Evangelho do dia 12.06.2017 – Mt 5, 1-12 – Leia o Evangelho de hoje

Vendo Ele as multidões, subiu ao monte e sentou-Se. Acercaram-se os discípulos 2e Ele, tomando a palavra, pôs-se a ensiná-los, dizendo:

3Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus.

4Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados.

5Bem-aventurados os mansos, porque eles possuirão a terra.

6Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos.

7Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia.

8Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus.

9Bem-aventurados os pacíficos, porque eles serão chamados filhos de Deus.

10Bem-aventurados os perseguidos por amor da justiça, porque deles é o Reino dos Céus.

11Bem-aventurados sois, quando, por minha causa, vos injuriarem e perseguirem e disserem, falsamente, contra vós toda a espécie de mal.

12Alegrai-vos e exultai, porque será grande nos Céus a vossa recompensa. Foi assim que perseguiram os profetas antes de vós.

Comentário

1-2. O Sermão da Montanha ocupa integralmente os caps. 5, 6 e 7 de São Mateus. Trata-se do primeiro dos cinco grandes discursos de Jesus que aparecem neste Evangelho. Compreende uma considerável parte dos ensinamentos do Senhor.

Não é fácil de reduzir o discurso a um só tema, mas os diversos ensinamentos podem comodamente agrupar-se à volta destes cinco pontos: 1) o espírito que se deve ter para entrar no Reino dos Céus (as Bem-aventuranças, sal da terra e luz do mundo, Jesus e a Sua doutrina, plenitude da Lei); 2) rectidão de intenção nas práticas de piedade (aqui se inclui a oração do Senhor ou Pai-Nosso); 3) confiança na Providência paternal de Deus; 4) as relações fraternas dos filhos de Deus (não julgar o próximo, respeito pelas coisas santas, eficácia da oração e a regra de oiro da caridade); e 5) condições e fundamento para a entrada no reino (a porta estreita, os falsos profetas e edificar sobre rocha).

  1. «Pôs-se a ensiná-los»: Refere-se tanto aos discípulos que rodeavam Jesus como às multidões ali presentes, segundo aparece no fim do Sermão da Montanha (Mt 7,28).

As Bem-aventuranças (5,3-12) constituem como que o pórtico do Sermão da Montanha. Para uma recta compreensão das Bem-aventuranças é conveniente ter em conta que nelas não se promete a salvação a umas determinadas classes de pessoas que aqui se enumerariam, mas a todos aqueles que alcancem as disposições religiosas e o comportamento moral que Jesus Cristo exige. Quer dizer, os pobres de espírito, os mansos, os que choram, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os puros de coração, os pacíficos e os que sofrem perseguição por buscar a santidade, não indicam pessoas distintas entre si, mas são como que diversas exigências de santidade dirigidas a quem quer ser discípulo de Cristo.

Pela mesma razão, também não prometem a salvação a determinados grupos da sociedade, mas a toda a pessoa que, seja qual for a sua situação no mundo, se esforce por viver o espírito e as exigências das Bem-aventuranças.

A todas elas é também comum o sentido escatológico, isto é, é-nos prometida a salvação definitiva não neste mundo, mas na vida eterna. Mas o espírito das Bem-aventuranças produz, já na vida presente, a paz no meio das tributações. Na história da humanidade, as Bem-aventuranças constituem uma mudança completa dos critérios humanos habituais: desqualificam o horizonte da piedade farisaica, que via na felicidade terrena a bênção e prêmio de Deus e, na infelicidade e desgraça, o castigo. Em todos os tempos as Bem-aventuranças põem muito por cima os bens do espírito sobre os bens materiais. Sãos e doentes, poderosos e débeis, ricos e pobres… são chamados, por cima das suas circunstâncias, à felicidade profunda daqueles que alcançam as Bem-aventuranças de Jesus.

É evidente que as Bem-aventuranças não contêm toda a doutrina evangélica. Não obstante contêm, como que em germe, todo o programa de perfeição cristã.

  1. Neste versículo exprime-se de modo amplo a relação ida pobreza com o espírito. Este conceito religioso de pobre tinha já uma longa tradição no AT (cfr, p. ex., Soph 2,3 s). Mais que a condição social de pobre, expressa a atitude religiosa ide indigência e de humildade diante de Deus: é pobre o que corre a Deus sem considerar méritos próprios e confia só na misericórdia divina para ser salvo. Esta atitude religiosa da pobreza está muito aparentada com a chamada infância espiritual. O cristão considera-se diante de Deus como um filho pequeno que não tem nada em propriedade; tudo é de Deus seu Pai e a Ele o deve. De qualquer modo a pobreza em espírito, quer dizer, a pobreza cristã, exige o desprendimento dos bens materiais e austeridade no uso deles. A alguns, os religiosos, Deus pede-lhes o desprendimento inclusive jurídico das suas propriedades, como testemunho perante o mundo da condição passageira das coisas terrenas.
  2. «Os que choram»: Chama aqui bem-aventurados Nosso Senhor todos os que estão aflitos por alguma causa e, de modo particular, aqueles que estão verdadeiramente arrependidos dos seus pecados, ou aflitos pelas ofensas que outros fazem a Deus, e que levam o seu sofrimento com amor e desejos de reparação.

«Choras? — Não te envergonhes. Chora; sim, os homens também choram, como tu, na solidão e diante de Deus. — Durante a noite, diz o rei David, regarei de lágrimas o meu leito.

