In Evangelho do dia

18 Vendo Jesus grandes multidões de povo à volta de Si, mandou ir para
o lado de lá. 19 E, aproximando-se um escriba disse-lhe: Mestre, seguir-Te-ei
para onde quer que fores. 20 Disse-lhe Jesus: As raposas têm covas e as aves
do céu ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça. 21 Outro
de entre os discípulos disse-Lhe: Senhor, dá-me primeiro licença de ir sepultar
meu pai. 22 Jesus, porém, disse-lhe: Segue-Me e deixa que os mortos sepultem
os seus mortos.
Comentário
18-22. Desde os começos da Sua pregação messiânica, Jesus mal
permanece num mesmo lugar; vai sempre a caminho, passando. «Não tem
onde reclinar a cabeça» (Mt 8,20). Quem quiser estar com Ele tem de «O
seguir». A expressão «seguir Jesus» adquire no Novo Testamento um alcance
preciso: seguir Jesus é ser Seu discípulo (cfr Mt 19, 28). Ocasionalmente as
multidões «seguem-nO». Mas os verdadeiros discípulos são «os que O
seguem» de modo permanente, sempre; de tal modo que existe uma
equivalência entre «ser discípulo de Jesus» e «segui-Lo». Depois da Ascensão
do Senhor, «segui-Lo» identifica-se com ser cristão (cfr Act 8, 26). Pelo facto
simples e sublime do nosso Baptismo, todo o cristão é chamado, com vocação
divina, a ser plenamente discípulo do Senhor com todas as suas
consequências.
O Evangelista recolhe aqui dois casos concretos de seguimento de
Jesus. No primeiro — o do escriba —, Nosso Senhor explica as exigências do
chamamento à fé àqueles que descobrem que são chamados. No segundo —
o do homem que já disse sim a Jesus— recorda-lhe as exigências do seu
compromisso. O soldado que não abandona o seu posto na frente de batalha
para enterrar o pai, deixando esse trabalho para os da retaguarda, cumpre o
seu dever. Se o serviço da pátria pode ter tais exigências, com maior razão
pode tê-las o.serviço a Jesus Cristo e à sua Igreja.
O seguimento de Cristo, com efeito, leva consigo uma disponibilidade
rendida, uma entrega imediata do que Jesus pede, porque essa chamada é um
seguir Cristo ao ritmo do Seu próprio passo, que não admite ficar para trás:
Jesus ou se segue, ou se perde. Em que consiste o seguimento de Cristo,
ensinou-o Jesus no Sermão da Montanha (Mt 5-7), e é-nos resumido pelos
catecismos mais elementares da doutrina: cristão quer dizer homem que crê
em Jesus Cristo— fé que recebeu no Baptismo — e que está obrigado ao Seu
santo serviço. Cada cristão deve procurar, na oração e intimidade Com o
Senhor, quais sãos as exigências pessoais e concretas dia sua vocação cristã.
22. «Deixa que os mortos sepultem os seus mortos»: Esta frase, à
primeira vista tão dura, corresponde à linguagem que por vezes empregava
Jesus. Nessa linguagem entende-se bem que sejam chamados «mortos» os
que procuram com afã as coisas perecedouras, excluindo do seu horizonte a
aspiração pelas perenes.

«Se Jesus o proibiu — comenta São João Crisóstomo —, não é porque
nos mande descurar a honra devida àqueles que nos geraram, mas para nos
dar a entender que nada há-de haver para nós mais necessário que procurar
as coisas do Céu, que a elas nos havemos de entregar com todo o fervor e que
nem por um momento podemos diferi-las, por mais iniludível e urgente que seja
o que poderia afastar-nos delas» (Hom. sobre S. Mateus, 27). 23-27. Este
notável milagre da vida de Jesus deve ter deixado profunda impressão nos
Seus discípulos, do que pôde ser índice o facto de os três primeiros
Evangelhos no-lo relatarem. A Tradição, partindo da realidade histórica deste
maravilhoso acontecimento, fez algumas aplicações à própria vida da Igreja, e
até mesmo de cada alma. Desde tempos antigos a literatura e a arte cristã
viram na barca uma imagem da Igreja que, de modo semelhante, faz a sua
travessia no meio de grandes perigos, que parecem que vão afundá-la. Com
efeito, bem depressa os cristãos se viram assediados pelas perseguições dos
judeus daquele tempo, e incompreendidos pela opinião pública da sociedade
paga que, de modo paulatino, iniciava as suas futuras perseguições. O facto de
que Jesus tivesse permanecido adormecido no meio da tempestade tem sido
aplicado a esse silêncio em que Deus, por vezes, parece permanecer perante
as dificuldades da Igreja. Os cristãos, seguindo o exemplo dos Apóstolos que
iam na barca, devem recorrer a Jesus Cristo com as mesmas palavras:
«Senhor, salva-nos, que estamos perdidos». E quando a situação parece
insustentável, então Jesus mostra o Seu poder: «Ergueu-se, imperou aos
ventos e ao mar e fez-se uma grande bonança », não sem antes nos ter feito a
censura de termos sido homens de pouca fé. E é que a história evangélica tem
muitas vezes um valor exemplar, de aplicação à vida, e de pré-anúncio da
futura história da Igreja e de cada alma cristã.

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