In Evangelho do dia

27Mas Eu digo-vos a vós que Me ouvis: Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, 28bendizei os que vos amaldi­çoam, rezai pelos que vos maltratam. 29Ao que te bate numa face oferece-lhe também a outra, e àquele que te leva a capa não lhe impeças de ficar também com a túnica. 30Dá a todo aquele que te pede, e ao que leva o que é teu não lho reclames. 31O que quiserdes que vos façam os homens, fazei-lho de igual modo vós também. 32Se amardes os que vos amam, que agradecimento vos é devido? Pois também os pecadores amam aqueles que os amam. 33Se fizerdes bem aos que bem vos fazem, que agradecimento vos é devido? Também os pecadores fazem o mesmo. 34E, se emprestardes àqueles de quem esperais receber, que agradecimento vos é devido? Também os pecadores em­prestam aos pecadores, a fim de receberem outro tanto. 35Mas vós, amai os vossos inimigos, fazei bem e emprestai, sem nada esperar em troca. Será grande assim a vossa recompensa e sereis filhos do Altíssimo, porque Ele é benigno para com os ingratos e os maus. 36Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso. 37Não julgueis, e não sereis julgados. Não condeneis, e não sereis condenados. 38Absolvei, e sereis absolvidos. Dai, e dar-se-vos-á. Deitar-vos-ão no regaço uma boa medida, calcada, agitada, a transbordar, pois com a medida que empregardes vos será medido.

Comentário

  1. «No facto de amarmos os nossos inimigos vê-se claramente certa semelhança com Deus Pai, que reconciliou consigo o gênero humano, que estava em inimizade com Ele e era contra Ele, redimindo-o da condenação eterna por meio da morte do Seu Filho (cfr Rom 5,8-10)» (Catecismo Romano, IV, 14,19). Seguindo o exemplo de Deus nosso Pai, devemos desejar para todos os homens — também para os que se declaram nossos inimigos — em primeiro lugar a vida eterna; depois, o cristão tem obrigação de respeitar e de compreender a todos sem excepção pela intrínseca dignidade da criatura humana, feita à imagem e semelhança do Criador.
  2. Jesus Cristo ensinou-nos com o Seu exemplo que este preceito não é uma simples recomendação piedosa: estando já pregado na Cruz Jesus pediu a Seu Pai pelos que O tinham entregado: «Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem» (Lc 23,34). À imitação do Mestre, Santo Estêvão, o primeiro mártir da Igreja, no momento de ser lapidado pedia ao Senhor que não tivesse em conta o pecado dos seus inimigos (cfr Act 7,60). A Igreja, na Liturgia de Sexta Feira Santa, eleva a Deus orações e sufrágios pelos que estão fora da Igreja para que lhes dê a graça da fé, para que os que não conhecem a Deus saiam da sua ignorância; para que os Judeus recebam a luz da verdade; para que os não católicos. estreitados pelo laço da verdadeira caridade, se unam de novo à comunhão da Igreja nossa Mãe.
  3. O Senhor continua a mostrar-nos como devemos comportar-nos para imitar a misericórdia de Deus. Em primeiro lugar põe-nos um exemplo para que exercitemos uma das obras de misericórdia que a tradição cristã chama espirituais: perdoar as injúrias e sofrer com paciência os defeitos do próximo. Isto é o que quer dizer, em primeiro lugar, a recomendação de apresentar a outra face a quem lhe bate numa.

Para captar bem esta recomendação, comenta São Tomás, «há que entender a Sagrada Escritura à luz do exemplo de Cristo e de outros santos. Cristo não apresentou a outra face ao ser esbofeteado em casa de Anás (Ioh 18,22-23) nem tão-pouco São Paulo quando, segundo nos contam os Actos dos Apóstolos, foi açoitado em Filipos (Act 16,22 ss.). Por isso, não há por que entender que Cristo tenha mandado à letra oferecer a outra face ao que te bate numa; mas isto deve entender-se quanto à disposição interior; ou seja, que se for necessário, devemos estar dispostos a que não se turve o nosso ânimo contra o que nos bate, e a estar preparados para suportar algo semelhante e inclusivamente mais. Assim fez o Senhor quando entregou o Seu corpo à morte» (Comentário sobre S. João, 18,37).

