Evangelho do dia 23.06.2017 – Lc 1, 5-17 – Leia o Evangelho de hoje

5Nos dias de Herodes, rei da Judéia, existiu um sacerdote de nome Zacarias, da turma de Abias, cuja esposa era da descendência de Aarão e se chamava Isabel. 6Eram ambos justos diante de Deus, cumprindo irrepreensivelmente todos os preceitos e regulamentos do Senhor. 7E não tinham filhos, pelo facto de Isabel ser estéril e ambos de idade avançada.

8Estando ele a exercer as funções sacerdotais diante de Deus, na ordem da sua turma, 9coube-lhe, por sorte, segundo o costume sacerdotal, entrar no Santuário do Senhor, para queimar o incenso. 10E toda a multidão estava de fora a rezar, à hora do incenso. 11Apareceu-lhe então o Anjo do Senhor, de pé, à direita do altar do incenso. 12Zacarias, ao vê-lo, ficou perturbado e encheu-se de temor.

13Mas o Anjo disse-lhe: Não tenhas receio, Zacarias, porque foi atendida a tua súplica. Tua esposa Isabel dar-te-á um filho, ao qual porás o nome de João. 14Terás alegria e júbilo, e muitos se hão-de regozijar pelo seu nascimento. l5De facto, ele será grande aos olhos do Senhor, não beberá vinho nem outra bebida alcoólica, será cheio do Espírito Santo já desde o ventre materno 16e reconduzirá ao Senhor seu Deus a muitos dos filhos de Israel. 17Irá diante d’Ele, com o espírito e a força de Elias, para reconduzir os corações dos pais a seus filhos e os rebeldes aos sentimentos dos justos, a fim de proporcionar ao Senhor um povo preparado.

Comentário

5 ss. São Lucas e São Mateus dedicam os dois primeiros capítulos dos seus respectivos Evangelhos a narrar alguns episódios da infância do Senhor (Anunciação, Nascimento, meninice, vida oculta em Nazaré) dos quais não se ocupam os outros Evangelhos. Devido a esta temática, esses dois primeiros capítulos de Mateus e de Lucas costumam chamar-se evangelho da infância de Jesus. A primeira característica que se observa é que São Mateus e São Lucas não narram os mesmos acontecimentos.

O evangelho da infância segundo São Lucas compreende seis episódios estruturados de dois em dois e relativos à infância de João Baptista e à de Jesus: duas anunciações, dois nascimentos e circuncisões e duas cenas no Templo; e contém também uns episódios só relativos à infância do Senhor: revelação aos pastores e adoração destes, purificação da Santíssima Virgem e apresentação do Menino no Templo, vida escondida em Nazaré.

As narrações de Lucas adquirem um elevado tom lírico, simples e grandioso ao mesmo tempo, que surpreende,

enamora e arrasta à contemplação íntima do mistério da Encarnação do Salvador: Anunciação do anjo a Zacarias (1, 5-17); saudação e Anunciação do anjo a Maria Santíssima (1,26-38); visitação de Nossa Senhora a sua prima Santa Isabel (1,39-56); Nascimento de Jesus em Belém (2,1-7); adoração dos pastores (2,8-20); apresentação do Menino no Templo e bênção do velho Simeão à Virgem Santíssima (2,22-38); o Menino perdido e achado no Templo (2,41-52). São Lucas recolhe também quatro profecias em forma versificada, a modo de cânticos: Magnificat de Maria Santíssima (l ,46-55), Benedictus de Zacarias (1,67-79), Glória dos anjos (2,14) e Nunc dimittis de Simeão (2,29-32). Estes cânticos estão entretecidos de palavras e frases que recordam, mais ou menos à letra, diversos passos do Antigo Testamento (em concreto de Gen, Lev, Num, Ide, 1Sam, Is, ler, Mich e Mal): esta circunstância é absolutamente normal, já que naquela época todo o judeu culto e piedoso rezava de ordinário repetindo de memória ou lendo os livros sagrados, e esse é o caso de Nossa Senhora e de Zacarias, de Simeão e de Ana. Além disso, foi o próprio Espírito Santo que inspirou os autores humanos do Antigo Testamento a escrever, e que moveu a falar os justos que contemplaram com os seus próprios olhos como no Menino Jesus se cumpriam os antigos anúncios proféticos. Essas características linguísticas reflectem a louçania das palavras tal como saíram daqueles que as pronunciaram. ,

