra, porque desempenha o poder vicário do próprio Cristo. O amor ao Papa, que Santa Catarina de Sena chamava «o doce Cristo na terra», deve estar coalhado de oração, sacri­fício e obediência.

18-19. Segundo a tradição, São Pedro seguiu o seu Mestre até morrer crucificado, de cabeça para baixo. «Pedro e Paulo sofreram martírio em Roma durante a perseguição de Nero aos cristãos, que teve lugar entre os anos 64 e 68. O martírio de ambos os Apóstolos é recordado por São Clemente, sucessor do próprio Pedro na Sede da Igreja Romana, que escrevendo aos Coríntios lhes propõe os exemplos gene­rosos dos dois atletas, com estas palavras: por causa dos zelos e da inveja, os que eram colunas principais e santíssimas padeceram perseguição e lutaram até à morte» (Petrum et Paulum).

«Segue-Me»: Esta palavra evocaria no Apóstolo o seu primeiro chamamento (cfr Mt 4,19) e as condições de entrega absoluta que o Senhor impõe aos Seus discípulos: « Se alguém quer vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz cada dia, e siga-Me» (Lc 9,23). O próprio São Pedro, numa das suas cartas, deixa-nos o testemunho de que a exigência Ha Cruz é necessária para todo o cristão: «Pois para isto tostes chamados, já que também Cristo padeceu por vós, dando-vos exemplo, para que sigais os Seus passos» (1Pet 2,21).

15.04.2013 – Jo 6, 22-29

22No dia seguinte, a multidão que se encontrava. do outro lado do mar verificou que ali não estivera outra embarcação além duma só e que Jesus não entrara no barco com os discípulos, mas só estes se haviam retirado. 23Todavia, tinham vindo outras embarcações de Tiberíade para junto do local em que haviam comido o pão, depois de o Senhor ter dado graças. 24Quando a multidão viu que Jesus não estava lá, nem os discípulos, subiram todos para as embarca­ções e vieram para Cafarnaum, em busca de Jesus. 25E quando O encontraram do outro lado do mar, disseram-Lhe: Rabi, quando chegaste aqui?

26Respondeu-lhes Jesus, dizendo: Em verdade, em verdade vos digo: Vós procurais-Me, não porque vistes milagres, mas por haverdes comido dos pães e vos terdes saciado. 27Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela comida que se conserva até à vida eterna e que o Filho do homem vos dará; pois a Este é que o Pai, o próprio Deus, marcou com o Seu selo. 28Disseram-Lhe en­tão: Que havemos de fazer para trabalhar nas obras de Deus? 29Respondeu-lhes Jesus: É esta a obra de Deus: que acrediteis No que Ele enviou.

Comentário

26. O Senhor começa por corrigir a falta de rectidão de intenção que os movia a segui-Lo, preparando-os assim para compreender a doutrina do discurso eucarístico. «Procurais-Me, comenta Santo Agostinho, por motivos da carne, não do espírito. Quantos há que buscam Jesus, guiados apenas por interesses temporais! (…). Quase não se busca Jesus por Jesus» (In Ioann. Evang., 25,10).

Começa neste versículo o chamado Discurso do Pão da Vida, que se prolonga até ao versículo 59. Inicia-se com uma introdução a modo de diálogo entre Jesus e os Judeus (vv. 26-34), onde o Senhor Se revela como Aquele que vem trazer os dons messiânicos. Segue-se a primeira parte do discurso (vv. 35-47), em que Jesus Se apresenta como o Pão da Vida, enquanto a fé n’Ele é alimento para a vida eterna. Na segunda parte (vv. 48-59) Cristo revela o mistério da Eucaristia: Ele é o Pão da Vida que Se dá sacramentalmente como verdadeira comida.

27. O alimento corporal serve para a vida neste mundo, o espiritual sustenta e desenvolve a vida sobrenatural, que continua para sempre no Céu. Este alimento, que só Deus nos pode dar, consiste principalmente no dom da fé e na graça santificante. Inclusive, por infinito amor divino, na Santíssima Eucaristia é-nos dado como alimento da alma o próprio autor desses dons: Jesus Cristo.

«A Este é que o Pai marcou com o Seu selo»: Com esta frase o Senhor alude à autoridade, pela qual só Ele pode dar aos homens os dons mencionados: porque sendo Deus e homem, a natureza humana de Jesus é o instrumento pelo qual actua a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. São Tomás de Aquino comenta assim esta frase: «O que o Filho do Homem dará, possui-o enquanto supera todos os outros homens pela sua singular e eminente plenitude de graça (…). Quando um selo se imprime na cera, esta recebe toda a forma do selo. Assim o Filho recebeu toda a forma do Pai. E isto de dois modos: um eterno (geração eterna), do qual não se fala aqui porque o selo e o selado são de natureza diferente. O outro, que é o que se deve entender aqui, é o mistério da Encarnação, pela qual Deus Pai imprimiu na natureza humana o Verbo, que é resplendor e selo da Sua substância, como diz Hebreus 1,3» (Comentário sobre S. João, ad loc.).

16.04.2013 – Jo 6, 30-35

30Disseram-Lhe eles: Que milagre então fazes Tu, para nós vermos e acreditarmos em Ti? Que obra realizas? 31Os nossos pais, no deserto, comeram o maná, conforme está escrito: Deu-lhes a comer um pão que veio do Céu. 32Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: Não foi Moisés que vos deu o pão que vem do Céu; meu Pai é que vos dá o verdadeiro pão que vem do Céu, 33pois o pão de Deus é o que desce do Céu e dá a vida ao mundo. 34Disseram-Lhe então: Senhor, dá-nos sempre desse pão! 35Disse-lhes Jesus: Eu sou o Pão da Vida: aquele que vem a Mim nunca terá fome, e aquele que acredita em Mim nunca terá sede.

Comentário

28-34. O diálogo entre Jesus e os Seus ouvintes recorda o episódio da mulher Samaritana (cfr Ioh 4,11-15). Ali fala-se de uma água que jorra para a vida eterna; aqui de um pão que desce do Céu para dar a vida ao mundo. Ali a mulher perguntava-se se Jesus podia ser superior a Jacob, aqui as pessoas se Ele Se pode comparar com Moisés (cfr Ex 16,13). «O Senhor apresentava-Se de tal forma, que aparecia superior a Moisés: jamais teve Moisés a audácia de dizer que ele dava um alimento que não perecia, que permanecia até à vida eterna. Jesus promete muito mais que Moisés. Este prometia um reino, uma terra de arroios de leite e mel, uma paz temporal, filhos numerosos, a saúde corporal e todos os outros bens temporais (…); encher o seu ventre aqui na terra, mas de manjares que perecem; Cristo, pelo contrário, pro­metia um manjar que, na verdade, não perece mas per­manece eternamente» (In Ioann. Evang., 25,12).

Os interlocutores de Jesus sabiam que o maná — alimento que os Judeus recolhiam diariamente no seu caminhar pelo deserto (cfr Ex 16,13 ss. — era símbolo dos bens messiânicos; por isso pedem ao Senhor que realize um portento semelhante. Mas não podiam nem sequer suspeitar que o maná era figura de um grande dom messiânico sobrenatural que Cristo traz aos homens: a Santíssima Eucaristia. Jesus, com este diálogo e a primeira parte do discurso eucarístico (vv 35-47), procura levá-los antes de mais a um acto de fé n’Ele, para depois lhes revelar abertamente o mistério da Santíssima Eucaristia. Com efeito, Ele é o pão «que desceu do Céu e dá a vida ao mundo» (v. 33). Também São Paulo explica que o maná e os outros prodígios que aconteceram no deserto eram prefiguração clara de Jesus Cristo (cfr 1Cor 10,3-4).

A atitude incrédula daqueles judeus incapacitava-os para aceitar a revelação de Jesus. Para reconhecer o mistério da Eucaristia é necessária a fé, como voltou a pôr em realce o Papa Paulo VI: «Antes de mais, queremos recordar uma verdade, por vós bem sabida, mas muito necessária para eliminar todo o veneno de racionalismo, verdade que muitos católicos selaram com o seu próprio sangue e que célebres Padres e Doutores da Igreja professaram e ensinaram cons­tantemente, isto é, que a Eucaristia é um altíssimo mistério, mais ainda, falando com propriedade, como diz a Sagrada Liturgia, o mistério da fé (…). É, pois, necessário que nos aproximemos particularmente deste mistério, com humilde reverência, não buscando razões humanas, que devem estar caladas, mas aderindo firmemente à Revelação divina» (Mysterium fidei).

35. Ir a Jesus é crer n’Ele, porque do Senhor aproximamo-nos pela fé. Com a imagem da comida e da bebida expressa Jesus que Ele é quem realmente sacia todas as nobres aspirações do homem: «Que bela é a nossa Fé Católica! — Dá solução a todas as nossas ansiedades, e aquieta o entendimento, e enche de esperança o coração» (Caminho, n° 582).

17.04.2013 – Jo 6, 35-40

35Disse-lhes Jesus: Eu sou o Pão da Vida: aquele que vem a Mim nunca terá fome, e aquele que acredita em Mim nunca terá sede. 36No entanto, Eu bem vos disse: Vós vedes-Me, e não acreditais. 37Tudo o que o Pai Me dá há-de vir a Mim, e aquele que vem a Mim não o hei-de repelir, 38porque desci do Céu, não para fazer a Minha vontade, mas a vontade d’Aquele que Me enviou. 39Ora é esta a vontade d’Aquele que Me enviou: que daquilo que Me deu, Eu nada perca, mas o ressuscite no último dia. 40De facto, é esta a vontade de Meu Pai: que todo aquele que vê o Filho e acredita n’Ele tenha a vida eterna; e Eu ressuscitá-lo-ei no último dia.

Comentário

35. Ir a Jesus é crer n’Ele, porque do Senhor aproximamo-nos pela fé. Com a imagem da comida e da bebida expressa Jesus que Ele é quem realmente sacia todas as nobres aspirações do homem: «Que bela é a nossa Fé Católica! — Dá solução a todas as nossas ansiedades, e aquieta o entendimento, e enche de esperança o coração» (Caminho, n° 582).

37-40. Jesus revela com clareza que Ele é o Enviado do Pai. Já antes o tinha anunciado São João Baptista (Ioh3,33-36), e o próprio Jesus o afirmou no diálogo com Nicodemos (Ioh3,17-21) e o proclamou diante dos Judeus em Jerusalém (Ioh 5,20-30). Visto que Jesus é o enviado do Pai, o pão da vida que desceu do Céu para dar a vida ao mundo, todo aquele que acreditar n’Ele tem a vida eterna, pois a Vontade de Deus é que todos se salvem por meio de Jesus Cristo. Nas palavras de Jesus estão contidos três mistérios: 1) o da fé em Jesus Cristo, que é ir a Jesus aceitando os Seus milagres (sinais) e as Suas palavras; 2) o da ressurreição dos crentes, que se inicia nesta vida pela fé e se cumprirá plenamente no Céu; 3) o da predestinação, que é o desígnio da Vontade de nosso Pai do Céu, de que todos os homens possam salvar-se. Estas palavras solenes do Senhor enchem de esperança o crente.

