In Evangelho do dia

Depois disto, dehor outros setenta e dois e mandou-os dois

a dois, à Sua frente, a todas as cidades e lugares aonde Ele havia de ir.
2 Dizia-lhes Ele: A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi,

portanto, ao dono da messe que mandesignou o Sen trabalhadores para a sua messe. 3 Ide e
olhai que vos envio como cordeiros para o meio de lobos. 4 Não leveis bolsa,
nem saco, nem sandálias. Não cumprimenteis ninguém pelo caminho. 5 Em qual
quer casa onde entrardes, dizei primeiro: «Paz a esta casa». 6 E, se lá houver
um homem de paz, sobre ele irá repousar a vossa paz. Senão, a vós há-de
voltar. 'Ficai nessa mesma casa, comendo e bebendo do que tiverem, pois o
trabalhador merece o seu salário. Não andeis de casa em casa. 8 Em qualquer
cidade onde entrardes e vos receberem, comei o que vos servirem, 9 curai os
enfermos que nela houver e dizei-lhes: «Está perto de vós o Reino de Deus».
10 Mas, se em qualquer cidade em que entrardes vos não receberem, saí às
suas praças e dizei: "«Até o pó que, da vossa cidade, se pegou aos nossos
pés, sacudimos sobre vós». No entanto, ficai sabendo isto: Está perto o Reino
de Deus. l2 Eu vos digo: Haverá mais tolerância, naquele dia, para Sodoma do
que para aquela cidade.
17 Ora os setenta e dois voltaram cheios de alegria. Senhor — diziam eles
— até os Demônios se nos sujeitam em Teu Nome! 18 Disse-lhes Ele: Eu via
Satanás cair do céu como um raio!… 19 Olhai que vos dei o poder não só de
andar em cima de serpentes e de escorpiões, mas também sobre toda a força
do inimigo; e nada vos causará dano. 20 Entretanto, não vos alegreis com o facto
de se vos sujeitarem os espíritos, alegrai-vos antes por estarem inscritos nos
Céus os vossos nomes.

Comentário

1-12. Entre os que seguiam o Senhor e tinham sido chamados por Ele
(cfr Lc 9,57-62), além dos Doze, havia numerosos discípulos (cfr Mc 2,15). Os
nomes da maioria são para nós desconhecidos; não obstante, entre eles
contavam-se com, toda a segurança aqueles que estiveram com Jesus desde o
baptismo de João até à Ascensão do Senhor: por exemplo, José chamado
Barsabas e Matias (cfr Act 1,21-26). De modo semelhante podemos incluir
Cléofas e o seu companheiro, aos quais Cristo ressuscitado apareceu no
caminho de Emaús (cfr Lc 24,13-35).
De entre todos aqueles discípulos, o Senhor escolhe setenta e dois para
uma missão concreta. Exige-lhes, tal como aos Apóstolos (cfr Lc 9,1-5).
desprendimento total e abandono completo à Providência divina.

Desde o Baptismo cada cristão é chamada por Cristo a cumprir uma
missão. Com efeito, a Igreja, em nome do Senhor «pede instantemente a todos
os leigos que respondam com decisão de vontade, ânimo generoso e
disponibilidade de coração à voz de Cristo, que nesta hora os convida com
maior insistência, e ao impulso do Espírito Santo. Os mais. novos tomem como
dirigido a si de modo particular este chamamento, e recebam-no com alegria e
magnanimidade. Com efeito, é o próprio Senhor que, por meio deste sagrado
Concilio, mais uma vez convida todos os leigos a que se unam a Ele cada vez
mais intimamente, e sentindo como próprio o que é d'Ele (cfr Phil 2,5), se
associem à Sua missão salvadora. É Ele quem de novo os envia a todas as
cidades e lugares aonde há-de chegar (cfr Lc 10,1); para que, nas diversas
formas e modalidades do apostolado único da Igreja, se tornem verdadeiros
cooperadores de Cristo, trabalhando sempre na obra do Senhor com plena
consciência de que o seu trabalho não é vão no Senhor (cfr 1Cor 15, 28)»
(Apostolicam actuositatem, n. 33).