  1. Depois de ter falado da nobreza de sangue de Zacarias e de Isabel, o Evangelista alude agora a outra nobreza superior, a da virtude: « Eram ambos justos diante de Deus ». «Porque nem todo o que é justo diante dos homens é também justo diante de Deus; porque uma é a maneira de olhar dos homens e outra a de Deus: os homens veem no exterior, mas Deus vê no coração. Pode acontecer que alguém pareça justo por falsa virtude e diante da gente, e não o seja diante de Deus se a sua justiça não nasce da simplicidade de alma mas se simula para parecer bem.

«O perfeito louvor consiste em ser justo diante de Deus, porque só pode chamar-se perfeito aquele que é provado por quem não pode enganar-se» (Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc.).

Em última análise, o que importa ao cristão é ser justo diante de Deus. Um bom exemplo desta conduta é-nos oferecido por São Paulo quando escreve aos Coríntios: «Quanto a mim, importa-me pouco ser julgado por vós ou por qualquer juízo humano; nem sequer eu mesmo me julgo… Porque quem me julga é o Senhor. Portanto, não queirais julgar antes de tempo até que venha o Senhor, que porá a descoberto as coisas escondidas nas trevas e descobrirá as intenções dos corações. E então Deus dará a cada um o louvor que lhe corresponde» (1Cor 4,3 ss.). Sobre o conceito de homem justo equivalente a santo veja-se a nota a Mt 1, 19.

  1. Havia vinte e quatro grupos ou turnos sacerdotais, entre os quais eram sorteadas as funções que deviam exercer no Templo; o oitavo grupo era o da família de Abias (cfr 1Chr 24,7-19). Zacarias era deste oitavo turno.

9-10. Dentro do recinto sagrado, delimitado por uma muralha, estava o edifício que constituía propriamente o Templo. Este, de forma rectangular, tinha uma primeira grande estância que se chamava o « Sanctus», onde estava o altar do incenso, a que alude o v. 9. Depois do «Sanctus» estava a segunda estância, mais interior, chamada o «Sancta Sanctorum», onde se tinha guardado a Arca da Aliança com as tábuas da Lei; era o mais sagrado do Templo, onde não tinha acesso senão o Sumo Sacerdote. Entre ambas as estâncias estava pendurado o grande véu do Templo. Rodeando o edifício sagrado havia um primeiro átrio, chamado dos sacerdotes e junto a ele, em frente da fachada principal, encontrava-se o chamado átrio dos israelitas, em que permanecia o povo durante a incensação.

  1. Enquanto o sacerdote oferecia a Deus o incenso, o povo, desde o átrio do Templo, unia-se-lhe espiritualmente. Já no Antigo Testamento todo o acto de culto externo devia ser acompanhado pela disposição interior de oferecimento a Deus.

Com maior razão se deve dar esta união nos ritos litúrgicos da Nova Aliança (cfr Mediator Dei, n. 8). Na Liturgia da Igreja, com efeito, aparecem unidos os dois elementos do culto, interno e externo, o que está em conformidade com a natureza do homem, composto de alma e corpo.

  1. Os anjos são espíritos puros, não têm corpo; portanto « não aparecem aos homens tal como são, mas manifestando-se nas formas que Deus dispõe para que possam ser vistos por aqueles a quem os envia» (De Fide orthodoxa, 2,3).