Santo Agostinho, comentando os vv 37 e 38, exalta o valor da humildade de Jesus, modelo perfeito da humildade do cristão, ao não querer fazer a Sua vontade, mas a do Pai que O enviou: «Que mistério há aqui tão grande! (…). Eu vim humilde, Eu vim ensinar a humildade; Eu sou o mestre da humildade. Aquele que vem a Mim, incorpora-se a Mim; aquele que vem a Mim torna-se humilde, e aquele que adere a Mim será humilde, porque não faz a sua vontade, mas a de Deus» (In Ioann. Evang., 25,15 e 16).

18.04.2013 – Jo 6, 44-51

44Ninguém pode vir a Mim, se o Pai, que Me enviou, o não atrair; e Eu ressuscitá-lo-ei no último dia. 45Está escrito nos Profetas: Serão todos instruídos por Deus. Todo aquele que ouviu e aprendeu do Pai vem a Mim. 46Não é que alguém tenha visto o Pai, senão Aquele que vem de Deus; Esse é que viu o Pai. 47Em verdade, em verdade vos digo: Aquele que acredita possui a vida eterna! 48Eu sou o Pão da Vida. 49Vossos pais, no deserto, comeram o maná, e morreram. 50Tal é o pão que desce do Céu: quem dele comer não morrerá. 5lEu sou o pão vivo que desceu do Céu. Se alguém comer este pão, viverá eternamente; e o pão que Eu hei-de dar é a Minha carne pela vida do mundo.

Comentário

44-45. O ir a Cristo até O encontrar é um dom gratuito que nenhum homem pode conseguir só com as suas próprias forças, embora todos devam estar bem dispostos para O receber. O Magistério da Igreja voltou a recordar esta doutrina no Concilio Vaticano II: «Para prestar esta adesão da fé, são necessários a prévia e concomitante ajuda da graça divina e os interiores auxílios do Espírito Santo, o qual move e converte a Deus o coração, abre os olhos do entendimento, e dá ‘a todos a suavidade em aceitar e crer a verdade’» (Dei Verbum, n. 5).

Jesus ao dizer que «serão todos instruídos por Deus», evoca Is 54,13 e ler 31,33 ss., onde ambos os profetas se referem à futura Aliança que Deus estabelecerá com o Seu povo quando chegar o Messias, com cujo Sangue ficará selada para sempre, e que Deus escreverá nos seus corações (cfr Is 53,10-12; ler 31,31-34).

«Que ouviu e aprendeu do Pai»: Pode traduzir-se também «o que vem do Pai». Refere-se à Revelação de Deus pelos profetas e especialmente por Jesus Cristo.

46. Nós, os homens, só podemos conhecer a Deus Pai através de Jesus Cristo, porque Ele é o único que O viu e veio para no-Lo revelar. Já tinha dito São João no prólogo: «A Deus ninguém O viu jamais; o Deus Unigênito, O que está no seio do Pai, Ele mesmo O deu a conhecer» (Ioh 1,18). Mais tarde dirá Jesus a Filipe na Última Ceia: «Aquele que Me viu a Mim viu o Pai» (Ioh14,9), porque Cristo é o Caminho, a Verdade e a Vida, e ninguém vai ao Pai senão por Ele (cfr Ioh14,6).

Com efeito, em Jesus Cristo culmina a Revelação de Deus aos homens: «Pois enviou o Seu Filho, isto é, o Verbo eterno, que ilumina todos os homens, para habitar entre os homens e manifestar-lhes a vida íntima de Deus (cfr Ioh 1,1-18). Jesus Cristo, Verbo feito carne, enviado ‘como homem para os homens’, ‘fala, portanto, as palavras de Deus’ (Ioh3,34) e consuma a obra de salvação que o Pai Lhe mandou realizar (cfr Ioh5,36; 17,4). Por isso, Quem vê a Jesus Cristo vê o Pai (cfr Ioh 14,9)» (Dei Verbum, n. 4).

48. Com esta solene declaração repetida diante das dúvidas dos ouvintes (cfr Ioh 6,35.41.48), Jesus começa a segunda parte do Seu discurso, em que directamente revela o grande mistério da Santíssima Eucaristia. As palavras de Cristo são de um realismo tão forte que excluem qualquer interpretação em sentido figurado: se Cristo não estivesse realmente presente sob as espécies do pão e do vinho, este discurso careceria absolutamente de sentido e de força. Por outro lado, aceite pela fé a presença real de Cristo na Euca­ristia, as Suas palavras são inequívocas e mostram o infinito e íntimo amor de Cristo por nós.

É tão grande este mistério que foi sempre pedra de toque da fé cristã. «Eis o mistério da fé», proclama-se imediatamente depois da Consagração na Santa Missa. Já para certos ouvintes directos de Jesus este discurso foi motivo de escân­dalo (cfr vv. 60-66). Ao longo da história alguns procuraram mitigar o sentido óbvio das palavras do Senhor. O Magis­tério da Igreja voltou nos nossos dias a expor a doutrina sobre este excelso mistério: «Realizada a transubstanciacão, as espécies de pão e de vinho adquirem sem dúvida um novo significado e um novo fim, visto que já não são o pão ordinário e a bebida ordinária, mas o sinal de uma coisa sagrada, sinal de um alimento espiritual; mas adquirem um novo significado e um novo fim enquanto contêm uma ‘realidade’, que com razão denominamos antológica; porque debaixo de tais espécies já não existe o que havia antes, mas uma coisa completamente diversa (…), visto que convertida a substância ou natureza do pão e do vinho no Corpo e no Sangue de Cristo, não fica já nada do pão e do vinho, mas apenas as espécies: debaixo delas Cristo todo inteiro está presente na Sua ‘realidade’ física, mesmo corporalmente, ainda que não do mesmo modo como os corpos estão num lugar.

«Por isso os Padres tiveram grande cuidado em advertir os fiéis que ao considerar este augustíssimo Sacramento, confiassem não nos sentidos que se fixam nas propriedades do pão e do vinho, mas nas palavras de Cristo, que têm tal força que mudam, transformam, ‘transelementam’ o pão e o vinho no Seu Corpo e no Seu Sangue; porque, como mais de uma vez o afirmam os mesmos Padres, o poder que realiza isto é a própria força de Deus omnipotente que no princípio do tempo criou o universo do nada» (Mysterium fidei).

Sobre a Santíssima Eucaristia vejam-se também as notas a Mt 26,26-29; Mc 14,22.24.25 e Lc 22,16-20.

49-51. O maná do Êxodo era figura deste Pão — o próprio Jesus Cristo — que alimenta os cristãos no seu peregrinar por este mundo. A comunhão é o maravilhoso ban­quete em que Cristo Se nos dá a Si mesmo: «O pão que Eu hei-de dar é a Minha carne pela vida do mundo». Estas palavras são a promessa da instituição da Eucaristia na Última Ceia: «Isto é o Meu Corpo que é entregue por vós» (1Cor 11,22). As expressões «pela vida do mundo», «por vós» aludem ao valor redentor da imolação de Cristo na Cruz. Já em alguns sacrifícios do Antigo Testamento, que eram figura do de Cristo, parte da carne oferecida servia de alimento e significava a participação no rito sagrado (cfr Ex 11,3-4). Assim, quando comungamos, participamos do sacri­fício de Jesus Cristo. Por isso canta a Igreja na Liturgia das Horas na festa do Corpus Chrísti: «Oh banquete sagrado em que Cristo é nossa comida, se celebra o memorial da Paixão, a alma se enche de graça e nos é dado um penhor da futura glória» (Antífona do ‘Magnificat’ nas Segundas Vésperas).

19.04.2013 – Jo 6, 52-59

52Puseram-se então os Judeus a disputar entre si, dizendo: Como pode Ele dar-nos a carne a comer? 53Jesus disse-lhes então: Em verdade, em verdade vos digo: Se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o Seu sangue, não tereis a vida em vós. 54Quem come a Minha carne e bebe o Meu sangue tem a vida eterna, e Eu ressuscitá-lo-ei no último dia. 55É que a Minha carne é verdadeiramente uma comida, e o Meu sangue é verdadeiramente uma bebida. 56Quem come a Minha carne e bebe o Meu sangue fica em Mim e Eu nele. 57Assim como o Pai, que vive, Me enviou e Eu vivo pelo Pai, também o que Me come viverá por Mim, 58Tal é o pão que desceu do Céu: não é como aquele que os nossos pais comeram, e mor­reram; quem come deste pão viverá eterna­mente.

59Isto disse Ele, estando a ensinar na sina­goga, em Cafarnaum.

Comentário

52. Os ouvintes compreendem perfeitamente o sentido próprio e directo das palavras do Senhor; mas não creem que tal afirmação possa ser verdade; se as tivessem enten­dido em sentido figurado ou simbólico não lhes teria causado tão grande estranheza nem se teria produzido a discussão. Jesus depois insistirá na Sua afirmação confir­mando o que eles tinham entendido (cfr vv 54-56).

53. Jesus reitera com grande força a necessidade de O receber na Eucaristia para participar na vida divina, para que cresça e se desenvolva a vida da graça recebida no Baptismo. Nenhum pai se contenta com dar a existência aos seus filhos, mas proporciona-lhes alimentos e meios para que possam chegar à maturidade. «Recebemos Jesus Cristo na Sagrada Comunhão para que_ seja alimento das nossas almas, nos aumente a graça e nos dê a vida eterna» (Catecismo da Doutrina Cristã, n° 289).

54. Jesus afirma claramente que o Seu Corpo e o Seu Sangue são penhor da vida eterna e garantia da ressurreição corporal. São Tomás de Aquino dá esta explicação: «O Verbo dá a vida às almas, mas o Verbo feito carne vivifica os corpos. Neste Sacramento não se contém só o Verbo com a Sua divindade mas também com a Sua humanidade; portanto, não é só causa da glorificação das almas, mas também dos corpos» (Comentário sobre S. João, ad loc.).

O Senhor emprega uma expressão mais forte que o mero comer (o verbo original poderia traduzir-se por « mastigar»), exprimindo assim o realismo da Comunhão: trata-se de uma verdadeira refeição. Não há lugar, pois, para uma interpre­tação simbólica, como se participar na Eucaristia fosse apenas uma metáfora, e não o comer e beber realmente o Corpo e o Sangue de Cristo.

«Estes convites, estas promessas e estas ameaças nascem todas do grande desejo que tem (Jesus) de Se unir a nós neste Sacramento. Mas, por que deseja tanto Jesus Cristo que vamos recebê-Lo na sagrada Comunhão? Eis a razão: o amor (…) sempre aspira e tende à união e, como diz São Tomás, ‘os amigos que se amam de coração quereriam estar de tal modo unidos que não formassem mais que um só’. Isto passou com o imenso amor de Deus aos homens, que não esperou para Se dar por completo no Reino dos Céus, mas ainda nesta terra deixou-Se possuir pelos homens com a mais íntima posse que se possa imaginar, ocultando-Se sob as aparências de pão no Santíssimo Sacramento. Ali está como detrás de um muro, e dali nos contempla como através de gelosias (cfr Cant 2,9). Ainda que nós não O vejamos, Ele olha para nós dali, e ali Se encontra realmente presente, para permitir que o possuamos, embora Se oculte para que O desejemos. E até que cheguemos à pátria celeste, Jesus quer deste modo entregar-Se-nos completamente e viver assim unido connosco» (Prática do amor a Jesus Cristo, cap. 2).

