In Evangelho do dia

Não se perturbe o vosso coração. Acreditai em Deus, acreditai também em Mim. 2Em casa de Meu Pai há muitas habitações. Se assim não fora, ter-vo-lo-ia dito, pois vou preparar-vos um lugar. 3E, quando Eu tiver ido e vos tiver preparado um lugar, virei novamente e levar-vos-ei para junto de Mim, a fim de que, onde Eu estiver, vós estejais também. 4E, para onde Eu vou, vós sabeis o caminho. 5Diz-lhe Tome: Senhor, não sabemos para onde vais. Como é que sabemos o caminho? 6Responde-lhe Jesus: Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida; ninguém vai ao Pai, senão por Mim. 7Uma vez que Me conheceis, conhecereis também a Meu Pai. Agora ficais a conhecê-Lo e já O vistes. 8Diz-lhe Filipe: Senhor, mostra-nos o Pai. e isso nos basta. 9Responde-lhe Jesus: Há tanto tempo que estou convosco, e não Me conheceis, Filipe? Quem Me viu viu o Pai. Como é que tu dizes: «Mostra-nos o Pai»? 10Não acreditais que Eu estou no Pai e que o Pai está em Mim? As palavras que Eu vos digo, não as profiro por Mim mesmo; e o Pai, permanecendo em Mim, é que faz as obras. 11Acreditai-Me: Eu estou no Pai e o Pai está em Mim. Ao menos, acreditai-o por causa das mesmas obras. 12Em verdade, em verdade vos digo: Quem acredita em Mim fará também as obras que Eu faço e fá-las-á maiores do que estas, porque Eu vou para o Pai;

Comentário

1-3. Segundo parece, o anúncio das negações de Pedro entristeceu os discípulos. Jesus anima-os dizendo que vai partir para lhes preparar uma morada nos Céus, pois, apesar das suas misérias e claudicações, finalmente perseverarão. A volta a que Se refere Jesus inclui a Sua segunda vinda no fim do mundo ou Parusia (cfr 1Cor 4,5; 11,26; 1Thes 4,16-17; 1Ioh 2,28) e o encontro com cada alma depois da morte: Cristo preparou-nos a morada celeste mediante a Sua obra redentora. Por isso, as Suas palavras podem considerar-se dirigidas não só aos Doze, mas a todos os que crerem n’Ele ao longo dos tempos. O Senhor levará consigo até à Sua glória todos os que tiverem acreditado n’Ele e Lhe tiverem sido fiéis.

4-7. Os Apóstolos não compreendiam com profundidade o que Jesus lhes estava a ensinar; daí a pergunta de Tome. O Senhor explica que Ele é o caminho para o Pai. «Era necessário dizer-lhes ‘Eu sou o Caminho’ para lhes demonstrar que na realidade sabiam o que julgavam ignorar, porque O conheciam a Ele» (In Ioann. Evang., 66,2).

Jesus é o caminho para o Pai: pela Sua doutrina, pois observando o Seu ensinamento chegaremos ao Céu; pela fé que suscita, porque veio a este mundo para que «todo o que crer tenha vida eterna n’Ele» (Ioh 3,15); pelo Seu exemplo, já que ninguém pode ir ao Pai senão imitando o Filho; pelos Seus méritos, com que nos possibilita a entrada na pátria celeste; e sobretudo é o caminho porque revela o Pai com Quem é um pela Sua natureza divina.

«As crianças pequenas, à força de ouvir falar as mães e de balbuciar vocábulos com elas, aprendem a falar; nós, permanecendo junto ao nosso Salvador, mediante a meditação, considerando as Suas palavras, as Suas accões e os Seus afectos, aprenderemos, mediante a Sua graça, a falar, a actuar e a amar como Ele. — É necessário deter-se aqui (…); não poderemos chegar até Deus Pai senão por este caminho (…); também a Divindade não poderia ser bem contemplada por nós neste baixo mundo se não se tivesse unido à Humanidade sagrada do Salvador, cuja vida e morte são o objecto mais proporcionado, suave, delicioso e útil que podemos escolher para as nossas meditações» (Introdução à vida devota, p. II, c. 1,2).

«Ego sum via: Ele é o único caminho que une o Céu à terra. Declara-o a todos os homens, mas recorda-o especialmente aos que, como tu e eu, Lhe dissemos que estamos decididos a tomar a sério a nossa vocação de cristãos, de modo que Deus Se encontre sempre presente nos nossos pensamentos, nos nossos lábios e em todos os nossos actos, mesmo nos mais normais e correntes.

«Jesus é o caminho. Ele deixou neste mundo as pegadas limpas dos Seus passos, sinais indeléveis que nem o desgaste dos anos nem a perfídia do inimigo conseguiram apagar» (Amigos de Deus, n.° 127).

