In Evangelho do dia

2Aproximaram-se uns Fariseus e perguntaram-Lhe, para O tentarem: É lícito ao marido repudiar a mulher? 3Respondeu-lhes Ele: Que vos ordenou Moisés? 4Disseram: Moisés permitiu escrever um libelo de repúdio e desquitá-la. 5Disse-lhes Jesus: Por causa da dureza do vosso coração vos escreveu ele essa lei. 6Mas, desde o princípio da criação, fê-los Deus homem e mulher. 7Por isso deixará o homem pai e mãe e unir-se-á com sua mulher e 8formarão os dois uma só carne. Portanto, já não são dois, mas uma só carne. 9Não separe, pois, o homem o que Deus juntou. 10Depois, em casa, interrogaram-No os discípulos sobre este assunto, 11e Ele disse-lhes: Todo o que se desquitar de sua mulher e casar com outra, comete adultério contra ela. t2E, se a mulher se desquitar de seu marido e casar com outro, comete adultério.

13Apresentaram-Lhe umas criancinhas para que as tocasse. Mas os discípulos ralhavam com elas. 14Quando Jesus advertiu, indignou-Se e disse-lhes: Deixai vir a Mim as crian­cinhas; não as estorveis, porque dos que são como elas é o Reino de Deus. 15Em verdade vos digo: quem não receber o Reino de Deus como uma criancinha, não entrará nele. 16E, estreitando-as nos braços, abençoava-as, im­pondo-lhes as mãos.

Comentário

1-12. O enquadramento em que se situa a cena é frequente no Evangelho. A atitude mal-intencionada 1-12.   O enquadramento em que se situa a cena é frequente no Evangelho. A atitude mal-intencionada dos fariseus contrasta com a simplicidade da multidão que escuta com atenção os ensinamentos de Jesus. A pergunta dos fariseus pretendia armar-Lhe uma cilada, enfrentando Jesus com a Lei de Moisés. Mas Jesus Cristo, Messias e Filho de Deus, é o que conhece perfeitamente o sentido de tal Lei. Moisés tinha permitido o divórcio condescendendo com a dureza daquele antigo povo: a condição da mulher era ignominiosa naquelas tribos bárbaras — era considerada quase um animal ou um escravo — e por isso Moisés protege contra estes abusos a dignidade da mulher, conseguindo o avanço social de um documento que a tutelava (o libelo de repúdio). Era este um escrito pelo qual o marido declarava a rejeição e, portanto, a liberdade da mulher repudiada. Jesus devolve à sua pureza original a dignidade do homem e da mulher no matrimônio, segundo o instituirá Deus no prin­cípio da criação: «Deixará o homem seu pai e sua mãe e unir-se-á à sua mulher e serão uma só carne» (Gen 2,24). Por isso Deus estabeleceu no princípio a unidade e a indissolubilidade do matrimônio. O Magistério da Igreja, único intérprete autorizado do Evangelho e da lei natural, guar­dou e defendeu constantemente esta doutrina (pense-se, por exemplo, nos casos da história, quando se negou a admitir o divórcio de Henrique VIII de Inglaterra), e ensinou-a solene­mente em inumeráveis documentos (Pró Armeniis; De Sacram. matr.; Casti connubii; Gaudium et spes, n. 48).

Um bom resumo desta doutrina são as seguintes pala­vras: «A indissolubilidade do matrimônio não é um capricho da Igreja e nem sequer uma mera lei positiva eclesiástica. É de lei natural, de direito divino, e responde perfeitamente à nossa natureza e à ordem sobrenatural da graça» (Temas Actuais do Cristianismo, n° 97). Cfr a nota a Mt 5,31-32.