55. Assim como o alimento corporal é necessário para a vida terrena, a sagrada Comunhão é necessária para manter a vida da alma. Por isto a Igreja exortou sempre a receber este Sacramento com frequência: «Diariamente, como é de desejar, os fiéis em grande número participem activamente no Sacrifício da Missa, alimentem-se com coração puro e santo da sagrada Comunhão, e deem graças a Cristo Nosso Senhor por tão grande dom. Recordem estas palavras: ‘O desejo de Jesus e da Igreja de que todos os fiéis se aproximem diariamente do sagrado banquete consiste, sobre­tudo nisto: que os fiéis, unidos a Deus em virtude do sacra­mento, tirem dele força para dominar a sensualidade, para se purificarem das culpas leves quotidianas e para evitar os pecados graves, a que está sujeita a “humana fragilidade’ (Decr. da S. Congregação do Concilio de 20-XII-1905)» (Mysterium fidei).

«O Salvador instituiu o Santíssimo Sacramento da Eucaristia, que contém realmente a Sua Carne e o Seu Sangue, para que aquele que comer d’Ele viva eternamente; por isso, todo aquele que usa devota e frequentemente deste Sacra­mento assegura de tal maneira a salvação da sua alma, que é quase impossível que qualquer sorte de má afeição lhe ocasione a morte. Não se pode estar alimentado por esta carne de vida e viver dos afectos da morte (…). Os cristãos que se condenarem ficarão sem saber que replicar quando o justo Juiz lhes fizer ver o insensatos que foram morrer espiritualmente, podendo ter conservado com tanta facili­dade a saúde da alma comendo do Corpo que Ele lhes deixou para este fim. Miseráveis, dir-lhes-á, como é que estais mortos, tendo-vos mandado comer o fruto e manjar da vida?» (Introdução à vida devota, p. II, c. 20,1).

56. O efeito mais importante da Santíssima Eucaristia é a união íntima com Jesus Cristo. O próprio nome de Comunhão indica esta participação unitiva na Vida do Senhor: se em todos os sacramentos, por meio da graça que nos conferem, se consolida a nossa união com Jesus, esta é mais intensa na Eucaristia, visto que não só nos dá a graça, mas o próprio Autor da graça: «Participando realmente do Corpo do Senhor na fracção do pão eucarístico, somos elevados a uma comunhão com Ele e entre nós.’ Porque o pão é um, somos muitos um só corpo, pois todos participamos de um único pão’ (1Cor 10,17)» (Lumen gentium, n. 7). Precisa­mente por ser a Eucaristia o sacramento que melhor significa a nossa união com Cristo, é ao mesmo tempo onde toda a Igreja mostra e leva a cabo a sua unidade: Jesus Cristo «instituiu na Sua Igreja o admirável sacramento da Euca­ristia, pelo qual se significa e se realiza a unidade da Igreja» (Unitatis redintegratio, n. 2).

57. Em Cristo, o Verbo encarnado e enviado ao mundo «habita toda a plenitude da divindade corporalmente» (Col 2,9) pela inefável união da Sua natureza humana com a é natureza divina na Pessoa do Verbo. Ao recebermos neste sacramento a Carne e o Sangue de Cristo indissoluvelmente unidos à Sua divindade, participamos na própria vida divina da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Nunca apreciaremos suficientemente a intimidade e a proximidade com o próprio Deus — Pai, Filho e Espírito Santo —, que Se nos oferece no banquete eucarístico.

«Sendo isto assim, devíamos confessar que a alma não pode fazer nem pensar coisa mais agradável a Jesus Cristo do que hospedar no seu coração, com as devidas disposições, hóspede de tanta majestade, porque desta maneira se une a Jesus Cristo, que tal é o desejo de tão enamorado Senhor. Disse que se deve receber a Jesus não com as disposições dignas, mas com as devidas, porque, se fosse necessário ser digno deste sacramento, quem jamais poderia comungar? Só um Deus poderia ser digno de receber um Deus. Digo dignas no sentido em que convém à mísera criatura vestida da pobre carne de Adão. Ordinariamente falando, basta que a alma se encontre em graça de Deus e com vivo desejo de aumentar nela o amor a Jesus Cristo» (Prática do amor a Jesus Cristo, cap. 2).

58. Pela terceira vez (cfr 6,31-32 e 6,49) Jesus compara o verdadeiro pão da vida, o Seu próprio Corpo, com o maná, com que Deus tinha alimentado os Hebreus diariamente durante quarenta anos no deserto. Assim, faz um convite a alimentar frequentemente a nossa alma com o manjar do Seu Corpo.

«Quantos anos a comungar diariamente! — Outro seria santo — disseste-me — e eu, sempre na mesma!

«— Filho — respondi-te — continua com a Comunhão diária, e pensa: que seria de mim, se não tivesse comun­gado?» (Caminho, n° 534).

20.04.2013 – Jo 6, 60-69

60Muitos dos discípulos disseram, depois de O ouvirem: É dura esta linguagem; quem pode escutá-la? 61Conhecendo Jesus interior­mente que os discípulos murmuravam do assunto, perguntou-lhes: Isto fere-vos? 62E se virdes o Filho do homem a subir para onde estava anteriormente? 63O espírito que dá vida, a carne não serve de nada. As palavras que Eu vos disse são espírito e vida. 64Mas há alguns dentre vós que não acre­ditam. De facto, Jesus bem sabia desde o início quem eram os que não acreditavam e quem era aquele que O havia de entregar. 65E foi acrescentando: Por isso é que vos disse: «Ninguém pode vir a Mim, se isso lhe não está concedido pelo Pai». 66A partir de então, muitos dos discípulos se retiraram e já não andavam com Ele.

67Disse então Jesus aos doze: Também vós quereis partir? 68Respondeu-Lhe Simão Pe­dro: Para quem iremos nós, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna! 69E nós acreditamos e sabemos que Tu és o Santo de Deus!

Comentário

60-62. O mistério eucarístico aparece incompreensível para muitos dos ouvintes. Jesus Cristo exige dos Seus discípulos que aceitem as Suas palavras por ser Ele quem as diz. Nisto consiste o acto sobrenatural da fé: «em que, com inspiração e ajuda da graça de Deus, cremos ser verdadeiro o que por Ele foi revelado, não pela verdade intrínseca das coisas percebidas pela luz natural da razão, mas pela autori­dade do próprio Deus que revela, o qual não pode nem enganar-Se nem enganar-nos» (Dei Filius, cap. 3).

Como noutras ocasiões, Jesus Cristo fala de aconteci­mentos futuros, preparando assim a fé dos Seus discípulos: «Disse-vo-lo agora, antes que suceda, para que quando acontecer creiais» (Ioh14,29).

63. Jesus diz que não podemos aceitar este mistério pensando de modo carnal, isto é atendendo exclusivamente ao que apreciam os nossos sentidos ou partindo de uma visão das coisas meramente natural. Só quem escuta as Suas Palavras e as recebe como revelação de Deus, que é «espírito e vida», está disposto a aceitá-las.

66. A promessa da Eucaristia, que tinha provocado naqueles ouvintes de Cafarnaum discussões (v. 52) e escân­dalo (v. 61), acaba por produzir o abandono de muitos que O tinham seguido. Jesus tinha exposto uma verdade maravilhosa e salvífica, mas aqueles discípulos fechavam-se à graça divina, não estavam dispostos a aceitar algo que supe­rava a sua mentalidade estreita. O mistério da Eucaristia exige um especial acto de fé. Por isso, já São João Crisóstomo aconselhava: «Inclinemo-nos diante de Deus; não O contra­digamos, mesmo quando o que Ele diz possa parecer con­trário à nossa razão e à nossa inteligência (…). Observemos esta mesma conduta relativamente ao mistério (eucarístico), não considerando somente o que cai debaixo dos sentidos, mas atendendo às Suas palavras. Porque a Sua palavra não pode enganar» (Hom. sobre S. Mateus, 82).

67-71. Este passo é parecido ao da confissão de Pedro em Cesareia de Filipe (cfr Mt 16,13-20; Mc 8,27-30), onde também o Príncipe dos Apóstolos se adianta em nome dos Doze a expressar a sua fé em que Jesus é o Messias. Perante a incredulidade de outros ouvintes, os Apóstolos não se escan­dalizam do que o Senhor disse, mas mostram ter já uma confiança muito arraigada no Mestre, a quem não querem abandonar. As palavras de Simão Pedro (v. 68) não só são uma adesão humana, mas uma verdadeira fé sobrenatural, embora ainda imperfeita, fruto de uma moção interna da graça divina (cfr Mt 16,17).

Ainda que os Doze assintam então, mais tarde Judas atraiçoaria o Mestre. A previsão por parte de Jesus desta futura infidelidade ensombra a alegria da adesão dos Doze. Nós cristãos devemos ter a humildade de nos reconhecermos capazes de atraiçoar o Senhor se abandonamos os meios que nos deixou para permanecer unidos a Ele. As palavras de Pedro (v. 68) são uma formosa jaculatória para repetir na hora da provação.

68. Simão Pedro exprimiu os sentimentos dos Após­tolos, que, ao perseverarem junto do Mestre, O iam conhecendo mais profundamente e iam unindo as suas vidas à d’Ele. « Buscai a Jesus esforçando-vos por conseguir uma fé pessoal profunda que informe e oriente toda a vossa vida; mas sobretudo que seja o vosso compromisso e o vosso programa amar Jesus, com um amor sincero, autêntico e pessoal. Ele deve ser vosso amigo e vosso apoio no caminho da vida. Só Ele tem palavras de vida eterna» (João Paulo II, Discurso aos estudantes).

69. «O Santo de Deus»: Assim parece ser a frase original, segundo consta na maioria dos códices gregos e versões antigas mais importantes. «O Santo» é uma das expressões que designam o Messias (cfr Mc 1,24; Lc 1,35; 4,34; Act 2,27; Ps 16,10),ou o próprio Deus (cfr Is 6,3;43.15; 1Pet1,15; 1Ioh 2,20; etc.). A leitura «o Cristo, o Filho de Deus» de algumas versões, entre elas a Vulgata, está apoiada em manuscritos gregos menos importantes, e seria uma explicação do signi­ficado messiânico da frase original.

21.04.2013 – Jo 10, 27-30

27As Minhas ovelhas ouvem a Minha voz; Eu conheço-as, e elas seguem-Me. 28Dou-lhes a vida eterna, e elas não perecerão nunca, nem ninguém as há-de arrebatar da Minha mão. 29Meu Pai, que foi quem Mas deu, é maior do que todos, e ninguém as pode arrebatar da mão de Meu Pai. 30Eu e o Pai somos um só.