As palavras de Jesus vão para além da pergunta de Tome ao responder « Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida ». Ser a Verdade e a Vida é o específico do Filho de Deus feito homem, de quem São João diz no Prólogo do seu Evangelho que está «cheio de graça e de verdade» (1,14). Ele é a Verdade porque com a Sua vinda ao mundo mostra-se a fidelidade de Deus às Suas promessas, e porque ensina verdadeiramente quem é Deus e como a autêntica adoração há-de ser «em espírito e em verdade» (Ioh 4,23). É a Vida por ter desde toda a eternidade a vida divina junto ao Pai (cfr Ioh 1,4), e porque nos faz, mediante a graça, participantes dessa vida divina. Por tudo isso diz o Evangelho: «Esta é a vida eterna: que Te conheçam a Ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo a quem Tu enviaste» (Ioh 17,3).

Com a Sua resposta, Jesus está «como que a dizer: Por onde queres ir? Eu sou o Caminho. Para onde queres ir? Eu sou a Verdade. Onde queres permanecer? Eu sou a Vida. Todo o homem consegue compreender a Verdade e a Vida; mas nem todos encontram o Caminho. Os sábios do mundo compreendem que Deus é vida eterna e verdade cognoscível; mas o Verbo de Deus, que é Verdade e Vida junto ao Pai, fez-Se Caminho ao assumir a natureza humana. Caminha contemplando a Sua humildade e chegarás até Deus» (De verb. Dom. serm., 54).

8-11. As palavras do Senhor continuam a ser misteriosas para os Apóstolos, que não acabam de entender a unidade do Pai e do Filho. Daí a insistência de Filipe. Por isso Jesus repreende o apóstolo porque ainda O não conhece, quando é claro que as Suas obras são próprias de Deus: caminhar sobre as ondas, dar ordens aos ventos, perdoar pecados, ressuscitar os mortos. Este é o motivo da repreensão: o não ter conhecido a Sua condição de Deus através da Sua natureza humana» (De Trinitate, liv. 7).

É certo que a visão do Pai a que se refere Jesus Cristo neste passo é uma visão de fé, pois a Deus nunca ninguém O viu tal como é (cfr Ioh 1,18;6,46). Todas as manifestações de Deus ou teofanias foram mediatas, só um reflexo da grandeza divina. A manifestação suprema de Deus Pai temo-la em Cristo Jesus, o Filho de Deus enviado aos homens. «Ele, com toda a Sua presença e manifestação da Sua pessoa, com palavras e obras, sinais e milagres, e sobretudo com a Sua morte e gloriosa ressurreição, enfim, com o envio do Espírito de verdade, completa totalmente e confirma com o testemunho divino a revelação, a saber, que Deus está connosco para nos libertar das trevas do pecado e da morte e para nos ressuscitar para a vida eterna» (Dei Verbum, n. 4).

12-14. Antes de partir deste mundo, o Senhor promete aos Apóstolos que os fará participantes dos Seus poderes para que a salvação de Deus se manifeste por meio deles. As obras que realizarão são os milagres feitos em nome de Jesus Cristo (cfr Act 3,1-10; 5,15-16; etc.), e sobretudo, a conversão dos homens à fé cristã e a sua santificação, mediante a pregação e a administração dos sacramentos. Podem considerar-se obras maiores que as de Jesus enquanto pelo ministério dos Apóstolos o Evangelho não só foi pregado na Palestina, mas se difundiu até aos extremos da terra; mas este poder extraordinário da palavra apostólica procede de Jesus Cristo, que subiu para o Pai: depois de passar pela humilhação da Cruz, Jesus foi glorificado e do Céu manifesta o Seu poder actuando através dos Apóstolos.

O poder dos Apóstolos dimana, pois, de Cristo glorificado. O Senhor exprime-o ao dizer: «E o que pedirdes ao Pai em Meu nome isso farei…». «Não será maior que Eu aquele que crê em Mim; mas Eu farei então coisas maiores que as que agora faço; realizarei mais por meio daquele que crer em Mim, do que agora realizo por Mim mesmo» (In Ioann. Evang., 72,1).

Jesus Cristo é o nosso intercessor no Céu, por isso nos promete que tudo o que pedirmos em Seu Nome, Ele o fará. Pedir em Seu nome (cfr 15,7.16; 16,23-24) significa apelar para o poder de Cristo ressuscitado, crendo que Ele é omnipotente e misericordioso porque é verdadeiro Deus; e significa também pedir aquilo que convém à nossa salvação, porque Jesus Cristo é o Salvador. Assim «o que pedirdes» entende-se como o que é bom para o que pede. Quando o Senhor não concede o que se pede é porque não convém para a nossa salvação. Desse modo mostra-Se igualmente Salvador quando nos nega o que Lhe pedimos e quando no-lo concede.

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