In Evangelho do dia

14Quando chegou a hora, pôs-Se à mesa; e com Ele os Apóstolos. 15Disse-lhes então: Eu Tenho ardentemente desejado comer convosco esta páscoa, antes de padecer, 16pois vos digo que já não a comerei até ela ter pleno cumprimento no Reino de Deus. 17o­mando uma taça, deu graças e disse: Tomai e reparti entre vós, 18pois vos digo que não beberei doravante do produto da videira até que venha o Reino de Deus. 19Tomou então um pão e, depois de dar graças, partiu-o e deu-lho, dizendo: Isto é o Meu corpo, que vai ser dado por vós; fazei isto em Minha memó­ria. 20Depois de jantar, fez o mesmo com o cálice, dizendo: Este cálice é a nova Aliança no Meu sangue, que por vós se vai derramar.

21Entrètanto, a mão de quem Me vai entregar está à mesa comigo. 22Parte o Filho do homem, como está determinado; contudo, ai daquele por meio de quem vai ser entre­gue! 23Eles começaram a discutir entre si qual deles seria então o que iria fazer isso.

56Ora uma criada, ao vê-lo sentado ao lume, fitou nele o olhar e disse: Esse também estava com Ele! “Mas Pedro negou, dizendo: Não O conheço, mulher!

Comentário

  1. Começa a Última Ceia, em que o Senhor vai instituir a Santíssima Eucaristia, mistério de fé e de amor: «É, pois, necessário que nos aproximemos deste mistério com humilde reverência, não buscando razões humanas que devem estar caladas, mas aderindo firmemente à Revelação divina» (Mysterium fidei).
  2. São João, o discípulo amado, sintetiza com uma frase os sentimentos que dominavam a alma de Jesus no momento da Ultima Ceia: «Sabendo Jesus que tinha chegado a Sua hora de passar deste mundo para o Pai, como amava os Seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim» (Ioh 13,1). O Senhor exprime o desejo ardente de passar as horas que precedam a Sua morte com as pessoas que mais ama na terra e, como sucede aos que vão partir, profere no momento de Se despedir as palavras mais carinhosas (cfr Enarratio in Evangelium Ioannis, ad loc.). O Seu amor não se limita aos Apóstolos, mas pensa em todos os homens. Sabe que aquela Ceia pascal é o começo da Sua Paixão. Vai celebrar antecipadamente o Sacrifício do Novo Testamento que tanto bene­fício havia de trazer à humanidade.

O cumprimento da Vontade do Pai obriga Jesus a separar-Se dos Seus, mas o Seu amor, que O impele a permanecer com eles, move-O a instituir a Eucaristia, na qual fica realmente presente. «Lembremo-nos — escreve Mons. Escrivá de Balaguer — da experiência tão humana da despedida de duas pessoas muito amigas. Desejariam ficar sempre juntas, mas o dever — ou seja o que for — obriga-as a afastarem-se uma da outra. Não podem, portanto, conti­nuar uma junto da outra, como seria do seu gosto. Nestas ocasiões, o amor humano, que por maior que seja, é sempre limitado, costuma recorrer aos símbolos. As pessoas que se despedem trocam lembranças entre si, talvez uma foto­grafia onde se escreve uma dedicatória tão calorosa, que até admira que não arda o papel. Mas não podem ir além disso, porque o poder das criaturas não vai tão longe como o seu querer.

«Ora, o que não está na nossa mão, consegue-o o Senhor. Jesus Cristo, perfeito Deus e perfeito Homem, não deixa um símbolo, mas uma realidade. Fica Ele mesmo. Embora vá para o Pai, permanece entre os homens. Não nos deixará um simples presente que nos faça evocar ‘a Sua memória, alguma imagem que tenda a apagar-se com o tempo, como uma fotografia que a pouco e pouco se vai esvaindo e amarelecendo até perder o sentido para quem não interveio naquele momento amoroso. Sob as espécies do pão e do vinho está Ele, realmente presente, com o Seu Corpo, o Seu Sangue, a Sua Alma e a Sua Divindade» (Cristo que passa, n° 83).

16-20. Este texto contém as verdades fundamentais da fé acerca do sublime mistério da Eucaristia: 1) Instituição deste Sacramento e presença real de Jesus Cristo. 2) Insti­tuição do sacerdócio cristão. 3) A Eucaristia, Sacrifício do Novo Testamento ou Santa Missa (cfr a nota a Mt 26,26-29). O relato de São Lucas coincide substancialmente com o do primeiro Evangelho, mas enriquece-o com a descrição de alguns pormenores concretos da Última Ceia (vid. a nota ao v. 17).

Acerca da presença real, a Encíclica Mysterium fidei de Paulo VI afirma: «Apoiado nesta fé da Igreja, o Concilio de Trento confessa ‘aberta e simplesmente que no fortalecedor sacramento da Eucaristia, depois da consagração do pão e do vinho, se contém verdadeira, real e substancialmente, Nosso Senhor Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, sob a aparência daquelas coisas sensíveis’ (De SS. Eucharistia, cap. 1). Portanto, o nosso Salvador está presente segundo a Sua humanidade, não só à direita do Pai, conforme ao modo natural de existir, mas ao mesmo tempo também no Sacramento da Eucaristia segundo um modo de existir que, ainda que mal possamos exprimir com palavras, podemos, contudo, alcançar com a razão ilustrada pela fé e devemos crer firmissimamente que é possível para Deus». As almas cristãs, contemplando este inefável mistério, sempre perceberam a grandeza deste Sacramento, que deriva da realidade da presença de Cristo. O Sacramento da Eucaristia não é somente sinal eficaz de uma presença amorosa de Cristo e da Sua íntima união com os fiéis, mas nele Cristo está presente de modo corporal e substancial, como Deus e como homem. Indubitavelmente, para penetrar neste mistério faz falta a fé, porque «não oferece dificuldade alguma que Cristo esteja no Sacramento como sinal: mas que esteja verdadeiramente no Sacramento como no Céu, eis aí a grandíssima dificuldade; crer isto, pois, é muito meritório» (In IV Sent., d. 10, q. l, a. 1). Este mistério não se pode perceber com os sentidos, mas só com a fé, a qual se apoia nas palavras do Salvador, que, sendo a Verdade (cfr Ioh 14,6), não pode nem enganar-Se nem enganar-nos. Por isso, num hino que a tradição atribui a São Tomás, o Adoro te, devote, o povo cristão canta: «A vista, o tacto e o gosto, em Ti se enganam; mas só ouvindo se crê com segurança. Creio o que disse o Filho de Deus, pois nada há mais verdadeiro que esta Palavra de verdade».