Comentário

26-29. É certo que a fé e a vida eterna não se podem merecer só pelas forcas naturais do homem: são um dom gratuito de Deus. Mas o Senhor a ninguém nega a Sua graça para crer e para se salvar, porque «quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade» (l Tim 2,4). Ora bem, se alguém põe obstáculos ao dom da fé, é culpável da sua incredulidade. A este propósito ensina São Tomás de Aquino: «Posso ver graças à luz do sol; mas se fecho os olhos, não vejo: isto não é por culpa do sol mas por minha culpa, porque ao fechar os olhos impeço que me chegue a luz solar» (Comentário sobre S. João, ad loc.).

Pelo contrário, os que não opõem resistência à graça divina chegam a crer em Jesus, são conhecidos e amados pelo Senhor, entram sob a Sua protecção e permanecem fiéis ajudados pela Sua graça, penhor da vida eterna que finalmente receberão do Bom Pastor. É verdade que neste mundo terão de lutar e sofrerão feridas; mas se se mantêm unidos ao Bom Pastor ninguém nem nada arrebatará das mãos de Cristo as Suas ovelhas, porque mais forte que o Maligno é o nosso Pai Deus. A esperança de que o Senhor nos concederá a perseverança final baseia-se não nas nossas próprias forças mas na misericórdia divina; tal esperança deve constituir um motivo contínuo de luta para corresponder à graça e ser fiéis cada dia às exigências da nossa fé.

30. Jesus manifesta a identidade substancial entre Ele e o Pai. Antes tinha proclamado Deus como Seu Pai «tornando-Se igual a Deus»; por isto os judeus tinham pensado várias vezes em dar-Lhe morte (cfr 5,18; 8,59). Agora fala acerca do mistério de Deus, que nós os homens só podemos conhecer por revelação. Depois voltará a desvelar esse mistério, sobretudo na Última Ceia (14,10; 17,21-22). O Evan­gelista já o contempla no começo do Prólogo (cfr Ioh 1,1 e nota).

«Escuta — convida-nos Santo Agostinho — o próprio Filho: ‘Eu e o Pai somos um’. Não disse ‘Eu sou o Pai’, nem ‘Eu e o Pai é um mesmo’. Mas na expressão ‘Eu e o Pai somos um’ há que fixar-se nas duas palavras: ‘somos’ e ‘um’ (…). Porque se são um então não são diversos, e se ‘somos’, então há um Pai e um Filho» (In Ioann. Evang., 36,9). Jesus revela a Sua unidade substancial com o Pai quanto à essência ou natureza divina, mas ao mesmo tempo manifesta a distinção pessoal entre o Pai e o Filho. «Cremos, pois, em Deus. que desde toda a eternidade gera o Filho; cremos no Filho, Verbo de Deus, que é gerado desde a eternidade; cremos no Espírito Santo, Pessoa incriada, que procede do Pai e do Filho como Amor sempiterno deles. Assim, nas três Pessoas divinas, que são eternas entre si e iguais entre si, a vida e felicidade de Deus inteiramente uno abundam sobremaneira e çonsumam-se com excelência máxima e glória própria da Essência incriada; e sempre há que venerar a unidade na Trindade e a Trindade na unidade» (Credo do Povo de Deus, n.° 10).

22.04.2013 – Jo 10, 1-10

Em verdade, em verdade vos digo: Aquele que não entra pela porta no recinto das ovelhas, mas sobe por outro lado, esse é ladrão e salteador. 2Mas aquele que entra pela porta é o pastor das ovelhas. 3É a esse que o porteiro abre, e as ovelhas ouvem a sua voz. Ele chama as suas ovelhas pelos nomes e leva-as para fora. 4Depois de fazer sair todas as que lhe pertencem, põe-se a caminho à sua frente e as ovelhas seguem-no, porque lhe conhecem a voz. 5A um estranho, porém, não o seguirão, mas hão-de fugir dele, porque não conhecem a voz dos estranhos.

6Tal foi o paralelo que Jesus lhes expôs. Eles, porém, não entenderam o que lhes estava a dizer.

7Jesus continuou: Em verdade, em verdade vos digo: Eu sou a porta das ovelhas. 8Todos quantos vieram antes de Mim são ladrões e salteadores, mas as ovelhas não os escutaram. 9 Eu sou a porta. Se alguém entrar por Mim, estará salvo; há-de entrar e sair, e achará pastagem. 10O ladrão não vem senão para roubar, matar e destruir. Eu vim para terem a vida e a terem abundantemente.

Comentário

1-18. A imagem do Bom Pastor evoca um tema preferido da pregação profética no Antigo Testamento: o povo escolhido é chamado o rebanho, e Yahwéh é seu pastor (cfr Ps 23). O nome de pastores aplicava-se também aos reis e aos sacerdotes. Jeremias dirige uma dura ameaça a estes pastores que deixam que se percam as ovelhas, e promete em nome de Deus novos pastores que de verdade apascentem as ovelhas de modo que nunca mais sejam angustiadas nem afligidas (cfr 23,1-6; cfr também 2,8; 3,15; 10,21; Is 40,1-11). Ezequiel censura os pastores pelos seus delitos e pela sua preguiça, pela avidez e pelo esquecimento dos seus próprios deveres: Yahwéh tirar-lhes-á o rebanho e Ele mesmo cuidará das Suas ovelhas. Mais ainda: suscitará um Pastor único, descendente de David, que as apascentará, e estarão seguras (Ez 34). Jesus apresenta-Se como esse Bom Pastor que cuida das Suas ovelhas, busca a extraviada, cura a ferida e carrega aos ombros a extenuada (cfr Mt 18,12-14; Lc 15,4-7), cumprindo-se n’Ele as antigas profecias.

A arte cristã inspirou-se cedo nesta figura comovente do Bom Pastor e deixou assim representado o amor de Cristo por cada um de nós.

Além do título de Bom Pastor, Cristo aplica-Se a Si mesmo a imagem da porta pela qual se entra no aprisco das ovelhas que é a Igreja. «A Igreja — ensina o Concilio Vati­cano II — é o redil, cuja única porta e necessário pastor é Cristo (cfr Ioh 10,1-10). É também o rebanho do qual o próprio Deus predisse que seria o pastor (cfr Is 40,11; Ez 34,11-15), e cujas ovelhas, ainda que governadas por pastores humanos, são contudo guiadas e alimentadas sem cessar pelo próprio Cristo, bom pastor e príncipe dos pastores (cfr Ioh 10,11; 1Pet 5,4), o qual deu a vida pelas Suas ovelhas (cfr Ioh 10,11-15)» (Lumen gentium, n. 6).

1-2. Pode prejudicar-se o rebanho caladamente e às escondidas, ou então de forma descarada e com abuso de poder. Os inimigos do rebanho de Cristo — assim o atesta a História da Igreja — empregaram ambos os sistemas: umas vezes introduzem-se no redil ocultando-se para fazer mal a partir de dentro; outras fazem-no de fora, aberta e violentamente. «Quem é o bom pastor? O que entra pela porta da fidelidade à doutrina da Igreja; o que não se comporta como um mercenário, que, ao ver vir o lobo, deixa as ovelhas e foge; e o lobo arrebata-as e faz dispersar o rebanho» (Cristo que passa, n.° 34).

3-5. Naqueles tempos era costume reunir ao escurecer vários rebanhos num mesmo recinto. Ali permaneciam toda a noite sob a custódia de um guarda. Ao amanhecer, cada pastor abria-lhe a porta e chamava as suas ovelhas, que se incorporavam e saiam do aprisco atrás dele; fazia-lhes ouvir frequentemente a sua voz para que não se perdessem, e caminhava à frente para as conduzir aos pastos. O Senhor faz uso desta imagem, tão familiar aos Seus ouvintes, para lhes mostrar um ensinamento divino: diante de vozes estranhas, é necessário reconhecer a voz de Cristo — actualizada continuamente pelo Magistério da Igreja — e segui-Lo, para encontrar o alimento abundante das nossas almas. «Cristo deu à Sua Igreja a segurança da doutrina, a corrente de graça dos Sacramentos; e providenciou para que haja pessoas que nos orientem, que nos conduzam, que nos recordem constantemente o caminho. Dispomos de um tesouro infinito de ciência: a Palavra de Deus, guardada pela Igreja; a graça de Cristo, que se administra nos Sacramentos; o testemunho e o exemplo dos que vivem com rectidão ao nosso lado e sabem fazer das suas vidas um caminho de fidelidade a Deus» (Cristo que passa, n° 34).

6. Cristo, com pedagogia divina, desenvolve e inter­preta a imagem do pastor e do rebanho, para que todos os homens, se têm boas disposições, possam chegar a entender. Mas os judeus não entenderam o alcance das palavras do Senhor, como aconteceu quando lhes prometeu a Eucaristia (Ioh 6,41-43) ou lhes falou da «água viva» (Ioh 7,40-43), ou por ocasião da ressurreição de Lázaro (Ioh 11,45-46).

7. Depois de ter prefigurado a Igreja como um redil, Jesus desenvolve a comparação e chama-Se a Si mesmo «porta das ovelhas». No redil entram os pastores e as ovelhas. Tanto uns como outras hão-de entrar pela porta, que é Cristo. «Eu — pregava Santo Agostinho — querendo chegar até vós, isto é, ao vosso coração, prego-vos Cristo: se pregasse outra coisa, quereria entrar por outro lado. Cristo é para mim a porta para entrar em vós: por Cristo entro não nas vossas, casas, mas nos vossos corações. Por Cristo entro gozosamente e escutais-me ao falar d’Ele. Por quê? Porque sois ovelhas de Cristo e fostes compradas com o Seu Sangue» (In Ioann. Evang., 47,2.3).

8. A severa censura que Jesus faz a quantos vieram antes d’Ele não inclui Moisés, nem os profetas (cfr Ioh 5,39. .45; 8,56; 12,41), nem o Baptista (cfr Ioh 5,33), porque estes anunciaram o futuro Messias e prepararam-Lhe o caminho. A quem alude é aos falsos profetas e enganadores do povo, entre eles alguns doutores da Lei, cegos e guias de cegos (cfr Mt 23,16-24), que impediam ao povo o acesso a Cristo, como o tinham mostrado pouco antes quando da cura do cego de nascença (cfr Ioh 9).

23.04.2013 – Jo 10, 22-30

22Celebrou-se então, em Jerusalém, a festa da Dedicação. Era Inverno, 23e Jesus andava a passear no Templo, no pórtico de Salomão. Ora os Judeus rodearam-No e começaram a perguntar-Lhe: Até quando nos trarás em suspenso? Se Tu és o Messias, dize-no-lo abertamente! 25Respondeu-lhes Jesus: Já vo-lo disse, e não acreditais!… As obras que Eu faço em nome de Meu Pai é que dão testemunho de Mim; 26mas vós não acreditais, porque não sois das Minhas ovelhas. 27As Minhas ovelhas ouvem a Minha voz; Eu conheço-as, e elas seguem-Me. 28Dou-lhes a vida eterna, e elas não perecerão nunca, nem ninguém as há-de arrebatar da Minha mão. 29Meu Pai, que foi quem Mas deu, é maior do que todos, e ninguém as pode arrebatar da mão de Meu Pai. 30Eu e o Pai somos um só.