  1. O modelo de misericórdia que Cristo nos propõe é o próprio Deus. D’Ele diz São Paulo: «Bendito seja Deus Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai das misericórdias e Deus de toda a consolação, o qual nos consola em todas as nossas tribulações» (2Cor 1, 3-4). «A primeira excelência que tem esta virtude — explica Frei Luís de Granada — é tornar os homens semelhantes a Deus, e semelhantes na coisa mais gloriosa que há n’Ele, que é na misericórdia (Lc 6, 36).

Porque é certo que a maior perfeição que pode ter uma criatura é ser semelhante ao seu Criador: e quanto mais tiver desta semelhança, tanto mais perfeita será. E é certo também que uma das coisas que mais propriamente convém a Deus é a misericórdia, como o significa a Igreja naquela oração que diz: Senhor Deus, de quem é próprio ter misericórdia e perdoar. E diz ser isto próprio de Deus, porque assim como à criatura, enquanto criatura, pertence ser pobre e necessitada (e por isto a ela pertence receber e não dar), assim pelo contrário, como Deus é infinitamente rico e poderoso, só a Ele por excelência pertence dar e não receber, e por isto d ‘Ele é próprio ter misericórdia e perdoar» (Livro da oração e meditação, terceira parte, tratado terceiro).

O comportamento do cristão há-de seguir esta norma: compadecer-se das misérias alheias como se fossem próprias e procurar remediá-las. Neste mesmo sentido a nossa Santa Mãe a Igreja concretizou-nos uma série de obras de miseri­córdia tanto corporais (visitar e cuidar os doentes, dar de comer ao faminto, dar de beber ao sequioso…), como espirituais (ensinar aquele que não sabe, corrigir o que erra, perdoar as injúrias…) (cfr Catecismo Maior, nos 944-945). Também perante quem está no erro temos de ter com­preensão: «Este amor e benevolência de modo algum nos devem tornar indiferentes perante a verdade e o bem. Pelo contrário, é o próprio amor que incita os discípulos de Cristo a anunciar a todos a verdade salvadora. Mas deve distin­guir-se entre o erro, sempre de rejeitar, e aquele que erra, o qual conserva sempre a dignidade própria da pessoa, mesmo quando atingido por ideias religiosas falsas ou menos exactas. Só Deus é juiz e penetra os corações; por esse motivo, proibe-nos Ele de julgar da culpabilidade interna de qualquer pessoa» (Gaudium et spes, n. 28).

  1. Lemos na Sagrada Escritura a generosidade da viúva de Sarepta, à qual Deus pediu que alimentasse o profeta Elias com o pouco que lhe restava; depois premiou a sua generosidade multiplicando-lhe a farinha e o azeite que tinha (1Reg 17,9 ss.). De maneira semelhante aquele menino que forneceu os cinco pães e os dois peixes, para que o Senhor os multiplicasse e alimentasse uma grande multidão (cfr Ioh 6,9), é um exemplo vivo do que o Senhor faz quando entregamos o que temos, ainda que seja pouco.

Deus não Se deixa vencer em generosidade: «Vamos! Diz-Lhe com generosidade e como um menino: Que me irás dar quando me exiges ‘isso’?» (Caminho, n° 153). Por muito que demos a Deus nesta vida, mais nos dará o Senhor como prêmio na vida eterna paciência e com carinho os que erram. Mas a pessoa que tem no seu coração um tesouro de maldade faz exactamente o contrário: odeia os seus amigos, fala mal de quem o ama, e todas as outras coisas condenadas pelo Senhor» (In Lucae Evangelium expositio, II, 6).

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