3-4. Cristo quer inculcar nos Seus discípulos a audácia apostólica; por
isso diz «Eu vos envio», que São João Crisóstomo comenta: «Isto basta para
vos dar ânimo, isto basta para que tenhais confiança e não temais os que vos
atacam» (Hom. sobre S. Mateus, 33). A audácia dos Apóstolos e dos discípulos
vinha desta confiança segura de terem sido enviados pelo próprio Deus:
actuavam, como explicou com firmeza o próprio Pedro ao Sinédrio, em nome
de Jesus Cristo Nazareno, «pois não foi dado aos homens outro nome debaixo
do céu pelo qual podemos salvar-nos» (Act 4,12).
« E continua o Senhor — acrescenta São Gregório Magno — 'Não leveis
bolsa nem saco nem sandálias, e não cumprimenteis ninguém pelo caminho'.
Tanta deve ser a confiança que há-de ter em Deus o pregador, que ainda que
não se proveja das coisas necessárias para a vida, deve estar persuadido de
que não lhe hão-de faltar, não seja que enquanto se ocupa em prover-se das
coisas temporais, deixe de procurar para os outros as eternas» (In Evangelia
homiliae, 17). O apostolado exige uma entrega generosa que leva ao
desprendimento: por isso, Pedro, o primeiro a pôr em prática o mandamento do
Senhor, quando o mendigo da Porta Formosa lhe pediu uma esmola (Act 3,2-
3), disse 1 : « Não tenho ouro nem prata» (Ibid., 3,6), «não tanto para se gloriar
da sua pobreza — assinala Santo Ambrósio — como da sua obediência ao
mandamento do Senhor, como dizendo: vês em mim um discípulo de Cristo, e
pedes-me ouro? Ele deu-nos algo muito mais valioso que o ouro, o poder de
agir em Seu nome. Não tenho o que Cristo não me deu, mas tenho o que me
deu: 'Em nome de Jesus, levanta-te e anda' (Act 3,6)» (Expositio Evangelii sec.
Lucam, ad loc.). O apostolado exige, portanto, desprendimento dos bens
materiais; e também exige estar sempre dispostos, porque a tarefa apostólica é
urgente.
«Não cumprimenteis ninguém pelo caminho»: «Como pode ser —
pergunta-se Santo Ambrósio — que o Senhor queira eliminar um costume tão
cheio de humanidade? Considera, porém, que não diz apenas 'não
cumprimenteis ninguém', mas que acrescenta 'pelo caminho'. E isto não é
supérfluo.
«Também Eliseu, quando enviou o seu servo a impor o seu bastão sobre
o corpo do menino morto, lhe mandou que não cumprimentasse ninguém pelo
caminho (2Reg 4,29): deu-lhe ordem de se apressar para cumprir com rapidez a tarefa e realizar a ressurreição, não acontecesse que, por se entreter a falar com algum transeunte, atrasasse o seu encargo. Aqui não se trata então de
evitar a urbanidade de cumprimentar, mas de eliminar um possível obstáculo
ao serviço; quando Deus manda, o humano deve ser deixado a um lado, pelo
menos por algum tempo. Cumprimentar é uma coisa boa, mas melhor é
executar quanto antes uma ordem divina que ficaria muitas vezes frustrada por
um atraso» (Ibid.).

6. «Homem de paz » é todo o homem que está disposto a receber a
doutrina do Evangelho, que traz a paz de Deus. A recomendação do Senhor
aos discípulos de que anunciem a paz há-de ser uma constante em toda a
acção apostólica dos cristãos: «O apostolado cristão não é um programa
político, nem uma alternativa cultural; significa a difusão do bem, o contágio do
desejo de amar, uma sementeira concreta de paz e de alegria» (Cristo que
passa, n° 124).
O sentir a paz na nossa alma e à nossa volta é sinal inequívoco de que
Deus vem a nós, e um fruto do Espírito Santo (cfr Gal 5,22): «Repele esses
escrúpulos que te tiram a paz. — Não é de Deus o que rouba a paz da alma.
«Quando Deus te visitar, hás-de sentir a verdade daquelas saudações:
dou-vos a paz…, deixo-vos a paz…, a paz seja convosco… E isto, no meio da
tribulação» (Caminho, n° 258).

7. Está claro que o Senhor considera que a pobreza e o desprendimento
dos bens materiais há-de ser uma das principais características do apóstolo
(vv. 3-4). Não obstante, consciente das necessidades materiais dos Seus
discípulos, deixa assente o princípio de que o ministério apostólico merece a
sua retribuição. Por isso o Concilio Vaticano II recorda a obrigação que todos
temos de contribuir para a sustentação dos que generosamente se entregam
ao serviço da Igreja: «Entregues ao serviço de Deus, pelo desempenho do
cargo que lhes foi confiado, os presbíteros são merecedores da justa
recompensa, visto que o operário é digno do seu salário (Lc 10,7) e o Senhor
ordenou àqueles que anunciam o Evangelho, que vivam do Evangelho (1Cor
9,14). Por isso, onde não se tiver providenciado de outra maneira à justa
remuneração dos presbíteros, os mesmos fiéis, em cujo benefício eles
trabalham, têm verdadeira obrigação de procurar os meios necessários para
que levem uma vida digna e honesta» (Presbyterorum ordinis, n. 20).
20. O Senhor corrige a atitude dos discípulos, fazendo-lhes ver que os
verdadeiros motivos de alegria estão na esperança do Céu, e não no poder de
fazer milagres que lhes tinha dado para essa missão. Jesus tinha dado noutra
ocasião um ensinamento parecido: «Muitos hão-de dizer-Me naquele dia:
'Senhor, Senhor, não profetizamos nós em Teu nome e em Teu nome
expulsamos demônios e em Teu nome fizemos muitos milagres?' Então lhes
direi abertamente: 'Nunca vos conheci: apartai-vos de Mim, obreiros da
iniquidade!'» (Mt 7,22-23). Com efeito, mais importante aos olhos de Deus do
que fazer milagres é cumprir em cada momento a Sua Vontade santíssima.

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