«Com essas lágrimas, ardentes e viris, podes purificar o teu passado e sobrenaturalizar a tua vida actual» (Caminho, nº 216).

O Espírito de Deus consolará com paz e alegria, mesmo neste mundo, os que choram os pecados, e depois participarão da plenitude da felicidade e da glória do céu: esses são bem-aventurados.

  1. 5. «Mansos»: quer dizer, os que sofrem com paciência as perseguições injustas; os que nas adversidades mantêm o ânimo sereno, humilde e firme. e não se deixam levar pela ira ou pelo abatimento. É a virtude da mansidão muito necessária para a vida cristã. Normalmente as frequentes manifestações externas de irritabilidade procedem da falta de humildade e de paz interior.

«A terra»: Comummente entende-se em sentido transcendente, quer dizer, a pátria celestial.

  1. O conceito de justiça na Sagrada Escritura é essencialmente religioso (cfr nota a Mt 1,19). Chama-se justo a quem se esforça sinceramente por cumprir a Vontade de Deus, que se manifesta nos mandamentos, nos deveres de estado e na união da alma com Deus. Por isso a justiça, na linguagem da Bíblia, coincide com o que actualmente costuma chamar-se santidade (lIoh 2,29; 3,7-10; Apc 22,11; Gen 15,6; Dt 9,4). Como comenta São Jerónimo (Comm. in Matth.5.6). esta (quarta bem-aventurança de Nosso Senhor exige não um simples desejo vago de justiça, mas ter fome e sede dela, isto e, amar e buscar com todas as forças aquilo que torna justo o homem diante de Deus. O que de verdade quer a santidade cristã tem de amar os meios que a Igreja, instrumento universal de salvação, oferece e ensina a viver a todos os homens: frequência de sacramentos, convivência íntima com Deus na oração, fortaleza em cumprir os deveres familiares, profissionais, sociais.
  2. A misericórdia não consiste apenas em dar esmola aos pobres, mas também em compreender os defeitos que possam ‘ter os outros, desculpá-los, ajudá-los a superá-los e amá-los mesmo com os defeitos que tenham. Também faz parte da misericórdia alegrar-se e sofrer com as alegrias e dores alheias.

A doutrina de Cristo ensina que a raiz da qualidade dos actos humanos está no coração, quer dizer, no interior do homem, no fundo do seu espírito: «Quando falamos de um coração humano, não nos referimos só aos sentimentos: aludimos à pessoa toda que quer, que ama, que convive com os outros. Ora, na maneira de os homens se exprimirem, que a Sagrada Escritura utiliza para nos ajudar a compreender as coisas divinas, o coração é tido por resumo e fonte, expressão e fundo íntimo dos pensamentos, das palavras, das acções. Um homem vale o que vale o seu coração — diríamos com palavras bem humanas» (Cristo que passa, nº 164). A pureza de coração é um dom de Deus, que se manifesta na capacidade de amar, no olhar recto e puro para tudo o que é nobre. Como diz o Apóstolo, «tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, tudo o que é virtuoso e louvável, é o que deveis ter em mente» (Phil 4,8). O cristão, ajudado pela graça de Deus, deve lutar continuamente para purificar o seu coração e adquirir essa pureza, em virtude da qual se promete a visão de Deus.

  1. A palavra «pacíficos» é a usual nas traduções e, além disso, etimologicamente é fiel ao texto. No livro sagrado tem claramente um sentido activo: «os que promovem a paz» em si mesmos, nos outros e, sobretudo, como fundamento do anterior, procuram reconciliar-se e reconciliar os outros com Deus. A paz com Deus é a causa e o cume de toda a paz. Será vã e enganadora qualquer paz no mundo que não se baseie nessa paz divina. «Serão chamados filhos de Deus»: É um hebraísmo muito frequente na Sagrada Escritura; é o mesmo que dizer «serão filhos de Deus». A primeira Epístola de São João (1Ioh 3, 1) dá-nos a exegese autêntica desta bem-aventurança: «Vede que amor nos mostrou o Pai: que sejamos chamados filhos de Deus e que realmente o sejamos».
  2. Acerca do significado de «justiça» veja-se o dito em Mt 1,19; 5,6. Assim, pois, o sentido desta bem-aventurança é o seguinte: bem-aventurados os que sofrem perseguição por ser santos ou pelo seu empenho em ser santos, porque deles é o Reino dos Céus.

Portanto, é bem-aventurado o que sofre perseguição por ser fiel a Jesus Cristo, e a suporta não só com paciência mas com alegria. Na vida do cristão apresentam-se circunstâncias heroicas, nas quais não têm lugar meios termos; ou se é fiel a Jesus Cristo jogando-se a honra, a vida e os bens, ou O renegamos. São Bernardo (Sermão da Festa de Todos os Santos) diz que esta oitava bem-aventurança era como que a prerrogativa dos santos mártires. O cristão que é fiel à doutrina de Jesus Cristo é de facto também um «mártir» (testemunha) que reflecte ou cumpre esta bem-aventurança, mesmo sem chegar à morte corporal.

11-12. As Bem-aventuranças são as condições que Cristo pôs para entrar no Reino dos Céus. O versículo, à maneira de recapitulação, é um convite global a viver estes ensinamentos. A vida cristã não é, pois, tarefa fácil, mas vale a pena pela plenitude de vida que o Filho de Deus promete.