5-9. O cristão não se deve deixar impressionar, no momento de recordar o valor perene e universal desta doutrina, pelas dificuldades ou inclusive as mofas que possa encontrar no ambiente. «É dever fundamental da Igreja reafirmar vigorosamente (…) a doutrina da indissolubilidade do matrimônio. A quantos, nos nossos dias, consideram difícil ou mesmo impossível ligar-se a uma pessoa por toda a vida, a quantos, subvertidos por uma cultura que rejeita a indissolubilidade matrimonial e que ridiculariza aberta­mente o compromisso de fidelidade dos esposos, é neces­sário reafirmar o alegre anúncio do caracter definitivo do amor conjugai, que encontra em Jesus Cristo o seu funda­mento e a sua força (cfr Eph 5,25).

«Enraizada na doação pessoal e total dos esposos e exigida pelo bem dos filhos, a indissolubilidade do matrimônio encontra a sua verdade definitiva no desígnio que Deus manifestou na Revelação. É Ele que quer e concede a indissolubilidade matrimonial como fruto, sinal e exigência do amor absolutamente fiel que Deus Pai tem pelo homem e que Cristo manifesta para com a Igreja.

«Cristo renova o desígnio primitivo que o Criador ins­creveu no coração do homem e da mulher, e, na celebração do sacramento do matrimônio, oferece-lhes um ‘coração novo’. Assim os esposos podem não só superar a ‘dureza do coração’ (cfr Mt 19,8), mas também e sobretudo podem partilhar o amor pleno e definitivo de Cristo, nova e eterna Aliança feita carne. Assim como o Senhor Jesus é a ‘teste­munha fiel’ (Apc 3,14), é o ‘sim’ das promessas de Deus (cfr 2 Cor 1,20) e, portanto, a realização suprema da fidelidade incondicional com que Deus ama o Seu povo, da mesma forma os esposos cristãos são chamados a uma participação real na indissolubilidade irrevogável, que liga Cristo à Igreja, Sua esposa, por Ele amada até ao fim (cfr Ioh13,1) (…). «Testemunhar o valor inestimável da indissolubilidade e da fidelidade matrimonial é uma das tarefas mais pre­ciosas e mais urgentes dos casais cristãos do nosso tempo» (Familiaris consortio, n. 20).

13-16. O relato evangélico reflecte uma espontaneidade e uma vivacidade que enamora o leitor e que se pode relacionar com a figura de São Pedro, a quem Marcos o teria ouvido contar. É uma das poucas ocasiões em que se diz nos Santos Evangelhos que Cristo Se indignou. A causa foi a intolerância dos discípulos, que consideravam inoportuna a pretensão daqueles que apresentavam as crianças para que o Senhor as abençoasse, como uma perda de tempo e uma circunstância aborrecida para o Mestre: Cristo tem coisas mais graves em que pensar para Se ocupar destas crianças, talvez tenham podido pensar. O comportamento dos discí­pulos não é mal-intencionado; simplesmente deixam-se levar por critérios humanos, querendo evitar um aborre­cimento ao Senhor. Não penetraram no que lhes disse pouco antes: «Quem receber um destes meninos em Meu nome, é a Mim que recebe; e quem Me receber, não Me recebe a Mim, mas sim Aquele que Me enviou» (Mc 9,37).

Por outro lado, o Senhor põe em realce com toda a clareza a necessidade que tem o cristão de se tornar como uma criança para entrar no Reino dos Céus: «Para ser pequeno é preciso crer como os meninos crêem, amar como os meninos amam, abandonar-se como os meninos se abandonam…, rezar como os meninos rezam» (Santo Rosário, Prólogo). Em última análise, as palavras do Senhor são outra maneira, simples e gráfica, de explicar a doutrina essencial da filiação divina: Deus é nosso Pai e nós Seus filhos; toda a religião se resume na relação de um bom filho com um bom Pai. Esse espírito de filiação divina tem com qualidades: o sentido da dependência do nosso Pai do Céu e o abandono confiante na Sua providência amorosa, do mesmo modo que uma criança confia no seu pai; a humildade de reconhecer que por nós nada podemos; a simplicidade e a| sinceridade, que nos levam a mostrar-nos tal como somos.

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