In Evangelho do dia

31Depois de ele sair, diz Jesus: Agora é que foi glorificado o Filho do homem e Deus foi n’Ele glorificado. 32Uma vez que Deus foi n’Ele glorificado, também Deus O há-de glorificar em Si mesmo e glorificá-Lo-á sem demora.

33Filhinhos, ainda estou um pouco convosco. Haveis de procurar-Me e, assim como disse aos Judeus: «Vós não podeis vir para onde Eu vou ». 34Dou-vos um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros; que, assim como Eu vos amei, vós também vos ameis uns aos outros. 35E por isto que todos saberão que sois Meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros.

Comentário

31-32. Esta glorificação refere-se sobretudo à glória que Cristo receberá a partir da Sua exaltação na Cruz (Ioh 3,14; 12,32). São João sublinha que a morte de Cristo é o começo do Seu triunfo; tanto é assim que a própria crucifixão poderia considerar-se como o primeiro passo da subida para o Pai. Ao mesmo tempo é glorificação do Pai, pois Cristo, aceitando voluntariamente a morte por amor, como acto supremo de obediência à Vontade divina, realiza o maior sacrifício com que o homem pode dar glória a Deus. O Pai corresponderá a esta glorificação que Cristo Lhe tributa glorificando-O a Ele, como Filho do Homem, isto é, na Sua Santíssima Humanidade, através da Ressurreição e exaltação à Sua direita. Desta forma a glória que o Filho dá ao Pai é ao mesmo tempo glória para o Filho.

Assim também o discípulo de Cristo encontrará o seu maior motivo de glória na identificação com a atitude obediente do Mestre. São Paulo indica-o claramente ao dizer: «Longe de mim gloriar-me a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo» (Gal 6,14).

  1. A partir deste versículo o Evangelista relata o que costuma chamar-se o discurso da Ceia. Nele podem distinguir-se três partes. Na primeira, o Senhor começa por proclamar o Mandamento Novo (vv 33-35) e anuncia as negações de Pedro (w, 36-38). Explica-lhes depois que a Sua Morte vai ser o trânsito para o Pai (cap. 14), com Quem é um por ser Deus (vv 1-14). Também lhes anuncia que depois da Sua Ressurreição lhes enviará o Espírito Santo, que os guiará ensinando-lhes e recordando-lhes tudo o que lhes tinha dito (vv 15-31).

A segunda parte do discurso está contida nos capítulos 15 e 16. Jesus Cristo promete que aqueles que crerem terão uma nova vida de união com Ele, tão íntima como a que têm as varas com a videira (15,1-8). Para conseguir essa união é necessário praticar o Mandamento Novo do Senhor (vv 9-18). Previne-os das contradições que terão de sofrer, e anima-os com a promessa do Espírito Santo, que os defenderá e consolará (vv 18-27). A acção do Paráclito ou Consolador conduzi-los-á eficazmente ao cumprimento da missão que Jesus lhes confiou (16,1-15). Fruto da presença do Espírito Santo será a plenitude do gozo (vv 16-33).

A terceira parte (cap. 17) recolhe a oração sacerdotal de Jesus, em que roga ao Pai pela Sua glorificação através da Cruz (vv 1-5). Pede também pelos Seus discípulos (vv. 6-19) e por todos os que por meio deles crerão n’Ele, para que, permanecendo no mundo sem serem do mundo, esteja neles o amor de Deus e deem testemunho de que Cristo é o enviado do Pai (vv. 20-26).

34-35. Cristo, depois de anunciar a Sua partida (v. 33), resume os Seus preceitos num só: o Mandamento Novo. Voltará a repeti-lo outras vezes no discurso da Ceia (cfr Ioh 15,12.17); e São João, na sua primeira carta, insistirá na necessidade de viver este mandato do Senhor e nas exigências que comporta (cfr 1Ioh 2,8; 3,7-21).

O amor ao próximo estava já mandado no Antigo Testamento (cfr Lev 19,18), e Jesus ratifica-o dando-lhe o lugar que lhe corresponde no conjunto da Lei: o segundo mandamento. Este é semelhante ao primeiro: amar a Deus com todo o coração, com toda a alma e com toda a mente (cfr Mt 22,37-40). Mas Jesus dá ao preceito do amor fraterno um sentido e um conteúdo novos ao dizer «como Eu vos amei». O amor ao próximo que se pedia na Antiga Lei alcançava também de algum modo os inimigos (Ex 23,4-5); não obstante, o amor que prega Jesus é muitíssimo mais exigente e inclui devolver bem por mal (cfr Mt 5,43-44), porque a medida do amor cristão não está no coração do homem, mas no coração de Cristo, que entrega a Sua vida na Cruz pela redenção de todos (cfr 1Ioh 4,9-11). Nisto consiste a novidade do ensinamento de Jesus, e bem pode dizer o Senhor que é o Seu mandamento, expressão da Sua última vontade, a cláusula principal do Seu testamento.

Não pode separar-se o amor ao próximo do amor a Deus: «O maior mandamento da Lei é amar a Deus de todo o coração, e ao próximo como a si mesmo (cfr Mt 22,37-40). Cristo fez deste mandamento do amor para com o próximo o Seu mandamento, e enriqueceu-o com novo significado, identificando-Se com os irmãos como objecto da caridade, dizendo: ‘sempre que o fizestes a um destes Meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes’ (Mt 25,40). Com efeito, assumindo a natureza humana, Ele uniu a Si como família, por uma certa solidariedade sobrenatural, todos os homens e fez da caridade o sinal dos Seus discípulos, com estas palavras: ‘nisto conhecerão todos que sois Meus discípulos, se vos amardes uns aos outros’» (Apostolicam actuositatem, n. 8).

Cristo, apesar de ser a própria pureza, a sobriedade, a humildade, não põe como distintivo para os Seus seguidores nenhuma destas virtudes, mas a caridade: «O ensinamento e o exemplo do Mestre são claros e precisos. Sublinhou com obras a Sua doutrina. E, no entanto, tenho pensado muitas vezes que, passados vinte séculos, ainda continua a ser um mandamento novo, porque muito poucos homens se têm preocupado em levá-lo à prática; os restantes, a maioria, preferiram e preferem desconhecê-lo. Com um egoísmo exarcebado, perguntam: Para quê mais complicações? Já me bastam as que tenho com as minhas coisas.

«Não é admissível semelhante atitude entre os cristãos. Se professamos essa mesma fé, se ambicionamos verdadeiramente seguir as pegadas, tão nítidas, que os passos de Cristo deixaram na terra, não podemos conformar-nos com evitar aos outros os males que não desejamos para nós mesmos. Isto é muito, mas é muito pouco, quando compreendemos que a medida do nosso amor é definida pelo comportamento de Jesus. Além disso, Ele não nos propõe essa norma de conduta como uma meta longínqua, como o coroa-mento de toda uma vida de luta. É — e insisto que deve sê-lo para que o traduzas em propósitos concretos— o ponto de partida, porque Nosso Senhor o indica como sinal prévio: nisto conhecerão que sois Meus discípulos» (Amigos de Deus, n.° 223).

Assim acontecia realmente entre os cristãos dos primeiros séculos no meio da sociedade paga, de modo que, como escreve Tertuliano em fins do século II, todos podiam dizer ao ver a vida daqueles fiéis: «Vede como se amam» (Apologeticum, XXXIX).

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