In Evangelho do dia

Depois, partindo dali, foi para os confins da Judeia e de Além Jordão, e de novo concorreram a Ele as multidões e, como costumava, pôs-Se outra vez a ensiná-las. 2Aproximaram-se uns Fariseus e perguntaram-Lhe, para O tentarem: É lícito ao marido repudiar a mulher? 3Respondeu-lhes Ele: Que vos ordenou Moisés? 4Disseram: Moisés permitiu escrever um libelo de repúdio e desquitá-la. 5Disse-lhes Jesus: Por causa da dureza do vosso coração vos escreveu ele essa lei. 6Mas, desde o princípio da criação, fê-los Deus homem e mulher. 7Por isso deixará o homem pai e mãe e unir-se-á com sua mulher e 8formarão os dois uma só carne. Portanto, já não são dois, mas uma só carne. 9Não separe, pois, o homem o que Deus juntou. 10Depois, em casa, interrogaram-No os discípulos sobre este assunto, 11e Ele disse-lhes: Todo o que se desquitar de sua mulher e casar com outra, comete adultério contra ela. t2E, se a mulher se desquitar de seu marido e casar com outro, comete adultério.

Comentário

1-12.   O enquadramento em que se situa a cena é freqüente no Evangelho. A atitude mal-intencionada 1-12.   O enquadramento em que se situa a cena é freqüente no Evangelho. A atitude mal-intencionada dos fariseus contrasta com a simplicidade da multidão que escuta com atenção os ensinamentos de Jesus. A pergunta dos fariseus pretendia armar-Lhe uma cilada, enfrentando Jesus com a Lei de Moisés. Mas Jesus Cristo, Messias e Filho de Deus, é o que conhece perfeitamente o sentido de tal Lei. Moisés tinha permitido o divórcio condescendendo com a dureza daquele antigo povo: a condição da mulher era ignominiosa naquelas tribos bárbaras — era considerada quase um animal ou um escravo — e por isso Moisés protege contra estes abusos a dignidade da mulher, conseguindo o avanço social de um documento que a tutelava (o libelo de repúdio). Era este um escrito pelo qual o marido declarava a rejeição e, portanto, a liberdade da mulher repudiada. Jesus devolve à sua pureza original a dignidade do homem e da mulher no matrimônio, segundo o instituirá Deus no princípio da criação: «Deixará o homem seu pai e sua mãe e unir-se-á à sua mulher e serão uma só carne» (Gen 2,24). Por isso Deus estabeleceu no princípio a unidade e a indissolubilidade do matrimônio. O Magistério da Igreja, único intérprete autorizado do Evangelho e da lei natural, guardou e defendeu constantemente esta doutrina (pense-se, por exemplo, nos casos da história, quando se negou a admitir o divórcio de Henrique VIII de Inglaterra), e ensinou-a solenemente em inumeráveis documentos (Pró Armeniis; De Sacram. matr.; Casti connubii; Gaudium et spes, n. 48).

Um bom resumo desta doutrina são as seguintes palavras: «A indissolubilidade do matrimônio não é um capricho da Igreja e nem sequer uma mera lei positiva eclesiástica. É de lei natural, de direito divino, e responde perfeitamente à nossa natureza e à ordem sobrenatural da graça» (Temas Actuais do Cristianismo, n.° 97). Cfr a nota a Mt 5,31-32.

5-9. O cristão não se deve deixar impressionar, no momento de recordar o valor perene e universal desta doutrina, pelas dificuldades ou inclusive as mofas que possa encontrar no ambiente. «É dever fundamental da Igreja reafirmar vigorosamente (…) a doutrina da indissolubilidade do matrimônio. A quantos, nos nossos dias, consideram difícil ou mesmo impossível ligar-se a uma pessoa por toda a vida, a quantos, subvertidos por uma cultura que rejeita a indissolubilidade matrimonial e que ridiculariza abertamente o compromisso de fidelidade dos esposos, é necessário reafirmar o alegre anúncio do caracter definitivo do amor conjugai, que encontra em Jesus Cristo o seu fundamento e a sua força (cfr Eph 5,25).

«Enraizada na doação pessoal e total dos esposos e exigida pelo bem dos filhos, a indissolubilidade do matrimônio encontra a sua verdade definitiva no desígnio que Deus manifestou na Revelação. É Ele que quer e concede a indissolubilidade matrimonial como fruto, sinal e exigência do amor absolutamente fiel que Deus Pai tem pelo homem e que Cristo manifesta para com a Igreja.

«Cristo renova o desígnio primitivo que o Criador inscreveu no coração do homem e da mulher, e, na celebração do sacramento do matrimônio, oferece-lhes um ‘coração novo’. Assim os esposos podem não só superar a ‘dureza do coração’ (cfr Mt 19,8), mas também e sobretudo podem partilhar o amor pleno e definitivo de Cristo, nova e eterna Aliança feita carne. Assim como o Senhor Jesus é a ‘testemunha fiel’ (Apc 3,14), é o ‘sim’ das promessas de Deus (cfr 2 Cor 1,20) e, portanto, a realização suprema da fidelidade incondicional com que Deus ama o Seu povo, da mesma forma os esposos cristãos são chamados a uma participação real na indissolubilidade irrevogável, que liga Cristo à Igreja, Sua esposa, por Ele amada até ao fim (cfr Ioh13,1) (…). «Testemunhar o valor inestimável da indissolubilidade e da fidelidade matrimonial é uma das tarefas mais preciosas e mais urgentes dos casais cristãos do nosso tempo» (Familiaris consortio, n. 20).

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