Comentário

22. Esta festa comemora um episódio da história de Israel (cfr 1Mach 4,36-59; 2 Mach 1-2,19; 10,1-8). Judas Macabeu, no ano 165 a.C., depois de ter libertado Jerusalém da dominação dos reis da dinastia Selêucida da Síria, puri­ficou o Templo das profanações de Antíoco Epifanes (l Mach 1,54). Desde então, no dia 25 do mês de Kisleu (Novembro-Dezembro) e durante a semana seguinte, celebrava-se em toda a Judeia o aniversário da dedicação do altar. Costu­mava chamar-se também «Festa das luzes» porque era cos­tume acender lâmpadas, símbolo da Lei, e pô-las nas janelas das casas (cfr 2Mach 1,18).

24-25. Quando aqueles judeus perguntaram a Jesus se é o Messias, «falavam assim, comenta Santo Agostinho, não pelo desejo de conhecer a verdade, mas para preparar o caminho da calúnia» (In Ioann. Evang., 48,3). Já noutras ocasiões Jesus Se tinha manifestado com as Suas palavras e com as Suas obras como o Filho Único de Deus (5,19 ss; 7,16 ss.; 8,25 ss.). Também Se tinha dado a conhecer explicita­mente como Messias e Salvador à samaritana (4,26) e ao cego de nascença (9,37) diante das boas disposições destes. Agora repreende os Seus interlocutores por resistirem a reconhecer as obras que Ele realiza de parte de Seu Pai (cfr 5,36; 10,38). Outras vezes Jesus Cristo tinha aludido às obras como meio para distinguir os verdadeiros profetas dos falsos: «Pelas suas obras os conhecereis» (Mt 7,16; cfr Mt 12,33).

26-29. É certo que a fé e a vida eterna não se podem merecer só pelas forcas naturais do homem: são um dom gratuito de Deus. Mas o Senhor a ninguém nega a Sua graça para crer e para se salvar, porque «quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade» (1Tim 2,4). Ora bem, se alguém põe obstáculos ao dom da fé, é culpável da sua incredulidade. A este propósito ensina São Tomás de Aquino: «Posso ver graças à luz do sol; mas se fecho os olhos, não vejo: isto não é por culpa do sol mas por minha culpa, porque ao fechar os olhos impeço que me chegue a luz solar» (Comentário sobre S. João, ad loc.).

Pelo contrário, os que não opõem resistência à graça divina chegam a crer em Jesus, são conhecidos e amados pelo Senhor, entram sob a Sua protecção e permanecem fiéis ajudados pela Sua graça, penhor da vida eterna que finalmente receberão do Bom Pastor. É verdade que neste mundo terão de lutar e sofrerão feridas; mas se se mantêm unidos ao Bom Pastor ninguém nem nada arrebatará das mãos de Cristo as Suas ovelhas, porque mais forte que o Maligno é o nosso Pai Deus. A esperança de que o Senhor nos concederá a perseverança final baseia-se não nas nossas próprias forças mas na misericórdia divina; tal esperança deve constituir um motivo contínuo de luta para corresponder à graça e ser fiéis cada dia às exigências da nossa fé.

30. Jesus manifesta a identidade substancial entre Ele e o Pai. Antes tinha proclamado Deus como Seu Pai «tornando-Se igual a Deus»; por isto os judeus tinham pensado várias vezes em dar-Lhe morte (cfr 5,18; 8,59). Agora fala acerca do mistério de Deus, que nós os homens só podemos conhecer por revelação. Depois voltará a desvelar esse mistério, sobretudo na Última Ceia (14,10; 17,21-22). O Evan­gelista já o contempla no começo do Prólogo (cfr Ioh 1,1 e nota).

«Escuta — convida-nos Santo Agostinho — o próprio Filho: ‘Eu e o Pai somos um’. Não disse ‘Eu sou o Pai’, nem ‘Eu e o Pai é um mesmo’. Mas na expressão ‘Eu e o Pai somos um’ há que fixar-se nas duas palavras: ‘somos’ e ‘um’ (…). Porque se são um então não são diversos, e se ‘somos’, então há um Pai e um Filho» (In Ioann. Evang., 36,9). Jesus revela a Sua unidade substancial com o Pai quanto à essência ou natureza divina, mas ao mesmo tempo manifesta a distinção pessoal entre o Pai e o Filho. «Cremos, pois, em Deus. que desde toda a eternidade gera o Filho; cremos no Filho, Verbo de Deus, que é gerado desde a eternidade; cremos no Espírito Santo, Pessoa incriada, que procede do Pai e do Filho como Amor sempiterno deles. Assim, nas três Pessoas divinas, que são eternas entre si e iguais entre si, a vida e felicidade de Deus inteiramente uno abundam sobremaneira e çonsumam-se com excelência máxima e glória própria da Essência incriada; e sempre há que venerar a unidade na Trindade e a Trindade na unidade» (Credo do Povo de Deus, n° 10).

24.04.2013 – Jo 12, 44-50

44Jesus ergueu a voz e disse: Quem acredita em Mim não é em Mim que acredita, mas n’Aquele que Me enviou; 45e quem Me vê vê Aquele que Me enviou. 46Eu vim como luz ao mundo, a fim de que todo aquele que acredita em Mim não fique nas trevas. 47Se alguém ouve as Minhas palavras e as não guarda, não sou Eu que o condeno, que Eu não vim para condenar o mundo, mas para o salvar. 48Quem Me rejeita e não acolhe as Minhas palavras tem quem o condene. A palavra que eu anunciei é que há-de condená-lo no último dia. 49De facto, Eu não falei por Mim mesmo; foi o Pai, que Me enviou, que Me deu pessoalmente uma ordem sobre o que hei-de dizer e anunciar. 50E Eu sei que a Sua ordem é vida eterna! Portanto, as coisas que digo, digo-as como o Pai Mas disse a Mim.

Comentário

44-50. Com estes versículos termina São João o relato da pregação pública do Senhor. Recopila alguns temas fundamentais desenvolvidos em capítulos anteriores: neces­sidade da fé em Cristo (v. 44); unidade e distinção entre o Pai e o Filho (v. 45); Jesus como Luz e Vida do mundo (vv 46-50); julgamento dos homens segundo a sua aceitação ou rejeição do Filho de Deus (vv 47-49). Nos capítulos seguintes recolhe os ensinamentos de Jesus aos Seus Apóstolos na Última Ceia, e os relatos da Paixão e da Ressurreição.

45. Cristo, o Verbo Encarnado, é um com o Pai (cfr Ioh 10,30); é «o esplendor da Sua glória» (Heb 1,3), «a imagem perfeita do Deus invisível» (Col 1,15). Em Ioh 14,9 Jesus exprime-Se quase com as mesmas palavras ao dizer: «Aquele que Me viu a Mim viu o Pai». Ao mesmo tempo que fala da unidade com o Pai, aparece de forma clara a distinção entre as Pessoas divinas: o Pai, que envia, e o Filho, que é enviado.

Na Santíssima Humanidade de Cristo está como que escondida a Sua Divindade, que possui com o Pai na uni­dade do Espírito Santo (cfr Ioh 14,7-11). Em teologia costuma chamar-se «circuminsessão» a realidade divina pela qual, em virtude da unidade entre as três Pessoas da Santíssima Trindade, «o Pai está todo no Filho, todo no Espírito Santo; o Filho está todo no Pai, todo no Espírito Santo; o Espírito Santo está todo no Pai, todo no Filho» (Pró Iacobitis, Dz-Sch, n. 1331).

47. Cristo veio salvar o mundo oferecendo-Se em sacri­fício pelos nossos pecados e trazendo-nos a vida sobrenatural (cfr Ioh 3,17). Mas, ao mesmo tempo, foi constituído Juiz de vivos e mortos (cfr Act 10,42): dá a Sua sentença no juízo particular que acontece imediatamente depois da morte, e no fim dos tempos; na Sua segunda vinda ou Parusia, no juízo universal (cfr Ioh 5,22; 8,15-16 e a nota a Ioh 15,22-25).

25.04.2013 – Mc 16, 15-20

15E disse-lhes Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura. 16Quem acre­ditar e for baptizado será salvo, mas quem não crer será condenado. 17Aos que crerem acompanhá-los-ão estes milagres: em Meu nome expulsarão Demônios, falarão novas línguas, 18pegarão em serpentes e, se beberem peçonha, não lhes fará mal, imporão as mãos aos doentes, e eles recobrarão saúde.

19E assim o Senhor Jesus, depois de ter falado com eles, foi assumido ao Céu e sentou-Se à direita de Deus.

20Eles partiram a pregar por toda a parte, cooperando o Senhor com eles e confirmando a sua palavra com os milagres que a acom­panhavam.

Comentário

16. Como consequência da proclamação da Boa Nova ensina-se neste versículo que a fé e o Baptismo são requisitos indispensáveis para alcançar a salvação. A conversão à fé de Jesus Cristo há-de levar directamente ao Baptismo, que nos «confere a primeira graça santificante, pela qual se perdoa o pecado original e também os actuais, se os houver; remete toda a pena por eles devida; imprime o caracter de cristãos; faz-nos filhos de Deus, membros da Igreja e herdeiros da glória, e habilita-nos para receber os outros sacramentos» (Catecismo Maior, n° 553).

O Baptismo é absolutamente necessário para o homem se salvar, como se depreende destas palavras do Senhor. Mas a impossibilidade física do rito baptismal pode ser suprida ou pelo martírio, que é chamado baptismo de sangue, ou por um acto perfeito de amor de Deus ou de contrição, unidos ao desejo, pelo menos implícito, de ser baptizado; a isto chama-se baptismo de desejo (cfr Ibid., nos 567-568).

Relativamente ao Baptismo das crianças, já Santo Agos­tinho ensinava que «de nenhum modo se pode rejeitar nem considerar como desnecessário o costume da Santa Madre Igreja de baptizar as crianças; antes pelo contrário, há que admiti-lo forçosamente por ser tradição apostólica» (De Gen. ad litt., 10,23,39). O novo Código de Direito Canônico assinala a necessidade de que as crianças sejam baptizadas: «Os pais têm obrigação de procurar que as crianças sejam baptizadas dentro das primeiras semanas; logo após o nasci­mento, ou até antes deste, vão ter com o pároco, peçam-lhe o sacramente para o filho e preparem-se devidamente para ele» (cân. 867 § 1).

Outra consequência ligada intimamente à anterior é a necessidade da Igreja, como declara o Concilio Vaticano II: «Com efeito, só Cristo é mediador e caminho de salvação e Ele torna-Se-nos presente no Seu corpo, que é a Igreja; ao inculcar expressamente a necessidade da fé e do Baptismo (cfr Mc 16,16; Ioh 3,5), confirmou simultaneamente a necessidade da Igreja, para a qual os homens entram pela porta do Baptismo. Pelo que, não se poderiam salvar aqueles que, não ignorando ter sido a Igreja católica fundada por Deus, por meio de Jesus Cristo, como necessária, contudo, ou não querem entrar nela ou nela não querem perseverar» (Lumen gentium, n. 14; cfr Presbyterorum ordinis, n. 4; Ad gentes, nn. 1.3; Dignitatis humanae, n. 11).

