In Evangelho do dia

17Descendo com eles, ficou num sítio plano, Ele, um numeroso grupo de discípulos Seus e grande multidão dos do povo, provenientes de toda a Judeia, de Jerusalém e do litoral de Tiro e de Sídon,

20Erguendo os olhos para os Seus discípulos, pôs-Se a dizer: Felizes de vós, os pobres, porque é vosso o Reino de Deus.

21Felizes de vós, os que tendes agora fome, porque sereis saciados.

Felizes de vós, os que chorais agora, porque haveis de rir.

22Felizes sereis quando os homens vos odiarem, e quando vos rejeitarem, vos insultarem, e proscreverem o vosso nome como infame, por causa do Filho do homem. 23Alegrai-vos e exultai nesse dia, pois é grande no Céu a vossa recompensa. Desse modo, efectivamente, é que procediam os pais deles com os falsos profetas.24Mas?ai de vós, os ricos, porque recebeis a vossa consolação.

25Ai de vós, os que estais agora fartos, porque haveis de ter fome.

Ai de vós, os que rides agora, porque haveis de entristecer-vos e chorar.

26Ai de vós, quando todos os homens de vós disserem bem.

Comentário

20-49. Estes trinta versículos de São Lucas têm uma certa correspondência com o Sermão da Montanha, que São Mateus expõe por extenso nos capítulos cinco a sete do seu Evangelho. É muito verossímil que Nosso Senhor, ao longo do Seu ministério público pelas diversas regiões e cidades de Israel, tenha pregado as mesmas coisas, ditas de modo diferente, em diversas ocasiões. Cada Evangelista recolheu o que, por inspiração do Espírito Santo, pensava mais conveniente para a instrução dos seus leitores imediatos: cristãos procedentes do judaísmo, em Mateus; convertidos da gentilidade, em Lucas. Nada impede que um e o outro Evangelista tenham apresentado, segundo as necessidades desses leitores, umas ou outras coisas da pregação de Jesus, insistindo nuns aspectos e abreviando ou omitindo outros.

No presente discurso, segundo o texto de Lucas, podem distinguir-se três partes: as Bem-aventuranças e imprecações (6,20-26); o amor aos inimigos (6,27-38); e os ensinamentos sobre a rectidão de coração (6,39-40).

É possível que a não poucos cristãos lhes custe compreender a necessidade de viver até ao fundo a moral evangélica, especialmente os ensinamentos de Cristo no Sermão da Montanha. As palavras de Jesus são exigentes, mas estão dirigidas a todos, não só aos Apóstolos ou aos discípulos que seguiam o Senhor de perto: diz-se expressamente que «quando Jesus terminou estes discursos, as multidões ficaram admiradas com a Sua doutrina» (Mt 7,28). É evidente que o Mestre chama a todos à santidade, sem distinção de estado, de raça nem de condição. Esta doutrina do chamamento universal à santidade foi ponto central na pregação de Mons. Escrivá de Balaguer desde 1928.0 Concilio Vaticano II, em 1964, expressou com todo o peso da sua autoridade esta doutrina de que todos somos chamados à santidade cristã; para não citar mais que um só texto, eis as seguintes palavras da Const. Dogm. Lumen gentium, n. 11: «Munidos de tantos e tão grandes meios de salvação, todos os fiéis, seja qual for a sua condição ou estado, são chamados pelo Senhor à perfeição do Pai, cada um por seu caminho».

O que exige Cristo no Sermão da Montanha não é um ideal inatingível que seria útil porque nos faz humildes ao ver a nossa incapacidade. Não. A verdadeira doutrina cristã a este respeito é clara: o que Cristo manda é para que se cumpra e obedeça. Para isto, juntamente com o mandato, outorga a graça para o cumprir. Assim, todo o cristão pode viver a moral pregada por Cristo e atingir a plenitude da sua vocação, isto é, a santidade, não apenas com as suas forças, mas com a graça que Cristo nos ganhou e com o auxílio constante dos meios de santificação que entregou à Sua Igreja. «Se alguém aduz a desculpa de que a debilidade humana o impede de amar a Deus, deve ensinar-se-lhe que Deus, que pede o nosso amor, derramou nos nossos corações a virtude da caridade por meio do Espírito Santo; e o nosso Pai Celeste dá este bom Espírito aos que Lho pedem, como suplicava Santo Agostinho: ‘Concede-me o que mandas e manda o que queiras’. E visto que o auxílio divino está à nossa disposição, especialmente depois da morte de Cristo nosso Senhor, pela qual o príncipe deste mundo foi expulso, ninguém deve atemorizar-se diante da dificuldade do mandato, porque nada há difícil para o que ama» (Catecismo Romano, III, 1,7).

20-26. As oito Bem-aventuranças que São Mateus apresenta (5,3-12) oferece-as São Lucas resumidas em quatro, mas acompanhadas de quatro antíteses. Podemos dizer, com Santo Ambrósio, que as oito de Mateus estão compreendidas nas quatro de Lucas (cfr Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc.). As expressões do texto de Lucas têm, por vezes, uma forma mais directa e incisiva que as do primeiro Evangelho, que são mais explicativas; por exemplo, a primeira bem-aventurança diz simplesmente «Felizes os pobres», enquanto em Mateus se lê «Bem-aventurados os pobres em espírito», que constitui uma breve explicação do sentido da virtude da pobreza.

