In Evangelho do dia

10Aproximaram-se os discípulos e disseram-Lhe: Porque lhes falas em parábolas? 11Ele respondeu-lhes, dizendo: Porque a vós foi dado conhecer os mistérios do Reino dos Céus; àqueles, porém, não lhes foi dado. 12Pois ao que tem, dar-se-lhe-á e terá em abundância; mas, ao que não tem, até o que tem lhe será tirado. 13Por isso, lhes falo em parábolas, porque, vendo, não veem e, ouvindo, não ouvem nem compreendem. 14E cumpre-se neles a profecia de Isaías, a qual diz: «Ouvireis com os ouvidos e não entendereis, e olhareis com os olhos e não vereis. 15Porque se embotou o coração deste povo: e tomaram duros os ouvidos, e fecharam os olhos, não seja caso que vejam com os olhos, e oiçam com os ouvidos, e entendam com o coração, e se convertam, e Eu os sare.»

16Ditosos, porém, os vossos olhos, porque veem, e os vossos ouvidos, porque ouvem. 17Porque, em verdade vos digo que muitos profetas e justos desejaram ver o que estais a ver e não viram, e ouvir o que estais a ouvir e não ouviram.

Comentário

10-13. A realidade do Reino que Jesus ia instaurar encontrou de facto uma repulsa no judaísmo do Seu tempo, talvez pela concepção demasiado nacionalista e humana com que esperavam o Messias. Por isso, Jesus na Sua pregação teve em conta as disposições diversas dos Seus ouvintes a que alude na parábola do semeador. Aos que estavam bem dispostos a apresentação enigmática da parábola aumentar-lhes-ia o interesse; Jesus, com efeito, explica depois o significado ao numeroso grupo dos discípulos; pelo contrário, aos que não queriam aprender era inútil explicar mais.

Por outro lado, as parábolas — e em geral qualquer comparação ou analogia — são empregadas para dar a conhecer ou explicar algo que é difícil de compreender, como são as realidades sobrenaturais que Jesus Cristo revela. Assim como é necessário velar a luz do sol pela sua intensa luminosidade, para a acomodar à capacidade visiva do homem, pois caso contrário ficaria cego e não veria nada, de modo semelhante, as parábolas velam algo da realidade sobrenatural, para que possa compreender-se, sem ficar cego quem a contempla.

Estes versículos apresentam, além disso, algo muito profundo: por que é que a revelação de Deus e da Sua graça produzem efeitos tão díspares entre os homens? É o mistério da graça divina — que é um dom gratuito — e da livre correspondência humana a essa graça. As palavras de Jesus revelam com toda a força a responsabilidade que tem o homem de se dispor bem para aceitar a graça de Deus e corresponder a ela. A menção de Isaías feita por Jesus (Mt 13, 14-15) é uma profecia do endurecimento que terão como castigo aqueles que tiverem resistido à graça.

Em qualquer caso, a interpretação destes versículos deve ser feita à luz das três considerações seguintes: 1) Jesus Cristo amou os homens, incluídos os do Seu próprio povo, até dar a vida por todos para os salvar a todos; 2) a forma literária da parábola é de si eficazmente didáctica e esclarecedora: a sua finalidade última é ensinar, não enganar nem obscurecer; 3) o desprezo da graça divina é algo culpável que, na verdade, merece castigo; Jesus, porém, não veio directamente para castigar, mas para salvar.

  1. O Senhor está a falar com os Seus discípulos e explica-lhes que a eles, justamente porque têm fé n’Ele e desejam conhecer mais a fundo a Sua doutrina, lhes será dado um conhecimento mais profundo das verdades divinas. Mas os que «não O seguem» (cfr a nota a Mt 4,18-22) depois de O terem conhecido perdem o interesse pelas coisas de Deus, estarão cada dia mais cegos, e é como se lhes fosse tirado o pouco que tinham.

Por outro lado, o versículo ajuda a entender o sentido da parábola do semeador, parábola que explica admiravelmente a economia sobrenatural da graça divina: Deus concede a graça e o homem corresponde a ela livremente. Deste modo acontece que há aqueles que ao corresponder com generosidade recebem nova graça, chegando assim a abundar cada dia mais em graça e santidade. Pelo contrário, aqueles que rejeitam os dons divinos fecham-se em si mesmos e, vivendo no egoísmo e afecto ao pecado, chegam a perder a graça de Deus totalmente. É, pois, este versículo uma advertência clara e grave de Nosso Senhor, pela qual, com todo o peso da Sua autoridade divina, nos exorta — sem nos tirar a nossa liberdade — à responsabilidade de sermos fiéis: devemos fazer frutificar os dons que Deus nos vai enviando e aproveitar as ocasiões de santificação cristã que nos são oferecidas ao longo da nossa vida.

14-15. Compreendem as palavras divinas apenas os que têm boas disposições. Não basta a materialidade de as ouvir. Durante a pregação de Jesus Cristo voltam a cumprir-se as antigas palavras proféticas de Isaías.

Mas não pensemos que o não querer ouvir nem ver nem compreender foi coisa exclusiva daqueles homens contemporâneos de Jesus; cada um de nós também tem as suas durezas de ouvido, de coração e de entendimento perante a palavra de Deus, perante a Sua graça. Além disso, não basta saber a doutrina da fé: é absolutamente necessário vivê-la com todas as suas exigências morais e ascéticas. Jesus foi cravado no madeiro não só pelos pregos e pelos pecados de alguns judeus, mas também pelos nossos pecados, que íamos cometer séculos depois, mas que já actuavam sobre a Humanidade santíssima de Jesus Cristo, que carregava com os nossos pecados (cfr a nota a Mc 4,11-12).

16-17. Perante a obstinação de muitos judeus, que presenciando a vida de Jesus não creram n’Ele, Nosso Senhor louva a docilidade à graça dos discípulos, abertos a reconhecê-Lo como o Messias e a acolher os Seus ensinamentos.

Bem-aventurados, felizes, chama o Senhor aos Seus discípulos. Com efeito, os profetas e justos do AT, durante séculos, tinham vivido com a esperança de gozar um dia da paz do Messias vindouro, mas morreram sem alcançar essa dita na terra. O velho Simeão, no termo da sua vida. encheu-se de gozo ao contemplar Jesus Menino que era apresentado no Templo: «Ele recebeu-O nos braços e bendisse a Deus, exclamando: Agora, Senhor, podes despedir o Teu servo em paz segundo a Tua palavra, porque os meus olhos viram a Salvação» (Lc 2, 28-30). Os discípulos, que durante a vida pública do Senhor tiveram a dita de O ver e de conviver com Ele, recordarão, ao cabo dos anos, este dom inenarrável, e um deles começará assim a sua primeira carta: «O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos e tocaram as nossas mãos acerca do Verbo da vida;… o que vimos e ouvimos vo-lo anunciamos a vós, para que tenhais também comunhão connosco, pois a nossa comunhão é com o Pai e com o Seu Filho Jesus Cristo. Escrevemo-vos isto para que a vossa alegria seja completa» (Ioh 1,1-4).

Essa sorte singular não dependeu, evidentemente, de especiais méritos pessoais, mas dos desígnios de Deus, que considerou oportuno ter chegado já o tempo do cumprimento das promessas do AT. De qualquer modo, Deus concede a cada alma as suas oportunidades de encontro com Cristo: cada um de nós há-de ter sensibilidade para as captar e não as deixar escapar. Também houve muitos homens e mulheres da Palestina que viram e ouviram o Filho de Deus Encarnado, mas não tiveram finura espiritual para captar n’Ele o que perceberam os Apóstolos e discípulos.

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