17-18. Nos primeiros tempos da expansão da Igreja, estes factos miraculosos que Jesus anuncia cumpriram-se de modo frequente e visível. Os testemunhos históricos destes acontecimentos são abundantíssimos no Novo Testamento (cfr, p. ex. Act 3,1-11; 28,3-6) e noutros escritos cristãos antigos. Era muito conveniente que assim sucedesse para mostrar ao mundo de uma maneira palpável a verdade do cristianismo. Mais tarde, continuaram a realizar-se milagres deste tipo, mas em menor número, como casos excepcionais. Também é conveniente que assim seja porque, por um lado, a verdade do Cristianismo está já suficientemente atestada; e, por outro, para dar lugar ao mérito da fé. «Os milagres — comenta São Jerônimo — foram precisos ao princípio para confirmar com eles a fé. Mas, uma vez que a fé da Igreja está confirmada, os milagres não são necessários» (Comm. in Marcum, ad loc.). De qualquer modo, Deus continua a realizar milagres através dos santos de todos os tempos, também dos actuais.

19. A Ascensão do Senhor aos Céus e o estar sentado à direita do Pai constituem o sexto artigo da Fé que recitamos no Credo. Jesus Cristo subiu ao Céu em corpo e alma para tomar posse do Reino alcançado com a Sua morte, para nos preparar o nosso lugar na glória (cfr Apc 3,21), e para enviar o Espírito Santo à Sua Igreja (cfr Catecismo Maior, n° 123).

A afirmação «sentou-se à direita de Deus» significa que Jesus Cristo, também na Sua Humanidade, tomou posse eterna da glória e que, sendo igual ao Pai enquanto Deus, ocupa junto d’Ele o lugar de honra sobre todas as criaturas enquanto homem (cfr Catecismo Romano, I, 7,2-3). Já no Antigo Testamento se diz que o Messias estará sentado à direita do Todo-poderoso, exprimindo assim a suprema dignidade do Ungido de Yahwéh (cfr Ps 110,1). O NT recolhe aqui esta verdade, e também noutros muitos lugares (cfr Eph 1,20-22; Heb 1,13).

Segundo amplia o Catecismo Romano, Jesus subiu aos Céus pela Sua própria virtude e não por poder estranho a Ele. Também não ascendeu aos Céus apenas como Deus, mas também como homem.

20. O Evangelista, movido pelo Espírito Santo, dá tes­temunho de que as palavras de Cristo já se tinham começado a cumprir no tempo em que escrevia o seu Evangelho. Os Apóstolos, com efeito, souberam realizar com fidelidade a missão que o Senhor lhes tinha confiado. Começaram a pregar por todo o mundo então conhecido a Boa Nova da Salvação. A palavra dos Apóstolos era acompanhada pelos sinais e prodígios que o Senhor lhes tinha prometido, dando assim autoridade ao seu testemunho e à sua doutrina. Mas já sabemos que o trabalho apostólico foi sempre duro, cheio de fadigas, perigos, incompreensão, perseguições e até do próprio martírio, seguindo em tudo isso os rastos do Senhor.

Graças a Deus e também aos Apóstolos, chegou até nós a força e a alegria de Cristo Senhor Nosso. Mas cada geração cristã, cada homem, tem de receber essa pregação do Evan­gelho e por sua vez transmiti-lo. A graça do Senhor não faltará nunca: «Non est abbreviata manus Domini» (Is 59,1), o poder do Senhor não diminuiu.

26.04.2013 – Jo 14, 1-6

Não se perturbe o vosso coração. Acreditai em Deus, acreditai tambem em Mim. 2Em casa de Meu Pai há muitas habitações. Se assim não fora, ter-vo-lo-ia dito, pois vou preparar-vos um lugar. 3E, quando Eu tiver ido e vos tiver preparado um lugar, virei novamente e levar-vos-ei para junto de Mim, a fim de que, onde Eu estiver, vós estejais também. 4E, para onde Eu vou, vós sabeis o caminho. 5Diz-lhe Tome: Senhor, não sabemos para onde vais. Como é que sabemos o caminho? 6Responde-lhe Jesus: Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida; ninguém vai ao Pai, senão por Mim.

Comentário

1-3. Segundo parece, o anúncio das negações de Pedro entristeceu os discípulos. Jesus anima-os di­zendo que vai partir para lhes preparar uma morada nos Céus, pois, apesar das suas misérias e claudicações, final­mente perseverarão. A volta a que Se refere Jesus inclui a Sua segunda vinda no fim do mundo ou Parusia (cfr 1Cor 4,5; 11,26; 1Thes 4,16-17; 1Ioh 2,28) e o encontro com cada alma depois da morte: Cristo preparou-nos a morada celeste mediante a Sua obra redentora. Por isso, as Suas palavras podem considerar-se dirigidas não só aos Doze, mas a todos os que crerem n’Ele ao longo dos tempos. O Senhor levará consigo até à Sua glória todos os que tiverem acreditado n’Ele e Lhe tiverem sido fiéis.

4-7. Os Apóstolos não compreendiam com profundidade o que Jesus lhes estava a ensinar; daí a pergunta de Tome. O Senhor explica que Ele é o caminho para o Pai. «Era necessário dizer-lhes ‘Eu sou o Caminho’ para lhes demons­trar que na realidade sabiam o que julgavam ignorar, porque O conheciam a Ele» (In Ioann. Evang., 66,2).

Jesus é o caminho para o Pai: pela Sua doutrina, pois observando o Seu ensinamento chegaremos ao Céu; pela fé que suscita, porque veio a este mundo para que «todo o que crer tenha vida eterna n’Ele» (Ioh 3,15); pelo Seu exemplo, já que ninguém pode ir ao Pai senão imitando o Filho; pelos Seus méritos, com que nos possibilita a entrada na pátria celeste; e sobretudo é o caminho porque revela o Pai com Quem é um pela Sua natureza divina.

«As crianças pequenas, à força de ouvir falar as mães e de balbuciar vocábulos com elas, aprendem a falar; nós, permanecendo junto ao nosso Salvador, mediante a meditação, considerando as Suas palavras, as Suas accões e os Seus afectos, aprenderemos, mediante a Sua graça, a falar, a actuar e a amar como Ele. — É necessário deter-se aqui (…); não poderemos chegar até Deus Pai senão por este caminho (…); também a Divindade não poderia ser bem contemplada por nós neste baixo mundo se não se tivesse unido à Humanidade sagrada do Salvador, cuja vida e morte são o objecto mais proporcionado, suave, delicioso e útil que podemos escolher para as nossas meditações» (Introdução à vida devota, p. II, c. 1,2).

«Ego sum via: Ele é o único caminho que une o Céu à terra. Declara-o a todos os homens, mas recorda-o especial­mente aos que, como tu e eu, Lhe dissemos que estamos decididos a tomar a sério a nossa vocação de cristãos, de modo que Deus Se encontre sempre presente nos nossos pensamentos, nos nossos lábios e em todos os nossos actos, mesmo nos mais normais e correntes.

«Jesus é o caminho. Ele deixou neste mundo as pegadas limpas dos Seus passos, sinais indeléveis que nem o desgaste dos anos nem a perfídia do inimigo conseguiram apagar» (Amigos de Deus, n° 127).

As palavras de Jesus vão para além da pergunta de Tome ao responder « Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida ». Ser a Verdade e a Vida é o específico do Filho de Deus feito homem, de quem São João diz no Prólogo do seu Evangelho que está «cheio de graça e de verdade» (1,14). Ele é a Verdade porque com a Sua vinda ao mundo mostra-se a fidelidade de Deus às Suas promessas, e porque ensina verdadeiramente quem é Deus e como a autêntica adoração há-de ser «em espírito e em verdade» (Ioh 4,23). É a Vida por ter desde toda a eternidade a vida divina junto ao Pai (cfr Ioh 1,4), e porque nos faz, mediante a graça, participantes dessa vida divina. Por tudo isso diz o Evangelho: «Esta é a vida eterna: que Te conheçam a Ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo a quem Tu enviaste» (Ioh 17,3).

Com a Sua resposta, Jesus está «como que a dizer: Por onde queres ir? Eu sou o Caminho. Para onde queres ir? Eu sou a Verdade. Onde queres permanecer? Eu sou a Vida. Todo o homem consegue compreender a Verdade e a Vida; mas nem todos encontram o Caminho. Os sábios do mundo compreendem que Deus é vida eterna e verdade cognoscível; mas o Verbo de Deus, que é Verdade e Vida junto ao Pai, fez-Se Caminho ao assumir a natureza humana. Caminha contemplando a Sua humildade e chegarás até Deus» (De verb. Dom. serm., 54).

27.04.2013 – Jo 14, 7-14

7Uma vez que Me conheceis, conhecereis também a Meu Pai. Agora ficais a conhecê-Lo e já O vistes. 8Diz-lhe Filipe: Senhor, mostra-nos o Pai. e isso nos basta. 9Responde-lhe Jesus: Há tanto tempo que estou convosco, e não Me conheceis, Filipe? Quem Me viu viu o Pai. Como é que tu dizes: «Mos­tra-nos o Pai»? 10Não acreditais que Eu estou no Pai e que o Pai está em Mim? As palavras que Eu vos digo, não as profiro por Mim mesmo; e o Pai, permanecendo em Mim, é que faz as obras. 11Acreditai-Me: Eu estou no Pai e o Pai está em Mim. Ao menos, acreditai-o por causa das mesmas obras. 12Em verdade, em verdade vos digo: Quem acredita em Mim fará também as obras que Eu faço e fá-las-á maiores do que estas, porque Eu vou para o Pai; 13e o que quer que pedirdes em Meu nome, fá-lo-ei, para o Pai ser glorificado no Filho. 14Se Me pedirdes alguma coisa em Meu nome, fá-lo-ei.

Comentário

8-11. As palavras do Senhor continuam a ser misteriosas para os Apóstolos, que não acabam de entender a unidade do Pai e do Filho. Daí a insistência de Filipe. Por isso Jesus repreende o apóstolo porque ainda O não conhece, quando é claro que as Suas obras são próprias de Deus: caminhar sobre as ondas, dar ordens aos ventos, perdoar pecados, ressuscitar os mortos. Este é o motivo da repreensão: o não ter conhecido a Sua condição de Deus através da Sua natu­reza humana» (De Trinitate, liv. 7).

É certo que a visão do Pai a que se refere Jesus Cristo neste passo é uma visão de fé, pois a Deus nunca ninguém O viu tal como é (cfr Ioh 1,18;6,46). Todas as manifestações de Deus ou teofanias foram mediatas, só um reflexo da grandeza divina. A manifestação suprema de Deus Pai te­mo-la em Cristo Jesus, o Filho de Deus enviado aos homens. «Ele, com toda a Sua presença e manifestação da Sua pessoa, com palavras e obras, sinais e milagres, e sobretudo com a Sua morte e gloriosa ressurreição, enfim, com o envio do Espírito de verdade, completa totalmente e confirma com o testemunho divino a revelação, a saber, que Deus está connosco para nos libertar das trevas do pecado e da morte e para nos ressuscitar para a vida eterna» (Dei Verbum, n. 4).