«Mas para que ninguém entenda erroneamente este modo de presença, que supera as leis da natureza e constitui no seu gênero o maior dos milagres, é necessário seguir com docilidade a voz da Igreja docente e orante. Ora bem, esta voz, que é um eco perene da voz de Cristo, assegura-nos que Cristo se torna presente neste Sacramento pela conversão de toda a substância do pão no Seu Corpo, e de toda á substância do vinho no Seu Sangue; conversão admirável :è singular a que a Igreja justamente e com propriedade chama5 transubstanciação» (Mysterium fidei).

O Senhor, depois de instituir a Eucaristia, manda aos Apóstolos que perpetuem o que Ele fez, e a Igreja entendeu sempre que com as palavras «fazei isto em Minha memória» Cristo constituiu os Apóstolos e os seus sucessores em sacerdotes da Nova Aliança (cfr De SS. Missae sacrifício, cap. 1; Lumen gentium, n 26; Mysterium fidei), para que renovassem o Sacrifício do Calvário de maneira incruenta na celebração da Santa Missa.

Com efeito, o que está no centro de toda a actuação de Jesus é o Sacrifício cruento que ofereceu na Cruz: Sacrifício da Nova Aliança, figurado nos sacrifícios da Antiga Lei, na oferenda de Abel (Gen 4,4), de Abraão (Gen 15,10; 22,13), de Melquisedec (Gen 14,18-19; Heb 7,1-28). A Última Ceia é o mesmo Sacrifício do Calvário realizado antecipadamente por meio das palavras da Consagração. Igualmente a Santa Missa renova esse Sacrifício que foi oferecido uma só vez no altar da Cruz: uma só é a vítima e um só o sacerdote, Cristo. Diferem unicamente pelo modo de se oferecer. «Nós cremos que a Missa que é celebrada pelo sacerdote in persona Chrísti, em virtude do poder recebido pelo sacramento da Ordem, e que é oferecida por ele em nome de Cristo e dos membros do Seu Corpo Místico, é realmente o Sacrifício do Calvário que se torna sacramentalmente presente nos nossos altares» (Credo do Povo de Deus, n° 24).

  1. As palavras «já não a comerei (esta páscoa) até ela ter pleno cumprimento no Reino de Deus», assim como as do v. 18 «não beberei doravante do produto da videira até que venha o Reino de Deus» não querem indicar que Jesus Cristo volte a comer o Cordeiro pascal uma vez instaurado o Seu Reino, mas simplesmente indicam que aquela era a última vez que o Senhor celebrava a páscoa judaica. Enquanto anuncia a Nova Páscoa, já iminente e que durará até à Sua segunda vinda, Jesus substitui de uma vez para sempre o antigo rito com o Seu Sacrifício Redentor, que assinala o começo do Reino.
  2. A ceia pascal desenvolvia-se segundo um rito minu­cioso. Antes de comer o cordeiro, a pessoa de mais autoridade explicava, a instância do mais jovem dos assistentes, o sentido religioso do acto que estavam a realizar. A seguir tomavam-se os alimentos, intercalando hinos e Salmos. Finalmente terminava-se com uma solene oração de acção de graças. Ao longo da ceia, em correspondência das fases principais, os comensais tomavam quatro taças de vinho misturado com água. São Lucas menciona duas destas taças, a segunda das quais foi a que o Senhor consagrou.
  3. Note-se o rotundo da frase do Senhor: não diz aqui está o Meu corpo, nem isto é o símbolo do Meu corpo, mas isto é o Meu corpo; isto é, este pão já não é pão mas o Meu corpo. «Alguns, não dando suficiente importância a estas palavras — afirma São Tomás —, julgaram que p corpo e o sangue de Cristo não estavam neste Sacramento mais do que como num símbolo. Isto deve ser rejeitado como herético, já que é contrário às palavras de Cristo» (Suma Teológica, III, q. 75. a. 1). Reforçam também o sentido realista destas palavras de Jesus as pronunciadas na promessa da Euca­ristia: «Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Se alguém comer deste pão viverá eternamente; e o pão que Eu darei é a Minha carne para a vida do mundo (…). Quem comer a Minha carne e beber o Meu sangue tem vida eterna e Eu o ressuscitarei no último dia» (Ioh 6,51.54).

«Fazei isto em Minha memória»: O Magistério solene da Igreja ensina-nos o sentido e o alcance preciso destas palavras: «Se alguém disser que com as palavras: Fazei isto em Minha memória, Cristo não instituiu sacerdotes os Seus Apóstolos, ou que não lhes ordenou que eles e os outros sacerdotes oferecessem o Seu corpo e o Seu sangue, seja anátema» (De SS. Missae sacrifício, can 2).

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