  1. «Todo o cristão corrente tem que tornar compatíveis na sua vida dois aspectos que, à primeira vista, podem parecer contraditórios: pobreza real, que se note e que se toque — feita de coisas concretas — que seja uma profissão de fé em Deus, uma manifestação de que o coração não se satisfaz com coisas criadas, mas aspira ao Criador, que deseja encher-se do amor de Deus e depois dar a todos desse mesmo amor; e, ao mesmo tempo ser mais um entre os seus irmãos os homens, de cuja vida participa, com que se alegra, com quem colabora, amando o mundo e todas as coisas criadas para resolver os problemas da vida humana e para estabelecer o ambiente espiritual e material que facilite o desenvolvimento das pessoas e das comunidades.

«(…) O melhor exemplo de pobreza sempre foram esses pais e essas mães de família numerosa e pobre que se desfazem pelos seus filhos e que, com o seu esforço e constância — muitas vezes sem voz para dizer a alguém que passam necessidades — mantêm os seus, criando um lar alegre em que todos aprendem a amar, a servir, a trabalhar» (Temas Actuais do Cristianismo, nos 110 e 111).

24-26. Com estas quatro exclamações condena o Ser a avareza e o apego aos bens do mundo; o excessivo cuida do corpo, a gula; a alegria néscia e a busca da própria complacência em tudo; a adulação, o aplauso e o afã desordenado de glória humana. Quatro tipos de vícios que são muito comuns no mundo, e diante dos quais o cristão deve estar vigilante para não se deixar arrastar por eles.

  1. De modo semelhante a como no v. 20 se fala dos pobres referindo-se àquelas pessoas que amam a pobreza para agradar mais a Deus, assim, neste versículo, por ricos» há que entender aqueles que se afanam em acumular bens sem atender à liceidade ou iliceidade dos meios empregados, e que, além disso, põem nestas riquezas a sua felicidade, como se fossem o seu fim último. Pelo contrário, aqueles ricos que por herança ou através de um trabalho honrado abundam em bens são realmente pobres se não se apegam à esses bens, e como consequência desse desprendimento sabem empregá-los em benefício dos outros, segundo Deus lhes pede. Na Sagrada Escritura aparecem alguns personagens como Abraão, Isaac, Moisés, David e Job aos quais, mesmo possuindo muitas riquezas, se pode aplicar a bem-aventurança dos pobres.

Já em tempos de Santo Agostinho havia quem entendesse mal a pobreza e a riqueza, fazendo este raciocínio: o Reino dos Céus será dos pobres, dos Lázaros, dos famintos; os ricos são todos maus, como o rico avarento. Diante destas opiniões errôneas explica Santo Agostinho o sentido profundo da riqueza e da pobreza segundo o espírito evangélico: « Ouve-me, senhor pobre, sobre o que dizes. Quando te chamas a ti mesmo Lázaro, aquele santo varão chagado, temo que por soberba não sejas aquele que dizes. Não desprezes os ricos misericordiosos, os ricos humildes; ou, para o dizer em poucas palavras, não desprezes os que denominei ricos pobres. Oh pobre!, sé tu pobre também; pobre, ou seja, humilde (…). Ouve-me, pois. Sé verdadeiro pobre, sé piedoso, sé humilde; se te glorias dos teus andrajos e da tua pobreza ulcerosa, se te glorias de te assemelhares ao mendigo estendido junto da casa do rico, não reparas senão em que foi pobre e não te fixas em nada mais. Em que vou fixar-me?, dizes. Lê as Escrituras e entenderás o que te digo. Lázaro foi pobre, mas aquele para cujo seio foi levado era rico. ‘Sucedeu — está escrito — que morreu o pobre e foi levado pelos anjos ao seio de Abraão’. Para onde? Para o seio de Abraão, ou digamos, para o misterioso lugar onde repousava Abraão. Lê (…) e pondera como Abraão foi opulentíssimo na terra, onde teve em abundância prata, família, gados, fazenda; e, contudo, este rico foi pobre, pois foi humilde. ‘Creu Abraão em Deus, e foi-lhe contado como justiça’ (…) Era fiel, praticava o bem, recebeu o mandato de imolar o seu filho e não demorou a oferecer o que tinha recebido Àquele de Quem, o tinha recebido. Ficou provado aos olhos de Deus e posto como exemplo de fé» (Sermo 14).

Em resumo, a pobreza não consiste em algo puramente exterior, em ter ou não ter bens materiais, mas em algo mais profundo que afecta o coração, o espírito do homem, consiste em ser humilde diante de Deus, em ser piedoso, em ter uma fé submissa. Se se possuem estas virtudes e, além disso, abundância de bens materiais, a atitude do cristão será de desprendimento, de caridade para com os outros homens, e assim agradar-se-á a Deus. Pelo contrário, o que não possui bens materiais abundantes nem por isso está justificado diante de Deus, se não se esforça por adquirir essas virtudes que constituem a verdadeira pobreza.

e outras Magdala.

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