12-14. Antes de partir deste mundo, o Senhor promete aos Apóstolos que os fará participantes dos Seus poderes para que a salvação de Deus se manifeste por meio deles. As obras que realizarão são os milagres feitos em nome de Jesus Cristo (cfr Act 3,1-10; 5,15-16; etc.), e sobretudo, a conversão dos homens à fé cristã e a sua santificação, me­diante a pregação e a administração dos sacramentos. Po­dem considerar-se obras maiores que as de Jesus enquanto pelo ministério dos Apóstolos o Evangelho não só foi pregado na Palestina, mas se difundiu até aos extremos da terra; mas este poder extraordinário da palavra apostólica procede de Jesus Cristo, que subiu para o Pai: depois de passar pela humilhação da Cruz, Jesus foi glorificado e do Céu manifesta o Seu poder actuando através dos Apóstolos.

O poder dos Apóstolos dimana, pois, de Cristo glori­ficado. O Senhor exprime-o ao dizer: «E o que pedirdes ao Pai em Meu nome isso farei…». «Não será maior que Eu aquele que crê em Mim; mas Eu farei então coisas maiores que as que agora faço; realizarei mais por meio daquele que crer em Mim, do que agora realizo por Mim mesmo» (In Ioann. Evang., 72,1).

Jesus Cristo é o nosso intercessor no Céu, por isso nos promete que tudo o que pedirmosem Seu Nome, Ele o fará. Pedir em Seu nome (cfr 15,7.16; 16,23-24) significa apelar para o poder de Cristo ressuscitado, crendo que Ele é omnipotente e misericordioso porque é verdadeiro Deus; e significa também pedir aquilo que convém à nossa salvação, porque Jesus Cristo é o Salvador. Assim «o que pedirdes» entende-se como o que é bom para o que pede. Quando o Senhor não concede o que se pede é porque não convém para a nossa salvação. Desse modo mostra-Se igualmente Salvador quando nos nega o que Lhe pedimos e quando no-lo concede.

28.04.2013 – Jo 13, 31-33ª.34-35

31Depois de ele sair, diz Jesus: Agora é que foi glorificado o Filho do homem e Deus foi n’Ele glorificado. 32Uma vez que Deus foi n’Ele glorificado, também Deus O há-de glorificar em Si mesmo e glorificá-Lo-á sem demora.

33«Filhinhos, ainda estou um pouco convosco. 34Dou-vos um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros; que, assim como Eu vos amei, vós também vos ameis uns aos outros. 35E por isto que todos saberão que sois Meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros.

Comentário

31-32. Esta glorificação refere-se sobretudo à glória que Cristo receberá a partir da Sua exaltação na Cruz (Ioh 3,14; 12,32). São João sublinha que a morte de Cristo é o começo do Seu triunfo; tanto é assim que a própria crucifixão poderia considerar-se como o primeiro passo da subida para o Pai. Ao mesmo tempo é glorificação do Pai, pois Cristo, aceitando voluntariamente a morte por amor, como acto supremo de obediência à Vontade divina, realiza o maior sacrifício com que o homem pode dar glória a Deus. O Pai corresponderá a esta glorificação que Cristo Lhe tributa glorificando-O a Ele, como Filho do Homem, isto é, na Sua Santíssima Humanidade, através da Ressurreição e exalta­ção à Sua direita. Desta forma a glória que o Filho dá ao Pai é ao mesmo tempo glória para o Filho.

Assim também o discípulo de Cristo encontrará o seu maior motivo de glória na identificação com a atitude obe­diente do Mestre. São Paulo indica-o claramente ao dizer: «Longe de mim gloriar-me a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo» (Gal 6,14).

33. A partir deste versículo o Evangelista relata o que costuma chamar-se o discurso da Ceia. Nele podem distinguir-se três partes. Na primeira, o Senhor começa por pro­clamar o Mandamento Novo (vv 33-35) e anuncia as negações de Pedro (w, 36-38). Explica-lhes depois que a Sua Morte vai ser o trânsito para o Pai (cap. 14), com Quem é um por ser Deus (vv 1-14). Também lhes anuncia que depois da Sua Ressurreição lhes enviará o Espírito Santo, que os guiará ensinando-lhes e recordando-lhes tudo o que lhes tinha dito (vv 15-31).

A segunda parte do discurso está contida nos capítulos 15 e 16. Jesus Cristo promete que aqueles que crerem terão uma nova vida de união com Ele, tão íntima como a que têm as varas com a videira (15,1-8). Para conseguir essa união é necessário praticar o Mandamento Novo do Senhor (vv 9-18). Previne-os das contradições que terão de sofrer, e anima-os com a promessa do Espírito Santo, que os defenderá e conso­lará (vv 18-27). A acção do Paráclito ou Consolador con­duzi-los-á eficazmente ao cumprimento da missão que Jesus lhes confiou (16,1-15). Fruto da presença do Espírito Santo será a plenitude do gozo (vv 16-33).

A terceira parte (cap. 17) recolhe a oração sacerdotal de Jesus, em que roga ao Pai pela Sua glorificação através da Cruz (vv 1-5). Pede também pelos Seus discípulos (vv. 6-19) e por todos os que por meio deles crerão n’Ele, para que, permanecendo no mundo sem serem do mundo, esteja neles o amor de Deus e deem testemunho de que Cristo é o enviado do Pai (vv. 20-26).

34-35. Cristo, depois de anunciar a Sua partida (v. 33), resume os Seus preceitos num só: o Mandamento Novo. Voltará a repeti-lo outras vezes no discurso da Ceia (cfr Ioh 15,12.17); e São João, na sua primeira carta, insistirá na necessidade de viver este mandato do Senhor e nas exigências que comporta (cfr 1Ioh 2,8; 3,7-21).

O amor ao próximo estava já mandado no Antigo Testa­mento (cfr Lev 19,18), e Jesus ratifica-o dando-lhe o lugar que lhe corresponde no conjunto da Lei: o segundo manda­mento. Este é semelhante ao primeiro: amar a Deus com todo o coração, com toda a alma e com toda a mente (cfr Mt 22,37-40). Mas Jesus dá ao preceito do amor fraterno um sentido e um conteúdo novos ao dizer «como Eu vos amei». O amor ao próximo que se pedia na Antiga Lei alcançava também de algum modo os inimigos (Ex 23,4-5); não obstante, o amor que prega Jesus é muitíssimo mais exigente e inclui devolver bem por mal (cfr Mt 5,43-44), porque a medida do amor cristão não está no coração do homem, mas no coração de Cristo, que entrega a Sua vida na Cruz pela redenção de todos (cfr 1Ioh 4,9-11). Nisto consiste a novidade do ensina­mento de Jesus, e bem pode dizer o Senhor que é o Seu mandamento, expressão da Sua última vontade, a cláusula principal do Seu testamento.

Não pode separar-se o amor ao próximo do amor a Deus: «O maior mandamento da Lei é amar a Deus de todo o coração, e ao próximo como a si mesmo (cfr Mt 22,37-40). Cristo fez deste mandamento do amor para com o próximo o Seu mandamento, e enriqueceu-o com novo significado, identificando-Se com os irmãos como objecto da caridade, dizendo: ‘sempre que o fizestes a um destes Meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes’ (Mt 25,40). Com efeito, assu­mindo a natureza humana, Ele uniu a Si como família, por uma certa solidariedade sobrenatural, todos os homens e fez da caridade o sinal dos Seus discípulos, com estas palavras: ‘nisto conhecerão todos que sois Meus discípulos, se vos amardes uns aos outros’» (Apostolicam actuositatem, n. 8).

Cristo, apesar de ser a própria pureza, a sobriedade, a humildade, não põe como distintivo para os Seus segui­dores nenhuma destas virtudes, mas a caridade: «O ensina­mento e o exemplo do Mestre são claros e precisos. Subli­nhou com obras a Sua doutrina. E, no entanto, tenho pen­sado muitas vezes que, passados vinte séculos, ainda con­tinua a ser um mandamento novo, porque muito poucos homens se têm preocupado em levá-lo à prática; os restantes, a maioria, preferiram e preferem desconhecê-lo. Com um egoísmo exacerbado, perguntam: Para quê mais complica­ções? Já me bastam as que tenho com as minhas coisas.

«Não é admissível semelhante atitude entre os cristãos. Se professamos essa mesma fé, se ambicionamos verdadei­ramente seguir as pegadas, tão nítidas, que os passos de Cristo deixaram na terra, não podemos conformar-nos com evitar aos outros os males que não desejamos para nós mesmos. Isto é muito, mas é muito pouco, quando compreendemos que a medida do nosso amor é definida pelo compor­tamento de Jesus. Além disso, Ele não nos propõe essa norma de conduta como uma meta longínqua, como o coroamento de toda uma vida de luta. É — e insisto que deve sê-lo para que o traduzas em propósitos concretos— o ponto de partida, porque Nosso Senhor o indica como sinal prévio: nisto conhecerão que sois Meus discípulos» (Amigos de Deus, n° 223).

Assim acontecia realmente entre os cristãos dos primeiros séculos no meio da sociedade paga, de modo que, como escreve Tertuliano em fins do século II, todos podiam dizer ao ver a vida daqueles fiéis: «Vede como se amam» (Apologeticum, XXXIX).

29.04.2013 – Jo 14, 21-26

21Quem tem os Meus mandamentos e os guarda, esse é que Me ama. E quem Me ama será amado por Meu Pai, e Eu amá-lo-ei e manifestar-Me-ei a ele.

22Diz-lhe Judas, não o Iscariotes: Senhor, e como é que Te vais manifestar a nós, e não ao mundo? 23Respondeu-lhe Jesus, dizendo: Se alguém Me ama, há-de guardar a Minha palavra; Meu Pai amá-lo-á e nós viremos a ele e estabeleceremos nele habitação. 24Quem Me não ama não guarda as Minhas palavras; e a palavra que estais a ouvir não é Minha, é do Pai, que Me enviou.

25Isto tenho-vos Eu dito na Minha perma­nência entre vós. 26Mas o Assistente, o Espí­rito Santo, que o Pai vai enviar em Meu nome, é que vos há-de ensinar tudo e vos recordará tudo o que Eu vos disse.

Comentário

22-23. Era crença comum entre os Judeus que quando chegasse o Messias Se manifestaria a todo o mundo como Rei e Salvador. Os Apóstolos entendem as palavras de Jesus como uma manifestação reservada só a eles, e admiram-se. Daí a pergunta de Judas Tadeu. Pode observar-se a confiança dos Apóstolos no convívio com o Senhor, como Lhe pergun­tam o que não sabem e O consultam acerca das suas dúvidas. E um exemplo de como devemos dirigir-nos a quem é também o nosso Mestre e Amigo.

A resposta de Jesus é aparentemente evasiva, mas na realidade, ao indicar o modo dessa manifestação, explica por que não Se manifesta ao mundo: Ele dá-Se a conhecer a quem O ama e guarda os Seus mandamentos. Deus tinha-Se manifestado repetidas vezes no Antigo Testamento e tinha prometido a Sua presença no meio do povo (cfr Ex 29,45; Ez 37,26-27; etc.). Pelo contrário, aqui Jesus fala-nos de uma presença em cada pessoa. A esta presença refere-se São Paulo quando afirma que cada um de nós é templo do Espírito Santo (cfr 2 Cor 6,16-17). Santo Agostinho, ao considerar a proximidade inefável de Deus na alma, exclama: «Tarde Te amei, formosura tão antiga e tão nova, tarde Te amei; eis que Tu estavas dentro de mim e eu fora, e por fora Te buscava (…). Tu estavas comigo, mas eu não estava contigo. Tinham-me longe de Ti as coisas que, se não estivessem em Ti, não existiriam. Tu chamaste-me claramente e quebraste a minha surdez; brilhaste, resplandeceste e curaste a minha cegueira» (Confissões, X, 27,38).