Os espíritos angélicos, além de adorar e de servir a Deus, são mensageiros divinos e instrumentos da Providência de Deus em favor dos homens; por isso na História da Salvação intervém tão frequentemente e a Sagrada Escritura faz constar isso em numerosos passos (cfr, entre outros muitos lugares, Heb 1,14).

O nascimento de Cristo é tão importante que à volta dele a intervenção dos anjos se mostra de modo singular. Neste caso concreto, como no da Anunciação a Maria, será o arcanjo São Gabriel o encarregado de transmitir a mensagem divina.

«Não sem razão apareceu o anjo no templo, porque com isso se anunciava a próxima vinda do Verdadeiro Sacerdote e se preparava o Sacrifício Celeste ao qual haviam de servir os anjos. Não se duvide, pois, que os anjos assistirão quando Cristo for imolado» (Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc.).

  1. «Não pode o homem por mais justo que seja ver um anjo sem temor: por isso Zacarias se perturba, não podendo resistir à presença do anjo nem suportar aquele resplendor que o acompanha» (De incomprehensibili Dei natura, 2). A razão está não tanto na superioridade do anjo sobre o homem como em que naquele transparece a grandeza da Majestade divina: «E disse-me então: ‘Escreve: Felizes os que foram convidados para o banquete de núpcias do Cordeiro’. Disse-me ainda: ‘Estas são as verdadeiras palavras de Deus’. Prostrei-me aos seus pés para o adorar, mas ele disse-me: ‘Não faças isso; sou um servo como tu e como os teus irmãos que têm o testemunho de Jesus. Adora a Deus» (Apc 19,9-10).
  2. Por meio do arcanjo Deus intervém de forma extraordinária na vida de Zacarias e de Isabel. Mas o que é anunciado ultrapassa o âmbito da intimidade familiar. Isabel, já idosa, vai ter um filho que se chamará João e será o Precursor do Messias. João significa « Yahwéh é favorável». Este facto é a manifestação clara de que está já iminente «a plenitude dos tempos» (Gal 4,4), pela qual tinham suspirado os justos de Israel (cfr Ioh 8,56; Heb 11,13).

«Foi atendida a tua súplica». Comenta São Jerónimo: «Isto é, é-te outorgado mais do que pediste. Tinhas rogado pela salvação do povo e foi-te dado o Precursor» (Expositio in Evangelium sec. Lucam, ad loc.). Também a nós o Senhor nos dá por vezes mais do que pedimos: «Conta-se que, certo dia, um mendigo saiu ao encontro de Alexandre Magno, pedindo uma esmola. Alexandre parou e ordenou que o fizessem senhor de cinco cidades. O pobre, confundido e atordoado, exclamou: eu não pedia tanto! E Alexandre respondeu: tu pediste como quem és; eu dou-te como quem sou» (Cristo que passa, nº 160). Quando Deus responde tão generosamente, por cima dos nossos pedidos, não nos podemos acobardar mesquinhamente com medo das dificuldades.

14-17. O arcanjo São Gabriel anuncia a Zacarias os três motivos de alegria pelo nascimento do menino: primeiro, porque Deus lhe concederá uma santidade extraordinária (v. 15); segundo, porque será instrumento para a salvação de muitos (v. 16); e terceiro, porque toda a sua vida e actividade serão uma preparação para a vinda do Messias esperado (v. 17).

Em São João Baptista cumprem-se dois anúncios proféticos de Malaquias, nos quais se nos diz que Deus enviará um mensageiro diante d’Ele para Lhe preparar o caminho (Mal 3,1; 4,5-6). João prepara a primeira vinda do Messias, de maneira semelhante a como Elias o fará quando se aproximar a segunda (cfr Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc. Comentário sobre S. Mateus, 17,11, ad loc.). Por isso Cristo dirá: «Que fostes então ver? Um profeta? Sim, vo-lo digo, e mais que profeta. É aquele de quem está escrito: Vou mandar à Tua frente o Meu mensageiro, que há-de preparar-Te o caminho diante de Ti» (Lc 7,26-27).