Jesus refere-Se à habitação da Santíssima Trindade na alma, renovada pela graça: «O coração sente então a necessidade de distinguir e adorar cada uma das pessoas divinas. De certo modo, é uma descoberta que a alma faz na vida sobrenatural, como as de uma criancinha que vai abrindo os olhos à existência. E entretém-se amorosamente com o Pai e com o Filho e com o Espírito Santo; e submete-se facilmente à actividade do Paráclito vivificador, que Se nos entrega sem o merecermos: os dons e as virtudes sobrena­turais!» (Amigos de Deus, n° 306).

25-26. Jesus expôs com clareza a Sua doutrina, mas os Apóstolos não podiam entendê-la plenamente; entendê-la-ão depois, quando receberem o Espírito Santo, o Espírito da Verdade que os guiará até à verdade completa (cfr Ioh 16,13). «Com efeito, o Espírito Santo ensinou e recordou: ensinou tudo aquilo que Cristo não tinha dito por superar as nossas forças, e recordou o que o Senhor tinha ensinado e que, quer pela obscuridade das coisas, quer pela rudeza do seu entendimento, eles não tinham podido conservar na memória» (Teofilacto, Enarratio in Evangelium Ioannis, ad loc.).

O termo que traduzimos por «recordar» inclui também a ideia de «sugerir»: o Espírito Santo trará à memória dos Apóstolos o que já tinham escutado a Jesus, mas com uma luz tal que os capacitará para descobrir a profundidade e a riqueza do que tinham visto e escutado. Assim, «os Apóstolos transmitiram aos seus ouvintes, com aquela compreensão mais plena de que eles, instruídos pelos acontecimentos gloriosos de Cristo e iluminados pelo Espírito de verdade, gozavam (cfr 2,22), as coisas que Ele tinha dito e feito» (Dei Verbum, n. 18).

«Cristo não deixou os Seus seguidores sem guia na tarefa de compreender e viver o Evangelho. Antes de voltar ao Pai prometeu enviar o Seu Espírito Santo à Igreja: ‘Mas o Paráclito, o Espírito Santo que o Pai enviará em Meu nome, Ele vos ensinará tudo e vos recordará todas as coisas que vos disse’. Este mesmo Espírito guia os sucessores dos Apóstolos, os vossos Bispos unidos ao Bispo de Roma, a quem encar­regou de manter a fé e ‘pregar o Evangelho a toda a criatura’ (Mc 16,15). Escutai a sua voz, pois vos transmite a palavra do Senhor» (João Paulo II, Homília Santuário de Knock).

Nos Evangelhos ficaram escritas, sob o carisma da inspiração divina, as recordações e a compreensão que tinham os Apóstolos, depois do Pentecostes, daquelas coisas de que tinham sido testemunhas. Por isso tais escritos sagrados «narram fielmente o que Jesus, o Filho de Deus, vivendo entre os homens, fez e ensinou realmente até ao dia da Ascensão (cfr Act 1,1-2)» (Dei Verbum, n. 11). Por isso também a Igreja tem recomendado insistentemente a leitura da Sagrada Escritura e especialmente dos Evangelhos. «Oxalá fossem tais as tuas atitudes e as tuas palavras, que todos pudessem dizer quando te vissem ou ouvissem falar: ‘Este lê a vida de Jesus Cristo» (Caminho, n° 2).

30.04.2013 – Jo 14, 27-31a

27Deixo-vos a paz, dou-vos a Minha paz. Não é como o mundo a dá que Eu vo-la dou. Não se perturbe o vosso coração, nem se torne pusilânime. 28Ouvistes que vos disse: «Eu vou, mas volto para junto de vós». Se Me amasseis, alegrar-vos-íeis por Eu ir para o Pai, porque o Pai é maior do que Eu. 29Pois bem, disse-vo-lo antes de acontecer, para que acrediteis quando isso acontecer. 30Já não falarei muito convosco, pois vai chegar o Príncipe do Mundo. Ele nada pode contra Mim, 31mas é para que o mundo saiba que amo o Pai, que faço como o Pai Me mandou.

Comentário

27. Desejar a paz era, e é também hoje, a forma usual de saudação dos Hebreus e dos Árabes. Essa mesma saudação que empregava Jesus, continuaram a usá-la os Apóstolos, segundo vemos pelas suas cartas (cfr 1Pet 1,3; 3 Ioh 15; Rom 1,7; etc.), e dela se continua a servir a Igreja na Liturgia; assim, por exemplo, antes da Comunhão o celebrante deseja aos presentes a paz, condição para participar dignamente no Santo Sacrifício (cfr Mt 5,23), e por sua vez, fruto do mesmo.

A saudação ordinária do povo hebreu recupera na boca do Senhor o seu sentido mais profundo; a paz é um dos dons messiânicos por excelência (cfr Is 9,7; 48,18; Mich 5,5; Mt 10,22; Lc 2,14; 19,38). A paz que nos dá Jesus transcende por completo a do mundo (veja-se a nota a Mt 10,34-37), que pode ser superficial e aparente, compatível com a injustiça. Pelo contrário, a paz de Cristo é sobretudo reconciliação com Deus e entre os homens, um dos frutos do Espírito Santo (cfr Gal 5,22-23), «é serenidade da mente, tranquilidade da alma, simplicidade do coração, vínculo de amor, união de caridade: não pode adquirir a herança de Deus quem não cumpra o Seu testamento de paz, nem pode viver unido a Cristo quem está separado do cristianismo» (De verb. Dom. serm., 58).

«Cristo é ‘a nossa paz’ (Eph 2,14). Hoje e sempre, Ele repete-nos: ‘A paz vos deixo, a Minha paz vos dou’. Nunca na história da humanidade se falou tanto da paz e se tem desejado tanto como nos nossos dias (…). E, não obstante, constata-se mais e mais como a paz é ameaçada e destruída (…). A paz é um resultado de muitas atitudes e realidades convergentes; é o resultado de preocupações morais, de princípios éticos, baseados na mensagem do Evangelho e corroborados por ele.

«Na sua mensagem para o Dia Mundial da Paz de 1971, o meu venerado predecessor, Paulo VI, o peregrino da paz, dizia: ‘A verdadeira paz deve fundar-se na justiça, no sentido da dignidade inviolável do homem, no reconhecimento de uma igualdade indelével e desejável entre os homens, no princípio básico da fraternidade humana, isto é, no respeito e amor devido a cada homem, porque é homem’. Esta mesma mensagem repeti eu no México e na Polônia. Repito-a aqui na Irlanda. Todo o ser humano tem direitos inaliená­veis que devem ser respeitados. Toda a comunidade humana — étnica, histórica, cultural ou religiosa — tem direitos que devem ser respeitados. A paz está ameaçada sempre que um destes direitos é violado. A lei moral, guardiã dos direitos do homem, protectora da dignidade da pessoa humana, não pode ser deixada de lado por nenhuma pessoa, nenhum grupo, nem pelo próprio Estado, por nenhum motivo, nem sequer pela segurança ou no interesse da lei ou da ordem pública. A lei de Deus está muito acima de todas as razões de Estado. Enquanto existirem: injustiças em qualquer campo que diga respeito à dignidade da pessoa humana, quer seja no campo político, social ou econômico, quer seja na esfera cultural ou na religiosa, não haverá verdadeira paz (…). A paz não pode ser estabelecida pela violência, a paz não pode florescer nunca num clima de terror, de intimi­dação ou de morte. O próprio Jesus disse: ‘Todos os que empregam a espada perecerão à espada’ (Mt 25,52). Esta é a palavra de Deus, a que ordena aos homens desta geração violenta que desistam do ódio e da violência e se arrepen­dam» (Homília Drogheda).

O gozo e a paz que. nos traz Cristo hão-de caracterizar o estado de ânimo de um crente: «Repele esses escrúpulos que te tiram a paz. — Não é de Deus o que rouba a paz da alma

«Quando Deus te visitar, hás-de sentir a verdade daquelas saudações: dou-vos a paz…, deixo-vos a paz…, a paz seja convosco… E isto, no meio da tribulação» (Caminho, n° 258).

28. Jesus Cristo, enquanto Filho Unigênito de Deus, possui a glória divina desde a eternidade, mas durante o tempo da Sua vida na terra essa glória está velada e oculta por detrás da Sua Santíssima Humanidade (cfr 17,5; Phil 2,7). Só se manifesta em algumas ocasiões, como nos milagres (cfr 2,11), ou na Transfiguração (cfr Mt 17,1-8 e par.). Vai ser agora, mediante a Morte, Ressurreição e Ascensão aos céus, que Jesus vai ser glorificado, também no Seu Corpo, voltando ao Pai e entrando na Sua glória. Por isso, a Sua saída deste mundo devia ser causa de alegria para os discípulos; mas estes não entendem bem as palavras do Senhor, e entristecem-se porque os afecta mais a pena da separação física do Mestre que o pensamento da glória que O espera.

Quando Jesus diz que o Pai é maior que Ele, está a considerar a Sua natureza humana; assim, enquanto homem, Jesus vai ser glorificado ascendendo à direita do Pai. Jesus Cristo «é igual ao Pai segundo a divindade, menor que o Pai segundo a humanidade» (Símbolo Atanasiano). Santo Agos­tinho exorta: «Reconheçamos, pois, a dupla natureza de Cristo: uma, pela qual é igual ao Pai, que é a divina; e a humana, que o torna inferior ao Pai. Uma e outra natureza não constituem dois mas um só Cristo…» (In Ioann. Evang., 78,3). Não obstante, embora o Pai e o Filho sejam iguais em natureza, eternidade e dignidade, também podem enten­der-se as palavras do Senhor considerando que «maior» se refere à origem: só o Pai é «princípio sem princípio», enquanto o Filho procede eternamente do Pai por geração também eterna. Jesus Cristo é Deus de Deus, Luz de Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro (cfr Símbolo Niceno-Constantinopolitano).

30. É certo que o mundo é bom porque saiu das mãos do Criador, e que Deus de tal maneira o amou que lhe entregou o Seu Filho Unigénito (cfr Ioh 3,16). Não obstante, por mundo entende-se neste passo o conjunto dos homens que rejeitam Cristo; por isso, príncipe desse mundo é o demônio (cfr Ioh 1,10; 7,7; 15,18-19). Este opõe-se à obra de Jesus já desde o começo da Sua vida pública nas tentações do deserto (cfr Mt 4,1-11 e par.). Agora, na Paixão, volta a aparecer para obter a vitória sobre Cristo, ainda que seja momentânea e aparente. Esta é a hora do poder das trevas, em que, servin­do-se do traidor (cfr Lc 22,53; Ioh 13,27), o demônio consegue que prendam o Senhor e O crucifiquem.